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segunda-feira, 18 de março de 2019

O cinema encara as sombras da violência, por José Geraldo Couto.


Riquíssimo em informações sobre os “anos de chumbo”, Pastor Cláudio examina os circuitos da morte mantidos pela ditadura. Em Elegia de um crime, Cristiano Burlan revê a brutalidade de um feminicídio — o de sua mãe
Riquíssimo em informações sobre os "anos de chumbo", <i>Pastor Cláudio</i> examina os circuitos da morte mantidos pela ditadura. Em <i>Elegia de um crime</i>, Cristiano Burlan revê a brutalidade de um feminicídio — o de sua mãe” class=”wp-image-3009381″/></figure>







<p>Por <strong>José Geraldo Couto</strong>, no <a href=Blog do Cinema
No país dos traumas diários, dois novos documentários iluminam os desvãos dessa nossa violência congênita. Um deles, Elegia de um crime, de Cristiano Burlan, fala da brutalidade íntima, doméstica, entre quatro paredes. O outro, Pastor Cláudio, de Beth Formaggini, revela as entranhas da nossa histórica violência de Estado, que teve seu apogeu na ditadura militar, mas espalha seus tentáculos até hoje (talvez sobretudo hoje) sobre o território nacional.
Reconstituição de uma vida
Elegia de um crime fecha a “trilogia do luto” de Burlan, composta também por Construção (2007), em torno da morte suspeita do pai, e Mataram meu irmão (2013), sobre o assassinato de um de seus quatro irmãos. O novo filme aborda a morte da mãe, Isabel Burlan, estrangulada pelo namorado, num caso trágico e típico de feminicídio.
Mas talvez seja redutor dizer que é um filme “sobre a morte da mãe”. É, mais amplamente, uma reconstrução da memória da mãe, da sua trajetória acidentada e da diáspora dos filhos pelo país. Ao entrevistar a irmã e os dois irmãos sobreviventes, além de tios, tias e uma avó, ao mesmo tempo em que busca localizar e levar à cadeia o assassino da mãe, Burlan acaba por traçar o esboço de várias biografias duras, sofridas, nas periferias de grandes cidades brasileiras por onde Isabel passou (Porto Alegre, São Paulo, Uberlândia).
O filme tem uma pulsação vital impressionante, dolorosa até. Algumas passagens são fortíssimas, como aquela em que a irmã, Kelly, descreve in loco o momento em que encontrou a mãe morta, ou a conversa em que a mesma Kelly admite pela primeira vez que sabia que Cristiano era adotado.
A porta estreita
Mas o ponto alto, em termos dramáticos e também políticos, é o depoimento de um dos irmãos, que passou oito anos numa penitenciária e tenta retomar a vida como trabalhador e pai de família, encontrando todo tipo de obstáculo. O que poderia ser visto como um discurso edificante, uma “história de superação”, é cortado bruscamente por um letreiro seco que diz: “Depois desta entrevista, ele foi preso novamente”. A ideologia rasteira dos “brasileiros de bem contra a bandidagem” ignora o quanto é estreita a porta para os que vivem à margem.
Em sua estrutura, Elegia de um crime obedece a dois vetores: de um lado, a busca do assassino; de outro, a reconstituição da vida da mãe e da família, a recuperação dos vestígios que Isabel deixou pelo mundo.
Significativamente, o filme começa numa estrada e termina num cemitério. Neste último, Cristiano, em off, diz imaginariamente à mãe: “Sua morte definiu a minha vida”.
Pastor Cláudio
Ao contrário do movimentado e heterogêneo Elegia de um crime, o filme de Beth Formaggini é de uma concentração formal quase ascética: passa-se praticamente todo dentro de um estúdio, onde o psicólogo e militante dos direitos humanos Eduardo Passos entrevista Cláudio Guerra, ex-agente da repressão na época da ditadura militar e hoje pastor evangélico.
Com a maior serenidade e desenvoltura, o Pastor Cláudio detalha as atrocidades de que participou, como delegado do Dops do Espírito Santo, e descreve o funcionamento da máquina de extermínio de opositores do regime, em especial na época da hesitante “abertura política” a partir de meados dos anos 1970.
O filme é de uma riqueza informativa inesgotável: a “Casa da Morte” de Petrópolis, as torturas no Doi-Codi de São Paulo, a incineração de corpos numa usina canavieira de Campos (RJ), o assassinato de Zuzu Angel, disfarçado de “acidente”, o atentado frustrado do Riocentro, as articulações entre grandes empresários e a repressão, tudo isso é descrito com frieza pelo protagonista, que já havia contado muitos desses episódios no livro Memórias de uma guerra suja, de Rogério Medeiros e Marcelo Netto.
Uma das revelações mais estarrecedoras é a da sobrevivência dos círculos e métodos de repressão brutal mesmo depois do fim do regime ditatorial, em delegacias policiais, esquadrões da morte, grupos de extermínio. A palavra “milícias” não é mencionada, mas é impossível deixar de evocá-la.
Mais assustador ainda é ouvir que uma certa “irmandade” de grandes empresários, com ligações com a maçonaria, continua ativa, associando-se a políticos e financiando sicários para eliminar inimigos.
Sombras sobre os mortos
O dispositivo formal do documentário, em sua aparente simplicidade, atinge uma força tremenda quando são projetadas numa parede imagens de agentes e vítimas da repressão, com a sombra do pastor cobrindo em silhueta uma parte do quadro, e alguns dos rostos projetados em suas costas.
Há um momento particularmente inspirado em que Cláudio reconstitui o “tiro de misericórdia” que deu na cabeça de um preso barbaramente torturado: sob a luz emitida pelo projetor, sem imagens, o que vemos é a sombra ampliada do pastor, com a mão em forma de arma (efígie hoje tristemente difundida), apontando para baixo e “disparando”. “Ele estava tão destruído que nem sei se percebeu que eu ia matá-lo.”
Numa época em que alguns insistem em negar as barbaridades da ditadura militar, como quem nega o Holocausto, o aquecimento global, a teoria da evolução ou a esfericidade da terra, esse depoimento de alguém que participou ativamente dessa engrenagem de horror é, mais do que oportuno, indispensável.
Godard nas telas
Está chegando também a seletas salas de cinema do país o novo filme de Godard, Imagem e palavra. Toda a desumanidade da história moderna, bem como toda a potência transformadora da arte (em especial da literatura, da música e do cinema), estão contidas nesta hora e meia de um filme singular. Escrevi sobre ele quando foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado.
Glauber Rocha, que faria 80 anos hoje (14 de março), morreu prematuramente aos 42. Aos 88, Godard mostra que continua muito vivo, para consolo e alegria de quem ama o cinema.

