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terça-feira, 4 de junho de 2019

O ataque da ignorância contra a razão: a defesa da universidade pública e a conjuntura.


"Ao que parece, Bolsonaro não articula mais uma maneira de ficar, mas uma justificativa de por que deve sair."

Manifestação no domingo 27 de maio de 2019 na avenida Paulista, em São Paulo, onde ocorre uma exposição aberta dos cartunistas Angeli e Laerte. Foto: Matheus José Maria.

Por Mauro Luis Iasi.

No último dia 15 de maio vimos uma Greve Geral da Educação, que mobilizou milhares de estudantes, professores e funcionários das Universidades Públicas, dos Institutos Federais, da educação básica e até de instituições privadas de ensino. Tal mobilização se deu em resposta aos cortes nas verbas de custeio das instituições de ensino, que o ministro (inimigo) da Educação eufemisticamente chama de contingenciamento. Para acrescentar um toque de perversidade o presidente miliciano chama os manifestantes de “idiotas úteis”, manipulados por “militantes”.
O principal argumento para os cortes encontra-se na afirmação de que a economia não cresceu conforme o previsto, sendo, portanto, necessárias adequações. O ministro Abraham Weintraub, em depoimento no Congresso, acrescentou que tal previsão teria vindo do governo Dilma/Temer, procurando se isentar da responsabilidade, e ocultando propositalmente que o orçamento em vigor é na verdade do usurpador Temer (apoiado histericamente pelas forças políticas que agora governam e que prometeram o Éden do crescimento com o afastamento da presidente eleita em 2014).
O fato é que as universidades públicas vêm sendo “contingenciadas” em seus recursos há muito tempo. O Fórum de Pró-Reitores de Planejamento e Administração das Instituições Federais de Ensino Superior já alertava em 2017 que estávamos vivendo um agravamento da situação orçamentária nas universitárias, pelo crescimento do número de alunos ao mesmo tempo que encolhiam os recursos. Em 2017, o valor em reais por aluno era 42% menor do que o de 2011, passando de R$ 2496,77 para R$1757,13 nesse período. Neste quadro, a ANDIFES cobrava uma correção nas verbas que, além de não vir, agora foram reduzidas.
No entanto, trata-se de algo muito maior que o mero equilíbrio orçamentário. Trata-se de um ataque contra a concepção de universidade e de ensino público. É preciso, na lógica do governo miliciano, desqualificar a universidade apresentando-a como um lugar improdutivo e desnecessário de desperdício de recursos e promotor de “balbúrdias” e orgias. Além do “saneamento” nas contas do Estado promovido pelo guru do ultraliberalismo, o ministro Paulo Guedes, e o claro favorecimento à lógica privatista da educação, defendida por sua irmã, Elizabeth Guedes (vice presidente da Associação Nacional das Universidades Privadas), as universidades estão na mira do rancor governista por motivos políticos e ideológicos.
A tese estapafúrdia propagada pelo astrólogo do apocalipse sobre a existência de um suposto “marxismo cultural” que teria dominado todo o sistema educacional, os meios de comunicação e as forças armadas, encontra nas universidades um ponto central. Essas instituições teriam se tornado o centro da formação de militantes e da lavagem cerebral da juventude para destruir os valores fundamentais da sociedade ocidental e da cristandade. Os verdadeiros e valorosos pensadores conservadores e direitistas teriam sido perseguidos e hostilizados no ambiente acadêmico pela ofensiva deste mítico “marxismo cultural”.
É evidente que há uma relação de determinação entre esses dois aspectos, de maneira que os cortes de gastos públicos para manter os sagrados pagamentos dos juros da dívida e a sangria de recursos para o capital financeiro constituem o essencial, ao passo que o ataque ideológico serve de legitimação para tanto. Entretanto, acreditamos que, nas condições do atual desgoverno, o ataque às universidades e à educação é muito mais que uma mera cortina de fumaça.
As classes dominantes brasileiras precisam operar um ataque brutal aos trabalhadores e a maioria da população para garantir as condições de valorização do capital nas condições atuais. Isto implica a reversão de direitos e garantias que cumpriram um papel na reprodução social em períodos passados e agora precisam ser desmontados. O simples corte, no entanto, provocaria uma reação muito grande, de forma que operasse em dois planos: no sucateamento paulatino que vai inviabilizando as instituições de ensino e sua desmoralização.
O segundo plano, a desmoralização (não só do ensino, mas de tudo que é público) obedece, também, à lógica de blocar a base social de sustentação do desgoverno, mobilizando-a contra inimigos “imaginários” enquanto servem de fato para implementar os verdadeiros interesses dos reais inimigos da maioria da população e da classe trabalhadora.
Antes de tudo, é necessário afirmar que a universidade no Brasil nunca foi hegemonizada por nenhum marxismo (cultural ou qualquer outro). A necessária defesa da universidade pública contra seu desmonte não pode obscurecer o fato de que essas instituições são e sempre foram e eminentemente conservadoras na forma e no conteúdo. Mesmo com a saudável democratização do espaço universitário com a ampliação do acesso de camadas populares e segmentos para os quais este espaço era praticamente vetado (como pobres, negros, indígenas, camponeses, etc.), a vida acadêmica prima pelo elitismo, pela forma meritocrática ou quase aristocrática, pela seleção de currículos e saberes que respondem muito mais às necessidades da ordem burguesa e a reprodução do capital do que às demandas reais da maior da população.
A UFRJ, só para dar um exemplo, fica de frente para uma das maiores favelas do Brasil, o Complexo da Maré, à qual é ligada por uma ponte que foi batizada de “Ponte do Saber”, que é irônica e simbolicamente de mão única (saindo da universidade para a favela). Há muito tempo os interesses das grandes corporações lotearam os espaços universitários pela porta das parcerias, fundações e outros meios, capturando laboratórios, pesquisadores e estruturas para os colocarem a serviço das pautas e dos interesses empresariais.
Evidente que há honrosas exceções nas diferentes dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão que buscam reflexões críticas, saberes e práticas voltadas às necessidades da classe trabalhadora e à compreensão de nossa sociedade e do mundo contemporâneo, a formação profissional de qualidade e à produção acadêmica de excelência. Mas todos concordarão que seria absurdo afirmar que essa vertente é determinante no mundo universitário – pelo contrário, sobrevive subordinada, como poucos recursos, preterida na distribuição de verbas e recursos materiais, bolsas, assistência estudantil, etc.
Manifestam-se na instituição universidade as mesmas contradições que marcam a carne da sociedade brasileira: as desigualdades entre homens e mulheres, brancos e negros, cidade e campo, ricos e pobres, assim como outras que poderíamos enumerar à exaustão.
Ao defender a universidade pública, é necessário todo o cuidado para não idealizarmos esta instituição transformando-a em algo que ela não é. Ela é um espaço de conflito e de contradições, mas também é o espaço de onde vem 95% de todas as pesquisas científicas em nosso país, a maioria absoluta das teses e dissertações defendidas, onde se realizam trabalhos de extensão de grande significado e onde se formam profissionais das mais diferentes áreas de atuação. No entanto, sabemos que o campo das pesquisas e da formação profissional está longe de ser neutro do ponto de vista dos interesses de classe que dividem nossa sociedade.
O ataque à universidade é parte da pauta do obscurantismo reinante e serve de coesionador da base retrograda que deu a vitória eleitoral ao presidente miliciano. Fazem parte dessa frente de batalha a desqualificação da filosofia e da sociologia, a crítica aos intelectuais e artistas, entre outras iniciativas obscurantistas como nas pastas que tratam da família, dos povos indígenas, do meio ambiente ou da política internacional. Mas contra quem é necessário coesionar essa base?
Temos que estar atentos para um deslocamento importante. Evidente que é contra a esquerda, os ativistas, o “marxismo cultural”, mas há uma outra disputa em curso – esta entre os segmentos que compõem o governo. Claramente Bolsonaro não era a primeira alternativa da ordem burguesa e do grande capital monopolista. Parece evidente que ele não estava (e ainda não está) preparado para governar. Acrescente a isso o fato de que a personalidade do presidente é fonte de constantes instabilidades. Não creio que se trate de uma disputa, como se tem desenhado, entre duas alas: a “olavista” e a militar.. Nos parece mais preciso descrever o governo como composto por três segmentos: o de sustentação do presidente (que inclui os seguidores de Olavo de Carvalho, o fundamentalismo religioso e a estrutura miliciana que envolve sua família), os militares (que não são, como o presidente gostaria, sua base ou seu grupo de pertencimento) e os ultraliberais bancados pelo “mercado”.
A convivência não deve ser fácil. Os militares se incomodam com o fato de que deram aval a algo que de fato não controlam e que é fonte inesgotável de constrangimento e vergonha alheia. A área chamada técnica tem lá seus problemas pois pilota um programa de “reformas” que dificilmente produzirá os efeitos esperados na retomada da economia e do emprego e depende de uma sustentação política que dá claras mostras de incompetência para administrar a base do próprio governo. Moro, que gostaria de se incluir nesta área “técnica” é fonte de mais instabilidade, pois é odiado pelo Congresso que parece estar disposto a derrota-lo em tudo. O presidente não tem liderança e capacidade para unificar tudo isso que ele julgava ser homogêneo, mas que a cada dia se mostra não ser. O antipetismo, tão útil para ganhar as eleições, agora não serve para nada.
Pelo menos até agora, o presidente parece pensar que pode coesionar esses segmentos na medida em que fale diretamente com a base social por cima das mediações políticas que o Estado burguês lhe oferece. Para tanto, precisa manter mais um clima de campanha do que de governo e acaba acirrando a crise ao invés de controlá-la. A ofensiva contra a universidade faz parte deste script que pode incendiar as condições de governabilidade e agregar o tempero das ruas que faltava para fritar seu mandato.
O documento que o próprio presidente divulga, em que se diz obstaculizado pela “classe política” e por interesses que controlam o Estado, é menos uma tática política pensada e mais uma justificativa que tenta encobrir sua própria incapacidade. Isso, no entanto, não impede que produza o resultado esperado em sua base de apoio. A grande dúvida do momento é se a operação em curso para substituir o incomodo mandatário poderá ser feita sem grandes custos políticos e sem abrir brecha para uma oposição de esquerda ou centro esquerda que possa criar problemas para a agenda de reformas do capital. Parece claro que a direita quer se livrar de Bolsonaro para realizar sua agenda, mas como reagirá a estrema direita e sua base fanática?
Poderá o presidente destapar a panela do descontrole e movimentar o fanatismo em sua defesa? Mas, desta forma não romperá definitivamente com os segmentos substantivos de seu governo (militares, representantes do sagrado mercado e base parlamentar) para quem a estabilidade e a garantia das reformas é a prioridade estratégica? Haveria espaço para um governo bonapartista que fosse capaz de se impor contra o Estado sem destruir a si mesmo? Os indícios apontam para mais um blefe. Está se formando um consenso pelo seu afastamento que pode ser selado pela linha da investigação que o associa às irregularidades no mandato de seu filho eleito senador e, por esta via, às supostas vinculações com as milícias e, quem sabe, ao assassinato de Marielle. Ao que parece, ele não articula mais uma maneira de ficar, mas uma justificativa de por que deve sair.
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Mauro Iasi na TV Boitempo

