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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Fragmentos para dias nada felizes, por Márcia Tiburi.


Fragmentos para dias nada felizes
A “brasilidade” que eu conheço é a de uma árvore que desapareceu, que pegou fogo, que virou cinzeiro, que virou cinzas (Foto: Taifur Azam/Divulgação)

Às vezes a gente quer que nasça um texto. E nasce outro. Isso é um sortilégio que a gente tem que aceitar.
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Quem escreve começa a escrever o que os outros querem ler, quando querem ler. Isso acontece, sobretudo se você é jornalista. Pra minha sorte, não é o meu caso, nesse momento em que se disputam corações e mentes de gente mal informada, abusada midiaticamente, que não entende de nada, nem de ler um texto, o tal analfabeto funcional que se exibe nas redes sem vergonha porque não faz ideia do próprio papelão.
Eu não disputaria ninguém, porque amo e apoio os espíritos livres. E é com eles que eu quero ir.
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Tem uma coisa nesse ato de escrever que é a crueldade das relações que se instauram entre escritores e leitores. Antigamente, se dizia que de médico e de louco, todo mundo… Na era das redes sociais se tem que dizer que de médico, louco e de escritor todo mundo… Escreve-se muito. Até aí, que bom. Não sei se há leitura correspondente para embasar a tantos que se entregam ao ato crucial da escrita no Twitter e no Facebook. On Bullshit, como diria H. Frankfurt.
Em nome dela, exige-se que cada um escreva aquilo que se deve ser escrito para saciar os espaços adequados, não a inteligência. Nunca ela. Nunca o chamado “textão”. Não há tempo para textão. Todo mundo tem pressa. Inteligência não vem ao caso. Que papo é esse?
*
O mundo do excesso de informação e também de desinformação é um mundo naturalmente desinteressante. A chamada “lacração” faz parte da ordem do discurso em que só o que choca ou produz algum tipo de excitação tem direito de atenção. É duro ser interessante diante de espíritos dormentes e beócios, e os donos dos meios de produção do discurso jogam sujo com as mentes vazias e delirantes. As mentes calmas, os espíritos sutis não tem lugar na guerra antipoética das redes. Ainda bem que há o slam, o hip-hop, que há a poesia. E ainda há poesia.
Penso agora, que luxo é poder ser desinteressante quando a ordem social e política, ética e estética do mundo anda tão agressiva, tão alucinada. Que bom poder ficar quieto e aproveitar o convívio consigo mesmo, deve pensar alguém com a sabedoria de quem já viu de tudo nessa vida e, nela, alcança a façanha de continuar vivo pensando que ainda vai achar algo realmente interessante para ver ou fazer.
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Nem todo mundo quer o olhar de todo mundo. Às vezes o que se deseja é só um olhar perdido de alguém que se encontra consigo mesmo ao ler o que a gente escreveu.
Isso valeu todo o esforço e o tempo perdido de escrever. Penso agora naqueles que acham que não vale mais a pena escrever. Que agora o que restou já era, só porque o Brasil elegeu a ditadura de um asno no laranjal pra governar.  Que imagem horrível, dirá a sociedade protetora dos asnos (que falta de respeito, filósofa!)
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Estava aqui tentando me entender com meu pessimismo. Você, tem sido pessimista? Pois é. Estava aqui numa conversa com a minha própria alma,  um diálogo no sentido platônico e original do termo, e era bastante triste esse meu diálogo porque o assunto era o Brasil. E ele hoje nos dói mais do que nunca, porque a essa altura da história do Brasil, a gente – não interessa a cor, a religião, o sexo ou a ideologia – achava que já se podia ter esperança e ver os seus resultados concretos. E é só morte, lama, corrupção e miséria, e cancelamento de direitos, e políticos bizarros e ridículos destilando má fé diante de gente sem noção que – cegos de ideologias que não dizem o seu nome – não sabia o que fazia.
No fundo, aceitam o convite para serem fascistas porque está na moda. Não sabem o que fazem, e não entendem nada de Jesus…
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Hoje estava ouvindo aqueles meninos todos de Pernambuco cantando com o Alceu Valença, um mais bonito que o outro, e pensando, que rico esse Brasil, que coisa mais maravilhosa tantas pessoas que surgem nesse lugar.
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Ontem à noite, eu buscava mapas da Ilha Brasil, aquela ilha mítica de que se falava no imaginário medieval. A etimologia da palavra Brasil, de fato, remonta à etimologia da árvore do Pau-Brasil. É uma longa história que remonta ao metal que dá nome à cor da madeira.  A história é longa, mas é a história de nossa vermelhidão, de uma memória da “brasa”. Não o vermelho das esquerdas ou do comunismo vomitado pela boca dos otários de plantão a odiar os idealistas da comunhão sempre insurrectos contra o capitalismo da avareza. Mas o vermelho de brasas, de algo que vira carvão e um dia vira pó. Pó: aquele lugar ao qual retornaremos.
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Perdoem o memento mori, mas falei que esse texto não era sobre felicidades. Talvez ele se torne, mas ainda temos que passar por algumas instâncias alquímicas. Lembrei de um texto que escrevi há anos chamado Brasil Cinza. Escrevi porque a primeira vez em que vi o Pau-Brasil foi na forma de um cinzeiro na casa de uma gente burguesa e só muitos anos depois é que achei uma árvore viva daquilo que para muita gente ainda é pura matéria prima, natureza rebaixada a “commodities”. Era uma vontade de escrever uma espécie de “filosofia brasileira”, mas que tocasse nas profundidades materiais do método. Quero dizer, eu queria falar não de Pindorama, mas do que foi feito do que poderia ter sido Pindorama. Eu queria falar das sobras e de todo um esquecimento de onde viemos e para onde vamos em termos de filosofia da nossa triste história.
*
Brasil está longe de ser Pindorama. Brasil, o nosso nome de guerra tem só uns 200 anos. Não é muito mais velho do que o museu nacional que já não existe, embora estejam tentando fazer um remendo, uma múmia com os restos mortais do museu queimado como um pau-brasil que virou cinzeiro.
A “brasilidade” que eu conheço é a de uma árvore que desapareceu, que pegou fogo, que virou cinzeiro, que virou cinzas. E agora os nossos trópicos carnavalescos (pra quem é dos trópicos e dos carnavais, eu sou dos subtrópicos e da estética do frio) perdem a cor. Tudo é carvão, cadáver, resto, nesse país perdido nas trevas em que foi lançado por tantos algozes extraindo dele o que pode e o que não pode ser extraído há 500 anos. Extraindo ainda hoje, os minérios (e pensem na morte anunciada de Minas, como Minas vai sobreviver a tantos cadáveres, tanta desgraça, a tanta Samarco e Vale?), a flora, a fauna, o nosso povo explorado pelo capital que suga direitos como se fossem sangue.
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Penso agora naqueles velhos homens brancos europeus com o pau podre de sífilis empesteando as mulheres vítimas da desgraça eterna de ser mulher em qualquer tempo da sociedade patriarcal.
Eles vem do inferno e estão prontos à matança.
Penso agora na família Drácula, que detinha o poder na Transilvânia – leia o livro Dracula: A Biography of Vlad the Impaler  (E.P. Dutton) e volta ao poder, dessa vez encarnada no Brasil. O conde empalador e seus filhos abjetos, traidores, monstruosos fazendo o que bem entendem contra o povo que os elegeu ao sabor da miséria espiritual de uma época. A história transilvânica se repete no Brasil-eterna-terra-de-ninguém.
O mundo seria mais misterioso se o simbólico e o real não estivessem tão intimamente entrelaçados.

A ‘mediocracia brasileira’ e o Brasil que não hesita em resistir, por Além da Lei.

A ‘mediocracia brasileira’ e o Brasil que não hesita em resistir
(Arte Revista CULT)

