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terça-feira, 4 de junho de 2019

LULA: LER É UM ATO POLÍTICO

Lula: Ler é um ato político

Leia a íntegra da carta escrita por Lula para a quinta edição do Salão do Livro Político, que teve início hoje.

Foto: Ricardo Stuckert.

Por Luiz Inácio Lula da Silva.

[Impedido de ir ao Salão do Livro Político, para o qual foi convidado desde o ano passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos enviou a seguinte carta, que foi lida na cerimônia de abertura da quinta edição do evento nesta noite de segunda-feira, 27 de maio de 2019. A programação do Salão segue até o final da semana recheada de debates, cursos, slams, performances e muitos livros com desconto. Saiba mais ao final deste post.]
* * *
Ler é um ato político. Não é por acaso que nossos adversários, ao mesmo tempo que tentam criminalizar a política e impedir toda e qualquer forma de ativismo, atacam com tanto ódio o saber, o conhecimento. Querem mais armas e menos livros. Mais jovens presos e abatidos por disparos de helicópteros do que com acesso ao ensino público de qualidade. Disparam sua artilharia pesada contra a educação como um todo, e a universidade em especial. Agridem a ciência, estrangulam a pesquisa.
Ler é resistir. E nós resistimos nas trincheiras cavadas com tanta garra e tanto carinho por gente que nem Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e cada professora e cada professor anônimo deste país, que nossos adversários tentam inutilmente destruir. E nós resistimos, porque a vida nos ensinou, e porque aprendemos com nossos mestres.
Nossos adversários odeiam o fato de termos criado mais universidades e institutos tecnológicos do que todos os que governaram antes de nós. Distribuímos bolsas de estudo, garantimos acesso ao crédito estudantil e colocamos jovens negros e pobres no ensino superior como nunca antes na história. Criamos políticas públicas de acesso ao livro e à leitura e espalhamos bibliotecas pelo país afora.
A educação foi e será sempre a nossa maior riqueza e a nossa principal forma de resistência. É por isso que nossos adversários se surpreendem e se assustam quando uma juventude esclarecida enche as ruas em defesa da educação, lutando contra os retrocessos de um governo que tem o povo brasileiro como seu principal e mais temido inimigo.
Ler é ser livre. Estou há mais de um ano preso pelo “crime” de sonhar e trabalhar pela construção de um país onde uma pai de família não fosse mais obrigado a escolher entre comprar um pão ou um caderno para seus filhos. Onde uma mãe de família não tivesse que partir um lápis no meio para que seus filhos pudessem estudar. Por esse “crime” estou preso, e no entanto mais livre do que nunca, graças aos livros e à leitura.
Nestes 13 meses de quase solidão – não fossem as visitas de parentes e amigos e o carinho da incansável vigília na porta do cárcere em Curitiba – tenho lido muitos livros. Cavalguei com Riobaldo e Diadorim pelas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. Cruzei o Atlântico em navio negreiro ao lado de Luísa Mahin, no extraordinário romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.
Navego nas águas da ficção, mas tenho, sobretudo, me dedicado aos livros dito políticos – com a ressalva de que se ler é um ato político, todo livro é político, seja ele de poesia, romance, contos, filosofia, sociologia, economia ou ciências políticas.
Mas é o livro propriamente político, razão de ser desse Salão, que quero saudar agora. É principalmente graças aos livros que, quando a justiça for restaurada neste país, sairei da prisão sabendo mais do que quando entrei.
Um abraço a todos e todas, e viva o livro!
Luiz Inácio Lula da Silva

terça-feira, 28 de maio de 2019

Não é só mais um clichê pela democracia, por Carlos Nascimento Marciano.

 
  
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Publicado originalmente por objETHOS.


Estudantes e professores de institutos federais e universidades fazem manifestação na Avenida Presidente Vargas em protesto contra o bloqueio de verbas da educação. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Quantas pessoas unidas são necessárias para considerarmos digna uma manifestação? Bom, depende, e não só de quem conta. Parece apenas uma questão matemática, mas, na mensuração do que é benemérito na luta por direitos, faz-se necessário considerar nesse cálculo não apenas o número de participantes, e sim, principalmente, de que lado você está no tema que é defendido por quem vai às ruas.

Na última quarta-feira (15), em mais de 200 cidades houve manifestações contra o “contingenciamento” de recursos para a educação. Estudantes, militantes e simpatizantes à causa ocuparam as ruas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Com faixas, cartazes e gritos de guerra, as vozes ecoaram no horizonte democrático, cada vez mais frágil e hostil diante da divergência de pensamento.

Não há como negar que, nos últimos anos, as manifestações ganharam força como ferramenta para expor a indignação com o governo vigente, mas então por que destacar essa última, se já houve outras, talvez até com mais participantes? Ora, porque o jornalismo está aí para isso, para noticiar os fatos, acima de tudo para incomodar em prol da boa reflexão.

Ao contrário das manifestações de 2018, a do dia 15 não precede um processo eleitoral, seu foco não apoia um candidato ou outro, mas se insere em um contexto político cujas ações cada vez mais parecem desconexas ao bem da nação. Governantes e governados apoiadores parecem não olhar para frente. Insistem em ressaltar os erros do passado para legitimar suas futuras falhas, a destilar seu ódio político para deslegitimar qualquer opinião contrária.

Questionar o governo virou sinônimo de ser comunista, a imprensa que não é chapa branca está espalhando fake news, as universidades públicas que prezam pela liberdade de cátedra e não punem professores opositores merecem ter os recursos retidos.

Ao contrário do que muitos pensaram, os manifestantes do dia 15 não eram baderneiros, massa de manobra ou “idiotas úteis”, para usar as palavras do próprio presidente. Estavam na manifestação estudantes, simpatizantes e educadores que prezam pela saúde intelectual dos jovens; pelos laboratórios de referência que atraem intercambistas do mundo todo; pelo acesso democrático à educação sem distinção de raça, religião, orientação sexual ou renda familiar; pelas pesquisas reconhecidas internacionalmente como ao ser finalista em uma competição de Harvard ou ganhar o prêmio máximo na maior feira de Ciências do mundo ou ainda sair na frente no tratamento contra microcefalia.

É fato que nem toda universidade é um mar de rosas, que existem, sim, performances, pesquisas e descasos com o patrimônio público que deixam muito a desejar. Mas será que a solução está mesmo em apenas acusar os antigos governantes sem destacar alguma solução? Em “contingenciar” recursos sem ao menos deixar claros quais os critérios adotados? Em divulgar nas redes as pichações de foices e machados como símbolos da balbúrdia, mas ignorar os desenhos das suásticas, os dizeres de morte aos gays e os cartazes exaltando a KKK com sua supremacia branca?

