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sexta-feira, 19 de julho de 2019

Mídia omite suicídio de empresário e ultrapassa fronteira entre jornalismo e propaganda, por Wilsom Roberto Vieira Ferreira.



Telejornais da mídia corporativa simplesmente omitiram ou relegaram à categoria de "fatos diversos" a notícia mais relevante da última quinta-feira. Uma notícia que à opinião pública avaliar o atual estágio de crise social e econômica: diante do ministro de Minas e Energia e do governador do Estado, um empresário se matou com um tiro na boca em Simpósio do setor em Sergipe. Ato extremo diante da insolvência da sua empresa diante das dívidas do fornecimento de gás natural. Com os terremotos semanais da Vaza Jato, a grande mídia cruzou as fronteiras que separam o jornalismo da propaganda – passou a omitir tudo que, ou esteja fora do script da guerra semiótica criptografada (a usina produtora de crises Bolsonaro/Mídia e geradora de notícias dissonantes), ou que contradiga a atual estratégia de enaltecimento moral do empreendedorismo na massa de desempregados e desalentados: a fé de que é possível a força de trabalho se transmutar em capital com “otimismo”, “determinação” e superação”.

Todos sabemos que as manipulações midiáticas não se limitam apenas ao viés (ou “frame”) pelo qual é mostrada uma notícia, ou pelas peripécias na ilha de edição ao pinçar aquilo que é mais conveniente ao script elaborado pelos dos aquários das redações.
Também, a manipulação ocorre naquilo que não é mostrado, colocado fora da pauta ou, no mínimo, fora da escalada pela qual começa todo telejornal. Tendemos a considerar aquilo que é mais importante pelo destaque que é dado ao telejornal. O que não for pautado, ou não existiu ou é considerado menos relevante.
A omissão, nos principais telejornais de rede da grande mídia, do suicídio do empresário de Sergipe no setor de cerâmica, Sadi Gitz, ocorrido nessa quinta-feira, é um desses casos para deixar uma pulga atrás da orelha. Jornal Nacional da Globo, SBT Brasil e Jornal da Record, Globo News e Record News simplesmente omitiram, ou deixaram em segundo plano como uma tragédia de ordem pessoal. 
Gitz era dono da indústria de cerâmica Escurial, um dos líderes empresarias do Estado que enfrentava dificuldades e atualmente estava em recuperação judicial pelas dívidas resultantes pelo alto preço no fornecimento de Gás natural.
Qual a relevância desse fato? Ele participava na manhã de quinta do “Simpósio de Oportunidades – Novo Cenário do Gás Natural de Sergipe”. Diante do governador do Estado e do Ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque. Antes dar um tiro na sua própria boca, chamou o governador de “mentiroso”. 
Gitz teve o seu acordo de dívida negado pelo governador (*sobre isso, leia a resposta do Secretário do Estado de Comunicação do Governo de Sergipe). Apesar de Sergipe ser o terceiro maior produtor de gás natural do Nordeste, os preços são elevados. A empresa questionava que a política de preços da Sergas (Sergipe Gás) era juridicamente ilegal. Gitz tinha decidido pelo fechamento da empresa, fundamental para o desenvolvimento e geração de empregos do polo industrial de Socorro.

Sadi Gitz (foto: Prefeitura de Aracaju)

O discurso pronto midiático  

Portanto, todos os elementos dessa notícia seriam publicamente relevantes. 
Mas, as empresas jornalísticas têm um discurso pronto para justificar a não veiculação de notícias sobre suicídios – existiria um certo tipo de convenção profissional extraoficial de que suicídios não devem ser noticiados por dois motivos: (a) por ser um ato extremamente íntimo e pessoal; (b) a publicação massiva da notícia pode motivar pessoas predispostas a esse ato extremo. Aquilo que estudiosos chamam de “efeito copycat” ou de imitação.
Mas é claro que são argumentos oportunistas sacados do bolso do colete. Quantas vezes notícias suicídio de pessoas famosas do meio artístico e da indústria do entretenimento foram noticiadas sem o maior pudor ou constrangimento? Desde Kurt Cobain e o ator Robin Williams ou de brasileiros como a atriz Leila Lopes e o sensacionalismo sobre as diversas tentativas de suicídio do cantor Rafael Ilha.
Durante toda quinta-feira, a grande mídia concentrou fogo sobre a aprovação do texto da Reforma da Previdência na Câmara e, no dia seguinte, o otimismo do onipresente “mercado” (que nunca especificam que é o “especulativo financeiro”) pela aprovação e a ida do texto da Reforma para a Plenária.


Bora empreender!...

A questão é que, do outro lado da moeda dessa pauta da Reforma da Previdência, está a turbinagem do otimismo e o enaltecimento moral do empreendedorismo. “Bora empreender, Brasil!”, exortam peças publicitárias do banco Santander. Certamente, notícias de suicídios de empreendedores falidos pela política de preços de insumos não é nada bom para o discurso que diariamente está sendo empurrado goela abaixo dos brasileiros.
Um discurso que tenta mitigar a crise econômica crônica do desemprego e paralisia do setor produtivo e infraestrutura com a fé de que a força de trabalho (desempregada) pode, um dia, magicamente se transformar em capital. Claro, com as maquininhas de crédito/débito vendidas pelos bancos que, no futuro, irão faturar obscenamente com a privatização da Previdência.
Em postagem anterior víamos como os telejornais estão focados na elevação do astral dos brasileiros: de pessoas desempregadas ao relento vendendo café e bolos em frente às estações de metrô noticiados sob o viés da “variedade da gastronomia de rua”, cantando loas ao “empreendedorismo”, à moralização da meteorologia (o sol como “boa notícia”) e a transformação de eventos esportivos das periferias (Copa das Favelas em São Paulo, por exemplo) como metáforas da “superação”, “determinação” e “otimismo” – segundo o jornalismo corporativo, ingredientes necessários para que ocorra a magia da transmutação da força de trabalho em capital – clique aqui.

