Veja o trecho do relatório que cita a prisão de Fernando Santa Cruz:
DENÚNCIAS
Mello Franco: Relatório da Aeronáutica desmente Bolsonaro; pai do presidente da OAB estava sob custódia do Estado quando foi assassinado
29/07/2019 - 22h55
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Relatório da Aeronáutica desmente Bolsonaro sobre vítima da ditadura
por Bernardo Mello Franco, em O Globo
Um documento secreto da Aeronáutica desmente a versão de Jair Bolsonaro para o desaparecimento de Fernando Santa Cruz, morto em 1974 pela ditadura militar.
Nesta segunda-feira, o presidente disse que o estudante, pai do presidente da OAB Felipe Santa Cruz, teria sido assassinado por outros militantes de esquerda.
— Não foram os militares que mataram ele não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo o que acontece — disse.
Segundo a versão de Bolsonaro, Santa Cruz teria sido morto por outros militantes da Ação Popular, uma das organizações que combatiam a ditadura.
No entanto, o relatório secreto RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que o estudante foi preso pelo regime em 22 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro.
O documento, anexado ao relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), comprova que Santa Cruz estava sob custódia do Estado quando foi assassinado.
Em depoimento à CNV, o ex-delegado Cláudio Guerra disse que o corpo teria sido incinerado na Usina Cambahyba, em Campos.
A família de Santa Cruz nunca recebeu informações oficiais sobre o paradeiro de Fernando. Em 1995, o nome dele foi incluído na Lei dos Desaparecidos Políticos, sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Eleitores populares de Bolsonaro começam a pular do barco
Queda em avaliação é mais acentuada entre quem ganha de 2 a 5 salários mínimos por André Singer, na Folha de S. Paulo
Aspecto pouco notado na queda de aprovação do governo, registrada
pelo Ibope nesta semana, é a sua distribuição pela renda. Foram os
eleitores populares que começaram a pular do barco bolsonariano.
Possivelmente os mesmos que, no final do primeiro turno de 2018,
sobretudo no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, produziram a incrível
onda de extrema direita que varreu o país.
A perda de 15 pontos percentuais na avaliação positiva de Bolsonaro
foi mais acentuada entre os eleitores que ganham de 2 a 5 salários
mínimos (SM) de renda familiar mensal, chegando ali a um recuo de 18
pontos. Hoje apenas 35% desse segmento apoia o mandato em curso, índice
que cai para 29% daqueles cujo ingresso familiar restringe-se a um SM.
Já quando a família recebe acima de cinco salários mínimos, 49% dos
entrevistados gostam da administração do capitão reformado. Aqui a perda
foi de apenas oito pontos em relação à posse (tinha 57% de ótimo e bom
em janeiro).
Na mesma linha, o instituto de pesquisa nota o aumento da rejeição
entre os moradores “que residem nas cidades das periferias brasileiras”.
Nesse segmento o índice dos que consideram ruim ou péssimo o
desempenho presidencial subiu nada menos que 21 pontos no período. O
Nordeste, por sua vez, abriga apenas 31% que se mostram satisfeitos.
A persistência de melhor humor no Sul, onde 41% ainda apreciam o
mandato em curso, ilustra a divisão social que permeia a conjuntura,
pois a região concentra os menores indicadores de pobreza.
Se a economia comandar os rumos do eleitorado, como parece provável, uma recuperação no curto prazo é difícil.
Vale lembrar que o primeiro governo Lula, por exemplo, em que pese
ter demorado para produzir aquecimento do PIB, conseguiu estancar de
imediato o ciclo inflacionário que herdara da etapa anterior.
Bolsonaro já pegou o leme com inflação irrelevante. Se não conseguir
criar postos de trabalho e oferecer renda, continuará em baixa.
Tal contexto daria à oposição a chance de apresentar alternativas ao
modelo ultraneoliberal. As eleições de 2020, sobretudo nas capitais,
seriam o teste de tal embate.
Olhando o assunto do ângulo político, a prisão de Michel Temer ainda é uma incógnita.