“Quase tudo que é grave é difícil; e tudo é grave”, já dizia Rilke. Este alerta talvez nunca tenha servido tanto ao Brasil quanto nos tempos atuais. Mas não desistir de pensá-lo é uma obrigação. A sucessão vertiginosa de acontecimentos perversos impede quase que por completo o fôlego da reflexão. A destruição diária tem tornado difícil preservar a lucidez. O festival de besteiras que assola o país é inesgotável. Menos de um mês de governo, o ministro da Educação já disse que o “marxismo cultural faz mal à saúde”; o ministro da Casa Civil afirmou que “o risco de uma arma em casa é o mesmo de um liquidificador”; a ministra dos Direitos Humanos esbravejou que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Já a nomeada como ministra da Agricultura recebeu doações de um réu por assassinato de líder indígena e será responsável pela demarcação de terras indígenas. Há, sobretudo, o astrólogo reiteradamente citado por membros do governo como mais influente intelectual de todos, que acusa Newton de ter “espalhado a burrice”, contesta o heliocentrismo e a teoria da relatividade de Einstein; sem esquecer o coordenador do Exame Nacional Ensino Médio dizendo que Raskólnikov, personagem de Crime e Castigo, era um “típico estudante esquerdista influenciado por Nietzsche”. Nem precisamos entrar em sua base parlamentar afeita ao BBB: Bíblia, Bala e Boi. Enfim, a diversidade é grande.
A experiência política que se inicia no Brasil seria fascinante se vivêssemos noutro planeta e não estivéssemos com a maior floresta do mundo em perigo e se a política naturalizada de extermínio agora não tivesse virado plano deliberado de governo. Por medo de ser assassinado, um deputado federal reeleito, com enorme atuação em defesa da população LGBTQ+, desistiu do mandato e afirmou não pretender voltar ao país tão cedo. Após publicar sua decisão, o presidente da República se manifesta no Twitter dizendo: “Grande dia!”, seguido de um sinal de positivo.
O assassinato de Marielle Franco, parlamentar do Rio de Janeiro, depois 10 meses, segue sem qualquer esclarecimento, senão a de que familiares do policial militar suspeito da morte e de chefiar uma milícia no Rio de Janeiro trabalhavam no gabinete do filho do presidente Flávio Bolsonaro e de próxima relação com o clã.
Os exemplos se empilham a exaustão. Entretanto, insistimos eticamente de estar à altura do que acontece. Poderíamos começar apontando, pelo menos, a direção de duas questões fundamentais para tentar refletir sobre o Brasil atual: 1º) como a vitória de Bolsonaro foi possível e o que significa sua chegada ao poder – como viemos parar aqui? 2º) quais são as possíveis linhas de fuga (quais alternativas e resistências) a serem criadas?
As possibilidades de enfrentamento destas e de muitas outras questões são infinitas e as respostas sondáveis, pela profusão dos fatos, poderão ser desmentidas no momento seguinte. Porém, cabe arriscar ler o que se passa, exatamente valorizando a crítica radical da vida cotidiana, ou seja, pensar a transformação social como um exercício de atenção pleno das potências que ressoam nas situações que atravessamos.
O que ele faz ali? Ou sobre como não imaginamos que isso aconteceria
A pergunta é inafastável: como um grupo tão exótico e provinciano conseguiu chegar ao comando de um país tão complexo como o Brasil? Analisar o que trouxe o desejo social até o ponto de termos um governo Bolsonaro é antes de tudo um problema vital. Passa, sobretudo, por um lado, em não vê-lo como uma simples anomalia política e, por outro, não crer na exuberante ideia de que temos cinquenta e sete milhões de fascistas no Brasil.
O atual presidente é a própria corporificação da mediocridade que pode acompanhar o que há de pior em cada um. Seu mérito, este sim incontestável, foi encarnar a vulgaridade de um mal banal, a capacidade de ser reconhecido, não como melhor, mas como igual aos seus eleitores. Cada um de nós, afinal, conhece um tipo misógino, homofóbico e racista como Bolsonaro. Nada de excepcional nele, portanto. Todavia, sabemos o que isso significa. Adorno chamava esta figura de “pequeno grande homem”: sujeito capaz de dizer “as verdades”, sem “politicamente correto”, “como qualquer um”, com a burrice prosaica do senso comum e diluído em estereótipos superficiais. Este é “o padrão da propaganda fascista”: agressividade emocional que crie turba; escassez de ideias e a rigidez mecânica; em suma, alguém que ostente sem vergonha sua virtuosa ignorância. Por isso, não necessitará determinantemente de um programa positivo, mas de permanentes ameaças e medos que sustentem tanto sua onipotência quanto a ideia de que é mais um do povo.
Neste particular – há que se dizer – Bolsonaro não é Trump. É pior, e não poderá ser considerado o “Trump brasileiro”. Se ambos podem estar próximos pela capacidade de se exprimirem sem inibições suas mentalidades mesquinhas, Bolsonaro não pertence a qualquer elite com algum destaque particular, mesmo que duvidoso, como Trump. Passar quase três décadas no parlamento brasileiro, conseguindo aprovar dois projetos de lei, notabilizado por ser um personagem que ninguém levava a sério (chegou a dizer em 2011, quando se candidatou à presidência da Câmara de Deputados, obtendo 4 votos dos 513 possíveis: “eu não sou ninguém aqui”), é a consagração do homem médio. O “homem sem atributos” de Musil virou mito. O pequeno fascista é liberto de qualquer receio diante da indignação transformada em ódio.
Mas como isso acabou por ser canalizado? Como se forjou uma rede de afetos capazes de produzir Bolsonaro?
A mediocridade, de forma concreta, pode ser estampada naquele tipo de sujeito que, no Brasil, passou a sentir autorizado a repetir sem qualquer vergonha suas frases de ódio, principalmente aqueles que se sentiam acuados nos últimos tempos. Diga-se diretamente: o recalque do homem branco heterossexual emerge sempre que alguma disfunção atinge sua posição de privilégio que considera direito inalienável. Situação profundamente vivida no Brasil nos últimos anos: a ênfase nos avanços políticos reais dos movimentos feministas, negros e LGBTQ+. Não esqueçamos o quanto isso afeta os privilégios de classe, raça e gênero no Brasil: as cotas nas universidades, a exposição e enfrentamento da violência de gênero e a PEC das Domésticas (até 2012, uma categoria formada majoritariamente por mulheres negras e pobres não tinham os mesmos direitos básicos das demais, como limite na jornada de trabalho e seguro desemprego) são apenas alguns exemplos de onde o rancor se estabeleceu e o sintoma do reacionarismo se reuniu. Reação pelo ódio consagrada exatamente no que disse o presidente na posse: “Libertar a nação do politicamente correto”, ou seja, reforço da autorização expressa tanto de propagar seus sentimentos reprimidos de tripudiar minorias quanto de aniquilá-las. Opressões capilares autorizadas e reproduzidas que estampam a necropolítica brasileira. Bolsonaro materializou aquilo que sempre alimentou os fascismos nossos de cada dia.
O ódio como combustível político oferece ares quase determinantes para entender a “nova direita” no Brasil. Sua emergência soube muito bem entender os anseios que pairavam, e trabalhou a esperada “mudança” baseada no “retorno”. Noutros termos, souberam angariar o desespero dos tempos que correm. Assim, uma cartografia dos reacionarismos no Brasil não poderia ser feita ignorando o pano de fundo global da corrosão da confiança nas instituições políticas, fruto de um esgotamento da democracia parlamentar representativa. Deve-se saber identificar dentro do grande colapso liberal capitalista o surgimento das novas direitas.
No caso brasileiro, antissistema e antipetismo se uniram com Bolsonaro. Se uma alt-right possui uma retórica antissistema – seja desde uma xenofobia etnonacionalista (como no caso da Itália, Hungria e mesmo dos EUA) seja por um populismo antiestablishment, impulsionados por um debate midiático digital – em termos brasileiros, aquilo que se poderia chamar de “conservadorismo brasileiro contemporâneo” é muito heterogêneo. Transpõe uma simples conjunção de protofascismos. Há uma multiplicidade de frustrações e desesperanças, depois de um período de certa experiência social democrata que abriu espaço a vários grupos. Forjado pelo desamparo, como já foi apontado por várias análises, poderíamos identificar pelos menos três eixos que se cruzam: a) um recorte “cultural e moral”, expresso por uma moral cristã conservadora de tom evangélico-empreendedor, que cresceu onde uma Igreja Católica deixou de se encontrar com os mais pobres, e tragado pelas guerras culturais, totalmente refratário às conquistas de gênero por exemplo; b) um viés de “classe”, bem identificável pelo rechaço às reformas sociais e com medo da perda de privilégios, como já foi dito; c) uma vertente “geracional”, tanto aqueles mais velhos, dispostos à nostalgia da ordem pelo militarismo brasileiro, medo do “fantasma comunista” e saudosos da ditadura, quanto aqueles antissistêmicos jovens hoje mais acoplados ao neoliberalismo.
Não esqueçamos que tanto esperança quanto medo, cristalizado em ódio, são afetos reversíveis. Daí se pode entender por que estes agenciamentos puderam se dar.
O ambiente de um “capitalismo de plataforma” já deu excessivas provas da importância das redes sociais. Uma “algoritmocracia” já se dispôs como modelo político. No caso do Brasil, não precisaremos seguir muito as pistas do que pessoas evocavam no dia da posse em Brasília. Os gritos de “WhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!” sinalizam algo. Cambridge Analytica, Steve Banon e seus asseclas, seja juntos com Trump ou com Brexit, também não nos cansarão de lembrar. [Aos italianos mais ainda, vide o The Movement de Banon agora com seu templo populista, a “Certosa di Trisulti”, em Collepardo, pronta a atuar nas eleições europeias de maio.
No caso Bolsonaro, ainda muito mais no futuro virá à tona quanto à manipulação de fake news através de grupos de WhatApp financiados de maneira nada clara. Apenas lembremos por ora que o “Chicago boy” de Bolsonaro, o super-ministro da Economia Paulo Guedes, um economista medíocre até entre seus pares – para além de recapitular a união orgânica entre militares e neoliberalismo de catástrofe, como na ditadura Pinochet no Chile – ostenta profunda amizade com Jorge Selume Zaror, colega de Guedes em Chicago, antigo diretor de orçamento de Pinochet e que levou Guedes para dar aulas no Chile. Seu filho coincidentemente hoje também é secretário de comunicação do Chile e dono da Artool, maior empresa chilena de Big Data, empregado durante anos na Cambridge Analityca. As imbricações de uma tecnopolítica com este neoliberalismo autoritário são um elemento gigante nas dinâmicas governamentais atuais.
Por outro lado, compreender o “bolsonarismo” passa por entender a genealogia lulista. Ele é uma espécie de difração do lulismo. Se o Brasil foi a última experiência das chamadas esquerdas no poder no século 20, através de um capitalismo de Estado, interessado menos em reduzir desigualdades e mais propenso a incrementar a cidadania pelo consumo, independente dos seus inegáveis avanços, deve-se atentar antes para as contradições do PT no poder, para depois examinar uma espécie de “negacionismo reativo” que se abateu sobre ele, especialmente quanto a perceber seu próprios erros. A lista seria demasiadamente extensa de equívocos, mas de todo modo, em grande medida a autocrítica sempre requerida e nunca realizada por parte do PT, passaria, em termos gerais, por perceber a sua indiferenciação política quanto aos demais espectros, inclusive de pautas de direita. Fica demasiadamente difícil saber o que a esquerda é quando não se propõe distanciar radicalmente daquilo que a direita propõe.
A começar pele negação peremptória de casos de corrupção, mesmo que analisados de modo seletivo pelas dinâmicas midiáticas, legislativas e judiciais parciais. O paradigma desenvolvimentista já havia feito Dilma solapar direitos trabalhistas muito antes; diversos movimentos sociais tornaram-se mais governo do que alavanca de reivindicações em ambos os governos – movimentos sociais que agora poderão ser perseguidos pela mesma “lei antiterrorismo” sancionada por Dilma; os notórios laços petistas com a bancada ruralista levaram ao desmantelamento da Fundação Nacional do Índio muito antes da demarcação das terras indígenas decretada por Bolsonaro ficar a cargo do Ministério da Agricultura – sem esquecer que o governo Dilma foi o que menos demarcou terras indígenas na história do Brasil. Mudança climática, para o governo atual, é caso de um “complô marxista”; antes, para Lula/Dilma,sequer passou perto de ser compreendido como assunto deles. Especificamente com relação à Amazônia, reeditaram com êxito a versão da ditadura brasileira das grandes obras hidrelétricas (como Belo Monte, Jirau, Santo Antônio, Teles Pires etc). Vale referir as comunidades urbanas pobres expulsas de suas casas pelos megaeventos superfaturados da Copa do Mundo e Olimpíadas. Ainda destaque especial a “Lei de Drogas” editada em 2006 por Lula que contribuiu em grande parte para o encarceramento em massa no Brasil (mais de 750.000 presos), notadamente jovens, negros de regiões periféricas, em especial mulheres (mais de 700% de aumento no encarceramento em 16 anos).
Não obstante, de modo algum, deve-se ver as experiências petistas como iguais às anteriores. Repetimos: o avanço nas políticas afirmativas; o acesso ao ensino superior, a expansão de políticas de renda como o Bolsa Família; o aumento real do salário mínimo e a consequente redução da miséria e da pobreza (42 milhões ingressam na classe média, salário mínimo ficou 50% acima da inflação), de fato, mudaram o país. Problema é não ver o limite claro que a gestão de um neoliberalismo com rosto mais humano pode ter, ou, para dizer noutros termos, uma gestão reformista com sensibilidade social – uma política de capitalização dos pobres – possui. Se os avanços notáveis em termos de acesso pelo consumo se deram, o ritmo de crescimento da parcela mais rica da população também manteve-se intacto (nunca os bancos lucraram tanto na história do Brasil); a desigualdade não diminuiu, o que pressionou o custo de vida para cima, generalizando o fenômeno bem descrito como “produção do precariado”. Em resumo, nada houve de constituição de um núcleo de serviços públicos de qualidade e com consistência no Brasil.
