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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Amazônia na guerra criptografada: bomba semiótica do "Sim!" e a vidraça quebrada, por Wilson Roberto Vieira Ferreira

 quarta-feira, agosto 28, 2019  Wilson Roberto Vieira Ferreira



Enquanto a esquerda “campeã moral” vive mapeando arrependidos que deixaram de apoiar Bolsonaro, a “esquerda namastê” (com luxuoso apoio do programa “Papo de Segunda” do canal GNT da Globo) comemora a “diluição da polarização” ao ver a atriz Maitê Proença nos protestos contra a queima da Amazônia, ao lado de Caetano Veloso e Sônia Braga. Desarmada intelectualmente, a esquerda não consegue decodificar a criptografia da atual guerra simbólica, dentro do redesenho da geopolítica do aquecimento global na qual a Amazônia torna-se o principal alvo dos países ricos. Com a questão ambiental tornando-se foco da grande mídia, as manifestações começam a dançar a música tocada pela Guerra Híbrida: a “bomba semiótica do Sim!” e a tática da “vidraça quebrada” – como criar consenso imediato numa estratégia de terra arrasada intencionalmente criada pelo Governo para a opinião pública aceitar no futuro a intervenção externa. Se quer vender a bomba, em primeiro lugar deve vender o medo. 

Causou repercussão nas redes sociais e blogs progressistas fotos e vídeos da atriz Maitê Proença em manifestações no Rio de Janeiro contra Bolsonaro e a destruição da Amazônia, ao lado de figuras como Caetano Veloso, Sônia Braga e Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente do governo Lula.
Maitê foi aquela atriz da Globo que invocou os “machos selvagens” para apear do poder a então presidenta Dilma Rousseff, além de franquear apoio à candidatura Jair Bolsonaro (“ele é autêntico”, dizia), além de ter sido cotada a ministra do Meio Ambiente pelo próprio capitão da reserva. Por isso, causou frisson ao aparecer em protestos ao lado de comunistas e progressistas.
Para aquela esquerda que se considera campeã moral, ela é mais uma arrependida tardia. Para a chamada “esquerda namastê” (cujo termômetro é o programa da GNT “Papo de Segunda” que estimula esse tipo de esquerdismo que a Globo adora), uma evidência positiva de que a polarização política do País estaria “diluindo”, como comemoraram nessa segunda o ator João Vicente e o filósofo Chico Bosco.
Mas o discurso da atriz no Instagram para justificar sua presença na manifestação foi emblemático: 
A marcha pela Amazonia foi linda! Foi de união. Foi solar e amorosa. O mundo repercutiu as imagens. Não havia a chatice binaria. O foco era a #Amazonia e era o planeta. Manifestantes gritaram suas palavras de ordem, como sempre acontece em qq ato popular. Pq o pensamento é livre, independente, e não tem so dois lados. As grandes causas precisam da voz de todos q se importam”. 
Como esse humilde blogueiro vem insistindo, Bolsonaro é previsível e está seguindo à risca aquilo que prometeu: “antes de construir é preciso destruir muita coisa”, vaticinou. O que é assustador é o misto de ingenuidade e teimosia da esquerda, intelectualmente desarmada para decodificar a guerra semiótica criptografada dentro da qual se encontra hipnotizada. 
Ainda está à espera de um Alan Turing capaz de quebrar o “Código Enigma” de uma guerra simbólica que embaralha eventos e informações num caos de dissonâncias que ocupa diariamente a pauta da grande mídia.


A viragem da grande mídia

Mas antes de voltarmos ao sintomático discurso da atriz global, vamos a algumas outras evidências.
Nesses oito meses de destruição sistemática guiada pela agenda econômica neoliberal, manifestações de rua contra a Reforma da Previdência ou em protesto contra os cortes na Educação resultaram apenas em “marolas” que apenas atiçaram as milícias digitais e a guerra culturalista da direita. 
Enquanto a oposição parlamentar sequer convoca o povo para ir às ruas.
Manifestações de rua pela “Educação” e contra “Reformas” são tidas como “partidarizadas” para a opinião pública. Porque organizado por organizações sindicais e estudantis.
 Porém, a guinada começou no dia 19/08 quando a tarde virou noite do Estado de São Paulo. Resultado do “rio voador” de fumaça soprada das queimadas amazônicas. De início, e como sempre, a grande mídia iniciou a blindagem dos acontecimentos relatando tudo como um fenômeno natural, dentro dos blocos de meteorologia e previsão do tempo dos telejornais. 
Até o instante em que o presidente da França Emmanuel Macron convocou os países do G7 para discutir a “emergência na floresta amazônica”.
Repentinamente, a grande mídia deu uma virada e transformou o tema na pauta principal das manchetes e escaladas televisivas. E passou a dar destaque às bravatas e retrocessos do discurso presidencial.

Tarde paulistana virou noite: para mídia, queimadas amazônicas eram um fenômeno meteorológico...

O curioso é que, apesar dos escândalos no Governo Bolsonaro crescerem em escala exponencial (denúncias de milhões de reais movimentados por laranjas do PSL, conexões dos filhos do presidente com milicianos suspeitos de matar Marielle Franco, nepotismo, enterro da Lei de Acesso da Informação, ataques a jornalistas, cala-boca no Coaf  etc.), parece que somente a questão da crise do meio ambiente (crise anunciada desde a campanha eleitoral e a nomeação do advogado Ricardo Salles para a pasta de Meio Ambiente) poderá ser capaz de se transformar em fator mobilizador de manifestações e protestos mais intensos.
E, somente, a partir do momento em que a grande mídia transforma a questão em uma agenda, a agenda ambiental.