Guerra semiótica criptografara: um show que nunca termina

A usina de crises criptografadas

A omissão da trágica noticia de Sergipe de tamanha relevância (para um líder de elite empresarial, branco, chegar a esse ato extremo, imagina quantos outros anônimos excluídos e vulneráveis estão, consciente ou inconscientemente, dando cabo da própria vida) é mais uma evidência de que a atual guerra semiótica é bem diversa do que aquela que a esquerda estava acostumada a enfrentar.
Supostamente a Globo vive uma guerra particular com Bolsonaro, com suas diversas ameaças à poderosa emissora. Tudo faz parte de uma estratégia diversionista de propaganda por dissonância e até psicologia reversa.
Por exemplo, o quadro “Isso a Globo não mostra” do Fantástico (o próprio título é uma meta ironia de todos críticos históricos da emissora) repercute as bizarrices retóricas dos membros do governo como fosse uma declaração de guerra – na qual os próprios blogs “de esquerda” caem facilmente, repercutindo como fosse evidência de “crise política” da poderosa Globo contra Bolsonaro. Um grande simulacro, como se a Globo hackeasse a si própria...
“O governo Bolsonaro é uma usina de crises”, afirmou certa vez o presidente da Câmara Rodrigo Maia, que supostamente viveria às turras com o Governo. E, de repente (por disparos como esse), é alçado a condição de racionalidade pela mídia seja corporativa e progressista, num governo de limítrofes e de bobagens diárias.
 Filhos do Bolsonaro tretando no twitter com generais, generais sendo demitidos do governo, Olavo de Carvalho medindo forças com militares e xingando políticos da própria base aliada, a “carta-bomba” de Paulo Portinho compartilhada por Bolsonaro nas redes sociais (clique aqui), Rodrigo Maia ironizando o clã Bolsonaro, o ministro da educação na sua guerra particular contra universidades públicas até chegar ao flagra de tráfico de drogas internacional do militar da aeronáutica pego com 39 quilos de cocaína em avião presidencial na Espanha – cujo “frame” da grande mídia é “militar transportando droga”.

Vaza  Jato: tudo aquilo que é tóxico para a guerra criptografada de Bolsonaro

Aquilo que está fora do script

Tudo isso faz parte de uma guerra semiótica de geração contínua de dissonâncias, guerra criptografada. Podemos achar até arriscada e irresponsável. Mas eles sabem que as ruas estão vazias e as esquerdas desarticuladas e, por isso, têm espaço para essas, por assim dizer, “licenças poéticas”.
TV Globo repercute tudo... menos aquilo que não faz parte do script dessa guerra criptografada: a desconstrução da imagem de super-herói do ministro da Justiça Sérgio Moro por Glenn Greenwald e o site Intercept, e o rompante suicida de um líder empresarial falido.
Essas são também dissonâncias, mas externas ao jogo proposto pelo Governo Bolsonaro, jogado pela grande mídia e ingenuamente (?) pela própria esquerda. Uma, veio da externalidade um jornalista norte-americano. E a outra, de alguém quis pular fora de toda essa loucura e fugir para a externalidade do outro mundo.

Noam Chomsky

Baseando-se nas observações do linguista Noam Chomsky, a estratégia semiótica de Bolsonaro é análoga a de Donald Trump nos EUA: todo dia o Governo alimenta a pauta da mídia com um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro das atenções – clique aqui.
Enquanto isso, o “flanco selvagem” do Governo e Congresso (equipe econômica e bancadas temáticas – Bala, Bíblia, Boi etc.) tocam as medidas neoliberais de interesse da banca financeira, cuja privatização da Previdência é a faceta mais visível. 
Se no plano da retórica e propaganda Bolsonaro governa para o seu núcleo duro fundamentalista de extrema direita (arregimentar as milícias digitais e reais e elevar o moral dos 30% da opinião pública visceralmente anti-PT)), em última instância esse governo só chegou e permanece no poder pelas expectativas dos bancos e especulação financeira. 
O episódio de omissão de um episódio impactante e relevante como o suicídio do empresário Sadi Gitz, só comprova o prognóstico desse humilde blogueiro em postagem anterior: com o impacto das revelações do site Intercept, chegou o momento da última cruzada da grande mídia na defesa dos seus interesses rentistas: a transformação explícita do jornalismo em propaganda política.
Primeiro pela torcida descarada pela reforma da Previdência da parte de repórteres setoristas e analistas políticos ao vivo nas coberturas do Congresso. E, segundo, pela simples omissão de notícias relevantes para a opinião pública. 

No seu texto, vc coloca que o empresário Sadi Gitz teve seu acordo de dívida negado pelo governador. 
Não houve isso. 
A dívida dele não era com o governo do estado, mas com a Sergás, empresa de fornecimento de gás aqui de Sergipe, onde o governo do estado detém apenas 17% na sociedade, sendo a Petrobras e a Mitsui, os dois sócios que mantém as maiores cotas acionarias. 
Nunca o governador Belivaldo Chagas foi sequer procurado pelo empresário para discutir sua dívida, portanto, não teria como negar algo que nunca lhe foi solicitado. 
Sobre a dívida com a Sergas, mesmo que o governador tivesse sido procurado, nada poderia fazer, pois ela possui regras de governança, conselho administrativo e as decisões são tomadas em um colegiado onde o governo do estado é o minoritário. 
Sales Neto
Secretário de Estado da Comunicação Social do governo de Sergipe

Vaza Jato, "aerococa" e a última cruzada da grande mídia, por Wilson Roberto Vieira Ferreira




Tal como os violinistas do Titanic, a grande mídia sabe que terá que tocar a música até o fim – as instituições entraram em acelerado estado deterioração: o “aerococa” da comitiva de Bolsonaro, pego pela polícia espanhola, é apenas um pequeno indício. Diante da audiência com Glenn Greenwald na Câmara (verdadeira aula de jornalismo investigativo que valeu mais do que todos os congressos da Abraji), na qual o jornalista alertou que nenhuma intimidação evitará as publicações do site “Intercept” porque está amparado pela Constituição, a grande mídia sabe que chega rápido ao seu “vanish point” – as máscaras terão que desaparecer e o jornalismo ser rifado. Por isso que, paralelo à bomba relógio que representa a Vaza Jato, a grande imprensa vem se “ajustando” ao que está por vir: a última cruzada – afastamentos, demissões em massa e ameaças nas redações para manter os jornalistas firmes nas rédeas e antolhos.

Paralelo ao terremoto da Vaza Jato detonado pelo site Intercept,liderado pelo jornalista Glenn Greenwald, a grande mídia televisiva parece iniciar um movimento de “ajustes” para enfrentar o que estar por vir. Se não, vejamos:
a) Como é do feitio dos rompantes de Silvio Santos, o SBT promoveu demissões em série no seu Departamento de Jornalismo, cortando jornalistas e âncoras com décadas de casa, além de produtores. Cabendo a um repórter, João Fernandes, apresentar a última edição do SBT Notícias. Para depois saber que também estava no “pacote” de demissões.
Rachel Sherazade, âncora do SBT Brasil, também está no radar depois que o Napoleão de hospício e patrocinador do SBT, Luciano Hang da rede Havan, pediu a cabeça da jornalista quando ela se declarou decepcionada e enganada por Sérgio Moro, diante dos vazamentos do Intercept.
Pouco importa se, ao jogar no fosso o jornalismo da casa, o SBT correr o risco de afugentar anunciantes. Silvio Santos quer mesmo os jabás e anúncios estatais do governo Bolsonaro.
b)  Depois de ancorar por 15 anos o programa de maior audiência da emissora (“Domingo Espetacular”), o premiado jornalista Paulo Henrique Amorim foi colocado no gancho da Record até o RH saber o que fazer com ele – PHA edita um dos blogs de esquerda mais acessados do País e há tempos as milícias digitais bolsonárias ameaçavam e exigiam o seu afastamento.
Motivo da Record? Certamente os mesmos de Sílvio Santos.