Foi a Lava Jato que o levou ao poder, uma vez que decisiva para o
impeachment de Dilma Rousseff. Depois, com a gravação de Joesley,
afundou o regime emedebista e ajudou a ascensão de Bolsonaro.
Agora, com a detenção do ex-presidente, atrapalha a reforma
previdenciária de Paulo Guedes e aprofunda a divisão das hostes
bolsonaristas. Terá fôlego para empurrar Sergio Moro rampa acima? André Singer é professor de ciência política da USP,
ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O
Lulismo em Crise”.
Crescentemente, serviços são realizados online, a produção se torna
mais flexível em sua cadeia de suprimentos e de apoio, as comunicações
em tempo real são a norma.
Novas formas de produzir e obter informações habitam o nosso cotidiano.
Esse processo, comumente chamado de indústria 4.0, impacta as relações internacionais e a política.
E traz novas formas de atuação diplomática e militar.
O conceito de guerra híbrida foi formulado em 2010 por estrategistas estadunidenses.
Nesse conceito os combates convencionais, envolvendo tanques, aviões,
mísseis, são apenas uma faceta da guerra, cada vez menos frequente.
Ganha importância a guerra da informação, em um desdobramento muito mais complexo do velho mote das operações psicológicas.
As novas tecnologias da informação, baseadas na internet, permitiram
um novo raio de ação na disputa de corações e mentes entre os povos dos
países que a estratégia dos EUA chama de “potências hostis”.
A guerra híbrida é, em essência, uma guerra cibernética, não apenas para a destruição de sistemas e infraestruturas digitais.
Mas com uma ampla gama de ações táticas nas mídias digitais:
espalhando boatos, estimulando bolhas de opinião, alimentando culturas
de ódio e criando um ambiente hostil para a ação política de governos e
partidos tidos como inimigos.
Seu objetivo é a ruptura do tecido social, da coesão nacional e da vontade de resistir.
As chamadas primaveras árabes e a atual situação da Ucrânia são exemplos dessa nova forma de guerra.
O Brasil é alvo de uma estratégia de guerra híbrida.
Envolveu a cooptação de membros do judiciário, a criação de grupos de
extrema-direita financiados por ONG’s ligadas à comunidade de
informações e aos altos círculos financeiros dos EUA, a utilização da
mídia tradicional e das mídias digitais em larga escala, como o Facebook
e o Whatsapp.
Esses ataques cibernéticos remontam ao ano de 2012, em uma espécie de evento-teste, como boatos como o fim do Bolsa-Família.
Se intensificaram em 2013, tiveram um recrudescimento nas eleições de
2014 e atingiram seu ápice em 2016, nas semanas que precederam o
impeachment.
Esses movimentos foram captados pelos serviços de inteligência da Turquia e da Rússia, pelo que se tem notícia.
O resultado é conhecido. A iniciativa dos BRICS implodiu, quando os
países-membros preparavam um sistema financeiro alternativo ao FMI e ao
Banco Mundial.
As iniciativas da UNASUL e do CELAC também foram paralisadas.
O Brasil perdeu toda, simplesmente toda, influência na África e na América do Sul.
Os aliados do Brasil estão sendo perseguidos e presos em seus países.
O país tem as suas principais empresas ameaçadas de desnacionalização.
Nossas riquezas naturais, em especial o petróleo do pré-sal, alvo de saque de capitais especulativos.
O país foi expulso dos setores do comércio internacional em que se destacava, como proteína animal e serviços de engenharia.
A indústria é destruída de maneira deliberada. Ao povo, miséria e desemprego.
O Japão e Alemanha tiveram um tratamento bem melhor durante a ocupação após a segunda guerra.
O Brasil foi derrotado sem que se disparasse um único tiro.
Essa obra não seria possível sem a colaboração de uma parcela das
classes dominantes brasileiras, que se consideram parte de uma elite
internacional, sem nenhum tipo de compromisso nacional.
E contou com uma estratégia política e de comunicação muito bem planejada e financiada.
A guerra híbrida ainda não chegou à sua conclusão.
A operação cibernética continua em ação, não apenas por parte dos círculos anglo-americanos.