Assim, como acreditar nos acertos se os erros são negados ou as contradições caladas? E como achar que a população não tem discernimento ou que foram enganadas se politicamente as esquerdas não se demonstram ser diferentes? A partir daí poderá se entender um pouco melhor a formação de um nexo que os fluxos conservadores souberam canalizar seletivamente a repulsa à corrupção diretamente ao PT, o preconceito de classe e o efeito rebote da frustração pelos limites da inclusão pelo consumo. A autocrítica como compromisso público e prática política, e não como expiação de pecados, é um trajeto importante para pensar as alternativas que podemos ter.
Chamemos, com a intensidade que for, o atual governo brasileiro de “momento neofascista do neoliberalismo” ou uma forma de “novo neoliberalismo autoritário”. Quaisquer dessas aproximações apenas espelham a estratégia política peculiar de um regime de “presidencialismo de ocupação”, ou seja, a visão da nação como um território a ser ocupado militarmente, onde qualquer opositor é um traidor da pátria. Sua logística teológica e militar impõe, portanto, a fabricação permanente de inimigos. Lembremos que o então candidato Bolsonaro prometeu enviar a esquerda, senão para a prisão ou exílio, para a “ponta da praia” (alusão ao lugar onde se jogavam os cadáveres dos opositores políticos na ditadura militar). Para além da retórica que se poderia alegar, o elemento de uma visão eliminacionista da política é central.
E todo medíocre sabe que no fundo assim o é, por isso precisa reafirmar os desastres e forjar os inimigos.
Estamos diante de algo novo, peculiar organização e exercício de poder também em escala planetária, e a consolidação do caso brasileiro é de suma importância. Talvez o que torne o caso brasileiro pior e o diferencie é a tremenda condição de Bolsonaro em poder melhor integrar o “novo estado de legalidade” da exceção. No poder, seus limites de constrangimento institucionais são quase nulos frente, por exemplo, a Trump ou Salvini – mais uma enorme distância. Gerindo e produzindo crises, Bolsonaro tem o poder de integrar, talvez como nunca, medidas de urgência ao modus operandi trivial do governo, um modo de estado de direito que integrará em sua legislação a situação de guerra econômica e policial permanente. Não meramente a construção de um sistema de exceção – como historicamente consolidado no Brasil desde sempre – mas um sistema de normas, por assim dizer, que proíbe a exceção. Se o país sempre se consagrou por matar seus pobres, negros, suas minorias em direitos, seus trabalhadores rurais, seus ativistas e jornalistas, o estado do desastre agora inaugura um novo ciclo de violência política: o Estado escancaradamente convertido numa arma de guerra contra populações mais aguda ainda.
Para onde podemos ir: quais alternativas a serem criadas?
Em apurada síntese, até aqui, não devemos perder de vista o mérito de Bolsonaro em ter sabido aliar a escalada repressiva tradicional em contexto brasileiro com a energia da rebeldia social liberada ao menos depois de 2013 no Brasil. Perceber os caminhos alternativos para a atual catástrofe brasileira deverá passar pela atenção à força das demandas anti-institucionais. Não obstante, até aqui, ao que tudo indica, não seria temerário arriscar que ainda falta uma esquerda capaz de enfrentar Bolsonaro e principalmente uma resposta consistente que não esteja atrelada aos ritmos das estratégias da direita no poder.
Porém, sempre há tempo. Os ecos de 2013 persistem. A contingência das revoltas e o fervilhar das mobilizações sempre retornam. No Brasil, a maré da Primavera Árabe e dos Occupy traduzidas por junho de 2013 foram profundamente rechaçadas – lembremos que era Fernando Haddad o prefeito da cidade de São Paulo, maior foco de repressão à época. Não desperdiçar a experiência é fundamental. As revoltas eclodirão e com mais força ainda nos instantes próximos. Tenhamos a sabedoria de vivê-las.
Por outro lado, diante de um governo Bolsonaro, misto entre um patético despreparado e um poderoso representante do neoliberalismo de catástrofe, uma das principais armadilhas para forjar alternativas de solidariedades e resistências comuns é se iludir que ele não irá durar, que as instituições ou a realidade irão freá-lo. Ele é a parte torturadora do regime militar, ninguém dali vai domá-lo. Isso alarga ainda mais o flanco aberto que parece existir para a ação hoje, principalmente tendo em vista os primeiros dias governo. Apostar que a selvageria irá ser amansada por um sistema político destroçado é um erro grave, pois não percebe que para se manter no poder ele retira seu fôlego exatamente do seu colapso. E, mais, esta postura enfraquece sobremaneira a capacidade de mobilização e proposição.
O estado de desencanto é profundo com as próprias instituições políticas e isto não se esgotará. E, se por um lado, Bolsonaro é fruto dessa conjugação antiestablisment/antipetista e tentará manter sua força a partir disso, por outro lado, seu vazio de promessas permite a todos sonhar grande, abrindo espaços tanto para que se esperem resultados enormes de transformação que não virão, como também para um abismo de frustrações, horizonte que já começa a ser visto em menos de um mês de governo. O caldo da revolta é enorme quando se pode sonhar tudo já que não se prometeu nada.
A ambiguidade é extremamente frutífera neste instante. Mas não esperemos que um concerto democrático ancorado nos partidos possa dar algum tipo de resposta satisfatória no momento, principalmente porque não parecem, de fato, quererem enfrentar propriamente o capitalismo contemporâneo em sua fase de neoliberalismo perverso. É uma armadilha, movida pelo desespero, priorizar aliança com o “centro”, o que representaria tentar voltar a um falido presidencialismo de coalizão que culminou no próprio surgimento das direitas. Erro grave será apostar, “por estarmos todos em perigo”, na “união” contra os novos populismos de direita. Mesmo que conseguíssemos, apenas voltaríamos à mesma situação que ensejou o seu nascimento. Valerá mais a pena buscar esta imprescindível e atual luta contra a opressão, não através da improvável regeneração dos partidos, que fazem parte da mesma crise de representação, mas das multidões que se autoconvocam, das constelações sociais e políticas que cooperam, cuidam e colaboram fomentando múltiplas formas de afeto.
Desativar afetos reativos está no cerne dos embriões de uma alternativa real para enfrentar Bolsonaro.
As fagulhas já foram lançadas para uma movimentação com estratégia, consistência e propósito. Se o reacionarismo brasileiro, como dito, também foi resultado da explosão feminista, LGBTQ+, antirracista, o furo na bolha institucional passa por aí. Lembremos a rede “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, com mais de 4 milhões de mulheres, que fez eclodir o #EleNao na última semana antes da primeira volta das eleições. A onda feminista relativamente espontânea venceu de alguma maneira, pois além de fazer acreditar, faz ainda lembrar a vocação internacionalista das esquerdas articuladas de vários modos em diferentes contextos pelo mundo.
Não serão à toa os ataques privilegiados do governo para “acabar com a ideologia de gênero” ou “lutar contra o lixo marxista nas escolas”, como dito pelo presidente eleito no discurso de posse. Num governo em que a guerra impera, é preciso fazer calar de quem nunca se acomodou com as regressões autoritárias ou aos arranjos populistas que marcaram nossa história. No fundo da sua mediocridade, esta associação macabra de militares, pastores, latifundiários e banqueiros sabe bem de onde pode vir o seu fim.
Assim, a insistência deve passar, sobretudo, pela indignação, não recoberta pela mera reação, mas à altura das linhas de força que a esquerda tradicional não consegue captar. Enfrentar as contradições de uma esquerda no poder; fazer o luto da própria hegemonia lulista; abandonar os projetos personalistas e as curadorias partidárias – enfim, lutar contra uma espécie de servidão voluntária, parece fazer parte desta tarefa.
Fazer a resistência (é) criar corpo.
Resistir não é reagir simplesmente, ou seja, um fraco desdobramento passivo da impotência antipolítica. É, sim, sermos capazes de estar à altura da indignação social, algo que de uns anos para cá não foi feito no Brasil. Repita-se: a brecha de junho de 2013, onde se apresentava a “sociedade contra o Estado”, não foi aproveitada e acabou amplamente barrada pela esquerda institucionalizada. Grande parte do antipetismo foi resultado de o partido não ter sabido reconhecer as manifestações exatamente como propulsoras das transformações estruturais do país, preferindo aderir ao que havia de mais retrógrado na casta política brasileira, abrindo horizonte para que, pelo marketing digital, o antiestablishment fosse agenciado em outra direção.
Fazer a resistência criar corpo é, antes, ter sensibilidade, ser capaz de agenciar o desejo, criando a revolta que povoa corações e mentes.
E se pudéssemos arriscar, o voto em Bolsonaro foi menos fruto do antipetismo do que da territorialização retrógrada dos fluxos e linhas de fuga que junho de 2013 ensaiou. Necessário agora pesquisar os germens da indignação que virá, exatamente porque Bolsonaro continua a ser o retrato mais fiel do establishment político. Trata-se de mapear o conjunto de crenças e desejos sociais numa nova vidência e gestar as condições para uma nova sensibilidade coletiva.
Resistência hoje é condição de conectar o mais possível com nossa condição vivente, afetar-se pela percepção da existência social. Nada de mais concreto que habitar a vida o mais plenamente possível, numa espécie de ressonância intensiva entre afetos. Uma luta micropolítica não poderá ser ingênua e nem será oposta a um embate macropolítico. O novo e desafiador neste momento, no entanto, é que não há como crer num porvir harmonioso e sem conflitos, mas dar-se conta de que a vida política é uma luta constante entre forças ativas e reativas, luta contra forças que querem destruir a vida, não somente na sociedade, mas em nossa própria subjetividade. Algo que sempre foi claro e presente na luta dos negros, indígenas, de mulheres, de LGBTQ+ etc.
Diretamente, em alguma medida, em qualquer espaço a insurreição passa pela criação de outras formas de viver organizadas desde lugares de subalternidade, ou seja, composição de coletivos efêmeros, porém com uma mesma frequência de afetos, que se agitam em corpos que se juntam. Fazer vibrar estes embriões que querem germinar requer ações que lhes darão forma. Tais ações não se dão sozinhas, por isso necessitam de experimentações coletivas que as produzam. Aqui está a articulação indispensável e nova entre dinâmicas macro e micropolíticas – por ambas dimensões, a resistência faz corpo. Vale a provocação de que precisamente nestes momentos em que figuras bizarras como Bolsonaro assumem protagonismo é que surge a maior possibilidade de uma esquerda radical emergir, sem medo de dizer a que veio e livre das amarras dos velhos pactos políticos. É preciso, todavia, ter a ousadia de enfrentar e propor um novo pacto social.
Mas como? Reativando o desejo da relação entre corpos que falam. Podemos falar muito em redes sociais, mas não nos encontrar efetivamente. A experiência de corpos que se encontram é que poderá disputar as permanentes metamorfoses dos “fascismos que vêm”. Se o fascismo é antes um modo de vida que um regime político (que pode ser inclusive democrático), desativar paixões tristes no terreno da vida cotidiana torna-se uma ação principal. Deleuze lembrava que um traço fundamental da esquerda passava por uma forma especial de sensibilidade, de experimentar o mundo de modo diferente. E repita-se: experimentação não se faz só, é germinação que pede produção. Portanto, indispensável que se articulem como resistências. Dinâmicas de auto-organização popular são efeitos de ressensibilização social através da criação de um “comum sensível”. Em termos mais simples, a disputa no e para um campo social novo é dada exatamente pela modulação dos afetos coletivos: onde a crise põe ressentimento, o desamparo de “cada um por si”; a ativação social dispõe uma repolitização, que já está aí, solidariedade e apoio mútuos que formam laços de ação coletiva.
Repolitização que já está aí, desde a ideia de que a sociedade não se transforma desde cima, se joga por todos os lados, não desde instâncias privilegiadas estatais, mas no cotidiano das relações de poder que configuram nossa maneira de entender o que é sexualidade, trabalho, educação, saúde etc. E este tipo de transformação está ao alcance de todos, se joga na vida cotidiana dos gestos e decisões que somos implicados. Se, neste período obscuro pelo qual passa não somente o Brasil, o mal estar social antissistema foi canalizado pela direita, não se trata apenas de achar uma nova gramática, reduzir a política a uma “comunicação eleitoral”, que faça seus votantes “despertarem” e convencê-los a mudar. As direitas crescem não por terem uma política comunicativa melhor – seus avatares, fake news e o esvaziamento da linguagem lançados em larga escala são a prova disso. Elas não estão interessadas em transmitir algo a ser refletivo, mas se apresentaram como lugar adequado para depositar os anseios sociais. Noutros termos, o desafio a um contrapoder radicalmente antifascista passa por produzir subjetividades, criar sensibilidades novas, formas de ver e sentir o mundo com crenças e valores com os quais, apenas depois, se possa sintonizar uma mensagem eleitoral. Não se trata de abandonar a esfera representativa, muito pelo contrário, mas de refazê-la e repensá-la como modulação de afetos coletivos para transformar as coisas.
Finalmente, dispor um conjunto de singularidades ligadas em constelação, isto acaba por ser o desafio constante. Segundo Antonio Negri, será este poder cooperativo que levará a multidão em direção ao comum. Os circuitos de medo, assim, são o elemento mais nocivo a se enfrentar. Não ter medo é primordial para não ceder aos fascismos e avançar. É a alegria e a força de estarmos juntos contra o medo coagulado em ódio. A força da imaginação criativa nunca deixou de passar antes por uma enorme dose de desamparo. Não obstante, cabe assumir a luta, pela força difusa e múltipla que conduza à passagem para uma esquerda radicalmente antifascista.
Augusto Jobim é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia na PUCRS