terça-feira, 5 de março de 2019

“O diabo venceu, sim”: teólogo dá razão a Gaviões da Fiel, cujo desfile escandalizou evangélicos, por Joaquim de Carvalho.


Desfile da Gaviões da Fiel
O teólogo Tiago Santos, que estudou no Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul e é fundador da igreja Abrigo, em Porto Alegre, publicou um texto que está tendo muita repercussão, sobretudo entre os evangélicos. Ele foi pastor batista por oito anos. E fez bacharelado e mestrado em instituições luterana e católica.
Tiago escreveu sobre o enredo da escola de samba Gaviões da Fiel, que levou à avenida a mensagem “O Diabo Venceu”.
Evangélicos se escandalizaram, e por isso o teólogo decidiu explicar por que o carnavalesco da Gaviões deu uma demonstração de que entende mais de Cristianismo do que aqueles que seguem Silas Malafaia e similares.
Leia o texto:
Sobre a polêmica do carnaval quero registrar aqui que o diabo venceu, sim!
Quando a igreja fez arminha com a mão, o diabo venceu.
Quando os pastores e missionários, mesmo atuando nas comunidades mais pobres e obtendo o seu sustento do salário dos trabalhadores, apoiam a retirada de direitos destes para favorecerem os mais ricos, o diabo venceu.
Quando a igreja ri de uma criança que morre, o diabo venceu.
Quando a igreja comemora que uma líder social é assassinada a tiros numa emboscada, o diabo venceu.
Quando a igreja zomba de um líder político que precisa deixar o país sob ameaça de morte, o diabo venceu.
Quando a igreja vive uma expectativa que entremos em guerra com outro país para atender interesses geopolíticos de superpotências, o diabo venceu.
Quando a igreja se torna o principal grupo social do país a espalhar mentiras na internet, o diabo venceu.
Quando a maior preocupação da igreja, em um país extremamente desigual, é que meninos vistam azul e meninas rosa, o diabo venceu.
Quando a igreja fica em angustiante silêncio frente ao racismo, a xenofobia, ao feminicídio, a homofobia, o diabo venceu.
Quando a igreja considera armar toda a população como forma de buscarmos a paz, o diabo venceu.
Quando a igreja considera justo que fazendeiros que já tanto têm esmaguem os povos indígenas para lhes tomar o pouco que resta, o diabo venceu.

