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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Revolução Russa: mitos, erros e atualidade (2), por Eduardo Mancuso

on 24/10/2017Categorias: Autores, Destaques, Mundo
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Proibição dos partidos. Requisições forçadas de trigo. Criação da polícia política. Paz desastrosa. Como os equívocos iniciais do poder soviético contribuiriam para frustrar o primeiro ensaio socialista
Por Eduardo Mancuso | Imagem: Marc Chagall, A Revolução (1937)
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Esta é a segunda de três partes de A Revolução Russa de Outubro de 1917, livro recém-lançado por Eduardo Mancuso. Historiador, colaborador editorial de Outras Palavras, ele soma, à militância de mais de trinta anos pelo socialismo democrático, a capacidade de refletir sobre esta luta, seus avanços e seus erros. Breve e pedagógico, o texto não cede, porém, às simplificações e dogmatismos. É uma provocação útil, tanto aos que querem começar a estudar a experiência soviética quanto a quem deseja rever as polêmicas que a marcaram
Clique aqui para ler a primeira parte.
Os erros políticos do bolchevismo no poder
Após enfrentar e superar os mitos anticomunistas sobre a Revolução de Outubro, é legítimo perguntar, à luz da evolução posterior da Rússia dos Sovietes em União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), se políticas adotadas pelos bolcheviques depois da tomada do poder favoreceram ou não o processo de degeneração do primeiro Estado operário.
Tanto Rosa Luxemburgo como Alexandra Kolontai e Victor Serge (entre outros marxistas) tinham razão em criticar os bolcheviques pela repressão ao Krondstadt, a restrição às liberdades políticas, a proibição dos partidos operários reformistas e das próprias frações e tendências internas no Partido Comunista. Porém, há uma grande diferença, um verdadeiro salto de qualidade entre estes graves erros e a lógica empregada pelo stalinismo, que não estava baseada na extensão da revolução, mas sim na consolidação de uma elite burocrática privilegiada.
Enquanto para Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, a revolução russa era só o prelúdio de uma imprescindível revolução europeia (como haviam dito Marx e Engels algumas décadas antes), não era assim para Stalin, que considerava seriamente a possibilidade de construir o socialismo em um só país (e a subordinação de toda a revolução nacional posteror às necessidades de estabilização do regime da burocracia soviética).
Ernest Mandel considera que as deformações burocráticas iniciais dos anos 1920, e a degeneração contrarrevolucionária consolidada na década de 1930, foram causadas fundamentalmente pelas condições políticas e materiais objetivas da sociedade russa e da situação internacional. Porém, apoiando-se na crítica precursora e fraterna de Rosa Luxemburgo aos bolcheviques, assim como no balanço posterior de Victor Serge, ele reconhece que decisões e atitudes concretas tomadas pelo partido de Lenin, até a sua destruição pelo stalinismo, influenciaram decisivamente no processo de burocratização do regime, base objetiva de sua posterior metamorfose em ditadura totalitária. Coerente com sua origem trotskista-luxemburguista, Mandel vai desenvolver a análise crítica sobre os erros políticos dos primeiros anos da revolução com base nos princípios marxistas da democracia socialista e da autoemancipação da classe trabalhadora, sem nunca perder de vista o divisor de águas fundamental entre revolução e contrarrevolução, à luz do julgamento histórico sintetizado pela frase que Trotsky costumava usar: “um rio de sangue separa o bolchevismo do stalinismo”.
A proibição dos partidos soviéticos (e das frações e tendências)
Segundo Mandel, o mais grave erro político dos bolcheviques foi a proibição dos partidos soviéticos após a vitória do Exército Vermelho na guerra civil de 1918-1920. Trotsky formulou autocriticamente sobre essa questão um juízo explícito em 1936:
 “A proibição dos partidos de oposição produziu a das frações [no seio do partido bolchevique]; a proibição das frações levou a proibir o pensar de maneira diferente do que o chefe infalível. O monolitismo policialesco do partido teve por consequência a impunidade burocrática que, por sua vez, se transformou na causa de todas as variedades de desmoralização e de corrupção.”[1]
É inegável que em 1920 os operários consideravam os mencheviques como um partido soviético, já que numerosos membros desse partido foram eleitos em várias cidades, inclusive em Moscou. E isso também era verdade com relação aos anarquistas, que mantinham influência em algumas regiões entre os camponeses (como demonstram as tropas lideradas por Makhno). Sem dúvida alguma, a proibição dos partidos soviéticos e, posteriormente, das frações no seio do partido governamental (já que cada fração é um outro partido em potencial) eram entendidas por Lenin e pela maioria da direção bolchevique como medidas provisórias e extraordinárias ligadas a circunstâncias particulares, que deviam ser revertidas quando a situação objetiva permitisse. Como sabemos, a realidade foi bem diferente. Sobre esse tema, Mandel levanta outra questão, de alcance ainda mais geral: quais foram as consequências das teorias formuladas para justificar tais proibições? Ele afirma que, a longo prazo, estas justificações teóricas causaram mais dano que as medidas em si. A história do socialismo no século 20 atesta isso de forma dramática.
171018-MancusoCapa 
A proibição dos partidos soviéticos pelos bolcheviques e das frações, tendências e grupos dentro do próprio partido comunista – à qual se opuseram Alexandra Kolontai, da Oposição Operária, e a Oposição Centralismo Democrático – expressa uma concepção substitucionista da construção partidária e do socialismo. Segundo essa concepção (majoritária também entre social-democratas, com notáveis exceções), a maior parte do proletariado seria pouco consciente para poder governar. Essa convicção colidia frontalmente com a experiência histórica da Comuna de Paris, teorizada por Marx e defendida pela Primeira Internacional. Na sequência, esse ponto de partida levou a conclusão de que, em lugar da classe operária realmente existente, quem devia governar e decidir era o partido. Finalmente, chegou-se a formulação de que o aparato partidário, e inclusive a sua direção ou seu “chefe infalível”, eram os instrumentos decisivos para mudar a sociedade. Stalin expressou o conteúdo essencial da teoria substitucionista de forma brutal e direta: “os quadros decidem sobre tudo”.
Mandel considera que a doutrina substitucionista do partido alimentou uma concepção verticalista, estatista, paternalista e autoritária do poder, que levou aos piores excessos e crimes do stalinismo. Nessas condições, esvazia-se o espaço democrático da classe (os Sovietes e conselhos populares) do seu componente vital, pois não se assegura o exercício direto do poder por parte do proletariado e das massas trabalhadoras. Sem o multipartidarismo real os Sovietes, como parlamento das classes trabalhadoras, não podem conhecer a democracia. Não podem escolher e eleger realmente entre diversas opções de política econômica, social, cultural etc. E na medida em que a supressão da democracia soviética toma um aspecto repressivo, esta repressão já não contempla somente a burguesia e os segmentos contrarrevolucionários, mas golpeia também a classe trabalhadora.
Uma concepção e uma orientação política dessa natureza contrapõem-se ao que foi a principal contribuição de Marx à teoria socialista da organização revolucionária: a ideia de autolibertação e auto-organização do proletariado. Como o próprio Marx escreveu nos estatutos da Primeira Internacional, a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores (e não dos sindicatos, dos partidos, dos governos ou dos Estados). A classe, enquanto sujeito histórico da revolução, não pode ser substituída pelos seus instrumentos (indispensáveis, é sempre importante assinalar) políticos e organizativos. Esses instrumentos são fundamentais, mas nunca poderão substituir a atividade consciente, a práxis real das classes trabalhadoras e das camadas assalariadas, exploradas e oprimidas. Segundo Rosa Luxemburgo, o papel emancipador da autoatividade da classe trabalhadora não é um “luxo” da democracia socialista, mas a sua condição histórica.
Mandel salienta que a ideologia substitucionista não pode ser considerada apenas um “desvio político”, e sim a expressão dos interesses materiais e sociais da burocracia operária. E por sua vez, essa ideologia substitucionista justificou politicamente e favoreceu o processo objetivo de burocratização da Revolução de Outubro.
O comunismo de guerra
A guerra civil e a intervenção das potências imperialistas contra a Rússia dos Sovietes explicam em parte as origens do denominado “comunismo de guerra”. Para Mandel, é difícil julgar até que ponto a política de requisição de trigo – que era a base do “comunismo de guerra” — por parte do poder soviético, assediado pela contrarrevolução, era inevitável durante os anos da guerra civil (1918-1920). Porém, é certo que esta política (sem dúvida, muito importante para garantir o abastecimento do Exército Vermelho) ameaçava, cada vez mais, romper a aliança operário-camponesa, que era a base fundamental do poder soviético.
Esta política levou a um retrocesso pronunciado das forças produtivas, sobretudo da produção de gêneros alimentícios, o que estava afundando cada vez mais a economia russa. Mandel menciona que a produção agrícola, essencialmente de cereais, retrocedeu 30%; o rebanho de gado, equinos e porcos retrocedeu mais de 20%, e a produção industrial, 60%. Em troca da mesma quantidade de trigo, o campesinato recebia somente o equivalente a 5% dos produtos industriais que recebia em 1917-1918. Daí o rechaço dos camponeses em vender trigo em troca de um papel-moeda que praticamente não tinha valor. E daí a necessidade do Estado requisitar o trigo e demais gêneros essenciais.
Essa situação levou a queda absoluta da produção de trigo, e se a produção de grãos baixava, havia cada vez menos trigo a requisitar. A isso seguiu-se uma tendência generalizada à especulação e ao mercado negro. Trotsky, como chefe do Exército Vermelho durante a guerra civil, comandava um exército composto, basicamente, de camponeses. Viajava através de todo o imenso país e compreendeu, antes de Lenin e dos demais dirigentes do partido, que a política de requisições havia chegado ao limite do suportável para as amplas massas rurais. Por isso, ainda em 1920, no período final da guerra civil, propôs que se adotasse uma nova política, mas isso foi rechaçado.
Segundo o juízo do historiador Roy Medvedev sobre esta questão, a tentativa de continuar a política de requisição depois de finalizada a guerra civil provocou a crise social de 1921, inclusive a deflagração do levante dos marinheiros de Krondstadt.[2]
Nesse contexto de crise aguda, Lenin propôs emergencialmente, e o partido aprovou, a chamada Nova Política Econômica (NEP, na sigla em russo), abandonando as requisições forçadas e liberando o funcionamento de mercados para a produção camponesa, visando favorecer o desenvolvimento da pequena indústria privada e, inclusive, buscar investimentos externos.
Mandel critica alguns teóricos que idealizaram a política de “comunismo de guerra”, e dirigentes bolcheviques que, fazendo da “necessidade uma lei”, teorizaram as restrições da escassez, do racionamento e, inclusive, o retorno à economia “natural”. Ele lembra que toda a tradição marxista e todo o senso comum do proletariado, historicamente, argumentam contra qualquer tipo de “comunismo da miséria”, e que na Rússia soviética esfomeada e destruída após a guerra mundial e a guerra civil, a política de “comunismo de guerra” não conseguia alimentar o país, muito menos viabilizar o retorno do crescimento industrial e agrário.
As negociações de paz
A delegação soviética nas dramáticas negociações e paz em Brest-Litovsk. De pé: Lipskiy, Stučka, Trotsky, e Karakhan Sentados, desde a esquerda: Kamenev, Ioffe e Anastasia Bitzenko
A delegação soviética nas dramáticas negociações e paz em Brest-Litovsk. De pé: Lipskiy, Stučka, Trotsky, e Karakhan Sentados, desde a esquerda: Kamenev, Ioffe e Anastasia Bitzenko

