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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Geopolítica: a Eurásia renasce — e quer ser alternativa, por Pepe Escobar.

on 16/09/2018Categorias: Destaques, Geopolítica, Mundo, Uncategorized
Ferrovias. Energia. Resistência à pressão militar dos EUA. Substituição gradual do dólar. Fórum de Vladivostok consolida parceria estratégica entre China e Rússia, no instante em que Ocidente permanece em crise 
Por Pepe Escobar, no Asian Times 
Xi Jinping e Vladimir Putin foram vistos numa joint venture culinária. Panquecas com caviar (blin, em russo), empurrados com um shot de vodca. Aconteceu há dias, no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok. É metáfora desenhada (e comestível) para selar a sempre crescente ‘parceria estratégica abrangente russo-chinesa’. Assista:
Já há alguns anos, o Fórum de Vladivostok vem oferecendo um mapa inigualável do caminho, a quem se interesse por rastrear o progresso da integração da Eurásia.
Ano passado, às margens do Fórum, Moscou e Seul fizeram o lançamento bombástico de uma plataforma comercial trilateral, a qual, crucialmente, integrou Pyongyang, girando em torno de um corredor de conectividade de toda a península coreana com o Extremo Oriente da Rússia.
Tópicos de discussão em mesa redonda, esse ano, incluíram a integração do Extremo Oriente da Rússia em conexões logísticas; mais uma vez, a conexão entre Rússia e as Coreias – com o objetivo de construir uma Ferrovia Trans-Coreana conectada à Trans-Siberiana e um ramo do “Oleogasodutostão” que se conecta com a Coreia do Sul via China. Outros tópicos foram a parceria Rússia-Japão em termos de aumentar o trânsito eurasiano, centrado na conexão da Trans-Siberiana com a Linha Principal [ing. Baikal-Amur Mainline (BAM)], já ampliado para uma ferrovia projetada até a ilha de Sakhalin, e dali direto até a ilha de Hokkaido.
O futuro: de Tóquio a Londres, direto, por trem.
E há também a integração de Rússia e Associação de Nações do Sudeste Asiático, ANSA [ing. ASEAN] – ampliando projetos atuais de infraestrutura, agrícolas e de construção de navios, para energia, setor agroindustrial e de florestas, como delineado por Ivan Polyakov, presidente do Conselho de Negócios Rússia-ANSA.
Essencialmente aí se trata de construir simultaneamente um eixo crescente Oriente-Ocidente e também um eixo Norte-Sul. Rússia, China, Japão, as Coreias e o Vietnã, avançam, lentamente, mas com firmeza, rumo a sólida integração geoeconômica.
A mesa de discussão talvez mais fascinante em Vladivostok foi Crossroads on the Silk Road  [Cruzamentos na Rota da Seda], que reuniu, dentre outros, Sergey Gorkov, vice-ministro de Desenvolvimento Econômico da Rússia; Wang Yilin, presidente da gigante chinesa do petróleoCNPC, e Zhou Xiaochun, vice-presidente do grupo de diretores do essencial Boao Forum.
O ímpeto de Moscou é unir as Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) com a União Econômica Eurasiana (UEE). Mas o objetivo geoeconômico final é ainda mais ambicioso: uma “parceria Eurasiana Expandida”, na qual a ICE converge na direção da UEE, da Organização de Cooperação de Xangai, OCX, e ANSA. No coração desse gigante está a parceria estratégica Rússia-China.
O mapa do caminho adiante, é claro, envolve tocar as cordas certas de um acorde complexo de equilíbrio entre interesses políticos e práticas gerenciais em múltiplos projetos Oriente-Ocidente. A simbiose cultural tem de entrar nesse quadro. A parceria Rússia-China tende cada vez mais a pensar em termos de Go (weiqi, o jogo), visão partilhada, baseada em princípios estratégicos universais.
Outra mesa de discussão chave em Vladivostok reuniu Fyodor Lukyanov, diretor de pesquisa no sempre essencial Clube de Discussão Valdai, e Lanxin Xiang, diretor do Centro de Estudos de Um Cinturão, Uma Estrada, no Instituto Nacional Chinês para Colaboração Internacional da OCX. A discussão aí se centrou na interação geopolítica asiática, envolvendo Rússia, China e Índia, países-chaves dos (B)RICS, e em como a Rússia pode capitalizar sobre essa interação, ao mesmo tempo em que navega pelo pântano da guerra comercial de sanções cada vez mais violentas.
Toda a energia vem da Sibéria
Tudo volta sempre ao básico e à parceria estratégica Rússia-China sempre em evolução. Xi e Putin autoenvolveram-se nela até o âmago. Xi define a parceria como o melhor mecanismo para que “se neutralizem conjuntamente os riscos e desafios externos”. Para Putin, “nossas relações são cruciais, não só para nossos países, mas também para o mundo.” É a primeira vez que um líder chinês participa nas discussões de Vladivostok.
A China está progressivamente se interconectando com o Extremo Oriente da Rússia. Corredores internacionais de transporte – Primorye 1 e Primorye 2 – darão novo impulso ao trânsito de cargas entre Vladivostok e o nordeste da China. A empresa Gazprom está próxima de completar o trecho russo do gigantesco gasoduto “Energia [poder] da Sibéria” até a China, em parceria com a CNPC. Mais de 2 mil quilômetros de dutos já foram instalados de Yakutia até a fronteira russo-chinesa. O gasoduto Energia [poder] da Sibéria começará a operar em dezembro de 2019.
Segundo o Fundo Russo de Investimento Direto, FRID [ing. Russian Direct Investment Fund (RDIF)], a parceria está avaliando 73 projetos de investimento no valor total de mais de $100 bilhões. A Comissão Comercial Russo-Chinesa de Aconselhamento faz a supervisão, incluindo mais de 150 executivos das maiores empresas russas e chinesas. O CEO do FRID, Kirill Dmitriev, está convencido de que “haverá transações particularmente promissoras nos acordos bilaterais que serão resultado do relacionamento produtivo entre Rússia e China.”
Em Vladivostok, Putin e Xi mais uma vez concordaram em manter crescente comércio bilateral em yuan e rublos, deixando de lado o EUA-dólar – já efeito da decisão tomada por ambos em junho, de aumentar o número de contratos denominados em yuan-rublo. Paralelamente, o ministro do Desenvolvimento Econômico Maksim Oreshkin aconselhou os russos a vender EUA-dólares e comprar rublos.
Moscou espera apreciação do rublo para cerca de 64 por EUA-dólar, no próximo ano. Atualmente é comercializado em cerca de 70 rublos /dólar, puxado para baixo pelas sanções EUA e pelo estrago que o dólar-arma-política está causando no Brasil, Índia e África do Sul, e também em estados aspirantes a ser (B)RICS, chamados “BRICS Plus“, como Turquia e Indonésia.
Putin e Xi mais uma vez reafirmaram que continuarão a trabalhar coordenadamente em seu mapa do caminho intercoreano baseado em um “duplo esfriamento” – a Coreia do Norte suspende os testes nucleares e lançamentos de mísseis balísticos, e os EUA suspendem os exercícios militares com Seul.
Mas o que parece estar realmente capturando a imaginação das duas Coreias é a ferrovia Transcoreana. Kim Chang-sik, presidente do desenvolvimento de ferrovias em Pyongyang disse: “Desenvolveremos ainda mais esse projeto a partir de negociações entre Rússia, Coreia do Norte e Coreia do Sul, de modo que os proprietários do projeto serão os países da Península Coreana.”
Isso se conecta ao que disse o presidente sul-coreano Moon Jae-in há apenas três meses: “Tão logo a linha principal Trans-Coreana esteja construída, poderá ser conectada à Ferrovia Trans-Siberiana. Com isso, será possível entregar produtos da Coreia do Sul à Europa, o que será economicamente benéfico não só para as Coreias, do Sul e do Norte, mas também para a Rússia.”
Compreenda a matryoshka
Ao contrário do que reza a histeria ocidental mal informada ou manipulada, os jogos de guerra em Vostok, na Trans-Baikal do Extremo Oriente da Rússia, incluindo 3 mil soldados chineses, são apenas uma parte da muito mais profunda complexa parceria estratégica Rússia-China. É feito uma matryoshka: o jogo de guerra é uma boneca dentro do jogo geoeconômico.
Em ‘China and Rússia: The New Rapprochement’ [China e Rússia: a nova reaproximação], Alexander Lukin, da Escola Superior de Economia da Universidade Nacional em Moscou, expõe em detalhes todo o mapa do caminho; a ampla parceria ainda em construção para toda a Eurásia, é parte de um conceito muito mais amplo e abrangente de “Eurásia Expandida” [ing. “Greater Eurasia”]. Esse é o âmago da entente Rússia-China, levando a o que o cientista político Sergey Karaganov chamou de “um espaço comum para cooperação econômica, logística e de informação, paz e segurança, de Xangai a Lisboa e de Nova Delhi a Murmansk.”
Sem compreender o Grande Quadro que envolve debates como a reunião anual em Vladivostok, é impossível compreender o modo como a integração progressiva de ICE, UEE, OCX, ANSA, (B)RICS e (B)RICS Plus está orientada para mudar irreversivelmente o atual sistema-mundo.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Na Ásia, a disputa geopolítica do século, por Pepe Escobar.