Não foi só pelos recursos na educação pública que os manifestantes foram às ruas no dia 15, foi também para zelar pela integridade dos alunos e professores diante do discurso armamentista; pela preservação da liberdade em dialogar e estimular o pensamento crítico do aluno frente à Escola sem Partido; pela garantia de trabalhar destilando amor naquilo que faz e gozar de pelo menos 30 anos de aposentadoria sem se preocupar se terá ou não dinheiro para comprar remédios ou viajar com a família.

O governo eleito com a bandeira de ser a nova política, sem conchavos e amarras, está cada vez mais preso à velhas desculpas, ao conservadorismo, à discriminação de quem é ou pensa diferente. As universidades públicas têm, sim, problemas que devem ser enfrentados, mas também conquistas que merecem ser ressaltadas. Não se conserta uma parede apenas criticando o construtor anterior que fez o buraco; é preciso comprar os materiais adequados, realizar os ajustes e, no fim, com as benfeitorias de ambos os construtores, a casa estará sólida e digna de admiração.

Reconhecer as falhas anteriores para melhorá-las é válido; ater-se a elas para justificar as escolhas não planejadas é descaso, é desprezível. Tudo indica que as políticas educacionais hoje não tratam de planejamento, mas sim de uma rixa ideológica e partidária que não favorecerá lado nenhum. Foi isso que os manifestantes de instituições públicas e privadas quiseram mostrar no último dia 15; é isso que o governo precisa entender para além de seu egocentrismo.

Falta-lhe humildade, ou, melhor dizendo, humanidade para reconhecer que “contingenciar” investimentos na educação de um país para reestruturá-lo é o mesmo que abrir espaço em um terreno ateando fogo na nossa própria casa sem sair com a família de dentro dela.

‘NOSSA PÓS-GRADUAÇÃO VAI DEFINHAR’: CORTES DEVEM ACABAR COM METADE DOS CURSOS, por Lucindo José Quintans Júnior

Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro.
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Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
Estudantes protestam contra o corte orçamentário do governo Bolsonaro, em 6 de maio, no Rio de Janeiro.
15 de Maio de 2019, 0h02
UM PROFESSOR AMIGO MEU, que leciona em uma universidade francesa, me perguntou, de forma perplexa e incrédula, como o Congresso Nacional e as próprias Forças Armadas do Brasil permitiam que as universidades fossem atacadas com tantas calúnias e mentiras. Respondi, igualmente perplexo, que não há resposta racional para esse fato ou, pior, há uma lógica perversa no ataque.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou em uma entrevista que a Universidade Federal de Sergipe é um exemplo de ineficiência e que não tem pesquisa. A declaração é completamente falsa, mas a veiculação de embustes não é uma exceção no governo de Jair Bolsonaro. O próprio presidente disse recentemente que “(…) nas universidades, você vai na questão da pesquisa, você não tem, poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo, quando trata do grafeno”, mostrando o completo desconhecimento sobre a ciência e a tecnologia produzidas no país por ele governado.

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O Brasil é atualmente o 14º maior produtor de trabalhos científicos do mundo, segundo revela o recente artigo “Fábricas de Conhecimento”, publicado pelo Jornal da USP. Das 50 instituições que mais publicaram trabalhos científicos no país nos últimos cinco anos, 44 são universidades, sendo que 36 federais, sete estaduais e apenas uma particular.

Nesse ranking, a UFS, instituição com mais de meio século de existência e da qual sou docente há quase 13 anos, ocupa a 36ª posição como produtora de ciência do Brasil e está na 27ª entre as universidades federais, o que demonstra de modo inequívoco sua qualidade e importância dentro do cenário nacional. A UFS tem 58 programas de pós-graduação e detém cerca de 88% das matrículas de pós-graduação de Sergipe.

Sem aviso prévio, a Capes tirou a bolsa de milhares de alunos que se preparavam para iniciar suas pesquisas.
Além dos 30% “contingenciados” pelo MEC em 8 de maio, a Capes anunciou dois novos cortes, ambos sem aviso prévio. O primeiro eliminou cerca de 3,5 mil bolsas de pós-graduação em todo o país. Os PPGs da UFS perderam 13 bolsas de mestrado, duas de doutorado e três de PNPD, o que gerou um prejuízo de R$ 1,15 milhão, se levarmos em conta apenas um período de três anos.

A Capes considerou como “ociosas” bolsas que estavam em processo de cadastro de alunos ou sem vinculação no período de abril. Esse é justamente um período em que as bolsas estão sendo atribuídas aos pesquisadores. Ou seja, elas não estavam “ociosas”, mas, sim, passando de um aluno a outro, em um processo que pode levar alguns dias ou semanas. A Capes sabe disso. Sem aviso prévio, tirou a bolsa de milhares de alunos que se preparavam para iniciar suas pesquisas no Brasil inteiro.

Como se não bastasse, nessa mesma medida, anunciou um corte linear, que chamou de ‘Fase 2’, de 70% das bolsas de PPGs com duas avaliações nota 3 e um corte de 30% dos doutorados com duas avaliações nota 4 pela avaliação quadrienal. Pontuações 3 e 4 são atribuídas a cursos novos ou em consolidação, em uma escala que vai até 7. De acordo com a Capes, as bolsas serão recolhidas à medida que os titulares forem concluindo os cursos – em dois anos para mestrado, e quatro para doutorado. A retórica da Capes ao anunciar os cortes foi a “qualidade” dos PPGs.

95% da produção de conhecimento no Brasil ocorre em universidades federais.
A pós-graduação da UFS é considerada jovem pelo próprio SNPG e está em franco processo de consolidação. É comum os cursos de pós terem nota 3 e 4 nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que têm maior carência de recursos e onde as assimetrias da pós-graduação vêm sendo reduzidas somente nas últimas décadas. A medida desconsidera essas diferenças entre os estados brasileiros, a distribuição de doutores pelo país e os impactos sociais dos PPGs nas regiões. Esses programas jovens teriam boas oportunidades de subir de patamar se esses cortes não ocorressem. Só na UFS, essa fase afeta diretamente 32 cursos de mestrado e dez cursos de doutorado. Ao final desta fase, 156 bolsas de mestrado e 38 bolsas de doutorado deixarão de existir. A medida mata por inanição 32 dos 58 PPGs da UFS (55%).