Bancada evangélica acusa Gaviões da Fiel de estimular intolerância religiosa: “Não é arte, é crime”, por Congresso em Foco


A Frente Parlamentar Evangélica reagiu à apresentação feita pela escola de samba Gaviões da Fiel, em seu desfile na madrugada do último domingo (3). A escola trouxe imagens que remetem a uma luta entre Satanás e Jesus Cristo, na qual o primeiro sai como vencedor.  Para os integrantes da bancada evangélica, a Gaviões da Fiel estimula a intolerância religiosa e, em vez de arte, pratica um crime.
“Entendemos que aquela apresentação não é arte, é crime. Nenhum direito é absoluto, logo o direito à manifestação artística não se sobrepõe à inviolabilidade da consciência e da crença. As palavras do coreógrafo Edigar Junior revelam qual era o propósito: ‘O foco era chocar. … Alcançamos nosso objetivo que era mexer com a polêmica Jesus e o diabo e a fé de cada um.’”, diz trecho da nota de repúdio divulgada pela frente, presidida interinamente pelo deputado Lincoln Portela (PR-MG).
A escola reeditou este ano o samba-enredo de 1994, “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, e alega que a figura retratada na comissão de frente não era Jesus, mas Santo Antão, um monge cristão que viveu no Egito no século III. A frente diz que vai lutar para que recursos públicos não financiem espetáculos dessa natureza e indica que vai tomar providências legais contra  a escola.

A polêmica suscitou uma onda de críticas à agremiação nas redes sociais por parte de religiosos. O assunto virou um dos mais comentados do Twitter no Brasil.
Confira a íntegra da nota da bancada evangélica:
“A Frente Parlamentar Evangélica – FPE manifesta profunda indignação e repúdio ao espetáculo da ‘Gaviões da Fiel’, no carnaval de São Paulo, com uma apresentação pública ofensiva e desrespeitosa a todos nós, cristãos, ao vilipendiar e escarnecer o Senhor Jesus Cristo e a nossa fé.
Entendemos que aquela apresentação não é arte, é crime. Nenhum direito é absoluto, logo o direito à manifestação artística não se sobrepõe à inviolabilidade da consciência e da crença. As palavras do coreógrafo Edigar Junior revelam qual era o propósito: ‘O foco era chocar. … Alcançamos nosso objetivo que era mexer com a polêmica Jesus e o diabo e a fé de cada um.’
Manifestações dessa natureza estimulam o desrespeito e a intolerância, caminho inverso àquele que nós, brasileiros, estamos buscando consolidar continuadamente.
Lutaremos para que o dinheiro público, fruto de impostos pagos por um povo tão sofrido e carente de políticas públicas de excelência, especialmente na área da educação, da saúde e do enfrentamento à criminalidade e à violência, não financie espetáculos que configurem crime e que não estimulem o respeito e a tolerância fundamentos de uma nação democrática, plural e majoritariamente religiosa.
Com fundamento na Constituição brasileira exerceremos as medidas adequadas.
Brasília – DF, 04 de março de 2019.
Deputado Federal LINCOLN PORTELA
Presidente em Exercício da Frente Parlamentar Evangélica – FPE"

Carnaval Brasileiro, Clipping Internacional - 05/03/2019, por Carta Maior


Notícias internacionais sobre o Brasil; Notícias do Mundo; e Artigos

 
05/03/2019 13:40
(Pilar Olivares/X00856)
Créditos da foto: (Pilar Olivares/X00856
 
1 - NOTÍCIAS INTERNACIONAIS SOBRE O BRASIL

PÁGINA 12, Argentina

Quebraram o seu braço por gritar “Lula Livre”. A brutalidade da política de Bolsonaro contra um líder do PT. A agressão aconteceu num distrito policial para onde fora levado. As imagens são claras: o líder petista não oferece resistência, mas a polícia apanha-o e leva-o para uma sala. No caminho, um dos policiais o pega pelo braço e o quebra. Acompanha o vídeo. 


THE GUARDIAN, Inglaterra

Os povos indígenas Macuxi da reserva de Raposa - em fotos. A reserva Raposa Serra do Sol, no norte do Brasil, abriga 25 mil indígenas, cujas terras são alvo do presidente de direita do país, Jair Bolsonaro.