O atual objetivo é evitar que o povo eleja um governo popular e nacionalista. Há ações de interferência nas eleições de 2018.
Deve-se lembrar que mais de 70% do tráfego da internet brasileira passa fisicamente por território estadunidense.
A informação, cada dia mais, chega aos brasileiros mediada pelos gigantes Google / YouTube e Facebook / WhatsApp.
O debate da sucessão presidencial se iniciou tão logo Dilma foi
derrubada. Desde então diversas candidaturas forma lançadas e retiradas.
A cada protótipo de candidato apresentado, dados foram registrados,
comportamentos e reações foram observados a partir da interação nas
redes.
Os dados processados são utilizados para embasar estratégias políticas e de comunicação das candidaturas do campo conservador.
Querendo ou não, contribuíram para isso a quase candidatura de Luciano Huck e a aventura de Bolsonaro.
Esse esforço irá desaguar no candidato escolhido pelo capital financeiro e seus aliados internacionais: Geraldo Alckmin.
Frente a esse aparato, as forças de esquerda se encontram despreparadas.
Quantos ativistas, bem-intencionados, não colaboraram para a popularidade digital de Bolsonaro?
A barbaridade de suas declarações era dirigida justamente a esse
público que, cedendo ao apelo irresistível da crítica e
compartilhamento, gerou enorme alcance de suas mensagens de forma
gratuita.
O arsenal de cascas de banana digitais é extenso: pesquisas falsas,
tretas entre forças de esquerda alimentadas por páginas e perfis de
direita, movimentos de bloqueio de opiniões divergentes consolidando
núcleos duros, mitos do tipo “pobre de direita” etc.
Assim se cria um isolamento digital que se configura em um isolamento real.
Isso porquê a atuação nas redes não é estanque da esfera offline, a vida vivida.
É parte da dinâmica social do atual estágio do desenvolvimento capitalista.
Essa assertiva vale tanto para o campo da esquerda quanto para as forças da reação.
A interação social pela internet reflete o que há de mais avançado na
formação social capitalista e, cada vez mais, condiciona as demais
mídias.
Não é mais possível fazer política de modo eficaz sem dominar a linguagem e mecânica das redes.
A tarefa dos brasileiros é recuperar o nosso país. Essa tarefa é de largo fôlego.
Passa pela vitória das forças populares as eleições de 2018 e pela
reconstrução do tecido social brasileiro esgarçado pelo regime golpista.
Envolve a elaboração de programas capazes de mobilizar a população,
pela articulação política e por medidas operacionais que levem em conta
as novas arenas de luta.
A liberdade para Lula representa a emancipação do povo brasileiro dos grilhões da ditadura judicial.
A afirmação é do jurista Luiz Moreira, que visitou o acampamento Lula Livre, em Curitiba, na manhã desta quinta-feira (12).
Ele enfatizou que, quando o PT reafirma a candidatura do ex-presidente Lula, o que o partido e as esquerdas querem “é que a soberania popular seja a forma de encaminhar a solução dos problemas nacionais”.
O jurista enfatizou que tem em curso no Brasil um processo de interdição da política, que tem seu auge na prisão política do ex-presidente Lula.
“Nunca tivemos um processo tão claro de subordinação da soberania popular aos tribunais”, afirmou.
Na sua avaliação, a saída é libertar Lula e chamar o povo para votar.
“Só eleições livres e democráticas podem desatar o nó da política nacional e recolocar o País de volta nos trilhos do desenvolvimento social”, acrescentou.
Luiz Moreira disse ainda que a sociedade brasileira está dividida, em decorrência da “ação nefasta” de grupos que atacam a todos para promover seus interesses.
“Hoje temos uma cisão entre favoráveis e contrários ao ex-presidente Lula, fomentada pelos meios de comunicação, em aliança com a Lava Jato e procuradores federais”.
A solução, reforçou o jurista, “é chamar o povo para opinar e resolver”.
Em inúmeras vezes, nas sessões do impeachment que presidiu, o ministro Ricardo Lewandowski disse ao plenário, com pequenas variações de forma: “Neste julgamento, os senadores e senadoras são juízes, estão julgando”.