Trump e Xi Jinping durante encontro em abril. Iniciativas dos chineses questionam poder imperial americano
Trump e Jinping, em abril de 2017. Iniciativas chinesas questionam poder imperial americano
China investe suas reservas de dólares num projeto gigantesco de infraestrutura. EUA articulam, com a Índia e o Japão, uma resposta — mas podem ter chegado tarde demais…
Por Pepe Escobar | Tradução: Vila Vudu
No contexto do Novo Grande Jogo na Eurásia, as Novas Rotas da Seda, conhecidas como Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) integram todos os instrumentos do poder nacional da China –político, econômico, diplomático, financeiro, intelectual e cultural– para modelar a ordem geopolítica/geoeconômica do século 21. ICE é o conceito que organiza a política externa da China para o futuro que se pode antever; o coração do qual foi posto em termos de conceito antes até do presidente Xi Jinping, como “a ascensão pacífica da China”.
A reação do governo Trump ao fôlego e aos objetivos da ICE foi, pode-se dizer, minimalista. Por hora, resume-se a uma mudança de terminologia, do que antes se conhecia como Pacífico Asiático, para o que hoje se conhece como “Indo-Pacífico”. O governo Obama, até a última visita do ex-presidente à Ásia, em setembro de 2016, sempre falou de Pacífico Asiático.
O Indo-Pacífico inclui o sul da Ásia e o Oceano Índico. Assim, de um ponto de vista norte-americano, implica elevar a Índia ao status de superpotência global ascendente capaz de “conter” a China.
O secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson não poderia ter dito em termos mais claros: “O centro de gravidade do mundo está mudando, para o coração do Indo-Pacífico. EUA e Índia – com nossos objetivos partilhados de paz, segurança, liberdade de navegação e uma arquitetura livre e aberta – devem servir como faróis oriental e ocidental do Indo-Pacífico. Como o porto e as luzes de estibordo entre os quais a região pode atingir sem maior e melhor potencial.”
Tentativas para pintá-la como “abordagem holística” podem mascarar uma clara mudança geopolítica de rumo, na qual “Indo-Pacífico” soa como remix “movimento de pivô para a Ásia”, de Obama, estendido à Índia.
Indo-Pacífico aplica-se diretamente ao trecho do Oceano Índico na Rota Marítima da Seda, o qual, como uma das principais rotas de conectividade da China, aparece com grande destaque na “globalização com características chinesas”. Tanto quanto Washington, Pequim é completamente favorável a livres mercados e acesso aberto às mercadorias. Mas isso não tem de implicar necessariamente que, de um ponto de vista chinês, uma rede institucional única, gigante e supervisionada pelos EUA.
“Eurasáfrica”
No que tenha a ver com Nova Delhi, abraçar o conceito de Indo-Pacífico implica assumir um risco de caminhar na corda bamba.
Ano passado, Índia e Paquistão foram incorporados como membros formais da Organização de Cooperação de Xangai, elemento chave da parceira estratégica Rússia-China.
Índia, China e Rússia são países BRICS; o presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede em Xangai, é indiano. A Índia é membro do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura liderado pela China. E até recentemente a Índia também participava da Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE.
As coisas começaram a se complicar, em maio passado, quando o primeiro-ministro Narendra Modi recusou-se a comparecer à reunião de cúpula da ICE em Pequim, por causa do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), entroncamento chave da ICE e que atravessa o Gilgit-Baltistão e a sensível região que o Paquistão define como Azad Caxemira e a Índia como a Caxemira ocupada pelo Paquistão.
Na sequência, numa reunião do Banco de Desenvolvimento da África em Gujarat, Nova Delhi apresentou-se o que pode ser definido como projeto rival da ICE: o Corredor para Crescimento Ásia-África (CCAA) – em parceria com o Japão. Esse CCAA não poderia ser mais “Indo-Pacífico”, e realmente demarca um Corredor Liberdade no Indo-Pacífico, pago pelo Japão e com o know-how da Índia sobre a África, capaz de rivalizar com – e o que seria? – a Iniciativa Cinturão Estrada.
Por enquanto, nada há além de um já confesso “documento de visão geral” partilhado por Modi e seu contraparte japonês Shinzo Abe para fazer várias coisas em tudo assemelhadas ao que faz a ICE, tipo desenvolver infraestruturas e conectividade digital de ponta.
E com o CCAA vem o Quadrilateral, que o Ministério de Relações Exteriores do Japão divulga como projeto de “uma ordem internacional livre e aberta, baseada no Estado de Direito no Indo-Pacífico.” Mais uma vez se opõe a “estabilidade da região do Indo-Pacífico” e o que Tóquio define como “a agressiva política exterior da China” e “beligerância no Mar do Sul da China”, que gera riscos contra o que a Marinha dos EUA define como “liberdade de navegação”.
Apesar de Xi e Abe terem comemorado um novo início das relações sino-japonesas, a realidade indica outra coisa. O Japão, invocando a ameaça que viria da República Popular Democrática da Coreia, mas, na verdade, temendo a rápida modernização militar da China, comprará mais armas dos EUA. Ao mesmo tempo, Nova Delhi e Canberra estão preocupadíssimas com o massacre econômico militar pelos chineses.
Essencialmente, o CCAA e o Quadrilateral conectam a Política Act East Policy da Índia, e a estratégia japonesa de Free and Open Indo-Pacífico. Se se leem esses dois documentos, não é exagero concluir que a estratégia indo-japonesa visa a constituir uma “Eurasáfrica”.
Na prática, à parte a expansão na África, Tóquio também visa a espalhar projetos de infraestrutura por todo o Sudeste da Ásia, em cooperação com a Índia – alguns que competem ou se sobrepõem à ICE. O Banco Asiático de Desenvolvimento, enquanto isso, pesquisa modelos alternativos de financiamento para projetos de infraestrutura externos à ICE.
No pé em que estão as coisas, o Quadrilateral é ainda obra em progresso, com seu foco na “estabilidade da região do Indo-Pacífico” apostando contra o desejo confesso de Pequim de criar uma “comunidade com futuro partilhado” no Pacífico Asiático. Há razões para que nos preocupemos com a evidência de que essa nova configuração possa realmente evoluir para clara e violenta polarização econômica/militar da Ásia.
Racha no coração dos BRICS
A Ásia precisa de estonteantes $1,7 trilhões por ano, para projetos de infraestrutura, segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em teoria, a Ásia como um todo tem muito a ganhar com essa chuva de projetos da ICE chinesa acrescida de mais projetos financiados pelo BDA e conectados ao CCAA.
Considerando o âmbito e o escopo extremamente ambiciosos de toda a estratégia, a ICE largou à frente e tem hoje considerável vantagem de partida. As vastas reservas de Pequim já estão orientadas para investir numa rede asiática gigante de infraestrutura, com o que exportam seu excedente de capacidade para construir e melhoram a conectividade em todo o mundo.
Diferente disso, Nova Delhi mal tem capacidade industrial para atender às necessidades da Índia. De fato, a Índia precisa muitíssimo de investimentos em infraestrutura; segundo extenso relatório, a Índia precisa de pelo menos $1,5 trilhão ao longo da próxima década. E para piorar, a Índia amarga um persistente déficit comercial com a China.
Sucesso tangível provável é o investimento indiano no porto de Chabahar no Irã, como parte de uma estratégia comercial afegã (vide a segunda parte do relatório).
mapa
