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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Igor Grabois: Guerra híbrida agora se volta para eleger Geraldo Alckmin



Reprodução de vídeo

28 de julho de 2018 às 14h20
Por Igor Grabois, especial para o Viomundo
O mundo passa por uma nova revolução tecnológica.
Crescentemente, serviços são realizados online, a produção se torna mais flexível em sua cadeia de suprimentos e de apoio, as comunicações em tempo real são a norma.
Novas formas de produzir e obter informações habitam o nosso cotidiano.
Esse processo, comumente chamado de indústria 4.0, impacta as relações internacionais e a política.
E traz novas formas de atuação diplomática e militar.
O conceito de guerra híbrida foi formulado em 2010 por estrategistas estadunidenses.
Nesse conceito os combates convencionais, envolvendo tanques, aviões, mísseis, são apenas uma faceta da guerra, cada vez menos frequente.
Ganha importância a guerra da informação, em um desdobramento muito mais complexo do velho mote das operações psicológicas.
As novas tecnologias da informação, baseadas na internet, permitiram um novo raio de ação na disputa de corações e mentes entre os povos dos países que a estratégia dos EUA chama de “potências hostis”.
A guerra híbrida é, em essência, uma guerra cibernética, não apenas para a destruição de sistemas e infraestruturas digitais.
Mas com uma ampla gama de ações táticas nas mídias digitais: espalhando boatos, estimulando bolhas de opinião, alimentando culturas de ódio e criando um ambiente hostil para a ação política de governos e partidos tidos como inimigos.
Seu objetivo é a ruptura do tecido social, da coesão nacional e da vontade de resistir.
As chamadas primaveras árabes e a atual situação da Ucrânia são exemplos dessa nova forma de guerra.
O Brasil é alvo de uma estratégia de guerra híbrida.
Envolveu a cooptação de membros do judiciário, a criação de grupos de extrema-direita financiados por ONG’s ligadas à comunidade de informações e aos altos círculos financeiros dos EUA, a utilização da mídia tradicional e das mídias digitais em larga escala, como o Facebook e o Whatsapp.
Esses ataques cibernéticos remontam ao ano de 2012, em uma espécie de evento-teste, como boatos como o fim do Bolsa-Família.
Se intensificaram em 2013, tiveram um recrudescimento nas eleições de 2014 e atingiram seu ápice em 2016, nas semanas que precederam o impeachment.
Esses movimentos foram captados pelos serviços de inteligência da Turquia e da Rússia, pelo que se tem notícia.
O resultado é conhecido. A iniciativa dos BRICS implodiu, quando os países-membros preparavam um sistema financeiro alternativo ao FMI e ao Banco Mundial.
As iniciativas da UNASUL e do CELAC também foram paralisadas.
O Brasil perdeu toda, simplesmente toda, influência na África e na América do Sul.
Os aliados do Brasil estão sendo perseguidos e presos em seus países.
O país tem as suas principais empresas ameaçadas de desnacionalização.
Nossas riquezas naturais, em especial o petróleo do pré-sal, alvo de saque de capitais especulativos.
O país foi expulso dos setores do comércio internacional em que se destacava, como proteína animal e serviços de engenharia.
A indústria é destruída de maneira deliberada. Ao povo, miséria e desemprego.
O Japão e Alemanha tiveram um tratamento bem melhor durante a ocupação após a segunda guerra.
O Brasil foi derrotado sem que se disparasse um único tiro.
Essa obra não seria possível sem a colaboração de uma parcela das classes dominantes brasileiras, que se consideram parte de uma elite internacional, sem nenhum tipo de compromisso nacional.
E contou com uma estratégia política e de comunicação muito bem planejada e financiada.
A guerra híbrida ainda não chegou à sua conclusão.
A operação cibernética continua em ação, não apenas por parte dos círculos anglo-americanos.
O atual objetivo é evitar que o povo eleja um governo popular e nacionalista. Há ações de interferência nas eleições de 2018.
Deve-se lembrar que mais de 70% do tráfego da internet brasileira passa fisicamente por território estadunidense.
A informação, cada dia mais, chega aos brasileiros mediada pelos gigantes Google / YouTube e Facebook / WhatsApp.
O debate da sucessão presidencial se iniciou tão logo Dilma foi derrubada. Desde então diversas candidaturas forma lançadas e retiradas.
A cada protótipo de candidato apresentado, dados foram registrados, comportamentos e reações foram observados a partir da interação nas redes.
Os dados processados são utilizados para embasar estratégias políticas e de comunicação das candidaturas do campo conservador.
Querendo ou não, contribuíram para isso a quase candidatura de Luciano Huck e a aventura de Bolsonaro.
Esse esforço irá desaguar no candidato escolhido pelo capital financeiro e seus aliados internacionais: Geraldo Alckmin.
Frente a esse aparato, as forças de esquerda se encontram despreparadas.
Quantos ativistas, bem-intencionados, não colaboraram para a popularidade digital de Bolsonaro?
A barbaridade de suas declarações era dirigida justamente a esse público que, cedendo ao apelo irresistível da crítica e compartilhamento, gerou enorme alcance de suas mensagens de forma gratuita.
O arsenal de cascas de banana digitais é extenso: pesquisas falsas, tretas entre forças de esquerda alimentadas por páginas e perfis de direita, movimentos de bloqueio de opiniões divergentes consolidando núcleos duros, mitos do tipo “pobre de direita” etc.
Assim se cria um isolamento digital que se configura em um isolamento real.
Isso porquê a atuação nas redes não é estanque da esfera offline, a vida vivida.
É parte da dinâmica social do atual estágio do desenvolvimento capitalista.
Essa assertiva vale tanto para o campo da esquerda quanto para as forças da reação.
A interação social pela internet reflete o que há de mais avançado na formação social capitalista e, cada vez mais, condiciona as demais mídias.
Não é mais possível fazer política de modo eficaz sem dominar a linguagem e mecânica das redes.
A tarefa dos brasileiros é recuperar o nosso país. Essa tarefa é de largo fôlego.
Passa pela vitória das forças populares as eleições de 2018 e pela reconstrução do tecido social brasileiro esgarçado pelo regime golpista.
Envolve a elaboração de programas capazes de mobilizar a população, pela articulação política e por medidas operacionais que levem em conta as novas arenas de luta.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A Lei é para Todos: Em momento crucial da campanha, Alckmin escapa da Lava Jato e vai responder por crime que eleitor considera bem menos grave, por Amanda Cieglinski.

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O ex-governador Geraldo Alckmin, agora sem foro privilegiado, conseguiu uma vitória jurídica extraordinária ontem: o processo mais adiantado contra ele, o da delação da Odebrecht, que tramitava no Superior Tribunal de Justiça, foi remetido à Justiça Eleitoral de São Paulo.
A decisão, da ministra Nancy Andrighi, contou com o respaldo da Procuradoria Geral da República, através do vice-Procurador Geral, Luciano Mariz.
No dia anterior, o Ministério Público Federal havia pedido para investigar Alckmin no âmbito da Lava Jato.
Foi o cenário menos ruim para o tucano, num momento decisivo da pré-campanha eleitoral, em que é preciso alinhavar alianças.
O crime de caixa dois tem pena de até cinco anos de prisão e abastecer campanha com dinheiro recebido por fora é aceito pelos eleitores como algo que todos os partidos e candidatos fazem.
Uma apuração por corrupção, além das penas maiores, poderia resultar no enquadramento de Alckmin e outros acusados em crimes mais graves, como o de formação de quadrilha.
Além disso, a pergunta que a Lava Jato faria naturalmente é: o que Alckmin deu em troca do dinheiro da Odebrecht? A empreiteira fez várias obras em São Paulo.
Uma apuração desse tipo, portanto, seria muito mais ampla e potencialmente danosa para os tucanos neste momento.
Além de Alckmin, também foram delatados o cunhado dele, Adhemar César Ribeiro, e o secretário Marcos Monteiro, que teriam sido os intermediários nos repasses de R$ 10 milhões da Odebrecht para abastecer as campanhas de 2010 e 2014.
O candidato do PSDB ao Planalto não fica livre automaticamente de responder a outras acusações. Já havia precedente deste tipo de decisão.
Porém, como frisamos, o que importa é o timing: num quadro eleitoral em que um dos adversários dele, o ex-presidente Lula, está preso, responder por crime eleitoral não deve causar grandes danos.
Além disso, é certo que o andamento do processo contra Alckmin na justiça eleitoral paulista não terá a mesma rapidez do que tramitou contra Lula na Lava Jato, que bateu vários recordes.
Nada como um dia:
MPF de São Paulo pede para investigar Alckmin na Lava Jato
Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil
A força-tarefa da Operação Lava Jato do Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo requereu à Procuradoria-Geral da República o inquérito que investiga o ex-governador paulista Geraldo Alckmin.
Em ofício encaminhado ontem (9), o MPF pede a transferência da apuração para São Paulo “com urgência, tendo em vista o andamento avançado de outras apurações correlatas sob nossa responsabilidade”.
Alckmin renunciou ao cargo de governador de São Paulo no último dia 6 de abril. Ele pretende disputar a indicação de seu partido para concorrer à presidência da República.
Ao renunciar, Alckmin perdeu o foro por prerrogativa de função, e pode agora ser investigado pela força-tarefa da Lava Jato em São Paulo.
A investigação contra o ex-governador de São Paulo foi aberta a partir da petição 6.639 do Supremo Tribunal Federal (STF) encaminhada pelo ministro Edson Fachin à Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Segundo o MPF, depoimentos de colaboradores da Operação Lava Jato – Benedicto Barbosa da Silva Junior (responsável pelo setor de pagamento de propinas da construtora Odebrecht), Carlos Armando Guedes Paschoal (ex-diretor da Odebrecht em São Paulo) e Arnaldo Cumplido de Souza e Silva (responsável da Odebrecht pelo contrato de construção da Linha 6 do Metrô de São Paulo) – indicaram o repasse irregular de recursos para Alckmin a título de contribuição eleitoral.
As doações ilegais teriam contado com a participação do cunhado do ex-governador, Adhemar César Ribeiro.
Procurada, a assessoria do ex-governador não foi localizada.
Edição: Carolina Pimentel
…após o outro
Inquérito que investiga Alckmin será enviado para Justiça Eleitoral de São Paulo
Sabrina Craide – Repórter da Agência Brasil
São Paulo – A ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nancy Andrighi reconheceu hoje (11) o fim da competência da instância especial para processar o inquérito instaurado no ano passado contra o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB).
A investigação estava a cargo do STJ em razão da prerrogativa de foro de Alckmin, que renunciou ao cargo no último dia 7 de abril.
“Sendo assim, a ministra determinou remessa dos autos à Justiça Eleitoral do Estado de São Paulo, nos termos do que foi requerido pelo vice-procurador Geral da República, Luciano Mariz”, informou o STJ, em nota.
Alckmin é um dos governadores citados nas delações de ex-executivos da empreiteira Odebrecht.
Também poderão ter os inquéritos enviados para a justiça eleitoral os ex-governadores Beto Richa, Marconi Perillo, Confúcio Moura e Raimundo Colombo, que também são investigados e se desligaram dos cargos para concorrer nas eleições de 2018.
Edição: Amanda Cieglinski

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Os estranhos interesses por trás da ração humana, por Outras Palavras.

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on 23/10/2017Categorias: Brasil, Destaques, Políticas
171023-FarinataDoria
Uma empresa que nada produz. Uma gestora ligada a causas de ultra-direita. Uma “clínica” onde 14 morreram por intoxicação alimentar. Um projeto de lei suspeito
Reportagem de Alex Tajra
Muito tem se falado sobre o projeto da Prefeitura de distribuir um complexo nutritivo chamado de “farinata” para supostamente combater a fome na cidade. A gestão João Doria, em parceria com a nebulosa Plataforma Sinergia, produziu um alimento de qualidade duvidosa, com um aspecto peculiar (lembra uma mistura do tradicional doce cajuzinho com uma pedra de crack), proveniente de uma maçaroca de produtos próximos do vencimento, desinteressantes para bares, restaurantes, supermercados, etc.
Não há qualquer informação nutricional sobre o produto, tampouco foi feita uma consulta aos órgãos competentes que deveriam fiscalizar os acordos alimentícios feitos pelo poder público com empresas privadas, tais quais o Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Plataforma Sinergia também é uma empresa sobre a qual poucas informações estão disponíveis. Uma delas é de que é gerida pela empresária Rosana Perrotti, entusiasta do “Allimento” (nome do produto, elaborado com um trocadilho sórdido) e fã declarada do prefeito. Mas quem é Perrotti?
Numa pequena consulta feita na internet, nota-se que Rosana possui uma posição político-partidária muito explícita. Não raro em sua página pessoal no Facebook posta vídeos e textos criticando os “esquerdopatas”. Em uma das publicações, uma crítica virulenta à “ideologia de gênero” que o Ministério da Educação quer nos colocar “goela abaixo”. O professor Felipe Nery, no vídeo, diz que “está acontecendo uma explosão de crianças confusas com o próprio sexo” e que as crianças estão “duvidando de si mesmas nas salas de aula”.
171023-Suspeitos
No círulo vermelho, Rosana Perrotti, que se empenha em postagens ultraconservadoras na internet. Entre os “colaboradores” citados por sua empresa, a PUC-SP. Que relações obscuras ligariam Dom Odilo (o Grão Chanceler da universidade, ao microfone) com a “farinata”?
As postagens não são antigas; pelo contrário, foram publicadas nas últimas semanas. Em outro vídeo, o pastor e senador Magno Malta (PR), discorre sobre o ECA e como a performance do artista carioca Wagner Schwartz, no MAM, supostamente incentiva a pedofilia. “Se a Organização Mundial de Saúde pede para os fumantes não fumarem perto das crianças, quanto mais um adulto induzir uma criança a tocar no órgão genital do outro”, é uma das comparações feitas por Malta.
Em outra publicação, um vídeo de uma criança de no máximo cinco anos explicando “como Deus escolheu David para ser rei”. Esse, sim, em clara violação do Estatuto da Criança e do Adolescente, já que explora uma criança com fins de proselitismo religioso. Rosana também não deixa de lado o arauto da ética e da moral brasileiras, Sérgio Moro, e reserva espaços em sua linha do tempo para alguns vídeos do magistrado, exaltando a Operação Lava-Jato e seus feitos heroicos.
Profissionalmente a trajetória de Perrotti é igualmente cerceada por uma neblina cinzenta. Em seu perfil no Linkedin, apresenta-se como “Controller” na empresa Mead Johnson Nutrition, companhia estadunidense “líder no mercado de nutrição” e concentrada na “investigação científica” de nutrição para bebês e crianças.
No campo de experiência, a criadora da Sinergia se define como “CFO (Diretora Financeira, em tradução livre) com foco em alimentação, agronegócio e farmacêuticas multinacionais”, com passagens pela maior empresa do mundo de alimentação, a Kraft Foods, e a gigante do agrotóxico Monsanto.
Na rede social voltada para o mundo corporativo, a Plataforma Sinergia é descrita como uma “rede de especialistas e organizações dividindo sinergia para promover desenvolvimento sustentável por meio das melhores práticas sociais e ambientais”. Apresentada como um Instituto ou uma ONG pelos meios de comunicação, a empresa tecnicamente é uma entidade privada com “atividades associativas não especificadas anteriormente”, segundo dados do Cadastro Nacional. Em seu site, pede doações pouco objetivas, em um grande banner onde se pode ler “A CADA R$10 VOCÊ NUTRE 1 CRIANÇA POR 1 MÊS”, com dados bancários da empresa abaixo.
A Sinergia, como já revelado pela rádio CBN, não possui sequer uma fábrica. Atua em parceria com “indústrias licenciadas”, segundo Perrotti, que não podem ser reveladas por conta de acordos de confidencialidade. Aí entra também uma contradição, já que a comandante da empresa disse nesta mesma entrevista que só foram produzidas amostras da farinata, as quais foram distribuídas em algumas creches. No texto de divulgação elaborado pela Prefeitura e publicado no dia 9 de outubro, todavia, a gestão afirma que a Sinergia já possui 50 toneladas do produto em estoque. Não se sabe onde, nem quando e nem o porquê dessa produção.
Tem como colaboradores nomes de peso, como a Câmara Internacional de Comércio, a CNBB e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Também não há qualquer menção sobre como ou por qual razão essas organizações mantêm vínculo com a Sinergia.
Chamam atenção, porém, mais que qualquer colaborador, os nomes da Fazenda da Esperança e da Missão Belém no portal da empresa. A primeira é uma conhecida rede de “comunidades terapêuticas” privadas, onde se tratam dependentes de drogas, e que possui uma série de contratos com o poder público. A segunda também trata de dependentes químicos, porém abriga moradores em situação de rua. Em junho deste ano o jornal O Estado de São Paulo publicou uma reportagem contando que, só naquele mês, 14 pessoas morreram na Missão Belém, todas com sinais de intoxicação alimentar.
A situação da Fazenda da Esperança é ainda mais conturbada. São diversas denúncias de alimentação ruim, tratamento negligente e até acusações de escravidão. Em 2014, quatro jovens de Alagoas, internados na unidade de Poço das Trincheiras, denunciaram que estavam sendo tratados como escravos, recebendo uma comida de péssima qualidade e que a situação é maquiada quando um grupo vinculado à Igreja Católica fazia visitas.
Cristiano dos Santos, Max Gonçalves, Italo Henrique e Jonata da Silva foram entrevistados pela Rádio Milênio e as denúncias foram amplamente repercutidas por veículos regionais.  “A comida não prestava. A que prestava quem comia era o coordenador Josafá”, disse Jonata à rádio na época, ainda relatando que o local não possuía psicólogos e nem médicos.
Em 2015, um caso de violência marcou a Fazenda da Esperança de Guaratinguetá. Um homem teria invadido o local e assassinado uma freira para roubar dinheiro. O crime, no entanto, nunca foi esclarecido, e houve uma clara tendência em afastar a possibilidade de ter sido cometido por alguém de dentro da instituição.
A última notícia que se tem do assunto é um alento aos conselhos de nutrição e aos profissionais do segmento, que se posicionaram de forma contrária à farinata nas últimas semanas. A  Promotoria de Justiça de Direitos Humanos de São Paulo instaurou em 19/10 um procedimento administrativo afim de obter mais informações sobre o “granulado nutricional” de João Doria e Rosana Perrotti. Além disso, a Comissão de Saúde, Promoção Social, Trabalho e Mulher, da Câmara Municipal de São Paulo também pediu esclarecimentos à prefeitura.
O Ministério Público da capital encaminhou cinco perguntas sobre o “Allimento” para a Prefeitura, entre elas o do porquê o granulado substituir os alimentos convencionais. Outro questionamento é a composição e o valor nutricional do produto, onde o MP também solicitou um laudo técnico para diagnosticar cientificamente o “Allimento”. O texto é assinado pelo promotor José Carlos Mascari Bonilha.
A Plataforma Sinergia e o “combate à fome”
Uma das relações pouco exploradas pela mídia até agora é a da Plataforma Sinergia com o Projeto de Lei 6867 de 2013, que instala a Política Nacional de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos – PEFSA. A norma foi proposta pelo deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP) e, depois de alguns meses parada, voltou a circular com mais intensidade pelas comissões da Câmara dos Deputados no segundo semestre desse ano. A última movimentação foi no dia 14 de setembro, cerca de um mês antes do anúncio feito pela Prefeitura do acordo com a Sinergia.
A lei, que estabelece diversas diretrizes em relação ao combate à fome e ao desperdício de alimentos, possui alguns dispositivos que claramente tendem a beneficiar o setor privado e seguem quase que exatamente o mesmo modus operandi que João Doria adotou com a Sinergia. No PL, diversas formas de isenção fiscal e incentivos ao setor privado estão regulamentadas, tais como o inciso terceiro do Art. 9º:
“III – isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados na fabricação pela indústria nacional de máquinas e equipamentos cujo uso esteja comprovadamente associado ao combate à insegurança alimentar;”
A relação mais explícita entre a Plataforma Sinergia e o Projeto de Lei de 2013, porém, está na justificativa escrita por Jardim, ao fim do documento:
“Ao mesmo tempo, também em Roma, na sede da FAO, reunir-se-ão representantes do projeto “Save Food”, que discute 170 soluções selecionadas em nível global voltadas para a otimização do uso de alimentos e salvar vidas. Dentre as soluções selecionadas, encontra-se a proposta pelo ‘Projeto Fome’ da Plataforma Sinergia, que desenvolve processos para evitar a destinação inadequada de alimentos.”

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Doria, a samambaia que se tornou presidenciável, por Luis Nassif

Há uma busca do candidato de um centro democrático, seja lá o que se entenda por isso.
Teoricamente, seria uma área de convivência entre liberais e sociais-democratas, que visasse preservar o país da radicalização que se anuncia e, especialmente, de um maluco de ultradireita.
O posto de candidato do centro democrático está vago.
São curiosos, aliás, os movimentos oportunistas que se formam em tempos de desconcerto geral. Qualquer um se julga com oportunidade, do economista liberal aos velhos nacionalistas, passando por antigas apresentadoras de TV, apresentadores atuais. Teve 15 minutos de fama? Já pode se candidatar a presidenciável. Nem a Loto desperta tantas fantasias.
A prova dos 9 se dá quando se colocam à campo. E, aí, é ilustrativa a experiência João Doria Júnior.
Dória é um outsider que se tornou prefeito por várias razões, nenhuma ligada ao seu mérito próprio.
A primeira, ao fato do governador Geraldo Alckmin não ter um substituto à altura. Assim como outros coronéis do PSDB, Alckmin não aceita um Exército com oficiais, só sargentos que não possam questionar seu comando. Na hora das batalhas secundárias, não há oficiais disponíveis e, aí, toca a apostar em outsiders. O último político paulista desprendido foi Franco Montoro, que acabou devorado por Orestes Quércia.
A segunda, o antipetismo dos paulistas, que daria a vitória para qualquer poste. Pularam de um poste a outro até se fixar na samambaia Dória, aquela que vai se enroscando em todos os pontos, até ganhar raízes próprias e sufocar o criador.

Os figurinos de Dória

Os mais velhos devem se lembrar de um quadro hilário do humorista Serginho Leite em que ele imitava, ao mesmo tempo, Agnaldo Rayol e Agnaldo Timóteo. Para tanto, pintava metade da cara de preto e a outra de branco e ficava com o perfil correspondente a cada Agnaldo, quando soltava a imitação.
Lembra Dória hoje.
Havia dois figurinos para o antipetismo. O mais legítimo era o da figura do gestor, divorciado da velha política, atuando cientificamente. O segundo, a do caçador de petistas, raivoso, iracundo, hidrófobo. Ambos, como antíteses do político tradicional, aquele que não se rende às facilidades das alianças ilegítimas, ao pragmatismo malandro da realpolitik.
Grandes políticos, Brizola, Covas ou Maluf, cada qual no seu campo, seguiam um conjunto de valores quase imutáveis, porque a incoerência e/ou a deslealdade, quando percebidas pelo eleitor, são veneno na veia da imagem do político. O marketing, para eles, era apenas uma maneira de projetar sua personalidade pública.
No caso de Dória, não.  Ele é um androide, totalmente desenhado pelo marketing, não o marketing planejado, mas o do improviso.
O primeiro engano foi o ataque de prepotência que acomete todo espírito vaidoso, quando assume um cargo não previsto e se deslumbra. Acaba acreditando que todo mérito é seu. Lembro-me até hoje da ex-governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, me telefonando – a respeito de críticas que fiz ao seu açodamento, quando Ministra do Planejamento de Itamar – e dizendo: que culpa eu tenho de ser alta, bonita e inteligente?
Dória pegou vento a favor e passou a achar que ele conduzia o vento. Depois, assumiu e, no período de carência – que todo político eleito tem – praticou duas ou três jogadas de marketing que foram bem recebidas, justamente porque se estava no período de carência. Aí, passou a se considerar dono de uma intuição fulminante. Todos seus passos seguintes não obedeceram a nenhum planejamento. Qualquer problema poderia ser resolvido com uma desculpa criativa e um factoide qualquer.
Como alertamos várias vezes, trata-se de uma estratégia suicida. A facilidade atual em disseminar imagens exige um cuidado adicional com a superexposição. Doria passou a se comportar com mais assanhamento de uma adolescente vidrada em selfies.
E aí, apareceu o lado mais sombrio de sua personalidade: a grosseria, o oportunismo, a deslealdade, a ambição explícita. Mas, principalmente, o perfil contraditório, do sujeito que muda de opinião ao sabor das circunstâncias.
Semanas atrás, escrevi um artigo sobre a imagem tortuosa que Dória estava criando de si mesmo, do sujeito rancoroso, agressivo, desleal, de índole ruim. Dias depois, em encontro com artistas e jornalistas em sua casa, em um trecho gravado pelo Estadão, ele como que respondeu ao artigo, dizendo da impressão falsa que estava construindo sobre ele, que no fundo era um bom rapaz, coração bom, generoso etc.
Mas não adianta.
A biruta de aeroporto
Agora está em plena procela e o barco não obedece mais ao comando do piloto.
Dória precisa consolidar alianças políticas pelo país e não para de viajar. Aí, saem duas pesquisas mostrando queda na aprovação do gestor. Ele volta correndo e cria mais dois factoides. Mas, aí, percebe que Alckmin pode estar se fortalecendo em outras regiões e sai correndo atrás do prejuízo.
Nesse ínterim, sofre uma crítica de Alberto Goldman, e responde com uma agressividade sem limites, tratando Goldman como um fracassado porque velho e aposentado. Nesses tempos de insegurança generalizada com o desemprego, imagine-se como tal afirmação irá cair para os eleitores.
Nessa ânsia de agarrar todas as oportunidades, vai se ampliando a falta de coerência do seu discurso.
Confiram suas entrevistas dos últimos dias. É uma biruta de aeroporto. Diz que respeita Bolsonaro, mas seus métodos de gestão são diferentes. Que mané gestão? Entra em divididas, das quais deveria se poupar – como a questão da censura à exposição de arte – e, no momento seguinte, tem que se explicar para o público mais esclarecido. Depois, faz campanha contra a corrupção e, ao mesmo tempo, apoia Temer. Dá declarações sobre a importância de acordos políticos, para ganhar tempo de TV e, depois, faz um malabarismo incompreensível para explicar como joga de acordo com as regras do jogo da velha política, e pretende se apresentar como o novo na política.
Alckmin não é sabido, mas é esperto. Conhece suas próprias carências e se poupou ao máximo. Dória tem a imprudência dos megalômanos. E, com isso, deixou o centro democrático à procura do seu sir Galahad.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O retumbante fracasso do golpe, por Pedro Breier.


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(Deu ruim. Foto: Reprodução/Câmara)
Por Pedro Breier, colunista do Cafezinho
Um amigo que apoiou o impeachment me disse, resignado, alguns dias atrás: “foi golpe mesmo”.
Um conhecido pediu desculpas públicas hoje, em sua página do Facebook, às pessoas com quem ele discutiu defendendo o impeachment. “Eu preciso admitir que a palavra golpe é a melhor definição para a queda da Dilma”, escreveu.
As provas contra os bandidos que assaltaram o poder, especialmente contra Temer, que aparentemente vai morrer abraçado à cadeira onde nunca deveria ter sentado, estão fazendo as pessoas acordarem do torpor a que foram induzidas pelo massacre midiático liderado pela Globo.
O retumbante fracasso do golpe é um fato consumado.
Vai ficando cada vez mais claro que a mídia hegemônica e a dupla PSDB/PMDB tinham dois objetivos para o pós-golpe.
O primeiro era aplicar sua agenda de desmonte do Estado e ataque à direitos, visando rebaixar a renda dos trabalhadores e manter a margem de lucro dos grandes empresários e especuladores. O neoliberalismo prega que a economia deve chegar ao rés do chão o mais rápido possível para que o ciclo de recessão acabe e a expansão da economia seja retomada.
Ninguém admite isso publicamente, mas a ideia das medidas de austeridade é justamente aprofundar a recessão para que a economia volte a crescer o mais rápido possível. Afinal, quando se chega ao fundo do poço, só se pode subir mesmo.
Os milhões de desempregados e miseráveis que resultam desta teoria econômica são mero detalhe para os cabeças de planilha. Gente sofrendo são apenas números para essa gente.
O problema é que o fundo do poço está demorando para ser vislumbrado. Além disso, o desemprego, o rebaixamento dos salários e a piora brutal nas condições de vida estão irritando profundamente os brasileiros. Temer é o presidente mais mal avaliado da história e a população quer eleger o novo mandatário do país o mais rápido possível.
O segundo objetivo da ala midiática/partidária do golpe era controlar o MP e a Justiça para que tudo voltasse à “normalidade” dos anos 90, onde a dilapidação do patrimônio público e as grandes negociatas eram tranquilamente engavetadas e abafadas.
Deu ruim também.
O endeusamento de Moro, Janot, Dallagnol e companhia criou um monstro que passa por cima do que estiver pela frente, inclusive da lei e da economia nacional, em nome de sua heroica luta contra a corrupção (É claro que no caso de Temer e de seus bandidos de estimação há provas abundantes de crimes, e não apenas delações obtidas por meio de tortura).
As reformas tão sonhadas pelos donos do dinheiro neste país subiram no telhado de um arranha-céu. O presidente colocado no poder justamente para transformá-las em realidade apenas luta pateticamente pela própria sobrevivência.
Paulo Skaf agora diz que a Fiesp “não se mete em política”. A Globo grita “Fora Temer”. O PSDB continua abraçado ao zumbi putrefato que, incrivelmente, ainda é presidente do Brasil.
São todos uns grandes brincalhões.
Mas agora não adianta tentar tirar o corpo fora. A ruína do golpe ficará marcada na testa de cada um dos conspiradores por muito tempo.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A lógica dual do Gilmar e as razões para o seu impeachment, por Jefferson Miola.


EVARISTO SA/AFP/JC


O grande responsável pela estupefação e anarquia jurídica reinante atende pelo nome de Gilmar Mendes, o tucano do PSDB do Mato Grosso [Estado onde, segundo seu ex-colega Joaquim Barbosa, ele tem capangas] que atua como juiz no TSE e no STF.
A questão, em si, não é o julgamento atual, mas a abertura da AIME [Ação de Impugnação de Mandato Eletivo] no imediato pós-eleitoral de 2014 e os acidentes processuais derivados da interveniência dolosa de Gilmar Mendes.
A posição dele, consagrada vitoriosa no TSE, é contraditória com a posição inicial que ele defendeu no Tribunal em agosto de 2015 em conflito com a Constituição, que determina que “o mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação” [CF, art. 14, §10].
Com a maioria conquistada no Tribunal, a continuidade inconstitucional da AIME passou a ser uma arma de reserva nas mãos do Gilmar e do PSDB para golpearem Dilma no caso de fracasso da estratégia do impeachment fraudulento.
Dilma exercia a Presidência e então, para agravar a instabilidade política já em nível crítico, ele recorreu do arquivamento da AIME recomendado pela relatora Maria Thereza de Assis Moura. Defendeu, na ocasião, a continuidade do julgamento apresentando provas, testemunhos e diligências que extrapolam a petição original e que, agora, em junho de 2017, ele decidiu invalidar – não só porque inadmissíveis à luz da processualística, mas sobretudo para manter Temer na presidência.
É certo que se Dilma ainda estivesse na presidência, a posição do Gilmar teria sido diametralmente oposta, e ele então militaria e votaria pela condenação da petista no TSE.
Durante as longas sessões do julgamento, Gilmar tergiversou que nunca pretendeu “cassar o mandato de Dilma, mas, sim, achava fundamental conhecer as entranhas do sistema” [sic]. Esta hipocrisia tem equivalência de peso e valor com a delinquência de Aécio Neves, que promoveu a AIME “apenas” para “encher o saco do PT!”.
Durante o julgamento, Gilmar agrediu o MP, constrangeu o relator Herman Benjamim e fez uma enorme ginástica hermenêutica para justificar seu posicionamento político-partidário. Com o olho na conjuntura, Gilmar fez declarações que seriam aceitáveis na boca de políticos e atores partidários; nunca, porém, na de juízes isentos e imparciais: “Não cabe ao TSE resolver a crise política do país”; “Não é algum fricote processualista que se quer proteger, mas o equilíbrio do mandato”; “Não se substitui um presidente a toda a hora, mesmo que se queira”.
Gilmar se tornou um personagem central da dinâmica política, o que seria uma realidade gravíssima não estivesse o Brasil sob a vigência de um regime de exceção. Numa democracia e na plenitude do Estado de Direito, nenhum juiz jamais poderia ter tal ascendência política sobre a política, sobre os políticos e os poderes executivo e legislativo – seja um Sérgio Moro da primeira instância; seja um juiz da máxima instância do judiciário.
Gilmar Mendes não reúne as condições para continuar atuando no judiciário brasileiro, menos ainda como juiz do TSE e do STF, porque sua trajetória de partidarismo com exibicionismo midiático é incompatível com a Lei e o Código de Ética da Magistratura, com os Códigos de Processo Penal e Civil e com a Constituição Brasileira.
Gilmar não atua com a isenção e a imparcialidade requeridas a um juiz, mas sim como um agente político-partidário com interesses ideológicos identificados. A parcialidade é a única variável constante da atuação dele com toga. Para predizer o destino do golpe, basta mirar os passos dele.
Em março de 2016 Gilmar não só validou como usou, com espantoso cinismo, a interceptação e divulgação criminosa que o juiz Moro fez dos telefonemas da Presidente Dilma, para justificar o impedimento da posse de Lula na Casa Civil. Ele agora, com idêntico cinismo, atua como advogado de defesa do Temer e do Aécio e desqualifica as conversas mafiosas que ambos mantiveram com o empresário corruptor Joesley Batista para coordenarem as práticas criminosas.
Os motivos para o impedimento do Gilmar Mendes são abundantes – menos pela posição que defendeu no julgamento do TSE, e mais pela trajetória nefasta de militante partidário.
Gilmar atua como um agente político-partidário e com o desembaraço político que seria admissível para os operadores da política escolhidos pelo voto popular, mas jamais para juízes. É passada a hora do julgamento do impeachment de Gilmar Mendes no Senado, onde vários pedidos foram protocolados, conforme prevê o artigo 52 da Constituição brasileira.

sábado, 27 de maio de 2017

Juristas repudiam divulgação de áudio entre Reinaldo Azevedo e Andréa Neves, por Marcelo Feller.

Juristas repudiam divulgação de áudio entre Reinaldo Azevedo e Andréa Neves
Quarta-feira, 24 de maio de 2017

A divulgação pelo portal BuzzFeed de uma conversa entre o jornalista Reinaldo Azevedo e Andréa Neves, política irmã do senador Aécio Neves (PSDB-MG), despertou inúmeras críticas pela violação do sigilo de imprensa. Na conversa, sem nenhuma relevância jurídica para a investigação, Reinaldo criticava junto com Andréa o conteúdo de matérias jornalísticas prejudiciais à imagem do senador.
No caso, a conversa entre ambos sequer deveria ser transcrita. Como explicou ao Justificando o Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e Professor de Direito Processual Penal Guilherme Madeira Dezem,“a interceptação não era voltada para Reinaldo Azevedo, mas sim para Andréa Neves, investigada na operação. Dentre as ligações interceptadas, ocorreu de cair uma conversa que envolve sigilo de fonte e liberdade de imprensa. Seria a mesma coisa se caísse uma conversa dela com um advogado, por exemplo. Tanto no caso do advogado, quanto no caso do jornalista, a conversa não pode ser utilizada” – explica.
A lei de interceptação telefônica determina que gravação que não interessar à prova será inutilizada por decisão judicial, sendo que cabe ao Ministério Público ou à pessoa investigada requerer a destruição do material. Isso significa que quando a Polícia está fazendo a escuta e se depara com uma conversa protegida pelo sigilo profissional, ela tem que continuar gravando. “Na Alemanha, por exemplo, a lei manda parar de gravar. No Brasil não, a gravação é contínua e deve ser gravada para depois se avaliar o descarte, explica Madeira.
À polícia cabe somente gravar todo o material voltado à pessoa e o filtro deve ser feito pelo Ministério Público Federal. Como o filtro geralmente não é feito, principalmente em casos com volume de dados gigantesco, os anexos vão inteiros para decisão judicial. Ou seja, a conversa entre Andréa Neves e Reinaldo Azevedo circulou entre várias instituições, sendo inviável saber ao certo quem vazou o material para o BuzzFeed. “Isso também pode estar vindo à tona porque o Fachin liberou o sigilo sobre todos os documentos do processo. Não descarto uma liberação da publicidade por engano no manuseio de uma quantidade gigantesca de material”.

Interceptações telefônicas são diferentes em cada país, mas sempre suscita debates sobre arbítrio e Estado Policial. Na imagem, cena do filme alemão “A vida dos outros”, que trata exatamente desse tema.
Entretanto, seja por acidente ou não neste caso específico, fato é que o uso de conversas protegidas pela lei e pela Constituição como arma política para prejudicar desafetos em campos ideológicos tem sido feito há muito tempo pela força tarefa da Lava Jato, como, por exemplo, a divulgação no Jornal Nacional dos áudios entre Lula e Dilma, quando Moro sequer era competente, ou ainda sequer havia autorização para referida gravação. Outro episódio ocorreu quando todo o escritório Teixeira Martins Advogados, responsável pela defesa do ex-presidente, foi grampeado, prejudicando os sigilo dos profissionais com os clientes, ou ainda mais recente o caso do blogueiro Eduardo Guimarães, violado em seu sigilo de imprensa pelo Juiz Sérgio Moro que se tornou obstinado em descobrir quem da Justiça Federal havia vazado uma informação prejudicial aos interesses da Lava Jato.
Ou seja, é comum em mais um caso de uso de delações e escutas pelas autoridades da Força Tarefa para prejudicar quem se oponha, ainda que minimamente, à Lava Jato. Como lembrou o Professor, Advogado e colunista no Justificando Gustavo Freire Barbosa, a única coisa que Eduardo Guimarães e Reinaldo Azevedo têm em comum é a crítica à Operação – “a operação Lava Jato vem sendo agendada pelos códigos morais dos agentes do Judiciário e do Ministério Público, não pelo Código de Processo Penal e pela Constituição. O sigilo da fonte é só mais uma das garantias que vêm sucessivamente indo pro saco. Aconteceu com Eduardo Guimarães e agora com Reinaldo Azevedo, dois blogueiros com espectros ideológicos totalmente antagônicos, mas críticos da Lava Jato”.
Episódios como esses foram diversos e contaram com o aval de muitas pessoas que, agora no caso de Reinaldo, indignam-se com o ocorrido. “Não deixa de ser triste e irônico que o Reinaldo Azevedo que tanto clamou pela liberação do áudio da Dilma e do Lula agora seja vítima disso. E lá atrás, quando defendemos que não poderia haver essa divulgação, éramos xingados. E agora, defendemos a mesma coisa, ou seja, a Constituição, não a pessoa A ou a pessoa B” – afirmou Madeira. Para ele, agora os críticos do passado podem perceber com maior nitidez o que muitos juristas e especialistas de demais áreas do conhecimento têm denunciado há muito tempo – “A mitologia grega traz o mito de Cassandra, uma mulher que prevê a queda de Tróia e alerta ao povo sobre suas previsões de destruição, mas foi desacreditada e considerada louca. Nos sentimos como ela sobre o quanto avisamos que esses abusos iriam acontecer com quem tanto os estimulou, mas não nos deram ouvidos. Agora, estamos nessa situação” – concluiu o magistrado.
Nas redes sociais, o Professor de Direito Constitucional da PUC/SP Pedro Estevam Serrano comentou que o autoritarismo judicial tem se valido de escutas e delações para destruição de reputação de opositores. Isso já acontecia com políticos do Partido dos Trabalhadores, mas agora tem evoluído para advogados, jornalistas e políticos de outros campos ideológicos – “Parece uma nova, ilícita, inconstitucional e profundamente autoritária estratégia. Juntar a inquéritos e divulgar delações e grampos que tratam de condutas legítimas de advogados, jornalistas e mesmo políticos, em geral críticos aos excessos das investigações, apenas para criar um clima de “envolvimento” em imoralidades. Estou estarrecido com esses comportamentos autoritários e abertamente ilícitos” – afirmou Serrano.
Para ele, a finalidade desses abusos “é de calar críticos, como ocorreu com Reinaldo Azevedo e advogados. Uma imensa ruptura com a Constituição e a democracia está em andamento, enquanto muitos cidadãos se entretem com o circo das noticias de operações espetaculosas” – concluiu.
Também nas redes sociais, o Advogado Criminalista Marcelo Feller fez uma dura cobrança a jornalistas que tem endossado esse arbítrio. “De vocês, jornalistas de hoje que aplaudem e estimulam esse estado de coisas, a sociedade cobrará a conta. Espero que não esqueçamos da responsabilidade de vocês, como esquecemos todos os dias do papel principal da imprensa no golpe de 64” – afirmou o advogado.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

BOMBA: Transcrição dos diálogos bom que implodiram do Governo Temer e encerraram a carreira política de Aécio Nevfes.



Leia diálogo de Aécio e Joesley

Transcrição da conversa entre senador tucano, alvo da Operação Patmos, e executivo do Grupo JBS, divulgada pelo site Buzzfeed Brasil, revela trama do parlamentar contra a Lava Jato


Redação
18 Maio 2017 | 15h43

Aécio Neves. Foto: Dida Sampaio/Estadão
No despacho em que afastou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) de seu mandato, o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), transcreveu trechos de um diálogo do tucano com o empresário Joesley Batista, do Grupo JBS. O site Buzzfeed Brasil divulgou nesta quinta-feira, 18, com exclusividade, a conversa que mergulha Aécio na trama contra a Lava Jato.
‘TEMOS DOIS CARAS FRÁGEIS’
Aécio — Esses vazamentos, essa porra toda, é uma ilegalidade.
Joesley — Não vai parar com essa merda?
Aécio — Cara, nós tamos vendo (…) Primeiro temos dois caras frágeis pra caralho nessa história é o Eunício [Oliveira, presidente do Senado] e o Rodrigo [Maia, presidente da Câmara], o Rodrigo especialmente também, tinha que dar uma apertada nele que nós tamos vendo o texto (…) na terça-feira.
Joesley — Texto do quê?
Aécio — Não… São duas coisas, primeiro cortar o pra trás (…) de quem doa e de quem recebeu.
Joesley — E de quem recebeu.
Aécio — Tudo. Acabar com tudo esses crimes de falsidade ideológica, papapá, que é que na, na, na mão [dupla], texto pronto nãnã. O Eunício afirmando que tá com colhão pra votar, nós tamo (sic). Porque o negócio agora não dá para ser mais na surdina, tem que ser o seguinte: todo mundo assinar, o PSDB vai assinar, o PT vai assinar, o PMDB vai assinar, tá montada. A ideia é votar na… Porque o Rodrigo devolveu aquela tal das Dez Medidas, a gente vai votar naquelas dez… Naquela merda das Dez Medidas toda essa porra. O que eu tô sentindo? Trabalhando nisso igual um louco.
Joesley — Lógico.
Aécio — O Rodrigo enquanto não chega nele essa merda direto, né?
Joesley — Todo mundo fica com essa. Não…
Aécio — E, meio de lado, não, meio de leve, meio de raspão, né, não vou morrer. O cara, cê tinha que mandar um, um, cê tem ajudado esses caras pra caralho, tinha que mandar um recado pro Rodrigo, alguém seu, tem que votar essa merda de qualquer maneira, assustar um pouco, eu tô assustando ele, entendeu? Se falar coisa sua aí… forte. Não que isso? Resolvido isso tem que entrar no abuso de autoridade… O que esse Congresso tem que fazer. Agora tá uma zona por quê? O Eunício não é o Renan.
Joesley — Já andaram batendo no Eunício aí, né? Já andaram batendo nas coisas do Eunício, negócio da empresa dele, não sei o quê.
Aécio — Ontem até… Eu voltei com o Michel ontem, só eu e o Michel, pra saber também se o cara vai bancar, entendeu? Diz que banca, porque tem que sancionar essa merda, imagina bota cara.
Joesley — E aí ele chega lá e amarela.
Aécio — Aí o povo vai pra rua e ele amarela. Apesar que a turma no torno dele, o Moreira [Franco], esse povo, o próprio [Eliseu] Padilha não vai deixar escapulir. Então chegando finalmente a porra do texto, tá na mão do Eunício.
(…)
Ministro da Justiça é “um bosta de um caralho”, diz Aécio.
Joesley — Esse é bom?
Aécio — Tá na cadeira (…). O ministro é um bosta de um caralho, que não dá um alô, peba, está passando mal de saúde pede pra sair. Michel tá doido. Veio só eu e ele ontem de São Paulo, mandou um cara lá no Osmar Serraglio, porque ele errou de novo de nomear essa porra desse (…). Porque aí mexia na PF. O que que vai acontecer agora? Vai vim um inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não (têm) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, 2.000 delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?, do Moreira, que interessa a ele vai pro João.
Joesley — Pro João.
Aécio — É. O Aécio vai pro Zé (…)
[Vozes intercaladas]
Aécio — Tem que tirar esse cara.
Joesley — É, pô. Esse cara já era. Tá doido.
Aécio — E o motivo igual a esse?
Joesley — Claro. Criou o clima.
Aécio — É ele próprio já estava até preparado para sair.
Joesley — Claro. Criou o clima.

***

Leia a íntegra da conversa entre Michel Temer e Joesley Batista

Muitos leitores não conseguiram entender boa parte do áudio entre Temer e Joesley por causa da baixa qualidade da gravação, muitas vezes inaudível. Segue, portanto, a íntegra da transcrição do diálogo

Michel Temer Joesley Batista áudio
Joesley Batista e Michel Temer
O diálogo entre Michel Temer e Joesley Batista não se resumiu a um entendimento sobre a mesada recebida por Eduardo Cunha para que ele permanecesse em silêncio na carceragem onde se encontra, em Curitiba.
Na conversa, o dono do frigorífico JBS-Friboi relata uma sequência de crimes que vão de obstrução à Justiça, suborno de procuradores e compra de informações privilegiadas.
A gravação do empresário que fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria Geral da República (PGR) mostra até tentativa de ter influência em órgãos que regulam e fiscalizam as atividades do grupo empresarial.
Ao longo do encontro, Temer ouviu tudo e não condenou os relatos de crimes do empresário em nenhum momento. Pelo contrário, em alguns trechos da conversa, o peemedebista chegou a repetir que tava “ótimo”. Além disso, o presidente da República não mandou investigar nada.
Com desembaraço e demonstrando intimidade com o chefe do Executivo federal, Joesley pediu na conversa facilidades dentro do governo e combinou encontros na calada da noite.
Leia, abaixo, a íntegra da transcrição da conversa:
[Joesley]: E aí, doutor, Tudo bem? Tudo bem? Faz tempo que a gente não se vê.
[Presidente Temer]: Hein?
[Joesley]: Faz tempo que eu não te vejo.
[Presidente Temer]: É que você está fora do Brasil. Soube que você estava morando […]. Está nos Estados Unidos?
[Joesley]: É… tudo bem? Tô ficando muito, muito, a maior parte é lá. Como é que está a correria?
[Presidente Temer]: Sabe que eu era tão feliz e agora sabe como é, né, cheio de compromissos, né? E aqui, primeiro, que você sabe que eu estou fazendo dez meses e parece que foi ontem, né? Parece que foi ontem e parece que foi uma […], são duas coisas. Segundo, que tenho uma oposição complicada […] no começo, né? Eles começaram: “golpe, golpe, golpe”, daí não passou. Aí “economia não vai dar certo, não vai dar certo”, e daí começou a dar certo e daí os caras estão num desespero, entendeu? Primeiro, que eu tenho o apoio do Congresso, se eu não tenho o apoio do Congresso, eu tô ferrado…
[Joesley]: Muito grande, né?
[Presidente Temer]: Tenho apoio da imprensa, enfim, mas vai dar certo, nós vamos atravessar isso daí, você vai ver. Vamos chegar no final deste ano já muito melhor. E em 2018 vamos comemorar.
[Joesley]: Com certeza. Sabe que nós vamos chegar, é isso mesmo, vamos chegar no fim desse ano olhando pra frente, […] Olhando…
[Presidente Temer]: Já começou, modestamente e tal, mas já começou. E uma coisa que eu não esperava que começasse agora.
[Joesley]: Muito rápido. Foi muito rápido, porque você está falando dez meses, mas, na realidade…
[Presidente Temer]: Há seis começou, né?
[Joesley]: Então, porque teve aquele periodozinho ali muito duro, né, que não podia fazer nada, que não…
[Presidente Temer]: Seis meses como titular e olha o que nós já fizemos. O teto dos gastos, a reforma […] aprovamos a […], eu acho que estava lá há dez meses e não se votava, aprovamos a admissibilidade da Comissão Nacional da Justiça, fizemos um grande acordo trabalhista, que acordaram sobre padrão das centrais sindicais. Muito rápido.
[Joesley]: Muito rápido. Muita coisa e muito rápido.
[Presidente Temer]: É.
[Joesley]: O… a economia está bem, vai ter que baixar o juro rápido, porque a expectativa foi muito rápida, né? A reversão da expectativa.
[Presidente Temer]: […] desce mais um, vai descendo responsavelmente.
[Joesley]: E você sempre tem que deixar o mercado com a sensação de que foi pouco. Tem que ficar na sensação de que…
[Presidente Temer]: Tem razão.
[Joesley]: Não pode tomar a dianteira. Que você vê, o Banco Central baixou 25, depois 25, aí quando ele deu aquele 75, o mercado deu uma animada, só que aí já esperava 1, aí deu 75, é muito, 75 é muito, aí deu 1! O mercado: Pô, agora vai dar 1? O mercado vai achar pouco, pô, mas só 1, tinha que ser 1,5. Não, tá bom, presidente, é tarde, deixa eu te falar. Primeiro, eu vim aqui roubar dois, três minutinhos de você […]. Primeiro, que eu não tinha te visto, né, desde quando você assumiu.
[Presidente Temer]: […] Quando eu assumi, não?
[Joesley]: Não, não, antes de assumir.
[Presidente Temer]: Antes de assumir. Dez meses.
[Joesley]: Eu estive contigo no teu escritório, dez dias antes ali…
[Presidente Temer]: É. Isso.
[Joesley]: …quando estava ali naquela briga ainda, naquela guerra pela…
[Presidente Temer]: Tem razão.
[Joesley]: … pela rede social…
[Presidente Temer]: Tem razão.
[Joesley]: … e tal e coisa de golpe e tal. Mas, tudo bem, e aí, enfim, de lá pra cá eu vinha falando com o Geddel, enfim, e aí também não…
[Presidente Temer]: Deu aquele problema… Aquele idiota… foi confiar nos outros dá nisso.
[Joesley]: Bobagem.
[Presidente Temer]: Uma bobagem que eles fez, agora, sem consequência alguma…
[Joesley]: Não precisava daquilo.
[Presidente Temer]: E o cara aproveitou pra fazer um carnaval.
[Joesley]: Mas eu vinha falando com o Geddel, andei falando algumas vezes com o Padilha também, mas agora que o Padilha adoeceu, ficou adoentado, enfim, aí eu fiquei meio… falei “deixa eu ir lá pra dar uma… “. Queria primeiro dizer o seguinte: “tamo” junto aí, o que o senhor precisar de mim, viu, me fala.
[Presidente Temer]: Está bom, mas tem que esperar passar essa…
[Joesley]: E vim te ouvir um pouco, como é que o senhor está nessa situação toda aí do Eduardo?
[Presidente Temer]: O Eduardo tentou me fustigar.
[Joesley]: Eu não sei, como é que está a situação?
[Presidente Temer]: A defesa, o Moro indeferiu 21 perguntas dele que não tem nada a ver com a defesa dele. Era pra amedrontar: “Eu não fiz nada, eu não sei o quê”, e no Supremo Tribunal Federal, olha só, que fatalidade. E ele está aí, rapaz, mas […]…
[Joesley]: É, eu queria falar assim, muito aqui na… dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo o que tinha de alguma pendência daqui pra ali zerou, tal, doutor. Já liquidou tudo e ele foi firme em cima, ele já estava lá e veio, cobrou, tal, tal e tal. Pronto, acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né, que o Geddel sempre tava…
[Presidente Temer]: Lúcio… […]
[Joesley]: Isso, que o Geddel é que andava sempre ali, mas o Geddel também com esse negócio eu perdi o contato, porque ele virou investigado e eu também não posso encontrar ele.
[Presidente Temer]: É complicado. […]
[Joesley]: Isso. O negócio dos vazamentos. O telefone lá do Eduardo com o com Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós e não sei o quê, e eu tô lá me defendendo. Como é que eu… o que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com o Eduardo.
[Presidente Temer]: Tem que manter isso, viu? […]
[Joesley]: Todo mês, também, e tô segurando as pontas, tô indo. Nesses processos eu tô meio enrolado aqui, né, no processo assim…
[Presidente Temer]: Você está sendo investigado.
[Josley]: Isso, é, investigado, eu não tenho ainda denúncia. Aqui eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada, do outro lado o juiz substituto, que é um cara que fica…
[Presidente Temer]: Está segurando os dois?
[Joesley]: Tô
[Presidente Temer]: Ótimo, ótimo.
[Joesley]: Segurando os dois. E eu consegui um procurador, dentro da força tarefa, que está também me dando informação, e eu lá que eu tô pra dar conta de trocar o procurador que está atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal, e o lado ruim é que se vem um cara com raiva ou com não sei o quê…
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: O que tá me ajudando, tá bom, beleza. Agora o principal é o que está me investigando. Eu consegui colar um no grupo. Agora eu estou tentando trocar…
[Presidente Temer]: O que está […]?
[Joesley]: Isso… tô nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado que saiu um burburinho de que iam trocar ele e não sei o quê. Eu tô com medo, eu tô só contando essa história para dizer assim: Eu tô me defendendo aí, tô me segurando e tal, os dois lá tô mantendo, tudo bem. Mas antes… o Geddel estava aqui com aquele negócio da anistia e quase não deu.
[Presidente Temer]: Quase… […] empresariais que vão dizer que você […] são nossos. Se todos se reunirem e fizerem isso […], mas se todos fizerem isso.
[Joesley]: Sabe que eu estive até com o presidente Lula, na época, lá no dia, que o PT, parte do PT… “ah, o Paulo Pedro não sei o quê…” – “pô, presidente, mas…” “ô, eu quero uma aguinha, um…”. “Água que você quer?” Todo mundo…
[Presidente Temer]: […]
[Josley]: Então, isso foi um negócio que… o negócio da autoridade também era outra, né? A autoridade.
[Presidente Temer]: Dos depoimentos?
[Joesley]: Porque, ô, Presidente, eu não sei o quanto o senhor está ao par assim de um pouco de verdade das coisas, mas é uma brutalidade, um negócio assim… O negócio é o seguinte: há duas semanas atrás, três semanas atrás, um garoto, que eu nunca ouvi falar, que ninguém conhecia, que trabalhava lá com o Lúcio, que era do financeiro lá, não conheço, nunca vi, ninguém nosso nunca viu, nunca nada, e o menino disse assim: “Ah, porque eu ouvi falar do Lúcio que não sei o quê, eu ouvi falar de..”. Pô, me rendeu um Fantástico, um Jornal Nacional, e um não sei o quê, e uma confusão… Ainda bem que eu tenho boa relação com a imprensa e consegui rapidamente… Aquietou. Foi um dia, dois, pronto, parou. Mas é um… Tudo bem. Sobre esse ponto aí também estamos tocando.
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Consegui. Tô fazendo um… 50 mil por mês do rapaz e tal, pra ele me dar informação, pelo menos me dar informação. “Ah, teve reunião, falou isso, falou daquilo”. O bravo é…enfim, mas vamos lá. Eu queria falar sobre isso e falar como é que é que… pra mim falar contigo, qual é a melhor maneira, porque eu falava com o Geddel… Eu não vou lhe incomodar, evidente…
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Eu sei disso. Por isso é que…
[Presidente Temer]: […] é o Rodrigo.
[Joesley]: É o Rodrigo? Ah, então ótimo.
[Presidente Temer]: […] da minha mais restrita confiança.
[Joesley]: Eu prefiro combinar assim, se for alguma coisa que eu precisar, tal e tal, eu falo com o Rodrigo. E se for algum assunto desse tipo aí…
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Funciona super bem à noite, onze horas da noite, meia?noite, dez e meia, venho aqui, converso uns dez minutinhos, meia horinha, vou embora… Tá. Falar de outra coisa aqui. O Henrique, como é que você está com o Henrique?
[Presidente Temer]: Tá muito bem. Tranquilo.
[Joesley]: Tá tudo bem?
[Presidente Temer]: Quer dizer, ele concorda, não que vai acontecer isso aqui, mas ele faz o que eu […] muito bem.
[Joesley]: Ele é trabalhador. Ele é trabalhador.
[Presidente Temer]: É trabalhador. […] o que essa gente fez com o Brasil é inacreditável. É inacreditável. Mas o Henrique vai muito bem comigo. Eu chamo ele pra trabalhar…
[Joesley]: E ele gosta.
[Presidente Temer]: Ele gosta.
[Joesley]: Ele gosta de trabalhar. Você não chama ele pra ir pra praia. Se você for pra praia e chamar ele, ih…
[Presidente Temer]: Não tem graça.
[Joesley]: Agora, se falar: “não, vamos trabalhar”. Eu tenho o Henrique como muito disciplinado, lógico, tenho uma relação ótima com ele. E eu tive assim, o não sei, eu já andei falando com ele alguns assuntos, conhecendo ele, ele é […] pra caramba, né, presidente? Um dia eu falei com ele. […] e tal e ele: “aquilo lá, não, faz as coisas e tira fora”. “Mas não é você que manda nessa merda?” “Não, aquilo lá”…
[Presidente Temer]: […].
[Joesley]: Então, aí que eu quero… Um dia eu falei assim: “Henrique, precisa mexer na Receita Federal, porra. Tanto tempo aí.”. – “tenho um monte de coisa pra fazer”. “Ixe, não. Não posso mexer.”. Aí… BNDES. Não, BNDES é planejamento. Mas foi você que botou a Maria Silvia lá! Não, não, é do Jucá… É outro…
[Presidente Temer]: […] ligou, acertou e tal. […]
[Joesley]: Queria ter alguma sintonia contigo, pra quando eu falar com ele, ele não jogar “Ah não, o Presidente não deixa, não quer.”. Pô, Henrique, mas você é muito banana, você não manda porra nenhuma.”. [Risos] Aí eu falei com… […] aí era o… o Presidente do CADE ia mudar, mudou ou botou alguém aí.
[Presidente Temer]: Já mudou.
[Joesley]: Já mudou? Isso. Aí falei: Ei, pô, presidente do CADE. Ah, isso aí… Quero dizer o seguinte, resumindo, eu também não sei se é hora de mexer em alguma coisa, porque dentro do contexto geral, também não quero importunar ele, também… se eu for mais… que eu trabalhei com ele quatro anos, se for mais firme nele “pô, Henrique, tem que…” eu acho que ele… acho que ele corresponde.
[Presidente Temer]: Ele, você sabe, […] maiores […], a vinda dele pra mim, foi por você.
[Joesley]: Isso. Até voltando um pouco, ao Carlos Eduardo, na época… “Ó, briguei lá, tal… Ó, agora tem que ver se…”, enfim, tudo bem, aí ele, uns quinze dias antes dele…, o Eduardo, aí ele veio e deu uma cobradazinha em mim. “Ó, agora tenho que trabalhar, né, e não sei o que e tal”. “Eduardo, não é assim também, espera aí, não é assim não.”. “Ah, mas puta que pariu.”.
[Presidente Temer]: Aí deu no que deu.
[Joesley]: Aí deu no que deu. Aí eu falei: “Eduardo… – Uns quinze dias antes – Eduardo, não é assim, não, espera aí.”. “Não, pô, você tá com a Ferrari aí?”. Porque ele se referia, que ficou Fazenda, Banco Central… Banco Central perdeu status de Ministro, né? Pô, o Henrique ficou muito prestigiado, né? Mas espera aí, o Henrique também não vai sair fazendo […]. Queria só, não sei se eu… te dar um toque em relação a isso, em relação a… eu não sei o quanto eu vou mais firme no Henrique, o quanto eu deixo ele com essa pepineira dele aí e tal… Enfim.
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Se ele jogar pra cima de você, eu posso bancar e dizer assim: Não, não, qualquer coisa eu falo com ele.
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Pronto. Qualquer coisa… Ah, então. Lógico, lógico. Eu não vou falar nada descabido. Agora, esse presidente do CADE […] falei com ele: “Henrique, é importantíssimo ter o Presidente do CADE ponta firme.”.
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Já foi. Já foi. Em Janeiro agora. Eu falei pra ele. Ele já foi nomeado Presidente.
[Presidente Temer]: Tem que ter uma conversa franca.
[Joesley]: Não sei, então, talvez… Por exemplo, agora tá o Presidente da CVM pra trocar, não trocar… É outro lugar, é fundamental. E aí, queria assim…
[Presidente Temer]: Você poderia falar com ele.
[Joesley]: Mas é que se eu falar com ele e ele empurra pra você, eu poder dizer: “não, não, não, espera aí”.
[Presidente Temer]: Pode fazer.
[Joesley]: Só isso que eu queria ter esse alinhamento, pra gente não ficar… E pra ele perceber que nós estamos…
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Mas quando eu digo de ir mais firme no Henrique é isso. Falar: Henrique, porra, mas você vai levar? Você vai fazer isso? Vô. Então tá bom. Então que ele venha. Pronto, é só esse alinhamento só que eu queria ter…
[Presidente Temer]: Pode fazer isso.
[Joesley]: E todos, em termos assim mais amplos, assim, genéricos… Quando eu falar um negócio, bom, pelo menos vai, consulta lá, vê. O negócio do BNDES lá, da operação, Geddel me falou que teve todo empenho…
[Presidente Temer]: […] não sei exatamente quem […] e eles queriam que […]
[Joesley]: Não deu de um jeito, mas deu do outro, então, tá, e deu certo.
[Presidente Temer]: […] eu chamei e ela veio me explicar. Daí […] mas nós fizemos de outro jeito e deu certo. Então ela…
[Joesley]: É, o BNDES está bem travado. Esse negócio do BNDES é outra. […] influência […] E Maria Silvia está falando com quem? Parece que tá problemático, viu?
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Então.
[Presidente Temer]: […] eu não sei porque tem dois servidores lá que estão com os bens indisponíveis […] os caras não podem mexer e por isso eles estão com medo de mexer em qualquer coisa. Está com uma verba lá de 150 bilhões. […]
[Joesley]: É isso que eu quero. Se ele escorregar eu digo ó, consulta lá.
[Presidente Temer]: Consulta o presidente.
[Joesley]: Consulta e me fala. Tá bom. E Geddel, você tem visto ele?
[Presidente Temer]: Falei com ele hoje por telefone. Mas ele […]
[Joesley]: Ah, é? E ele? Exatamente. O Lula vai voltar? Como é que vai ser as eleições em 2018?
[Presidente Temer]: Não sei. Está desempenhando como nunca […] está ruim, realmente está ruim, está pesado, está quebrada a economia etc. etc., mas eu acho que quando melhorar bem a economia […].
[Joesley]: Com certeza. Casa que falta pão não tem União. Não é assim? Não tem nenhum remédio melhor do que as coisas bem financeiramente… Todo mundo acalma, todo mundo… E no TSE, como é que está?
[Presidente Temer]: O negócio tá com o Herman Benjamin agora. Um troço meio maluco, não consigo […] primeiro que eu acho que não passa negócio da minha cassação, não passa, porque eles têm uma consciência política ‘porra, mais um presidente’. Primeiro. Segundo, […]. Terceiro, caso tenha a procedência da ação, não perco os direitos políticos e uma procedência tem recurso no Supremo e até aí já terminou o mandato. […]
[Joesley]: Então tá bom. Puta que pariu…
[Presidente Temer]: Os aborrecimentos que você tá tendo também, né?
[Joesley]: É duro, Presidente, pelo seguinte. Igualzinho o senhor aqui também, a gente fica equilibrando os pratos. Nós não temos só isso. Tem a empresa, tem o concorrente, tem os Estados Unidos, tem o dia a dia, tem a empresa, e isso de repente tem que parar por conta de resolver coisa… Eu falo lá pro Procurador, eu digo “Dr. Procurador, o senhor quer me investigar, não tem problema. Mas não fica dando solavanco, não. Não fica… sabe, dando solavanco e fazendo medidas… escancaradas, divulgando pra imprensa… Doutor, é o seguinte, eu posso estar certinho, mas eu vou chegar lá morto de tanto solavanco que o senhor vai me dar, se estiver 100% certo, eu morro. Para com isso.”. Da última vez eu falei: “faz um favor pra mim, me denuncia de alguma coisa”. E ele disse: “Mas não tenho nada pra denunciar”. “Então inventa. Para, porque eu não aguento. Se o senhor ficar desse jeito, o senhor vai me quebrar.”. Puta que pariu. E eu sei que o seguinte… Mas tudo bem. Nós somos do couro grosso, né? Vamos lá.
[Presidente Temer]: Vai passar. Vai passar. Não vai ficar a vida toda assim, né?
[Joesley]: Tem… Como se diz, tendo os pés no chão, também, passar vai passar. Tá faltando, talvez, presidente, quando estava ali falando da anistia, o negócio da autoridade… a gente tinha uma coisa objetiva pra lutar pelo que, né, não? Ó, estamos lutando, trabalhando… a gente tinha que pensar o quê? […] esses meninos eles não têm juízo. Não para. Vão ficar… Pum, pum, pum… Porque um delata um, que delata o outro, que delata um, que delata o outro… Delação com a verdade, não precisa provar nada. E você sabe de um negócio, que é o seguinte, eu até perdoo o… já teve uns quatro, cinco que delatou nós. Coisa estapafúrdia. Aquele Sérgio Machado, nunca vi esse cara na vida. Eu vi o vídeo. Eu fiquei pensando… que fala assim: Fala aí da JBS. Não, não tenho nada. Ah, mas então vai preso. Então não vai embora. Não, não conheço esse povo. Não, lembra… senão não fecho. Eu vi o vídeo, o pobre coitado do Sergio Machado que eu não conheço. Ele comemorando o último capítulo, era o JBS. Então fala o JBS. Aí ele decorou, leu um papelzinho lá, tal, tal, tal… Quando acabou: ah, acabou… Tá no vídeo.
[Presidente Temer]: O Sérgio Machado?
[Joesley]: É. Falando de JBS. Nós nunca passamos perto da Petrobras, da… Transpetro. Nunca vi esse Sérgio Machado na vida, nem ele, nem os filhos dele, nada. Mas o Procurador viu… Fala, senão… Fala. Lembra de alguma coisa. Qualquer coisa. Aí o cara… Ah…
[Presidente Temer]: Se pudesse degravar […]
[Joesley]: Eu fico imaginando, teve um menino, numa dessas operações, que estava preso, ele contando, ele teve que falar alguma coisa nossa. Ele contando, dá dó do cara. Falou: Gente, vocês não sabe. Eu fiquei quinze dias humilhado na cadeia, porque não tinha nada pra falar de vocês. Aí foi, foi, foi… eu falei. Você olha pro cara… De tudo que aconteceu conosco até agora, tem só um tal do PIC, que é procedimento investigativo criminal. Não tem nada, não tem uma prova, não tem um dinheiro meu no exterior que eu depositei, não tem uma… E no dia que aconteceu eu estava nos Estados Unidos. Eu liguei pro meu advogado, o que é isso? Ele também não sabia, é criminalista. Não, o delegado disse que não precisa se preocupar… É um PIC, procedimento Investigativo criminal. Só um procedimento investigativo. Tá bom. Meia hora falou ó, bloqueou as contas. Passou mais meia hora, ó, os bens estão bloqueados. Que coisa que não é problema? Passou mais meia horinha… Estão recolhendo os passaportes. Não pode viajar. Tá louco? Daqui a pouco… Ué? Procedimento investigativo tu é preso. Foi onde corri lá no Procurador, dei um seguro garantia de um bilhão e meio… Pronto, resolveu meu problema. Imagina se eu não consigo fazer um negócio desses? É muito desproporcional. Então, eu acho, Presidente, assim, tem que criar… não sei o que também, alguma agenda, alguma coisa. Eu estava lendo PSDB, né, esse choque aí. Agora estão se mexendo, dizendo: Não, não sei o que… […]
[Presidente Temer]: […] e daí começa a dar solução.
[Joesley]: Não vou tomar mais seu tempo não. Obrigado.
[Presidente Temer]: Bom te ver aí, viu.
[Joesley]: Adorei te ver. Nós estamos combinando o seguinte, ó, primeiro, precisando de alguma coisa a gente se fala.
[Presidente Temer]: Obrigado.
[Joesley]: Segundo, estamos lá nos defendendo. Terceiro, o negócio do Henrique, ótimo. E, enfim, se surgir alguma novidade… e se for urgente, eu…
[Presidente Temer]: […]
[Joesley]: Eu gostei desse jeito aqui. Eu vim dirigindo, nem vim com motorista, eu mesmo dirijo.
[Presidente Temer]: […] Rodrigo se identifica lá.
[Joesley]: Eu tinha combinado de vim com ele.
[Presidente Temer]: Ah, você veio sozinho?
[Joesley]: Eu vim sozinho, mas eu liguei pra ele era dez e meia, até por isso que atrasei cinco minutinhos. Aí deu nove e cinquenta mandei mensagem pra ele. Ele não respondeu, deu dez e cinco eu liguei. Cadê? Puta, eu tô num compromisso aqui, vai lá, fala… Eu passei a placa do carro e fui chegando e eles abriram, nem dei meu nome. Fui chegando, viram a placa do carro, entrei… funcionou superbem. O senhor vai mudar pro outro [Palácio do Alvorada]?
[Presidente Temer]: Eu mudei pro outro e fiquei uma semana lá […] Primeiro, tem lá embaixo, né?
[Joesley]: Conheço, conheço, o térreo.
[Presidente Temer]: Em cima, partindo da parte debaixo, então tem oito, dez dormitórios, tem cozinha, tem massagem […] e eu não consegui dormir […]. Falei: vamos voltar. E ela foi pra Bahia três dias e da Bahia daí não aguentei. […]
[Joesley]: É muito frio, aqueles vidrão… Como é que a Dilma aguentava ficar sozinha lá? Bom, deixa eu ir embora. Já é tarde.
[Presidente Temer]: Mas você tá bem disposto, né, Joesley?
[Joesley]: Tô bem. Deixa eu pegar…
[Presidente Temer]: Você emagreceu.
[Joesley]: Emagreci. Estou me alimentando bem. Comendo mais saudável. Mas não é comendo pouco, não. Tô comendo bastante. Mas coisa mais saudável. Menos doce, menos industrializado…
[Presidente Temer]: […]