No Café Bolchevique da TV Boitempo, Mauro Iasi apresenta conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre acontecimentos da conjuntura política e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal aqui e venha tomar este café conosco!
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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

terça-feira, 28 de maio de 2019

COMO A MILÍCIA DIGITAL BOLSONARISTA RESGATOU SUA MÁQUINA DE FAKE NEWS PARA ATACAR UNIVERSITÁRIOS, por Guilherme Pavarin

15 de Maio de 2019, 0h02
FAZIA MESES QUE o cientista da computação Fabrício Benevenuto não via nada de novo na sua ronda diária por grupos políticos de WhatsApp. Criador de uma ferramenta capaz de elencar os conteúdos mais compartilhados no aplicativo, o WhatsApp Monitor, o professor associado da UFMG via com tédio os mesmos tipos de montagens, áudios, notícias falsas, correntes e vídeos motivacionais percorrerem sua tela, dia após dia nos 350 grupos políticos abertos que acompanha.

Na tarde de 8 de maio, porém, Benevenuto notou algo estranho: quase todas as imagens mais compartilhadas no seu sistema mostravam universitários nus, teses com nomes esdrúxulos e desenhos irônicos sobre estudantes de humanas. Aquilo, percebeu, não era espontâneo. Checou os altos números e concluiu que se tratava de algo novo, orquestrado. Estava diante de uma nova ofensiva da milícia digital de Bolsonaro, grupo que andava pouco ruidoso após as eleições.

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“Soou como ataque, uma tentativa de desconstruir a imagem das universidades públicas com conteúdos antigos ou tirados de contexto, como se todas fossem uma bagunça”, diz Benevenuto. “Como trabalho em uma, fiquei preocupado.” Os variados tipos de compartilhamentos chamaram sua atenção. Notou que, depois de alguns meses de marasmo, muitos grupos ociosos associados a Bolsonaro espalhavam as mensagens com afinco comparável ao do ano passado, quando operavam em sua capacidade máxima e com fortes indícios de disparo em massa. Era o despertar de uma engrenagem que havia feito grande estrago meses atrás.


