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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Belchior: viagem no universo de Nietzsche, por Elstor Hanzen.


Leitura das letras do compositor mostra aproximação surpreendente com as ideias do filósofo. “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava em “Alucinação” (1976)
Por Elstor Hanzen
A semelhança entre o compositor brasileiro Antônio Carlos Belchior e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche vai muito além do bigode. Sem ostentar e sequer se manifestar diretamente sobre esta influência, Belchior bebia nos conceitos nietzschianos, como a moral do rebanho, vontade de poder, eterno retorno e a crítica ao mundo idealizado pela própria filosofia, pela religião e pela ciência. A relação fica evidente quando se faz um passeio pelas letras do cearense.
Nietzsche só viveu 56 anos. Contudo, bastou para ele ser considerado um dos maiores marcos do pensamento contemporâneo. Embora não muito valorizado pelo establishment, o autor é uma referência para organização da história desde o século 19 e se tornou pop entre o público jovem. Desconstruiu a moral e os valores estabelecidos pela filosofia grega, chegando ao desmantelamento da cultura dos ídolos e da religião. Nietzsche, portanto, foi o primeiro a interromper a órbita de compreensão do mundo criado por Sócrates, Platão e Aristóteles.
Os gregos inauguraram a filosofia ocidental, separando a natureza humana e toda sua relação instintiva/sensível da parte racional e objetiva da vida, a fim de criar um mundo ideal – o metafísico –, resultado de um imaginário: o homem projeta nas coisas aquilo que ele gostaria de ser. Essa mesma lógica, posteriormente, foi popularizada pelo cristianismo, já que o povo em geral não tinha acesso nem compreensão da filosofia.
Por isso, para o alemão, o juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem. Ou seja, no entendimento dele, assim se criou o mundo ideal para negar o real.
Realista e vitalista tal como na linha das ideias afirmadas pelo filósofo alemão, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano. Como em A Palo Seco: “Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava”.
Essa leitura pode ser percebida explicitamente em vários fragmentos das letras do compositor e, de modo geral, permeia toda a obra do músico. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava no disco Alucinação, em 1976.
O cantor via a arte com finalidade útil para o homem se emancipar, um instrumento para libertar os sentidos e a certeza de viver coisas novas, não como algo meramente ornamental e ideal. Na mesma perspectiva, Nietzsche tinha a arte como estimulante da vida, afirmava que ela só era possível com a embriaguez de todo o ser, com a manifestação da vontade de potência dos sentidos fisiológicos. O filósofo comparava a verdadeira arte ao grego Dionísio, deus da festa, do sexo, da alegria, da liberdade, enfim, dos sentidos do corpo e dos afetos. Ao contrário, portanto, à lógica da razão e da verdade, representado pelo deus Apolo.
O embate de Belchior também se dava em torno das travas morais da culpa e das coisas idealizadas por certo pensamento filosófico. Para se firmar poeta de sua geração, o compositor atravessou territórios entre a alma e o corpo para forjar sua obra, buscando elementos na crueza da realidade e na sinceridade das coisas, até mesmo empregar certa violência na construção de suas letras, em que a dor ensina aproveitar melhor os momentos alegres. Ou nas palavras dele, “a felicidade é uma arma quente”.
Ademais, traziam à tona as frustrações ideológicas, filosóficas e políticas. Para este mundo cruel e caótico, Belchior procurava despertar uma lucidez e luminosidade com o conteúdo do seu discurso. Ele sabia que nada era divino e maravilhoso, e a vida real era bem pior que a letra de uma canção.
Viver é melhor que sonhar 
Esta leitura mostra que a arte e a vida não podem ser separadas da realidade, em nome de um mundo idealizado, seja filosófico ou religioso. Conforme o pensamento nietzschiano, o homem forte e verdadeiro aceita e vive a vida como ela se apresenta. Já o sujeito que busca a certeza e o paraíso é um fraco e decadente, porque não sabe conviver com a pluralidade do mundo e com a incerteza do devir – as mudanças.
De forma simples e em bom português, o cearense também deixava claro sua preferência pelo mundo real. “Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia fazendo tudo de novo. E dizendo sim à paixão, morando na filosofia”, diz a letra da Divina Comédia Humana.
Por isso, quem vive só na razão e na verdade está separado dos sentimentos humanos – aquilo que Platão fazia, por exemplo: corpo x espírito, pensamento x sentimento – com o objetivo de criar o mundo da luz e da razão. Para Nietzsche e Belchior, pelo contrário, a verdadeira experiência vem da realidade e do pensamento vivo que só pode ser coletado na prática humana mais visceral, como aquela que se experimenta na aspereza das ruas.
Em Apenas Um Rapaz Latino Americano, o cearense afirma essa visão. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção: a vida realmente é diferente. A vida é muito pior”.
À proporção que se passeia pela obra do músico e se recolhem algumas amostras, tanto mais se evidencia o pensamento do alemão. Na faixa Como Nossos Pais, Belchior usa as expressões “viver é melhor que sonhar” e “mas sei também que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, construções que valorizam o sujeito em detrimento de uma projeção metafísica.