A chamada “Fase 2” é desmonte da pós-graduação brasileira porque implanta mudanças estruturais que destroem princípios históricos e basilares do SNPG. O sistema trouxe importantes avanços ao longo das últimas décadas, estabelecendo critérios que levam em conta o processo de consolidação do programa, a avaliação periódica e a redução das assimetrias regionais. As universidades respondem por cerca de 99% de todo o conhecimento gerado no Brasil, sendo as públicas responsáveis por cerca de 95% deste total. Os PPGs produzem grande parte dessa valiosa produção científica que a famigerada fase 2 quer agora aniquilar. A imensa maioria dos programas com nota 5 para cima estão em universidades públicas. Elite da nossa pós-graduação, os programas nota 7 também.

Fora o ‘contigenciamento’ do MEC, os sucessivos cortes no orçamento do MCTIC também afetam os PPGs e a ciência brasileira.
Em valores absolutos, a medida gera um prejuízo colossal aos PPGs da UFS e à própria economia sergipana, que perderá, direta ou indiretamente, recursos da ordem de R$ 9,7 milhões, por ano.

O bloqueio anunciado pelo MEC também afeta o pleno funcionamento dos dois hospitais universitários da UFS 100% SUS, inclusive com serviço especializado para crianças com microcefalia, uma ameaça à saúde da população sergipana sem precedentes na história do estado.

Fora os cortes do MEC, os sucessivos cortes no orçamento do MCTIC, que chegam a mais de 48% apenas neste ano, impactam também os PPGs e toda ciência brasileira. Apenas na UFS, vários projetos de pesquisa já estão sofrendo com os cortes no MCTIC e serão fortemente prejudicados por esta última ação da Capes e o bloqueio de 30% anunciado pelo MEC. Os projetos envolvem temas prioritários para o Nordeste, como as doenças negligenciadas como o Zika vírus, chikungunya e dengue; investigações sobre segurança pública, feminicídio e violência doméstica; além das pesquisas sobre recursos hídricos e energias renováveis.

 A universidade deveria ser um dos principais sustentáculos do processo de recuperação econômica do Brasil.
Apesar do cenário catastrófico e de terror, setores importantes da sociedade vêm se mobilizando em favor da educação, da ciência e da tecnologia. A parte reflexiva e coerente do próprio Congresso Nacional cobra explicações mais convincentes que a repartição dos chocolates.

A própria SBPC questionou o governo sobre quais são, afinal, as metas do governo para a ciência no Brasil. O governo está anunciando que os cortes são baseados em “metas” “não cumpridas” que até agora não foram definidas. Na verdade, temos ainda dúvida sobre se as medidas anunciadas são acontecimentos desconexos ou um projeto de desconstrução dos pilares de uma sociedade civilizada, como educação, ciência, tecnologia e inovação. A universidade, especialmente a pública, deveria ser um dos principais sustentáculos do processo de recuperação econômica do Brasil, e não a ‘Geni’ da vez.

Dependemos do apoio de leitores como vo

terça-feira, 14 de maio de 2019

Quarta-feira, tsunami!, por Pedro Gorki


“Com roupas negras, iremos às ruas. E cada estudante tem uma mãe, um pai, um vizinho que não concorda com a retirada de dinheiro da educação e que precisa de muito pouco para ser convencido protestar conosco”
Na segunda-feira, 6/5, eu estava junto às centenas de estudantes que protestavam do lado de fora do Colégio Militar do Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca. Dentro, o presidente Jair Bolsonaro, cujo governo anunciou, recentemente, o corte de 30% do dinheiro da educação. Enquanto Bolsonaro estava fechado, cercado por alto esquema de segurança, com medo da reação popular e de encarar os jovens que lá estavam, o protesto dos secundaristas ganhava o apoio da população, das pessoas que passavam a pé, nos carros, dos trabalhadores, de quem escutava as reivindicações e concordava com elas.
A reação popular contra os cortes na educação, liderada pelo movimento estudantil secundarista e universitário, pode resultar nas maiores manifestações do Brasil desde a posse presidencial em janeiro. Até Bolsonaro já sabe que essa foi a gota d’água que vai virar um tsunami. Bolsonaro não gosta muito de estudar e não é lá muito bom de história – a ponto de falar que a ditadura no Brasil não existiu ou que os ditadores assassinos de países como o Chile e o Paraguai foram pessoas importantes. Mas ao ignorar ou desconhecer que, neste mesmo continente, foi a juventude que enfrentou e derrubou os regimes mais autoritários, pode ter cometido um erro que as ruas não vão perdoar. Nós vamos para cima.
O movimento estudantil está protagonizando, nas diversas regiões do país, um levante unificado contra a tentativa de destruição do nosso ensino. Toda essa força vai desaguar, no dia 15 de maio, em uma jornada nacional nas ruas, nos institutos federais, nos colégios, construindo uma grande paralisação nacional da educação.
A mobilização dos atos foi rápida. Em poucos dias, o movimento se espalhou em assembleias, debates, protestos, ações diretas. Os jovens têm acompanhado com preocupação a transformação ideológica covarde de um Ministério da Educação que vira as costas para alunos e professores, voltando-se apenas para o fanatismo de extrema direita e para os lucros do setor educacional privado. A declaração do ministro Abraham Weintrub de que as universidades públicas devem ser punidas por promover “balbúrdia” foi a gota d’água.
Ao atacar o ensino superior, o governo mentiu, dizendo priorizar a educação básica. Mas o MEC cortou recursos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio. Um bloqueio de pelo menos R$2,4 bilhões de reais.
Enquanto publica decretos de posse de arma para enriquecer a indústria do tiro e tenta emplacar a reforma da Previdência e o fim das aposentadorias para agradar aos bancos e a previdência privada, Bolsonaro tira dos salário dos professores, da merenda, dos laboratórios, das bibliotecas, da reforma das quadras e das salas de aula das escolas públicas. E é por isso que a UBES e o movimento estudantil secundarista estão no centro desse debate e vão conduzir os milhões de estudantes da educação básica para resistir a esse governo. Vamos ensinar ao ministro da Educação que as escolas e universidades brasileiras devem ser prioridade, inclusive para garantir o crescimento econômico.
Mais de 100 institutos federais já deram o seu recado, aderindo à campanha #TiraAMãodoMeuIF. O movimento já conta com paralisações e protestos em todos os 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Com roupas pretas e palavras de ordem, os secundaristas denunciam que, devido aos cortes no orçamento das instituições, muitos alunos não poderão, sequer, concluir o ano letivo. Não bastasse promover a perseguição nas escolas, a censura de alunos e professores; a tentativa de obrigar todos os estudantes do Brasil a repetir o seu slogan partidário de campanha eleitoral no pátio das instituições, Bolsonaro agora quer estrangular a juventude da forma mais direta e cruel: tirando os poucos recursos do setor educacional e tentando matar de fome o sistema de ensino brasileiro.
O que o governo não sabe é que essa mesma juventude já resistiu a momentos tão ou mais duros que esse, ao longo dos últimos 70 anos. E tem uma força invencível quando está unida. Já derrubamos presidentes e ditadores quando conseguimos contagiar a sociedade e ela ficou do nosso lado. Cada estudante secundarista também tem uma mãe, um pai, um vizinho que não concorda com a retirada de dinheiro da educação e que precisa de muito pouco para ser convencido a ir às ruas conosco. E se isso acontecer, já seremos numericamente um movimento incontrolável e incontornável. Um governo que perde popularidade de forma inédita nos seus cinco primeiros meses, deveria ter mais sabedoria ao escolher seus inimigos. Mexer com a juventude brasileira é coisa séria. Não aos cortes. Vamos à luta!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