Das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp em maio, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas universidades federais.  
O levante das redes bolsonaristas não vinha por acaso. Duas pesquisas divulgadas em maio apontavam para um naufrágio do otimismo com o presidente, Jair Bolsonaro. A primeira, do instituto XP Ipespe, mostrou que, de abril para maio, o percentual de ruim e péssimo na avaliação do Bolsonaro subiu de 26% para 31%; já a segunda, uma análise de sentimentos de redes sociais feita pela startup Arquimedes, apontou que, nas últimas semanas, mais pessoas que se mostravam neutras ao novo presidente passaram a avaliá-lo negativamente. Para as duas empresas, os principais motivos foram o desgaste entre militares e Olavo de Carvalho e o corte na educação anunciado no dia 30 de abril pelo novo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

As táticas de guerrilha soavam similares às das eleições de 2018. Pelo WhatsApp, centenas de grupos de apoiadores de Bolsonaro passaram a espalhar imagens que reforçavam a ideia, endossada pelo próprio Weintraub, de que as universidades públicas se tornaram lugar de “balbúrdia”. Montagens de gosto estético e moral duvidosos foram replicadas sem parar. Eram fotos e vídeos de performances artísticas, capas de monografias sobre sexualidade e paredes com pixações provocadoras. Em cada mídia, havia a legenda com o suposto nome da instituição federal e um texto que dizia: “Veja em que se transformaram nossas Universidades Federais! É UM ABSURDO”.

Surtiu algum barulho. Segundo a ferramenta de Benevenuto, nas duas primeiras semanas de maio, das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas salas de aula das universidades federais. (De resto, quatro associavam Marielle Franco ao tráfico de drogas a outros crimes, três eram denúncias de militantes petistas infiltrados em grupos, uma era uma defesa para fechar o STF e cinco eram imagens com tarja preta de conteúdo impróprio — provavelmente parte de uma mensagem em texto.)


Algumas das imagens mais compartilhadas no mês de maio.Crédito: WhatsApp Monitor

Benevenuto ressalta que seu software dá apenas uma amostra do turbilhão de montagens fabricadas a todo vapor: os 350 grupos que monitora são uma parte ínfima dos mais de 127 milhões de usuários e dos incontáveis grupos fechados no país. “Damos acesso a jornalistas e agora a pesquisadores para terem uma noção do que é compartilhado lá dentro, mas sabemos que não é um número preciso”, me disse Benevenuto.

Imerso em dezenas de grupos pró-Bolsonaro nos últimos dias, conclui que o grosso das mensagens dos bolsonaristas vem de grupos fechados, em que, em grande parte, apenas administradores podem enviar conteúdos. Vários dos grupos também adotam uma estratégia de renovação, isto é, são encerrados e depois abertos com outro nome e endereço. “É uma tática comum: eles fecham um grupo, depois mandam o convite para as pessoas que estavam lá entrarem em outro, assim vão renovando”, me disse Sergio Denicoli, diretor da consultoria AP/Exata e pós-doutor em comunicação digital. Isso explica por que vários dos grupos importantes durante a época das eleições não funcionam mais. Eles só mudaram de cara para provavelmente fazer uma faxina em usuários inativos.

Estudioso das redes de Bolsonaro desde 2017, Denicoli também notou atividade incomum nos últimos dias. De primeira, diz, os militantes de direita iniciaram sua tática de testar narrativas. No caso, a de que universidades públicas são lugares repletos de nudez, performances e cursos inúteis. “Eles vão chegando, vão testando narrativa, ensinando como argumentar”, explica Denicoli. “A eleição foi uma guerra retórica. A rede do Bolsonaro foi muito inteligente, impôs os temas que queria, e as pessoas repetiam os argumentos, mas agora não estamos vendo o mesmo sucesso.”

‘Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.’  
Na análise de Denicoli, o corte na educação desagradou e mobilizou muita gente, o que fez com que os grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro tentassem mais esforços para reverter a opinião de massa. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. “Notamos em nossos dados que o movimento da educação é o mais importante da oposição, tem uma capilaridade e uma autenticidade muito fortes. São muitos pais, alunos e funcionários que fazem parte do sistema educacional, eles sabem que a realidade não é como os memes. Algo parecido ocorreu no Carnaval, quando Bolsonaro tentou generalizar o Carnaval com a polêmica do golden shower. Algumas narrativas não funcionam.”

Baseada em recursos de inteligência artificial e conceitos da psicologia, a análise de Denicoli capta oito tipos de emoções nos textos deixados em redes sociais como Instagram, YouTube e principalmente Twitter. Sua plataforma consegue, pela combinação de palavras dos usuários, saber se uma mensagem possui sensações como indignação, raiva, tristeza, desgosto, alegria ou confiança. Sua conclusão, depois confirmada pelas pesquisas de opinião, é que, ainda que Bolsonaro ainda conte com grande confiança em parte do seu eleitorado, os índices de medo e tristeza subiram bastante. “A rede de Bolsonaro era o único discurso vigente, era a mais barulhenta, mas agora as redes de esquerda cresceram”, diz Denicoli. “Começou a ter uma mobilização das pessoas pedindo mobilização, as pessoas demonstraram interesse e aí surgiu a ideia de greve dos movimentos sindicais. Foram manifestações espontâneas, principalmente de estudantes, que ganharam adesão.” A referência de Denicoli é à greve e aos protestos que estão marcados por todo o país para esta quarta-feira com milhares de menções nas redes sociais.

Os dados de Denicoli lidam com a parte acessível, mais clara, das redes bolsonaristas. Segundo ele, o Twitter é onde ocorre a segunda etapa da estratégia, a parte final e concreta das pautas do clã de Bolsonaro. Lá é onde se consolidam as narrativas iniciadas na parte escura, mais difícil de mensurar e de rastrear, no WhatsApp. “Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.” Isso significa que, daqui pra frente, no Twitter, no Facebook e no YouTube, provavelmente haverá uma enxurrada ainda maior de montagens a fim de desmoralizar as instituições públicas de ensino.