Entre os 81 juízes, mais de 70 declaravam o seu voto há semanas, e o confirmaram na prática. Um princípio clássico do direito, porém, dá como vicioso e sujeito à invalidação o julgamento de juiz que assuma posição antecipada sobre a acusação a ser julgada. O que houve no hospício –assim o Senado foi identificado por seu presidente, Renan Calheiros– não foi um julgamento.
Os que negam o golpe o fazem como todos os seus antecessores em todos os tempos: nenhum golpista admitiu ser participante ou apoiador de um golpe.
Desde o seu primeiro momento e ainda pelos seus remanescentes, o golpe de 1964, por exemplo, foi chamado por seus adeptos de “Revolução Democrática de 64″. Alguns, com certo pudor, às vezes disseram ser uma revolução preventiva.
É o que faz agora, esquerdista extremado naquele tempo, o deputado José Aníbal, do PSDB, sobre a derrubada de Dilma: “É a democracia se protegendo”. Dentre os possíveis exemplos pessoais, talvez nenhum iguale Carlos Lacerda, que dedicou a maior parte da vida ao golpismo, mas não deixou de reagir com fúria se chamado de golpista.
As perícias e as evidências negaram fundamento nas duas acusações utilizadas para o processo do impeachment de Dilma. As negações foram ignoradas no Senado, em escancarada distorção do processo.
Para disfarçar essa violência, foi propagada a ideia de que a maioria dos senadores apoiaria o impeachment levada pelo “conjunto da obra” de Dilma: a crise econômica, as dificuldades da indústria, o aumento do desemprego, o deficit fiscal, a suspensão de obras públicas, as dificuldades financeiras dos Estados e outros itens citados no Congresso e na imprensa.
Se os deputados e senadores se preocupassem mesmo com esses temas do “conjunto da obra”, teríamos o Congresso que desejamos. E os jornais, a TV e os seus jornalistas estariam sempre mentindo com suas críticas, como normal geral e diária, sobre a realidade da política e dos políticos.
Nem as tais pedaladas e os créditos suplementares, desmoralizados por perícias e evidências, nem o “conjunto da obra”, cujos temas não figuram nos interesses da maioria absoluta dos parlamentares, deram base para acusações respeitáveis em um processo e um julgamento. Se, no entanto, envoltos por sofismas e manipulações, serviram para derrubar uma presidente, houve um processo, um julgamento e uma acusação ilegítimos –um golpe parlamentar. Os que o efetivaram ou apoiaram podem chamá-lo como quiserem, mas foi apenas isto e seu nome verdadeiro é só este: golpe.
Esse desastre institucional contém, apesar de tudo, um ponto positivo. A conduta dos militares das três Forças, durante toda a crise até aqui, foi invejavelmente perfeita. Do ponto de vista formal e como participação no esforço democratizante que civis da política e do empresariado estão interrompendo.
O pronunciamento de ex-presidente feito por Dilma corresponde à aspiração de grande parte do país. Mas a tarefa implícita no seu “até daqui a pouco” exigiria, em princípio, mais do que as condições atuais da nova oposição podem oferecer-lhe, no seu esfacelamento.
À vista do que são Michel Temer e os seus principais coadjuvantes, não cabem dúvidas de que os oposicionistas podem esperar muita contribuição do governo. Mas o dispositivo de apoio à situação conquistada será, a partir da Lava Jato, de meios de comunicação e do capital proveniente de empresários, uma barreira sem cuidado com limites.
Gabriela Viola mora no Tatuquara, região Sul de Curitiba, e cursou sociologia com bolsa do Prouni. Foto: Paulo Henrique de Jesus/Mídia NINJA
Por Gabriela Hoshino
Professora de sociologia da rede pública de ensino do Paraná, a jovem Gabriela Viola ficou temporariamente afastada do colégio em que trabalhava após a repercussão nacional de uma paródia feita por seus alunos.