POR DENTRO DA PARANOIA OLAVISTA DO NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, ABRAHAM WEINTRAUB, por João Filho.

João Filho
14 de Abril de 2019, 9h19
“OS COMUNISTAS ESTÃO no topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios”. Quem fala uma bobagem dessas jamais poderia estar junto na mesma sentença com a palavra “educação”, mas são frases saídas da boca do novo chefe do Ministério da…Educação.

“Trocaram um pseudo olavete por um verdadeiro olavete”, comentou um sorridente Olavo de Carvalho sobre a troca de ministros do MEC. O guru de araque do bolsonarismo continuará sendo o principal influenciador do ministério que tem o segundo maior orçamento do governo.

Desde antes da posse já estava claro que o obscurantismo tomaria conta do MEC. Bolsonaro chegou a convidar Mozart Ramos, um especialista na área com experiência na administração pública, mas foi obrigado a desconvidar após veto da bancada evangélica. Mozart não representaria bem a chucrice bolsonarista. Vélez então foi o nome indicado por Olavo e, em três meses, destruiu o ministério. Sem nenhuma competência para o cargo, o ex-ministro nada fez a não ser jogar uma crise por semana no colo do governo. A falta de experiência e o excesso de ideologização foram as principais causas para o desastre. E o que fez o presidente para fazer a máquina voltar a andar? Colocou em seu lugar Abraham Weintraub, uma nova marionete de Olavo sem nenhum serviço prestado na área da educação. É tecnicamente impossível haver um nome com experiência no setor que seja olavista. São coisas de naturezas incompatíveis.

O maior problema do MEC hoje se chama Olavo de Carvalho, mas o diagnóstico de Bolsonaro para o desastre da gestão Vélez foi a “falta de gestão”. Weintraub foi escolhido por sua experiência em gestão na área financeira. Foi executivo do Banco Votorantim e membro do comitê da BM&FBovespa. É um especialista em previdência e mercado financeiro. Sua única experiência em educação foi dando aula de Ciências Contábeis. A gestão na área financeira não tem nada a ver com gestão pública da educação de um país. É claro que a experiência em um setor pode ajudar em outro, mas muito pouco. São mundos completamente diferentes.

Apesar dessa pequena vantagem técnica em relação ao ministro anterior, tudo indica que Weintraub irá pisar o pé no acelerador do olavismo. O novo ministro bebe da mesma groselha lisérgica do anterior, com o agravante de ser mais determinado em colocar as loucuras em prática. Ele se vê como um gladiador anti-globalista em uma cruzada ideológica contra o marxismo cultural que lava a cabeça das nossas criancinhas. Algumas falas do “verdadeiro olavete” mostram que essa visão esquizofrênica de mundo continuará norteando a administração do MEC:

“O socialista é a Aids; e o comunista, a doença oportunista”

“Quando um esquerdista chegar para você com o papo ‘nhoim nhoim’, xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais”

“Hoje, a América do Sul, e o Brasil em particular, faz parte do espaço vital de uma estratégia clara para a tomada de poder por grupos totalitários socialistas e comunistas. (…) O crack foi introduzido no Brasil de caso pensado. Vejam os arquivos, está na internet!”

Onde sobra ideologia costuma faltar conhecimento. E a falta de conhecimento de Weintraub sobre a área que vai assumir é gritante. No ano passado, ele afirmou que o Brasil investe em educação como os países ricos, mas tem o mesmo resultado dos países pobres. Não é verdade. E nem é preciso ser um especialista na área para saber disso. Basta estar atento ao noticiário. O valor gasto pelo Brasil é menos da metade da média gasta pelos países da OCDE. O investimento por estudante é muito menor do que o de países ricos. O homem que vai comandar o MEC desconhece essa informação básica.

Bom, se o novo ministro não manja nada do setor, seria prudente contratar gente que entende do riscado para trabalhar com ele, não é mesmo? Mas bom senso não é algo que se possa esperar de um discípulo de Olavo. Todos os novos secretários anunciados nunca tiveram um mínimo contato com políticas educacionais. A única secretaria que manteve o titular foi a da Alfabetização, que tem um ex-aluno de Olavo de Carvalho no comando.

A nomeação de Weintraub deixou as universidades federais preocupadas. Nada mais natural. O discurso autoritário do novo ministro é, sim, motivo para apreensão. Nós sabemos muito bem o que pensa um olavista sobre as universidades. Somado a isso, há o histórico recente de perseguição da Polícia Federal às universidades. Como esquecer do caso Cancellier, o reitor da UFSC que foi preso sem provas pela Polícia Federal, destruindo sua reputação e o levando ao suicídio? Mesmo depois de provada a sua inocência, Sérgio Moro, que agora comanda a Polícia Federal, premiou a delegada responsável pelo caso com um cargo no seu ministério. Há motivos de sobra para as universidades federais temerem o governo Bolsonaro.

Nada indica que Weintraub será um parceiro das universidades federais, muito pelo contrário. Ele inclusive já disse que foi perseguido por professores e alunos na universidade federal onde leciona por apoiar Bolsonaro. Como será que os reitores das federais serão tratados por aquele que afirma que todos eles são comunistas? Ele já disse que não se deve debater com esquerdistas, apenas xingar.