Além dos projetos de energia/conectividade como o sistema nacional digital ID Aadhaar (1,18 bilhões de usuários) e investimentos numa série de usinas de energia solar, a Índia tem muito que andar. Segundo o recentemente publicado Índice Global da Fome [ing. Global Hunger Index (GHI)], a Índia está em 100º lugar dentre 119 countries pesquisados sobre fome infantil, considerados quatro indicadores: subnutrição, mortalidade infantil, crianças abandonadas e doenças infantis. A Índia está preocupantes sete pontos abaixo da Coreia do Norte. E só sete pontos acima do Afeganistão, o último da lista.
Nova Delhi não perderia se construísse projeto consciente para construir uma parceria de cooperação Índia-China, no quadro dos BRICS. Aí se inclui aceitar que os investimentos da ICE são úteis e essenciais para desenvolver a infraestrutura indiana. As portas continuam abertas. Todos os olhos estão postos nos dias 10-11 de dezembro, quando a Índia hospeda uma reunião trilateral Rússia-Índia-China – em nível ministerial.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando Pepe Escobar.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/30/Eurasia_%28orthographic_projection%29.svg/1200px-Eurasia_%28orthographic_projection%29.svg.png
OCX já é não apenas a maior organização política - por área e por população - do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares; o G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina
Uma mudança geopolítica tectônica aconteceu em Astana, Cazaquistão, há poucos dias. Pois ainda não se viu nem qualquer mínima repercussão nos círculos atlanticistas.
Na reunião anual da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada em 2001, os dois países, Índia e Paquistão foram admitidos como membros plenos, como Rússia, China e quatro '-stões' da Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão).
Assim sendo, a OCX já é, não apenas a maior organização política – por área e por população –, do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares. O G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina. Ação à vera doravante, à parte o G-20, virá desse G-8 alternativo.
Permanentemente desqualificada no Ocidente já há uma década e meia como se não passasse de mero salão de conversas, a OCX, lentamente, mas sem parar nunca, continua a promover um quadro que o presidente Xi Jinping da China qualifica, de forma discreta muito atenuada, como "um novo tipo de relações internacionais com vistas a cooperação ganha-ganha".
É o mínimo que se pode dizer, do grupo no qual se reúnem China, Índia e Paquistão.
A marca OCX, sob o jogo do radar, é muito sutil. A ênfase inicial, quando se entrava no mundo pós-11/9, foi combater contra o que os chineses chamam de "os três males" do terrorismo, do separatismo e do extremismo. Pequim – e Moscou – desde o início pensavam nos Talibã no Afeganistão, e nas suas conexões centro-asiáticas, especialmente por conta do Movimento Islamista do Uzbequistão (MIU).
Agora, a OCX está ativamente alertando para a "deterioração" da segurança no Afeganistão e conclamando todos os membros a apoiar o processo de "paz e reconciliação". É a senha para a OCX, daqui em diante, engajar-se diretamente em encontrar uma solução "completamente asiática" [ing. "all-Asian"] para o Afeganistão – com ambos, Índia e Paquistão também a bordo –, que transcenda o "remédio" sempre fracassado do Pentágono: mais soldados.
OTAN, por falar dela, perdeu miseravelmente a guerra que fez no Afeganistão. Os Talibã controlam hoje pelo menos 60% do país – e continuam a avançar. E para acrescentar insulto supremo a ofensa previsível, o Estado Islâmico do Corasan, EIC – braço do Daech no Afeganistão – acaba de capturar Tora Bora, onde, nos meses finais de 2001, os B-52s do Pentágono insistiam em bombardear Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri, que já estavam muito longe de lá.
Que ninguém se engane: a OCX agirá, sim, no Afeganistão. E essa ação incluirá levar os Talibã à mesa de negociações. A China acaba de assumir a presidência rotativa da OCX e se empenhará para colher resultados práticos a exibir na próxima reunião de cúpula em junho de 2018.
Ponha o pé no gás, pague em yuan
A OCX evoluiu muito também em termos de cooperação econômica. Ano passado, Gu Xueming, presidente da Academia Chinesa de Comércio e Cooperação Econômica Internacionais no Ministério do Comércio, propôs que se faça uma aliança com um think-tank econômico da OCX, também para estudar a implantação de zonas de livre comércio da própria Organização de Cooperação de Xangai.
É movimento que sugere fortemente integração econômica ainda maior – que já está em curso para muitos negócios de pequeno e médio porte. A tendência é inevitável, paralela à interpenetração das Novas Rotas da Seda, também chamadas "Iniciativa Cinturão e Estrada", ICE, e a União Econômica Eurasiana, UEE, liderada pela Rússia.
Assim sendo, nem chega a ser surpresa que, na reunião em Astana, Xi e o presidente Putin mais uma vez tenham promovido a possibilidade de fusão entre ICE e UEE. E ainda não estamos falando do trio ICE, UEE e OCX – o que diz respeito ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII; o Novo Banco de Desenvolvimento, NBD; o Fundo Chinês da Rota da Seda – todo um potente arranjo de mecanismos político-econômicos.
As coisas movem-se com incrível rapidez – em todos os fronts. Numa recente conferência "Future of Asia" em Tóquio, o suposto ferozmente anti-China primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou, embora ainda sujeito a muitas condições, que o Japão está pronto a cooperar com a ICE, com seu "potencial para conectar Oriente e Ocidente, e também as diversas regiões que há entre um e outro." Um possível reset China-Japão daria impulso definitivo à interpenetração de ICE, UEE e OCX.
Crucialmente importante é que ambas China e Rússia estão em perfeita harmonia em termos de aprovar rapidamente a admissão do Irã como membro pleno da OCX.
Agora, comparem esse tipo de projeto-ação, com o secretário de Estado "T.Rex" Tillerson a 'exigir' mudança de regime no Irã.
Com a integração da Eurásia avançando inexoravelmente por saltos e elos, o contraste com a proverbialmente pantanosa e repugnante arrogância atlanticista não poderia ser mais flagrante.
Quando Moscou decidiu a favor de agir na tragédia síria e mudar aquele jogo, nenhum analista no ocidente, exceto Alastair Crooke, viu o quanto esse movimento configurava uma espécie de operação 'estilo-OCX'. OK, Irã, Síria e Hezbollah não são membros da OCX, mas o modo como coordenaram seus movimentos com os russos já evidenciava uma alternativa factível, diferente do imperialismo 'humanitário' da OTAN e das aventuras tipo 'mudança de regime'.
O mecanismo "4+1" – Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah – silenciosamente apoiado pela China foi instituído para combater todas as formas de terrorismo jihadista salafista e, ao mesmo tempo, para prevenir qualquer tentativa de 'mudar o regime' em Damasco – sonho molhado da OTAN-CCG.
Agora, com a estrambótica política exterior de Trump, em que nada se coordena com coisa alguma, exceto com provocar o Irã, ambos os países, Rússia e China, compreendem como é realmente chave que o Irã torne-se, sem demora, membro pleno da OCX.
Pequim já compreendeu, via suas relações com o Qatar – fornecedor chave de gás natural –, as apostas extremamente altas de o Qatar, mais dia menos dia, aceitar pagamento em yuan, pela energia.
O silencioso movimento de pivô do Qatar na direção do Irã – razão chave que enlouqueceu completamente a já encurralada Casa de Saud – tem tudo a ver com a exploração em comum do maior campo de gás do mundo, North Dome/South Pars, que os dois países partilham no Golfo Persa.
Divulgação