No vídeo (ao final, deste post), estudantes do primeiro ano do ensino médio do Colégio Estadual Profª Maria Gai Grendel, do bairro Caximba, região sul de Curitiba, transformaram o funk “baile de favela” em uma música sobre as ideias de Karl Marx. O estilo musical e o conteúdo da paródia acenderam o debate acerca dos riscos do movimento “Escola Sem Partido”.
“A partir do momento em que a gente fez a junção do funk com Marx, a gente transformou o funk em uma forma de disseminação de conhecimento”, explica a professora, em entrevista ao Brasil de Fato e à Mídia Ninja. Ela conta como o episódio afetou sua vida pessoal e profissional, suas inspirações para o ensino crítico e opina sobre a relação do caso com o cenário político do Brasil.
BdF e Ninja — Em pouco tempo, o vídeo com a paródia “Karl Marx é baile de favela”, feita pelos seus alunos, viralizou nas redes sociais e seu caso ganhou repercussão nacional. Você poderia explicar melhor o que aconteceu?
Gabriela Viola – O vídeo foi um trabalho realizado em sala com os alunos do primeiro ano do ensino médio. Dentro das diretrizes curriculares, é preciso estudar os clássicos da sociologia, como Marx, Weber e Durkheim. Buscando uma aproximação com a realidade dos alunos, resolvi trabalhar a paródia, que foi divulgada na internet como uma forma de mediação, uma forma de incentivo aos alunos. Como já tinha sido divulgada a paródia da outra sala [com a música Aquele 1%, do Wesley Safadão], os alunos quiseram ver também o trabalho deles. Vivemos numa sociedade tecnológica, então os alunos têm esse contato direto com os meios de divulgação de informação.
Eu postei essa paródia no domingo à noite. Na segunda-feira, em várias páginas, que têm um pensamento político ideológico diferente do autor, começaram os ataques. Nada mais foram do que ataques políticos ideológicos. Você percebe que esses comentários não tiveram nenhum tipo de fundamentação em relação ao teórico proposto. Muito menos foram comentários voltados para a questão da educação. Esses comentários foram todos vestidos pelo discurso do ódio, propagaram ódio em relação a mim, em relação aos estudantes que participaram dessa aula e desse projeto.
Mas ao mesmo tempo, os estudantes não deixaram barato e organizaram um protesto na escola e a campanha “VoltaGabi” nas redes sociais. Pode comentar?
A partir do momento em que eu fiquei em casa por conta da repercussão desse vídeo na internet, eu não entrei mais em contato com os alunos por meio de rede social nenhuma. Me contaram que eles começaram a se mobilizar na escola, porque viram esse discurso de ódio e entenderam como uma injustiça, tanto em relação ao trabalho que fizerem, em relação a eles como estudantes e em relação a mim. Quem conhece a nossa realidade escolar somos nós. Sou eu que estou todos os dias em sala de aula e são esses estudantes que também estão em sala de aula. Então, repercutiu porque eles se sentiram injustiçados.
Para entendermos melhor o caso e também o próprio contexto de ensino e aprendizagem na escola, você pode contar um pouco mais sobre você e sua formação?
Eu cresci no Tatuquara [região Sul de Curitiba], onde fica localizado esse colégio [Colégio Estadual Profª Mara Gai Grendel]. Eu passei a minha infância, minha adolescência, minha juventude ali, e hoje eu atuo enquanto educadora nesse mesmo ambiente. Então, dessa realidade escolar e da realidade social, eu compreendo muito bem, porque eu faço parte dela.
Eu tive contato com a educação por meio de movimentos populares voltados à educação. Estudei, ingressei na universidade por meio do Prouni. Fui bolsista e, dentro da universidade, sempre defendi que ela deve se pintar de povo. A gente precisa de mais pessoas como eu dentro da universidade, que vão ser atuantes dentro da comunidade posteriormente.
Vivemos em um mundo dinamizado, com muitas interações e rapidez na troca de informações, que deve afetar também o ambiente escolar. Como é a sala de aula nesse século XXI e, a partir disso, por que a escolha de trabalhar o funk como instrumento pedagógico?