ESQUERDA.NET, Portugal

Marielle Franco homenageada em Carnaval de São Paulo. A escola Vai-Vai homenageou Marielle Franco em enredo sobre as lutas do povo negro e ainda levou para a avenida 23 convidados de destaque pelo ativismo na luta pelos direitos dos negros, como a filosofa e escritora Djamilla Ribeiro e a deputada estadual Érica Malunguinho (PSOL)


RFI, França

Prefeitura de Paris analisa projeto de nome de rua em homenagem a Marielle Franco. O coletivo Rede Europeia para a Democracia no Brasil (RED-BR), que reúne artistas, intelectuais e militantes na França, anunciou nesta segunda-feira (4) que a prefeitura de Paris aceitou a abertura de um processo para analisar o projeto de nome de rua em homenagem à Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018 no Rio de Janeiro


RFI, França

Sob "sombra de Bolsonaro", Carnaval é "mais militante do que nunca", diz Libération. A edição do fim de semana do jornal Libération traz uma reportagem da enviada especial ao Rio de Janeiro para a cobertura do Carnaval. A jornalista destaca o engajamento político, dos sambódromos aos blocos de rua.


RFI, França

Imagem do Brasil está em jogo após tragédia de Brumadinho, pensa o jornal de finanças francês Les Echos. A resenha da imprensa francesa desta segunda-feira (4) repercute a demissão dos dirigentes da Vale, mais de um mês após a tragédia de Brumadinho. “A gigante da mineração brasileira está no banco dos réus”, é o título da matéria do Les Echos. Para além do caso da Vale, é a imagem do Brasil que está em jogo, salienta o diário.


SPUTNIK NEWS, Rússia

Organizações denunciam na ONU violência contra defensoras de direitos humanos no Brasil. A Terra de Direitos, a Justiça Global e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), com apoio de organizações internacionais, debateram em evento nas Nações Unidas as violências sofridas por mulheres defensoras de direitos humanos no Brasil, como a vereadora assassinada no Rio de Janeiro Marielle Franco.


TRIBUNE DE GENÈVE, Suíça

A segunda e última noite do carnaval carioca, muito crítica, foi marcada pelo surgimento de Neymar. Mas desde a sua primeira noite, o carnaval deu a oportunidade de transmitir muitas mensagens políticas contra o "circo" de Brasília, contra a corrupção ou a intolerância em relação às minorias: negros e LGBT. Mensagens que assumiram uma particular conotação dois meses depois da posse do presidente Bolsonaro, que acumulara provocações racistas, machistas e homofóbicas antes de sua eleição.


LE FIGARO, França

No carnaval carioca, o protesto anti-Bolsonaro está por trás do encantamento sambista. Em um Brasil fraturado pela eleição do presidente populista, o carnaval envia uma mensagem muito política.


LA VANGUARDIA, Espanha

A justiça e a igualdade foram os protagonistas no carnaval do Rio de Janeiro. As mensagens contra a corrupção também fizeram presença nas ruas.


THE WALL STREET JOURNAL, EUA

Depois de um auditor ter reprovado a barragem do Brasil, a Vale encontrou outro que o aprovou. Mas, a gigante de mineração diz que está cooperando com a investigação do colapso de janeiro que matou mais de 180 pessoas.


THE WASHINGTON POST, EUA

No Brasil, o Carnaval presta homenagem a vereadora morta. A competição de samba está se tornando política no Brasil, com uma das principais escolas de samba do Rio e outros grupos homenageando Marielle Franco, ativista de gays e direitos afro-brasileiros que foi morta há quase um ano. A Mangueira no Rio de Janeiro e a Vai-Vai em São Paulo a homenagearam. “Marielle presente!” se gritava.


THE REAL NEWS, EUA

A política do carnaval brasileiro. Os brasileiros estão nas ruas para o carnaval. Milhões pelo país. E para muitos deles, é um ato de resistência. Os apoiadores que formaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva formaram grupos livres de samba em todo o país, como um em Florianópolis.