Biruta de aeroporto

c) O comentarista da Rádio Jovem Pan, o historiador Marco Antônio Villa, outrora hidrófobo anti-petista obcecado pela agenda do prefeito Haddad (até ser vítima de uma pegadinha (“media prank”) perfeita disparada pelo prefeito – clique aqui), também foi colocado no gancho. Para um mês depois o RH da emissora finalmente descobrir o que fazer com ele: a demissão.  Nos últimos tempos, Villa tornou Bolsonaro o alvo principal das suas críticas, no estilo tão desbocado quanto as desferidas contra o então prefeito de São Paulo.
Em tipos bicudos de crise econômica, anúncios governamentais não podem ser colocados em risco por uma biruta de aeroporto que virou com a mudança dos ventos...
d) Em outra rádio, Band News FM, o inventor da expressão “petralha”, Reinaldo Azevedo, é o novo alvo das ameaças das milícias digitais depois que se associou à divulgação da Vaza Jato da equipe de Greenwald. Está certo que o dono do Grupo Bandeirantes de Comunicação, João Carlos Saad, no “Fórum Band News”, criticou a destruição da economia pela Lava Jato, afundando empresas estratégicas como a Odebrecht.
Porém, vamos ver até onde vai a “fibra crítica” de alguém que também mergulhou de cabeça na euforia anti-PT.


e) Já na poderosa Globo, o clima é de medo no Departamento de Jornalismo com o RH acenando para a reformulação de contratos, renegociações salariais ou simplesmente a demissão. Ameaçando de simples repórteres a grandes medalhões da casa – âncoras, colunistas e comentaristas. Tal como os violonistas do Titanic, a Globo sabe que tem que continuar tocando a música até o fim – defender Moro, Deltan e Lava Jato.
Mas também seus medalhões do jornalismo temem que novos vazamentos que virão poderão sobrar para muitos deles e ferir de morte suas credibilidades no mercado das notícias. Então, nada melhor para a Globo do que manter todos nos antolhos e rédeas através do medo...

O “Jornalismo Snapchat”

Enquanto SBT e Record rifam seu Jornalismo, a Globo tenta manter as aparências tocando o terror nas redações.
E, para o distinto público, apresenta o chamado “Jornalismo Snapchat”, como no “Fantástico” do último domingo: a emissora foi até capaz de colocar no ar uma matéria isenta e tecnicamente correta sobre os últimos vazamentos publicados pelo jornal Folha, em parceria com o Intercept. Tudo efêmero para criar um simulacro de isenção: depois, ao longo da semana, vem ignorando tudo sem dar a mínima continuidade ou repercussão.   
Todos esses movimentos da grande mídia são sintomáticos em relação ao terremoto atual e os futuros tsunamis a ser gerados pela Vaza Jato.
No campo do Governo o rubicão já foi atravessado – já há muito caíram as poucas aparências racionais iluministas, com a aceleração da crise institucional: juízes e deputados derrubam decretos presidenciais, enquanto, em reação, o presidente revoga e reedita decretos rejeitados pelo STF e Congresso. 
Também caiu a ficha para as lideranças no Congresso que Bolsonaro não governa para o País, mas para o “núcleo duro” fundamentalista, com a sua guerra cultural e ideológica particular.
Agora será a vez da grande mídia também chegar a esse vanish pointdas aparências: livrar-se de uma vez do jornalismo e partir de forma franca para a guerra da propaganda política aberta. Como começam a fazer SBT e Record.


A bomba-relógio Glenn Greenwald

Principalmente por terem diante deles a incômoda bomba-relógio que atualmente representa o jornalista norte-americano Glenn Greenwald. Como ficou patente na fala do jornalista na audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara dos Deputados nessa terça-feira.
Em síntese, em sua histórica fala, Greenwald deu três mensagens diretas aos oponentes:
a) A Constituição brasileira lhe garante manter o anonimato da fonte e todo o trabalho jornalístico investigativo do Intercept;
b) Ele, assim como sua família, tem passaporte norte-americano. A qualquer momento poderia pegar o primeiro voo e sair do País. Se ele estivesse realmente participando de uma ação criminosa de hackeamento, não estaria aqui. Estaria fora do Brasil, continuando a publicar os vazamentos;
c) Ele e o Intercept não têm medo das acusações do Governo e dos políticos do PSL. Não passam de estratégias de intimidação e propaganda política. E por um simples motivo: não têm evidências contra ele, enquanto ele possui todas as provas contra os acusadores.  
A fala de Glenn Greenwald (uma verdadeira aula de técnica de jornalismo investigativo que vale mais do que todos os Congressos promovidos pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) expôs publicamente a indigência intelectual e até cognitiva dos poucos deputados do PSL que resolveram confrontá-lo – como o parlamentar Felipe Barros que não entendeu o sentido de expressão “fonte anônima”.
“Se a fonte era anônima, como que você ficou muito tempo para proteger a sua fonte? Não se protege aquilo que não conhece”, disse raivoso o deputado... Virou piada. 

Felipe Barros: Indigência intelectual ou cognitiva?

... Mas os indigentes estão no Poder

O problema é que, apesar da indigência que chega ao nível cognitivo, os indigentes estão no Poder.
E mais problemático é que tanto a esquerda “namastê” quanto o “PT jurídico” acreditam que com todo o escândalo e desmoralização internacional (que ainda se soma à repercussão dos 39 quilos de cocaína encontrados com militar em avião presidencial da FAB na Espanha, em escala para o Japão para encontro do G20 – clique aqui) o castelo de cartas ruirá por si só: finalmente baixará a racionalidade iluminista no STF, salvaguardará a Constituição, libertará Lula que liderará o País na volta aos trilhos do emprego e do desenvolvimento.
E a extrema-direita irá embora, envergonhada, para a lata de lixo da História.
Como afirma o cientista político e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública da UERJ, João Feres Junior, em entrevista na revista Carta Capital (26/06/2019),  “a destruição das instituições desde o golpe de 2016 foi tão grande que não vejo por onde as coisas podem ser consertadas. Quem irá investigar Moro se ele é o chefe da Polícia Federal e um dos pilares do governo Bolsonaro? Estou cético”.                                                            
O governo Bolsonaro tem os seus 30% da opinião pública como o núcleo duro de fundamentalistas para o quais pouco importam fatos ou evidências – afinal, na pós-verdade, tudo é viés, conspiração e narrativa. No dia 30 prometem sair às ruas espumando de ódio, com a visibilidade garantida pela grande mídia televisiva.
Enquanto a esquerda não liderar a ocupação das ruas pelos outros 70%, em protestos contundentes (ou, citando novamente o jornalista Mino Carta, “derramar sangue na calçada”), de nada adiantará toda a fibra investigativa de Glenn Greenwald e de setores da grande mídia que começam a se aliar à investigação.
Moro continua ocultando sua agenda da viagem misteriosa aos EUA. Bolsonaro dá apenas repostas protocolares ao aerococa da FAB. Direitos, garantias sociais, o patrimônio nacional e o próprio futuro de uma geração estão sendo pulverizados. E todos no Poder parecem funcionar no modo automático, pouco se importando.
Por que? Porque sabem que as ruas estão vazias.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Em crise, bolsonarismo apela de novo para fake news, por Outras Mídias


Em nome do direito legítimo à sátira, multiplicam-se nas redes sociais perfis que atribuem, a jornalistas e políticos, falas e textos que nunca produziram. Estratégia de confusão salvará um governo atordoado?

Por Ethel Rudnitzki, em aPública| Infográficos: Ana Karoline Silano
Gobo News, Mônica Bengamo, Ual notícias, Vilma Russeffi. Trocadilhos com o nome de veículos de comunicação, jornalistas e políticos são usados como títulos para usuários de paródia no Twitter. Porém, autodeclaradas “humorísticas” ou “satíricas”, essas contas divulgam notícias falsas entre postagens irônicas e críticas à imprensa. Ao longo de um mês, a Pública analisou 90 dessas contas e descobriu quem são os responsáveis e como se organizam na rede.
Criadas em sua maioria a partir de janeiro de 2018 – das 90 analisadas, apenas 12 foram criadas antes dessa data –, as contas satíricas ganharam visibilidade no início do ano, quando a Folha de S.Paulo (a verdadeira, não a sátira) denunciou a confusão causada pelas paródias na rede, em matéria publicada no dia 5 de janeiro.
Fonte: Agência Pública

Na ocasião, uma postagem de um perfil de sátira da jornalista Mônica Bergamo precisou ser desmentida, pois usuários não haviam compreendido que se tratava de uma paródia. O post dizia o seguinte, imitando o tom sério usado pela jornalista: “O PT entrou com uma liminar pedindo a anulação do projeto do Bolsonaro com Israel para acabar com a seca no Nordeste. ‘A seca no Nordeste é cultural, quase um patrimônio, não deve ser destruída’, disse Gleisi Hoffmann”. Posteriormente, o tweet foi excluído.
A presidente do PT foi a público esclarecer que não disse tal afirmação. A jornalista satirizada também se pronunciou. “Tentam usar a credibilidade de nosso trabalho jornalístico para enganar as pessoas. Dizem ser paródia quando na verdade disseminam infos falsas”, publicou em seu perfil oficial no dia 4 de janeiro.
A confusão se deu porque a conta responsável pela postagem utilizava nome de usuário (@MonicaBengamo, com “N”), foto de perfil e texto muito parecidos aos do Twitter oficial da jornalista Mônica Bergamo. Além disso, a sátira simulava o símbolo de perfil autenticado no Twitter, usando o emoji de um furacão. A matéria da Folha mostrou outras contas que se utilizavam de estratégias parecidas, como a @STFoficianal, que ironizava postagens oficiais do STF, entre outras. Muitas delas se diziam filiadas a um perfil chamado “Central da Imprensa Satírica Brasileira”, ou CIS, que retuitava suas publicações.

A reação das sátiras

Após as denúncias, o Twitter excluiu mais de 20 contas de paródia. Como resposta, os perfis satíricos se uniram em torno da hashtag #SátiraNãoÉFake, criticando o que chamaram de censura do Twitter. Muitas das contas deletadas criaram novos perfis e contas reservas, se precavendo para o caso de novas exclusões.
A hashtag chegou aos Trend Topics (assuntos mais comentados) do Twitter no Brasil entre os dias 4 e 8 de janeiro. Ela foi publicada 19.400 vezes, por 11 mil usuários diferentes, conforme análise enviada pela pesquisadora digital Luiza Bandeira, da organização Atlantic Council, à Pública.
Dessas publicações, 77,4% foram retuítes, ou seja, republicações de postagens – um número um pouco acima da média para a rede, mas sem indício de robotização, segundo Bandeira. Para a pesquisadora, o que ocorreu foi uma coordenação, não uma automação. “Ela [a repercussão da hashtag] é orgânica, mas tem alguém que fala ‘ai vamos subir isso?’ É como um comportamento de fã, tipo um fã clube de um cantor.”
O relatório de Luiza ainda mostra que o tuíte mais compartilhado que usava a #SátiraNãoÉFake foi a do cantor Lobão, artista popular entre eleitores de direita e ultradireita, que tem alavancado muitas hashtags no Twitter. A postagem teve 1.700 retuítes e foi publicada no dia 5 de janeiro, logo após a reportagem da Folha.
O terceiro post com mais interações foi do perfil @SoldadoBolsonaro, uma sátira da conta oficial do presidente, filiada à Central da Imprensa Satírica Brasileira. A publicação pedia que os seguidores “subissem” a hashtag através de retuítes.
O perfil Soldado Bolsonaro pediu aos seus seguidores que impulsionassem a hashtag #SátiraNãoÉFake
Muitos dos perfis de paródia excluídos também criaram perfis no Gab, rede social de ultradireita que permite aos usuários total liberdade de expressão, inclusive para frases racistas, xingamentos a mulheres e feministas, insultos a LGBTs, como mostra reportagem da Pública. Das 90 contas analisadas, 10% possui perfil na plataforma.

Uma central para atacar a imprensa

Entre os perfis excluídos pelo Twitter estava o da CIS, um perfil que, além de publicar suas próprias sátiras, retuitava e divulgava outras contas de paródia. Depois disso, além de abrir conta no Gab – sua única postagem foi: “Twitter é uma rede social de esquerdistas vagabundos” –, a central criou um novo perfil no Twitter com mais publicações diárias e filiados. Desde o dia 25 de janeiro também, há um portal com postagens de outras contas de sátira e uma novidade: “notícias” próprias, dessa vez sem usar do humor. A primeira postagem da nova conta da CIS foi uma imagem listando 28 perfis de sátira que foram deletados da rede social e denunciando o Twitter.
No site, eles divulgam 12 perfis de sátira: Soldado Bolsonaro, Portal Comunista, O Protagonista, UAL notícias, Gaulo Puedes (renomeado para Jair M. Bolsoarmado), Passarinho Opressor, Revista VistoÉra, Motel? Privado, Globol, Barril 247, The Comunista e Vilma Russeffi. O levantamento da Pública mostrou outras 12 contas de paródia que afirmam fazer parte da Central, ou são constantemente retuitadas pelo perfil da CIS. São elas: Brasil Independente, Carcada Livre, Cristiane Loba, CBFN, Estadinho, The Ecomunist, Gerson Camarada, Gobo News, Globobo News, Merdal Pereira, Instituto CIS pesquisa, e IBGtalvezÉ.
A conta do CIS foi excluída no Twitter
Em entrevista à Pública, os responsáveis pelo site afirmaram que são cerca de 35 a 40 perfis de sátira filiados, mas eles não divulgaram exatamente quantas são as contas. Segundo as regras e normas de conduta publicadas no site, não é permitido divulgar a lista de perfis filiados para evitar exclusões em massa. Além disso, qualquer perfil pode se filiar à Central, desde que as contas sigam umas às outras e retuítem seus conteúdos. As contas também são incentivadas a subir hashtags consideradas importantes pelos membros, como por exemplo #LulaLivre2043 – em comemoração à segunda condenação do ex-presidente que adicionou outros 12 anos à sua prisão –, que foi utilizada por pelo menos 10 perfis de sátira. É proibido ainda interagir com hashtags “de esquerda”. “Lembrem-se, não trabalhamos para a esquerda nem mesmo em tom irônico”, ressalta o documento.
Mais do que produzir humor, essas contas têm como missão declarada criticar a imprensa e a esquerda. “Nosso objetivo é informar com agilidade de forma divertida trazendo a público a desinformação desnecessária e tendenciosa divulgada em outras mídias”, explicam no site.

Os responsáveis

A Central é coordenada por Alexandre Fernandes Oliveira, ou Alex Diferoli, como se apresenta no site. O domínio foi registrado em seu nome pela primeira vez no dia 14 de setembro de 2017. O site entrou no ar como um portal no dia 25 de janeiro deste ano.
“No fim de 2018 percebemos que vários perfis sátira de direita começaram a aparecer, e começamos seguir uns aos outros. Decidimos então criar um perfil que nos representasse. Este perfil cresceu e ideias diferentes para melhoria e autoajuda entre os perfis começaram a aparecer. Chegamos a dizer que éramos um “sindicato” e zoamos dizendo que isso era coisa de comunista”, disse Alexandre em entrevista à Pública.
Alexandre, Sandra e Marllon são citados como um dos criadores da CIS
Ele tem apenas 120 seguidores no Twitter e, apesar de ter conta desde 2009, só começou a postar ativamente no dia 10 de janeiro, poucos dias depois da exclusão das contas de sátira da plataforma. A partir de então ele replica manchetes de jornais e retuíta postagens de perfis de sátira diariamente. No entanto, um outro perfil vinculado a ele, @arquivoxandy, publica quase diariamente um relatório de pessoas que visitaram seu perfil, intercalando com publicações anti-PT e pró-Bolsonaro. Alexandre também assina alguns dos textos no portal da CIS.
São citados como outros criadores da CIS, Marllon Dionizio, conhecido nas redes sociais como Dr. Marllão, e Sandra Lima. Cada um deles administra seu perfil pessoal e possui uma conta de sátira, embora não digam quais são essas contas. Outros perfis pertencem a pessoas anônimas.
“Por que eu amo meu Brasil e quero que ele seja o melhor lugar do mundo pra viver!! Sou Bolsonaro com muito orgulho, cada dia mais!!” Assim Sandra se apresenta em seu Twitter, com 7 mil seguidores. Em seu Instagram, ela divulga eventos em boates de São Paulo.
Recém-graduado em direito, Marllon é fundador da Aliança Conservadora Estratégica (Alice), um “movimento que visa unir e organizar pessoas com o pensamento conservador, além de propagar a defesa e divulgação dos interesses superiores da nação”. No Twitter, o perfil criado em novembro de 2018 possui apenas 455 seguidores e segue 16 pessoas. Ele possui um canal de YouTube sem muita repercussão – apenas 918 inscritos –, onde publica vídeos sobre política e de apoio a Jair Bolsonaro.
No dia 10 de janeiro, Marllon publicou em seu canal uma entrevista com os administradores de algumas contas paródia excluídas pelo Twitter. Sem dizerem os nomes ou mostrar o rosto, os entrevistados afirmam ser independentes e que se conheceram através da rede. Mas o principal tema gira em torno do repúdio à imprensa.
“A intenção [da criação de contas de paródia] é justamente tirar sarro da grande mídia. Eles acham que a gente é bobo, fazem toda a porcaria que fazem e ainda querem que a gente pague por isso. É o que eu sempre digo, a diferença entre as histórias que a gente inventa e as que eles inventam é que pelo menos as nossas histórias são engraçadas”, diz o responsável pelo perfil GI, paródia do G1. “O que eles não aceitam é que eles fazem a fake news e a gente faz a gozação em cima da fake news deles. E isso eles não toleram. Eles se sentem perseguidos por nosso trabalho porque de uma certa maneira a gente expõe de uma forma engraçada a porcalhada de imprensa que eles estão fazendo ultimamente”, fala a administradora do perfil “O protagonista”. “Realmente tenho que concordar com vocês, o nível do jornalismo brasileiro já foi melhor”, responde na entrevista Marllon.
Alexandre admite que as sátiras geram confusão nos leitores, mas não acredita que seja responsabilidade delas. “O pessoal confundia a gente com fake news. Tínhamos nomes, biografia e logo diferente dos perfis oficiais, sem ter selo de verificação. Portanto, não podem imputar a nós a propagação de fake news se houve falta de censo crítico, e em alguns casos até de leitura, por parte dos demais usuários”, afirma.
Procurado, o Twitter não especificou quais foram as regras desrespeitadas pelos perfis de paródia deletados “devido a questões de privacidade e segurança”. Segundo sua política específica para contas de paródia, deve-se descrever claramente que se trata de uma conta satírica.
A plataforma diz não monitorar ativamente o conteúdo publicado pelas contas e só exclui caso haja denúncia de violação dos Termos de Uso. Para denunciar perfis de paródia, deve-se registrar ocorrência de falsa identidade ou marca registrada. “No intuito de proteger a experiência e a segurança das pessoas que utilizam a plataforma, o Twitter tem que estabelecer os conteúdos e comportamentos que permitimos. Quando tomamos conhecimento de potenciais violações a essas regras, como conduta de spam ou evasão de suspensão, fazemos uma análise e adotamos as medidas cabíveis de acordo com nossas regras e termos de serviço”, disse a plataforma em nota enviada à Pública.
Os perfis de paródia, contudo, alegam não desrespeitar os termos de uso do Twitter e consideram as exclusões um ato de censura. “Todas as contas foram orientadas a deixar bem claro essa informação de que somos perfil de paródia/sátira na bio, não foram descumpridas as regras e as alterações solicitadas pelo Twitter foram prontamente atendidas”, afirma Sandra.
Encabeçadas pela CIS, as paródias criaram uma petição online direcionada ao Superior Tribunal de Justiça. Eles pedem que o órgão determine a reintegração imediata dos perfis excluídos e a punição do Twitter, sob o argumento de que a plataforma agiu contra o princípio da liberdade de expressão garantido pelo artigo 5º da Constituição Federal, ao excluir apenas perfis ligados à direita.
Segundo os perfis que tiveram contas deletadas, o Twitter não deu explicações sobre o motivo das exclusões. “A exclusão ocorreu por conta de denúncias oriundas de perfis oficiais, jornalistas e políticos, e também de militantes de esquerda que se uniram em torno de listas que divulgamos com os perfis para serem seguidos”, defende Sandra. “Não descartamos a ideia de mover um processo, pois nos sentimos tolhidos em nossa liberdade de expressão.”

A causa anti-imprensa

Além da articulação contra a exclusão de contas do Twitter através da hashtag #SátiraNãoÉFake, as contas de paródia também se organizaram em campanhas anti-imprensa nas redes sociais. Somente em janeiro, duas hashtags críticas a jornais brasileiros chegaram aos Trending Topics do Twitter no Brasil – #GloboLixo e #EstadãoFakeNews. Ambas surgiram após os respectivos veículos publicarem reportagens que denunciavam aliados de Bolsonaro.
A #EstadãoFakeNews teve seu ápice no dia 21 de janeiro, em resposta a uma matéria do jornal que dizia que os eleitores de Bolsonaro haviam se desorganizado na rede depois da vitória nas eleições. Ofendidos, os apoiadores, e o próprio presidente, subiram essa hashtag, totalizando 247 mil menções.
Jair Bolsonaro retuitou o post do perfil Senso Incomum
De maneira parecida, #GloboLixo chegou a figurar no primeiro lugar entre os assuntos mais comentados na rede brasileira no dia 22 de janeiro, após o jornal O Globo ter publicado reportagem que traçava relação entre Flávio Bolsonaro e milicianos no Rio de Janeiro. Foram 44 mil menções à hashtag. Entre as postagens mais republicadas estão duas dele, novamente: o cantor Lobão.
Com menos visibilidade, os perfis de sátira se envolveram nesse movimento. “Quando gostamos de uma hashtag e sentimos que seja uma causa que também é nossa, participamos das ações, sim”, afirmou Sandra Lima à Pública, se referindo às hashtags #EstadãoFakeNews e #GloboLixo.
“Quando você vê as tags #EstadaoFakeNews e #GloboLixo liderando os trends do Twitter, você percebe que está do lado certo da força!”, publicou o perfil Gerson Camarada, sátira do jornalista Gerson Camarotti. A conta foi suspensa pelo Twitter posteriormente.

Sátiras amigas de Bolsonaro

A proximidade do presidente com as sátiras não se restringe ao discurso. Em levantamento, a Pública analisou 90 contas de paródia no Twitter e concluiu que o perfil oficial de Jair Bolsonaro foi o mais seguido por elas – 82% das contas analisadas o seguiam. Entre as filiadas à CIS, todas, exceto pela conta @PassarinhoOpressor, seguem o presidente.
Em segundo lugar ficou o @Isentões, que se descreve como “a mais importante conta da plataforma bolsonarista de comunicação no Twitter”. No dia 5 de fevereiro, a conta foi suspensa do Twitter, mas os responsáveis guardavam um perfil reserva que hoje está ativo e com mais de 240 mil seguidores.
Os filhos de Bolsonaro também estão entre os mais seguidos pelas contas satíricas. Carlos Bolsonaro ficou em 3º lugar, Eduardo em 6º e Flávio em 9º. Nos “top 10” também estão personalidades ligadas à direita, como o humorista Danilo Gentili, em 5º lugar, seguido por 64% das contas; o músico Lobão, em 8º lugar, com 60% das contas como seguidores.
E eles seguem de volta. Pelo menos seis, entre os seletos 320 perfis seguidos por Jair Bolsonaro, são de sátira à imprensa. Até a data de publicação desta reportagem, ele seguia a Falha de São Paulo, o Blog do Blabla, The Comunista, Barril 247, G1 (@cor0te), G1 (@fatosesquerda).
O presidente costuma replicar os conteúdos satíricos. No dia 5 de janeiro ele retuitou postagem do The Comunista que dizia “Bolsonaro começa o dia tornando ilegal qualquer coisa vinculada ao arco-íris, ursinhos carinhosos, ódio do bem e LGBT”. Ele também mostrou solidariedade às sátiras excluídas pelo Twitter, retuitando postagem do perfil Joaquin Teixeira que ironizava a situação. “Vamos dar boas vindas aos temidos perfis de paródia. Entraram no seleto grupo que ‘ameaça a democracia’ ao lado da tia da igreja, do tiozão do churrasco, zap-zap, piadas e feique news”, dizia o post publicado no dia 7 de janeiro.

Para especialistas, paródias confundem

Além da confusão causada pela semelhança entre os nomes de usuário e fotos dos perfis, alguns perfis de paródia misturam informações reais ou opiniões editorializadas em meio às sátiras. A própria CIS publica em seu site matérias e artigos de opinião sem ironia. A primeira matéria foi publicada no dia 30 de janeiro e mostrava as porcentagens de seguidores robôs de alguns perfis famosos no Twitter, obtidos através do aplicativo Twitter Audit. A matéria mostrava que os perfis considerados de esquerda tinham maior porcentagem de seguidores considerados robôs do que as páginas de direita, colocando essas páginas sob suspeita. Contudo, o Twitter Audit não é uma maneira precisa de identificar seguidores bots, especialmente quando as contas monitoradas possuem muitos seguidores, pois ele trabalha com uma amostragem de até 5 mil seguidores, não analisando todos os perfis.
A matéria foi divulgada por muitas das contas de sátira relacionadas à CIS e teve grande repercussão, sendo curtida pela conta oficial de Jair Bolsonaro.
No dia 1º de fevereiro, o portal publicou outro texto, dessa vez de opinião. Tratava-se de um apoio à ministra Damares Alves, alvo de polêmicas na internet. O texto defende que a ministra está sofrendo perseguição por militantes da esquerda e pela mídia, e foi assinado por Sandra Lima, cofundadora da CIS.
“O intuito principal é fazer comédia através das paródias, mas eventualmente podemos, sim, propagar notícias reais. Em alguns casos, os usuários acham que até os perfis oficiais [de notícia] são paródia devido a algumas notícias sem credibilidade e importância”, explica o fundador da CIS.
As sátiras estão incluídas dentro do espectro de desinformação desenvolvido pela pesquisadora americana Claire Wardle, do First Draft – organização que discute a poluição informacional digital. Para ela, as paródias podem ser enganosas de duas maneiras. A primeira é quando o conteúdo caminha pelas redes e é retirado de contexto, ele pode confundir as pessoas. A segunda é quando pessoas usam a sátira para intencionalmente disfarçar uma informação enganosa. “Chamar um conteúdo de sátira pode ser usado como tática para confundir o leitor e também os jornalistas checadores. Afinal, não é possível checar algo que não se diz um fato.”
Algumas características indicam se o conteúdo se trata de uma sátira verdadeira ou se apenas está sendo rotulado de sátira como estratégia. Uma delas é identificar se beneficia apenas uma pessoa ou grupo. “Verdadeiras sátiras têm como objetivo fazer piadas, tirar sarro, principalmente sobre política. Mas, se você é um humorista, você vai querer brincar com quem está na direita e também na esquerda. Você vai querer fazer humor em tudo que trouxer audiência e conteúdo. Então, se você se deparar com uma sátira que é apenas boa para um lado ou para certo assunto, é problemático.”
Mesmo em sites que não têm a intenção de propagar desinformação, a paródia pode ser mal compreendida. Segundo estudo da Universidade Estadual do Colorado, nos EUA, menos da metade das pessoas (46,5%) consegue identificar corretamente uma notícia satírica. A maioria acredita tratar-se de uma notícia séria, ou uma notícia falsa, sem entender a ironia. “As pessoas geralmente têm sentimentos muito fortes e ruins em relação à política, e a sátira torna isso mais leve e atraente”, explica Chianna Schoentaler, uma das pesquisadoras. “Mas, com a evolução das tecnologias sociais e o surgimento das fake news, as sátiras também viraram uma forma de confundir.”
“Para mim, sátiras podem fazer até alguém ganhar uma eleição. Uma campanha inteira pode ser feita em cima de sátiras, manipulando as pessoas. Afinal, pode-se dizer qualquer coisa ironicamente, dando margem para a interpretação literal”, afirma Michelle Bedard, coautora da pesquisa.
A possibilidade de fazer sátiras online ou offline é protegida por lei através da liberdade de expressão. “A proteção à liberdade de expressão não anula a proteção à honra das pessoas, então eu posso falar o que eu quiser, mas eu sou responsável pelo que eu disser ainda que seja humor”, explica o professor Diogo Rais, professor de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A situação se agrava se o perfil se passar por outra pessoa, pois o dano passa a ser intencional. “Tanto o perfil de sátira quanto o perfil fake trata-se de mentiras, mas o primeiro é uma mentira sem a ideia de enganar. O que define uma fake news é um elemento que contém uma falsidade que é proposital e que causa dano a alguém. Só nesse caso o direito deve agir”, defende Rais.
Para ele, contudo, existem paródias com a intenção de enganar. “Usar a mesma marca pode ser uma evidência de indução ao erro”, exemplifica ele.
Ainda assim, deletar os conteúdos nem sempre é a melhor opção, segundo o especialista em direito digital da Artigo 19, Paulo José Lara. “Essas derrubadas instantâneas e sumárias de conteúdo não têm o efeito que se desejaria, que é a diminuição da busca pela desinformação. Pelo contrário, elas apontaram por uma coesão muito maior desses grupos e de uma intensificação do ataque à mídia.” Para Rais, a solução também pode vir dos usuários. “Na internet nós somos curadores do conteúdo, então também temos um papel de responsabilidade”, conclui.
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Marketing pós-humano e pós-verdade na ascensão dos influenciadores virtuais, por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Lentamente uma nova raça de avatares está se infiltrando nos “feeds” das redes sociais: são os influenciadores virtuais – supermodelos lindíssimas, como vidas cheias de música e ativismo social, promovendo marcas famosas de moda. Mas por trás estão algoritmos probabilísticos combinando o trabalho de fotógrafos, computação gráfica e inteligência artificial. Faz parte da chamada “Revolução Industrial 4.0” que nada mais faz do que estender para o século XXI o espírito do velho capitalismo: redução de custos e enxugamento da cadeia produtiva, aumento de lucros e incremento do controle social e político.  Mas para os seguidores dessa nova geração do Marketing de Influência, pouco importa se os influenciadores são reais ou virtuais – se artistas, celebridades e famosos sempre foram simulacros, então chega de intermediários! Assim como as fake news, o marketing pós-humano está criando a pós-verdade: o mix de autodistanciamento irônico e niilismo. Pauta sugerida pela nossa leitora Alana Pinheiro.



Foi por volta de 1990. O primeiro contato desse humilde blogueiro com um personal computer cujo sistema operacional era o Windows 3.1. Era uma demonstração para professores da então Faculdade Anhembi Morumbi, hoje universidade. 
Aferrado à minha máquina de escrever “Olivetti Lettera 32”, olhava com desdém aquilo que considerava ser um modismo passageiro. 
Para além da minha absoluta incapacidade de sincronizar o movimento do mouse na mesa com a setinha na tela, achava que havia algo de desapontador naquela invenção. Ao ver os ícones de telefone, bloco de notas, um arquivo com suas gavetas estilizadas, uma caixa postal, uma folha de calendário, uma paleta de tintas e um editor de texto com uma caneta tinteiro sobre a letra “A” pensei: ao contrário da prensa de Gutenberg ou do aparelho de TV, que criaram novas mídias, o computador nada mais fazia do que virtualizar mídias já existentes.
Minha primeira impressão do computador era a de uma tecnologia que parasitava mídias do mundo real: nada criava, apenas digitalizava para rotinizar suas funções principais. A passagem do analógico para o digital não inova estética ou culturalmente. Apenas hibridiza as mídias anteriores inserido as velhas mídias em plataformas digitais. Claro, isso puxaria uma longa discussão sobre a diferença (ou não) entre mídia e plataforma. 
Portanto, a maior motivação sempre foi econômica: velocidade, diminuição de custos, automatização, monitoramento e controle de atividades anteriormente feita por humanos, redução e enxugamento das cadeias produtivas e assim por diante.

Alguns ícones do Windows 3.1

Nenhuma novidade. Nada mais do que o capitalismo sempre fez desde a primeira Revolução Industrial quando as máquinas a vapor substituíram a manufatura, poupando tempo e custos – e, principalmente, controlando o ritmo da exploração do trabalho.
Hoje entramos na chamada Revolução Industrial 4.0 (RI 4.0): nanotecnologia, inteligência artificial, biotecnologia, neurotecnologia – a primeira no século XVIII-XIX marcada pela máquina a vapor; a segunda pela eletricidade e a manufatura em massa; a terceira, nos meados do século XX com a chegada da eletrônica, telecomunicações e informática.
Enquanto os computadores com aquele velho Windows 3.1. continham algoritmos determinísticos (sequência finita de ações executáveis que resolve problemas com uma decisão exata a cada passo), na RI 4.0 os algoritmos dominantes são não-determinísticos (deduz os melhores passos através de estimativas heurísticas).
Da automação dos serviços repetitivos e mecânicos (robôs em linhas de montagem, p.ex.), passamos na RI 4.0 a automatizar decisões humanas (decisões de negociações no mercado financeiro, automatizadas por algoritmos de alta frequência), a língua natural (personagens de inteligência artificial em aplicativos como Bia, Alexa, Siri etc.) e algoritmos de mineração de dados dos usuários em redes sociais para fins mercadológicos e, principalmente políticos, como comprovaram as vitórias de Trump nos EUA e Bolsonaro, no Brasil.
Podemos estar na RI 4.0, mas o velho espírito do capitalismo permanece: redução de custos, aumento dos lucros e controle social através do medo e chantagem da automatização e desemprego para erodir o sindicalismo e direitos sociais e trabalhistas.

As supermodelos virtuais Shudu e Lili Miquela

E a moderna e descolada rede social de compartilhamento de fotos e vídeos Instagram nos apresenta mais uma evidência desse persistente espírito do capitalismo: o fascinante mundo das celebridades que não existem na vida real. Uma nova raça de criações geradas por computador que vem se transformando numa plataforma de influenciadores digitais virtuais lucrativa e poderosa.
Influenciador digital é um personagem popular na rede social com um público massivo que acompanha suas postagens. Tornam-se líderes de opinião de tendências e costumes, procurados por grandes empresas para criar tendências e divulgar produtos em áreas de games, fitness, moda e beleza, culinária etc. São modelos, youtubers, atores, comediantes, famosos, celebridades ou subcelebridades.
No início desse ano a marca de maquiagens Fenty Beauty postou uma imagem da modelo chamada Shudu usando um batom laranja. A foto viralizou em 2018, enquanto Shudu já tinha mais de 110 mil seguidores. Shudu ainda “colaborou” com grandes marcas de moda como Oscar De La Renta e a companhia nova-iorquina de langerie The Great Eros.
Shodu é uma modelo negra, incrivelmente linda e perfeita. Mas, não é de carne e osso – trata-se de uma criação de computação gráfica do fotógrafo britânico Cameron-James Wilson – “uma celebração virtual da beleza da mulher negra”, como justifica o criador. Shodu “interage” com seus seguidores, muitas vezes enviando mensagens privadas.


Avatares estão lentamente se infiltrando nas feeds do Instagram desde 2016, quando uma pop-star brasileira-americana chamada Miquela Sousa (“Lili Miquela”) postou sua primeira foto. Ativista, apoia causas sociais como Black Lives Matter e uma organização chamada Black Girls Code. Além de ter lançado um single chamado “Not Mine”, um dos mais tocados no serviço de streaming Spotfy. Posa para marcas como Chanel e Prada.
O caso Lili Miquela é até mais sofisticado, pois cria também uma narrativa: ela tem um rival virtual chamada Bermuda, outra influenciadora digital fake que supostamente teria hackeado a conta de Lili Miquela. Vítima de uma influencer invejosa que, somado a fotos de Miquela supostamente participando do Festival de Música Coachella, cria para os seguidores a imagem de uma vida intensa e cheia de emoções.
Supostamente Lili Miquela conta com agente e um empresário. Mas por trás dela está a Brud, grupo sediado em Los Angeles que oferece soluções em robótica, inteligência artificial com aplicações para empresas de mídia.

Rivalidade virtual: Bermuda (esq.) versus Lili Miquela

O Marketing de influência pós-humano

O chamado “marketing de influência” é focado em indivíduos que exerçam liderança sobre potenciais compradores de marcas de produtos ou serviços porque estabelecem uma relação de confiança legítima – conseguem criar empatia e identificação com seus seguidores por se tornarem modelos de admiração.
Porém, isso desaparece com os influenciadores virtuais – parece se impor uma relação cínica, um estranho mix de realismo e niilismo na relação dos seguidores com os avatares. 
Por exemplo, a resposta da modelo britânica Fatou Suri ao descobrir que supermodel Shodu não era real foi de “estranheza e decepção”, mas "Como modelo, minhas fotos são melhoradas no computador. Às vezes, minha aparência chegava a mudar completamente; então é algo parecido", diz ela. "Obviamente, Shudu é muito perfeita. Fico um pouco feliz em saber que ela não é real!".
Se as celebridades humanas na cultura popular sempre foram virtuais (nada espontâneas e guiadas por roteiros dirigidos por agentes e empresários), então chega de intermediários! Nada mais prático do que criar uma nova raça de influenciadores verdadeiramente virtuais, modeladas por algoritmos probabilísticos – aqueles que “aprendem” quanto mais interagem com humanos.
"Fiquei fascinado por Miquela não apenas por sua estética artística, mas por seu ativismo", diz ele. "Miquela é Miquela, não importa se ela é real ou virtual. As pessoas tentaram desacreditá-la devido à maneira como ela se apresenta, mas elas estão perdendo o foco. Apesar de ganhar muitos seguidores, Miq continua sendo alguém que se preocupa com eles", defende o fervoroso fã de Lili Miquela, Anthony Reys, artista de 18 anos de Michigan.
Obviamente, o fator humano é eliminado no cálculo dos riscos do negócio – a equipe criadora da Inteligência artificial tem total controle do conteúdo. Assim como no século XVIII a máquina a vapor deu ao Capital total controle da produção, até então nas mãos dos artesãos.


Nada de posts comprometedores do influenciador, principalmente de posts passados, antes de se engajar em alguma marca – o risco “seu passado o condena” está erradicado! O influenciador está sob o controle das linhas de comandos executáveis.
Sem falar no enxugamento dos custos e, muito além, o recrudescimento do controle social sob a ameaça da obsolescência humana – depois da obsolescência dos influenciadores humanos, quem sabe no futuro, roteiristas, criadores, artistas e marqueteiros serão também eliminados dessa cadeia produtiva dominada pela inteligência artificial.

Hiper-real e pós-verdade

O caráter hiper-real e pós-humano é intrigante: se as tradicionais celebridades humanas já eram simulacros ou simulações que emulavam personagens ficcionais (fotos pesadamente editadas, filtros e Photoshop), hoje a IA cria mais uma camada de simulação sobre as camadas de simulacros anteriores – é a hiper-realidade: cópia de uma cópia que, por sua vez, era outra cópia...


Portanto, nesse cenário qual a importância da autenticidade de um influenciador virtual? 
O fato é que o pós-humano parece complementar o fenômeno da pós-verdade. Se tudo é fake, simulado ou retocado, acaba a distinção entre verdade e mentira, ficção e realidade. Entramos na era em que cada influenciador virtual cria sua própria realidade paralela, uma storytelling na qual os seguidores embarcam com muito autodistanciamento irônico – cinismo e niilismo mesclados.
Quem se importa? Tentar especular se Lili Miquela ou Shudu são modelos reais ou virtuais é um mero álibi para viralizar ainda mais o negócio. No fundo, continua o movimento de autoabdicação humana, iniciado pelas máquinas a vapor do século XVIII. E agora potencializado pelos algoritmos das IAs. 
Nosso futuro é a obsolescência programada.
Com informações da BBC Brasil, Influencer.uk e Inverse.com