Os conteúdos são disseminados primeiro no WhatsApp e depois espalhados para outras redes sociais.Crédito: Viktor Chagas/ UFF

Nas esteiras da fábrica de fake news
O pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, analisa desde o começo do ano passado como funcionam as redes bolsonaristas no WhatsApp. Com a ajuda de sua equipe, ele monitora mais de 150 grupos de apoio ao político do PSL. Chagas foi o primeiro a expor, no ano passado, a existência de variados tipos de grupo pró-Bolsonaro que integravam uma estratégia maior e calculada. De acordo com ele, havia ao menos três espécies: o de divulgação (que envia links, panfletos etc.); o de mobilização (que incentiva boicotes ou subidas de hashtags, bem como ações nas ruas); e os de debate (responsáveis pela elaboração das narrativas e trocas de conteúdos). Todos eles, afirma Chagas, seguiam uma hierarquia e eram divididos de acordo com localização. A lógica se mantém viva hoje, ainda que, ao menos até semanas atrás, houvesse uma escala bem menor de mensagens e produção.

“Houve uma latência na transição pro novo governo, em janeiro”, afirma Chagas. “Teve uma baixa de usuários e muitos grupos estavam aguardando sinal para retomar a força de antes. Em meados de janeiro, começaram a voltar os listões públicos e adesão em massa para desmobilizar a oposição.”

‘Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados.’  
Os listões a que Chagas se refere são nomes e endereços de canais pró-Bolsonaro no WhatsApp de acordo com tema e região. Podem ser chats como “Lavatogas ZAP” (que busca uma limpeza no judiciário) e o “Rede Bolsonarista TO” (de militantes de Tocantins). Eles podem ser acessados em sites e plataformas específicas, como o zapbolsonaro.com e a rede social de extrema-direita Gab, em que moderadores informam quais grupos possuem vagas. A ideia, diz o pesquisador, é manter os grupos funcionando no limite da plataforma, de 256 membros. Também notei que existem espécies de mensageiros individuais que passam a enviar mensagens em separado para todos os integrantes dos grupos. Ao entrar em um grupo pró-Bolsonaro em SP, por exemplo, vários usuários pediram autorização para enviar conteúdos de direita diretamente via celular.

Os disparos em massa, muito falados durante as eleições, também continuam. “É possível reparar em padrões de disparo profissional para os mesmos grupos quatro vezes ao dia, em horários diferentes, pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada”, afirma Chagas. “Há uma circulação bastante intensa de imagens e apelo persuasivo das mesmas fontes, reiteradamente acionadas. São vídeos de influenciadores, como Luciano Hang, dono da Havan, e de anônimos em situações cotidianas.”

Definir com precisão quem está no comando das operações não é possível. Hoje, a maior parte dos moderadores usa números internacionais — durante a apuração, quase todos os prefixos com que cruzei eram de cidades dos EUA. Ainda assim, há algumas pistas deixadas na época da eleição. O número público do celular de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e deputado federal eleito ano passado, era um dos que mais liderava grupos de WhatsApp em setembro de 2018, segundo Viktor Chagas. Eduardo moderava mais de 30 grupos. Agora o número está desativado. Em seu lugar, entraram números internacionais sem nome ou foto para identificação.

“Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados, mas isso por si só não é ilegal”, diz Chagas. O problema, claro, é quando essa profissionalização de envio de mensagens em massa se trata de uma fábrica de notícias falsas e informações tiradas de contexto. A Justiça Eleitoral, porém, ainda não encontrou meios de mapear ou rastrear os autores de conteúdos mentirosos e de má fé, como os memes que mentem sobre a questão estudantil.


O ponto destacado lá em cima nos dois gráficos é Eduardo Bolsonaro.Crédito: Viktor Chagas/ UFF

A incidência de mensagens nos grupos bolsonaristas de WhatsApp é por certo menor do que na época das eleições. Pelo Monitor WhatsApp, a plataforma que serve como amostra de Trending Topics de grupos abertos do aplicativo, o número de compartilhamento dos principais conteúdos chega a ser dez vezes menor do que em outubro. Uma das hipóteses dos pesquisadores é que agora, após as eleições, há menos financiamentos de disparos em massa profissionalizados do que no segundo semestre do ano passado.

Em outubro de 2018, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que diversos empresários — entre eles Luciano Hang, da Havan — contrataram agências para espalhar mensagens contra o PT no WhatsApp. Cada contrato teria o valor de R$ 12 milhões. A prática, tida como ilegal por consistir em doação de empresas para campanha, ainda continuaria em ação nesses primeiros meses de governo, mas em menor escala. Para os pesquisadores, o levante das redes está crescendo aos poucos com três pautas principais: manter o COAF com Moro, os ataques ao Supremo e a deslegitimação dos movimentos estudantis.

Outro ponto de consenso entre os pesquisadores é que a equipe de Bolsonaro se planejou com antecedência para montar sua estratégia de WhatsApp. As principais evidências são a grande organização hierárquica das redes e, também, dois projetos de lei que o então deputado federal Jair Bolsonaro apresentou em 2017, claras demonstrações de sua preocupação com WhatsApp no futuro. O primeiro deles dizia que apenas juízes do STF poderiam derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil e o outro impediria operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados; em ambos os casos, a justificativa do parlamentar é a de que as medidas evitariam a ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.


Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular.   
Para Denicoli, o ponto de partida da estratégia digital de Bolsonaro contou com uma imensidão de perfis automatizados no WhatsApp e, depois, no Twitter. “No começo da campanha, o número de robôs era muito alto. Eles estavam construindo narrativas em cima dos temas de modo experimental”, diz. “No final, eles conseguiram estabelecer um apoio real das pessoas, muitos compraram a ideia e viraram cabos eleitorais.”

De tanto serem replicadas, as mensagens encontraram seus receptores e adoradores. E a lógica segue no Twitter –um levantamento recente apontou que mais da metade dos seguidores de Bolsonaro é falso. A conclusão foi do Fake Followers Audit, uma ferramenta capaz de determinar a porcentagem de seguidores automatizados — isto é, robôs ou bots — que cada usuário tem. O método é estatístico: a empresa pega uma amostra aleatória de dois mil seguidores e analisa um a um. O software verifica dados que podem caracterizar ou não um perfil falso: número de seguidores, discrepância na localização, inexistência de foto de perfil, alta frequência de posts, baixo número de seguidores, data de criação da conta, dias de inatividade e a linguagem usada. Segundo esses critérios, cerca de 60,9% dos quatro milhões de seguidores de Jair Bolsonaro (mais de 2,5 milhões de usuários) são contas inativas. A companhia estima que, em cada post de Bolsonaro, 17% dos retuítes são feitos por perfis fakes. Embora os próprios autores da ferramenta reconheçam que ela não é infalível, o cálculo é eficaz para estimar porcentagens de seguidores falsos.

Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular. Mesmo depois de assumir a presidência, o político não se esforçou num discurso apaziguador, de união. No mundo real, ele segue com seu posicionamento contra minorias, numa fantasmagórica luta contra o comunismo e o que chama, sem saber articular, de ideologia de gênero. As redes o acompanham nisso e devem seguir essa lógica enquanto houver lenha para queimar. “A rede é toda mobilizada pela raiva, a gasolina é o conflito”, afirma Denicoli.

O problema que se expôs para o presidente é que nem sempre o WhatsApp pode instigar o ódio e criar uma realidade paralela endossada pela população. Boa parte dos brasileiros não acha que o Carnaval é sinônimo de golden shower e que a universidade é lugar em que todos assistem aula pelados. Ainda que lentamente, a máquina de mentira do clã bolsonarista parece perder sua força.

‘NOSSA PÓS-GRADUAÇÃO VAI DEFINHAR’: CORTES DEVEM ACABAR COM METADE DOS CURSOS, por Lucindo José Quintans Júnior

Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro.
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Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro.
15 de Maio de 2019, 0h02
UM PROFESSOR AMIGO MEU, que leciona em uma universidade francesa, me perguntou, de forma perplexa e incrédula, como o Congresso Nacional e as próprias Forças Armadas do Brasil permitiam que as universidades fossem atacadas com tantas calúnias e mentiras. Respondi, igualmente perplexo, que não há resposta racional para esse fato ou, pior, há uma lógica perversa no ataque.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou em uma entrevista que a Universidade Federal de Sergipe é um exemplo de ineficiência e que não tem pesquisa. A declaração é completamente falsa, mas a veiculação de embustes não é uma exceção no governo de Jair Bolsonaro. O próprio presidente disse recentemente que “(…) nas universidades, você vai na questão da pesquisa, você não tem, poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo, quando trata do grafeno”, mostrando o completo desconhecimento sobre a ciência e a tecnologia produzidas no país por ele governado.

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O Brasil é atualmente o 14º maior produtor de trabalhos científicos do mundo, segundo revela o recente artigo “Fábricas de Conhecimento”, publicado pelo Jornal da USP. Das 50 instituições que mais publicaram trabalhos científicos no país nos últimos cinco anos, 44 são universidades, sendo que 36 federais, sete estaduais e apenas uma particular.

Nesse ranking, a UFS, instituição com mais de meio século de existência e da qual sou docente há quase 13 anos, ocupa a 36ª posição como produtora de ciência do Brasil e está na 27ª entre as universidades federais, o que demonstra de modo inequívoco sua qualidade e importância dentro do cenário nacional. A UFS tem 58 programas de pós-graduação e detém cerca de 88% das matrículas de pós-graduação de Sergipe.

Sem aviso prévio, a Capes tirou a bolsa de milhares de alunos que se preparavam para iniciar suas pesquisas.
Além dos 30% “contingenciados” pelo MEC em 8 de maio, a Capes anunciou dois novos cortes, ambos sem aviso prévio. O primeiro eliminou cerca de 3,5 mil bolsas de pós-graduação em todo o país. Os PPGs da UFS perderam 13 bolsas de mestrado, duas de doutorado e três de PNPD, o que gerou um prejuízo de R$ 1,15 milhão, se levarmos em conta apenas um período de três anos.

A Capes considerou como “ociosas” bolsas que estavam em processo de cadastro de alunos ou sem vinculação no período de abril. Esse é justamente um período em que as bolsas estão sendo atribuídas aos pesquisadores. Ou seja, elas não estavam “ociosas”, mas, sim, passando de um aluno a outro, em um processo que pode levar alguns dias ou semanas. A Capes sabe disso. Sem aviso prévio, tirou a bolsa de milhares de alunos que se preparavam para iniciar suas pesquisas no Brasil inteiro.

Como se não bastasse, nessa mesma medida, anunciou um corte linear, que chamou de ‘Fase 2’, de 70% das bolsas de PPGs com duas avaliações nota 3 e um corte de 30% dos doutorados com duas avaliações nota 4 pela avaliação quadrienal. Pontuações 3 e 4 são atribuídas a cursos novos ou em consolidação, em uma escala que vai até 7. De acordo com a Capes, as bolsas serão recolhidas à medida que os titulares forem concluindo os cursos – em dois anos para mestrado, e quatro para doutorado. A retórica da Capes ao anunciar os cortes foi a “qualidade” dos PPGs.

95% da produção de conhecimento no Brasil ocorre em universidades federais.
A pós-graduação da UFS é considerada jovem pelo próprio SNPG e está em franco processo de consolidação. É comum os cursos de pós terem nota 3 e 4 nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que têm maior carência de recursos e onde as assimetrias da pós-graduação vêm sendo reduzidas somente nas últimas décadas. A medida desconsidera essas diferenças entre os estados brasileiros, a distribuição de doutores pelo país e os impactos sociais dos PPGs nas regiões. Esses programas jovens teriam boas oportunidades de subir de patamar se esses cortes não ocorressem. Só na UFS, essa fase afeta diretamente 32 cursos de mestrado e dez cursos de doutorado. Ao final desta fase, 156 bolsas de mestrado e 38 bolsas de doutorado deixarão de existir. A medida mata por inanição 32 dos 58 PPGs da UFS (55%).

A chamada “Fase 2” é desmonte da pós-graduação brasileira porque implanta mudanças estruturais que destroem princípios históricos e basilares do SNPG. O sistema trouxe importantes avanços ao longo das últimas décadas, estabelecendo critérios que levam em conta o processo de consolidação do programa, a avaliação periódica e a redução das assimetrias regionais. As universidades respondem por cerca de 99% de todo o conhecimento gerado no Brasil, sendo as públicas responsáveis por cerca de 95% deste total. Os PPGs produzem grande parte dessa valiosa produção científica que a famigerada fase 2 quer agora aniquilar. A imensa maioria dos programas com nota 5 para cima estão em universidades públicas. Elite da nossa pós-graduação, os programas nota 7 também.

Fora o ‘contigenciamento’ do MEC, os sucessivos cortes no orçamento do MCTIC também afetam os PPGs e a ciência brasileira.
Em valores absolutos, a medida gera um prejuízo colossal aos PPGs da UFS e à própria economia sergipana, que perderá, direta ou indiretamente, recursos da ordem de R$ 9,7 milhões, por ano.

O bloqueio anunciado pelo MEC também afeta o pleno funcionamento dos dois hospitais universitários da UFS 100% SUS, inclusive com serviço especializado para crianças com microcefalia, uma ameaça à saúde da população sergipana sem precedentes na história do estado.