Quando você entra em sala de aula, você não está dentro de um quadrado. Os alunos têm conhecimento do mundo. Basta fazer uma pesquisa na internet, que você pode buscar qualquer pessoa em qualquer outro lugar do mundo. O problema é que você entra numa sala de aula com pessoas com a mente do século XXI e encontra uma escola arcaica, uma escola tradicional, uma escola com os moldes do século XIX. Esse processo contraditório reflete no ensino.
A partir dessa compreensão é que veio a ideia de trazer a abordagem por meio da realidade social na qual o aluno está inserido. E, daí, vem a proposta do uso do funk.
Nós não escutamos música clássica, nós escutamos outros estilos musicais. O papel da sociologia é trazer a ressignificação daquilo que já é posto.
Qual foi o objetivo desse trabalho? A gente desconstruiu aquilo que foi construído. A gente construiu o novo em cima disso. A gente pegou uma música de funk, um estilo musical que é marginalizado, e transformamos em teoria. Foi isso. A partir do momento em que a gente fez a junção do funk com Marx, a gente transformou o funk em uma forma de disseminação de conhecimento.
A junção do funk com Marx acabou virando uma bomba e a repercussão disso propulsionou o debate sobre o projeto “Escola Sem Partido”. Qual a sua opinião sobre esse projeto que defende uma “escola sem ideologia”, mas que está promovendo um verdadeiro patrulhamento ideológico?
A ‘escola sem partido’ nada mais é do que a escola de um partido só. Essa escola não respeita o que está dito na Constituição, que é a pluralidade de ideias. Respeitar a pluralidade de ideias é respeitar o sistema democrático, em que todos nós podemos pensar e agir de maneiras diferentes.
A partir do momento em que você pauta apenas uma ideologia, você está privando os alunos do conhecimento das outras. É a construção de um estudante que aceita tudo como está. Mas o papel da educação é trazer ao estudante um pensamento crítico, é fazer com que o estudante se torne um cidadão, saiba que tem direitos, mas que tem deveres também.
Outra coisa que percebemos nessa ‘escola sem partido’ é o discurso de ódio propagado. O que está por trás desse projeto? Quem são as pessoas que estão por trás dele? Elas estão em sala de aula? Elas conhecem a realidade da escola pública?
Então, existe todo um debate que deve continuar na sociedade. Nós não podemos privar os alunos do conhecimento. Eu, como professora, sou assegurada, tenho liberdade de cátedra. Eu tenho liberdade de passar aos alunos diversos teóricos. Por que eles não podem ter acesso aos outros teóricos e a outras linhas de pensamento?
Engana-se aquele que diz que o aluno chega à escola como uma ‘tabula rasa’. Não, ele vem de uma tradição, de uma cultura, do processo de socialização no qual está inserido. Nenhum aluno chega à escola sem conhecimento. Achar que o aluno é um depósito — como se fosse uma lixeira–, onde se pode apenas jogar conhecimento, é menosprezar toda a inteligência e toda a vivência daquele estudante.
A sala de aula é um processo de construção. A sala de aula é dialética. O conhecimento é dialético. E a partir do momento em que se propõe uma escola sem ideologia, se está colocando uma mordaça não só nos professores, mas também nos estudantes.
Estamos presenciando um golpe, com acirramento de posições políticas e ideológicas em âmbito nacional, o que gera uma grande tensão. Como você vê a repercussão do seu caso dentro deste contexto?
Em momentos de instabilidade política sempre há uma tendência a atitudes antidemocráticas. E essas atitudes antidemocráticas sempre são pautadas dentro do discurso de ódio. Tudo é possível, inclusive ofender o outro.
Liberdade de expressão é uma coisa, mas a liberdade de expressão não anda junto com a liberdade de opressão. Ninguém tem liberdade de oprimir ninguém. Não é tirando do aluno o direito de aprender que iremos resolver os problemas sociais e políticos do Brasil. O conhecimento liberta. E como nós vamos fazer com que a sociedade se liberte, que a humanidade se emancipe, vendando os olhos dos estudantes? É impossível.