Por que precisamos criminalizar a LGBTfobia no Brasil, Renan Quinalha.


Por que precisamos criminalizar a LGBTfobia no Brasil
A discussão sobre a punição de crimes de ódio por motivação LGBTfóbica não é novidade na agenda política brasileira (Reprodução)

Não é novidade alguma que o Brasil, que se orgulha de ser uma terra paradisíaca construída a partir das misturas e diferenças, apresente anualmente índices alarmantes de violência contra pessoas LGBT. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, em 2017, uma pessoa LGBT foi assassinada por crime de ódio a cada 19 horas. Em 2018, foi um LGBT morto a cada 20 horas. A violência estrutural e persistente contra este grupo vulnerável não dá sinais de estar próxima do fim; pelo contrário, em um contexto de ascensão de forças conservadoras e de franca cruzada moral, multiplicam-se os casos de agressões e atentados contra pessoas LGBT.
Reivindicação histórica do movimento LGBT desde o início de sua organização, há quatro décadas, o fim da violência e a criminalização da LGBTfobia são uma pauta que, ao menos desde 1995, já frequenta os debates legislativos no Brasil. No entanto, a bancada fundamentalista religiosa, que só cresceu desde então, tem se empenhado – com total êxito – em interditar esses debates no Congresso Nacional.
A despeito ou justamente por conta da omissão do Legislativo, nesta quarta-feira (13) serão julgadas no STF duas ações – um mandado de injunção coletivo proposto pela Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão proposta pelo PPS. Ambas buscam a declaração da mora inconstitucional do legislador; o reconhecimento da obrigação de criminalização da LGBTfobia estabelecida pela Constituição e que o STF estenda o conceito político-social de racismo para abranger a LGBTfobia, algo já feito no caso Ellwanger.
Trata-se de casos complexos do ponto de vista jurídico e que se tornam ainda mais delicados diante da atual conjuntura de um governo extremamente conservador que mobiliza a diversidade sexual e de gênero como um espantalho moral. Mas, justamente pela atual conjuntura é que se faz necessário que o STF declare a procedência dos pedidos dessas duas ações.
Sem dúvida, a criminalização da homotransfobia é uma pauta polêmica em nosso país. De um lado, setores conservadores, sobretudo religiosos, mobilizam-se contra essa proposta do movimento LGBT que, segundo eles, implicaria uma restrição indevida na liberdade religiosa, de culto e de expressão, na medida em que não poderão mais propagar “opiniões” que, muitas vezes, escondem discursos de ódio e de discriminação.
De outro, muitos defensores de direitos humanos e outros militantes progressistas criticam a luta pela criminalização da homotransfobia sob o argumento de que ela implica um reforço do Estado Penal e da racionalidade punitiva seletiva que, ao fim das contas, recai sempre e apenas sobre os setores mais pobres da sociedade.
Em relação à primeira objeção, oriunda sobretudo dos setores religiosos fundamentalistas, nem há tanto mais a discutir. Já está claro que pregar o ódio, a inferiorização, a intolerância e a violência contra setores vulneráveis não é aceitável.
O presente texto visa, assim, fazer uma defesa da necessidade da criminalização da LGBTfobia no atual contexto e, ao mesmo tempo, estabelecer um diálogo franco e de pressupostos compartilhados com os que, ao criticarem o Estado Penal e defenderem o direito penal mínimo ou o abolicionismo, levantam a segunda objeção acima referida.
Nosso objetivo é demonstrar que a aparente contradição existente entre uma posição de crítica ao direito penal (até mesmo abolicionista) e a defesa da punição dos crimes motivados por ódio pode ser, senão superada, ao menos mediada de maneira consequente se considerada à luz de um diálogo que não oponha, mas que concilie, as tensões entre os imperativos do direito internacional dos direitos humanos para proteção das “minorias” e a busca da superação da racionalidade penal, ou seja, forjando-se uma posição que, sem deixar de problematizar o sistema penal e as condições carcerárias, crie alianças entre os atores políticos relevantes para a implementação dessas diversas agendas necessárias para a democratização efetiva do país.
Por que punir?
A discussão em torno da punição (e da impunidade) dos crimes de ódio por motivação LGBTfóbica não é uma novidade na agenda política da sociedade civil organizada e das políticas públicas no Brasil.
Parte expressiva do movimento LGBT, nas trilhas das conquistas dos movimentos feminista e negro, sempre buscou consagrar o combate às violências e às discriminações no campo do direito e, em particular, do direito penal.
Pode-se dizer que essa decisão condensa variáveis diversas e produz sentidos múltiplos. Colocar determinados grupos no banco dos réus depende, sobretudo, de qual tipo de conduta será admitida ou censurada. Não se trata, assim, apenas de conflitos judiciais terminados por juízos individuais de culpa ou de inocência, em que a discussão central desenvolve-se em torno dos temas da materialidade e da autoria dos crimes.
A decisão de julgar e condenar criminalmente determinados discursos e práticas de ódio se traduz em uma caracterização política e moral dessas condutas, que passam a ser vistas como injustas e reprováveis, colaborando com a estruturação de relações com tolerância e alteridade. Infelizmente, o direito penal ainda é um horizonte dotado de alto grau de legitimidade em nossa sociedade.
A ruptura dessa cultura de impunidade que hoje reina em nosso país nesse campo ajuda a empoderar as vítimas e o movimento LGBT, oferecendo instrumentos de combate em um contexto bastante crítico para esses setores.
Nesse sentido, a inexistência de outras armas e alternativas militam a favor da busca dessa solução ainda tradicional. Muitas vezes, a defesa da criminalização não é por falta de criatividade, mas por falta de condições políticas. Basta verificar como mudanças culturais e educacionais, que seriam muito mais desejáveis, estão sendo vedadas com a retirada, nos planos de educação, de diretrizes de enfrentamento à discriminação de gênero e de orientação sexual. Isso sem falar nos projetos de Escola Sem Partido e na patrulha contra a “ideologia de gênero”.
Assim, fica claro que a discussão sobre a punição de crimes homotransfóbicos deve ser lida à luz dessa intrincada rede de significados e disputas que marcam a política do presente e não apenas como uma questão jurídico-criminal.
A necessidade de aprofundar o diálogo e as alianças
Por sua vez, as críticas radicais ao sistema penal e as propostas progressistas de mudança delas decorrentes alinham-se no sentido de apontar o caráter seletivo da punição institucional no Brasil, em um contexto marcado por enormes desigualdades sociais e de tratamento perante a lei. A economia política das punições, estratificada por critérios de classe, cor e sexualidade, precisa ser combatida.
Assim, é cada vez mais evidente que o projeto de democratização da sociedade e do Estado brasileiros passa, necessariamente, pela superação da “racionalidade penal moderna” tão assentada em nossa mentalidade e cultura.
No entanto, é preciso considerar seriamente que o embate pela superação desse paradigma demanda uma aliança consistente com atores estratégicos que possam dar força social e política a uma proposta de direito penal mínimo ou até mesmo de abolição do direito penal.
A reivindicação contingente e meramente tática de uso do direito penal como instrumento hábil a atender, ainda que com as contradições que esse uso implica em um quadro mais amplo, aos anseios por justiça das vítimas, o reconhecimento de visibilidade a setores perseguidos e a afirmação da dignidade de grupos marginalizados não podem ser igualados ao discurso de setores conservadores que trazem o direito penal ao primeiro plano do controle social e da repressão política em nossa sociedade.
Inclusive, é possível perguntar não apenas se devemos ou não criminalizar, mas o que criminalizar e como criminalizar a LGBTfobia. É possível pensar em alternativas ao cárcere para determinados tipos de condutas, construindo saídas que não façam aumentar ainda mais a massa de 700 mil pessoas que habitam o sistema carcerário brasileiro.
Desde que mantida viva a problematização do sistema penal, o pleito de punição dos torturadores (de ontem e de hoje) e dos autores de crimes por motivação homofóbica, machista e racista representa não apenas a reafirmação do direito penal, mas constitui parte de uma luta política mais ampla desses setores no sentido de universalizar as liberdades e ampliar os direitos, desencadeando a possibilidade de enfraquecer os próprios fundamentos que marcam a seletividade do direito penal e sua associação aos jogos de poder que preservam os privilégios das elites e o controle das classes consideradas perigosas. Não se está falando em aumentar pena ou criar novos crimes que protejam patrimônio ou que criminalizem a pobreza, mas sim que protejam a vida e a integridade de pessoas que têm orientação sexual e identidade de gênero dissidentes.
Sem a criação de laços políticos e de lealdade entre os que veiculam a crítica severa ao direito penal com os diversos movimentos sociais engajados na construção de uma democracia efetivamente plural e com respeito aos direitos humanos, tais como o movimento feminista, LGBT, negro e de familiares de mortos e desaparecidos políticos, não haverá substrato material para que avancem essas propostas. Ao contrário, haverá um afastamento entre a abstração da opinião de recusa total e sem mediações do direito penal e as demandas concretas de atores políticos centrais para os projetos de democratização real.
O debate sobre os usos do direito penal e sobre seu desejável perecimento não pode ser feito descolado dos discursos dos próprios sujeitos interessados e envolvidos nos debates de política criminal. Caso contrário, manteremos uma posição coerente, mas sem dialogar com a realidade existente.
Se todos os crimes em nossa sociedade recebem em troca uma sanção penal, como argumentar para as vítimas da violência LGBTfóbica que, agora que é a vez de apurar os crimes cometidos contra eles, devemos forjar maneiras alternativas de justiça ou manter a impunidade porque inexiste tipificação penal específica?
Tal posicionamento, ademais, carrega um componente autoritário por não respeitar a autonomia das vítimas para participarem ativamente na construção do horizonte da reparação a que almejam, desde que preservados, obviamente, os limites da legalidade e os direitos fundamentais dos perpetradores das violações.
Não se trata de defender em abstrato o direito penal, mas de assumir as contradições desse posicionamento da sua defesa tática, mantendo sempre a crítica ao sistema penal, sem que se prescinda no momento atual – na falta de alternativas melhores e sob condições críticas de recrudescimento do conservadorismo – desse instrumento com toda a legitimidade que ainda, infelizmente, tem em nossa sociedade.
Já é chegada a hora de derrubar alguns tabus nesse campo que têm impedido o efetivo diálogo entre as diferentes posições desse debate, buscando um equilíbrio eficaz e coerente entre a realização da justiça reivindicada pelos grupos sociais em suas lutas por reconhecimento e a crítica transformadora do sistema penal.
E será tarefa do STF nesta quarta-feira dar mais um passo rumo à afirmação da plena cidadania da população LGBT no Brasil.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

As milícias digitais de Bolsonaro e o colapso da democracia, por Ivana Bentes.


As milícias digitais de Bolsonaro e o colapso da democracia



Não está tudo bem! Diante das forças políticas que emergiram no contexto das eleições de 2018 no Brasil, atropeladas por fake news e uma memética corrosiva, a subcultura da internet está produzindo um estado de exceção digital, que afronta a justiça e as instituições analógicas. Mas o que seria um colapso de proporções e efeitos catastróficos, radicaliza também a potência das redes e de uma democracia digital capaz de calibrar as ditaduras por domínio informacional. Estamos no meio de uma encruzilhada.
As campanhas eleitorais e a democracia representativa como conhecíamos chegaram no seu limite e impasse. Em uma das maiores crises de desinformação em escala global, o Brasil (depois da eleição de Donald Trump nos EUA) protagoniza o que talvez seja o início do fim das democracias tais como conhecemos, com a desconfiguração radical, pós-mídias digitais, do sistema de comunicação, de autoridade, institucionalidade e sociabilidade.
A regressão vingativa dos discursos políticos – encarnado no Brasil em um antipetismo alucinatório –, e as fake news produzidas de forma industrial, põem em xeque uma justiça analógica, mas também reinventam o que conhecíamos como democracia.
Uma mudança dos sistemas de governança que poderia ser desejável, com uma desordem criadora, mas que, no contexto brasileiro, emerge na sua face mais arcaica e sombria: movimentos políticos de novo tipo que configuram novos fascismos e regimes digitais de exceção que tornam o sistema analógico de justiça obsoleto e ineficiente.
Tudo o que fabulamos sobre a potência da cultura digital, sobre a apropriação tecnológica por muitos, se efetuou pelo seu avesso. 2018 é um anti Junho de 2013, ou sua face mais sombria.
Uma desordem informacional e uma desorientação política que longe de nos levar para um novo tipo de governança, mergulhou o Brasil em uma onda de violência nas ruas e nas redes, com ataques, linchamentos reais e simbólicos, pautas regressivas, propagação epidêmica de discursos de ódio e mentiras contras mulheres, negros, grupos LGBTQI, indígenas, quilombolas, ativistas, ONGs, artistas e fazedores de cultura, professores e estudantes universitários, ambientalistas e cientistas, defensores dos direitos – um campo diverso e plural chamado de “esquerda”.
Em oposição a um campo político e cultural, o candidato Jair Bolsonaro é o primeiro resultado de um experimento político baseado em um novo modelo de negócio e governança: as fake news e a memética impulsionadas artificialmente em escala industrial.
Diante de um campo e de valores humanistas, formou-se uma onda de extrema-direita, que produz dogmas e certezas em meio a desorientação informacional, repertórios reduzidos e que forma novos grupos de pertencimento. Estar na onda é uma alegria e uma potência!
“Eu perdi a fé, mas que enfermidade mais terrível”
A desilusão dos “revoltados on line” com o sistema político e a corrupção endêmica e a polarização como estratégia midiática que nutriu a desinformação e o ódio produziu efeitos de discurso, “efeitos de verdade”, que têm consequências reais e imprevisíveis.
Um processo que se acirrou com o impeachment de Dilma Roussef, um linchamento em praça pública protagonizado por atores, mídias corporativas, judiciário, partidos políticos rivais e movimentos de novo tipo, como o MBL, souberam catalisar toda insatisfação para um alvo político: o PT, suas lideranças e programas. Com base em seus erros passam a reverter seus acertos e minar parte das conquistas sociais e políticas públicas das últimas décadas que produziram commons: bem comum.
Antipetismo alucinatório
 O processo – as delações diárias da Lava Jato, de forma serial, naturalizando as delações, a devassa da privacidade, um justiçamento midiático travestido de liberdade de expressão e de investigação de fatos – produziu discursos extremistas e autoritários, de baixa institucionalidade e baixo republicanismo.
Jair Bolsonaro é o resultado do antipetismo alucinatório, que em cima da exposição dos mecanismos de funcionamento do sistema político (caixa dois, capitalismo mafioso das empresas, corrupção endêmica) produziu uma aberração política e um experimento comunicacional.
Um meme presidente
Bolsonaro é o representante de um estado de exceção político e informacional permanente na passagem fulminante de democracias representativas para uma governança em tempo real. As mídias digitais como o WhatsApp e suas milícias digitais, e a produção de efeitos de verdade de forma simultaneamente artificial e orgânica, podem ser a nova base de sustentação de uma governança digital de tipo autoritária? A base de Bolsonaro é esse exército de eleitores, trolls, bots e pessoas comuns que acharam na velocidade e viralidade da memética um vetor de propagação de crenças e consensos provisórios.
As milícias digitais produzidas nesse contexto da hiperpolarização e da pós-verdade são o avesso da cultura digital celebratória e utópica das primeiras décadas da internet, da inteligência coletiva e de uma democracia em rede gestada por uma multidão direcionada para o bem comum.
A revolução digital desceu aos infernos e o que emergiu é um cenário de pesadelo com toques de Black mirror, Mad max, Terra em transe e Zorra total. Uma memética que remixa a cultura de massas e seus personagens (os memes já clássicos com Inês Brasil, Carreta Furacão, Xuxa Meneghel, Gretchen, Renata Sorrah/Nazaré), as bonecas Barbie e Susi, tornadas avatares e personagens de uma cena em que Jair Bolsonaro também significa o triunfo dos memes na política.
Bolsonaro, se eleito, seria o Presidente Meme, o Bozo, o Palhaço, o troll, em que a fala tosca e o ideário retrógrado e totalitário é relativizado por parte dos seus seguidores como piada, escracho, deboche, o “Mito”; mas também levada ao pé da letra por outro contingente de eleitores que se apega às verdades e truísmos maniqueístas e simplórios que se identificam com um ideário ultraconservador.
Domínio informacional e fake news: um novo modelo de negócio e de política
Auto profecia anunciada, o cenário das eleições de 2018 foi antecipado pelos players importantes de dentro e de fora do jogo eleitoral. Plataformas como o Facebook e WhatsApp, com base nos escândalos da Cambridge Analytica na eleição de Trump, tem total consciência de como seus negócios de comunicação incidem sobre crenças, comportamentos, humores e sociabilidade.
O que estamos vendo no Brasil são os efeitos dessas “psyops”, operações psicológicas de produção da opinião pública pelo direcionamento de informações: “mudando a cabeça das pessoas não através da persuasão, mas por meio de ‘domínio informacional’, uma série de técnicas que incluem rumores, desinformação e fake news” (…) “brincando com a psicologia de um país inteiro no contexto de um processo democrático”, como explicou de forma didática Christopher Wylie, ex-empresário da Cambridge Analytica sobre os processos que culminaram com a eleição de Trump.
No contexto brasileiro, para além das operações de coleta de dados e perfis psicológicos no Facebook, o uso da rede WhatsApp pelos marqueteiros de Bolsonaro, com apoio de Steve Bannon e financiado por empresários brasileiros produziu uma avalanche, uma onda em seu favor alavancando um inimigo público: o petismo. Disparos de mensagens a níveis industriais turbinaram a combinatória de ceticismo político, fake news e formação da opinião pública com um efeito assustadoramente degradante para a democracia no Brasil.
O contingente que foi bombardeado e se apropriou da memética como linguagem política, com memes panfletos, memes de zombaria, memes de celebração, memes propagadores de dogmas, estímulo a linchamentos virtuais e mentiras. Poderia se formar um senso crítico capaz de destituir e reverter esse mesmo estado de coisas? Como escapar das bolhas de influência e domínio informacionais?
Milícias digitais
A questão é que as fake news e a comunicação massiva automatizada são um novo modelo de negócio e um novo modelo de gerência política. A #LavaZap não é uma piada da internet. A operação de financiamento ilegal de disparos massivos no WhasApp, denunciada em matéria da Folha de S.Paulo do dia 8 de outubro de 2018 que repercutiu em todas as mídias dentro e fora do Brasil, é apenas a ponta de um iceberg de uma governança que flerta com regimes ditatoriais digitais.
As milícias digitais alimentadas por fazendas de fake news em escala industrial surfando na onda antiestablishment só cresceram desde 2013, um contingente de eleitores distópicos que se valem de uma comunicação descentralizada como o WhatsApp para escrachar, zombar, descontruir reputações ou celebrá-las.
Uma extrema direita que mistura uma militância orgânica com cidadãos zumbis, bots e uma opinião pública forjada pela era da comunicação automatizada. A questão é o desequilibro estrutural de um ecossistema político já em decomposição em que as regras de transição para nossos sistemas de governos digitais não foram criadas e nem consensuadas:
“Para alcançar mais eleitores, as campanhas políticas obtiveram neste ano programas capazes de coletar os números de telefones de milhares de brasileiros no Facebook e usá-los para criar grupos e enviar mensagens em massa automaticamente no WhatsApp. A prática viola as regras de uso dos
dados do Facebook e, para alguns especialistas, pode ser considerada crime eleitoral. À BBC News Brasil, o Facebook disse estar investigando o caso, e o WhatsApp disse estar levando a denúncia a sério e tomando medidas legais. O WhatsApp declarou ainda ter banido centenas de milhares de contas suspeitas neste período eleitoral.”