Reunião da OCX aconteceu no começo do mês de junho em Astana, no Cazaquistão

Demorou um pouco para que Doha se desse conta de que, depois que os "4+1" estabeleceram fatos em campos, um gasoduto do Qatar até a Turquia via Arábia Saudita e Síria até o mercado europeu jamais acontecerá. Ancara também sabe disso. Mas pode talvez eventualmente haver um gasoduto Irã-Iraque-Síria – mesmo com uma possível extensão para a Turquia —, de gás fornecido conjuntamente pelo campo North Dome/South Pars.
Esse evento revolucionaria toda a equação da energia no Sudoeste da Ásia; e a hegemonia do petrodólar pode bem ser principal 'dano colateral' nesse quadro, o qual Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aceitam devidamente.
Imaginem Qatar/Irã vendendo seu futuro gás para a Europa em euros, não em dólares norte-americanos, bem como os chineses que passarão a pagar em yuan, a energia que comprarem do Qatar – e da Arábia Saudita.
Que ninguém se engane: o futuro – inexorável – indica que o comércio de energia deixará de ser feito em petrodólares, para ser feito em yuan, moeda que pode ser convertida em ouro.
Longa vida ao novo Califado
Jamais será demais destacar a importância da parceria estratégica Rússia-China coordenando todas as suas políticas para a integração da Eurásia, inclusive com os incansáveis esforços, pelos suspeitos de sempre, para impedir que a integração aconteça.
Durante a primeira metade de 2017, a hipótese de trabalho de Moscou e Pequim foi que o governo Trump teria interesse em assumir a Rússia como parceira para novos projetos de petróleo e gás na Eurásia. Ideia de traços Kissingerianos, sugerida a Trump, a parceria estratégica Rússia-China seria assim enfraquecida, com Washington aumentando a pressão em múltiplas frentes, sobre Pequim.
Bem, talvez não aconteça já – se se considera a enlouquecida vasta histeria anti-Rússia que consome o governo dos EUA.
O que continua é a Guerra Global ao Terror, GGaT, corolário da política de Trump: conter – por todos os meios necessários – e impedir que avance a influência já crescente do Irã em todo o Sudoeste da Ásia. Para isso, é preciso inflar o poder geopolítico do CCG – comandado pela nociva Casa de Saud.
Isso explicaria o surto entusiástico de Trump, no Twitter, a favor da guerra relâmpago da Casa de Saud contra o Qatar – que se desdobra em movimento contra o Irã. Pequim, por sua vez, observa de perto, e já identificou a coisa pelo que realmente é: tentativa de perturbar o avanço das Novas Rotas da Seda.
Ao mesmo tempo, Pequim e Moscou não podem deixar de observar com gosto as flagrantes inconsistências. O Pentágono não parece inclinado a anexar o resto do Qatar; bastam a base aérea Al Udeid e o quartel-general do Centcom. O chefe do Pentágono, Mattis "Cachorro Louco" adorou vender $12 bilhões em F-15s para Doha "apoiadora de terroristas". Trump "apoia" a Casa de Saud. Mattis "Cachorro Louco" "apoia" Doha. Tillerson declara-se superior e abre mão de escolher lado.
O CCG como o conhecemos pode já estar morto e enterrado – como também o embrião de 'OTAN Árabe' que Trump tanto festejou com aquela patética dança das espadas em Riad. Mesmo assim, Moscou e Pequim – como também Teerã – estão perfeitamente conscientes de como esses revezes só farão exacerbar o ambiente no Excepcionalistão, codinome, o pântano; codinome, o estado profundo; para que subam as apostas e os riscos, e continuem a gerar conflito e tumulto.
O Califato no deserto do "Siriaque" está morto – especialmente se os russos confirmarem que o próprio Califa foi-se mandado encontrar o Criador. Não é bom – porque uma Síria totalmente desestabilizada seria excelente para desestabilizar a Rússia, do Cáucaso à Ásia Central; a inteligência russa sempre se concentrou naqueles 900 km, de Aleppo a Grozny.
Como o Terminator, o estado profundo dos EUA voltará. Um sonho molhado ampliado ainda é criar as condições para a desestabilização de vasta faixa, do Levante ao Sul da Ásia — com possíveis futuras ondas de terror a se expandirem para o norte da Rússia e leste, para a China. O alvo: a interpenetração de ICE, UEE e OCX.
Para completar, o Pentágono recusar-se-á a abandonar o Afeganistão – cabeça de ponte para gerar tumulto e caos na Ásia Central. O que poderia talvez dar errado?! Afinal, o Daech está virtualmente plantado na Ásia Central, não distante de Xinjiang e do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP) – nodo chave da Iniciativa Cinturão e Estrada.
Ainda assim, a guerra relâmpago dos sauditas contra o Qatar – que parece estar continuando – pode, no médio prazo, precipitar uma mudança sísmica, acelerando a entrada para a Organização de Cooperação de Xangai, do Irã e também da Turquia; consolidando o movimento de pivô de Doha na direção de uma entente com Rússia e Irã; e antecipando golpe grave na hegemonia do petrodólar. Tudo isso deve ter sido discutido em detalhes na reunião de cúpula da OCX em Astana – sobretudo no encontro bilateral Putin-Xi.
Com o Excepcionalistão mais errático a cada dia, todas as decisões estratégicas chaves ficarão para Xi-Putin – e ambos sabem disso. Certo é que a OCX com certeza se envolverá mais e mais profundamente nas ações para proteger o projeto chave do jovem século 21: a integração da Eurásia.

sábado, 27 de maio de 2017

Vem aí uma Globalização chineza? por Pepe Escobar.

Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como "emissário amistoso" – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He, antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear”
Pequim lança Nova Rota da Seda, megaprojeto de infraestrutura que terá enorme impacto na Ásia e chegará à Europa Ocidental. Presidente Xi afirma que não se trata de neocolonialismo disfarçado
Por Pepe Escobar
O presidente Xi Jinping invoca heróis da dinastia Ming, estratégias geopolíticas de desenvolvimento e analogias com os gansos selvagens asiáticos para retratar a iniciativa chinesa Novas Rotas da Seda como nave madrinha de uma nova ordem mundial focada no comércio.
O presidente Xi Jinping usou o Fórum Internacional Nova Rota da Seda, de dois dias, em Pequim, para fixar a China como a nave madrinha de nova ordem mundial benigna, focada no comércio. Esse é, disse Xi, um “novo modelo de ganha-ganha e cooperação” que prevalecerá sobre a diplomacia dos canhões.
No início da conferência, a rede estatal chinesa Xinhua cuidou de esclarecer que a iniciativa – oficialmente chamada, antes, de “Um Cinturão, Uma Estrada” [ing. One Belt, One Road (OBOR)] e chamada agora “Iniciativa Cinturão e Estrada” [ing. Belt and Road (BRI)] — nada tinha de “neocolonialismo disfarçado”.
“A China não carece de estados fantoches” – disse Xinhua, repetindo, na essência, o que Xi disse em seu discurso histórico.
“A China quer partilhar sua experiência de desenvolvimento com o resto do mundo” – disse Xi –, “mas não intervirá nos assuntos internos de outros países, não trabalhará para exportar nosso sistema social e nosso modelo de desenvolvimento, nem forçará outros países a aceitá-los.”
O Comunicado que o Fórum distribuiu – um resumo dos pontos principais do discurso de Xi – registrava que as nações representadas em Pequim comprometiam-se a promover “cooperação prática por estradas, ferrovias, portos, vias marítimas e internas de transporte por água, aviação, oleodutos e gasodutos de energia, eletricidade e telecomunicações “.
170516-China
O Big Business também estava lá representado e, pelo que se diz, entusiasmadíssimo.
Jack Ma de Alibaba, tão comprometido com promover uma Plataforma eletrônica de Comércio Mundial, falou à mídia chinesa durante o Fórum e saudou o movimento da iniciativa BRI para “incluir jovens, mulheres, empresas pequenas e países em desenvolvimento.”
No último dia do Fórum, Pequim construiu até uma espécie de Nações Unidas da Nova Rota da Seda, no formato de uma Mesa Redonda de Líderes, com microfones igualmente abertos e acessíveis a todos. O evento foi ilustração elegante e cheia de estilo de como Xi deseja que o mundo veja a iniciativa chinesa.
“A intenção primária e mais alto objetivo da ‘Iniciativa Cinturão e Estrada'” é permitir que cada membro se associe ao processo de enfrentar os desafios econômicos globais, encontre novas oportunidades e motores de crescimento, alcance situação de ganha-ganha e continue a andar na direção de uma comunidade com destino coletivo” – disse Xi.
Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como “emissário amistoso” – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Os gansos-cisnes selvagens“, disse ele, de uma grande ave selvagem, rara, encontrada na Ásia, mas não na Europa” – voam muito longe e em plena segurança vencendo ventos e tempestades, porque voam em bandos e ajudam-se uns os outros, como equipe.”
Monte num cisne selvagem
Não há dúvidas de que as Novas Rotas da Seda encontrarão turbulência pela frente. No Fórum, a ministra de Economia e Energia da Alemanha, Brigitte Zypries, ameaçou não assinar o comunicado final, se não houvesse firmes garantias para livres concorrentes – sem favoritismos para empresas chinesas – relacionados a outros projetos futuros de OBOR/BRI.
Sim, mas… em termos de expansão/exploração/construção de ferrovias, quem poderia competir com a China?
Trens de carga partem já regularmente da China oriental e da China central, atravessando as estepes da Ásia Central e apontam pontualmente a milhares de quilômetros de distância em 17 dias, antes de chegar a Londres, Madrid, Duisburg ou Lyon. Partem lotados de produtos domésticos, roupas e peças de reposição de maquinário, e voltam com produtos químicos, vinhos e produtos para bebês.
É duas vezes mais rápido que o comércio por mar, ainda que um trem de carga carregue menos de 100 contêineres, comparados com os mais de 20 mil que viajam por navios cargueiros. Mas o que realmente interessa é que até aí é só a primeira perna de uma futura rede de ferrovias para trens de alta velocidade que ligarão o leste da China à Europa via a Ásia Central.
Estão previstas no plano de expansão também parcerias público-privadas. Por exemplo, o primeiro ramo da Ferrovia Rota da Seda, que liga Chongqing a Duisburg, foi promovida na verdade, há seis anos passado, não por políticas de Pequim, mas pela gigante Hewlett-Packard do Vale do Silício, para embarcar milhões de notebooks para a Europa, por trem.
Mas agora a política da China avança rapidamente por toda a Europa. No Fórum, a Europa Oriental estava pesadamente representada e a região está sendo ajudada por um fundo criado há três anos, para investir, inicialmente, US$10 bilhões de euros.
Ano passado, China Everbright comprou o aeroporto de Tirana, na Albânia. O China Exim Bank está financiando a construção de rodovias em Macedônia e Montenegro. Em 2014, China Road & Bridge Corporation construiu uma ponte sobre o rio Danúbio em Belgrado, a chamada “ponte da amizade sino-sérvia”, a maior parte da qual foi financiada pelo China Exim Bank.
E há a ferrovia de trens de alta velocidade entre Atenas e Budapeste, via Macedônia e Belgrado. O ramo crucial Budapeste-Belgrado – não liberado pela União Europeia – deve entrar em operação finalmente ainda esse ano.
Mais uma vez, a geoeconomia empurra a geopolítica. Ao investir num corredor do Mar Egeu até a Europa Central, Pequim estará estimulando ativamente o comércio a partir do famoso porto grego de Pireu, que na verdade já está sob controle chinês desde 2010.
E agora a batalha por soft power
Zhou Wenzhong, secretário-geral dos fóruns regionais de negócios de alto nível, o Boao Forum para Ásia, fala das Novas Rotas da Seda como “a resposta da China à globalização”. Mas é realmente mais que isso. É realmente a visão do novo mundo. Visão composta de tantas partes, todas em movimento constante, que até agora continua difícil de definir.
Xi usou o Fórum para tentar esclarecer o conceito, mas verdade é que só as condições e circunstâncias em campo definirão as diferentes estratégias no futuro. Incluirão, para cada projeto, coordenação política e de financiamento que tenham potência para empurrar a iniciativa além de um boom de infraestrutura.
O Fórum já deixou claro como atores muito significativos disputam posições. Já se observa surto de competição entre Hong Kong e Londres sobre quem será a fonte privilegiada de financiamento. Enquanto Hong Kong mantém-se como centro offshore número um do mundo para compensações em yuan, o chanceler britânico Philip Hammond já enfatiza que Londres continua a ser o principal centro financeiro do mundo, insuperável para prover as necessidades “de banking internacional” das Novas Rotas da Seda.
A revoada dos gansos-cisnes já começou. A próxima grande pergunta é com que ênfase as Novas Rotas da Seda reescreverão as regras do jogo do comércio global, sem agitar demais atores ultrassensíveis, como a Índia. Mas é bem aí que se insere o chip do soft power.
Agora, os gansos-cisnes de Pequim começam a trabalhar para seduzir o Sul Global e trazê-lo para uma parceria irresistível que transcende o mero comércio

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

luminismo à Guerra Civil Global, por Pepe Escobar.







170209-Iluminismo
Mulheres palestinas contra Israel. “Escapar do “pesadelo da história é agora movimento que ruge, fora de controle, já muito além da Europa”, diz Pepe Escobar
E se o racionalismo ocidental for, em todas as suas vertentes, a tentativa vã de impor uma distopia sem raiz? E se estivermos assistindo à revanche?
Por Pepe Escobar | Tradução Vila Vudu
Vez ou outra, depois de (longo) intervalo, surge um livro que rompe a visão de uma época, iluminando à volta como um diamante enlouquecido. Age of Anger [“Era da Ira”], de Pankaj Mishra, autor do também seminal From the Ruins of Empire [“Das Ruínas do Império”], pode perfeitamente ser o mais recente avatar.
Pense nesse livro como a mais moderna arma (conceitual) letal, nos corações e mentes de uma Terra Arrasada Adolescente cosmopolita sem raízes desesperada para encontrar sua real vocação, enquanto rastejamos pela mais longa – o Pentágono diria: pela infinita guerra– das guerras mundiais: uma guerra civil global (a qual, em meu livro Globalistan, de 2007, chamei de “Guerra Líquida).
Mishra, autêntico produto de Oriente-encontra-Ocidente, argumenta, em essência, que é impossível compreender o presente, se não reconhecemos a subterrânea nostalgia da saudade de casa sempre a contradizer o ideal do liberalismo cosmopolita — a “sociedade comercial universal dos indivíduos racionais autointeressados” conceitualizada pela primeira vez pelo Iluminismo via Montesquieu, Adam Smith, Voltaire e Kant.
A narrativa vencedora da História acabou por ser a narrativa saneada do Iluminismo benevolente. O esperado é que a tradição do racionalismo, humanismo, universalismo e da democracia seria sempre a norma. Foi “claramente desconcertante” – escreve Mishra – “perceber que a política totalitária cristalizara as correntes ideológicas (racismo científico, racionalismo jingoísta, imperialismo, tecnicismo, política estetizada, utopismo, engenharia social)” que já convulsionavam a Europa no final do século 19.
Assim sendo, evocando T.S. Eliot, para dar conta “do meio olhar para trás por cima do ombro, para o primitivo terror” que acabou por levar a O Ocidente versus O Resto, temos de olhar para os precursores.

Quebrar o Palácio de Cristal
Entra Eugênio Oneguin[1] de Pushkin – “o primeiro de muitos ‘homens supérfluos’ na ficção russa”, com seu chapéu Bolívar,[2] agarrado a uma estátua de Napoleão e a um retrato de Byron, como a Rússia, tentando fazer-se de Ocidente, “juventude espiritualmente deserta produzida em massa com uma quase Byroniana concepção de liberdade, e ainda mais inflada pelo Romantismo Alemão.” Os melhores críticos do Iluminismo tiveram de ser alemães e russos –, retardatários na chegada à modernidade político-econômica.
Dois anos antes de publicar o espantoso Memórias do Subsolo[3] (1864), Dostoievsky, em seu tour pela Europa Ocidental, já via a sociedade dominada pela guerra de todos contra todos na qual muitos estavam condenados a perder sempre.
Em Londres, em 1862, na Feira Internacional no Palácio de Cristal, Dostoievski teve uma iluminação (“Você se dá conta de uma ideia colossal (…) que aqui há vitória e triunfo. Você até começa, vagamente, a temer alguma coisa.”) Em pleno estupor, Dostoievski era sensível o bastante para observar o quanto a civilização materialista era reforçada, tanto pelo próprio glamour como pela dominação militar e marítima.
A literatura russa viria depois a cristalizar o crime aleatório como o paradigma da individualidade que saboreia a identidade e afirma o próprio desejo (adiante refletido em meados do século 20 pelo ícone beat William Burroughs a clamar que disparar tiros ao acaso é o que mais o excita).
O caminho estava cavado para que o montante banquete dos mendigos se pusesse a bombardear o Palácio de Cristal – até, como Mishra nos relembra, “intelectuais no Cairo, em Calcutá, Tóquio e Xangai estavam lendo Jeremy Bentham, Adam Smith, Thomas Paine, Herbert Spencer e John Stuart Mill” para compreender o segredo da burguesia capitalista em perpétua expansão.
E isso depois que Rousseau, em 1749, lançara as fundações da revolta moderna contra a modernidade, agora estilhaçada numa selva de ecos-imagens especulares, com o Palácio de Cristal já, de fato, implantado em guetos fulgurantes por todo o mundo.
Mistah Ilustrado – está morto
Mishra credita a ideia de seu livro a Nietzsche comentando a querela épica entre Rousseau, o plebeu invejoso, e Voltaire, serenamente elitista – que saudava devidamente a Bolsa de Valores de London, quando ela se tornou completamente operacional, como uma corporificação secular de harmonia social.
Mas foi Nietzsche quem acabou por destacar-se do casting central como furioso detrator, tanto do capitalismo liberal como do socialismo, para fazer da sedutora promessa da vinda de Zaratustra um Santo Graal imantado para os bolcheviques (mas Lênin a odiava), para a ala esquerda de Lu Xun na China, para fascistas, anarquistas, feministas e hordas de estetas desmazelados.
Mishra também nos relembra como “anti-imperialistas asiáticos e barões-ladrões norte-americanos beberam avidamente” de Herbert Spencer, “o primeiro pensador verdadeiramente global” que cunhou o mantra da “sobrevivência do mais apto”, depois de ler Darwin.
Nietzsche foi o cartógrafo consumado do Ressentimento. Max Weber profeticamente pintou o mundo moderno como uma “jaula de ferro” da qual só o líder carismático pode oferecer fuga. Mikhail Bakunin, ícone anarquista, por sua vez, em 1869 já havia conceitualizado o “revolucionador” como aquele que quebra “todos os laços com a ordem social e com todo o mundo civilizado (…) É seu mais impiedoso inimigo e só continua a habitar nele com um único propósito – destruí-lo.”
Escapar do “pesadelo da história” – de fato da jaula de ferro da modernidade – de James Joyce o Modernista Supremo –, uma secessão visceralmente militante para bem longe “de uma civilização cuja premissa é o progresso gradual sob tutores liberal-democratas”, é agora movimento que ruge, fora de controle, já muito além da Europa.
Ideologias que podem até ser radicalmente opostas mesmo assim cresceram simbioticamente do redemoinho cultural do final do século 19, a partir do fundamentalismo islamista, do nacionalismo sionista e hindu, para o bolchevismo, o fascismo e o imperialismo reformulado.
Não só a 2ª Guerra Mundial, mas o fechamento atual do jogo, também foi visualizado pelo trágico, brilhante, Walter Benjamin nos anos 1930, quando já alertava para a autoalienação da humanidade, afinal capaz de “experienciar a própria destruição como prazer estético de primeira ordem.” Os jihadistas ‘Faça-você-mesmo’ que se veem ao vivo hoje são a versão pop, enquanto o ISIS tenta configurar-se ele mesmo como a derradeira negação das piedades da modernidade – neoliberal.
A Era do Ressentimento
Tecendo saborosos fluxos de polinização cruzada de política e literatura, Mishra alonga-se no processo de preparar o cenário para O Grande Debate entre (i) aquelas massas do mundo em desenvolvimento cujas vidas são pisoteadas pela “ainda em grande parte não percebida história de violência” do Ocidente Atlanticista e (ii) as elites da modernidade líquida (Bauman) brotadas da (seleta) parte do mundo que converteu em ciência, filosofia, arte e literatura os avanços cruciais, desde o Iluminismo.
Vai muito além de mero debate entre Oriente e Ocidente. Não se pode compreender a atual guerra civil global, esse “intenso mix de inveja e senso de humilhação e impotência pós-moderno e pós-verdade”, se não tentarmos “desmantelar a arquitetura conceitual e intelectual dos vencedores da história no Ocidente”, traçada a partir da história triunfalista dos super-grandes-feitos anglo-norte-americanos.
Mesmo no auge da Guerra Fria, o teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr zombava dos “fascistas brandos da civilização ocidental”, na sua fé cega de que todas as sociedades estariam destinadas a evoluir exatamente como um punhado de nações o Ocidente – algumas vezes – evoluíram.
E isso – que ironia! – enquanto o culto liberal internacionalista do progresso flagrantemente mimetizava o sonho marxiano de uma revolução internacionalista.
No prefácio que escreveu em 1950 para Origens do Totalitarismobest-seller ressurgente na Amazon – Hannah Arendt nos diz, essencialmente, que esqueçamos qualquer projeto para alguma eventual restauração da velha ordem mundial; fomos condenados a assistir à história que se repete, “sem-tetos numa escala sem precedente, desenraizamento numa profundidade jamais vista.”
Enquanto isso, como Carl Schorske anotou em seu espetacular Viena Fin-De-Siècle,[4] a intelectualidade norte-americana cortou o “cordão da consciência” que ligava o passado ao presente; sanearam grosseiramente a história; e então séculos de guerra civil, de saque imperial, de genocídio e escravidão na Europa e na América simplesmente desapareceram. Só se permitiu uma narrativa TINA (there is no alternative): o quanto e como os Atlanticistas privilegiados com a razão e com a autonomia individual fizeram o mundo moderno.
Entra em cena o estraga-prazeres máster Jalal Al-e-Ahmad, nascido em 1928 na parte sul, pobre, de Teerã, e autor de Westoxification [aprox. Ocidentoxificação] (1962), texto de referência chave da ideologia islamista, no qual ele escreve como o Erostrato[5] de Sartre, de olhos vendados, dá tiros de pistola contra o povo pela rua; o protagonista de Nabokov joga o próprio carro contra uma multidão; e Mersault, protagonista de O Estrangeiro,[6] mata alguém a tiros como resultado de um mal-estar provocado por uma insolação. É a mais letal das encruzilhadas – o existencialismo cruza na rua com as favelas de Teerã para destacar o que Hanna Arendt chamou de “solidariedade negativa”.
E entra Abu Musab al-Suri, nascido em 1958 – um ano depois de Osama bin Laden – numa família devota, de classe média, em Aleppo. Foi al-Suri – não o egípcio Al-Zawahiri – que arquitetou a estratégia global sem líder dos jihadistas, The Global Islamic Resistance Call, baseada em “células não conectadas” e “operações individuais”. Al-Suri foi o Samuel “choque das civilizações” Huntington da al-Qaeda. Mishra o define como “o Mikhail Bakunin do mundo muçulmano”.
Aquela ‘sífilis das paixões revolucionárias’
Em resposta ao meme neo-Hegeliano idiota do “fim da história” ao final da Guerra Fria, Allan Bloom alertou que o fascismo poderia ser o futuro; e John Gray telegrafou o retorno de “forças primordiais, nacionalistas e religiosas, fundamentalistas e em breve talvez, malthusianas.”
E isso nos leva a por que os excepcionais portadores do Iluminismo humanista e racional não conseguem explicar o torvelinho geopolítico atual – do ISIS a Brexita e Trump. Jamais conseguiram qualquer coisa mais sofisticada que oposição binária de “livres” e “não livres”; os mesmos clichês ocidentais do século 19 sobre o não Ocidente; e a incansável demonização daquele perenemente retrógrado Outro: o Islã. Daí a nova “guerra longa” (terminologia do Pentágono) contra o “islamofascismo.”
Essa gente não poderia jamais compreender, como insiste Mishra, as implicações daquele encontro de mentes, numa prisão Supermax no Colorado, do bombardeador de Oklahoma City, super norte-americano Timothy McVeigh, e o cérebro do primeiro ataque contra o World Trade Center, Ramzi Yousef (muçulmano não devoto, pai paquistanês, mãe palestina).
Tampouco podem compreender como os conceitualizadores do ISIS arregimentam online um adolescente insultado, agredido de um subúrbio de Paris ou de uma favela africana, e convertem-no num dandy narcisista – Baudelaireano? – leal a uma causa elevada pela qual vale a pena lutar. Nada há a estranhar no paralelo entre o jihadista ‘Faça-você-mesmo’ e o terrorista russo do século 19 – que encarnava a “sífilis das paixões revolucionárias”, como Alexander Herzen o descreveu.
E o principal inimigo do jihadista ‘Faça-você-mesmo’ não é sequer cristão: é o xiita “apóstata”. Estupros em massa, assassinatos coreografados, a destruição de Palmyra, Dostoievski já os identificara todos; como diz Mishra, “é impossível para os Raskolnikovs[7] de hoje negarem-se qualquer coisa a eles mesmos, e é possível justificarem qualquer coisa.”
É impossível resumir o fogo cruzado rizomático (homenagens a Deleuze-Guattari) intelectual que Era da Ira dispara. Certo é que para compreender a atual guerra civil global, é essencial a reinterpretação arqueológica da narrativa dominante no Ocidente nos últimos 250 anos. É isso, ou estaremos condenados, como clones patéticos do sempre mesmo Sísifo, a sofrer, não só o mesmo pesadelo perene da história mas, também, o mesmo perene revide.


[1] PUSHKIN, Alexander [1794-1837]. Eugênio Oneguin (1833), Rio de Janeiro: Record, 2010. 1ª trad. ao português, de Dário Moreira de Castro Alves.
[2] Interessante: “Das florestas do Maine às encruzilhadas rústicas no Tennessee, os jornais norte-americanos noticiavam sem parar as reviravoltas das lutas no Chile e na Colômbia. Centenas de pais e mães norte-americanos davam aos bebês o nome de Simón Bolívar, o gigante que liderava rebeliões na Venezuela e por toda parte, enquanto compositores ianques cantavam e bailavam ao som de “Gen. Bolívar’s Grand March & Quick Step.” As damas compravam ‘chapéus Bolívar’, com abas largas e muitas penas, e todos brindavam à liberdade sul-americana. Enquanto isso, agentes rebeldes acorriam aos EUA para comprar armas, buscar apoio oficial e conquistar a opinião pública.” (Comentário a FITZ, Caitlin. Our Sister Republics, Ed. Liveright, 2010. In Wall Street Journal25/7/2016). Há uma estátua de Simón Bolívar em San Francisco, EUA, em que se vê o famoso chapéu [NTs].
[3] DOSTOIÉVSKI, Fiódor [1821-1881]. Memórias do subsolo (1864), São Paulo: Ed. 34. Tradução Bóris Schnaiderman, 2000 (1ª. ed.), 2009 (6ª ed.).
[4] SCHORSKE, Carl E. Viena Fin-de-siècle: Política e Cultura, São Paulo: Companhia das Letras/Unicamp, 1988. Trad. Denise Bottmann (aqui, uma resenha interessante).
[5] SARTRE, Jean-Paul. “O Erostrato” [1939]. In O Muro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 69-87. Trad. H. Alcântara Silveira.
[6] CAMUS, Albert [1913-1960]. O Estrangeiro (1942). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. Trad. Valerie Rumjanek.
[7] Personagem de DOSTOIÉVSKI, Fiódor [1821-1881]. Crime e Castigo (1866), Lisboa: Editora Europa-América. Trad. Adelino dos Santos Rodrigues. Gratuitamente online, da Editora Sabotagem, aqui.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

As razões de um assassinato, por Pepe Escobar.



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Quem matou o embaixador de Moscou em Ankara queria frustrar um movimento geopolítico crucial: a Turquia está cada vez mais próxima da Eurásia, para desespero dos EUA e União Europeia
Por Pepe Escobar | Tradução Vila Vudu
Vamos logo ao que interessa: Ankara 2016 não é Sarajevo 1914. Não é prelúdio da 3ª Guerra Mundial. Quem tenha urdido o assassinato do embaixador russo na Turquia Andrey Karlov – diplomata calmo, educado, contido, da velha escola russa – pode esperar revide de altíssima octanagem.
O assassino Mevlut Mert Altintas, graduado da Academia de Polícia, 22 anos, recebeu pena de suspensão da Polícia Nacional Turca por suspeita de laços com a Organização Terrorista Fethullahista [ing. Fethullahist Terrorist Organization (FETO)] depois do fracassado putsch de 15 de julho contra Erdogan, mas retornou ao serviço em novembro.
Não é segredo que os gulenistas estão pesadamente infiltrados dentro da Polícia Nacional Turca; assim sendo, um específico efeito do ataque será ataque ainda mais furioso e incansável, de Erdogan/AKP contra a rede de Gulen. A investigação turca terá de se concentrar na falha (gigantesca) de segurança naquele prédio do moderno centro de artes de Ankara, – mas também terá de alcançar outros muitos pontos. A evidência de que o ministro do Interior turco Suleyman Soylu só se manifestou, em frases tensas, mais de três horas depois do evento mais preocupa que tranquiliza.
O assassino, vestido num terno preto com gravata, gritou slogans sobre vingança “por Aleppo” – incluído o indefectível “Allahu Akbar” – em língua turca e em árabe, coisa que pode estabelecer alguma conexão com a retórica de um grupo islamista, mas não é prova conclusiva.

O momento do crime é crucialmente importante. Aconteceu apenas um dia antes da reunião dos ministros de Relações Exteriores de Rússia, Turquia e Irã, em Moscou, para discussão estratégica sobre a Síria. Já estavam em contato próximo há várias semanas, prontos para firmar um amplo acordo sobre Aleppo – e além de Aleppo.
E isso exatamente depois do acordo crucial, recentemente assinado entre Putin-Erdogan, que implica nada menos que milhares de “rebeldes moderados” sob comando da Turquia serem autorizados a safar-se por um “corredor” para fora de Aleppo. Ankara estava perfeitamente informada sobre esse desenvolvimento. Só esse detalhe basta para eliminar a possibilidade de ataque provocado por Ankara sob falsa bandeira.
O presidente Putin, por sua vez, disse muito claramente que quer saber “quem dirigiu o assassino”. Pode-se interpretar como alguma espécie de código sutil para dizer que a inteligência russa já sabe quem fez o que.
O Grande Quadro
No front bilateral, Moscou e Ankara trabalham atualmente juntas e muito próximas no campo do contraterrorismo. O ministro da Defesa da Turquia foi convidado a visitar a Rússia para negociações do sistema de defesa antiaérea. O comércio biliteral está novamente florescendo, inclusive com a criação de um fundo conjunto de investimentos. No sempre importante front da energia, o gasoduto Ramo Turco, apesar da obsessão no governo Obama para fazê-lo desandar completamente, foi consolidado numa lei do estado turco, em Ankara, no início de dezembro corrente.
Главы МИД РФ, Турции и Ирана возложили цветы в память о погибшем после России в Турции А. Карлове
Os atlanticistas estão em pânico, agora que Moscou, Ankara e Teerã estão trabalhando em tempo integral para traçar as linhas de um futuro para a Síria depois da Batalha de Aleppo e exclusão e vergonhosa expulsão de lá, de todo o combo OTAN-CCG (Conselho de Cooperação do Golfo).
Sob esse contexto é que de deve interpretar a recente noticiada captura pelas Forças Especiais Sírias em Aleppo, de um punhado de agentes de OTAN-CCG – operando na Síria camuflados” dentro da “coalizão” que os EUA lideram pela retaguarda.
Fares Shahabi, deputado do Parlamento sírio, presidente da Câmara de Comércio em Aleppo, publicou os nomes dos agentes presos. A maioria são sauditas; há um qatari; a presença de um marroquino e um jordaniano explica-se porque Marrocos e Jordânia são membros “não oficiais” do CCG. Mais um turco, um norte-americano (David Scott Winer) e um israelense. Apenas dois agentes da OTAN, mas a conexão OTAN-CCG está super estabelecida. Se essa informação procede – ainda há um grande “se” – esses todos podem bem ser a coalizão de pessoal militar e comandantes de campo que antes dava aconselhamento aos “rebeldes moderados” e agora está convertida em formidável moeda de troca nas mãos de Damasco.
Ambos, OTAN e CCG não disseram uma palavra; nem negações do tipo “não nego que…” apareceram até agora. Pode significar algum acordo clandestino já firmado para a saída de prisioneiros de alto valor, o que dá ainda mais peso à posição de Damasco.
Foi o presidente Putin que realmente estabeleceu um eixo de fato Rússia-Irã-Turquia para lidar com fatos em campo na Síria – ação paralela ao embuste e solução-zero dos “trabalhos” em andamento na ONU em Genebra. Moscou enfatiza diplomaticamente que o trabalho do eixo complementa o que se faz em Genebra. De fato, o russo é o único trabalho baseado na vida real. Espera-se que tudo esteja assinado, com parâmetros definitivos bem fixados em campo ainda antes de Donald Trump entrar na Casa Branca.
Resumidamente: o projeto combo de mudança de regime, cinco anos (e ainda não terminou), que custou à OTAN-CCG multibilhões de dólares, para expulsar Assad da Síria… fracassou miseravelmente. Erdogan, o matreiro, parece que afinal aprendeu sua lição de realpolitik. Mesmo assim, foram abertas no front atlanticista miríades de avenidas para canalizar o ressentimento geopolítico .
O grande quadro não poderia ser mais absolutamente insuportável para os atlanticistas neoliberais/neoconservadores. Lentamente, mas sem parar de andar, Ankara vai tomando o rumo da Eurásia. Bye bye União Europeia e, talvez, OTAN; bem-vindas as Novas Rotas da Seda, também chamadas Projeto Um Cinturão, uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)], puxado pela China; bem-vinda a União Econômica Eurasiana [Eurasia Economic Union (EEU)] puxada pela Rússia; bem-vinda a Organização de Cooperação de Xangai [Shanghai Cooperation Organization (SCO)]; a parceria estratégica Rússia-China; e a Turquia como nodo chave de entroncamento na integração da Eurásia.
Para que tudo isso aconteça, Erdogan concluiu que Ankara tem de estar a bordo da estratégia de longo prazo de Rússia-China-Irã para pacificar e reconstruir a Síria e fazer dela um nodo chave também das Novas Rotas da Seda. Entre isso e uma “aliança” de interesses em conflito, com Qatar, Arábia Saudita e EUA, a escolha não é difícil.
Mas que ninguém se engane. Ainda haverá sangue.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Xi Jinping não perde tempo, por Pepe Escobar.


Chinese President Xi listens to U.S. President Obama during joint news conference in the Rose Garden of the White House in Washington
Presidente chinês aproveita confusão aberta em Washington, com eleição de Trump, e lança vasta ofensiva diplomática na Ásia, Europa e América do Sul
Por Pepe Escobar
Em capítulo ainda mais espetacular de sua saga reversa à Marco Polo, o presidente Xi Jinping da China fez, em 16/11, uma parada estratégica na Sardenha, Itália, em sua rota para participar da reunião de cúpula da Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [ing. Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC]) em Lima, Peru.
Por que a bela Sardenha? Com certeza não para cruzeiro em iate pela Costa Esmeralda. Trata-se, mais uma vez e sempre, das Novas Rotas da Seda puxadas pelos chineses.
A Huawei está construindo seu maior quartel-general europeu na Sardenha. Os chineses querem comprar o porto de Cagliari. E o fabuloso Pecorino sardo – sério aspirante ao título de melhor queijo de cabra do planeta – oferecido em pó, já está alimentando milhões de bebês chineses.
Como espécie de bônus extra, Xi Jinping, “Marco Polo da China”, exortou seus compatriotas, pela TV nacional chinesa, a investir numa maciça invasão turística na Sardenha. Agora, é disso que trata qualquer pacote de estímulo na Europa.
Enquanto isso, o presidente Obama pato-manco, também a caminho da cúpula da APEC, está na Alemanha passando o bastão de “líder do mundo livre” a Angela Merkel, mais desentendida que veado surpreendido pela luz dos faróis. Os faróis atendem pelo nome de Donald Trump.
TTP enterrado a sete palmos de profundidade

A imagem de um Xi efervescente ao lado de um Obama reduzido a pó de traque, contra o pano de fundo da costa do Pacífico sul-americano, será impagável. Longe vão os anos 1990s, quando Bill Clinton comandava a APEC e lhe aplicava o sinete da agenda dos EUA. Agora o Pacífico Asiático tem de se entender não só com a
Trumponomics protecionista, mas também com o fato de que a Parceria Trans-Pacífico (TTP), que Obama tanto prezava – o braço mercantil do “pivô para a Ásia” – está morto e enterrado, para todas as finalidades práticas.
A equipe de transição de Trump, comandada por Mike Pence, aconselhou o presidente eleito a enterrar a Parceria Trans-Pacífico (que reuniria os EUA mais 11 países de todo o anel do Pacífico), sem mais delongas, logo nos primeiros 100 dias de governo. O  mapa do caminho vai ainda mais longe e aconselha Trump a esquecer também o Acordo de Livre Comércio da América do Norte [ing. NAFTA], a menos que uma longa lista de “concessões” sejam atendidas.
Aliados abatidos dos EUA – sobretudo Japão, Cingapura, Austrália e Nova Zelândia – que contavam com a ascensão de Hillary e a entronização da Parceria Trans-Pacífico, estão decididos a trabalhar em reuniões “secretas” no Peru, para construir um artigo revisto. Para isso, será preciso assumir que os republicanos no Congresso podem concordar com que Trump conduza algum tipo de renegociação.
Há também a – distante – possibilidade de uma taxa de corte, excluindo os EUA. EUA e Japão respondem por cerca de 60% do PIB somado dos países da TTP. A TTP sem os EUA vira outro bicho, absolutamente diferente.
E isso nos leva à sutil contraofensiva de Pequim: promover a liga anti-TTP, na linha da Parceria Econômica Regional Compreensiva [ing. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP). O leste da Ásia, Japão e Malásia, além da Austrália não asiática – três atores chaves – apoiam a RCEP.
Apesar de o relacionamento Trump-China poder sempre acabar nos proverbiais mares tenebrosos, Pequim já pode ter certeza que o braço mercantil do pivô para a Ásia, que excluía a China, já é história.
Aqui, a palavra oficial, do vice-ministro de Relações Exteriores da China Li Baodong: “A China acredita que devemos fixar um plano de trabalho novo e muito prático, para responder positivamente às expectativas da indústria, manter o atual impulso e estabelecer uma área de comércio no Pacífico Asiático, e sem demora.” Nada de TTP; mais parecida com a RCEP.
Todos aqueles resets

Um novo acordo comercial do Pacífico Asiático representará, definitivamente um reset nas relações EUA-China.
Há também aquele outro reset crucial: com a Rússia.
O chefe pato-manco do Pentágono, Ashton Carter, “aconselhou” Trump e a equipe dele a não cooperar com a Rússia na questão da Síria. Foi solenemente ignorado.
O vice-ministro de Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, disse que Moscou não quer cooperação. Mas disse também que Moscou não cogita de “persuadir a liderança do Pentágono a modificar qualquer coisa relacionada a isso.”
Tradução diplomática: Vocês – o governo Obama – no que diga respeito à Rússia, estão mortos.
Assim sendo, haverá um reset. Será extremamente complicado, e em bases trumpianas de acordo-a-acordo: expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia; Crimeia; defesa de mísseis dos EUA; tentativas de revoluções coloridas. Dirá respeito a toda a Eurásia. E começará com cooperação na Síria.
Pequim e Moscou chegaram à conclusão de que Trump não é ideólogo (à moda dos neoconservadores): é homem pragmático. São inevitáveis os resets. Bem como algumas surpresas.
Trump pode estar inclinado a que os EUA incluam-se no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), furiosamente demonizado pelo moribundo governo Obama. O projeto de Trump, 1 trilhão de dólares para infraestrutura é coisa que a China já faz – iniciado no final dos anos 1990s. Ellen Brown tem uma sugestão: imprima dinheiro e construa toda a infraestrutura de que você precisa.
Um eventual acordo EUA-Rússia na Síria beneficiaria, afinal de contas – e quem poderia ser? – a China. Espelhando-se na Rota da Seda original, a China vê a Síria como nodo crucial das Novas Rotas da Seda, atualmente bloqueado. Imaginem um dia, em futuro não muito distante, em que Xi desembarcará em Damasco para assinar acordos comerciais. E requererá pacote de estímulos para que turistas chineses possam visitar uma Palmyra restaurada…