Fora os cortes do MEC, os sucessivos cortes no orçamento do MCTIC, que chegam a mais de 48% apenas neste ano, impactam também os PPGs e toda ciência brasileira. Apenas na UFS, vários projetos de pesquisa já estão sofrendo com os cortes no MCTIC e serão fortemente prejudicados por esta última ação da Capes e o bloqueio de 30% anunciado pelo MEC. Os projetos envolvem temas prioritários para o Nordeste, como as doenças negligenciadas como o Zika vírus, chikungunya e dengue; investigações sobre segurança pública, feminicídio e violência doméstica; além das pesquisas sobre recursos hídricos e energias renováveis.

 A universidade deveria ser um dos principais sustentáculos do processo de recuperação econômica do Brasil.
Apesar do cenário catastrófico e de terror, setores importantes da sociedade vêm se mobilizando em favor da educação, da ciência e da tecnologia. A parte reflexiva e coerente do próprio Congresso Nacional cobra explicações mais convincentes que a repartição dos chocolates.

A própria SBPC questionou o governo sobre quais são, afinal, as metas do governo para a ciência no Brasil. O governo está anunciando que os cortes são baseados em “metas” “não cumpridas” que até agora não foram definidas. Na verdade, temos ainda dúvida sobre se as medidas anunciadas são acontecimentos desconexos ou um projeto de desconstrução dos pilares de uma sociedade civilizada, como educação, ciência, tecnologia e inovação. A universidade, especialmente a pública, deveria ser um dos principais sustentáculos do processo de recuperação econômica do Brasil, e não a ‘Geni’ da vez.

Dependemos do apoio de leitores como vo

quinta-feira, 28 de julho de 2016

As cinco mentiras do Globo sobre a universidade pública, por Jean Willis.

Protesto EducaçãoEstudantes fazem protesto em Paraty (RJ) por melhores condições na educação


Toda mentira bem elaborada, para ser convincente, precisa começar apontando alguns fatos verdadeiros. É a arte da falácia, na qual os editorialistas do jornal O Globo são mestres e doutores.
É fato: o sistema universitário brasileiro ainda é profundamente injusto. O acesso dos mais pobres à universidade pública ainda é minoritário, mesmo tendo melhorado na última década, graças a algumas políticas públicas de inclusão dos governos petistas que, contudo, apesar de terem ajudado, foram insuficientes.
Também é fato: muitas pessoas pobres que não conseguiram passar na universidade pública estudam em universidades particulares de duvidosa qualidade, muito diferentes das universidades particulares de elite, e muitas pessoas dos segmentos mais ricos da população, depois de estudarem em escolas particulares de elite, ingressam às melhores universidades públicas. E eles poderiam pagar. Também é fato: o estado brasileiro e muitos estados da federação estão quase falidos.
Contudo, não é fato que a solução para esses problemas seja acabar com a gratuidade do ensino universitário público. Essa é uma grande mentira. A experiência internacional mostra que esse modelo é um fracasso e só produz mais desigualdade, mais injustiça social, mais exclusão. E não soluciona o problema do déficit fiscal, nem melhora a universidade pública.
Em seu Comunicado nº 75, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela a importância que os gastos sociais adquiriram no Brasil para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a redução das desigualdades.
Segundo o estudo, que usou como base dados de 2006, cada R$ 1 gasto com educação pública gera R$ 1,85 para o PIB. A título de comparação, o gasto de R$ 1 com juros sobre a dívida pública, segundo o mesmo estudo, gerará apenas R$ 0,71 de crescimento do PIB. Ou seja, o dinheiro gasto com educação de qualidade, como é o caso das universidade federais, é um excelente investimento dos recursos públicos. 
Então, por que que o editorial do Globo mente?
Primeira mentira do Globo: como aponta o economista Bruno Mandelli, a ideia de que "as universidade públicas só beneficiam os ricos, enquanto aos pobres restam as universidades particulares" é um mito bastante difundido, porém completamente equivocado.
Explica Mandelli: O ensino público é elitizado, mas não há nada que indique que o sistema privado de ensino superior seja mais popular. Pelo contrário, os levantamentos disponíveis indicam que, em termos de renda, os estudantes das universidades públicas são inclusive ligeiramente em média mais pobres que os estudantes das privadas.
Segundo a Pnad 2014, por exemplo, os estudantes que faziam parte dos 20% mais ricos da população brasileira correspondiam a 36% dos estudantes do ensino superior público e 40% do ensino superior privado. Ou seja, há mais 'ricos' no sistema privado do que no público.
Na ponta oposta, os estudantes que faziam parte dos 20% mais pobres da população brasileira representavam 7% dos estudantes do ensino superior público e apenas 3,4% do ensino superior privado. Ou seja, os 'mais pobres' estão nas universidades públicas no dobro da proporção verificada nas privadas.
Segunda mentira: ensino pago não soluciona o problema, muito pelo contrário. Países que adotaram esse caminho, como o Chile, têm um sistema universitário altamente elitizado e excludente – e hoje estão querendo mudar.
Acabar com a política pinochetista que O Globo propõe para o Brasil foi uma das promessas de campanha da presidenta Michele Bachelet! Outro exemplo paradigmático são os EUA, onde as possibilidades de acesso à universidade (e a qual universidade) dependem da renda das famílias, e os jovens mais pobres ou de classe média (sim, também a classe média) só podem estudar na universidade se endividando por décadas ou conseguindo uma bolsa esportiva, que os obriga a dedicar mais tempo ao treinamento que aos livros.
Terceira mentira: as bolsas não são suficientes para corrigir as injustiças do ensino pago. O Prouni é uma prova disso. Embora esse programa tenha tido alguns efeitos positivos (de fato, ajudou muitos jovens de baixa renda a entrar na universidade), ele não acabou com a elitização da universidade pública, beneficiou o ensino particular, ajudou à proliferação de fábricas de diplomas de baixa qualidade e não solucionou o problema da permanência.
Quarta mentira: o ensino gratuito não é a causa do déficit fiscal. Vejamos, por exemplo, o caso da UERJ. A principal universidade do estado do rio está quase falida, enquanto o governo local do PMDB desperdiça bilhões de reais em isenções fiscais que geram pouquíssimo emprego (da mesma forma que o governo federal os desperdiça com empréstimos de bancos públicos a juros de privilégio para as grandes empresas; por exemplo, o grupo Globo), ou com dívidas bilionárias de empresários, que acabam não sendo cobradas, ou com obras superfaturadas. 
Protesto Uerj
Estudantes da UERJ fazem ato no Rio: a universidade está quebrada