Foto: Pedro Rocha / Mídia Ninja
Ato da virada, nesta terça (23), na Lapa, Rio de Janeiro (Foto: Pedro Rocha/Mídia Ninja)
Um novo regime de verdade?
Trata-se de uma nova forma de produção de consenso, por clicks, likes, compartilhamentos, distribuição massiva de memes e mensagens que criam uma comunidade imaginada de iguais, no momento em que as instituições produtoras de consenso entraram em crise de credibilidade: a justiça, a mídia, a escola, os políticos, a própria ciência.
“Como o mundo verdadeiro acabou por se tornar fábula”, reencontramos Nietzsche de Crepúsculo dos Ídolos (1889) quando mostra como verdade “A História de um Erro”: “o mundo verdadeiro é uma ideia que já não serve mais para nada, que não obriga mesmo mais nada – uma ideia que se tornou inútil, supérflua; consequentemente uma ideia refutada; suprimamo-la!”.
O que Nietzsche, Foucault, Derrida, Deleuze e tantos pensadores contemporâneos estão dizendo é que cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade. É que devemos nos perguntar e questionar:
– Quais os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos?
– Quais as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade;
– Qual o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro, com suas leis, enunciados científicos, o que é ou não crime – pois todas são “verdades construídas”.
Os discursos que colocam a verdade em crise não significam que todos os discursos se equivalem. Quais as consequências éticas, subjetivas, em termos de relações de poder, de comportamento e de visão de mundo resultado das crenças?  Quantas verdades (e mentiras) somos capazes de suportar?
E a questão que importa: Quais os efeitos daquilo que cremos ser verdadeiro? Pois acreditar que se é racialmente superior, moralmente superior; se acreditarmos em uma distinção e assujeitamento do outro pelas nossas diferenças, nossas verdades se tornarão armas de destruição e morte do outro. É o que estamos vendo nas redes sociais e digitais. Verdades fabricadas e crenças produzidas por domínio informacional que produzem consensos e verdades provisórias ou duradouras com efeitos reais.
A guerrilha memética
No seu livro Kill all normies, Angela Nagle faz uma análise brilhante das guerras culturais on-line analisando a estética e os discursos de plataformas com o 4Chan e o Tumblr para entender a “direita alternativa” (alt-right) que elegeu Trump nos EUA.
No Brasil, o fenômeno Bolsonaro passa por outras subculturas: a zoeira das redes sociais, as batalhas de memes no Twitter, os grupos de WhatsApp produzindo novas formas de pertencimento, desconfigurando hierarquias familiares, os influenciadores, youtubers, a epidemia comunicacional que mexe com a sociabilidade brasileira na veia.
Um exemplo dessa paixão bélico-criativa foia a #primeiraguerramemeal no Twitter em 2016, com trocas ferozes e intensas de um humor altamente inventivo e veloz por tweets e memes que mostrava o jorro criativo dos brasileiros para os combates cognitivos e afetivos.
O problema foi sua transposição catastrófica para um mundo político em dissolução. Paixão bélica, rivalista, que no Brasil se expressa nas torcidas de futebol, nas mortes no trânsito e nas brigas de bares por motivo fútil. Passamos do humor a tragédia em um meme. Da festa a cultura de morte, da cordialidade aos discursos de ódio com a mesma rapidez e euforia.
A partilha do monopólio da violência
Mas para além do humor e das guerras memeais lúdicas, vimos emergir uma onda de violência dos eleitores de Bolsonaro que explicita um desejo primário e assustador: a promessa de Bolsonaro de partilhar o monopólio da violência do Estado com todos os “cidadãos de bem”. Uma espécie de milícia cidadã que fará justiça pelas suas próprias mãos diante do descrédito na política e no Estado.
Daí o imaginário das armas liberadas, do justiçamento sumário, com crianças e adultos empunhando os dedos/armas contra seus inimigos. Metralhar, fuzilar, varrer o inimigo. Um tornar-se fascista, de que falam Gilles Deleuze e Michel Foucault.
“Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico: o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas –, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”, como analisa Foucault em Por uma vida não-fascista, texto belíssimo e inspirador.
Para os “idiotas da objetividade” – como diria Nelson Rodrigues –, que querem reduzir o fascismo às suas características históricas, leiam um pouco de Foucault, ou melhor: ouçam os discursos de Bolsonaro. Porque no momento precisamos esclarecer o que é o fascismo no cotidiano, contra os corpos, contra os sujeitos; os microfascismos do vovô, do titio, dos irmãos, dos primos, dos amigos, da mamãe. Os microfascismos que estão em nós e nas nossas casas.
O fascismo como desejo de poder acendendo todos os ressentimentos de grupos, de classe, as frustações pessoais, o desejo de morte dos que se sentem desorientados e humilhados e aceitam a promessa de assujeitar os outros.
Não se reprima! Não se reprima! Conclama Bolsonaro para seus eleitores. Bolsonaro é o anti-herói que libera os nossos mais baixos e piores instintos. Exatamente como o fenômeno das fakenews, em que as pessoas querem acreditar por mais absurdas e inverossímeis que elas sejam.
Por isso não importa se Bolsonaro está certo ou errado e nem nada do que diz racionalmente. Ele não tem e nem precisa de coerência; ele não precisa entender de economia, nem de educação, nem de saúde e nem ser razoável e nem ter apreço a nada do que é caro à democracia.
Apela para o gozo mais primário e descomplicado: o gozo e o prazer em aniquilar os oponentes, a “esquerdinha”, os “fracos” (negros, mulheres, quilombolas, gays) que precisam de direitos e proteção, vistos como privilégios para fracassados.
O gozo dos que se identificam com a violência real e simbólica dos que oprimem exercem poder. Mesmo que seja um gozo fantasioso e que o fascismo e violência se voltem contra todos. O fenômeno Bolsonaro é uma questão de crença, de liberação boçal e de linguagem.
A pergunta que devemos fazer é quantos eleitores Bolsonaro ganharia sendo “politicamente correto” e quantos eleitores ele ganha quando libera um inconsciente fascista e violento, ativado por testosterona, delírio de onipotência e com a possibilidade, mesmo fantasiosa, da aniquilação dos seus inimigos, promessa de vingança regressiva: “vamos destampar os arquivos de Dilma e do PT e esquecer o passado e a ditadura e olhar para frente”, brada. Leia-se: vamos destruir nossos inimigos!
Bolsonaro alia crenças primárias com o gozo sádico e celebratório: “o ladrão que me assaltou apareceu morto”; prescreve a castração química para estupradores, e vocaliza o triunfo dos impotentes que se sentem injustiçados e oprimidos por uma elite intelectual e política, por um repertório que não dominam, por leis e um aparato jurídico que não fala a língua de ninguém. Goza com sua imunidade parlamentar que o permite vocalizar o invocalizável.
E como não poderia faltar em uma linguagem fanfarrona e ao mesmo tempo paranóica e de suspeição, todas as teorias conspiratórias cabem nos discursos de seus eleitores, sendo a maior de todas a de quer acabar com o voto eletrônico por suspeita de fraude.
As urnas e a própria democracia são o dispositivo de maldade que elegeu as esquerdas nos últimos tempos. Por isso sua ode às ditaduras como o céu político. Pois quem mais elegeu os governos progressistas? Bolsonaro não pode xingar o povo então inventa uma máquina de manipulação: a urna eletrônica fraudada, única força capaz de deter sua vitória.
Com toda a suspeição diante do Estado, dos políticos e da democracia, uma parte dos brasileiros se identifica com o sincericídio tosco e fascista de Bolsonaro: que vocaliza os medos mais primários e traz soluções igualmente simplórias. Estamos diante da “Verdade sufocada” que explode, título do seu livro de cabeceira escrito por um torturador. É a barbárie como libertação!
Governar utilizando o WhatsApp
E se o próximo Presidente do Brasil utilizar redes e grupos de transmissão massivos para governar com base nas suas milícias digitais? Essa é a proposta de Jair Bolsonaro que anunciou que, caso seja eleito, vai transformar o aplicativo em uma de suas principais ferramentas de governo e de comunicação. “Seus assessores e conselheiros gostaram bastante da ideia de criar um programa de governo para distribuir celulares com acesso à internet para a população de baixa renda”
Falam em “Cidadania Digital”, um conceito que inspirou as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura nas eras Lula e Dilma, e onde participamos ativamente pensando, elaborando e fabulando como a cultura digital e os Pontos de Mídia Livre poderiam alavancar formas participativas e diretas de gestão, transformado os comentários das redes sociais e digitais em uma nova força das democracias comunicacionais.
A extrema-direita digital está a ponto de fazer o download deste programa e disputar o mesmo imaginário, mas de forma pragmática para a produção de uma hegemonia cultural e informacional que inauguraria as ditaduras digitais. A cultura de redes com o sinal inverso: produzir e inundar o cidadão de informações desencontradas, quase nunca verdadeiras, difíceis de checar, transmitidas de forma massiva em multiplataformas de tal forma que “inundem” com fake news, “fatos alternativos”, com um jato de informações incessantes (firehose of falsehood) e repetitivas e sem qualquer compromisso com a consistência ou a veracidade.
A carta de Bolsonaro ao povo brasileiro
Cena final para configurar a governança pelo domínio informacional e as milícias nas redes e nas ruas:
Em vídeo gravado da lavanderia da sua casa, aos gritos para um celular, e endereçado aos manifestantes na Av. Paulista no domingo, 21 de outubro de 2018, a uma semana das eleições presidenciais, Bolsonaro ameaça parlamentares, ativistas, partidos, ONGs, movimentos sociais e mídia.
Nomeia grupos, pessoas, instituições e redes como seus inimigos e diz como irá persegui-los com prisão, exílio e os rigores da lei e do Estado aparelhados. O Estado será usado como extensão de um delírio de onipotência sem limites e sem qualquer sentido republicano. As redes digitais serão suas milícias. Um Estado paramilitar comunicacional.
Ameaças aos seus rivais políticos, regressão vingativa e nenhum sentido de institucionalidade. Essa é a marca de Jair Bolsonaro, o antiestadista que ameaça, às vésperas da eleição, em seu discurso nauseante, destruir todo o sistema e a ecologia política utilizando um discurso fascista, atravessado de metáforas de extermínio e das guerras: como a “limpeza”, varrer do mapa, expulsar do Brasil os “vagabundos”. As “raças” a serem extintas são os “vermelhos”, os movimentos sociais, os defensores dos direitos em todos os campos.
Para a imprensa “vendida” dá os seus pêsames! A parlamentares rivais e ao candidato a presidência Fernando Haddad ameaça com prisão e um “vão apodrecer na cadeia” em um discurso fora de qualquer institucionalidade em que linchamentos políticos sumários antecipam qualquer justiça.“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos”, diz Bolsonaro sem qualquer constrangimento.
O discurso de Bolsonaro gravado em vídeo para a multidão como o discurso de um vencedor das eleições de 2018 não tem mais qualquer mediação ou moderação. É feito para alimentar uma plateia de cidadãos zumbis que urram com as fantasias mais brutais da política tornada regressão vingativa contra os “inimigos” e um petismo alucinatório que alimenta a violência real e simbólica nas redes e nas ruas.
Bolsonaro poderia tomar para si a fala catártica de Paulo Autran em Terra em transe, de Glauber Rocha, filme que encarna toda a potência dos fascismos e seu efeito catártico e salvacionista: “Aprenderão, aprenderão. Dominarei essa terra. Botarei essas histéricas tradições em ordem, pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos e chegaremos a uma civilização”.
Não chegaremos a uma democracia no século 21 com Jair Bolsonaro. Mas esse processo que ataca os ossos da democracia representativa como um ácido que destrói e corrói estruturas férreas é uma parte do processo e do expurgo. Que o preço não seja alto demais e que esse horror, esse messianismo e fascismo de novo tipo, essas novas forma dos regimes autoritários, com eleições com tudo, possam ser decisivas para abrir novos caminhos para as democracias no século 21.
Seja qual for o resultado das eleições de 2018, teremos que combater uma extrema direita digital com as armas da democracia, das ruas, das redes; com as tecnologias e aplicativos; com a inteligência popular brasileira.
Muitos movimentos de novo tipo surgiram, mídias e redes com capilaridade e uma linguagem nova (Mídia Ninja, a plataforma 342 capitaneada por artistas e ativistas do mainstream, a primavera das mulheres utilizando as redes contra os machismos e patriarcalismo, a geração tombamento utilizando o consumo e a festa como forma de política, etc) e é essa linguagem pop, esse ativismo mainstream, que com a mesma força usada pelas milícias digitais, podem derrotar o obscurantismo.
Só uma reviravolta nessa onda fascista nos tira da hipnose coletiva, um ativismo potente, uma coragem inclusive intelectual para assumir que o fascismo tomou forma em um projeto político.  E é contra esse ódio alucinatório que lutamos!
Contágio!
Essa eleição também desconfigura o campo da comunicação corporativa. Bolsonaro usou transmissões ao vivo no Facebook, um canal no Youtube e o impulsionamento de memes e fake news em redes gigantescas e descentralizadas criadas no WhatsApp.
Avalanches de fake news, memes, teorias estapafúrdias, crenças, teorias conspiratórias, produção de medo, histeria, mas também contranarrativas, resistências e esperanças serão despejadas em uma corrente sanguínea que já começou a produzir anticorpos.
As eleições de 2018 serão decididas por contágio e onda. Um modo epidêmico de fazer política. Sejamos nós também o viral, as forças capazes de produzir ondas, formação pelas mídias, ampliação dos repertórios usando as próprias redes, feitiços capazes de quebrar encantos e produzir novos consensos, disseminar o vírus da democracia e injetar nessa corrente sanguínea os anticorpos contra os fascismos.