2 - NOTÍCIAS DO MUNDO 

VENEZUELA. EUA causa milhares de mortos na Venezuela, como efeito das sanções. Por Mark Weisbrot. (PÁGINA 12, Argentina)


VENEZUELA. “É inaceitável que se politize uma ajuda humanitária”, afirmou Francesco Rocca, presidente internacional da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha. (LA VANGUARDIA, Espanha)


ARGENTINA. Descontrole nas gôndolas. Em fevereiro os alimentos da cesta básica subiram 4,66 por cento. Em dois meses, o aumento médio de uma cesta de 38 produtos básicos foi de 7,57%, em média. Passividade oficial diante de produtores e supermercados. (PÁGINA 12, Argentina)


EUA. Democratas lançam extensa investigação de Donald Trump. Uma poderosa comissão parlamentar liderada por democratas, exige documentos de mais de 80 personalidades do entorno do 45º presidente dos Estados Unidos - incluindo dois de seus filhos e seu genro Jared Kushner. (LE FIGARO, França)


CANADÁ. A renúncia do chefe do Tesouro do Canadá acentua a crise do governo de Trudeau. A renúncia de Jane Philpott é a terceira que é produzida pelo caso SNC-Lavalin, no qual o primeiro-ministro e vários de seus colaboradores são acusados de interferir em uma investigação relacionada a uma construtora. (EL PAÍS, Espanha)


CISJORDÂNIA. Nariz quebrado, pontos na cabeça, lesão na coluna vertebral e dezenas de prisões, o preço da resistência pacífica em Hebron. Israel não renovou o mandato e expulsou a missão de observação internacional que trabalhava na cidade palestina há 20 anos. (EL DIÁRIO, Espanha)


EUA. A influência na Fox News da Casa Branca. A Fox News sempre foi partidária, mas ela, agora, se tornou propaganda? (THE NEW YORKER, EUA)


AMÉRICA LATINA. Doutrina e bananas. Por que ser mais duro com a Venezuela do que a Arábia Saudita? Porque "é um país em nosso hemisfério", ouça: de nossa esfera de influência, o conselheiro de segurança nacional de Donald Trump disse aos repórteres da CNN no domingo. (L’HUMANITÉ, França)


EUA. Fox News escondeu a história de Stormy Daniels para ajudar Trump, diz jornalista. A jornalista Diana Falzone, da Fox News, obteve provas em 2016 sobre a alegada relação entre o então candidato presidencial Donald Trump e a atriz pornô Stormy Daniels, mas não publicou a nota porque o dono da rede, Rupert Murdoch, queria que o magnata republicano vencesse as eleições. (EL ESPECTADOR, Colômbia)


NICARÁGUA. A Frente Sandinista de Libs Nacional (FSLN) é o vencedor virtual das eleições nas regiões autónomas da costa caribenha da Nicarágua Norte e do Sul, de acordo com dados divulgados na segunda-feira 04 de março pelo Conselho Supremo Eleitoral (CSE). Nos primeiros resultados preliminares da FSLN está à frente com 61,11 por cento dos votos em favor das cédulas apuradas, o vice-presidente magistrado do CSE, disse Lumberto Campbell. (EL TELÉGRAFO, Equador)


EUA e Rússia. Quando Washington manipulou a eleição presidencial russa. Enquanto a justiça dos EUA está acompanhando as manipulações russas nas eleições de 2016, Washington está trabalhando para derrubar o presidente Nicolás Maduro na Venezuela. Intolerável em solo americano, a interferência seria justificada quando os Estados Unidos estivessem trabalhando? Isto é o que sugere a eleição russa de 1996. Naquela época, Washington e seus aliados tinham saído do caminho para salvar um presidente doente e desacreditado ... em nome da democracia. (LE MONDE DIPLOMATIQUE, França)


CHINA. China alerta para "luta dura" quando reduz a meta de crescimento para o menor nível desde 1990. Li Keqiang afirma na reunião política anual que o país enfrentará "um ambiente mais grave e mais complicado". (THE GUARDIAN, Inglaterra


3 - ARTIGOS/ENTREVISTAS

Robert Reich – EUA (The Guardian, Inglaterra)

“Donald Trump conta uma história falsa sobre os EUA. Precisa-se contar a verdadeira.”


Eduardo Aliverti – Argentina (Página 12, Argentina)

“Confissão da debilidade”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Slavoj Zizek sobre Roma, de Alfonso Cuarón: "célebre pelos motivos errados".