As negociações de Brest-Litovsk foram, para Mandel, outro erro grave cometido pela maioria dos dirigentes bolcheviques, com a notável exceção de Lenin, que nesse momento alcançou, talvez, o auge de sua célebre lucidez política. O atraso para concluir as negociações, fruto da profunda divisão no interior do partido bolchevique e do seu partido aliado, os “Socialistas Revolucionários” (SR) de esquerda, radicalmente contrários à paz em separado com os impérios alemão e austríaco, levou Lenin à exasperação. Essa controvérsia política estratégica obrigou Trotsky, na condição de chefe da delegação russa nas negociações com os representantes dos impérios centrais, a idas e vindas táticas, denúncias propagandistas do imperialismo e proclamações internacionalistas dirigidas aos trabalhadores europeus, tentando ganhar tempo nas tratativas de paz, apostando todas as fichas na insurreição proletária ou na derrota militar imediata do Reich alemão (frente às potências ocidentais).
Mandel salienta que havia uma diferença capital entre as condições propostas pelos impérios centrais durante a primeira fase das negociações de Brest-Litovsk, iniciadas em dezembro de 1917, e as arrancadas depois da interrupção das mesmas pelos soviéticos e a retomada da ofensiva militar pelo exército alemão. As primeiras eram duras, mas aceitáveis para uma boa parte da opinião operária e pequeno-burguesa urbana. Já aquelas impostas após a capitulação russa frente à imparável invasão alemã, foram sentidas como uma humilhação nacional e uma traição aos interesses internacionais do proletariado por parte da Rússia soviética. Implicavam o controle da Ucrânia por parte da Alemanha imperial, e a perda de boa parte do país. As reações internas foram violentas, provocando a ruptura dos SR de esquerda (inclusive o atentado contra Lenin) e estimulando as forças contrarrevolucionárias para guerra civil.
A maior parte do Comitê Central e dos quadros bolcheviques, com Bukharin à frente, rechaçaram assinar imediatamente as condições de paz colocadas na primeira fase das negociações de Brest-Litovsk, e assim como Trotsky, com sua posição intermediária (“nem guerra, nem paz”), invocaram o sentimento da maioria da população urbana (e as expectativas no levante do proletariado europeu). Porém, não era esse o sentimento da população camponesa, muito menos dos soldados de um exército russo em plena decomposição. E, sobretudo, essas posições não concluíam em nenhuma alternativa concreta, apenas em palavras de ordem abstratas, como a derrubada imediata das dinastias imperiais da Alemanha e da Áustria e a organização da “guerra revolucionária”.
O resultado da negativa em assinar imediatamente a paz após o início das negociações foi permitir ao exército alemão ocupar novos territórios, principalmente a Ucrânia, arrancando suas imensas riquezas da República Soviética. Lenin, que havia previsto esse terrível desenlace em consequência da divisão no partido, finalmente conseguiu maioria na direção (com o apoio de Trotsky), e assinou a capitulação, ainda em tempo de evitar que o exército alemão derrubasse o governo revolucionário. Mas esse erro político custou muito caro e cobrou seu preço imediatamente, facilitando as condições políticas para as forças reacionárias deflagrarem a guerra civil.
O terror vermelho e a polícia política
A questão do terror vermelho, legítimo como instrumento de sobrevivência física e de defesa da revolução, e a controversa criação da polícia política do Estado – a Tcheka -, estão estreitamente ligadas às consequências da paz de Brest-Litovsk e ao início da guerra civil. Ambas as questões, segundo Mandel, só podem ser entendidas à luz desses acontecimentos.
Lenin se esforçou para não ter que recorrer ao terror após Outubro. Apesar da atitude inicial dos bolcheviques, que não procederam a fuzilamentos e nem execuções indiscriminadas, e inclusive soltaram contrarrevolucionários presos no processo da tomada do poder, acreditando que assim “desarmavam” politicamente as forças reacionárias, isso não se mostrou realista com a evolução dos acontecimentos depois da vitória revolucionária. Os generais Krasnov, Kaledin e outros oficiais de alta patente detidos durante a insurreição de Outubro foram liberados sob a promessa de que se absteriam de toda ação antigovernamental. Porém, de imediato faltaram com a sua palavra, tomaram em armas, deflagraram o “terror branco”, causando a morte de milhares de camponeses e operários apoiadores da revolução.
Depois de sofrer o ataque e a violência dos contrarrevolucionários, o ambiente político modificou-se radicalmente, e o poder soviético reagiu rapidamente, percebendo claramente que a ameaça militar das forças da reação interna, com amplo apoio político e logístico das potências imperialistas, representava um risco real para a revolução. Segundo Mandel, até março de 1920, o número total de vítimas do terror vermelho foi avaliado oficialmente em 8.620 pessoas, enquanto alguns historiadores avaliaram em mais de 10 mil. Após a derrota dos exércitos brancos de Denikin e Kolchak, o governo soviético aboliu a pena de morte durante vários meses (até sua reintrodução durante a guerra contra a Polônia, que havia invadido o território russo).
A questão da criação da Comissão Extraordinária (Tcheka), para Mandel, é algo muito diferente da adoção de medidas concretas de defesa da revolução e da violência inevitável em uma guerra civil. A Tcheka significava a criação de uma instituição de Estado, um aparato burocrático permanente de difícil controle (como submeter a controle público uma polícia política?) que, com o tempo vai acabar por tomar o lugar da infame polícia secreta czarista (a temível Okhrana).
Os arquivos da Tcheka mostram que desde o princípio, e apesar da honestidade pessoal de Felix Dzerzhinsky, seu primeiro dirigente, a “degeneração profissional”, para usarmos as palavras de Victor Serge, estavam presentes. Membros e informantes da organização desviavam uma parte de toda fonte de riqueza tomada de especuladores ou responsáveis por “crimes econômicos” contra a sociedade. Além da dinâmica de corrupção, a dificuldade de controle político era real, como atestavam Lenin e Kamenev. Terminada a guerra civil, Kamenev propõe a reforma dos serviços de polícia e, com o apoio de Lenin, enfrenta a resistência de Dzerzhinsky e restringe a competência da Tcheka aos problemas de espionagem, aos atentados políticos e à proteção dos trens e dos armazéns. Qualquer outra atividade repressiva devia ser incumbência do Comissariado do Povo para a Justiça. Isso tudo, é claro, mudou radicalmente anos mais tarde, com o “thermidor” da revolução e Stalin no poder.
_________________
[1] Trotsky, L. La Révolution trahie. Paris, 1963, p. 75.
[2] Medvedev, R. La Révolution d’octobre. Paris, 1978, p. 210.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Do “Fascismo Democrático” a um novo Comunismo, por Alain Badiou.