Ivana Bentes é ensaísta e pesquisadora, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ e ex-secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura

Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo, por Arthur Renzo.


"A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor de se submeter à autoridade e de ser ele próprio a autoridade. Isso corresponde a um mundo no qual o controle irracional é exercido, apesar de ter perdido sua convicção interna em função do esclarecimento universal. As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel."

No contexto do dossiê especial dedicado às eleições de 2018, o Blog da Boitempo recupera um artigo fundamental do filósofo alemão Theodor Adorno. O texto não é curto e nosso tempo é escasso, mas a editoria deste Blog recomenda vivamente sua leitura. Ele vira do avesso muitas percepções comuns acerca da adesão ao autoritarismo e fornece um importante inventário dos dispositivos mobilizados pelos demagogos fascistas para levar a cabo a façanha da “abolição da democracia mediante o apoio de massa contra o princípio democrático”.
Datado de 1951, o texto dá continuidade à pesquisa sobre a personalidade autoritária publicada no ano anterior em conjunto com Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford. Nele, Adorno demonstra como a teoria de Sigmund Freud sobre a psicologia das massas desenvolvida em 1921 antecipou de maneira impressionante as dinâmicas pulsionais envolvidas na ascensão de Hitler; e indica como ela pode ser usada para compreender o fenômeno dos agitadores fascistas que ele observava em primeira mão nos EUA do pós-Segunda Guerra Mundial. Passadas mais de seis décadas desde sua publicação, o ensaio de Adorno se mostra de relevância assombrosa para o leitor brasileiro de 2018.
O texto foi publicado originalmente na edição de número #7 da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, e tem tradução de Gustavo Pedroso. (Aliás, você sabia que assinante da revista da Boitempo tem 30% de desconto permanente em todo site da Boitempo? Clique aqui para saber mais sobre a revista e como se tornar um assinante. A nova edição da revista conta com um dossiê especial sobre a crise brasileira, e abre com uma longa entrevista inédita com o marxista canadense Moishe Postone, um dos mais originais herdeiros intelectuais da escola de Frankfurt na contemporaneidade, realizada poucos meses antes de sua morte no início deste ano.)
Boa leitura e boa luta.
Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo.
* * *

A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista

Por Theodor W. Adorno.

Durante a última década, a natureza e o conteúdo dos discursos e panfletos de agitadores fascistas americanos foram submetidos à pesquisa intensiva de cientistas sociais. Alguns desses estudos, realizados segundo as linhas da análise de conteúdo, resultaram numa exposição abrangente [que se encontra] no livro Prophets of deceit, de L. Löwenthal e N. Guterman1. A imagem global obtida é caracterizada por dois traços principais. Em primeiro lugar, com a exceção de algumas recomendações bizarras e completamente negativas – confinar estrangeiros em campos de concentração ou expatriar sionistas –, o material de propaganda fascista nesse país preocupa-se pouco com questões políticas concretas e tangíveis. A maioria esmagadora das declarações dos agitadores é dirigida ad hominem. Elas são obviamente baseadas mais em cálculos psicológicos que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais. O termo “incitador da turba”, apesar de censurável por seu desprezo inerente pelas massas, é em boa medida adequado, já que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos hitleristas. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de “turba”, é precisamente o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas em uma “turba”, isto é, uma multidão inclinada à ação violenta sem nenhum objetivo político sensato, e criar a atmosfera do pogrom. O propósito universal desses agitadores é instigar metodicamente o que, desde o famoso livro de Gustave Le Bon, é comumente conhecido como “psicologia das massas”.
Em segundo lugar, o método dos agitadores é verdadeiramente sistemático e segue um padrão rigidamente estabelecido de “dispositivos” definidos. Isso não se liga apenas à unidade fundamental do propósito político – a abolição da democracia mediante o apoio de massa contra o princípio democrático –, mas mais ainda à natureza intrínseca do conteúdo e da apresentação da própria propaganda. A similaridade das expressões de vários agitadores – das figuras bem conhecidas, como Coughlin e Gerald Smith, aos pequenos disseminadores provincianos de ódio – é tão grande que basta em princípio analisar as declarações de um deles para conhecê-los todos2. Além disso, os próprios discursos são tão monótonos que, assim que se fica familiarizado com o número muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra são intermináveis repetições. De fato, a reiteração constante e a escassez de idéias são ingredientes indispensáveis da técnica toda.

“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”

Na medida em que a rigidez mecânica do padrão é óbvia e ela mesma expressão de certos aspectos psicológicos da mentalidade fascista, não se pode evitar o sentimento de que o material de propaganda de tipo fascista forma uma unidade estrutural com uma concepção comum total, consciente ou inconsciente, que determina cada palavra que é dita. Essa unidade estrutural parece se referir à concepção política implícita tanto quanto à essência psicológica. Até agora, deu-se atenção científica apenas à natureza destacada e de certo modo isolada de cada dispositivo; as conotações psicanalíticas dos dispositivos foram sublinhadas e elaboradas. Agora com os elementos esclarecidos suficientemente, chegou a hora de centralizar a atenção no sistema psicológico em si – e pode não ser inteiramente acidental que o termo invoque a associação da paranóia –, o qual compreende e gera esses elementos. Isso parece ser o mais apropriado, caso contrário a interpretação psicanalítica dos dispositivos individuais permanecerá algo fortuita e arbitrária. Um tipo de quadro de referência teórica terá de ser desenvolvido. Na medida em que os dispositivos individuais pedem quase irresistivelmente uma interpretação psicanalítica, não é senão lógico postular que esse quadro de referência deveria consistir na aplicação de uma teoria psicanalítica mais abrangente e básica ao método global do agitador.
Tal quadro de referência foi fornecido pelo próprio Freud em seu livro Psicologia das massas e análise do eu, publicado em inglês já em 1922, muito antes que o perigo do fascismo alemão parecesse ser agudo3. Não é exagero dizer que Freud, apesar de pouco interessado na fase política do problema, claramente previu a origem e a natureza dos movimentos fascistas de massa em categorias puramente psicológicas. Se é verdade que o inconsciente do analista percebe o inconsciente do paciente, pode-se também presumir que suas intuições teóricas são capazes de antecipar tendências ainda latentes em um nível racional, mas se manifestando em um nível mais profundo. Pode não ter sido por acaso que, após a Primeira Guerra Mundial, Freud tenha voltado sua atenção para o narcisismo e os problemas do eu em sentido específico. Os mecanismos e conflitos instintuais envolvidos desempenham de forma evidente um papel cada vez mais importante na época atual, considerando que, de acordo com o testemunho de analistas praticantes, as neuroses “clássicas”, como a histeria de conversão, que serviram de modelos para o método, ocorrem menos freqüentemente agora que na época do próprio desenvolvimento de Freud, quando Charcot tratou clinicamente a histeria e Ibsen fez dela tema de algumas de suas peças. De acordo com Freud, o problema da psicologia de massa está bastante relacionado ao novo tipo de aflição psicológica tão característico da época que, por razões socioeconômicas, testemunha o declínio do indivíduo e sua subseqüente fraqueza. Embora Freud não se tenha preocupado com as mudanças sociais, pode-se dizer que ele revelou nos confins monadológicos do indivíduo os traços de sua crise profunda e a vontade de se submeter inquestionavelmente a poderosas instâncias (agencies) coletivas externas. Sem jamais ter se dedicado ao estudo dos desenvolvimentos sociais contemporâneos, Freud apontou tendências históricas por meio do desenvolvimento de seu próprio trabalho, da escolha de seus temas e da evolução dos conceitos-guia.

“Isso é precisamente o que Freud quer fazer. Ele busca descobrir quais forças psicológicas resultam na transformação de indivíduos em massa.”

O método do livro de Freud consiste numa interpretação dinâmica da descrição da mente de massa por Le Bon e numa crítica de alguns conceitos dogmáticos – palavras mágicas, por assim dizer – empregados por Le Bon e outros psicólogos pré-analíticos como se fossem chaves para alguns fenômenos surpreendentes. Em primeiro lugar, entre esses conceitos está o de sugestão, que, aliás, ainda desempenha um papel importante na opinião popular como uma maneira possível de explicar o encanto exercido por Hitler e assemelhados sobre as massas. Freud não questiona a precisão das famosas caracterizações das massas, feitas por Le Bon, como sendo altamente desindividualizadas, irracionais, facilmente influenciáveis, propensas à ação violenta e, de modo geral, de uma natureza regressiva. O que o distingue de Le Bon é antes a ausência do tradicional desprezo pelas massas, que é o thema probandum da maioria dos psicólogos mais antigos. Em vez de inferir das descobertas descritivas habituais que as massas são inferiores per se e assim tendem a permanecer, ele se pergunta, no espírito do verdadeiro Iluminismo: o que transforma as massas em massas? Freud rejeita a hipótese fácil de um instinto social ou de rebanho, que para ele denota o problema e não sua solução. Além das razões puramente psicológicas que dá para essa rejeição, poder-se-ia dizer que Freud está em terreno seguro também do ponto de vista sociológico. A comparação direta de formações de massas modernas com fenômenos biológicos dificilmente pode ser considerada válida, uma vez que os membros das massas contemporâneas são, pelo menos prima facie, indivíduos, filhos de uma sociedade liberal, competitiva e individualista, condicionados a se manter como unidades independentes e auto-sustentáveis; eles são continuamente advertidos de que devem ser “duros” e prevenidos contra a rendição. Mesmo que se assumisse que instintos arcaicos, pré-individuais, sobrevivam, não se poderia simplesmente apontar para essa herança, mas se teria de explicar por que homens modernos revertem a padrões de comportamento que contradizem flagrantemente seu próprio nível racional e a presente fase da civilização tecnológica esclarecida. Isso é precisamente o que Freud quer fazer. Ele busca descobrir quais forças psicológicas resultam na transformação de indivíduos em massa. “Se os indivíduos no grupo estão combinados em uma unidade, deve haver, seguramente, algo para uni-los, e esse vínculo poderia ser precisamente o que é característico de um grupo.”4 Essa indagação, porém, equivale a uma exposição do ponto fundamental da manipulação fascista. Pois o demagogo fascista, que tem de obter o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seu próprio auto-interesse racional, só pode fazê-lo criando artificialmente o vínculo que Freud está buscando. Se o método dos demagogos é realista – e seu sucesso popular não deixa dúvidas de que o seja –, poder-se-ia lançar como hipótese que o vínculo em questão é exatamente o mesmo que o demagogo tenta produzir sinteticamente; na realidade, que ele é o princípio unificador por trás de seus vários dispositivos.
Em acordo com a teoria psicanalítica geral, Freud crê que o vínculo que integra os indivíduos em uma massa é de uma natureza libidinal. Psicólogos anteriores tocaram ocasionalmente nesse aspecto da psicologia de massa. “Na opinião de McDougall, as emoções dos homens em um grupo são excitadas a um nível que raramente ou nunca atingem sob outras condições; e é uma experiência prazerosa para os participantes se render tão ilimitadamente às suas paixões e ser assim absorvidos no grupo e perder o senso dos limites de suas individualidades.”5 Freud vai além de tais observações, explicando a coerência das massas inteiramente nos termos do princípio de prazer, quer dizer, das gratificações reais ou vicárias que os indivíduos obtêm pela rendição a uma massa. Hitler, aliás, estava bastante atento à fonte libidinal da formação da massa por rendição quando atribuiu características especificamente femininas e passivas aos participantes de seus comícios, e apontou assim também para o papel da homossexualidade inconsciente na psicologia de massa6. A conseqüência mais importante da introdução que Freud fez da libido na psicologia de grupo é que os traços geralmente atribuídos às massas perdem o caráter ilusoriamente primordial e irredutível refletido pela construção arbitrária de instintos específicos de massa ou de rebanho. Esses últimos são antes efeitos que causas. O que é peculiar às massas é, de acordo com Freud, não tanto uma qualidade nova quanto a manifestação de qualidades antigas normalmente escondidas. “Do nosso ponto de vista, não precisamos atribuir tanta importância ao aparecimento de novas características. Seria suficiente dizer que em um grupo o indivíduo é posto sob condições que lhe permitem se livrar das repressões de seus instintos inconscientes.”7 Isso não apenas dispensa hipóteses auxiliares ad hoc, mas também faz justiça ao simples fato de que aqueles que acabam por submergir nas massas não são homens primitivos, mas exibem atitudes primitivas contraditórias com seu comportamento racional normal. Ainda assim, mesmo as mais triviais descrições não deixam dúvidas sobre a afinidade de certas peculiaridades das massas com traços arcaicos. Menção particular deveria ser feita aqui ao potencial atalho de emoções violentas para ações violentas enfatizado por todos os autores de psicologia de massa, um fenômeno que, nos escritos de Freud sobre culturas primitivas, leva à suposição de que o assassinato do pai da horda primitiva não é imaginário, mas corresponde à realidade pré-histórica. Em termos de teoria dinâmica, o reflorescimento de tais características deve ser entendido como o resultado de um conflito. Também pode ajudar a explicar algumas das manifestações da mentalidade fascista que dificilmente poderiam ser compreendidas sem a suposição de um antagonismo entre diversas forças psicológicas. Deve-se pensar aqui acima de tudo na categoria psicológica da destrutibilidade, que Freud discutiu em seu O mal-estar na civilização. Como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização. É pouco adequado definir as forças da rebelião fascista simplesmente como poderosas energias do isso que se livram da pressão da ordem social existente. Em vez disso, essa rebelião empresta suas energias em parte de outras instâncias psicológicas que são forçadas a servir ao inconsciente.