A bomba semiótica do “Sim!”

E aí voltamos ao discurso da atriz Maitê Proença. Um discurso repleto de positividade com expressões como “solar” e “amorosa” oposta à “chatice binária” ou a questão ambiental que “não tem só dois lados”.


Estamos diante daquilo que em postagem anterior chamávamos de “bomba semiótica do Sim!” - estratégia linguística surge da tática da busca dos “temas globais de consenso”: temas de fácil adesão, porque ninguém pode dizer “não!”. Porém, são temas colocados de forma fragmentada, descontextualizada e, principalmente, despolitizada – clique aqui.
Falar sobre preservação do meio ambiente cria consenso instantaneamente na opinião pública. Quem pode ser contra a uma agenda tão “do bem”? Claro, Jair Bolsonaro!
E por que? O mandatário tem vários motivos, sejam ideológicos, midiáticos ou táticos dentro da sua estratégia de guerra criptografada.
Primeiro, porque arregimenta suas milícias físicas e digitais, sem falar nos 30% do eleitorado de extrema-direita que o apoiam incondicionalmente. Minoritários, mas capazes de fazerem muito barulho e atos violentos. 
Ser contra a agenda ambiental é lutar contra o politicamente correto e os globalistas, todos produtos conspiratórios da esquerda. Combater o “mi-mi-mi” ambiental é defender a pátria dos comunistas internacionais que pretendem colocar as mãos em nossas riquezas. Isso é o seu discurso para elevar o moral da sua tropa.
Segundo,  ocupar diariamente a pauta midiáticas com informações desconexas, contraditórias, com muitas idas e vindas: afirmar que as queimadas são naturais e que as fotos de satélites da NASA são manipuladas; depois admitir a catástrofe, mas que não aceita ajuda externa; depois admitir a ajuda financeira do G7, desde que Macron peça desculpas por ele ter supostamente ofendido sua esposa... depois, denunciar uma conspiração das ONGs  por deliberadamente tocarem fogo na floresta: “no dia em que eu demarcar as terras indígenas os incêndios acabam!”, acusa Bolsonaro.


A “vidraça quebrada”

Essas constantes mudanças têm um evidente tom criptografado que nos conduz ao terceiro motivo, tático: criar o efeito da “vidraça quebrada” – jogar a pedra na vidraça, sair correndo, bater na porta da casa atingida para vender um alarme anti-roubo. 
Em outras palavras: criar o fato consumado (a incapacidade de o País lidar com a questão amazônica) para, definitivamente, criar condições para a intervenção externa. Com o apoio da opinião pública, sob o efeito da explosão semiótica da bomba do “Sim!”.
Convém lembrar que há muito Bolsonaro vem defendendo a entrega da Amazônia para exploração a um país mais “competente”: os EUA – “hoje em dia a Amazônia não é mais nossa... pelas suas riquezas, biodiversidade... por isso devemos nos aproximar de países democráticos com poderio nuclear como os EUA... para explorar com parceria...”, afirmou em 2016 – clique aqui.
Também convém, mais uma vez, citar Paulo Nogueira Batista, economista ex vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS:
O de abrir o flanco, no médio prazo, para uma intervenção estrangeira no Brasil. Isso pode soar alarmista (...) não podemos, de forma alguma, perder de vista a importância que se atribui no exterior à questão ambiental e, em especial, à Amazônia. E nessa atenção que a Amazônia recebe há uma mistura perigosa de preocupações legítimas, relativas a repercussões climáticas globais, com a tradicional cobiça das grandes potências pela vasta reserva de recursos naturais valiosos e crescentemente escassos que temos na região Norte do País. (“Brasil em Perigo”, Jornal GGN, 12/08/2019 – clique aqui).
No redesenho da geopolítica atual pela questão do aquecimento global, desde a guerra híbrida que atingiu o Brasil para a derrubada dos governos trabalhistas, o País vem sendo alvo preferencial dos interesses dos países ricos.
Principalmente quando sabemos que uma das decisões da recente reunião do G7 foi preparar uma Conferência Internacional sobre a Amazônia, a se realizar no outono do Hemisfério Norte.
Sob o discurso da soberania e da Pátria acima de tudo, o governo Bolsonaro é essencialmente entreguista. Como um militar que vive danaguerra, ele só pode existir e respirar numa atmosfera de permanente beligerância e mobilização. Por isso, ele e a elite que o apoia pela agenda neoliberal, nutre um profundo ódio pelo País. Que considera cronicamente inviável por razões históricas, étnicas, raciais e genéticas.


Por isso Bolsonaro somente governa para sua própria família, milícias e incita a radicalização para ter apoio das hostes do extremismo de direita. Ele adota a estratégia sobrevivencialista de terra arrasada: somente quer saber dos seus, porque o resto já está perdido.
Essa guerra criptografada não é um know how bolsomínio. Seria exigir demais da mentalidade da caserna nacional. É o modus operandi alt-right, diretamente vindo dos EUA. 
Enquanto a esquerda namastê e aquela que se acha campeã moral não perceberem que estão dançando a música tocada pelo clã Bolsonaro (a bomba semiótica do “Sim!” e a tática da “vidraça quebrada”), mais uma vez o tic-tac do mecanismo posto em ação desde as “Jornadas de Junho” de 2013 continuará preciso, sem falhas.
A esquerda deve, isso sim, aproveitar a oportunidade de um tema tão consensual como o meio ambiente ter sido colocado na pauta da grande mídia e politizar os discursos das manifestações para serem menos “solares” e “amorosos”.
A esquerda campeã moral até vislumbra a possibilidade de um impeachment de Bolsonaro pela absoluta improbidade administrativa do Governo lidar com a questão amazônica. Esse é o permanente wishful thinking paralisante da esquerda.
Talvez deveria prestar mais atenção ao que tem a dizer o grupo anônimo de ativistas franceses, o chamado “Comitê Invisível”: “Não se trata de derrubar um governo, mas de tornar um país ingovernável” – leia Motim e Destituição Agora – Comitê Invisível, N1 Edições – clique aqui
E deixar de sempre apenas falhar melhor.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O Brasil ao lado das ditaduras mais cruéis do mundo, por Jamil Chade