No nível federal, os recursos que o estado receberia acabando com a gratuidade das universidades públicas (com altíssimo custo social) são nada, se comparados ao que poderia ser arrecadado taxando as grandes fortunas, reestruturando a tabela do imposto de renda ou acabando com a isenção às operações financeiras e ao mercado de capitais.
Quinta mentira: se quisermos cobrar aos ricos que usam a universidade pública, a solução não é instaurar uma mensalidade. Estabeleçamos um tributo adicional para as faixas mais altas do Imposto de Renda (depois de mudar a tabela para que estas sejam pagas pelos ricos de verdade e não pela classe média) que alcance os cidadãos com alta renda que estudaram e se formaram numa universidade pública, e destinemos esse dinheiro a um fundo especial para abrir mais vagas e pagar bolsas de permanência para os estudantes mais pobres.
Dessa forma, o pagamento não seria uma barreira, mas uma devolução à sociedade paga por aqueles que já usufruíram da universidade pública e se deram muito bem na vida.
E se quisermos aumentar o número de pessoas de baixa renda nas universidades públicas, ampliemos a oferta de vagas, invistamos no ensino fundamental e médio (a baixa qualidade dele, combinada com o Enem e o vestibular, funciona como barreira para o ingresso dos mais pobres às universidades públicas, onde os que estudaram em boas escolas particulares têm mais chances de passar). E demos bolsas de permanência para que os mais pobres não abandonem os estudos.
Em resumo, o jornal O Globo tentou nos enganar. As soluções são outras. A educação pública gratuita é uma conquista democrática da qual jamais abriremos mão e é imprescindível para o desenvolvimento econômico, social e humano do Brasil.

Gustavo Castañon desmonta editorial do Globo contra universidade pública: Farsa, do título ao último parágrafo.