on 02/09/2017Categorias: Alternativas, Capa, Mundo, Políticas
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Ocidente parece dividido entre a aristocracia financeira e os gângsters. É preciso reconstruir a ideia de alternativa, ou não haverá mais Política. Mas quais os caminhos?
Por Alain Badiou | Tradução: Revista Punkto | Imagem: Eric Drooker (cena da animação Howl)
 1.
Começo como uma visão geral, não da situação atual dos Estados Unidos, mas do mundo de hoje. Penso que o ponto mais importante por onde devemos começar é a vitória histórica do capitalismo globalizado. Devemo-nos confrontar com esse fato. De alguma maneira, desde os anos 80 do século passado até hoje, temos a vitória histórica do capitalismo globalizado. E isso por muitas razões. Primeiro, naturalmente, o fracasso completo dos Estados socialistas – Rússia, China – e da visão coletiva da economia e das leis sociais. E este não é um ponto desprezável.  Porque essa é uma mudança que acontece não apenas ao nível da situação objetiva do mundo atual, mas também, ao nível da subjetividade. Durante mais de dois séculos (até à década de oitenta do século passado) existiram na opinião pública dois modos de conceber o destino histórico dos homens (a um nível geral e a um nível subjetivo). Primeiro, o liberalismo, no seu sentido clássico. Aqui, liberal tem muitos significados, mas eu tomo-o no seu sentido original, isto é, a propriedade privada como chave da organização social, à custa de enormes desigualdades. E, por outro lado, temos a hipótese socialista, a hipótese comunista (no seu sentido abstrato), isto é, o fim das desigualdades deve ser constituir o fim fundamental da atividade política humana. O fim das desigualdades, mesmo à custa de revoluções violentas. Portanto, de um lado, a visão pacífica da história como a continuação de algo que é muito antigo: a propriedade privada como chave da organização social. E, por outro lado, qualquer coisa de novo, que começa provavelmente na revolução francesa, e que é tanto a afirmação que a existência histórica dos homens deve aceitar uma ruptura nessa longa sequência onde as desigualdades e a propriedade privada eram a lei da existência coletiva, como a afirmação de uma outra visão daquilo que é o destino dos homens, que coloca em primeiro plano a questão da igualdade e da desigualdade. E esse conflito entre liberalismo e essa nova ideia que surge debaixo de tantos nomes (anarquia, comunismo, socialismo) é, provavelmente, o acontecimento mais significativo do século XIX e XX.
Assim, durante aproximadamente dois séculos, tivemos algo como uma escolha estratégica, que dizia respeito não apenas aos eventos locais da política (as obrigações nacionais, as guerras), mas ao destino histórico dos homens, ao destino histórico da construção da humanidade enquanto tal. Em certo sentido, o nosso tempo (dos anos oitenta até hoje) é o tempo do aparente fim dessa escolha. Temos hoje a visão dominante de que não existe uma outra alternativa, de que não há outra solução. Essas eram as palavras de Thatcher: não há nenhuma alternativa. Nenhuma alternativa exceto, naturalmente, o liberalismo (ou na formulação atual: o neoliberalismo). E este é um ponto importante, porque a própria Thatcher não dizia que esta era uma boa solução. Esse não era um problema dela. O problema é que é a única solução. E, por isso, a questão não está em dizer que o capitalismo globalizado é excelente, porque claramente não é. Todo mundo sabe isso. Todo mundo sabe que as desigualdades monstruosas não podem ser uma solução para o destino histórico dos homens. Mas o argumento é “Ok, não é bom, mas essa é a única possibilidade real”. E, por isso, penso que o que define o nosso tempo é a tentativa de impor à humanidade (e isso à escala do próprio mundo) a convicção de que só há um caminho para a história dos seres humanos. E tudo isso sem nunca se afirmar que esse é um caminho excelente, mas apenas dizendo que não há outra solução, não há outro caminho.
Então, poderíamos definir o momento atual como o momento de convicção no domínio do liberalismo, no sentido em que a propriedade privada e o mercado livre compõem o único destino possível dos homens. E isso é simultaneamente a definição de um sujeito humano. O que é um sujeito humano? É um negociante, um consumidor, um proprietário, ou não é nada. Esta é a definição estrita daquilo que é hoje um ser humano. Essa é a visão geral, o problema geral e a lei geral do mundo contemporâneo.
2.
Mas quais são os efeitos de tudo isso ao nível da vida política? Quais são as consequências dessa visão dominante de um mundo onde se põe apenas uma única hipótese? Todos os governos devem aceitar esse fato consumado: no mundo atual não se pode estar à frente de um Estado sem aceitar essa visão única. Não temos nenhum governo no mundo que esteja dizendo algo diferente. E por que é todos dizem o mesmo, isto é, que o capitalismo globalizado é a única hipótese possível para a existência dos homens? Penso que todas as decisões políticas ao nível do Estado, hoje, dependem estritamente daquilo que eu chamo um “monstro”: o capitalismo globalizado e as suas desigualdades. Em certo sentido, não é verdade que um governo hoje seja livre. Não é livre de maneira nenhuma. Situa-se dentro dessa determinação global e deve afirmar que aquilo que faz depende da interioridade dessa determinação global. E o monstro é mais e mais um monstro. Devemos conhecer a situação real das desigualdades. A concentração do capital é algo extraordinário. Hoje em dia, 264 pessoas têm nas suas mãos o equivalente ao de 3 bilhões de pessoas. É muito mais do que no período inicial da monarquia. Nunca como hoje, na história dos seres humanos, foi a desigualdade um fato com tanta relevância e importância. E esse monstro histórico, que é também a única possibilidade de existência da humanidade, continua a produzir uma dinâmica de mais e mais desigualdade e não de mais e mais liberdade.
Assim, e essa é uma consequência importante da eleição de Trump, toda a oligarquia política, toda a classe política, tem-se progressivamente tornado parte do mesmo grupo, à escala do próprio mundo. Um grupo de pessoas que só abstratamente aparecem divididas: Republicanos e Democratas, Socialistas e Liberais, Esquerda e Direita…. Todo esse conjunto de divisões é puramente abstrato e não é real, porque tudo isso se baseia na mesmo horizonte político e econômico. No Ocidente, essa oligarquia política está hoje em risco de perder o controle dessa maquinaria capitalista – essa é a realidade. Por entre crises e falsas soluções todos os governos políticos clássicos, em escala mundial, criam frustrações, mal-entendidos, raiva e revolta. E tudo isso são reações contra esse caminho único ditado por todos os membros da classe política. O exercício da politica atual é um exercício de ínfimas diferenças dentro da mesma hipótese global. Mas tudo isso tem consequências nas pessoas: efeitos de desorientação, incapacidade de orientar a vida, nenhuma visão estratégica do futuro da humanidade. E, por isso, uma grande parte das pessoas procura, no lado das falsas novidades, visões irracionais e retorno a tradições mortas. Assim, à frente da oligarquia política, temos hoje uma nova espécie de atores, novos adeptos da violência e da demagogia vulgar, pessoas essas que estão muito mais próximas dos gangsters e da máfia do que de políticos educados. A escolha tem sido entre esse tipo de pessoas e o politico educado. E o resultado tem sido a escolha legal de uma nova forma de vulgaridade política e algo subjetivamente violento nas propostas políticas.
Em certo sentido, esta nova figura política – Trump, mas muitos outros hoje – está próxima da figura do fascista dos anos trinta. Há algo similar, embora sem esse grande inimigo que era o Partido Comunista. É uma espécie de fascismo democrático, o que é um paradoxo: funciona dentro do plano democrático, dentro do dispositivo democrático, mas onde se joga algo de muito diferente. Donald Trump é racista, machista, violento, e sobretudo não tem nenhuma consideração pela lógica e pela racionalidade – o que é uma característica fascista. Porque o discurso, o modo de falar dessa espécie de fascismo democrático é precisamente uma certa deslocação da linguagem, a possibilidade de dizer tudo e o seu contrário. Com Donald Trump não há problema, a linguagem não é a linguagem da explicação, mas é uma linguagem que procura criar efeitos e afetos, é uma linguagem afetiva que cria uma falsa unidade, mas uma unidade prática. Temos isso em Trump, mas já tivemos isso com Berlusconi em Itália. Berlusconi é talvez a primeira figura desta espécie de novo fascismo democrático, com exatamente as mesmas características. É algo que acontece em escala mundial: o aparecimento de uma nova figura de determinação politica que está dentro da constituição democrática, mas em certo sentido está também fora. E a isso podemos chamar fascismo – porque era o que se passava nos anos trinta, afinal de contas Hitler também ganhou eleições. Assim, eu chamo fascista a esse tipo de pessoa que está dentro do jogo democrático, mas de certa maneira também está fora: dentro e fora. E dentro para, finalmente, poder estar fora. É, de faeto, uma novidade, mas uma novidade que está inscrita dentro da figura geral do mundo de hoje, porque para a grande maioria isso não é uma solução, mas uma nova maneira de estar no jogo democrático onde, do lado da oligarquia clássica, não há qualquer diferença. Em certo sentido, o principio do efeito Trump é o efeito de algo novo. De fato, em detalhe, não há nada de novo, porque é impossível pensar que é novo ser-se racista, machista, etc. Mas no contexto da oligarquia clássica atual, estas coisas velhas parecem ser qualquer coisa de novo. E, por isso, Trump está na posição de dizer que a novidade é “Trump” quando diz coisas que são absolutamente primitivas e absolutamente velhas e ultrapassadas. E, por isso, estamos também no tempo onde algo como um retorno à velha existência aparece subitamente como novo. E essa conversão do novo no velho é também uma característica desse tipo de novo fascismo.
3.
Tudo isto descreve a nossa situação atual ao nível da política. Devemos considerar que estamos numa dialética fatal que envolve quatro aspectos.
Primeiro: a brutalidade e a violência do capitalismo, hoje. Podemos não ver completamente essa violência no Ocidente, mas vemos-la, sem dúvida, em África ou no Médio Oriente. E este é um aspecto fundamental do nosso mundo atual. O retorno àquilo que é a essência do capitalismo: a conquista selvagem, a luta selvagem de todos contra todos pela dominação.
Segundo: a decomposição da oligarquia clássica política, dos partidos clássicos (Democratas, Republicanos, Socialistas, etc.), e o surgimento de uma espécie de novo fascismo. Não sabemos a forma futura dessa espécie de surgimento: qual é o futuro de Trump? Em certo sentido, não sabemos e talvez nem o próprio Trump o saiba. Temos o Trump antes do poder e o Trump depois do poder, que está de certo modo com medo, não completamente satisfeito, porque ele sabe que não pode falar tão livremente como antes. E falar livremente era exatamente a potência de Trump, mas agora com o governo, a administração, o exército, os economistas, banqueiros, é uma história completamente diferente. E, por isso, vimos Trump a passar de uma representação para outra, de um teatro para outro teatro. Em qualquer dos casos, temos um símbolo da decomposição da oligarquia política clássica e o nascimento de uma nova figura de um novo fascismo, com um futuro que não conhecemos, mas que não parece ser um futuro muito brilhante.
Terceiro: temos a frustração popular, o sentimento de uma desordem obscura na opinião pública de muita gente e, principalmente, dos mais pobres, as pessoas do interior, os camponeses e os desempregados, enfim, toda a população que está sendo reduzida, pela brutalidade do capitalismo contemporâneo, a pouco mais que nada e que não tem existência possível, que permanece sem emprego, sem dinheiro, sem orientação. E este é o terceiro aspecto da situação global atual. A falta de orientação, de estabilidade, de sentimento de destruição do seu mundo, sem a construção de um outro mundo; uma espécie de vazio destrutivo.
E, o último aspecto, é a ausência de qualquer estratégia alternativa. Existem muitas experiências políticas – não digo que não se passa nada a esse nível. Conhecemos novos protestos, novas ocupações, novas mobilizações, novas determinações ecológicas… Nesse sentido, não se trata da ausência de formas de resistência ou de protesto, mas da ausência de um outro caminho estratégico, isto é, de algo que esteja ao mesmo nível da convicção contemporânea do capitalismo como única hipótese possível. É a falta de força na afirmação de uma outra hipótese e a ausência daquilo que eu chamo uma Ideia, uma grande Ideia. Uma grande Ideia que é a possibilidade de unificação, unificação global, unificação estratégica de todas as formas de resistência e invenção. Uma Ideia é uma espécie de mediação entre o sujeito individual e a tarefa coletiva histórica e política, é a possibilidade de ação com subjetividades muito diferentes, mas sob uma mesma Ideia.
Estes quatro aspectos – a dominação geral do capitalismo globalizado, a decomposição da oligarquia política clássica, a desorientação e frustração popular e a falta de uma outra hipótese estratégica – compõe em minha opinião o quadro da crise de hoje. Podemos definir o mundo contemporâneo no termo de uma crise global que não é reduzível à crise econômica dos últimos anos, mas que vai muito para além disso, é uma crise de subjetividade, porque o destino dos homens torna-se cada vez menos claro para eles.
4.
Depois disso, o que fazer? A pergunta de Lênin. Eu penso que uma das razões que levou ao sucesso eleitoral de Trump é que a verdadeira contradição de hoje, a real contradição de hoje, não pode ser entre duas formas do mesmo mundo. Eu sei que Hillary Clinton e Donald Trump são muito diferentes, mas essa diferença (que é importante e que é a diferença entre a oligarquia política e o novo fascismo – e toda a oligarquia política é menos terrível que o novo fascismo) pertence ao mesmo mundo. Isto é, não é a expressão de duas visões estratégias do mundo. O sucesso de Trump é possível, apenas, porque a verdadeira contradição do mundo não pode ser expressa nem simbolizada pela oposição entre Hillary e Trump, porque ambos pertencem ao mesmo mundo – de forma diferente, mas de forma diferente no mesmo mundo. E, por isso, durante todo o processo eleitoral a verdadeira contradição foi entre Trump e Bernie Sanders. Porque temos na proposta de Sanders aspectos que estão para além do mundo tal como ele está, algo que não existe em Hillary Clinton. É uma lição de dialéctica, uma teoria das contradições. A contradição entre Hillary Clinton e Trump era uma contradição relativa e não absoluta; isto é, uma contradição nos mesmos parâmetros, na mesma construção do mundo. Mas a contradição entre Sanders e Trump era de fato o início da possibilidade de uma verdadeira contradição; isto é, uma contradição com o mundo e com algo que estava para além do mundo.
O resultado das eleições é, nesse sentido, de natureza conservadora porque é o resultado de uma falsa contradição, a continuação da crise atual. Contra Trump, não podemos desejar Clinton ou alguém do mesmo gênero. Devemos, sim, criar um retorno, se possível, à verdadeira contradição. Esta é a lição deste terrível evento. Isto é, devemos propor uma orientação política que vá para além do mundo tal como está, mesmo se esta é ainda pouco clara. Quando começamos algo não vemos o seu desenvolvimento, mas devemos começar. Essa é a questão. Depois de Trump, devemos começar. Mas não apenas resistindo ou negando. Devemos começar algo, de fato. E a questão do início é o início do retorno à verdadeira contradição, a uma escolha real, a uma escolha estratégica real que diz respeito à orientação dos seres humanos. Devemos reconstruir a ideia que é possível criar novamente um campo politico com duas orientações estratégicas (contra as desigualdades monstruosas do capitalismo atual e contra os novos gangsters da política como Trump). O retorno a algo que foi ainda a possibilidade do maior movimento político do século XX e do inicio do século passado. Filosoficamente falando, devemos ir para além do Um em direção ao Dois. Não uma orientação, mas duas orientações. A criação de um novo retorno a uma nova escolha fundamental como a própria essência da política. Se temos apenas uma hipótese, a política progressivamente desaparece e, em certo sentido, Trump é o símbolo dessa espécie de desaparecimento. O que é a política de Trump? Ninguém sabe. É algo como uma figura e não uma política. Portanto, o retorno à política é por necessidade o retorno à existência de uma escolha real. Assim, finalmente, ao nível das generalidades filosóficas, é o retorno dialético ao real. Dois mais que Um. E podemos propor alguns nomes para esse retorno.
5.
Como devem saber a minha visão passa por propor essa palavra tão corrompida que é “Comunismo” — corrompida sabemos nós por todas essas experiências sangrentas. O nome é apenas um nome, por isso estamos livres para propor outros nomes, não é um problema. Mas temos algo interessante que está no sentido original dessa palavra. E esse sentido é composto por quatro princípios, que podem ser o suporte para a criação de um novo campo político com duas orientações estratégicas.
Primeiro: não é uma necessidade que a chave da organização social tenha que estar na propriedade privada e nas suas desigualdades monstruosas. Não é uma necessidade. Devemos afirmar isso. E podemos organizar experiências limitadas que demonstrem que isso não é uma necessidade, que não é verdade que a propriedade privada e as desigualdades monstruosas tenham que ser para sempre a lei de devir da humanidade.
Segundo: não é uma necessidade que os trabalhadores sejam permanentemente separados entre trabalho nobre (criação intelectual, direção, governo) e trabalho manual e existência material comum. Assim, a especialização do trabalho não é uma lei eterna e, sobretudo, a oposição entre trabalho intelectual e trabalho manual deve ser suprimida a longo prazo.
Terceiro: não é uma necessidade para o ser humano estar separado por fronteiras nacionais, raciais, religiosas ou sexuais. A igualdade deve existir para além das diferenças e, por isso, a diferença não é um obstáculo à igualdade. A igualdade deve ser uma dialética da diferença em si mesma e devemos recusar que, em nome das diferenças, a igualdade seja impossível. Assim, fronteiras, recusa do Outro em qualquer forma, tudo isso deve desaparecer. Não é uma lei natural.
Por último, não é uma necessidade que tenha que existir um Estado, na forma de um poder separado e armado.
Resumindo: coletivismo contra a propriedade privada, trabalhador polimorfo contra a especialização, universalidade concreta contra identidades encerradas e livre associação contra o Estado. É apenas um conjunto de princípios, não é um programa. Mas a partir destes princípios podemos julgar todos os programas políticos, decisões, partidos, ideias. Os princípios são o protocolo de julgamento relativamente a todas as decisões, ideias, propostas políticas. Temos assim um principio de julgamento tanto ao nível do campo politico como na construção de um novo projeto estratégico. Isso significa ter uma verdadeira visão do que pode ser essa nova direção, essa nova direção estratégica da humanidade enquanto tal.
Podemos fazer alguma coisa. E devemos fazer, porque se não fizermos nada permanecemos apenas fascinados, estupidamente fascinados, pelo sucesso deprimente de Trump. “A Nossa Revolução”, porque não? Contra a reação deles, a nossa revolução. É uma boa ideia. De qualquer modo, eu estou deste lado.
Notas da edição
Este artigo é a transcrição adaptada da conferência que Alain Badiou proferiu no dia seguinte às eleições americanas, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e publicado no site Mariborchan. Tradução para português realizada por Jornal Punkto, a partir da versão inglesa.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Comunismo: haverá uma “quarta onda”?, por David Priestlant.

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Cartaz de propaganda chinesa sobre modernização agrícola. Segundo Priestland a Revolução Chinesa é parte da terceira onda do comunismo. As primeiras foram o triunfo dos bolcheviques e a liderança na luta anti-fascista
Cem anos após a Revolução Russa, o mundo parece mais desigual e injusto que nunca. A velha fênix, que já viveu três vezes, poderá ressurgir das cinzas?
Por David Priestland | Tradução: Antonio Martins | Imagem: Zhang Daxin, Mamãe vem com um trator (1960)
“Ura! Ura! Ura!” Lembro-me vivamente da parede de som que se formou quando soldados severos, em uniformes cinzentos responderam ao brado de seu comandante: “Saudações no 70º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro!”
Estudante de intercâmbio em Moscou, em 1987, eu havia viajado à Rua Gorky naquela manhã trepidante de novembro, para assistir à parada militar a caminho da Praça Vermelha. Uma fileira de autoridades soviéticas e estrangeiras observava os jovens soldados prestar homenagem ao Mausoléu de Lênin. A cena impressionante deveria servir para demonstrar tanto a energia revolucionária duradoura do comunismo quanto seu alcance global.
O líder soviético, Mikhail Gorbachev, falou sobre um movimento revigorado pelos valores de 1917 a uma audiência de líderes de esquerda que incluía Oliver Tambo, do Congresso Nacional Africano, e Yasser Arafat, da Organização pela Libertação da Palestina. Cartazes ostentavam a proclamação do poeta Vladimir Mayakovsky: “Lênin viveu, Lênin vive, Lênin viverá para sempre!”
As palavras soavam ocas, pois os problemas econômicos da União Soviética eram evidentes para todos, especialmente para meus amigos estudantes, que dependiam de universidades mal abastecidas para comer. Ainda assim, o sistema ainda parecia tão sólido quando o mármore do mausoléu. Como a maioria dos observadores, eu não teria acreditado que em dois anos o comunismo  estaria desmoronando, e em quatro a própria União Soviética teria ruído.
Logo, a visão popular sobre 1917 mudou inteiramente. A desregulação dos mercados parecia natural e inevitável. O comunismo parecia ter sido sempre condenado à “lata de lixo da História” de Trotsky. Se houvesse desafios à ordem liberal globalizada, eles viriam do islamismo ou do capitalismo de Estado chinês, não mais de um marxismo desacreditado.
Agora, quando passaram-se cem anos da Revolução de Fevereiro – que precedeu à tomada do poder pelos bolcheviques de Lênin, em novembro – a História mudou de novo. A China e a Rússia exibem símbolos de sua herança comunista para fortalecer um nacionalismo antiliberal. No Ocidente, a confiança no capitalismo de livre mercado não se recuperou, desde o crash financeiro de 2008. Novas forças de extrema direita e de esquerda ativista disputam popularidade. A força inesperada do socialista independente Bernie Sanders, nos EUA; e as vitórias eleitorais do novo partido Podemos, liderado por um ex comunista, na Espanha, são sinais de um ressurgimento de base da esquerda. Na Grã-Bretanha, o “Manifesto Comunista”, obra clássica escrita por Marx e Engels em 1848, foi um best seller em 2015.
Terei testemunhado, naquele dia em Moscou, o último hurra do comunismo? Ou um comunismo remodelado para o século 21 estará lutando para nascer?
Há sinais de uma resposta nesta epopeia complexa e centenária, um arco narrativo cheio de falsos começos, quase mortes e reviveres imprevistos.
Observe a vida de Semyon Kanatchikov. Filho de um ex-servo, ele trocou a pobreza rural por um emprego de operário e a excitação da modernidade. Entusiasmado e sociável, Kanatchikov lutou para se aperfeiçoar tendo como guia “O Autodidata de Dança e das Boas Maneiras”. Em Moscou, uniu-se a um círculo de discussões socialista e mais tarde ao Partido Bolchevique.
A experiência de Kanatchikov tornou-o receptivo a ideias revolucionárias: uma atenção aguda ao abismo entre ricos e pobres, a sensação de que uma velha ordem bloqueava a emergência do novo e ódio ao poder arbitrário. Os comunistas ofereciam soluções claras e convincentes. Ao contrário dos liberais, defendiam a igualdade econômica; mas, diferente dos anarquistas, queriam a indústria moderna e o planejamento estatal; e, em oposição aos socialistas moderados, argumentavam que a mudança teria de vir por meio da luta de classes revolucionária.
Na prática, foi difícil combinar estes ideais. Um Estado muito poderoso tendeu a sufocar o crescimento, ao mesmo tempo em que criou novas elites. A violência da revolução trouxe consigo periódicas caças aos “inimigos”. Também Kanatchkov tornou-se vítima. Embora fosse levado a postos de prestígio após a revolução, seus laços com Trotsky, o arqui-rival de Stalin, provocaram seu rebaixamento, em 1926.
Àquela altura, as perspectivas do comunismo eram sombrias. As primeiras chamas da revolução na Europa Central, logo após a I Guerra Mundial, estavam extintas. A União Soviética viu-se isolada, e os Partidos Comunistas em outras partes do mundo eram pequenos e conflagrados. A modernidade forjada dos EUA dos flamejantes anos 1920 era despudoradamente consumista, não comunista.
Mas as fraquezas do laissez-faire logo vieram em socorro do comunismo. O crash de Wall Street em 1929 e a Depressão que se seguiu fizeram das ideias socialistas de igualdade e planejamento estatal uma alternativa poderosa à mão invisível do mercado. E a militância comunista emergiu como uma das forças preparadas a resistir à ameaça do fascismo.
Mesmo o terreno árido dos Estados Unidos, não congênito ao coletivismo e ao socialismo sem Deus, tornou-se fértil. Quando Moscou trocou, em 1935, sua doutrina sectária por uma política de apoio às “frentes populares”, os comunistas norte-americanos somaram-se a esquerdistas moderados contra o fascismo. Al Richmond, um jornalista novaiorquino no Daily Worker lembrava-se do otimismo renovado quando ele e seus colegas passavam noites num restaurante italiano fazendo brindes “à vida, àquela era, a seus presságios e esperanças, certos de nossas respostas ao ritmo deste tempo, porque nele sentíamos nossa pulsação”.
Tal otimismo, era partilhado por um grupo seleto. Vítima dos expurgos de Stalin, Semyon Kanatchikov morreu no Gulag, em 1940.
Muitos aceitavam esquecer do terror stalinista para preservar a unidade anti-fascista. Mas a segunda ascensão do comunismo no final dos anos 1930 e início dos 40 não sobreviveu à derrota do fascismo. Quando a Guerra Fria intensificou-se, a identificação do comunismo com o império soviético comprometeu sua tentativa de apresentar-se como libertador. Na Europa Ocidental, um capitalismo reformado e regulado, que os EUA incentivavam, ofereceu níveis de vida mais altos e o Estado do Bem-estar Social. As economias de comando, que faziam sentido no período de guerra, estavam menos aptas para a paz.
Mas se o comunismo se esvaía no Norte global, no Sul ele tomava corpo. Lá, as promessas dos comunistas de modernização rápida, liderada pelo Estado, incendiaram a imaginação de muitos nacionalistas anticoloniais. Aqui, ergueu-se uma terceira onda vermelha, que irrompeu na Ásia Oriental nos anos 1940 e no Sul pós-colonial a partir do final dos 60.
Para Geng Chansuo, um chinês que visitou uma fazenda-modelo coletiva na Ucrânia, em 1952 – três anos depois que as guerrilhas comunistas entraram em Beijing –, o legado de 1917 continuava potente. Sóbrio líder camponês de Wugong, um vilarejo cerca de 200 km. ao sul de Beijing, ele foi transformado pela viagem. Ao voltar, tirou a barba e o bigode, vestiu roupas ocidentais e começou a pregar em favor da coletivização agrícola e do milagroso trator.
A China revolucionária fortaleceu a determinação de Washington em conter o comunismo. Mas enquanto os EUA travavam sua desastrosa guerra no Vietnã, uma nova geração de nacionalistas marxistas emergia no Sul, atacando o “neo-imperialismo” que, acreditavam, havia sido tolerado por seus antecessores, socialistas moderados. A Conferência Tricontinental de socialistas africanos, latinoamericanos e asiáticos, patrocinada por Cuba e realizada em 1966, abriu uma nova série de revoluções. Por volta de 1980, os Estados marxistas-leninistas estendiam-se do Afeganistão a Angola, ao Yêmen do Sul e à Somália.
O Ocidente também assistiu a um revival marxista nos 60, mas seus estudantes radicais tinham, ao fim, mais compromisso com autonomia individual, democracia na vida quotidiana e cosmopolitismo do que com disciplina leninista, luta de classes e poder de Estado. A trajetória do estudante alemão radical Joschka Fischer é um exemplo expressivo. Membro de um grupo denominado Luta Revolucionária, que tentou inspirar um levante comunista entre trabalhadores da indústria automobilística em 1971, ele tornou-se mais tarde líder do Partido Verde alemão.
A emergência, a partir do final dos anos 1970, de uma ordem americana dominada pelos mercados globais, seguida pela queda do comunismo soviético ao apagar dos 80, causou uma crise generalizada da esquerda radical. Fischer, como muitos outros estudantes dos 60, adaptou-se ao novo mundo. Como ministro do Exterior da Alemanha, ele apoiou os bombardeios dos EUA em Kosovo (contra as forças de Slobodan Milosevic, antigo líder comunista sérvio), e defendeu os cortes no Estado de Bem-estar Social da Alemanha, em 2003.
No Sul, o FMI forçou reformas de mercado em países pós-comunistas endividados, e algumas das antigas elites comunistas fizeram uma conversão ardente ao neoliberalismo. Resta agora só um punhado de Estados denomidos comunistas: Coreia do Norte e Cuba, além de China, Vietnã e Laos, mais capitalistas.
Hoje, mais de um quarto de século após o colapso da União Soviética, seria possível uma quarta encarnação do comunismo?
Um grande obstáculo é a divisão pós-60 entre uma velha esquerda que prioriza a igualdade econômica e os herdeiros de Fischer, que ostentam valores cosmopolitas, políticas de gênero e multiculturalismo. Além disso, defender os interesses dos exluídos, em escala global, parece uma tarefa quase impossível. O crash de 2008 apenas intensificou os dilemas da esquerda, enquanto criou, para nacionaistas radicais como Donald Trump e Marine Le Pen, uma oportunidade de explorar a ira diante das desigualdades econômicas do Norte global.
Estamos apenas no início de um período de grandes mudanças econômicas e agitações sociais. À medida em que um tecno-capitalismo altamente desigual for incapaz de oferecer empregos decentes, os jovens poderão adotar uma agenda econômica mais radical. Uma nova esquerda poderia ser capaz de unir estes hoje derrotados — estejam na economia do material ou do imaterial – em favor de uma nova ordem econômica. Já surgem reivindicações de um Estado mais redistributivo. Ideias como a renda universal da cidadania, que a Holanda e Finlândia estão experimentando, aproximam-se, na concepção, à visão de Marx sobre a aptidão do comunismo para suprir os quereres de todos – “de cada um segundo sua capacidade para cada um segundo sua necessidade”.
Um longo caminho nos separa da Praça Vermelha de Moscou em 1987 – e ainda mais do Palácio de Inverno de Petrogrado em 1917. Não haverá volta ao comunismo dos planos quinquenais e  dos gulags. Mas se há algo que esta história turbulenta ensina é que os “últimos hurras” podem ser tão ilusórios quando o “fim da ideologia” previsto nos anos 1950 ou o “fim da História” de Fukuyama, em 1989.
Lênin já não vive e o velho comunismo pode estar morto, mas o senso de injustiça que os animou está vivíssimo…

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Vídeo revela surto semiótico-esquizofrênico que se espalha pelo País, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.



Compenetrada e em tom de grave denúncia, um dos manifestantes que invadiram a plenária da Câmara dos Deputados na semana da passada, pedindo “intervenção militar institucional” no País, gravou um vídeo no qual aponta para um painel dos 100 anos da imigração japonesa dizendo: “cena nojenta, a nossa bandeira com o símbolo vermelho...”, numa alusão a um suposto complô comunista para alterar a bandeira nacional. Na verdade a bandeira era do Japão. E o círculo vermelho, o simbólico Sol Nascente. O vídeo da manifestante viralizou nas redes sociais como uma insólita gafe que, no máximo, provocaria apenas vergonha alheia. Porém, é mais do que isso: é um sintoma de um País doente, um surto semiótico-esquizofrênico. Patologia que, recentemente, acometeu até uma emérita professora de Semiótica que viu nas ciclofaixas pintadas de vermelho uma cilada subliminar do Comunismo em São Paulo. Originado no próprio cotidiano esquizoide das classes médias (submetidas a mensagens contraditórias da sociedade de consumo), e após ser açodada pela grande mídia para apoiar o recente golpe político, hoje a patologia espalha-se endemicamente na sociedade expondo três sintomas principais: paranoia, hebefrenia e catatonia.

Minha esposa tem uma amiga com um bom cargo Sênior na área de pesquisa em Marketing. Está na faixa dos 30 anos e vive a sua plenitude profissional, gerenciando esse setor na empresa.

Recentemente, tomou a importante decisão de adquirir a casa própria, um apartamento de 60 metros quadrados no bairro nobre de Pinheiros, São Paulo. Apesar da reduzida metragem (talvez perfeito para uma pessoa), o valor do imóvel beira a casa do milhão de reais. Financiou em 30 anos, o que comprometerá a cada mês 5 mil reais dos seus rendimentos. 

Essa é um dos paradoxos da classe média: ela diz que o apartamento é seu, mas terá que pagá-lo até chegar à faixa dos 60 anos. Não importa o que ocorra em sua vida, nos altos e baixos de toda vida profissional e pessoal, terá que pagar as parcelas do financiamento vivendo a contradição salário versus renda – enquanto o banco extrai renda do financiamento, ela paga com o salário, meio evanescente de troca.

Ela acredita que está subindo na vida, embora a propriedade (a riqueza) seja apenas uma promessa futura, submetida às contingências do destino.

Imagino o custo psíquico dessa cena contraditória à qual a classe média submete-se diariamente. Ansiedade, expectativa, angústia mesclada com esforço, força de vontade e positividade.

É a sociedade do mérito, a Meritocracia, a qual submete seus devotos a uma situação de “duplo vínculo”- a sociedade de consumo que oferece lançamentos imobiliários com “pocket forest” e “varanda gourmet” em metragens mínimas e custos máximos; imagens publicitárias que transformam de cidadãos em máquinas desejantes. Assalariados que, através de um meio evanescente de troca, sonham galgar a hierarquia social e ficar ao lado daqueles que vivem da exclusivamente da renda e do lucro.

Gregory Bateson e o conceito de "Duplo Vínculo"

O paradoxo esquizofrênico


“Duplo Vínculo” ("Double Bind") é um conceito clássico criado pelo antropólogo e psiquiatra inglês Gregory Bateson, o mais famoso membro da chamada “Escola de Palo Alto”, instituto de pesquisa mental na Califórnia que se tornou referência no âmbito da psiquiatria e terapia familiar.

Trata-se de uma situação onde a pessoa se vê diante de mensagens simultâneas e contraditórias de aceitação e rejeição (“duplo vínculo”). Esse quadro é frequente no meio familiar, e ocorre em especial entre crianças e pais. Segundo Bateson, adultos jovens que desenvolveram esquizofrenia muitas vezes têm história de relação de duplo vínculo na infância. É comum crianças ouvirem dos pais variantes de um discurso com o seguinte teor: “gostamos muito de você, mas temos de castigá-lo porque se não o fizermos você irá se comportar mal, e não queremos que isso aconteça porque queremos continuar gostando de você”.

Diante de tal paradoxo, a vítima vê-se presa num jogo que “não pode ganhar”: sem entender a metacomunicação, não consegue lidar com as complexidades do discurso (metáforas, paradoxos, etc.) desenvolvendo sintomas esquizofrênicos, ou mesmo o quadro pleno da doença.

O duplo vínculo cria uma situação externa ameaçadora para o indivíduo porque incompreensível. Como resultado a pessoa procura modificar a realidade para que ela se mostre menos ameaçadora. A consequência final pode ser a alienação mental.

Esquizofrenia e sociedade de consumo (cena do filme "Eles Vivem", 1989)

Esquizofrenia como patologia social


É claro que Bateson estudava quadros de terapias das relações familiares. Porém, estudiosos como Ciro Marcondes Filho acreditam que o conceito de “Duplo Vínculo” possa ser extrapolado para o estudo de patologias sociais dominadas por sintomas esquizoides – leia MARCONDES Filho, A Produção Social da Loucura. São Paulo: Paulus, 2003.

A sociedade de consumo e meritocrática é uma “doença contemporânea” não apenas porque cria uma cultura na qual o “ter” substitui o “ser”. O problema não é comprar, mas os significados esquizofrenicamente contraditórios que as mensagens publicitárias comunicam aos potenciais consumidores: de um lado, a afirmação universal de que todos têm o direito à felicidade e à realização dos seus sonhos, e, do outro, a situação particular de impedimento – a clivagem financeira.

Pois a publicidade e toda a sociedade de consumo criam essa verdadeira cilada comunicativa para os indivíduos: explicitamente, cada filme publicitário parece uma reivindicação universalista do direito à felicidade; mas uma contra ordem não-verbal, uma espécie de subtexto, transpassa todo o campo das mensagens publicitárias: sem dinheiro, não há felicidade.

A ameaça comunista está em toda parte?

Sintomas da patologia social


Vítima desse duplo vínculo, o sujeito não consegue criar uma metacomunicação (distanciamento) e compreender a situação paradoxal, contraditória e impossível de ser resolvida: sem compreender a cena, o indivíduo desenvolve os três sintomas clássicos esquizofrênicos:

(a) paranoia (sem compreender a mensagem contraditória, acredita que exista algum sentido oculto e, por isso, hostil),

(b) hebefrenia (padrão de pensamento concreto e infantil, incapaz de compreender metáforas, analogias etc.) e;

(c) catatonia (fecha-se no seu mundo interior). 

Três sintomas em um contexto geral de negação e alienação da realidade.

Invasão da Câmara dos Deputados: da Política ao sintoma


A inacreditável invasão da plenária da Câmara dos Deputados por um grupo de cerca de 50 manifestantes gritando palavras de ordem como “general aqui” e “intervenção militar institucional” contra a corrupção foi, tomado isoladamente, um ato político de extrema direita. Suspeita-se, incitado pelo procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, atacando congressistas por estarem ameaçando as investigações e clamando pela ajuda “do povo” nas redes sociais.

Mas da política passamos para o sintoma. O impagável vídeo de uma das manifestantes denunciando o que seria “a nova bandeira do Brasil” dominada por um “símbolo vermelho comunista” em uma “cena nojenta no Congresso Nacional”. Diz apontando para um painel da comemoração dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil em um saguão do Congresso - veja o vídeo no final da postagem.

Mensagem subliminar comunista na revista "Veja"?

Sem entender a gestalt ou simbolismo da comunicação visual (a fusão do losango da bandeira brasileira com o círculo vermelho da bandeira do Japão), entrou em um surto paranoico-semiótico, denunciando uma sinistra conspiração. “Preparem-se brasileiros... você que ainda não se deu conta... a bandeira não será mais como conhecemos...”, diz assombrada Rosangela Elisabeth Muller.

Em seu perfil do Facebook há pérolas como uma suposta mensagem subliminar de Carlos Arthur Nuzman (presidente do Comitê Olímpico brasileiro) na abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Ao invés do verde e amarelo, ele teria dito “yellow e red”... na verdade cores pertencentes à bandeira olímpica.

Esse delírio semiótico no qual um significante (a cor vermelha) se desloca do seu significado (o Sol Nascente da bandeira japonesa/união das raças através do esporte), não é privilégio apenas de anônimos patriotas convocados por um procurador para alguma cruzada épica.

Em 2014 a emérita professora de Semiótica da PUC/SP, Lucia Santaella, alertou para um suposto perigo subliminar nas ciclovias pintadas de vermelho da cidade, iniciativa do prefeito petista Fernando Haddad: “uma descarada propaganda vermelha do PT, provavelmente encomendadas do Diabo em pessoa”. Vermelho, PT, Comunismo e o Diabo, outro delírio semiótico onde o significante (cor /vermelho/) se desloca do significado (convenção simbólica de sinalização internacional das ciclovias) - sobre isso clique aqui.

Ideologias são as práticas cotidianas


Por que esse delírio semiótico? Sintoma do quê? Do tradicional anti-comunismo atiçado pela propaganda política?

Ideologias são as práticas cotidianas. Elas não nascem das propagandas políticas. Estas apenas reforçam predisposições existentes nas práticas mais comezinhas do dia-a-dia.

O delírio semiótico nasce das práticas cotidianas dos duplos vínculos vividos pela classe média que equivale à metáfora (ooopa! cuidado com metáforas) do cavalo que tenta pegar a cenoura na ponta de uma vara enquanto empurra a corroça – preso na cilada comunicativa de uma sociedade de consumo que ao mesmo tempo insufla desejos que serão imaginariamente realizados pelo salário que produz renda e lucro para uma minoria.

A cilada esquizofrênica do duplo vínculo cria os sintomas esquizoides que alimentam o atual anti-comunismo e o retro-fascismo: o padrão de pensamento hebefrênico não consegue compreender, por exemplo, a metáfora ou gestalt de um painel alusivo à imigração japonesa. Assim como vê na cor vermelha, algum sentido oculto já que não consegue entender a alusão simbólica da cor.

O que produz a paranoia em um mundo no qual a comunicação é reduzida à tábula-rasa, onde não há simbolismos ou alusões, apenas indícios de causa-efeito conspiratório.

O ponto de chegada é o delírio catatônico cujos sintomas agora tornam-se públicos e cada vez mais audaciosos depois que a grande mídia abriu a caixa de pandora. 

                   Foram úteis até recentemente, mas começam a se tornar incômodos porque os cidadãos acometidos pelo surto esquizoide-semiótico procuram agora uma tradução política que normatize a sua patologia.