No Conselho de Direitos Humanos da ONU, o nome do Brasil já não acompanha a Europa ou mesmo a América Latina, mas príncipes árabes, em nome da suposta defesa da família

Bolsonaro na posse de Gustavo Montezano como presidente do BNDES em 16 de julho.
Bolsonaro na posse de Gustavo Montezano como presidente do BNDES em 16 de julho. AFP
No final de junho, uma diplomata latino-americana que preparava uma declaração conjunta com o Brasil na ONUsubmeteu ao Itamaraty o texto que iria ler, dias depois, ao Conselho de Direitos Humanos.
No dia seguinte, ao abrir seu email, levou um susto ao ver a resposta do Governo brasileiro. O texto tinha sido devolvido com vetos a termos que, pelos últimos 25 anos, eram considerados como consensos internacionais e assinados até mesmo pelo Brasil.
Expressões como “igualdade de gênero”, direitos sexuais e reprodutivos e várias outras frases foram literalmente riscadas e substituídas por termos escolhidos para deixar claro uma visão de mundo em que direitos eram limitados, e não ampliados.
A diplomata estrangeira, surpreendida, apenas respondeu que aqueles termos originalmente colocados no texto não seriam modificados e, lamentando, notava que a postura da tradicional diplomacia brasileira sofria uma transformação inédita.
Nos bastidores da política externa, o Brasil de Jair Bolsonaro dava uma claro sinal de que o posicionamento baseado em orientações religiosas, de restrições ou ultraconservadoras não se limitaria à retórica. Nas salas de negociação, nos corredores e trocas de telegramas, a guinada passara a ser uma realidade. E, com ela, novas alianças improváveis, sempre com governos marcados por posições polêmicas.
Nas semanas que se seguiram ao email entre o Brasil e o governo latino-americano, o que as delegações estrangeiras ocidentais descobriram era um novo país, distante daquele que havia liderado um movimento progressista desde o final dos anos 90 no campo dos direitos humanos.
Nas fichas de votações publicadas ao final de cada resolução, o nome do Brasil já não acompanhava a Europa ou mesmo a América Latina. Mas sim algumas das ditaduras mais cruéis do mundo. Ali, o grupo de Bolsonaro e príncipes árabes encontraram um ponto em comum: a suposta defesa da família e valores.
Assim, o Brasil apoiaria propostas da Organização de Cooperação Islâmica para excluir educação sexual de textos da ONU, criticaria o uso do termo gênero, e até passou a concordar com sauditas sobre a necessidade de se manter em resoluções uma referência explícita à defesa do papel dos pais em casos em que se combatia o casamento forçado de meninas, muitas vezes patrocinados pelos próprios pais.
À medida que abandonavam suas tradicionais posições de ampliação de direitos, delegados brasileiros começaram a ser procurados por grupos do lobby anti-gay, que passaram a se sentir confortáveis em trocar impressões com a nova administração brasileira. Eventos com a presença do Brasil ainda foram patrocinados por ongs ultraconservadoras para falar da perseguição que cristãos estariam sofrendo.
Dias depois, o Itamaraty resistiria à ideia de que a ONU promovesse um maior espaço para que grupos indígenas pudessem se expressar e tomar posição, uma proposta apoiada por escandinavos e vários governos latino-americanos.
O Brasil ainda não apoiaria uma resolução amplamente patrocinada pelo Ocidente solicitando que a ONU iniciasse investigações sobre a campanha de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra a suposta criminalidade. Em três anos, foram mais de 27.000 mortos, além de propostas como a redução da idade penal para apenas nove anos de idade.
Meses antes, o governo Bolsonaro havia abandonado sua tradição e votado em resoluções que condenam as violações de direitos humanos por parte de Israel.
Em todas as votações de emendas e mesmo no caso das Filipinas, o Brasil se aliou ao lado derrotado. Nenhuma das emendas foi aprovada e Duterte será investigado. Para completar, o governo de Jair Bolsonaro passou a receber cartas de protesto da ONU, denúncias e cobranças em relação a diversas políticas públicas de sua gestão.

Eleição?

Mas é exatamente neste contexto que o Brasil se apresentará à eleição para mais um mandato de três anos no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A votação ocorre em outubro e a verdade é que dificilmente Bolsonaro será derrotado. Afinal, são oferecidas duas vagas para a América Latina e apenas dois candidatos se apresentaram: Brasil e, ironicamente, a Venezuela. Um espelho de uma região dividida e sem direção, para nenhum dos lados.
Para ser eleito, basta o país ter 97 dos 194 países da Assembleia Geral. Mas o teste será outro. Nas urnas, o Governo Bolsonaro vai descobrir até que ponto é aceito pela comunidade internacional e, no fundo, a votação se transformará em uma espécie de termômetro da popularidade do país.
Ao longo dos últimos anos, o Brasil viu de fato essa popularidade despencar. Depois de acumular 175 voto em 2008 e 184 em 2012, o governo brasileiro viu o apoio internacional cair na gestão de Michel Temer. Visto com hesitação, o Itamaraty perdeu quase 50 votos e, na eleição de 2016, ficou com apenas 137 apoios.
Para a campanha de 2019, o programa brasileiro tem uma linha clara: a delimitação de direitos, e não sua expansão.
Em seu programa apresentado aos demais governos, o centro das propostas brasileiras é a proteção à família, entendida apenas como aquela composta entre um homem e uma mulher.
Entre suas prioridades, nenhuma referência foi feita ao combate à tortura, ao direito à verdade, a processos de reconciliação, à garantia de direitos para imigrantes ou à educação. Em toda a campanha brasileira, a menção ao combate à homofobia ou direitos de LGBTs foi simplesmente omitida.
Bolsonaro, assim, caminha para a eleição em outubro em Nova Iorque fazendo acenos não a uma expansão de direitos. Mas a governos que, abertamente, buscam ampliar o número de aliados dentro do Conselho da ONU para enfraquecer uma tendência de abrir novas fronteiras nos direitos fundamentais no mundo.
Assim, quando os sauditas, egípcios e paquistaneses derem seu voto por Bolsonaro, não estarão aplaudindo os avanços na proteção à vida no Brasil. Mas sim considerando que terão, a seu lado, mais um governo hostil a investigações internacionais, a homossexuais e às eventuais violações ao caracter sacro da soberania.
Quando Duterte der seu voto ao Brasil, não estará apostando em uma nova forma de lidar com as drogas e nem uma visão mais humana do combate ao crime. Mas por ter tido, em Bolsonaro, um aliado contra a ingerência da ONU em assuntos domésticos.
Quando poloneses e húngaros derem seu voto ao Brasil, não será por sua abertura de fronteiras. Mas por sua recusa em assinar pactos de migração, assim como fizeram os governos do leste-europeu.
Quando o Itamaraty se apresentar para a eleição na ONU, portanto, sua bandeira não será a da expansão de direitos. Mas justamente a de impedir que as fronteiras das liberdades fundamentais sejam cada vez mais amplas.
Poderia parecer uma contradição o Brasil de Bolsonaro se candidatar ao Conselho de Direitos Humanos. Mas não o é, especialmente se o objetivo for o de formar uma aliança contra qualquer ideia de direitos internacionais que se sobreponham à soberania.
Minando esses direitos por dentro, o Brasil se alia a outros governos que, de forma hipócrita, usam as tribunas internacionais para desmontar um sistema criado há 70 anos e que serve de bússola moral ao mundo.
Entre as delegações ocidentais, o dia de votação promete ser um momento amargo: os diplomatas estarão entre dar seu voto a Bolsonaro ou a Nicolas Maduro, reconhecido pela própria ONU como violador de direitos humanos.
Mas, nos corredores da entidade, não faltam ironias diante da situação constrangedora. “Tem horas que dá uma enorme vontade de votar pela Venezuela”, debocha uma diplomata europeia.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Líder chinês exclui Bolsonaro de reunião e dá indício de fim do BRICS

Ao convocar uma reunião trilateral somente com Rússia e Índia, Xi Jinping sinaliza que o que antes se chamava BRICS pode se transformar somente em RIC, devido à submissão, sobretudo do Brasil, ao governo dos Estados Unidos


Putin, Jinping e Modi, durante encontro dos BRICS, em 2018 (Arquivo)
Por Victor Farinelli   
A submissão aos Estados Unidos impulsada pelo governo de Jair Bolsonaro parece já estar dando frutos, ou ao menos é o que se pode supor pelo anúncio desta segunda-feira (24) do governo da China de que aproveitará a reunião do G20 (no Japão, durante o próximo fim de semana) para um encontro trilateral paralelo do seu presidente, Xi Jinping, com os mandatários da Rússia, Vladimir Putin, e da Índia, Narendra Modi.

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Por se tratar de uma reunião entre três dos sócios do BRICS, chama bastante a atenção a ausência dos outros dois, o brasileiro Jair Bolsonaro e o sul-africano Cyril Ramaphosa, que também estão entre os líderes convidados para o evento que se realizará na cidade japonesa de Osaka.

Embora o vice-ministro chinês de Relações Exteriores, Zhang Jun, que anunciou o encontro trilateral, não tenha comentado sobre a situação dos BRICS, não é nenhum segredo para o mundo que a devoção demonstrada por Bolsonaro a Trump, durante sua recente passagem por Washington, não agradou a Putin e sobretudo a Jinping, em um cenário em que seu país e os Estados Unidos vêm travando uma ríspida guerra comercial.


Veja também:  Parlamentares pedem que Câmara vote pedido de exoneração de Moro
Por sua parte, a prioridade do Brasil durante o evento em Osaka será organizar junto com a diplomacia argentina, um encontro conjunto de Bolsonaro e Mauricio Macri com o presidente estadunidense Donald Trump – visando fortalecer a relação com o país norte-americano, ao mesmo tempo em que poderia gerar maior distância com o gigante asiático.

A julgar por essas movimentações, o que em algum momento se chama BRICS poderia, muito em breve, se tornar somente RIC.


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Brasil seria louco se, entre EUA e China, escolhesse EUA, diz britânico ‘pai dos Brics’

Jim O'Neill
Nathalia Passarinho - @npassarinho
Da BBC News Brasil em Londres
22 junho 2019
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Direito de imagemCORTESIA JIM O`NEILL
Image caption
Em entrevista à BBC News Brasil, Jim O'Neill diz que o Brasil tem mais a ganhar a China que com os EUA
Desde que criou, há 20 anos, o termo Bric, num relatório econômico para o banco Goldman Sachs, o economista britânico Jim O'Neill acompanha de perto o comportamento do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - este a partir de 2011.

Os integrantes do bloco vão se reunir na semana que vem, antes da cúpula do G20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo), em Osaka, no Japão. Ainda que sejam muitos os problemas que o mundo enfrenta, o assunto que deve dominar a agenda dos Brics e do G20 é a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Em Osaka, os dois países devem negociar uma trégua ou um acordo que ponha fim a essa disputa.

Guerra comercial EUA x China: como disputa pode atingir em cheio o Brasil
Como aproximação 'sem precedentes' entre Rússia e China materializa pesadelo dos EUA
Em entrevista à BBC News Brasil, O'Neill disse que, se fosse instado a tomar partido, o governo brasileiro "seria louco" se não optasse pela China. "Não é razoável que os Estados Unidos forcem os países a tomarem esse tipo de decisão estúpida. O mundo precisa acomodar tanto Estados Unidos quanto China", disse.

Direito de imagemREUTERS/DAMIR SAGOLJ
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Donald Trump e Xi Jinping devem se reunir em Osaka, durante a cúpula do G20, para negociar um acordo sobre a guerra comercial que travam desde 2018
"Mas, sob o aspecto econômico, se os países realmente tiverem que optar, muitos deles - e o Brasil também - seriam loucos se não escolhessem a China." Segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica, ligado ao Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), os chineses correspondiam em 2017 a 22% das exportações brasileiras (US$ 48 bilhões) e os americanos, 11% (US$ 25 bilhões).

Desde que tomou posse, Bolsonaro deixou clara a intenção de se aproximar fortemente do governo americano. Mas, embora durante a eleição Bolsonaro tenha feito duras críticas à China, acusando o país de tentar "comprar o Brasil", desde que assumiu a Presidência ele não adotou nenhuma ação para reduzir o comércio com os chineses.

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Ministro do Meio Ambiente quer investimento estrangeiro para ampliar atividades econômicas na Amazônia
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O'Neill, integrante da Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico e ex-secretário do Tesouro do Reino Unido, observa que a China oferece um mercado consumidor para os produtos brasileiros muito maior que o americano. São 1,3 bilhão de pessoas vivendo no país asiático contra 327 milhões, nos EUA. E os americanos ainda competem com o Brasil na exportação de diversas commodities, como a soja, enquanto a China é compradora.

E mesmo em desaceleração, a China oferece mais possibilidades de investimentos em outros países que os EUA, principalmente no setor de infraestrutura.

Mas, se na área de comércio exterior O'Neill considera que pode ser um erro apostar as fichas nos EUA em vez da China, ele é otimista quanto à gestão do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Direito de imagemCORTESIA JIM O'NEILL
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Jim O'Neill foi o criador do termo BRIC, para se referir a Brasil, Rússia, Índia, China, países que, na visão do economista, representariam possíveis grandes potências globais
"Apesar do estilo peculiar, à la Trump, do presidente brasileiro, acho que sua escolha de ministros, especialmente na área de finanças, mostra que o Brasil está focando em questões que pessoas como eu vêm dizendo há anos serem vitais para o potencial de crescimento do Brasil", disse.

Veja os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - O que esperar dos Brics durante o governo Bolsonaro, considerando que o presidente brasileiro defendeu diversas vezes aliança com os Estados Unidos e relações bilaterais em detrimento de multilaterais, além de ter feito recentemente críticas à China?

Jim O'Neill - Parte de mim está até surpresa em ver que ele irá para a reunião, considerando o que ele aparentemente tem dito. Mas vemos que, historicamente, é fácil para novos líderes dizerem algo e a realidade da vida modificar a forma como se comportam. Então, será muito interessante ver como será a reunião com a participação dessa pessoa intrigante que o Brasil elegeu como presidente.

Eu também diria que não está claro o que os líderes dos Brics de fato alcançaram de concreto desde que criaram o grupo, além de simbolizarem essa crença compartilhada de que grandes economias emergentes precisam de uma voz coletiva mais forte para além dos Estados Unidos e outros países desenvolvidos.

Quando você olha para o que disseram, foram grandes declarações, mas poucas ações. Eles deveriam se perguntar o que foi feito, entre eles, que resultou em maior crescimento econômico para os países dos Brics, em conjunto ou individualmente.

A segunda parte é saber em que devem focar para melhorar a performance econômica dos países dos Brics.

Talvez o surgimento de um líder não convencional possa mudar a forma como o grupo opera. Não tenho grandes expectativas. Como a pessoa que criou o termo, tenho o melhor dos interesses em ver os Brics prosperarem, mas gostaria de ver o bloco mais focado e menos generalista.

BBC News Brasil - Seria muito cedo ou radical dizer que o Brics está morrendo enquanto grupo organizado?

Direito de imagemEPA/ALEXEI DRUZHININ
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Para 'pai dos Brics', bloco se torna ainda mais importante diante das tensões entre Estados Unidos, China e Rússia. Xi Jinping e Vladimir Putin podem usar os BRICS para articulações contra ofensivas americanas
O'Neill - Do lado econômico, certamente é o caso. Só 2 dos 4 integrantes originais e, se você incluir a África do Sul, só 2 dos 5 países-membros tiveram um desempenho econômico próximo do que eu previ originalmente. Brasil e Rússia tiveram uma década extremamente decepcionante. E a África do Sul, que eu nunca achei que deveria ser incluída no grupo, tem estado próxima à recessão desde que entrou para o grupo.

Então, compreendo porque algumas pessoas dizem isso (que os Brics estão morrendo). Mas os Brics simbolizam algo muito importante para todos os membros. China e Índia têm muitas discordâncias e raramente se reúnem fora dos Brics. É interessante ver que o presidente Xi Jinping parece satisfeito em aceitar dialogar com a Índia no âmbito dos Brics, porque o grupo simboliza o crescimento do mundo emergente.

Portanto, acho improvável que os Brics desapareçam enquanto China, Índia e Rússia estiverem onde estão. E, por causa de Donald Trump e da disputa com a China, acredito que os chineses e russos, em particular, podem passar a dar aos Brics uma importância ainda maior do que quando ele foi criado 20 anos atrás.

BBC News Brasil - É uma estratégia inteligente a do Brasil de optar por um alinhamento com os Estados Unidos em vez de estreitar as relações com a China?

Direito de imagemGETTY IMAGES
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'Sob o aspecto econômico, se os países realmente tiverem que optar, muitos deles, e acho que o Brasil também, seriam loucos se não escolhessem a China', diz Jim O'Neill
O'Neill - Com certeza não. Eu acho que, entre as várias razões pelas quais eu criticaria Trump, não é razoável que os Estados Unidos forcem os países a tomarem esse tipo de decisão estúpida. O mundo precisa acomodar tanto Estados Unidos quanto China. É uma bobagem seguir esse caminho. Sob o aspecto econômico, se os países realmente tiverem que optar, muitos deles, e acho que o Brasil também, seriam loucos se não escolhessem a China.

A China se tornou muito mais importante para esses países - no caso do Brasil pela compra de commodities brasileiras - do que os Estados Unidos. Não é razoável que o Brasil tenha que fazer uma escolha e não seria lógico para o Brasil optar pelos Estados Unidos em vez de China. Não seria razoável nem para o Reino Unido fazer essa escolha, imagine para o Brasil.

BBC News Brasil - Mas, recentemente, o Brasil alcançou seu primeiro retorno em aumentar as relações com Trump, com os EUA declarando oficialmente apoio à entrada do Brasil à OCDE. É um ganho significativo?

O'Neill - Simbolicamente, se o Brasil entrar para a OCDE, isso será um reconhecimento ou um certificado de uma nação mais sofisticada. Mas isso não influencia em nada em tornar o Brasil uma economia mais forte ou numa sociedade mais rica, se não forem adotadas as políticas necessárias.

E é claro que, para crescer, é importante que o Brasil continue a vender o que precisa vender para os grandes mercados, particularmente a China. Não consigo acreditar que o presidente brasileiro chegue ao ponto de antagonizar deliberadamente com a China a ponto de criar uma disputa comercial própria.

Então, independentemente de entrar ou não para a OCDE, não seria inteligente para o Brasil tomar partido contra a China.

Direito de imagemREUTERS/ADRIANO MACHADO
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'Apesar do estilo peculiar, a la Trump, do presidente brasileiro, acho que sua escolha de ministros, especialmente na área de finanças, mostra que o Brasil está focando em questões que pessoas como eu vêm dizendo há anos que são vitais para o potencial de crescimento do Brasil', diz O'Neill
BBC News Brasil - O Brasil chega enfraquecido para o G20 em comparação com o que foi nos anos anteriores em termos econômicos e de influência diplomática?

O'Neill - Assim como não está claro para mim o que os líderes dos Brics alcançaram, também não está claro para mim que o G20 tenha alcançado alguma coisa desde 2009. O país-sede introduz seus tópicos e isso ganha alguma atenção em conjunto com o tópico do momento, no caso a guerra comercial, e em dois anos esse assunto já sai da agenda.

Então, se o Brasil terá algum destaque ou será propriamente ouvido no G20, na minha opinião, não é uma questão importante. O G20 está em risco de perder sua influência coletiva. É o grupo adequado para a discussão dos grandes problemas mundiais, mas por muitos anos tem feito declarações, mas não ações em relação ao que é dito.

BBC News Brasil - O que deve ser requisitado do Brasil no G20? A pauta, no caso brasileiro, tende a se restringir a meio ambiente?

O'Neill - As áreas em que seria demandado um papel mais proeminente do Brasil estariam relacionadas a questões ambientais, mudanças climáticas, segurança alimentar e a discussão sobre riscos globais à saúde causados pela resistência a antibióticos, por causa do uso de antibióticos na agricultura.

Acho que o Brasil vai receber alguma atenção dos líderes do G20 caso se dedique a esses assuntos.

BBC News Brasil - O Brasil passou por um período de recessão, voltou a crescer em 2017, mas os resultados ainda são fracos. O sr. ainda acredita que o país está predestinado a se tornar uma das maiores economias do mundo num futuro próximo?

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Principal produto exportado pelo Brasil à China é a soja. Para ex-secretário do Tesouro do Reino Unido, Brasil precisa quebrar a dependência na exportação de commodities. Mas, relação com a China é necessária para financiar políticas de industrialização
O'Neill - As pessoas esquecem, mas eu dizia com frequência nos primeiros anos do conceito dos Brics, quando todas essas economias iam muito bem, em especial o Brasil, que não conseguiríamos testar a probabilidade de o Brasil emergir como uma grande economia de classe média até que se livrasse da dependência na exportação de commodities (produtos primários, não industrializados).

As sementes dos problemas atuais do Brasil estão na queda dos preços das commodities, no início dessa década. O Brasil ainda precisa demonstrar que pode se liberar da necessidade de preços elevados de commodities no mercado internacional.

Por isso, algumas políticas defendidas pelo ministro da Economia do Brasil, como a aprovação da reforma da Previdência, são tão importantes para o futuro econômico do Brasil.

BBC News Brasil - O maior erro do Brasil nos últimos anos foi não ter sido capaz de diversificar a economia e se industrializar, especialmente durante o período do boom das commodities, quando tinha recursos para isso?

O'Neill - Com certeza. Nesses 20 anos de Brics ficou demonstrado que o Brasil sofre as consequências da maldição das commodities e precisa se esforçar muito mais - e Austrália e Canadá são exemplos de que isso é possível - para garantir que as sociedades sobrevivam à volatilidade do preço das commodities.

BBC News Brasil - Muitos dizem que estamos próximos da chegada da Era da Ásia, quando o PIB combinado dos países asiáticos vai superar a soma das economias dos países ocidentais. Como o Brasil deve se preparar para isso?

O'Neill - Embora eu compartilhe da crença de que estamos numa era de crescimento cada vez maior da influência de países asiáticos, isso ainda não é uma certeza. Mas eu acho que os países devem se preparar tanto para as oportunidades da Era da Ásia quanto para os riscos.

Isso se aplica ao Brasil, assim como para o Reino Unido e qualquer outro país. É importante tentar manter e melhorar as relações bilaterais com China, Índia, Indonésia e Vietnã, porque eles parecem ter algumas décadas de prosperidade pela frente e tendem a se tornar mercados consumidores importantes e investidores.

Ao mesmo tempo, é desaconselhável apostar todas as fichas nisso. Para isso, é importante aumentar a eficácia das reuniões dos Brics e do G20. Os Estados Unidos continuarão importantes, e China e outros países asiáticos se tornarão mais importantes relativamente ao restante do mundo.

BBC News Brasil - Qual é a avaliação do sr., até agora, das políticas econômicas adotadas pelo governo Bolsonaro?

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Para Jim O'Neill, é crucial que o Brasil aprove a reforma da Previdência para que volte a crescer
O'Neill - Só se passaram seis meses, então precisamos de mais tempo para fazer uma análise. Apesar do estilo peculiar "trumpesco" do presidente brasileiro, acho que sua escolha de ministros, especialmente na área de finanças, mostra que o Brasil está focando em questões que pessoas como eu venho dizendo há anos que são vitais para o potencial de crescimento do Brasil.

Eu realmente espero que a reforma da Previdência seja aprovada e efetivada. Se isso ocorrer, será um grande feito.

BBC News Brasil - Que outras políticas o Brasil deveria priorizar para retomar o crescimento, além da aprovação da reforma da Previdência?

O'Neill - O Brasil deve fazer mais para criar um ambiente que favoreça investimentos do setor privado, retirando a concentração de investimentos do setor público e do setor de commodities. É um país de cerca de 200 milhões de habitantes. É número suficiente para gerar uma considerável atividade econômica interna, como é o caso dos Estados Unidos, Japão, Alemanha e China.

Mas isso só acontece se você gerar ambiente para empresas assumirem risco e fazerem investimentos. E, para isso, é preciso haver uma estratégia fiscal coerente, com redução dos gastos do governo e um ambiente de menor inflação e juros. Isso pode ocorrer se a reforma previdência for aprovada.

BBC News Brasil - O mundo tem assistido a uma volta do protecionismo por grandes potências, particularmente os Estados Unidos na guerra comercial com a China. O Brasil tem que se abrir e liberalizar ou precisa proteger seus mercados diante dessa disputa?

O'Neill - Parte do dilema do Brasil vem exatamente do fato de ele ter sido protecionista. A participação do Brasil no comércio internacional, fora do âmbito da venda de commodities, é muito pequena. Protecionismo é a última coisa que o Brasil deve fazer.

Os Estados Unidos ainda são a maior economia do mundo, mas para quase metade dos países do mundo, o Brasil inclusive, a China é a maior compradora dos produtos exportados. O fato de os Estados Unidos estarem adotando essa estratégia protecionista não significa que os outros países devem copiar, muito menos o Brasil.

BBC News Brasil - Qual deve ser o foco do G20 este ano?

O'Neill - Infelizmente, o que deve dominar o G20 são as discussões paralelas entre Trump e Xi Jinping sobre a guerra comercial. Trump sempre parece querer viver no mundo de acordos bilaterais, o que eu acho que é inapropriado, mas ele deve fazer o mesmo no G20.

O Brasil fora dos BRICS, por André Motta Araújo.

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O Brasil fora dos BRICS, por André Motta Araújo
Todos os nomes que estão sendo hoje circulados para representar o Brasil tem fortes ligações com os EUA, o que deverá ser muito mal visto pelos demais países sócios do Banco, razão pela qual podem provocar alguma manobra para tirar a vez do Brasil, que deveria ter a próxima Presidência.

Por Andre Motta Araujo - 24/06/2019
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O Brasil fora dos BRICS
por André Motta Araújo
O grupo de grandes países emergentes que tem 40% da população mundial é uma realidade geopolítica, hoje consubstanciada no New Development Bank, o banco dos BRICS, com sede em Shangai, cuja próxima Presidência DEVERIA ser do Brasil, mas provavelmente não será. O Brasil foi fundador entusiasta do Banco dos Brics e tinha lá como seu representante e diretor um nome de alto prestígio, o economista Paulo Nogueira Baptista Jr., que tinha sido o diretor brasileiro do Fundo Monetário Internacional por muitos anos.

Nogueira Baptista foi afastado de seu cargo pelo governo brasileiro, sendo sem dúvida o mais experiente nome para esse cargo, dada sua longa experiência em instituições financeiras multilaterais.

Todos os nomes que estão sendo hoje circulados para representar o Brasil tem fortes ligações com os EUA, o que deverá ser muito mal visto pelos demais países sócios do Banco, razão pela qual podem provocar alguma manobra para tirar a vez do Brasil, que deveria ter a próxima Presidência. Para os demais sócios não teria sentido ter na Presidência um quinta-coluna de Washington, dado que o banco foi criado exatamente para não estar sob a influência dos EUA, em contraposição ao Banco Mundial.

O Brasil simplesmente se afastou neste novo governo, de forma ostensiva, desagradável, estridente, ilógica, pouco inteligente e nada diplomática do conceito geopolítico que embasa esse bloco de países, cuja base é se opor a pretensão imperial dos Estados Unidos em política externa.

Não é um enfrentamento direto, é uma disputa por áreas de influência no mundo, considerando que os EUA pretendem continuar a exercer um modelo que ao fim do dia traz mais problemas que soluções às relações internacionais. O consenso evidente do conceito BRICS é que seus componentes, Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul, tenham, no mínimo, uma política externa INDEPENDENTE daquela que é a linha imperial dos Estados Unidos. Um alinhamento a Washington automaticamente desqualifica um País a pertencer ao bloco.

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Ora, a postura do atual governo, se oferecendo, sem que isso tivesse sequer sido sugerido pelos americanos, como alinhado total de Washington, mais do que isso, à Administração Trump, malvista no mundo inteiro, da União Europeia à Ásia e com um único aliado automático, Israel, tira o Brasil da lógica do bloco BRICS, é uma evidência óbvia, de consequência geopolítica.


Na próxima reunião do G-20, em Osaka, no Japão, haverá uma reunião paralela dos BRICS, para a qual o Brasil não deve ser convidado. A atitude nem sequer é hostil, é apenas lógica. Se nessa reunião se tratar de discussões sobre a situação mundial, onde existem conflitos, onde de um lado estão Russia, China e Índia, como no caso da guerra comercial e de outro estão os EUA, como confiar na mesa em um parceiro que é alinhado absoluto de Washington?

UMA OPÇÃO ERRADA

Os EUA são o passado e não o futuro. A posição relativa dos EUA no arranjo econômico mundial é decrescente há décadas. Em 1945 os EUA tinham 51% do PIB mundial, hoje tem em torno de 26%, a queda foi de lento decréscimo e continua. China e Índia crescem suas economias a um ritmo de 6 a 7% ao ano, enquanto a economia americana cresce em torno de 3 a 3,5% nos bons anos, o que matematicamente aumenta o “gap” a cada década, tudo isso sem falar em uma guerra comercial dos EUA com a China, o México e a União Europeia, que está apenas começando e aumentará a divergência entre os blocos.


Ora, o Brasil se alinhar à potência decrescente é um contrassenso, ainda mais porque a China é o maior comprador de exportações brasileiras, enquanto os EUA são concorrentes do Brasil no mercado mundial, o que aumenta o contrassenso. Mais ainda, os EUA não são aliados do Brasil em tudo, embora o Brasil deseje essa posição, o Brasil SE ofereceu como aliado sem condições, inclusive isentando de vistos cidadãos americanos SEM reciprocidade, uma situação simbolicamente humilhante, como a dos passageiros dos antigos navios de luxo, onde os passageiros de 1ª classe podiam ir à 2ª classe procurar namoradas mas os da 2ª classe não tinham acesso à 1ª classe, uma postura de inferioridade explícita e que diminui um País, sua autoestima e seu prestígio.

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Não é preciso dizer que a situação diplomática do Brasil hoje é de ISOLAMENTO. Não subiu de categoria junto à Washington, que não deu até agora vantagem alguma em contrapartida à oferta unilateral de aliança do Brasil e, por outro lado, o Brasil perde lugar à mesa dos BRICS, cai de categoria como potência média e de grande País emergente. Junto à União Europeia perde a extraordinária e valiosa posição de potência ecológica respeitada, ao rejeitar os acordos climáticos que eram, por excelência, área de influência e controle do Brasil. Ai se completa o isolamento geopolítico e diplomático procurado, enquanto que no Oriente Médio o Brasil perde o seu antigo papel, posição e prestígio junto ao bloco árabe, grande cliente dos produtos brasileiros por se oferecer, sem que tivesse sido solicitado, em aliança com Israel, país carente mundialmente de aliados, com exceção única dos EUA e que pouco ou nada representa para os interesses e comércio exterior brasileiro.

Quanto a uma suposta disponibilidade tecnológica de Israel para o Brasil, NÃO é preciso nenhuma aliança, basta ter dinheiro para comprar, Israel vende sua tecnologia para quem puder pagar, sem restrições.

O isolamento geopolítico do Brasil está apenas começando, a tendência natural é de aumento, diplomacia é geralmente área de movimentos lentos e atrás das cortinas, as costuras são imperceptíveis a olhos nus, quando o Brasil se der conta seremos párias mundiais, nos darão um resto de conforto à exportação de alimentos mas ai também  há o risco de retrocessos por causa de questões de “selo verde” e alianças erradas.

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E pensar que a diplomacia brasileira já foi das mais prestigiadas do mundo, pelo seu equilíbrio e bom senso, alianças sutis e vantajosas, parceira da paz.

Aqui, comentário da BBC sobre o Brasil e os BRICS, pelo criador do expressão BRICS, Jim O´Neill.

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