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Em uma coluna publicada por The Spectator, o sociólogo esloveno critica o filme do diretor mexicano que concorre ao Oscar. "É muito difícil se livrar das correntes nas quais não só nos sentimos cômodos, como também sentimos que estamos fazendo algo bom", escreveu Zizek. A reportagem foi publicada por La Tercera, 19-01-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

“A primeira vez que vi Roma senti um gosto amargo”, escreveu Slavoj Zizek. “Sim, a maioria dos críticos tem razão ao celebrá-lo como um clássico instantâneo, mas não consegui me desfazer da ideia de que esta percepção predominante se apoia em uma aterradora – quase obscena – leitura ruim, e que o filme é célebre pelos motivos errados”.
Roma, filme de Alfonso Cuarón que estreou na Netflix em 2018, foi apoiado pela crítica especializada e premiado no Festival de Cinema de Veneza, pelos Globos de Ouro e pelo Critic’s Choice Awards. Atualmente, é um forte candidato aos Prêmios do Oscar como Melhor Filme em Língua estrangeira.
No entanto, o filósofo, sociólogo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, não concorda. Pelo menos não se baseando nos argumentos levantados até agora nas diversas resenhas. Zizek argumenta que as apreciações publicadas são superficiais e que omitiram as mensagens que seu diretor, Alfonso Cuarón, deixou entre linhas.
Roma realmente só celebra a bondade de Cleo e a dedicação altruísta à família? Realmente ela pode se reduzir a um objeto precioso de uma família de classe média alta, (quase) aceita como parte da família para ser explorada física e emocionalmente? A trama do filme está cheia de pistas sutis que indicam que a imagem de bondade de Cleo é uma armadilha, objeto de crítica implícita, que denuncia sua dedicação como resultado de sua cegueira ideológica”, escreveu Zizek.
O esloveno exemplifica com a inconsequente expressão de carinho por parte de sua patroa, Sofia, e das crianças, e a mudança repentina, exigindo que cumprisse diversas tarefas na casa. O que mais chocou Zizek é a cena em que Sofia estaciona o grande Ford Galaxy, raspando-o contra as paredes do estreito corredor.
“Mesmo que sua brutalidade possa se justificar pelo seu subjetivo sofrimento (ser abandonada por seu esposo), a lição é que, por sua posição dominante, ela pode se permitir atos como esse (os empregados consertarão a parede), enquanto Cleo, que está em uma posição mais difícil, simplesmente não pode se permitir essas explosões espontâneas, mesmo que seu mundo esteja caindo aos pedaços, o trabalho deve continuar...”.

O ponto chave de Roma

Parte crucial da história é o nascimento da filha de Cleo, que é tirada de seu ventre sem vida. Ela a toma em seus braços por alguns momentos antes de perdê-la para sempre. “Muitos críticos que viram nesta cena o momento mais traumático do filme, perderam sua ambiguidade: como nos inteiramos mais adiante no filme (mas que podemos suspeitar desde agora), o que realmente a traumatiza é o fato de que não queria a sua filha; assim, um bebê morto em seus braços é uma boa notícia”, interpretou o filósofo.
Mas, mesmo depois desta experiência dolorosa, Zizek argumenta que a família continua explorando-a, já que o convite para ir à praia por parte de Sofia e das crianças é uma mera desculpa para ter uma empregada durante as férias. No entanto, quando Cleo salva as crianças arrastadas pela força do mar – mesmo que ela não soubesse nadar – a família se une em um abraço de agradecimento, no qual Cleo confessa seu sentimento de culpa. “Um momento que simplesmente confirma que Cleo está presa em uma armadilha que a escraviza...”, conclui Zizek.
“Estou sonhando? Minha leitura é muito louca? Penso que Cuarón fornece uma pista sutil nesta direção no âmbito da forma. Toda a cena de Cleo salvando as crianças está em uma única tomada longa, com a câmera se movendo transversalmente, sempre focando Cleo. Quando alguém vê esta cena, não consegue evitar a sensação de uma estranha dissonância entre a forma e o conteúdo: enquanto o conteúdo é um gesto patético de Cleo que, pouco depois de seu traumático parto, arrisca sua vida pelas crianças, a forma ignora totalmente o contexto dramático”.
E é aí que o crítico cultural vê uma falta de “tensão dramática”, sem a perspectiva do que Cleo está vendo ao entrar no mar. “Esta estranha inércia da câmera, sua negação em participar do drama, é crucial no desengate de Cleo do patético papel da empregada disposta a se sacrificar”.
Slavoj Zizek põe ênfase na frase que Cleo disse a Adela em seu retorno para casa: “Tenho muita coisa para te contar”. Uma frase que convida à sua libertação ou mudança de vida, segundo suspeita o esloveno. “É muito difícil se livrar das correntes nas quais não só nos sentimos cômodos, como também sentimos que estamos fazendo algo bom. Como disse T.S. Eliot em seu livro Assassinato na catedral, o maior pecado é fazer o certo pelo motivo errado”, finaliza Zizek sobre Roma em The Spectator.