O ex-ministro do MEC de Temer, Mendonça, se aconselhava com Mozart Ramos, o ministro que Bolsonaro desconvidou. Um dos conselhos foi evitar conflitos com universidades para que o país não entrasse num clima de greve geral. Um conselho valoroso que Weintraub provavelmente não seguirá, já que acredita que é preciso “vencer o marxismo cultural nas universidades”. E, para um bom olavista, qualquer um que não seja olavista é um agente propagador do marxismo cultural. Não tem como não dar errado.

Durante a cerimônia de posse de Weintraub, Bolsonaro discursou: “Os nossos ministros são como uma corrente que tem que puxar o Brasil pra frente. E não tem ministério mais forte que o elo mais fraco dessa corrente”. A frase não faz o menor sentido e, por isso, define bem a atuação do governo Bolsonaro na área da educação até aqui.

O MEC é provavelmente o ministério mais difícil de administrar. As demandas administrativas da pasta são muito específicas e complexas, além de estar cercada por disputas políticas em vários níveis que precisam ser respeitadas. O caminho que está sendo tomado é ruim. Weintraub não apresentou nada relevante em seu discurso de posse a não ser a ladainha ideológica e as platitudes bolsonaristas de sempre. Não apresentou planos, metas, nada de concreto. A prioridade é o combate ao comunismo. Ele luta contra os mesmos moinhos de vento que atormentavam Vélez, só que com mais fervor e disposição. A coisa pode piorar. Um olavete cheio de iniciativa em posição de poder é uma arma de destruição em massa.

domingo, 7 de abril de 2019

Tábata Amaral: 'Sou chamada de delinquente e débil mental no Congresso'