“Como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização.”

Uma vez que o vínculo libidinal entre membros de massas não é obviamente de uma natureza sexual desinibida, o problema se apresenta em termos de quais mecanismos psicológicos transformam a energia sexual primária em sentimentos que mantêm as massas unidas. Freud enfrenta-o por meio da análise dos fenômenos cobertos pelos termos sugestão e sugestibilidade. Ele reconhece a sugestão como a “proteção” ou “anteparo” que oculta “relações amorosas”. É essencial que as “relações amorosas” por trás da sugestão permaneçam inconscientes8. Freud enfatiza o fato de que, em grupos organizados como o Exército ou a Igreja, ou não há menção alguma a amor entre seus membros, ou ele é expresso apenas de maneira sublimada e indireta, por meio da mediação de alguma imagem religiosa, pelo amor da qual os membros se unem e cujo amor abrangente (all-embracing) eles devem imitar em sua atitude mútua. Parece significativo que na sociedade atual, com suas massas fascistas artificialmente integradas, a referência ao amor esteja quase completamente excluída9. Hitler afastou-se do papel tradicional do pai amoroso e substituiu-o inteiramente pelo papel negativo da autoridade ameaçadora. O conceito de amor foi relegado à noção abstrata de Alemanha e raramente mencionado sem o epíteto de “fanático”, pelo qual mesmo esse amor obtinha um tom de hostilidade e agressividade contra aqueles que ele não englobava. Um dos princípios básicos da liderança fascista é manter a energia libidinal primária em um nível inconsciente, de modo a desviar suas manifestações de uma forma adequada a fins políticos. Quanto menos uma idéia objetiva, como a de salvação religiosa, desempenha um papel na formação da massa, e quanto mais a manipulação da massa se torna o único fim, mais completamente o amor desinibido tem de ser reprimido e moldado em obediência. Muito pouco há, no conteúdo da ideologia fascista, que pudesse ser amado.
O padrão libidinal do fascismo e toda a técnica dos demagogos fascistas são autoritários. É aqui que as técnicas do demagogo e do hipnotizador coincidem com o mecanismo psicológico pelo qual os indivíduos são compelidos a sofrer as regressões que os reduzem a meros membros de um grupo. Pelas medidas que toma, o hipnotizador desperta no sujeito uma porção de sua herança arcaica que o tinha também feito obediente a seus pais, tendo ainda experimentado uma reanimação individual em sua relação com o pai: o que é, assim, despertado é a idéia de uma personalidade todo-poderosa e perigosa, em relação à qual apenas uma atitude passivo-masoquista é possível, e à qual a vontade tem de se render – enquanto estar sozinho com ela, “olhá-la no rosto”, parece uma aventura arriscada. É apenas em tais formas que podemos descrever a relação do membro individual da horda primitiva com o pai primitivo […]. As características estranhas e coercitivas das formações de grupos, que são reveladas em seus fenômenos de sugestão, podem então com justiça ser remetidas ao fato de sua origem a partir da horda primitiva. O líder do grupo ainda é o temido pai primitivo; o grupo ainda deseja ser governado por força irrestrita; ele tem uma paixão extrema pela autoridade; no dito de Le Bon, tem sede de obediência. O pai primitivo é o ideal do grupo, e governa o eu no lugar do ideal do eu. A hipnose pode, com justiça, ser descrita como um grupo de duas pessoas; a esse respeito permanece como uma definição para sugestão – uma convicção que não é baseada em percepções e raciocínios, mas em um vínculo erótico.10
Isso na verdade define a natureza e o conteúdo da propaganda fascista. Ela é psicológica por causa de seus fins autoritários e irracionais, que não podem ser alcançados por meio de convicções racionais, mas apenas pelo hábil despertar de “uma porção [da] herança arcaica” do sujeito. A agitação fascista está centrada na idéia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas o mandatário de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a idéia do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo. Essa é a raiz da – de outro modo enigmática – personalização da propaganda fascista, seu incessante propagandear de nomes e supostos grandes homens, em lugar da discussão de causas objetivas. A formação da imagem de uma figura paterna onipotente e não controlada, transcendendo em muito o pai individual e com isso apta a ser ampliada em um “eu do grupo”, é a única maneira de disseminar a “atitude passivo-masoquista […] à qual a vontade tem de se render”, uma atitude tanto mais exigida do seguidor fascista quanto mais seu comportamento político se torna irreconciliável com seus próprios interesses racionais como pessoa privada, bem como com os do grupo ou classe ao qual pertence de fato11. A irracionalidade redespertada do seguidor é bastante racional do ponto de vista do líder: ela necessariamente tem de ser “uma convicção que não é baseada em percepções e raciocínios, mas em um vínculo erótico”.

“A irracionalidade redespertada do seguidor é bastante racional do ponto de vista do líder: ela necessariamente tem de ser ‘uma convicção que não é baseada em percepções e raciocínios, mas em um vínculo erótico’.”

O mecanismo que transforma a libido na ligação entre líder e seguidores, e entre os próprios seguidores, é o da identificação. Uma grande parte do livro de Freud é dedicada a sua análise12. É impossível discutir aqui a diferenciação teórica muito sutil, particularmente aquela entre identificação e introjeção. Deve-se notar, entretanto, que o Ernst Simmel tardio, ao qual devemos valiosas contribuições à psicologia do fascismo, tomou o conceito de Freud da natureza ambivalente da identificação como um derivado da fase oral da organização da libido13, e o ampliou em uma teoria analítica do anti-semitismo.
Contentar-nos-emos aqui com umas poucas observações sobre a relevância da doutrina da identificação para a propaganda e a mentalidade fascistas. Foi observado por vários autores, e por Erik Homburger Erikson em particular, que o tipo de líder especificamente fascista não parece ser uma figura paterna, tal como o rei dos tempos antigos. A inconsistência, porém, entre essa observação e a teoria freudiana do líder como o pai primitivo é apenas superficial. Sua discussão sobre a identificação pode nos ajudar a entender, em termos de dinâmica subjetiva, certas mudanças que na verdade se devem a condições históricas objetivas. A identificação é “a expressão mais primitiva de uma ligação emocional com outra pessoa”, desempenhando “um papel na história inicial do complexo de Édipo”14. Pode bem ser que esse componente pré-edipiano da identificação ajude a provocar a separação entre a imagem do líder como a de um pai primitivo todo-poderoso e a imagem paterna real. Uma vez que a identificação da criança com seu pai como uma resposta para o complexo de Édipo é apenas um fenômeno secundário, a regressão infantil pode ir além dessa imagem paterna e, por um processo “anaclítico”, alcançar uma mais arcaica. Além disso, o aspecto primitivamente narcisista da identificação como um ato de devorar, de tornar o objeto amado parte de si mesmo, pode nos fornecer uma pista para o fato de que a imagem do líder moderno às vezes parece ser mais a ampliação da própria personalidade do sujeito, uma projeção coletiva de si mesmo, do que a imagem de um pai cujo papel durante as fases tardias da infância do sujeito pode bem ter diminuído na sociedade atual15. Todos esses aspectos pedem uma clarificação adicional.
O papel essencial do narcisismo em relação às identificações que estão em jogo na formação de grupos fascistas é reconhecido na teoria de Freud da idealização. “Vemos que o objeto é tratado da mesma maneira que nosso próprio eu, de modo que quando estamos apaixonados uma quantia considerável de libido narcisista transborda no objeto. É até mesmo óbvio, em muitas formas de escolha amorosa, que o objeto sirva como um substituto para algum ideal de eu que não conseguimos atingir. Nós o amamos por causa das perfeições que nos esforçamos em alcançar para nosso próprio eu, e que agora gostaríamos de obter desse modo indireto, como um meio de satisfazer nosso narcisismo”16. É precisamente essa idealização do eu que o líder fascista tenta promover em seus seguidores, e que é auxiliada pela ideologia do Führer. As pessoas com as quais ele tem de contar geralmente padecem do conflito moderno e característico entre uma instância17 do eu racional e autopreservadora fortemente desenvolvida e o fracasso contínuo em satisfazer as demandas de seu próprio eu. Esse conflito resulta em impulsos narcisistas fortes, que só podem ser absorvidos e satisfeitos pela idealização entendida como transferência parcial da libido narcisista para o objeto. Isso, por sua vez, corresponde à semelhança da imagem do líder com uma ampliação do sujeito: ao fazer do líder seu ideal, o sujeito ama a si mesmo, por assim dizer, mas se livra das manchas de frustração e descontentamento que estragam a imagem que tem de seu próprio eu empírico. Esse padrão de identificação por idealização, caricatura da solidariedade verdadeira, consciente, é, porém, um padrão coletivo. É efetivo em um vasto número de pessoas com disposições caracterológicas e inclinações libidinais semelhantes. A comunidade do povo fascista corresponde exatamente à definição de Freud para grupo: “[São] vários indivíduos que substituíram seu ideal de eu pelo mesmo objeto e conseqüentemente se identificaram uns com os outros em seus eus”. A imagem de líder, por sua vez, empresta da força coletiva, por assim dizer, sua onipotência semelhante à do pai primitivo18.

“A agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas o mandatário de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideia do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo.”

A construção psicológica que Freud faz da imagem do líder é corroborada por sua notável coincidência com o tipo fascista de líder, pelo menos no que se refere à sua constituição (build-up) pública. Suas descrições convêm à imagem de Hitler não menos que às idealizações pelas quais os demagogos americanos tentam se amoldar. A fim de permitir a identificação narcisista, o líder tem de aparecer como absolutamente narcisista, e é desse insight que Freud deriva o retrato do “pai primitivo da horda”, que poderia igualmente ser Hitler.
Ele, já no início da história da humanidade, era o super-homem que Nietzsche esperava apenas no futuro.19 Mesmo hoje os membros de um grupo necessitam da ilusão de que são amados igualmente e de forma justa por seu líder; mas o líder não precisa amar mais ninguém, ele pode ser de uma natureza magistral, absolutamente narcisista, mas autoconfiante e independente. Sabemos que o amor põe o narcisismo em xeque, e seria possível mostrar como, operando desse modo, ele se tornou um fator de civilização.20

“Mostrando-se como um super-homem, o líder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio.”

Uma das características mais conspícuas dos discursos dos agitadores, nomeadamente a ausência de um programa positivo e de qualquer coisa que eles pudessem “dar”, bem como a prevalência paradoxal de ameaça e negação, é assim explicada: o líder só pode ser amado se ele próprio não amar. Todavia, Freud está atento a outro aspecto da imagem do líder que aparentemente contradiz o primeiro. Mostrando-se como um super-homem, o líder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio. Também isso Freud explica em sua teoria do narcisismo. De acordo com ele,
“o indivíduo desiste de seu ideal do eu e o substitui pelo ideal do grupo tal como encarnado no líder. [Porém,] em muitos indivíduos, a separação entre o eu e o ideal do eu não é muito avançada; os dois ainda coincidem prontamente; o eu freqüentemente preservou sua autocomplacência inicial. A escolha do líder é facilitada em muito por essa circunstância. Ele só precisa possuir, de forma particularmente pura e claramente marcada, as qualidades típicas dos indivíduos envolvidos, e só precisa dar impressão de maior força e maior liberdade de libido; e nesse caso a necessidade de um chefe forte vai ao seu encontro e o investe de uma superioridade que de outro modo ele talvez não pudesse reclamar para si. Os outros membros do grupo, cujo eu ideal, fora dessa situação, não se teria encarnado em sua pessoa sem alguma correção, deixam-se, então, levar com o restante pela “sugestão”, quer dizer, por meio da identificação.”21
Mesmo os impressionantes sintomas de inferioridade do líder fascista, sua semelhança com atores canastrões e psicopatas insociais são assim antecipados pela teoria de Freud. Por causa daquelas partes da libido narcisista do seguidor que não foram investidas na imagem do líder, mas permanecem ligadas ao próprio eu do seguidor, o super-homem deve ainda se assemelhar ao seguidor e aparecer como sua “ampliação”. Em acordo com isso, um dos dispositivos básicos da propaganda fascista personalizada é o conceito do “grande homem comum” (great little man), alguém que sugere tanto onipotência quanto a idéia de que é apenas um de nós, um americano simples, saudável, não conspurcado por riqueza material ou espiritual. A ambivalência psicológica ajuda um milagre social a se realizar. A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor de se submeter à autoridade e de ser ele próprio a autoridade. Isso corresponde a um mundo no qual o controle irracional é exercido, apesar de ter perdido sua convicção interna em função do esclarecimento universal. As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel.