Mais adiante na mesma música, deixa transparecer certa frustração com a eterna repetição das coisas, geração após geração. “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos, como nossos pais”.  Sugerindo, portanto, que é preciso alterar a ordem social e instaurar uma nova forma de vida para as coisas mudarem, assim como Nietzsche fez ao romper com a órbita do pensamento grego e cristão.
Moral de rebanho
A postura de sempre desobedecer, nunca reverenciar também é comum entre os dois autores. Essa atitude é assumida pelo homem forte e predador como uma ave de rapina, que encara a vida com altivez e anda solitário; não como um carneiro, que anda sempre em bando porque e fraco e submisso. Num artigo acadêmico publicado em 2017, sob título – Nietzsche e Belchior: muito além do bigode -, já foi discutida essa comparação.
Escreveram as autoras, Regina Rossetti e Paula Cristina: “A construção do conceito de Ave de Rapina, defendido pelo filósofo alemão, ganha voz na poesia de Belchior. Segundo Nietzsche, a ética cristã é uma moral de escravos, de indivíduos fracos e que havia – em função da construção religiosa – desvirtuado o espírito senhorial e dominante do homem”.
Para Nietzsche, os valores foram invertidos, pois tudo aquilo que é débil, humilde, sofrido ou mediano passou a ser encarado como “bom”. Por outro lado, valores como austeridade, vivacidade e ímpetos foram taxados como “mal” pelo homem fraco. Graças a essa inversão, a região, a ciência e o própria conceito de verdade ganharam tantos seguidores e submissos, porque não conseguem viver a vida como ela é e aceitar a falta de controle do futuro.
No mesmo sentido, Belchior instiga o homem a se desvincular do animal de rebanho, seguir a vida num ‘andar com os próprios pés’. “Não quero regra nem nada. Tudo tá como o diabo gosta, tá. Já tenho esse peso que me fere as costas, e não vou eu mesmo atar minha mão. O que transforma o velho no novo, Bendito fruto do povo será. E a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”, afirma em Não Leve Flores.
Espíritos livres
No livro Humano, demasiado humano, Nietzsche afirma o destino do espírito verdadeiramente livre: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem”.
Belchior, nos últimos anos de vida, aplicou radicalmente as palavras do alemão e levou uma vida de andarilho, errante. Enfrentou dias e noites incertas, encontrou muitas portas fechadas e em alguns lugares conseguiu repouso. A tudo está sujeito quem vive livremente, mas só assim é possível “o equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos”, escreveu Nietzsche.
Os pensamentos e as evidências em comuns entre as obras dos dois autores mostram que o cearense de Sobral se guiou e aplicou muitas ideias do filósofo alemão na música brasileira. O próprio Nietzsche declarava que a música era a linguagem que mais se aproximava da genuína comunicação humana. De modo que, além da ligação direta do gosto pela música, os principais conceitos do alemão aparecem nas letras de Belchior, semelhança bem mais profunda que os bigodes

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nietzsche e os sintomas da corrupção, por Edivaldo Dias Oliveira.



Aqui, 2 aforismos do alemão, extraído do livro "A gaia Ciência" de 1888, que esclarece de forma visionária dois fatos que nos são muito familiares, a saber; a corrupção e as manifestacções de junho de 2013., leiam...
Nietzsche e a corrupção
23 – Sintomas da Corrupção – Atente-se para os seguinte sintomas das circunstâncias sociais, necessárias de tempos a tempos, que se designam pelo termo de “corrupção”.
Assim que a “corrupção” aparece em qualquer parte, vê-se reinar uma variada superstição, na qual a crença geralmente adotada até então pelo povo empalidece e se torna impotente: pois que a superstição é um livre pensamento de segunda ordem (1); quem a ela se entrega, elege certas formas e formulas que lhe agradam  e concede-se o direito de escolher.
O supersticioso tem qualquer coisa de mais “pessoal” do que o homem religioso, e uma sociedade supersticiosa será aquela onde se encontram já muitos indivíduos e prazer ao que é individual. Deste ponto de vista a superstição coloca-se sempre como um progresso sobre a fé e torna manifesto que a inteligência se torna mais independente e reclama seus direitos.
Desta forma, os partidários da velha religião e religiosidade lastimam-se de corrupção  -  mas foram eles que até aqui determinaram o uso linguístico  e que criaram à corrupção uma má reputação, mesmo entre os espíritos mais livres. Portanto, temos que saber que a superstição é um sintoma de emancipação.
Acusa-se também de “relaxamento” uma sociedade onde a corrupção se instala: de fato, o prestígio da guerra e do entusiasmo guerreiro  sofrem uma baixa visível e aspira-se aos prazeres da existência com tanto ardor como aquele que antigamente se punha a procurar as honras militares ou atléticas. Mas os observadores costumam ignorar que esta antiga energia e paixão da nação , com a guerra e os torneios, que alcançavam tão pomposa evidencia, transformou-se em uma infinidade de paixões privadas e limitou-se a ser menos visível; 
Mas que digo? Sim, é até provável que, no estado de “corrupção”, a nação dispenda uma força, um violência de energia muito maiores do que nunca, e que o individuo gaste essa energia mais prodigamente do que o podia fazer anteriormente, quando ainda não era suficientemente rico!