A visibilidade nacional, no entanto, chegou só na semana passada, quando Amaral protagonizou um debate duro com o ministro da Educação, Ricardo Vélez. "Em um trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis?", diz a parlamentar estreante de 25 anos em um vídeo compartilhado milhares de vezes.
Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil na Universidade de Harvard, onde participa de roda de palestras, Amaral falou sobre a rotina no Congresso, que classifica como "um ambiente que tenta te expulsar rapidamente". E conta que sofre recorrentemente assédio e preconceito.
"Já perdi a conta do número de vezes em que alguém insinuou que eu era burra ou não tinha nenhum conhecimento", diz. "Sou chamada de burra, delinquente, débil mental e outras coisas que já me chamaram em plenário."
"As pessoas chegam e perguntam se sou casada no meio de uma votação, vêm me tocar de uma maneira que não é adequada para uma parlamentar. É um ambiente muito arisco para as mulheres."
Também falou sobre a possível mudança do ministro, ventilada pelo presidente Jair Bolsonaro na última sexta-feira.
"A gente não vai aceitar qualquer tipo de ministro", diz.
"O maior exemplo que eu dou: o ministro da Economia, se não tivesse a menor experiência de gestão ou com economia, não teria sobrevivido uma semana no cargo. Por que a gente demora tanto para se incomodar com o ministro da Educação?"
Criada na Vila Missionária, bairro pobre paulistano, e novata no Congresso, Amaral já trabalhou como pesquisadora, professora, funcionária de secretarias de educação e estudou na universidade de Harvard, graças a bolsas de estudos. Filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista, ela ganhou pelo menos 30 medalhas em concursos de matemática, astronomia, física e robótica.
"O nosso vestibular é muito burro, para falar português claro. Ele olha quem chegou mais longe, e não quem correu mais", diz. "Não passei na Unicamp e no ITA, mas passei nas seis melhores faculdades dos EUA com bolsa completa. Porque no vestibular daqui (EUA) eu falei que trabalhava desde os meus 7 anos. E isso contou."
A deputada, que se classifica como "progressista", de "centro-esquerda" e defende cotas sociais e raciais, diz acreditar que a universidade pública é um ambiente elitista, frequentado por ricos.
"Se uma pessoa tem condições de pagar por uma faculdade, acho que ela deveria. E quem não tem condições, não tem que fazer financiamento, não tem que fazer nada, tem que ter a faculdade pública."
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - Como viu a repercussão do seu debate com o ministro da Educação?
Tabata Amaral - Aquela não foi a primeira tentativa de conversar com o ministro. A praxe é que ele participe da primeira reunião da Comissão de Educação e ele não foi. Para mim, as pessoas se identificaram com o vídeo porque esta é a pasta mais importante do país, num dos países mais desiguais do mundo, e não víamos nada acontecendo, só fumaça, desmandos e polêmicas.
A repercussão do vídeo deixa um sentimento de que esse é o trabalho do parlamentar. Não é só legislar, é fiscalizar o governo também. E não deveria ser estranho que a gente pedisse como parlamentares quais são os planos e ideias.
Depois só ficou a certeza de que de fato não há um planejamento dentro do ministério. Parece que não há sequer um ministério. O MEC (Ministério da Educação) não se posiciona com os cortes de pessoas e verbas, não se posiciona quando é o ministério da Economia, que chama uma discussão sobre o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). O MEC foi como convidado a uma reunião sobre isso. Soma tudo isso com a falta de qualquer plano e para a gente dá uma revolta muito grande.
BBC News Brasil - Como avalia a reação do ministro às suas colocações?
Amaral - Não sei nem o que dizer. O ministro não tem a menor experiência com a educação pública brasileira, a menor experiência com gestão, e o que mais incomoda é que não há a menor disposição de aprender ou ouvir as pessoas que estão interessadas.
Já que o ministro não tem um plano, não sabe quantos alunos há na rede, qual é a verba, qual a diretriz para o ensino técnico, isso tem que vir da sociedade e do Congresso. Dali eu não espero que venha mais nada.
BBC News Brasil - O presidente Bolsonaro acenou uma perspectiva mais clara de substituição do ministro. Isso traz algum tipo de esperança à senhora?
Amaral - Dado o cenário de total paralisia e ausência do MEC nos principais debates, sim, eu fico pelo menos muito atenta para entender se dessa vez vem alguém com um pouco de experiência e conhecimento.
Algumas pessoas não entenderam que neste momento eu não estou muito preocupada com o posicionamento ideológico de quem vai ocupar essa pasta. Porque está tudo paralisado, corremos o risco de não ter Enem. O Brasil corre o risco de não fazer as principais avaliações. Só quero alguém que conheça a educação pública e tenha experiência em gestão. A gente só vai descobrir na segunda-feira. Mas há espaço para o Parlamento e para a população dizer: 'A gente não vai aceitar qualquer tipo de ministro'
O maior exemplo que eu dou: o ministro da economia, se não tivesse a menor experiência de gestão ou com economia, não teria sobrevivido uma semana no cargo. Por que a gente demora tanto para se incomodar com o ministro da Educação?
BBC News Brasil - A senhora destacou com ênfase que ele tinha uma mera carta de intenções, mas não um projeto concreto. Que projeto a senhora propõe?
Amaral - O MEC tem que apresentar sua visão para o Fundeb. Ele vence no próximo ano e não é possível que o principal motor da educação pública não receba a menor atenção do ministério. Que modelo eles estão propondo? Apoiam que o Fundeb vá para a Constituição? Como fazer que ele seja mais redistributivo? Como olhar para as práticas de gestão e resultados? O ministério não pode se ausentar dessa discussão, temos basicamente um ano para fazer isso. Quando vai apresentar?
Outra coisa paralisada é a questão da formação dos professores. A gente tinha começado a avançar nessa discussão e não tem mais nada. O Brasil é um dos poucos países que se dizem comprometidos com a educação pública e não tem uma política nacional de formação. O que a gente espera de um professor depois de quatro anos? Que queremos avaliar depois da formação? Qualquer tipo de formação vale? Educação a distância faz sentido para todos os anos?
Além das políticas que já estavam em andamento e estão paralisadas. Implementação da base comum curricular, municípios precisam de apoio nessa área, implementação da reforma do ensino médio, uma política de ensino técnico. Tudo isso não são coisas muito muito complexas, já estavam encaminhadas no MEC e foram engavetadas e foram deixadas de lado hoje.
BBC News Brasil - A senhora é uma estreante no Congresso, como quase metade dos congressistas hoje em dia. Como é aquele ambiente? O que pode contar para quem nunca pisou no Salão Verde?
Amaral - Trabalho com educação há quase 10 anos. Já trabalhei como pesquisadora, professora, em secretarias de educação. As figuras de educação da política nacional eu conhecia. Ou porque fiz pressão sobre elas, com abaixo-assinados, protestos, etc, ou porque elas estavam abertas para o diálogo com a juventude. Para mim, essa é a porta de entrada e eu quero realmente dedicar meu mandato a essa área.
Sobre o dia a dia no Congresso, é um aprendizado rápido e muito difícil. É um lugar que não está acostumado com pessoas como eu e diariamente sou questionada sobre como fui parar ali. Eu não sou filha de político, não sou herdeira e estou muito longe de ser um fenômeno da internet. As pessoas não entendem. Elas perguntam mesmo: 'você é filha de alguém?', 'você é dona de alguma empresa?', 'você é casada ou solteira?', 'você não é deputada estadual?'. Eu sei a ordem em que as perguntas chegam.
É um ambiente que tenta te expulsar rapidamente. Mas sempre que vejo as pessoas da minha comunidade, principalmente a juventude e as mulheres que olham para mim e sentem que a educação é para a gente também, você enfrenta o preconceito, o assedio, as piadas, e continua trabalhando e aprendendo.
BBC News Brasil - Assédio, preconceito e machismo são problemas reais ali dentro?
Amaral - Com certeza. Já perdi a conta do número de vezes em que alguém insinuou que eu era burra ou não tinha nenhum conhecimento. Eu estudei astrofísica, fui bolsista pelas Olimpíadas de Matemática. Eu só andava com os meninos que gostavam de ciência e sempre tive muito contato com o machismo porque as pessoas não entendiam como uma menina gostava de ciências. E toda vez tentavam dizer que eu não era tão boa por ser uma menina.
Então, quando eu entro no Congresso e sou chamada de burra, delinquente, débil mental e outras coisas que já me chamaram em plenário… É um risco muito fácil você acreditar porque está todo mundo dizendo que você não é boa o suficiente.
Tem assédio, as pessoas chegam e perguntam se sou casada no meio de uma votação, vêm me tocar de uma maneira que não é adequada para uma parlamentar. É um ambiente muito arisco para as mulheres. As pessoas não te encaixam ali e querem te expulsar e convencer que você nao deveria estar ali.
BBC News Brasil - Na repercussão do vídeo, houve setores mais radicais que desconsideram a conversa e criticaram a senhora por não ser de esquerda, por exemplo. Como viu isso?
Amaral - As pessoas tem uma necessidade muito grande de rotular os outros porque o nosso cérebro funciona assim. Eu tenho uma vida muito diferente. Conhecer a periferia e conhecer Harvard me definem mais que qualquer um dos dois extremos. Não sou mais só alguém da periferia, porque tive oportunidades que ninguém teve, mas também não sou só uma ex-aluna de Harvard, porque não fui aos mesmos museus, aos mesmos parques, e não tenho a mesma rede de contato.
As duas coisas fazem de mim quem eu sou. Da mesma forma que as pessoas no Congresso ficam perplexas e incomodadas porque não faz sentido eu estar ali, as outras pessoas também ficam muito agoniadas porque não conseguem me encaixar em caixinhas.
Eu me considero progressista, essa para mim é uma excelente apresentação. Para mim o maior problema do Brasil é a desigualdade, minha maior missão é com educação pública de qualidade para todos, mas acho que faz sentido falarmos de gestão eficiente, desenvolvimento econômico sustentável, e se as pessoas se incomodam porque isso não caracteriza alguém típico de extrema esquerda ou direita, sinto muito, eu vou continuar trabalhando.
BBC News Brasil - A senhora falou em dois lados. É errado enxergá-la no centro?
Amaral - Acho que direita e esquerda são termos muito antigos que não explicam o mundo de hoje. Foram cunhados há 200 anos, quando não se entendia o que é feminismo ou desenvolvimento sustentável.
Se tivesse que me colocar no espectro, eu me colocaria na centro-esquerda. Mas sinceramente que no futuro progressista diga mais sobre quem eu sou.
BBC News Brasil - Como foi sua trajetória até Harvard e depois ao Congresso nacional?
Amaral - Minhas oportunidades na educação começaram com olimpíadas de matemática nas escolas públicas, uma política do governo federal em 2005. Com essa oportunidade e uma professora da escola estadual que me ajudou a me preparar para a competição, eu ganhei uma bolsa de estudos para escola particular e uma para estudar inglês.
Eu trabalho desde pequena, bordava e fazia artesanato para ajudar em casa, e não pensava no que faria depois do Ensino Médio. Ninguém nunca nem tinha me posto essa possibilidade. Essa foi a grande diferença. Eu passei a estar em lugares em que as pessoas acreditavam que se podia fazer faculdade. Foi assim que vim parar em Harvard. Com uma bolsa da faculdade, quase sem falar inglês, mas com professores que acreditaram em mim. Vim em agosto de 2012 e terminei em maio de 2016.
Eu cresci na periferia. Já perdi a conta do número de amigos e vizinhos que perdi com 14 ou 15 anos para as drogas, crime, violência. Perdi meu pai com 39 anos para as drogas. Eu não saí de um lugar para o outro, passei a viver em dois mundos completamente diferentes e vivo neles ainda. Me identifico com a periferia, aprendi muito em Harvard, mas não vivo 100% em nenhum dos dois mundos. Isso que me levou para a educação e para a política.
BBC News Brasil - Como vê políticas afirmativas, cotas por cor ou situação econômica?
Amaral - É importante olhar para as evidências e a realidade das pessoas e esses dois elementos mostram que alunos de escola pública saem muito atrás na corrida. E que alunos negros da escola pública saem ainda mais atrás.
O nosso vestibular é muito burro, para falar português claro. Ele olha quem chegou mais longe, e não quem correu mais. Eu não passei na Unicamp e no ITA, mas passei nas seis melhores faculdades dos EUA com bolsa completa. Porque no vestibular daqui (EUA)eu falei que trabalhava desde os meus 7 anos. E isso contou. Eu contei a minha história.
Quando o nosso vestibular é tão ignorante e quando o ponto de partida é tão desigual, as cotas são as maneiras que temos hoje de igualar um pouco esse ponto de partida. Mas acho que temos que mudar o vestibular como um todo. Tem que olhar para a trajetória da pessoa, para a renda. Não é só uma prova. Hoje sou a favor das duas cotas porque dentro da escola pública há uma desigualdade racial.
BBC News Brasil - E sobre o fim do ensino público superior gratuito?
Amaral - Nesse momento não acho que há ambiente para se falar em cobrança dentro do ensino superior. Defendo ampliar as formas que as universidades podem se financiar. Para mim, uma faculdade pode fazer uma parceria com empresas, como vi aqui em Harvard, para construir conhecimento. Para mim, uma universidade pode receber doações, inclusive de ex-alunos.
Agora, em um futuro, acho que vale sim uma discussão nesse sentido. Se uma pessoa tem condições de pagar por uma faculdade, acho que ela deveria. E quem não tem condições, não tem que fazer financiamento, não tem que fazer nada, tem que ter a faculdade pública.
Se você vê os carrões que estão na faculdade de física da USP, vê que a faculdade pública é para a elite hoje. Ou a gente muda o vestibular para dar chances iguais para todo mundo e para de financiar apenas um grupo da sociedade, ou a gente no futuro começa a cobrar de quem pode pagar e deixa a faculdade gratuita para quem precisa. Mas esse momento não chegou ainda.
BBC News Brasil - Há alguma perspectiva de tempo para que essa discussão esteja mais madura?
Amaral - Não, não é uma coisa de tempo, mas de mudar como vemos o Ensino Superior. Ele é extremamente elitizado, quem vai para a faculdade pública é quem teve muito acesso e oportunidade. Isso tem que mudar antes de falarmos de mudança de mentalidade.