Estamos em frente ao Palácio das Araucárias [Centro Cívico], num local onde professores foram massacrados em 2015. Serve para pensar na repressão do Estado, não só aqui no Paraná, pois o que aconteceu com você pode acontecer com vários outros professores…
Eu não sou a primeira professora que está sendo reprimida nem serei a última. Alguns não vão falar por medo, até mesmo por causa desse discurso de ódio.
Essa repressão vinda dessas linhas ideológicas, de direita, não vêm de hoje. Nós temos o exemplo do dia 29 de abril, aqui em Curitiba [dia em que professores e servidores estaduais foram massacrados pela Polícia Militar, no Centro Cívico].
Eu estava presente neste dia. Foi um dia humilhante para nós, professores. Foi um dia em que nós fomos extremamente desrespeitados enquanto classe. Foi um dia em que fomos massacrados.
Outro caso que aconteceu e que repercutiu foi a questão dos estudantes secundaristas, em São Paulo, que se mobilizaram por uma questão tão básica que é a alimentação digna. E foram duplamente reprimidos. Então, toda a vez em que há uma ascensão da luta por direitos, seja de uma classe de professores ou estudantes, a gente sente os resquícios da ditadura.
Mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar ou reforçar sobre o caso?
A única coisa que eu queria dizer para os meus alunos é que eles são pessoas incríveis. Não precisamos ter vergonha do lugar de onde viemos. Não precisamos ter vergonha de fazer parte daquela comunidade. Fazemos parte de uma comunidade unida. Eu tenho muito orgulho de ser professora deles e de continuar sendo professora deles. Nós ainda vamos construir muitas coisas juntos. É como eu sempre digo, o conhecimento não é para o aluno, o conhecimento é com o aluno. Em relação à educação e a esse assunto que gerou uma polêmica em sala de aula, nós também ainda vamos debater.
“No ponto em que se movimentam príncipe e juristas, origina-se um despotismo que mal deixa o ar para o homem respirar; quem somente refletir sobre o príncipe — e não sobre os juristas — conhecerá apenas um lado da tirania. Para conhecer o todo é necessário ter os dois – príncipe e juristas – diante dos olhos”.
As palavras acima não são de nenhum revolucionário.
Foram proferidas na obra “As condições políticas e sociais na França antes e depois de 1789” por um liberal: Alexis de Tocqueville.
Guardam força na atualidade brasileira.
O que têm realizado os juristas brasileiros diante da situação jurídica e política de 2016?
De um lado, a Ordem dos Advogados do Brasil, por seu Conselho Federal e quase a unanimidade de seus Conselhos Estaduais repetem o que já se esperava, como em 1964: apoio ao movimento golpista que afastou a Presidenta Dilma Rousseff de seu cargo.
Neste mesmo lado, juristas sustentam que não se trata de um golpe, alegando ser o afastamento da Titular do Poder Executivo nacional uma previsão constitucional.
Neste mesmo espectro, um sem número de juristas encrustados na burocracia do Estado brasileiro encarrega-se de produzir “manifestação técnicas”, as quais nada mais são do que o retrato de suas convicções políticas pessoais, camufladas de pesarosas considerações sobre “pedaladas fiscais”, “criação de despesa” sem autorização legislativa.
Nesse rol, inclui-se ainda um verdadeiro séquito de autoridades investigativas, juízes de todas as instâncias e integrantes do Ministério Público.
Bradam o combate contra a corrupção, igualmente com base em seus convencimentos pessoais, mas agora na forma de um abstrato moralismo de ocasião.
O interessante é que lhes falta qualquer linguagem quando se trata de analisar desapaixonadamente seus privilégios funcionais e salariais nada republicanos, ou quando deveriam calar diante da tentação das câmeras sobre processos que julgarão.
É o que temos, infelizmente.
Os juristas todos bem que poderiam ter aprendido com a história, e ousado reescrever sua contribuição para o Estado Democrático de direito, para a igualdade de todos perante a lei e para tolerância.
Pelo visto, parece que insistem em dar razão à Tocqueville.
Martonio Mont’Alverne Barreto Lima é doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt, professor Titular da Universidade de Fortaleza e procurador do Município de Fortaleza.