Portanto, é precisamente nas épocas do “relaxamento” que a tragédia corre pelas ruas e pelas casas, que se vê nascer o grande amor e o grande ódio, e que a flama do conhecimento jorra em braseiro para o céu.
Em terceiro lugar, pretende-se dizer que compensando de algum modo a censura de superstição e de abandono que se pode fazer às épocas de corrupção, os costumes se tornam mais brandos nesses períodos, que a crueldade diminui notoriamente em comparação com as épocas precedentes, mais crédulas e mais fortes.
Mas não poderia aprovar este elogio, da mesma forma que como não aprovei a acusação precedente: o que concedo é que a crueldade se torna refinada, e que as suas antigas formas repugnam ao gosto novo;
Mas a arte de ferir, de torturar, através da palavra e do olhar, alcançam em tempos de corrupção, o seu supremo aperfeiçoamento; é só então que nascem a malignidade e o prazer de ser maldoso.
As pessoas das épocas corrompidas são espirituosas e caluniadoras; sabem que se podem matar dispensando a utilização do punhal e do golpe de mão; sabem também que se acredita em tudo o que é bem dito.
Em quarto lugar, quando os costumes se corrompem, é o momento em que surgem esses seres a que se dá o nome de tiranos: São os precursores e, por assim dizer, as precoces guardas avançadas do individuo. Mais um instante de paciência: esse fruto dos frutos  acabará por pender, maduro e dourado, da árvore de um povo; e é somente em função desses frutos que essa árvore existe!
Quando o declínio chegou ao apogeu, assim como a luta dos tiranos de todas as qualidades, vê-se sempre chegar o César, o tirano definitivo, que vibra o golpe de misericórdia à luta cansada dos concorrentes preponderantes fazendo trabalhar o cansaço em seu proveito.
Em sua época, o individuo, em geral, está no momento da sua maturidade perfeita, estando a “cultura” por consequência no zênite da sua fecundidade e elevação;... Mas não é graças a ele, não é por via do tirano, se bem que as pessoas de cultura elevada gostem de lisonjear o seu Cesar, fazendo-se passar por obra dele.
A verdade é que eles tem necessidade de quietude exterior porque trazem a sua inquietude e trabalho dentro de si. É o momento do auge da traição, da corruptibilidade: pois o amor do ego descoberto de fresco é então muito mais poderoso do que o amor à velha, gasta e decantada “pátria”;
E a necessidade de se defender contra os temerosos caprichos da fortuna abre também as mãos mais nobres, quando um homem rico e poderoso se mostra disposto a ali deitar ouro.
O futuro é tão incerto que as pessoas vivem para o momento: estado de alma que favorece o jogo dos tentadores de todas as espécies; pois que também não se deixa seduzir, e corromper, se não por “um momento” reservando-se um futuro e a virtude!
Sabe-se que o individuo, esse autentico homem “em e para si”, pensa mais nas coisas do momento do que o seu oposto, o homem do rebanho, porque não pensa contar mais consigo do que conta com o futuro; liga-se do mesmo modo aos tiranos, porque se julga capaz de ações e de investigações que não podem contar nem com a inteligência nem com o perdão da multidão...
Mas o tirano ou o César compreende o direito do individuo, mesmo nas suas aberrações, e tem interesse em dar a palavra e até mesmo permitir uma moral pessoal mais audaciosa. Porque pensa dele, e quer que o pensem, aquilo que Napoleão exprimiu um dia da forma clássica que lhe era particular. “Tenho direito de responder a todos os vossos queixumes com um eterno “sou o que sou”.Estou apartado de toda gente e não aceito as condições de ninguém. Deveis submeter-vos a todas as minhas fantasias e achar natural que me entregue a semelhantes distrações”. Foi o que disse a sua mulher, certa vez, quando ela teve razões para duvidar da sua fidelidade conjugal.
As épocas de corrupção são aquelas em que as maçãs caem das árvores: refiro-me aos indivíduos, aqueles que carregam em si as sementes do futuro, os promotores da colonização espiritual, os formadores de novos estados e sociedades. A palavra corrupção torna-se um termo injurioso quando relaciona-se com as épocas outonais de um povo.
38 – Os “explosivos” – Se pensarmos o quanto a força dos jovens tem necessidade de explodir, não nos espanta a pouca finura e falta de dicernimento que se utilizam para se decidir a favor desta ou daquela causa: o que os atrai é o espetáculo do ardor que rodeia uma causa, como se fosse a visão do rastilho incendiado, e não a causa em si própria . Assim os sedutores sutis esforçam-se por os obrigar a esperar a explosão e por distrair a atenção da justificativa da causa: não é com argumentos que se conquistam esses barris de pólvora!