                         
Eeditoral de O Globo pelo fim do ensino gratuitopor Gustavo Castañon, especial para o Viomundo
No último domingo, 24 de julho, menos de uma semana após a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, ter instituído a gratuidade do ensino universitário em instituições públicas (antiga luta da juventude lá), o jornal O Globo, sempre na vanguarda do atraso brasileiro, publicou  editorial  no sentido oposto.
Sofismas e mentiras. Uma farsa do início ao fim, que vamos desmontar aqui, parágrafo por parágrafo. Começando pelo título:  
A crise força é o fim do injusto sistema tributário brasileiro e do saque da dívida pública que roubou ano passado 43% do orçamento, baseado nos juros mais altos do mundo. Sistema esse do qual a família Marinho é uma das principais beneficiárias.
Globo: “Os alunos de renda mais alta conseguem ocupar a maior parte das vagas nos estabelecimentos públicos, enquanto aos pobres restam as faculdades pagas.”
A maior parte das vagas é ocupada por alunos de classe média, que também não teriam, em grande parte, condições de pagar por essas vagas.
Mas agora, com a política de cotas, praticamente metade das vagas federais está sendo ocupada por alunos de classe média baixa e baixa. Além disso, é o Estado que, infelizmente, subsidia grande parte das vagas nas universidades privadas.
Globo: “Numa abordagem mais ampla dos efeitos da maior crise fiscal de que se tem notícia na história republicana do país, em qualquer discussão sobre alternativas a lógica aconselha a que se busquem opções para financiar serviços prestados pelo Estado. Considerando-se que a principal fórmula usada desde o início da redemocratização, em 1985, para irrigar o Tesouro — a criação e aumento de impostos — é uma via esgotada.”
Afirmações peremptórias sem qualquer fundamento:
a) Não é a maior crise fiscal da história (e temos notícias de todas).
b) Ridícula afirmação peremptória de que aumentar imposto é via esgotada para financiar o Estado. É inadequada se for aumentar impostos para a classe média e empresas. É fundamental aumentar, e massivamente, a taxação de ricos no Brasil, que basicamente vivem no paraíso mundial dos oligarcas sem pagar impostos e muitas vezes só vivendo do saque da dívida pública, montados nas heranças que receberam sem mérito algum.
Globo: “Mesmo quando a economia vier a se recuperar, será necessário reformar o próprio Estado, diante da impossibilidade de se manter uma carga tributária nos píncaros de mais de 35% do PIB, o índice mais elevado entre economias emergentes, comparável ao de países desenvolvidos, em que os serviços públicos são de boa qualidade. Ao contrário dos do Brasil.”
Sim, o Estado precisa ser reformado. Ele precisa duplicar de tamanho se queremos serviços equivalentes aos dos países europeus. Mesmo assim, eles ainda teriam que ser oferecidos consumindo quatro vezes menos recursos.
Explico. O funcionalismo brasileiro é mínimo, só 11% da população empregada, enquanto a média dos países desenvolvidos é de 22% (OCDE) e nos escandinavos, como a Dinamarca, chega a 39%. Ao mesmo tempo, nossa carga tributária é baixa se comparada com a Europa (Dinamarca, 49%; Suécia, 43%; Finlândia, 44%; dados de 2013, OCDE), e não equivalente.
Além disso, nossa riqueza, nossa renda per capita, é menor, brutalmente menor. Um brasileiro médio produz U$ 8.672 por ano. Já um norueguês produz U$ 74.822. Um dinamarquês, para manter o termo de comparação, produz U$ 52.114 (dados FMI, 2015).
Resumindo, somos seis vezes menos ricos que a Dinamarca, cobramos muito menos impostos dessa riqueza, temos menos gente no funcionalismo público e 43% de nosso orçamento vão para financiar a fortuna de parasitas rentistas, Marinhos inclusos. Na Dinamarca, zero.
Enquanto o Estado brasileiro tem em torno de U$ 1.730 por pessoa-ano para prover investimento, educação, saúde, previdência, justiça e segurança, o Estado dinamarquês tem U$ 25.535 por pessoa. E esses saqueadores do erário ainda cobram o mesmo padrão de serviços de países europeus.
Globo: “Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil.”
Quando qualquer pessoa com mais de quarenta anos lê alguém com mais de quarenta anos falando de “crise nunca vista” sabe instantaneamente se tratar de um canalha.
Mas é verdade, a crise que o Levy, com essas ideias, e os bandidos do PMDB provocaram com as molecagens políticas e orçamentárias é grave. Podemos aplicar a ideia nunca aplicada no Brasil de fazer rico pagar imposto.
Nada que uma nova alíquota de 40% no imposto de renda, imposto sobre lucro e sobre fortunas não resolva. Ou melhor que isso. Nada que uma taxa de juros real de somente dois por cento não resolva.
Na Inglaterra e EUA funciona como o Globo quer, no resto da Europa, não. Não é isso que faz a excelência dos cursos anglófonos. No entanto, apesar de excelentes, são de acesso extremamente excludente e criam uma sociedade totalmente controlada pelo capital. O aluno pobre de alto rendimento acadêmico, em vez de receber sua educação como um direito, acaba tendo que mendigar o financiamento de seu futuro a fundações controladas por oligarcas bilionários, que a partir desses instrumentos controlam suas vidas, sua voz e o sistema universitário.
Globo: “Tome-se a maior universidade nacional e mais bem colocada em rankings internacionais, a de São Paulo, a USP — também um monumento à incúria administrativa, nos últimos anos às voltas com crônica falta de dinheiro, mesmo recebendo cerca de 5% do ICMS paulista, a maior arrecadação estadual do país.”
Como é que a única universidade latino-americana entre as 100 melhores do mundo pode ser um monumento à incúria administrativa? E no que privatizá-la resolveria isso?
Não é difícil imaginar o resultado da incompetência privada no Brasil, como transformou a energia mais barata e renovável do mundo em uma das mais caras ao consumidor final, como criou a telefonia e a internet mais caras do mundo, mesmo com subsídios públicos (e faliu, como a Oi). O que teríamos na universidade pública é o que temos na universidade privada hoje: nem é preciso imaginar. Incompetência administrativa, subsídios públicos (Prouni, bolsas de pós), mensalidades escorchantes e péssimo, péssimo simulacro de educação.
Globo: “Ao conjunto dos estabelecimentos de ensino superior público do estado de São Paulo — além da USP, a Unicamp e a Unifesp — são destinados 9,5% do ICMS paulista. Se antes da crise econômica, a USP, por exemplo, já tinha dificuldades para pagar as contas, com a retração das receitas tributárias o quadro se degradou. A mesma dificuldade se abate sobre a Uerj, no Rio de Janeiro, com o aperto no caixa fluminense.”
O ICMS é só uma das fontes de receita do Estado e a Unifesp é federal. São informações sem nexo para confundir o leitor e fazê-lo acreditar que 10% de seus impostos vão para bancar universidades.
No Brasil, o orçamento da educação inteira, incluindo a básica e a média, não atinge 4% do orçamento. É muito, muito pouco.
Se a UERJ está em crise é porque a universidade é, historicamente, a primeira a sofrer cortes quando os orçamentos estão em crise. E o orçamento do Rio está em crise porque o preço do barril do petróleo caiu brutalmente, deprimindo o valor dos royalties, tem um grupo político apoiado pelos irmãos Marinho no poder há dez anos dando isenções fiscais para concessionárias públicas, e porque a ação do juiz Moro, bancado pela Globo, quebrou a indústria de petróleo e a de construção naval brasileira, sediadas basicamente no Rio.
Globo: “Circula muito dinheiro no setor. Na USP, em que a folha de salários ultrapassa todo o orçamento da universidade, há uma reserva, calculada no final do ano passado em R$ 1,3 bilhão. Mas já foi de R$ 3,61 bilhões. Está em queda, para tapar rombos na instituição. Tende a zero.”
Vejam a manipulação. Universidade é basicamente recursos humanos. Em qualquer universidade, o orçamento é em sua maior parte salário. O problema é que a proporção recebida do ICMS é fixa e a arrecadação do Estado de São Paulo caiu.
Aliás, o PIB paulista arrasta o nacional para trás desde que o PSDB assumiu o poder em São Paulo. Se o orçamento da instituição não está suportando, deve haver o natural, uma reforma administrativa que racionalize cursos, salários ou aumente os recursos dedicados no orçamento estadual. O que não se deve pressupor, é que uma instituição que, no alto dessa crise, ainda tem uma reserva de 1,3 bilhão, seja uma instituição mal administrada. É um escárnio!
E o que se deve lembrar também, é que o período em que o fundo de reserva da USP despencou foi o período em que foi gerido por um reitor biônico, nomeado pelo ex-governador José Serra.
Globo: “O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares.”
Monstros. Esse é o ponto máximo do cinismo, apontar a universidade pública, um dos poucos instrumentos que permite à classe média brasileira manter seu nível de vida e à classe baixa ascender socialmente através dos programas de cotas, como “mecanismo concentrador de renda do Estado”. Enquanto isso, protegem em seus editoriais e telejornais a política mais insana de juros da história e vetam, neste mesmo editorial, o uso do instrumento mais eficiente de desconcentração de renda do Estado: o tributário.
Globo: “Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos.”
Falso! Sempre foi denunciado, até que os governos do PT criaram o Prouni para as privadas e o sistema de cotas nas públicas, o mesmo sistema contra o qual o Globo se bate em outros editoriais. E na hora que interessa ao argumento, também admite que o ensino privado no país é de baixa qualidade. Mas é exatamente nisso que a Globo quer transformar todo ensino no Brasil!
Globo: “Levantamento feito pela “Folha de S.Paulo”, há dois anos, constatou que 60% dos alunos da USP poderiam pagar mensalidades na faixa das cobradas por estabelecimentos privados. Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas.”
Você, leitor bobalhão de classe média direitista, está nesses 60%. “Poder pagar” pra eles é quando você ainda pode comer e morar depois que deixa todo o resto de seu salário na universidade. É você, e depois seus filhos, que vão pagar por isso. Porque os filhos da elite não estudam aqui, a maioria estuda ou nas PUCs ou no exterior.
Globo: “Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas.”
O que corrigirá essa distorção social é triplicar o orçamento da educação básica no Brasil e permitir educação pública de qualidade universal. O que corrigirá essa e outras distorções sociais no Brasil é fazer os ricos pagarem impostos. O que reequilibrará as contas públicas é parar de pagar aos irmãos Marinho e outros oligarcas parasitas quase metade de nosso orçamento na forma de juros e amortizações.
Eu estou muito cansado de ter condescendência democrática com uma instituição que nunca respeitou a democracia, que não tem qualquer pudor em usar todo seu poder, usurpado na ditadura, para aumentar a riqueza de seus donos e destruir nossa democracia, nosso patrimônio, nosso Estado, nosso futuro.
Eu tenho profunda amargura que familiares e amigos queridos dediquem sua vida de trabalho, o melhor de sua inteligência e esforços, a uma organização que só trabalha para destruir não só tudo o que é bom e decente no Brasil, mas também qualquer esperança de termos algo bom e decente em nosso futuro.
Não podemos, no entanto, ser mais condescendentes com essa emissora e aqueles que a constroem. Está na hora de cobrar a fatura de tanta destruição.
Nossa geração tem que acabar com essa corporação monstruosa. É nosso dever com o país e as gerações futuras.
Gustavo Castañon é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora.