Marcadores

Mostrando postagens com marcador CULTURA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CULTURA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

SOCIOLOGIA - SEGUNDO ANO DO ENSINO MÉDIO - AULA 04 - BIMESTRE III - 30 DE AGOSTO DE 2019


 Resultado de imagem para mundo do trabalho

AULA 4 - O MUNDO DO TRABALHO PARA A SOCIOLOGIA.

1)      A palavra trabalho vem do Latim tripalium que se refere a um antigo instrumento de tortura, de forma que historicamente se conferiu valor negativo ao trabalho. Durante a Idade Média a Igreja perpetuou esse significado dividindo a sociedade entre os que guerreavam, os que oravam e os que trabalhavam. Na Idade Moderna o trabalho passou a ser visto como forma de dignificar o homem, com a ascensão das relações burguesas.

2)   Atualmente a precarização sistemática do trabalho e de todo os instrumental legal que é relativo aos direitos do trabalho como o crescimento da terceirização e do emprego informal gera incertezas.

3)      Os Sociólogos clássicos pensam o trabalho da seguinte forma:

- Karl Marx: O universo do trabalho ajuda a compreender a vida social. A divisão da sociedade em classes é espelho da divisão social do trabalho: Quem é o dono ou não dos chamados meios de produção tem o controle das relações de trabalho. Três coisas definem o trabalho: 1) Força de trabalho (humana), 2) Objeto de Trabalho (matéria-prima), 3) Meio de Trabalho (instrumentos). A mercadoria é produzida pelo trabalhador, mas é propriedade do "dono", este vende a mercadoria e fica com o lucro total, e só repassa ao trabalhador o valor da mão-de-obra dele, negando o lucro sobre a mercadoria produzida por ele. O nome disso é mais valia. A mais-valia é o mecanismo utilizado para obter lucro. Existem dois tipos: A absoluta e a relativa. O trabalhador não se dá conta disso, sendo submetido a uma alienação.

- Max Weber: Para ele o capitalismo e as relações de trabalho atuais tem origem na ideologia protestante religiosa. Ele dá uma interpretação cultural das relações de trabalho e do papel do trabalhador. O surgimento do protestantismo transformou o trabalho em um instrumento de salvação da alma. Dessa forma toda tentativa racional (trabalho) de se chegar ao lucro no Capitalismo tem subentendido uma forma de negação do prazer e das atividades impuras para se atingir a idealizada salvação. O trabalho é visto sob uma ótica religiosa pela sociedade. O trabalho passa a ser uma vocação. A diferença entre ricos e pobres no Capitalismo caberia a existência pessoal dessa vocação.

- Émile Drkheim: Para Durklheim, a intensa Divisão Social do Trabalho é essencial para manter a sociedade unida. O trabalho é o meio de consolidação da chamada solidariedade (elemento que harmoniza a sociedade e não nos joga de volta a barbárie) em qualquer sociedade, seja antiga, seja atual. Existem dois modelos de solidariedade: A mecânica, típica das sociedades antigas, ligadas as tradições, costumes, etc. E a orgânica, típica das sociedades modernas onde há maior divisão de trabalho e diferenças culturais entre indivíduos. Quando não há coesão social, ou seja, se a Divisão social do trabalho não faz a sociedade ficar harmônica, gera-se um período de anomia (ausência de regras). Segundo Durkheim, isso ocorre porque as Instituições Sociais (Justiça, Polícia, Estado, Igreja, etc.) não estão funcionando bem.


SOCIOLOGIA - PRIMEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO - AULA 04 - BIMESTRE III - 30 DE AGOSTO DE 2019


Resultado de imagem para INTERAÇÃO SOCIAL

AULA 4 – SOCIALIZAÇÃO

1)      Socialização é o processo de transmissão de códigos culturais de um grupo social aos indivíduos que delem fazem parte, mais novos, integrando-os à medida que interiorizam as informações recebidas. Inicia-se com o nascimento e prolonga-se durante toda a vida, manifesta-se institucionalmente através da Educação. É a realidade vivida passada através da interação social na sociedade. Existem dois níveis de socialização:

- Socialização primaria: Feita através de contatos diretos, com alto grau de afetividade, dentro dos núcleos familiares em sua maioria.

- Socialização secundária: Iniciada no final da infância e continua por toda a vida. É feita por pessoas sem grau de afetividade, como no trabalho, escola, ou por instituições educacionais.

2) Os meios de comunicação hoje são considerados os agentes de socialização com mais influência, seguidos pelas chamadas instituições sociais tradicionais como a Família, a Religião, O casamento, a Escola, etc.

3) As Instituições Sociais não são estruturas materiais ou organizações sociais formais. Entende-se como padrões de comportamento, normas e ações sociais que se aplicam aos indivíduos. São amplamente aceitos e estáveis, criados para atender necessidades criadas por agrupamentos urbanos.

4) Grupo Social: Conjunto de indivíduos formado por meio de interesse, práticas e valores compartilhados como as famílias, os estudantes, os trabalhadores, etc. As tribos urbanas são exemplos de grupos sociais. Podem ser primários, quando os contatos são íntimos e afetivos, ou secundários, quando os contatos são impessoais e baseados em regras formais. Os intermediários são considerados um misto dos dois.

5) Interação Social: É o que promove as trocas culturais e mantém uma sociedade funcionando, é o conjunto de influências recíprocas desenvolvidas entre os indivíduos e entre estes e os grupos sociais. Podem ser de cooperação, competição (quando o outro indivíduo ou grupo é um adversário) e conflito (quando o outro indivíduo ou grupo é um inimigo).

6) Toda interação social que se produza na sociedade entende que os indivíduos ocupam determinadas posições de prestígio e poder diferentes, e se valem dessas posições para gozarem de privilégios e responsabilidades. Damos o nome de Status a esse fenômeno. Podem ser considerados: Legal (determinado por lei), Social (determinado fora da lei), Adquirido (determinado por mérito pessoal) e Atribuído (determinado por outrem).

7) A cada posição de status há maneiras de agir e de se relacionar socialmente, sujeito a sanções. O nome disso é Papel Social. Cada mudança de Status, mudam-se os papéis sociais.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O BEBÊ (CONTO - FINAL), POR ALEXANDRE MEIRA


Resultado de imagem para CORDEL BEBÊ
Mercedes apressara-se para vê-la. Apreensiva, precisava falar com a prima. Por que aquilo tudo acontecera? Daquele jeito? Largou o sobrinho aos cuidados das parteiras e da irmã, pois o rosto de sua prima assaltava-lhe a memória todo aquele tempo.
Não agüentou andar apenas, correu. E logo, a mais encantadora das filhas de Yolanda, entrou no quarto em penumbra onde uma senhora cuidava de uma menina envolta em panos, desfalecida. O barulho da casa ficara imperceptível diante da fragilidade de Mariana sobre a cama. Mercedes se aproximou e colocou o rosto do alto em direção ao rosto da prima para que ela num relance a reconhecesse.
E ela a reconheceu. Os olhos entrecerrados ganharam vivacidade.
Mariana não conseguia mover o rosto. Mercedes ajoelhou-se, então, e diante da cama segurou a mão da prima ainda gelada e suada pela febre.
A senhora presente, com a mão leve tocou o ombro de Mercedes para que ela tivesse mais cuidado. Mas mesmo assim a menina não se conteve e colou seu rosto na bochecha de Mariana. Um beijo longo foi como lenitivo para ambas. Logo pequenas gotas de lágrimas corriam o rosto das duas.
Mariana não podia, mas não resistiu ao jeito pândego de Mercedes balbuciar em seu ouvido “Maluca..”. Os olhos da jovem mãe arquearam em um sorriso não seguido pelos lábios. Marcadas pela inconseqüência de sua pouca idade, refizeram com o sorriso doído o pacto de amizade incólume, mesmo diante dos riscos. Mercedes então ciente da atenção da prima disse-lhe ao pé do ouvido, com um nó na garganta.
- Eu vou cuidar dele. Ele é meu filho também...
Mariana segurou a respiração.
   Essa frase a perseguiu desde o nascimento de João. E foi com certeza a expressão mais pura de bem-querer que ela ouviu na vida, tão grande quanto o amor pelo seu próprio filho. Algo com o peso de um juramento.
De lá ouviu-se o primeiro choro do bebê João.

Chico de Oliveira (1933-2019)

Perda imensurável para o pensamento crítico brasileiro, Chico de Oliveira foi um dos nossos mais originais e afiados sociólogos marxistas. Leia aqui as páginas iniciais de sua última obra publicada em vida: "Brasil: uma biografia não-autorizada".

É com inominável pesar que comunicamos o falecimento de Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, o Chico. Um dos nossos mais originais e afiados sociólogos marxistas, querido amigo e camarada, ele nos deixou nesta madrugada de quarta-feira, dia 10 de julho de 2019, aos 85 anos. Descrito por ninguém menos que Roberto Schwarz como “um mestre da dialética”, Chico deixa um inestimável legado para o pensamento crítico brasileiro. O velório ocorre hoje no salão nobre do prédio administrativo da FFLCH-USP, a partir das 17h. Sua última obra publicada em vida é Brasil: uma biografia não-autorizadaOrganizado e apresentado por Ruy Braga e Fabio Mascaro Querido, o livro abre com um longo ensaio de Chico sobre “o adeus do futuro ao país do futuro” e oferece uma síntese de sua produção intelectual mais recente. Como forma de homenagem, disponibilizamos abaixo as páginas iniciais do ensaio de abertura do livro, em que Chico esboça uma síntese da formação histórica brasileira. Ao final deste post, reunimos uma seleção de vídeos do Chico na TV Boitempo.
* * *

Síntese da formação histórica brasileira

Por Chico de Oliveira.

Nascemos, como todos os países da América, dos dolorosos e cruéis processos de formação do Novo Mundo a partir das descobertas (?) ibéricas. Conosco, renasceu também o Velho Mundo. Uma extraordinária combinação: o novo, financiando a acumulação de capital – numa época em que os metais preciosos eram a forma por excelência do dinheiro –, provocou o renascimento do velho. Uma colonização inteiramente nova, cujo objetivo nunca foi, como nos séculos anteriores, apenas a conquista territorial – mesclavam-se propagação da fé cristã, comércio e exploração de riquezas comerciais. Conosco nasceu a modernidade. Éramos contemporâneos dela, seus fautores, junto com nossos conquistadores.
Isso não quer dizer que não houve guerra e extermínio. No Brasil, as estimativas mais recentes falam de um contingente de 2,5 milhões de autóctones em 15001, distribuídos dispersamente ao longo e ao largo do que corresponde hoje ao nosso imenso território; reduzidos, genocidamente, a pouco mais de 340 mil indígenas – apelido do equívoco de ter-se descoberto as Índias – concentrados sobretudo na Amazônia (cerca de 180 mil), com parcos, esquálidos mesmo, restos de população autóctone nas outras regiões brasileiras; estes, em geral, formam pequenos grupos, já na maior parte completamente aculturados, e situam-se no mais baixo estrato social, de uma pobreza extrema2. Uma catástrofe epidemiológica que se ombreia com todas as grandes pestes europeias e asiáticas.
O sentido da colonização foi mercantil3 e se expressou, primeiro, na extração da madeira que daria nome ao que, no futuro, seria chamado “país do futuro”. Mas rapidamente transformado num empreendimento produtivo, numa colônia de produção ou de exploração, com a introdução da cana-de-açúcar, que os portugueses haviam transportado da África para a ilha da Madeira e transformado numa atividade lucrativa combinando lavoura e indústria.
A posse da terra foi logo definida pelas capitanias e, depois, pelas sesmarias de providência real. Concentrada, desde logo, o que viria a ser um dos pilares da ancestral estrutura econômica, social e política da colônia, que se prolongou séculos além. O sucesso da exploração reforçou a concentração fundiária. E a cobiça internacional: França e Holanda não só namoraram a enorme possessão da coroa portuguesa, como chegaram a invadi-la – os primeiros por pouco tempo, no Rio de Janeiro, ainda no século XVI, e os segundos por um quarto do século XVII, no Nordeste açucareiro, disputando o açúcar e o tráfico de escravos. A Inglaterra pirateou sempre que pôde, até transformar-se na patrulheira dos mares e patrona da extinção do tráfico negreiro.
Fosse como necessidade de mão de obra, devido à inadaptação da população autóctone a trabalhos regulares e à sua fuga para remotas paragens, fosse como um grande negócio, já no século XVI o comércio de escravos negros africanos se transformou em outro pilar dessa estrutura, imprimindo sua marca a ferro e fogo no corpo dos escravos e no corpo da sociedade. No dizer de Luiz Felipe de Alencastro, a colônia americana era o lugar da produção, e a África negra, o da reprodução4.
Provavelmente nada menos de 4 milhões de africanos negros aportaram no Brasil, num total de 10 milhões, que se distribuíram também pela América espanhola e pelas Antilhas francesa, britânica, holandesa e dinamarquesa – destaque para Jamaica, Cuba e Estados Unidos5. Esse estigma está na origem de problemas até hoje irresolutos, mesmo depois que a economia – já brasileira e inteiramente capitalista – chegou a ser a segunda de maior crescimento no século que foi de 1870 a 1970, aproximadamente.
O par senhor-escravo assentou as bases de uma estrutura social bipolar, que formou a maior parte da nação. A casa-grande e a senzala são o brasão dessa sociedade6 – embora esse padrão bipolar não tenha se reproduzido no resto da colônia que depois se tornaria independente, foi a característica patrimonialista-paternalista que formou a economia e a sociedade. Já no século XIX, a região Sul e parte da Sudeste se diversificaram étnica e estruturalmente, com a chegada de imigrantes da Europa empobrecida.
Durante um breve tempo, o Eldorado esteve nos aluviões e nas profundezas das Minas Gerais. Até hoje, quem quiser pode visitar, nos fundos de poços de minas em Ouro Preto, a morte dourada de milhares de negros, submetidos a semanas inteiras praticamente enterrados. A vida deles foi emoldurada em ouro e hoje faz a glória de capelas e matrizes do barroco brasileiro.
Em toda a colônia, outra diferença essencial: com as reservas da reprodução na África, o escravismo foi um sistema duramente predatório; a expectativa de vida de um escravo no Brasil não ultrapassava em muito os trinta anos. A mãe preta ficou na saudade das gerações de brancos que se alimentaram de seu leite e suas lendas africanas pela excepcionalidade da duração da vida dos escravos domésticos, porque os do eito, da lavoura, cedo morriam7.
Esfolar o escravo até a alma era bom negócio para os proprietários e para os traficantes. Os Estados Unidos, com um atraso de quase um século como colônia, abrigam hoje mais de 250 milhões de habitantes, enquanto o Brasil, que assustou demógrafos malthusianos na metade do século XX, tem apenas cerca de 175 milhões de pessoas; é claro que o crescimento demográfico norte-americano excepcional é fruto também da intensa migração europeia atraída “para fazer a América” – fluxo que continua até hoje, substituído pela migração de latino-americanos.
Apesar do “exclusivo colonial”, isto é, a parte do leão que ficava para a metrópole portuguesa, os “negócios do Brasil” cresceram e prosperaram; se desde o início a colônia era em relação à metrópole uma espécie de gigante que não passava pela estreita goela portuguesa, o desenvolvimento colonial foi rapidamente transformando a metrópole numa dependência econômica da colônia. É simbólica dessa inversão a extravagância da mudança da sede do império para o Brasil, quando a corte se desabalou para cá em naus, fugindo das tropas napoleônicas de Junot, nos calcanhares de d. Maria I, a Louca, e seu filho d. João VI, então regente e futuro rei.
Boaventura de Sousa Santos fala mesmo de Portugal como uma semiperiferia encalacrada entre a Europa – a que finalmente se uniu nas últimas décadas do século XX – e um império démodé, na África, que não conseguiu entrar na divisão internacional do trabalho já ultrapassada pela Segunda Revolução Industrial – encruzilhada que produziu a tragédia africana e o embotamento português.
O comércio e as atividades produtivas movidas a braço escravo mantiveram e reforçaram a concentração fundiária. Tiveram seu apogeu e decaíram a mineração e o comércio do ouro, e o mesmo ocorreu com a criação de gado solto pelo pampa gaúcho e pelos sertões áridos do Nordeste, que fizeram com que o país tivesse o maior rebanho bovino do mundo, somente ultrapassado pela Índia, onde a vaca é sagrada e, por isso, improdutiva. Depois do advento do chamado trabalhador livre, diversificaram-se as atividades ao Sul, enquanto se enfraqueceram no Norte agrário, especialmente no que viria a ser o Nordeste.
Na virada do século XIX para o século XX, quando a Goodyear, fábrica de pneus norte-americana, vulcanizou o látex, irrompeu o surto da borracha na Amazônia. Milhares de nordestinos participaram da maior transmigração interna vista até então; nesse processo, conviveram com a malária e as sezões e ergueram teatros dourados em Manaus – onde até o tenor italiano Enrico Caruso cantou. Chegaram à Bolívia, onde o cearense Plácido de Castro liderou, no século XX, a anexação do Acre, hoje estado brasileiro.
Nessa época, começou a despontar o ouro verde (café), que seguiu das barrancas do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, marchou para o oeste, sentido vale do Paraíba, em São Paulo, e foi bater no Oeste paulista – no século XX, a cafeicultura tomou de assalto o Norte paranaense, remontando-o. Converteu-se, depois, na mais importante mercadoria do comércio mundial, só ultrapassada pelo petróleo quando já ia avançado o século XX.
As mudanças na estrutura social, na forma de exploração das riquezas, na estrutura da propriedade, no estatuto do trabalho, com imigrantes estrangeiros, italianos, espanhóis, portugueses e, depois, japoneses substituindo o trabalho escravo nas regiões em curva ascendente de prosperidade, abalam as estruturas políticas de um rígido, mas maquiado, unitarismo da única monarquia do continente. O país real era mais uma confederação de oligarquias locais e às vezes regionais, combinando os poderes econômicos com os políticos de fato.
Desde a Inconfidência Mineira, em 1789 – que não chegou a ter, propriamente, expressão militar e, portanto, libertadora –, passando pelas revoluções liberais de 1817, 1824 e 1848 do ciclo “nordestino”, com a guerra da Independência de entremeio, o país entrou em convulsão. Sim, guerra, pois, se no Sudeste a coisa foi relativamente pacífica, da Bahia a guarnição militar portuguesa foi expulsa apenas dois anos depois. Houve ainda uma regência autoritária, que governava em nome do imperador menor de idade e brandia pela espada dos Lima e Silva, inclusive o futuro duque de Caxias, o projeto autocrático da burocracia. Nesse período conturbado, a regência derrotou a Cabanagem no Pará, a Balaiada no Maranhão, a Revolta dos Malês na Bahia, as revoluções do ciclo nordestino já citadas e a Farroupilha no Rio Grande.
Foi um duro percurso, do Quilombo dos Palmares, no que é hoje Alagoas, até desaguar, sem tempestade – até na história a meteorologia é falha –, na abolição da escravatura, em 1888. Disse um conselheiro do império: “Liberta uma raça e perde uma coroa”. Batia às portas a República.
Desde logo, eis os elementos do truncamento brasileiro, mesmo que não se adotasse ponto de vista de desenvolvimento histórico linear. Truncamento que alimentou a autoironia dos brasileiros, às vezes com humor cáustico, mas baseado em fatos reais: uma independência urdida pelos liberais, que se faz mantendo a família real no poder e transformou-se imediatamente numa regressão quase tiranicida; um segundo imperador que passou à história como sábio e não deixou palavra escrita, salvo cartas de amor um tanto pífias; uma abolição pacífica, que rói as entranhas da monarquia; uma república feita por militares conservadores, mais autocratas que o próprio imperador. Num registro não sarcástico: desenvolvimento conservador a partir de rupturas históricas libertadoras.
Notas
* Este texto é o primeiro item do ensaio de abertura do livro Brasil: uma biografia não-autorizada, de Chico de Oliveira, publicado pela Boitempo em 2018.
1 Carmen Bernardo, “Imperialismos ibéricos”, em Marc Ferro (org.), O livro negro do colonialismo(Rio de Janeiro, Ediouro, 2004). Já se falou em cerca de 6 milhões de índios à época da chegada de Cabral, mas pesquisas e estimativas posteriores reduziram a cifra às proporções citadas por Bernardo.
2 Essas estimativas, ainda mais imprecisas, são da mesma fonte citada na nota anterior.
3 Embora os historiadores, desde os cronistas da Conquista, tenham sempre colocado o acento na exploração como objetivo colonial, entre nós foi Caio Prado Jr. quem, decididamente, fez a interpretação do “sentido da colonização”, criando toda uma linhagem na historiografia brasileira. Ver seus História econômica do Brasil (41. ed., São Paulo, Brasiliense, 1994) e Formação do Brasil contemporâneo (6. ed., São Paulo, Brasiliense, 1961).
4 Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (São Paulo, Companhia das Letras, 2000).
5 Ibidem, p. 69, tabela 1.
6 Casa-grande & senzala é o título do clássico de Gilberto Freyre, da geração de 1930, que infletiu, decisivamente, a interpretação da formação da sociedade brasileira, abandonando e rejeitando os clichês da antropologia e da sociologia racistas, em favor do elogio à miscigenação (30. ed., Rio de Janeiro, Record, 1995).
7 Gilberto Freyre dá excepcional relevo ao papel das escravas, e menos ao dos escravos, na educação sexual das gerações de homens e mulheres brancos brasileiros. Esse papel se projetou no imaginário brasileiro como elogio da mulata, que esconde, dengosamente, uma dura dominação de classe mesmo no Brasil atual. O Carnaval carioca é movido em torno do corpo da mulata. Alguns dos principais poetas brasileiros, como Manuel Bandeira, filho de estirpe açucarocrata pernambucana, revelou em um de seus sonetos seu sonho mais acariciado: dormir com uma negra. Jorge de Lima revela o deslumbramento com o corpo de negra em “Essa nega fulô”.

terça-feira, 11 de junho de 2019

O RACISMO DA ACADEMIA APAGOU A HISTÓRIA DE DANDARA E LUISA MAHIN, por Ale Santos

Reprodução de foto de Luisa Mahin.
Reprodução de foto de Luisa Mahin.
33
Foto: Alberto Henschel/Domínio Público
O RACISMO DA ACADEMIA APAGOU A HISTÓRIA DE DANDARA E LUISA MAHIN
Ale Santos
4 de Junho de 2019, 0h05
Este texto é uma resposta à historiadora Ana Lucia Araujo, que considera perigosa a inclusão no Panteão da Pátria de guerreiras cuja existência não teria sido provada. O projeto, aprovado pelo Senado, ainda depende da apreciação do presidente. 

A ESCRAVIDÃO INTERROMPEU a história da África e de seus descendentes, roubando séculos de produção intelectual em troca de trabalho forçado. O Brasil só aboliu a escravidão há menos de 131 anos e é natural ver alguns nomes de heróis afro-brasileiros sendo reconhecidos cada vez mais no Panteão da Pátria, um memorial cívico inaugurado em 1986 para homenagear personalidades brasileiras.

No “Livro dos heróis e heroínas da pátria”, já constam nomes como Luís Gama, Anita Garibaldi, Zumbi dos Palmares e Heitor Villa-Lobos. Recentemente, o Senado aprovou a inclusão de duas lideranças negras: Dandara, líder quilombola que articulava as estratégias de Palmares ao lado do marido, Zumbi, e Luisa Mahin, considerada uma das maiores lideranças negras contra a escravidão na Bahia do século 19, mãe do abolicionista Luís Gama. Ambas são símbolos da luta feminina contra a escravidão.

Assine nossa newsletter
Conteúdo exclusivo. Direto na sua caixa de entrada.
Eu topo
Assim como a maior parte dos personagens negros, o nome dessas duas guerreiras é envolto em polêmica. Historiadores desconectados da realidade negra questionam as fontes que comprovam a existência dessas mulheres porque só há relatos esparsos das suas vidas. Ambas acabaram alvos do desinteresse de historiadores da época, e ainda hoje existe uma dificuldade imensa em recuperar suas biografias por não haver um esforço em catalogar e analisar a tradição oral como fonte historiográfica. A maior parte da vida de Dandara, por exemplo, sobreviveu na forma de lendas, segundo a Fundação Palmares. Não há registros do local onde nasceu, tampouco da sua ascendência africana.

Não sobraram evidências físicas sobre a Dandara após o ataque a Palmares. Nos poucos registros, sabe-se que ela chegou no quilombo ainda menina e participava tanto das atividades corriqueiras, como caça ou agricultura, quanto das atividades de defesa e combate pelo quilombo. Ao ser presa, em 1694, decidiu que nunca seria escravizada e se jogou de uma pedreira para o abismo.

ale-03-1559668980 Ilustração de Luís Game e sua mãe Luísa Mahin. Ilustração: Thiago Krening/TVE/RS
A mãe de Luís Gama é tratada da mesma maneira pela história. Não existem registros oficiais de suas participações nos levantes baianos. O primeiro documento que descreve Luisa é uma carta do abolicionista endereçada ao jornalista Lúcio de Mendonça. A existência de Luisa Mahin é comprovada na descrição de seu filho Luís Gama.

Segundo a historiadora Ligia Fonseca Ferreira, “a riqueza de detalhes e o testemunho pessoal atribuem veracidade a narração de Gama, ampliando as possibilidades de aceitação da personagem”. Luisa pertencia à nação nagô-jeje, originária do Golfo do Benin. Era do povo Mahin, daí seu sobrenome. Ela sempre negou o batismo e manteve suas tradições africanas acima das doutrinas cristãs. Sua casa teria sido o quartel general da Revolta dos Malês em 1835.

A falta desses registros em papel, que nunca seriam obtidos de modo fácil ou que sequer existam, gera um questionamento que, a meu ver, é a face de um preconceito secular na historiografia, tema abordado em “História Geral da África I” por Joseph Ki-Zerbo, um dos mais respeitados historiadores africanos. Segundo Ki-Zerbo, os estereótipos raciais criadores de desprezo estão tão profundamente consolidados que corromperam inclusive os próprios conceitos da historiografia.

A inscrição dessas duas mulheres no Panteão da Pátria não é apenas um reconhecimento das figuras históricas, mas significa uma pequena ruptura na historiografia com viés colonial, um passo em direção a valorização da tradição negra-brasileira como uma entidade histórica. Isso contribui para a construção e fortalecimento da consciência étnica do povo afro-brasileiro. Sem isso, negros e indígenas seguirão a mercê da visão de quem os manteve cativos, exatamente como diz um famoso ditado africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça seguirão glorificando o caçador.”

ale-00-1559661214 Retrato de Machado de Assis. Reprodução: Wikimedia Commons.
Negros que não se achavam negros
Esses estereótipos a que Ki-Zerbo se refere surgiram de forma mais intensa nas produções brasileiras do século 19. Apesar da existência de uma pequena e importante elite intelectual negra, representada por nomes como André Rebouças, Joaquim Nabuco e Machado de Assis, ela estava envolta em uma sociedade em busca do branqueamento. Joaquim Nabuco, por exemplo, sequer se considerava negro e dizia que Machado de Assis também não era. O racismo influenciou, portanto, toda a produção de história daquele período.

O médico Raimundo Nina Rodrigues – que dá nome até hoje ao IML de Salvador e a um hospital em São Luís do Maranhão – se tornou um dos maiores expoentes do preconceito racial. Em sua obra “Os africanos no Brasil”. publicada em 1932, defendeu que, apesar de um mestiço ou negro livre parecer inteligente, não se pode esquecer da sua condição e realidade social:

“Não o pode deter a confusão pueril entre o valor cultural de uma raça e as virtudes privadas de certas e determinadas pessoas. Se conhecemos homens negros ou de cor de indubitável merecimento e credores de estima e respeito, não há de obstar esse fato o reconhecimento desta verdade — que até hoje não se puderam os negros constituir [sic] em povos civilizados.”

É possível encontrar trechos de livros ou matérias de jornais expressando o preconceito de maneira descarada durante toda a fundação da República e mesmo depois. É muito difícil imaginar qualquer autor, historiador e antropólogo vivendo no início da República ou sendo influenciado por grandes personalidades (eugenistas) brasileiras, sem que tenha absorvido sua apatia, preconceito e desprezo pela produção cultural da diáspora negra – vide Gilberto Freyre descrevendo de forma fria e quase romantizada as relações de estupro e abusos recorrentes durante a colonização.

Apesar disso, ainda podemos festejar o dia 21 de março de 1997 como um ponto de virada para nós, quando Zumbi dos Palmares teve seu nome escrito como herói no Panteão. Sua inclusão não significava apenas a valorização de um dos líderes da revolta afro-brasileira contra a escravidão colonial, mas o reconhecimento da importância das tradições orais do povo preto em nossas terras. Zumbi ainda sofre com o fato de a maioria das coisas escritas sobre sua vida venham de quem odiava a resistência quilombola. Sua biografia vem de registros em crônicas ou notícias trazidos por holandeses, um manuscrito chamado de “Relação das guerras feitas aos Palmares de pernambuco no tempo do governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678” e uma descrição em diário de uma expedição que teria visitado uma das possíveis Palmares.

Talvez o racismo dos historiadores de ontem não seja expresso de forma tão direta atualmente, mas os estereótipos raciais ficaram impregnados na pesquisa histórica e na forma padrão de construção do conhecimento historiográfico, construída durante a colonização. Ela determinou o que era civilizado e o que era selvagem. Assim, exterminou outras formas de conhecimento. O professor Boaventura de Santos Souza chama isso de “epistemicídio”. Para ele, “o conhecimento eurocêntrico nas ciências sociais e aliado às outras ciências […] foi construído para não valorizar essas outras experiências”.

Isso impacta diretamente no julgamento de quem olha para a cultura africana sem considerar a tradição oral, que é a principal forma de manutenção da memória popular de quase todo o continente e se contrapõe à historiografia tradicional fundada sobre a escrita. Sem uma tradução intercultural, o historiador pode considerar personagens da história negra como “mito ou folclore” apenas por não encontrar evidências escritas e detalhadas sobre os personagens. Mas é preciso levar em conta que, para os povos ancestrais em África, a palavra falada é um documento muito mais importante a qualquer outro registro talhado em pedras.

Ynaê Lopes dos Santos, autora de “História da África e do Brasil Afrodescendente”, diz que há séculos a historiografia ocidental tem grande dificuldade em trabalhar com a tradição oral, pois o advento da escrita foi tomado como o grande marco a partir do qual a humanidade passou a ter história. “Durante muitos anos, essa perspectiva historiográfica esteve a serviço de projetos imperialistas e colonialistas europeus que tomavam a ausência da escrita como um sinal de ‘não desenvolvimento’ dos povos ágrafos, sem considerar que até pouco tempo atrás grande parte da população da Europa era analfabeta”, disse.

A historiadora acredita que a tradição oral de povos africanos, indígenas e de regiões da Ásia e a Oceania deixou de ser estudada como deveria, pois todas elas receberam “premissas e perspectivas eurocêntricas”. Além dessa análise comprometida e apressada, esses povos foram reduzidos ao nível de “primitivos” e não despertaram interesses em historiadores formados com base nessas perspectivas tradicionais eurocentradas.

Mas transformações nas primeiras décadas do século 20, diz Santos, como a Escola dos Annales, passou a discutir o quanto inviolável eram os documentos escritos. “Passou-se a questionar que mais do que ‘contar a verdade’, esses documentos apontavam versões sobre um determinado momento histórico, e que era necessário ampliar o escopo das fontes, cruzá-las e confrontá-las para que pudéssemos ter uma visão mais aproximada de fatos, eventos e personagens do passado”, explica.


No carnaval carioca de 2019, a Unidos da Tijuca desfilou um navio negreiro com coreografias que remetiam à escravidão.Fotos: Jorge Hely/FramePhoto/Folhapress

Mas modificar um pensamento que moldou a produção de história por séculos e se tornou hegemônico é um processo intenso e vagaroso. A Unesco, por exemplo, levou mais de três décadas para reunir mais de 350 especialistas, coordenados por 39 historiadores – um deles Ki-Zerbo –, que revisitaram fontes, perspectivas e colheram fontes de tradição oral, manuscritos inéditos e promoveram uma discussão sobre a metodologia para contar a história da África.

A obra, iniciada em 1969, só foi publicada no Brasil em 2010 em uma agenda aberta em 1988, quando a nossa Constituição reconheceu, enfim, a desigualdade racial e criminalizou o racismo. Com esse feito, o governo abriu a possibilidade de se questionar a existência do racismo em todas as dimensões sociais, como na própria produção de história.

Infelizmente, apesar de mantermos uma das maiores populações negra do mundo, nosso país não investiu como a Unesco em um projeto para dizimar da historiografia nacional os estereótipos raciais e a visão eurocêntrica que a constituiu. Mas a empreitada da Unesco foi traduzida ao português durante a gestão de Fernando Haddad no MEC.

Também tem crescido os esforços de pesquisadores independentes, com iniciativas isoladas em universidades e instituições nacionais. Recentemente, a Faculdade Zumbi dos Palmares lançou a campanha “Machado de Assis Real”, visando reparar a injustiça histórica que branqueou o autor e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. A inclusão de Dandara e Luisa Mahin no Panteão da Pátria também pode ser encarada como parte da reconstrução de um imaginário negado a um povo escravizado por séculos. A luta segue.


terça-feira, 4 de junho de 2019

GOZO, por ALEXANDRE MEIRA (POESIA)

Santa Inquisição da Igreja Católica



A arte morre.

O beijo morre.

Também
a libido,
que desencarne a pele de vez,
e só sobre
a dor da alma,
nua,
sob o franzido da tez.

O fogo já morreu de frio,

Fez o mar em calma
arredia, subterrânea, 
da menina mansa no
cio.

Calada pela mania
de matar aos poucos.

À golpes de cajado
do Pai,
da moral, 
epifania fabianista,
dos roucos,
moucos,
cegos e surdos
do gozo,
obscurantistas,
de só chegarem ao orgasmo, 
quando decepam
fora o mal,
pelo medo dos
leves espasmos,
incontroláveis,
primais,
sensíveis, 
quando tocam pela primeira vez
o próprio pau.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Com Trump e Bolsonaro, o video game molda a política, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.




Depois de Trump e Bolsonaro a política nunca mais será a mesma: são duas figuras que despontaram na superfície de um movimento mais profundo que vem intrigando pesquisadores que estudam as transformações da política através da tecnologia: como na nossa sociedade os elementos lúdicos vem invadindo diversas esferas com a proliferação dos jogos, principalmente os eletrônicos. O cinismo e desilusão com a democracia representativa combinados com elementos inerentemente lúdicos das tecnologias digitais, plataformas e aplicativos estariam gerando uma “gamecracia”, “casual política” ou simplesmente uma “neodemocracia”. Assim como nos games, a política estaria sendo moldada por uma irresponsabilidade lúdica, como se tudo fosse apenas um jogo eletrônico no qual as consequências do erro são minimizadas para dar fluência à partida. Afinal, num videogame temos muitas vidas para perder. E até aqui, no espectro político, a direita é aquela que está mais antenada nessas transformações. 

Foi no extinto programa de humor da Globo Tá no Ar: a TV na TV(2014-19). Em um esquete vemos uma cliente, acompanhada pelo vendedor, procurando itens de compra em uma espécie de loja de departamentos. Ela se detém diante de um estande no qual posa um general ombreado por dois soldados empunhando fuzis. Todos eles trajados com modelos antigos de uniformes do exército brasileiro. Alguma coisa datada dos anos 1960. 
“Gostei desse... ele é bom?” - pergunta a entusiasmada consumidora. O vendedor é cuidadoso com as palavras, dizendo que “pode ser” sem muita convicção. “Ah... mas, qualquer coisa, eu posso trocar, né?”, pergunta a mulher, insegura. O general, até então imóvel como uma estátua, intervém irritado: “Trocar nada! Vai ficar com a gente por 21 anos!” ... E ordena aos soldados armados: “podem prendê-la!”, arrastando a assustada consumidora que não entende nada.
O esquete era uma evidente ironia não só ao tempo que durou a ditadura militar brasileira, como ao estranho nostalgismo pós-moderno de pessoas que não viveram aquele período, mas são capazes de acreditar que foram os melhores momentos da recente história brasileira. E certamente serão esses que estarão nas manifestações convocadas pelo capitão da reserva dublê de presidente, para esse domingo, clamando por intervenção militar no Congresso e STF.

Irresponsabilidade lúdica

A felicidade desse esquete é que ele retrata uma certa maneira de focar a política que cresce na atualidade  – apresenta de forma engraçada uma espécie de irresponsabilidade lúdica, como se a Política fosse um jogo eletrônico (“qualquer coisa, a gente troca...”) que permite diversas tentativas, minimizando os erros e dando fluência ao game e passagens de níveis na partida.
Nesse curto e simples esquete encontramos uma síntese preocupante daquilo que muitos pesquisadores atuais como Alex Gekker (“Gamocracy: Political Communication in the Age of Play”), Alexander Galloway (“Protocol: How Control Exists After Decentralization”) ou Jodi Dean (“Why the Net is not a Public Sphere”) chamam de “neodemocracia”, “política casual” ou, simplesmente, “gamecracia” (“Gamocracy”).
O ponto em comum em todos esses pesquisadores é que o elemento inerentemente lúdico está se tornando proeminente na sociedade atual pela grande proliferação de jogos (principalmente eletrônicos) e que as teses em torno dos estudos culturais sobre jogos e entretenimento seriam fundamentais para compreendermos as atuais estratégias de comunicação na política.

Alex Gekker e o aplicativo da campanha de Obama em 2008

Casual política

A confluência das mídias de convergência com as mídias tradicionais, junto com a perda da legitimidade das formas tradicionais de representatividade na política (partidos, sindicatos etc.) transformariam o espaço midiático num decisivo campo onde o poder se confundiria com o lúdico. Em outras palavras, o elemento lúdico, presente nos jogos formais e incorporado nos designs de jogos, estariam contaminando campos que, por sua natureza, não se constituem como “games” – política, economia, processos seletivos corporativos etc. – sobre a gameficação corporativa, clique aqui.
Por exemplo, para Gekker os meta-processos dos games resultam na “casual política”: além da utilização de aplicativos (vide o caso de aplicativos desenhados exclusivamente para a campanha de Obama em 2008 ou o papel das redes sociais e WhatsApp no caso Trump e Bolsonaro) a política passa a priorizar interfaces tecnológicas marcadas pela imediaticidade visual, controle intuitivo, simplificação das tarefas e clara definição de objetivos. A “usabilidade” passa a ser um dos principais quesitos para esse novo ativismo político, assim como nos designs de jogos.
A casual política é pensada para um tipo de ativismo bem distinto da velha militância centrada por motivações político-ideológicas – ela é desenhada para intervenções rápidas (“short bursts”), em pequenas ações de acordo com o tempo ou expertise que o ativista tem disponível. 
Mas principalmente, assim como nos jogos, o engajamento ocorre em um game que exibe uma atitude de perdão em relação ao erro. Permite diversas tentativas, sempre no sentido de manter a fluidez e a ininterruptibilidade do jogo – o game pode ser sério ou difícil, mas permite em caso de erro não ser necessário repetir fases anteriores do jogo.


Minimização do erro

Esse humilde blogueiro jamais esquecerá as primeiras experiências perceptivas ao passar de uma máquina de escrever para um editor de texto em um computador. Tudo parecia lúdico, como fosse um jogo. Mas, principalmente, percebi assombrado que as consequências do erro eram minimizadas: enquanto numa máquina de escrever, diante do erro datilográfico, ou você pacientemente tentava bater a tecla sobre o corretor para encobrir a letra errada, ou arrancava o papel, amassava, jogava na lixeira e começava tudo de novo. 
Para meu assombro, num computador bastava apertar a tecla “delete” ou dar um “backspace”.
Lembro-me que naqueles anos 1990, muitos pesquisadores (prontamente qualificados como “tecnofóbicos”) apontavam as consequências ético-morais para essa espécie de irresponsabilidade do erro. Por exemplo, Michel Heim no livro “Metaphisics of Virtual Reality” (Oxford Press, 1993) apontava para essa perda do peso erro: bastaria apertar a tecla “esc” ou “delete” e poderíamos abandonar uma tarefa, eliminar um erro, sem enfrentar consequências de perder tudo e recomeçar um trabalho.
Nesse simples evento corriqueiro no qual a tecnologia nos salvaria de nós mesmos, estaria a eliminação das âncoras que nos prenderiam ao mundo real: finitude, temporalidade e senso de fragilidade corporal. Em outras palavras, esse alívio frente as consequências do erro geraria uma visão de mundo amoral.
Claro que poderíamos afirmar que a tecnologia é regida pela lei do menor esforço, desempenho e praticidade. O problema é quando esse paradigma começa a contaminar as outras esferas de natureza não-tecnológica da sociedade, como a Política.


Da estética à gameficação

Sabemos que, no espectro político, a extrema-direita historicamente sempre foi mais antenada com a aplicação das novas tecnologias do momento no campo político. Desde o nazi-fascismo no século XX, no qual a política foi estetizada por meio da propaganda política através do cinema e do rádio.
No século XXI, mais uma vez, a extrema-direita inova com a verdadeira blitzkrieg através dos algoritmos das redes sociais. Os casos do Brexit e as eleições de Trump e Bolsonaro mostram que foi dado mais um passo à frente: da estetização do século passado, agora temos a gameficação da política– a política levada a termo através dos paradigmas dos jogos eletrônicos: usabilidade, ininterruptibilidade e, principalmente, a irresponsabilidade do erro.
“Qualquer coisa, a gente troca!”, dizia a incauta compradora sem entender as consequências da sua opção. A política reduzida à interface dos aplicativos parece ter reduzido a complexidade político-ideológica em um simples jogo, com tarefas facilmente identificadas (por meio da polarização do espectro político) e a possibilidade de desbloquear etapas e subir nos níveis da partida – através do incremento dos laços nas redes sociais através do compartilhamento de fotos, memes etc.
 Essa irresponsabilidade feliz (típica de gamers que sabem ter infinitas tentativas e várias vidas a perder) é certamente o que está por trás das galhofas da chamada “direita alternativa” (alt-right): mãos fazendo arminha, fetichização de revólveres, fuzis, balas, munições e meganhagem (sobre esse conceito, clique aqui). 
Como falam nas “raids” (ataques de surpresa em sites, fóruns e salas de bate papo), é tudo “zoeira” ou “for the lulz” – apenas “por diversão”.  


O pesquisador canadense Arthur Kroker, em 1994, parece ter pressentido esse caráter lúdico regressivo, próprio da adolescência, na crescente virtualização das relações sociais:
“A masculinidade burguesa sempre foi pré-adolescente: pensamentos de pequenos garotos achando que poderão controlar o mundo, mas agora o mundo é ciberespaço. O sonho de ser deus do ciberespaço – ideologia pública como fantasia de garotos pré-adolescentes: uma regressão do sexo para uma autística forma de poder” (KROKER, Arthur & WEINSTEIN, Michael. Data Trash: the theory of the virtual class.N. York, St. Martin Press, 1994, p. 11.)
Diante de tudo isso, passamos a desconfiar da função ideológica diversionista de todo o debate sobre a suposta influência ou efeitos negativos dos videogames no comportamento dos jogadores como ações violentas ou doenças emocionais. A questão não são os videogames em si, mas como os meta-processos dessas plataformas está moldando múltiplas esferas sociais que passam a acomodar uma certa lógica midiática.
Na política, o cinismo e desilusão com a representação e engajamento políticos combinados com essa espécie de “democracia direta” pelas plataformas digitais produz essa gameficação: a transformação do drama político num mero jogo de ganha/perde no qual as consequências são desprezadas. Afinal, temos muitas vidas para perder...

terça-feira, 14 de maio de 2019

O HOSPEDEIRO (CONTO - PARTE IX), POR ALEXANDRE MEIRA



Foi engraçado como Celeste o acordou nesse dia. Nunca ela fizera antes tal molecagem, esperou ele virar de barriga para cima, dormindo, e encheu seu rosto de penas de galinha. Resquício da vítima da canja magra que sua mãe produzira no almoço do dia anterior. Acordou aos espirros, assustado procurando se desembaraçar das penas. As gargalhadas da irmã chamaram as outras duas meninas para que entrassem no quarto e pulassem em cima dele ainda todo coberto.
              Realmente foi engraçado. O jovem João colheu aos poucos um sorriso sem-graça enquanto segurava as duas irmãs nos braços. Olhou para Celeste como se agradecesse. Um sorriso verdadeiro pela manhã é sempre bom.
                 -  Qualquer hora eu não vou conseguir segurar mais vocês duas! - Disse João segurando Celina e Paixão, uma com cada braço.
                  - Aguenta sim! - Respondeu Celeste sentada a sua cama ainda se recompondo das gargalhadas.
                     O garoto então, com orgulho, levantou as duas o mais alto que pôde. As meninas se divertiram quando conseguiram tocar o madeirame exposto que sustentava o telhado da casa.  Celina tinha dez  anos e Maria da Paixão oito. Mesmo não estando acima do peso, não eram leves, puxaram ao pai principalmente na altura. Não eram tampouco pequenas. Celeste olhou admirada até perder-se e abrir a boca sem perceber. João perguntou:
                     - Cadê o pai, Cel?
                     - E eu sei?... Respondeu-lhe com uma leve ironia.
                    João percebia já do alto de seus quase dezoito anos que a adolescente Celeste tinha uma imagem construída do pai a partir da distância que sempre existiu entre eles. Talvez por isso João tenha sentido a irmã nos últimos tempos mais doce, mais brincalhona, mais carente de atenção. Uma transferência de expectativas a menina poderia estar fazendo da imagem do pai ausente, para o quase-adulto irmão.  Mesmo diante do claustro que vivia João em relação a cidade, dentro daquela casa ele era a alternativa na referência masculina para as irmãs.
                            João desceu as duas dos braços e as viu partir para o corredor. A sós com Celeste procurou contemporizar:
- Cel, o pai deve estar cheio de serviço. Para de implicância.
- Quando ele tá de serviço ele tá fora de casa. Quando ele tá aqui, ele só bebe e briga com a gente.- desabafou a menina.
- Vocês todas pegam muito no pé dele. Tem dar um desconto, pô. Imagina você trabalhar viajando o tempo todo, cheio de responsabilidade lá no batalhão que ele fica? Tem que chegar em casa e descansar um pouco. Ele tem direito. A mãe regula muito a vida dele. Deixa ele lá! - Exaltou-se um pouco João enquanto ajeitava sua própria roupa de cama.
A menina de braços cruzados apenas olhava.
- Você também quase não fica em casa...
João cresceu estudando fora da cidade. A mãe com medo de matriculá-lo nas vizinhanças do bar, por conta da perseguição do povo, inscrevia-o sempre na cidade vizinha. Mais de vinte quilômetros de ida e mais de vinte para voltar para casa. Não era todo mundo que gostava de dar carona, pra falar a verdade quase ninguém, por isso na maioria das vezes fazia o percurso a pé. Transporte público ainda era artigo de luxo no interior. Nessa toada o garoto saia de manhã e chegava quase sempre de tardinha. Na mesma toada quase não passava de ano na escola. Aos finais de semana João enfurnava-se em casa. Assim foram os dias em sua infância e adolescência. O episódio da perda dos primos, netos conhecidos que eram da finada Yolanda, o isolou ainda mais de tudo e de todos. Dessa forma pode-se dizer que ele não se misturou a própria cidade, os vizinhos, etc. Embora os vizinhos o conhecessem muito bem, ou pelo menos achavam que o conheciam. Celeste continuou:
- Você que tinha que ser o pai da gente, João...
O garoto levantou-se de sua cama e sentou-se ao lado da irmã:
- Você não ia gostar de ter um pai que nem eu. - brincou João esfregando os olhos ainda sob efeito do sono.
- Mas pelo menos quando você está aqui você fica com a gente. - disse a menina descruzando os braços.
- Mas eu só tenho isso pra fazer... - confidenciou o garoto enquanto esticava os braços espreguiçando-se.
A menina então rapidamente abraçou o irmão pela cintura e encaixou a cabeça em seu peito quase pegando-o no susto:
- Tive o sonho horrível hoje... - murmurou bem baixinho, Celeste.
O rapaz sorriu.
João largou o peso dos braços sobre o corpo leve da irmã e pareceu querer sufocá-la com um abraço.  Disse:
- Então é isso, né? Por isso que você está toda manhosa assim! Já não basta os meus pesadelos, você tem que ter os seus agora é?!
A menina deixou-se apertar. E não procurou se desvencilhar. Ambos permaneceram assim alguns segundos. E aquele foi o último abraço que João recebera da irmã.
                          O dia corria naturalmente com seu calor de fim de tarde e o pouco movimento de costume. Para um fim de semana os pés descalços que sortidamente riscavam a rua empoeirada davam impressão ao que poderia ser um quadro, estático que pareciam aqueles transeuntes em suas modorrentas rotinas. A casa sempre escura escondia vultos aqui e ali, e o silêncio era prova viva de que “não se podia conversar para não espantar os fantasmas”. Esse era mais um bordão de finada Yolanda, quando questionada pelo silêncio da casa. Bordão esse adotado por qualquer uma das filhas em situações similares.
“Até que enfim uma missão!”. Pensou o garoto quando viu Margarete romper a sala com uma pequena lista para comprar. Pondo-se de pé diante de Margarete, João parecia um titã a frente de uma jovem senhorinha:
- Vai até a Fazendinha pra mim e compra isso aqui lá naquela mercearia do lado da Casa de Macumba! Lá no Inácio! É bastante coisa, vai de bicicleta! Não esquece a notinha de fiado, que eu tenho que bater com as minhas contas aqui!! - intimou a voz forte de Margarete.
Esse tipo de ordem deveria sempre ser dada às costas de Mariana, uma vez que a cada saída de seu filho de casa, sua mãe ficava extremamente nervosa. João, já irrequieto com o passar do tempo lodoso daqueles idos, apenas procurou constatar:
- A senhora falou com a mãe?
- Já sim, por que?
- Por nada...
- Vai logo garoto!! - gritou erguendo os braços obesos, Margarete.
João andando rápido pegou a bicicleta do padrasto. Velha, mas útil. E chegou a conclusão que levaria a tarde toda para trazer tudo, uma vez que a mercearia do Inácio ficava a pelo menos meia hora de bicicleta depois de sua escola! E lá foi o gigante saindo do quintal com a bicicletinha abrindo espaço na poeira da rua. Olhou pra trás e viu sua tia Mirtes varrendo a porta do bar. Um cão sarnento começou a latir perseguindo-o, e tratou de pedalar mais forte. O que não era uma dificuldade pra ele, logicamente. Após um arranque vigoroso, ficou de pé sobre os pedais e logo pôde sentir o vento da rua bater no rosto negro e amenizar o calor daquelas bandas.
Passou por algumas casas e o que era de costume se repetiu. Alguns olhares, alguns comentários. Cumprimentos nem pensar! Salvo alguns bêbados, mas isso não contava pra ele. O filho do capeta então riscava a cidade de bicicleta cuidando-se apenas de não atropelar ninguém. João se lembrou: “Imagina se soubessem que estou indo a mercearia do lado da casa de Macumba!”. E se ouviu rir enquanto pedalava.
Sofrera tanto na vida com aquela rejeição toda que agora se ocupava de fazer piadas. Quebrava-se então um sentimento de autopiedade. A ironia é certamente uma das saídas mais inteligentes de um ser humano para lidar com uma condição desproporcionalmente inferior. João estava começando a perceber isso. Só não poderia saber, até pela pouca idade, que sua conseqüência direta é um descomprometimento ácido. Uma atitude blasé que resseca o coração aos poucos.
O calor distorcia imagens distantes, mas começou a reconhecer que a pessoa que vinha andando no meio da estrava em sua direção era seu padrasto. Freou com os pés cascudos no chão a bicicleta e parou diante de Bento:
- Quer que eu te dê uma carona até em casa rapidinho? Depois eu volto! - ofereceu João.
- Que carona, o quê!! - respondeu rispidamente Bento que seguiu rumo trocando as pernas.
“Êêêêêê... Manguaça desgraçada!” pensou João. Observou por mais alguns segundos o caminhar sinuoso daquele senhor envelhecido pela bebida. E era início de tarde, ainda! A barriga de chopp já saltava a blusa daquele velho oficial. O cabelo outrora irretocável confundia-se com uma barba igualmente grisalha e mal aparada. “Deixa minha mãe ver isso!? A casa vai cair!”, pensou alto o rapaz enquanto retomava impulso para continuar a pedalada.
E seguiu.
No distrito da Fazendinha, na cidade ao lado, João não viu a tarde passar. Fez criteriosamente o que sua tia determinou e ainda pechinchou pra cartelinha do fiado. Sabia como era a tia, e passar a tarde lá não era lá de todo ruim. Exercitava um pouco sua capacidade de se comunicar. Não tinha consciência disso é óbvio, mas matava uma espécie de sede íntima. Interagir com outros de igual para igual não era uma constante em sua cidade. Por isso aproveitava o quanto podia. Até porque volta e meia reconhecia nos olhares que sua história vinha a tona em alguns comentários à boca miúda. “Não dá muito pra arriscar um desconto”, pensava jocosamente o moleque quando percebia um tipo de olhar “familiar”.
Voltou pra estrada um pouco antes de escurecer com dois pares de sacolas cheias de mercadorias e presas com dois cabos de madeira. Colocou-as sobre os ombros, um par em cada.
À noitinha despontou na estrada que dava em sua casa e ouviu o barulho dos grilos anunciando sua chegada. Faltando metros pra o bar fechado viu um pequeno amontoado de gente a sua porta. Saltou da bicicleta e viu o grupo se dissipar. Entrou e deu de cara com Mirtes na porta dos fundos.
- Cadê as compras? Olha vai falar com sua mãe, Bento e ela estão se pegando lá em cima... - disse Mirtes olhando para as sacolas em suas mãos..
- Ahhh! Sei o que foi, quando tava saindo vi o pai bêbado chegando... resignado disse João, entregando uma sacola de cada vez.
- Não é só isso, não. Eles estão se pegando feio. Você saiu sem avisar a sua mãe! Margarete já tentou mas não conseguiu nem entrar no quarto. Todo mundo que passa, pára e pergunta o que é que tá acontecendo...
Só depois disso que prestando mais atenção passou a ouvir os gritos. Olhou para o segundo andar, na parte dos quartos da antiga pensão, viu apenas a luz acesa ensaiando apagar. Lembrou de um detalhe:
- Ué, mais eu avisei! Quer dizer, a tia Margarete avisou! - elevou a voz João.
Mirtes deu de ombros e entrou na cozinha carregando o peso. “A mãe também não dá trégua...” pensou alto João dando a volta pelo quintal para pegar a escadaria e subir até os quartos do segundo andar.
Após os passos longos, na parte sem iluminação do quintal pisou o primeiro degrau e reconheceu a irmã Celeste de cabeça baixa. Olhou novamente e reconheceu-a com mais nitidez. A irmã levantou a cabeça.  A luz da lua, brilhante no céu limpo iluminou seu rosto. Ela havia chorado, saberia reconhecer até no escuro quando sua irmã chorava. Olhando pra ele, ela disse:
- O pai me bateu...
João fez um muxoxo. Passou a mão cascuda no rosto da irmã e não viu machucado. Perguntou pra menina:
- O que você fez, Cel?
A garota ficou indignada. Levantou-se. Sobre os degraus ficou a altura dos olhos do irmão. Ensaiou um choro novamente, descrente do que havia ouvido, e vociferou para ele:
- O que eu fiz, João??? Não fiz nada!!!!!!!!!
Passou feroz trombando-lhe e correu para a portinhola da rua. Já iluminada pela luz da entrada da casa olhou para trás e viu João parado taciturno. A garota gritou:
- Ele bateu na mãe, também!!!
Saiu pela rua e sumiu. João balançou a cabeça negativamente e retomou a escada. Subiu alguns degraus e parou. Ouviu a mãe gritar. Era uma discussão feia. O padrasto também falava alto. Pensou... Retornou. Desceu a escadaria e entrou pela cozinha onde Mirtes ainda guardava as compras, ouviu da tia:
- Foi ver sua mãe?
João meio desatento com a informação da irmã respondeu baixo: “Não...”. Bento e Mariana brigavam constantemente, e várias vezes sob efeito da bebida o pai se exaltava. Nunca vira o pai bater na mãe. Mas tinha consciência de que isso acontecia. O pai sempre foi muito duro com as mulheres da casa. Perguntou:
- Ele bateu na mãe, tia? - perguntou ainda meio descrente.
Antes de ouvir a resposta, entra Margarete. Pisando forte como se marchasse abriu a despensa atrás de alguma coisa. João interpelou-a:
- Você não avisou pra mãe, tia? Eles estão brigando por causa disso? Não acredito.
- Não sei, garoto! Achei que tivesse avisado!! Eles começaram a brigar porque seu pai te deixou ir sozinho. Depois porque ele tá bêbado. Depois não sei mais o quê... E tá assim pra mais de uma hora.. Desisti de fazer eles pararem...
Nesse instante ouviu o choro alto de sua mãe. Ela gritara coisas que não entendeu bem. Não conseguiu decifrar. As agressões se intensificaram. O garoto respirou fundo. As meninas Celina e Paixão entraram na cozinha, quietas permaneceram, sentaram-se à mesa. Não sorriram. João percebeu o clima ainda mais pesado da casa. Levantou. Ficou inquieto. O pranto de sua mãe estava o incomodando. Perguntou novamente a tia:
- Ele bateu na mãe tia?
A tia respondeu sem piedade:
- Sim. Na frente de todas nós. Sobrou até pra Celeste.
- O que a Celeste fez? - perguntou com os olhos arregalados, João.
Dessa vez a resposta veio de Margarete:
- Não fez nada, João. Apenas olhou pra ele quando ele esmurrou sua mãe. Olhou com aquela cara que a Celeste faz quando  não gosta de alguma coisa. Tomou um tapa na cara de estalar.
                         João olhou para todas as mulheres. As únicas que retornaram o olhar eram as irmãs. Celina e Paixão olhavam com um ar de expectativa incomum. João andou de um lado para o outro. As tias mexiam nas compras. João se sentou. O garoto ainda tentou  tergiversar:
- Vocês vão ver... Vai passar, eles sempre se resolvem depois... - e trançou os dedos sobre a mesa.
Um grito de horror tomou conta da cozinha. Era Mariana que chorava desesperadamente. Aos gritos ela pedia que Bento parasse. Um silêncio sepulcral se pôs a mesa logo depois. Cada um fazendo alguma coisa. Celina apoiou o queixo na madeira em tristeza. Paixão olhou com os olhos grandes para João. Ele se perdeu nos olhos negros da irmã. Seu olhar já não era o mesmo. A menina aos poucos teve seus lindos olhos ressumados.
Sua tia sem olhar para ninguém, atenta aos legumes na pia, disparou com a frieza de um caçador:
- Essas horas é que faz falta um homem na casa...
Sentiu o golpe da tia profundamente.
João levantou-se, após. Girou em silêncio em direção ao corredor interno da casa e subiu as escadas para chegar ao segundo andar. Bem devagar João andou em direção aos gritos. Eles ficaram insustentáveis aos seus ouvidos. Pensava em entrar no quarto e pedir que se acalmassem e pronto: Sair. Sabia que nunca gozara de crédito, muito menos de autoridade frente aos pais, mas aquilo não podia continuar daquele jeito. Parou diante do quarto girou a tramela que segurava a porta e esperou alguns segundos para entrar. A luz escassa ameaçava apagar. Alguns instantes de silêncio o esperavam no quarto. João entrou.
Preferiu mais tarde nunca ter entrado naquele quarto.
Sua mãe estava de joelhos com o rosto coberto de sangue. Era segura pelos cabelos por Bento que completamente desfigurado de raiva cerrava o outro punho a ponto de tremê-lo. Com os olhos de ódio Bento fitou João atrás da porta entreaberta e antes que ele pudesse falar qualquer coisa, atacou:
- Sai daqui agora e fecha porta!
João com o coração disparado olhou para a mãe totalmente indefesa e a viu ainda balançar seu rosto fremente corroborando o intuito do pai. Ele nunca havia visto a mãe daquele jeito. Suas mãos estavam inquietas. Olhou novamente o padrasto e saiu, fechando a porta lentamente. Virou as costas e foi andando devagar pela sacada do segundo andar. Do corredor olhou para baixo e no portão entreaberto lembrou da irmã e do que ela disse. Pois bem. Ele precisava acalmar Bento. O padrasto talvez estivesse precisando mais dele naquela hora do que em qualquer outro momento. Era necessário agir até para que pudesse mostrar que era útil e que Bento poderia contar com ele. Lembrou de si mesmo perdido na floresta envolto de corpos destrinchados e como o abraço do padrasto o acalmou. Confiava plenamente nele. Precisava mostra-lo que era confiável também. Isso seria útil até para que a mãe não o zelasse tanto, e para isso exigisse igualmente de Bento.
O garoto parou e deu a volta. Retomou o rumo dos gritos. Dessa vez, sem pensar muito, entrou e fechou a porta por trás de si.
Bento segurava a mãe pelo pescoço parecendo sufocá-la contra a parede. O cheiro de álcool no quarto era absurdamente forte. Ela o viu entrar, o marido não. Quando viu que os olhos da mulher se viraram para a porta. Bento gritou:
- Já falei pra sair, desgraçado!!
João novamente com as mãos trêmulas argumentou:
- Pai, fica calmo. A mãe vai se acalmar também. As meninas estão assustadas lá embaixo.
Bento arremessou a mulher em direção a cama. Ela cai de mau jeito e continuou um choro sem fazer barulho. Bento ajeitou as calças e com a camisa aberta olhou fulminante para o garoto.
João pôde ver que um grande corte na testa de sua mãe vazava. As mãos de Bento tinham sangue também. João continuou:
- Pai, vamos descer, eu estou bem... A mãe precisa descansar também. Vamos descer.
Não foi o suficiente.
Um tapa desproporcional explodiu no rosto de João fazendo-o levar a mão rapidamente em direção ao rosto. O garoto apoiou a outra mão na maçaneta da porta atrás de si. Bento berrou:
- Macaco fedido!! Quando eu mandei você sair era pra você sair!!!
João olhou pra mãe. Nunca seu pai havia lhe encostado a mão. A predileção por João era algo que nunca fora questionada por ele, mesmo intimamente. Aquela mão que acertou-lhe o rosto com violência era a mesma que segurava a sua na rua quando ainda era muito pequeno. Era a mesma que o defendia do mundo fora daquela casa. Junto ao pai nunca sentiu vergonha dos olhares venenosos.
Sua mãe conteve o choro por alguns momentos e suplicou antecipando-se:
- Filho, pode sair! Vai ficar tudo bem!
João ajoelhou-se com uma das pernas. Não conseguia crer no que aconteceu. Um aperto no peito roubou-lhe algumas lágrimas. Precisava ser forte. E ser forte naquele momento para ele era insistir no bom senso do pai. Com o queixo estremecido João pediu calmamente sem levantar os olhos para o padrasto:
- Pai, por favor, desculpa eu estar aqui. Mas a tia me pediu pra vir aqui pra vocês pararem de brigar. - e continuou com a voz embargada - As meninas estão com muito medo, e já tem gente juntando na rua pra ver, vocês estão brigando há muito tempo.
Bento, tomado de ira, gargalhou inexplicavelmente. Gritou pra Mariana:
- Tá vendo Mariana, o que você fez com esse bosta. Até pra agir feito homem ele se borra todo!!! Quem tinha que tá levando essa surra Mariana é esse merda aqui! Pra aprender a ser homem!
João parou de tremer. Os olhos marejados secaram.
Um arrepio infernal correu toda a sua nuca quando a luz do quarto piscou duas vezes.
Mariana se desesperou e gritou:
- Sai daqui João!!! Por favor!!! Não escuta o Bento, ele tá bêbado!
O garoto inerte pareceu desligado por alguns segundos.
Bento virou-se para a cama e tirou o cinto. Dobrou em forma de chicote e foi em direção a mulher. “Você não respeita nem o que eu já fiz por você, sua vadia!!!” foi o que ele disse antes de erguer o braço para desferir uma chicotada na altura do rosto da mulher.
Ele não conseguiu.
Seguro pelo punho por uma força descomunal, Bento olhou para trás e viu seu enteado como uma sombra de olhos fechados e semblante duro. Mariana reiniciou o choro e tentou a despeito de suas dores, sobre a cama, esticar o braço para tocar no filho. Não conseguiu.
Numa atitude de defesa Bento tentou soltar-se de João, inocentemente.  O garoto ainda de olhos fechados trouxe o corpo de Bento para perto de si. Centímetros separavam o rosto dos dois. “Me larga, João!”. O grito do pai não surtiu efeito. Ele insistiu:
- Olha pra mim, João! Estou mandando você me largar! - disse Bento sem o tom imperativo de antes.
João permaneceu segurando o punho de Bento junto ao peito e de olhos fechados a frente dele. O garoto parecia um touro  ofegante. Mariana apenas chorava. Bento recuperando a sanidade falou:
- João, meu filho, olha pra mim... - disse Bento com insegurança.
E João abriu os olhos.
O que Bento viu foi um ser irreconhecível a sua frente com os olhos totalmente esbranquiçados. Não teve tempo sequer de gritar.
Com o outro braço João segurou o pescoço de Bento e arremessou seu corpo como um boneco velho em direção a parede. Os gritos de Mariana só serviram para amedrontar Bento que mesmo com o choque se levantou ainda tonto e tentou proteger o rosto. João desferiu impiedosamente um chute na altura do queixo do padrasto que o fez cair sem vestígio algum de dentes na boca. O sangue de Bento passou a se misturar com as manchas de sangue de Mariana no local. Com o velho padrasto caído, João iniciou uma seqüência de chutes  letais na altura das costelas. O homem passou a urrar como um porco a beira do abate. Sem forças algumas para se levantar passou apenas a defender o rosto dos chutes e clamar por piedade.
João não ouvia nada.
Os gritos alarmantes de Mariana chamaram a atenção do resto da família que subiu rapidamente a escadaria em direção ao quarto. Quando estavam a iminência de abrir a porta João puxou uma das camas e travou a entrada. O espetáculo dantesco agora dependia apenas de João para acabar. Bento nesses poucos segundos ameaçou se arrastar para longe do enteado, mas foi impedido quando João o ergueu pelos cabelos. O olhar do velho era de pânico.
João já conhecia e se alimentava vorazmente do cheiro do medo.
O rosto de Bento foi arremessado três vezes pela nuca contra a quina da penteadeira velha, que remontava a época da infância de Yolanda naquela casa. O rosto da vítima já tomava formas irregulares cercando apenas um par de olhos encharcados de desespero. Os murros na porta dados por suas tias apenas geravam um trilha sonora horrenda para o estava acontecendo. João jogou o corpo do padrasto, após os golpes, no chão. A luz do quarto tremelicava e ameaçava apagar. Sentado com a cabeça para trás, apoiada na cama, Bento espumava e emitia sons guturais erguendo os braços insustentáveis. As feições humanas de ambos se desfaziam, por motivos diferentes, eu diria opostos. João pisou o peito do velho e com os dedos grossos da mão segurou a base da cabeça da vítima em posição para arrancá-la. Os dedos forçavam a entrada na garganta de Bento. Os olhos do oficial ameaçavam saltar. Vendo o que estava acontecendo, Mariana, começou a gritar pelo nome de João, e se arrastou na cama até tocar seu braço rígido, sob os gritos mortais de Bento.
- Filho... Olha pra mim. Por favor não estraga a sua vida. Não se transforma nisso por favor...
João olhou para a mãe, e disse com uma voz bestial:
- Eu não disse que ele era meu...
A luz se apagou.
Na rua a casa já era cercada por pessoas instadas pelos vizinhos a praticamente invadi-la. Os gritos de horror de Bento jamais foram ouvidos naquelas bandas. Mulheres chorando imaginavam  que o pior estivesse acontecendo naquela casa marcada pelo sofrimento, mas talvez não esperassem por isso. Homens já forçavam a porta do quarto onde os gritos de Bento provinham, contudo há alguns minutos um silêncio desalinhou os ânimos.
- Vamos ter que arrombar!! - gritou para alguns homens o velho Sebastião amigo da família, observado pelas mulheres da casa.
Apenas nessas situações que a pensão fechada ou o bar estiveram tão cheios. Uma ironia triste. Os arroubos intermitentes na porta de madeira logo a fizeram cair desvelando a realidade mais triste que aquela casa já havia presenciado.
Um verme bravio eclodiu o seu hospedeiro e deixara para trás uma carcaça velha e fedida. A janela aberta, escancarada sendo cuidada por uma mulher em estado de choque sobre a cama. Nenhum homem teve coragem de entrar, e logo as crianças foram encaminhadas para o andar de baixo da casa.  As primas de Mariana tampouco a ofereceram colo, uma vez que o que estava dentro do aposento, além de assustador, transformou a história de todas elas.
Alguns restos mortais estavam espalhados por todo o quarto, como que dispostos em uma oferenda. O oficial Bento estava morto e irreconhecível, em pedaços, espalhados pelo quarto. As paredes sem tintas dos quartos estavam assinaladas fortemente com sangue e surdas permaneceram diante da barbárie. Mariana olha hipnoticamente para a janela aberta por onde viu seu filho sair. A mesma janela que quase dezoito anos antes ela rompera grávida para tentar fugir de sua sina. Neste dia a sina de João fugiu ao controle de Mariana.
O barranco logo depois, e a trilha pelo mato em direção a rua, agora tinham as pegadas monstruosas de um menino.
O cenário em muito lembrava o da pedra do Gavião, no episódio da morte dos gêmeos Esaú e Jacó. Onde alguns homens que lá estavam acompanhando Bento, hoje estão diante de seus restos. Manifestações de indignação, se misturaram com o medo e nada mais assegurava a vida em paz dentro daquela casa. O que era precário, se desfez totalmente.
Ainda perto dali um gigante na noite corria, mas de medo.
***