ELEIÇÕES – PORQUE POLÍTICA SE APRENDE NO COLÉGIO, por Eduardo Escorel

Documentário usa disputa por grêmio escolar para discutir condições de ensino, democracia e conjuntura  

EDUARDO ESCOREL
03abr2019_11h58
E
m toda eleição, quem perde fica decepcionado. Nada mais natural. Insólito é grande número de eleitores que votaram em quem ganhou estarem desapontados poucos meses depois do vencedor tomar posse.

Quem desde sempre considerou o atual presidente da República despreparado para a função não sente nenhum prazer em constatar que tinha razão. Mas lamenta ver o país desgovernado, inclusive sem política educacional e cultural. E se pergunta por quanto tempo, ainda, essa aventura irá perdurar.
O desfecho da eleição do ano passado resultou, em parte ao menos, do fato de milhões de eleitores não terem sabido avaliar em quem estavam votando. Não mediram a gravidade da sua escolha. Para rejeitar um candidato, deram seu voto de maneira irresponsável a um capitão reformado do Exército, de extrema direita, um deputado federal sem experiência em cargo executivo. Assim fazendo, votaram mal. Faltou a todos conhecimento mínimo de política e lucidez suficiente para não se  deixarem iludir.
Nesse contexto, Eleições, de Alice Riff, é especialmente oportuno – o documentário permite testemunhar a experiência de aprendizagem política, feita com adolescentes, de fevereiro a abril de 2018, na Escola Estadual Doutor Alarico Silveira, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Isso, sem esquecer a relevância do assunto face ao alto índice de evasão escolar no ensino médio do país.
Mesmo assim, o filme sumiu do circuito apenas duas semanas depois de estrear em 14 de março. Com uma sessão por dia, em dois cinemas, um no Rio, outro em São Paulo, foi visto por 1 015 espectadores, e rendeu 7 480 reais (dados do portal Filme B). Ter atraído público tão reduzido demonstra, por si só, a concentração do mercado exibidor em atrações divertidas, assim como a inércia de eleitores carentes de ensino político.  
Eleições continua disponível para sessões públicas e gratuitas na plataforma videocamp.comonde já teve 105 exibições. A maioria em escolas nas quais 2 390 estudantes assistiram ao documentário. Outros mil viram o filme nas exibições fechadas, feitas pela manhã para escolas públicas, seguidas de debate com alunos, professores e jovens que participaram da filmagem (dados fornecidos pela produtora Studio Riff).
Além disso, desde a semana passada, Eleições começou a ser exibido no Circuito Spcine, que tem vinte salas em bairros da periferia de São Paulo e quatro na Zona Central da cidade. É um trabalho de “formiguinha”, Riff admite, mas que procura uma alternativa à demanda escassa no circuito convencional de salas.
A produção de Eleições foi patrocinada na íntegra por uma empresa privada, depois do projeto ser escolhido no edital Videocamp de Filmes, iniciativa do Instituto Alana, em 2017, para filmes com o tema “diálogos”.
Lançando mão de três variantes de registro, Eleições acompanha quatro chapas candidatas à diretoria do grêmio da escola. A principal maneira de filmar é baseada na observação, feita a partir de um acordo tácito, pelo qual os jovens aparentam desconhecer a presença da câmera; outra estratégia, oposta à anterior e recorrente durante o filme, é a de duas supostas youtubers que atuam interagindo diretamente com o espectador; a terceira variação de linguagem, usada apenas uma vez, é a dos vídeos de propaganda política.
A alternância de estilos assegura tanto o andamento justo da montagem de Yuri Amaral, ora mais rápido, ora mais vagaroso, quanto a visão abrangente, destituída de sectarismo, da escola, de seus professores, alunos e diretoria, da carência de suas instalações e da própria campanha eleitoral.
No primeiro dia de aula, o professor de sociologia Anderson Righetto assinala que, em todas as aulas, tudo que ele fala sobre política é comumente associado “por preconceito” à corrupção, porque “nosso país tem um histórico muito grande, desde quando foi descoberto até hoje, sobre esse assunto”.
Além disso, Righetto enfatiza que 2018 é ano de eleições em âmbito nacional, pergunta “o que são as eleições e o que temos também para escolher [na escola] este ano através de uma votação”. “O grêmio”, responde uma aluna timidamente. “O grêmio”, confirma o professor e completa: “Alguém aqui acompanhou a atuação do grêmio ano passado, ou participou de uma chapa?”
Uma aluna comenta a experiência do ano anterior: “Eles tentaram fazer alguma coisa, mas não dependia só deles”; outra, diz que “o grêmio deveria pedir para melhorar um pouco a comida da escola por que quase ninguém se satisfaz com essa comida”; um aluno propõe que o bebedouro seja mudado de lugar para ficar mais perto das salas de aula. Propostas variadas, umas pertinentes, outras nem tanto, que coexistem com certo desencanto e se repetem ao longo do filme.
Após as intervenções iniciais, Righetto pergunta: “Alguém cogita alguma possibilidade do que poderia mudar no Brasil com um novo presidente? E aí? Ninguém?” As perguntas ficam no ar, sem resposta. O prólogo termina e surge o título em letras brancas sobre fundo preto.
IMAGEM DE DIVULGAÇÃO

N
esses 3’40” iniciais, o tema de Eleições fica definido – a eleição para a diretoria do grêmio é situada no contexto da eleição presidencial, marcada para oito meses depois. Atuando como uma espécie de mestre de cerimônias, Righetto não poderia ser mais pedagógico ao se dirigir aos alunos: “Vocês têm que pensar, claro, na realidade da escola que é onde vocês vão atuar, mas é um primeiro passo para vocês terem um contato político. Então, não é pensar só na escola, mas ver aonde vocês podem atuar: na sociedade, na cidade, no país, no mundo.”

Depois da primeira intervenção descontraída da dupla de youtubers Laura Felix da Luz e Livia Santos Martins, na qual elas se apresentam e dão o tom bem-humorado de suas participações, elas entrevistam duas integrantes da chapa Rosa que está fazendo um abaixo-assinado pela volta do som no intervalos das aulas, proibido desde o ano anterior.
A reconquista desse direito teria sido decisiva no resultado da eleição e proporciona outros momentos de descontração total. Os alunos cantam e dançam no pátio, como se estivessem em um musical.
O primeiro debate entre as quatro chapas (ID, PAS, Mais Diversidade e Rosa) tem início com uma foto de Marielle Franco projetada na tela armada no centro do palco. Ela fora assassinada na semana anterior. Ao abrir a discussão, Righetto explica: “A importância da Marielle e a associação com o grêmio é que ela foi uma mulher que estava lutando por seus direitos. Então, a questão de vocês gremistas é essa também. É lutar por uma escola melhor. Mas não é para representar um interesse pessoal, é um interesse coletivo.”
Washington Penha é o primeiro aluno a falar: “O que levou a gente a querer criar a nossa chapa é a indignação com o estado da nossa escola. Esta é a intenção da gente ter levantado a ID.”
Clóvis de Moura, representante da chapa PAS, admite que o objetivo inicial deles foi “sair da sala” de aula. Depois, “a gente foi vendo que a escola precisava de mudanças, realmente, e a gente começou a levar a sério. Aquilo parou de ser uma brincadeira.”
Felipe Quiin apresenta a mensagem da Mais Diversidade como sendo “mostrar para vocês que a minoria pode ser a mudança de tudo. A gente envolve um conceito maior de várias pessoas, seja gay, lésbica, hétero, pobre, rico, gordo, negro, branco. É isso que a gente quer transmitir para vocês”.
Amanda Gomes, da Rosa, propõe “criar um diálogo entre o corpo docente e a escola. É por isso que a gente vai lutar e fazer o máximo pra que ocorram mudanças o mais rápido possível, porque a gente acredita na escola e no potencial que ela tem e que vocês têm”.
Ao menos da maneira como são apresentadas no filme, as propostas das chapas têm um denominador comum – mudanças. Quais, não fica claro. Apenas a Mais Diversidade se diferencia ao assinalar a força das minorias como uma de suas bandeiras.
Mesmo sem serem explicitados pelos alunos, porém, Eleições deixa claro que há diversos problemas a enfrentar: o mau estado do prédio, espaços ociosos, o abismo entre o vocabulário dos alunos usado em uma reivindicação e os termos empolados da diretora ao responder, a violência da Ronda Policial, aulas ditadas e anotadas com tédio, baixo aproveitamento, desconhecimento das atribuições do grêmio etc.
Cerca de seiscentos alunos votaram na eleição e a chapa vitoriosa ganhou por uma diferença de 100 votos. Quando o resultado é anunciado, a decepção com a derrota está estampada no rosto de um candidato. Seria preciso conferir se, passada a euforia inicial, os eleitores de quem ganhou ficaram ou não desapontados em seguida.
Participar da campanha foi um aprendizado político que se renova agora, cada vez que Eleições é exibido em outras escolas. A partir de 2020, quando muitos desses estudantes, com mais de 16 anos, terão se tornado eleitores fora do âmbito escolar, restará verificar se elegerão políticos mais qualificados do que a maioria dos atuais.
Pesquisa recente indica que, mantido o ritmo atual, o Brasil “pode levar até duzentos anos – equivalente a quinze gerações – para atingir a universalização do atendimento escolar a jovens de 15 a 17 anos” (“Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens”, pesquisa conduzida por Ricardo Paes de Barros). Através da integração e cumplicidade criativa entre a equipe e os alunos, Eleiçõescontribui para fortalecer os vínculos entre os estudantes e a escola, e minorar a tendência a abandonarem os estudos.

EDUARDO ESCOREL

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45