“As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel.”

Todos os dispositivos-padrão (standard) dos agitadores são projetados em acordo com a linha da exposição feita por Freud daquilo que mais tarde se tornou a estrutura básica da demagogia fascista, a técnica da personalização22, e a idéia do grande homem comum. Limitamo-nos aqui a alguns exemplos escolhidos ao acaso.
Freud apresenta uma explicação exaustiva do elemento hierárquico em grupos irracionais. “É óbvio que um soldado toma seu superior, isto é, propriamente, o líder do Exército, como seu ideal, enquanto se identifica com seus iguais, e deriva dessa comunidade de seus eus (Ichgemeinsamkeit) as obrigações de dar ajuda mútua e de compartilhar o que possuir, obrigações essas implicadas pela camaradagem. Mas ele se torna ridículo se tenta se identificar com o general”23, isto é, direta e conscientemente. Os fascistas, até o último demagogo obscuro, enfatizam continuamente cerimônias ritualísticas e diferenciações hierárquicas. Quanto menos a hierarquia é justificada no interior da organização de uma sociedade industrial altamente racionalizada e quantificada, mais as hierarquias artificiais sem uma raison d’être objetiva são construídas e rigidamente impostas por fascistas, por razões puramente psicotécnicas. Pode-se acrescentar, entretanto, que essa não é a única fonte libidinal envolvida. Assim, estruturas hierárquicas estão em completa harmonia com os desejos do caráter sadomasoquista. A famosa fórmula de Hitler, “Verantwortung nach oben, Autorität nach unten” (responsabilidade para com os de cima, autoridade para com os de baixo), racionaliza bem a ambivalência desse caráter24.
A tendência a pisar nos de baixo, que se manifesta tão desastrosamente na perseguição a minorias fracas e desamparadas, é tão franca quanto o ódio contra os de fora. Na prática, ambas as tendências freqüentemente ocorrem juntas. A teoria de Freud joga luz sobre a distinção disseminada e rígida entre o amado in-group e o rejeitado out-group. Por toda nossa cultura, esse modo de pensar e se comportar acabou sendo considerado tão auto-evidente que a questão sobre por que as pessoas amam o que lhes é semelhante e odeiam o que é diferente raramente é discutida de modo suficientemente sério. Aqui, como em muitos outros casos, a produtividade da abordagem de Freud está no questionamento daquilo que é geralmente aceito. Le Bon notara que a multidão irracional “vai diretamente a extremos”25. Freud amplia essa observação e aponta o fato de que a dicotomia entre in-group e out-group é de uma natureza tão profundamente enraizada que afeta mesmo aqueles grupos cujas “idéias” aparentemente excluem tais reações. Já em 1921 ele foi, por isso, capaz de se livrar da ilusão liberal de que o progresso da civilização provocaria automaticamente um aumento da tolerância e uma diminuição da violência contra os out-groups.

“É provavelmente a suspeita do caráter fictício de sua própria ‘psicologia de grupo’ que torna as multidões fascistas tão inabordáveis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encenação desmoronaria, e só lhes restaria entrar em pânico.”

Mesmo no reino de Cristo, aquelas pessoas que não pertencem à comunidade dos crentes, que não o amam e às quais ele não ama, encontram-se fora desse vínculo. Portanto uma religião, mesmo se se qualifica como religião do amor, deve ser dura e desamorosa para com aqueles que não pertencem a ela. Fundamentalmente, de fato, toda religião é do mesmo modo uma religião de amor para todos aqueles a quem abraça; enquanto são naturais a toda religião a crueldade e a intolerância em relação àqueles que não pertencem a ela. Por mais difícil que seja, não devemos reprovar muito severamente os crentes por isso – a esse respeito os descrentes ou indiferentes estão melhores do ponto de vista psicológico. Se hoje em dia aquela intolerância não se mostra mais tão violenta e cruel como nos séculos anteriores, dificilmente podemos concluir que houve uma suavização nos costumes dos homens. A causa deve antes ser encontrada no inegável enfraquecimento dos sentimentos religiosos e dos vínculos libidinais deles dependentes. Se outros vínculos grupais tomarem o lugar do religioso – e o vínculo socialista parece estar tendo sucesso nisso –, então haverá para com os de fora a mesma intolerância que havia na era das Guerras de Religião.26
O erro de Freud em prognose política – culpar os “socialistas” pelo que seus arquiinimigos alemães fizeram – é tão surpreendente quanto sua profecia sobre a destrutibilidade fascista, o impulso de eliminar o out-group27. De fato, a neutralização da religião parece ter conduzido apenas ao oposto daquilo que o iluminista Freud antecipara: a divisão entre crentes e não-crentes foi mantida e reificada. De qualquer modo, tornou-se uma estrutura em si mesma, independente de qualquer conteúdo ideacional, e é ainda mais obstinadamente defendida desde que perdeu sua convicção interna. Ao mesmo tempo, o impacto mitigante da doutrina religiosa do amor desapareceu. Essa é a essência do dispositivo “joio e trigo” empregada por todos os demagogos fascistas. Uma vez que não reconhecem nenhum critério espiritual com relação a quem é escolhido e quem é rejeitado, eles o substituem por um critério pseudonatural como o de raça28, o qual parece ser inevitável e pode, portanto, ser aplicado até mais impiedosamente do que o conceito de heresia durante a Idade Média. Freud teve sucesso em identificar a função libidinal desse dispositivo. Ele age como uma força negativamente integradora. Já que a libido positiva está completamente investida na imagem do pai primitivo, o líder, e já que poucos conteúdos positivos estão disponíveis, um negativo deve ser encontrado. “O líder ou a idéia central também podem, por assim dizer, ser negativos; o ódio contra uma pessoa ou instituição particular poderia operar da mesma maneira unificadora e levar ao mesmo tipo de vínculos emocionais que os afetos positivos”29. É desnecessário dizer que essa integração negativa alimenta o instinto de destrutibilidade ao qual Freud não se refere explicitamente em seu Psicologia de grupo, mas cujo papel decisivo reconheceu em O mal-estar na civilização. No contexto presente, Freud explica a hostilidade contra o out-group por meio do narcisismo:
“Nas antipatias e aversões indisfarçadas que as pessoas sentem em relação aos estrangeiros com quem entram em contato, podemos reconhecer a expressão do amor-próprio – do narcisismo. Esse amor-próprio trabalha para a auto-afirmação do indivíduo, e se comporta como se o aparecimento de qualquer divergência sobre suas linhas particulares de desenvolvimento envolvesse uma crítica e uma solicitação de mudança dessas mesmas linhas.”30
O ganho narcisista fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente, e às vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao in-group, é superior, melhor e mais puro que aqueles que estão excluídos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de crítica ou autoconsciência é ressentida como uma perda narcisista e provoca fúria. Isso explica a reação violenta de todo fascista contra o que julga zersetzend [destrutivo], aquilo que desmascara seus próprios valores obstinadamente mantidos, e também a hostilidade das pessoas preconceituosas contra qualquer tipo de introspecção. Concomitantemente, a concentração de hostilidade no out-group elimina a intolerância no interior do grupo, com o qual a relação, de outro modo, seria altamente ambivalente.

“O ganho narcisista fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente, e às vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao grupo, é superior, melhor e mais puro que aqueles que estão excluídos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de crítica ou autoconsciência é ressentida como uma perda narcisista e provoca fúria.”

Mas o todo dessa intolerância desaparece, temporária ou permanentemente, por meio da formação do grupo, e no grupo. Enquanto a formação do grupo persistir, ou pelo período em que ela se estender, os indivíduos se comportam como se fossem uniformes, toleram as peculiaridades de outras pessoas, colocam-se no mesmo nível, e não têm sentimentos de aversão em relação a elas. Tal limitação do narcisismo, de acordo com nossas concepções teóricas, só pode ser produzida por um fator, um vínculo libidinal com outras pessoas.31
Essa é a linha perseguida pelo estandardizado “truque da unidade” dos agitadores. Eles enfatizam suas diferenças em relação aos que não pertencem ao grupo, mas as minimizam no interior do próprio grupo e tendem a nivelar suas qualidades distintivas, com exceção da hierárquica. “Estamos todos no mesmo barco”; ninguém deveria ser melhor; o esnobe, o intelectual, o hedonista são sempre atacados. Como fator subjacente, o igualitarismo malicioso, a fraternidade da humilhação geral, é um componente da propaganda fascista e fascista ele próprio. Esse igualitarismo encontrou seu símbolo na notória ordem de Hitler para o Eintopfgericht*. Quanto menos desejam que a estrutura social inerente mude, mais tagarelam sobre justiça social, querendo dizer que nenhum membro da “comunidade do povo” deve se permitir prazeres individuais. Igualitarismo repressivo em vez da realização da verdadeira igualdade pela abolição da repressão é parte e parcela da mentalidade fascista e se reflete no dispositivo “se-você-soubesse” dos agitadores, que promete a vingativa revelação de todo tipo de prazeres proibidos desfrutados por outros. Freud interpreta esse fenômeno em termos da transformação de indivíduos em membros de uma “horda fraterna” psicológica. Sua coerência é uma formação de reação contra o ciúme primário mútuo, forçada a servir à coerência do grupo.
O que aparece mais tarde na sociedade na forma do Gemeingeist, esprit de corps, “espírito de grupo” etc. não desmente sua derivação do que era originalmente ciúme. Ninguém deve querer se pôr à frente, todos devem ser o mesmo e ter o mesmo. Justiça social significa negarmos a nós mesmos muitas coisas, de forma que outros também tenham de passar sem elas, ou, o que dá no mesmo, não possam reclamá-las.32
Pode-se acrescentar que a ambivalência em relação ao irmão encontrou uma expressão bastante notável e sempre recorrente na técnica dos agitadores. Freud e Rank apontaram que, em contos de fadas, pequenos animais, como abelhas e formigas, “seriam os irmãos na horda primitiva, assim como, no simbolismo do sonho, insetos e animais daninhos significam os irmãos e irmãs (desdenhosamente considerados como bebês)”33. Como os membros do in-group supostamente “foram bem-sucedidos em se identificar mutuamente por meio do amor similar pelo mesmo objeto”34, eles não podem admitir esse desprezo recíproco. Assim, esse desprezo é expresso por uma catexe completamente negativa desses animais baixos, fundido com o ódio contra o out-group, e projetado nele. De fato um dos dispositivos prediletos dos agitadores fascistas – examinado detalhadamente por Leo Löwenthal35 – consiste em comparar out-groups, todos estrangeiros, e particularmente os refugiados e judeus, com animais baixos ou daninhos.
Se temos o direito de assumir uma correspondência dos estímulos da propaganda fascista com os mecanismos discutidos na Psicologia das massas, de Freud, devemos nos fazer a pergunta quase inevitável: como aqueles agitadores fascistas, rudes e semi-educados obtiveram conhecimentos sobre esses mecanismos? Referências à influência exercida por Minha luta, de Hitler, sobre os demagogos americanos não levariam muito longe, já que parece impossível que o conhecimento teórico de Hitler sobre psicologia de grupo fosse além das mais triviais observações derivadas de um Le Bon popularizado. Tampouco se poderia afirmar que Goebbels era um gênio da propaganda e estava completamente a par das descobertas mais avançadas da psicologia moderna. A leitura de seus discursos e de trechos selecionados de seus diários recentemente publicados dá a impressão de uma pessoa astuta o bastante para participar do jogo da política do poder, mas totalmente ingênua e superficial em relação a todas as questões sociais ou psicológicas abaixo da superfície de suas próprias palavras de ordem (catchwords) e editoriais de jornal. A concepção do Goebbels intelectual sofisticado e “radical” é parte da lenda demoníaca associada a seu nome e promovida pelo jornalismo zeloso; uma lenda, aliás, que pede ela mesma uma explicação psicanalítica. O próprio Goebbels pensava por estereótipos e estava completamente sob o encanto da personalização. É preciso, portanto, buscar outras fontes além da erudição, para o muito propagandeado domínio fascista de técnicas psicológicas de manipulação de massas. A fonte primária parece ser a já mencionada identidade básica entre líder e seguidor, a qual circunscreve um dos aspectos da identificação. O líder pode adivinhar os desejos e necessidades psicológicas dos que são suscetíveis à sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibições o que neles está latente, em vez de lançar mão de alguma superioridade intrínseca. Os líderes são geralmente tipos de caráter oral, com compulsão a falar incessantemente e a enganar os outros. O famoso encanto que exercem sobre seus seguidores parece depender largamente de sua oralidade: a própria linguagem, destituída de sua significação racional, funciona de um modo mágico e promove aquelas regressões arcaicas que reduzem os indivíduos a membros de multidões. Uma vez que essa mesma qualidade de discurso desinibido mas largamente associativo pressupõe pelo menos uma falta temporária de controle do eu, ela bem pode indicar fraqueza em lugar de força. A jactância de força dos agitadores fascistas é, de fato, freqüentemente acompanhada por traços de fraqueza, particularmente quando imploram por contribuições monetárias – traços que, deve-se admitir, são habilmente unidos à própria idéia de força. A fim de ir com sucesso ao encontro das disposições inconscientes de sua audiência, o agitador, por assim dizer, volta seu próprio inconsciente para fora. Sua particular síndrome de caráter lhe possibilita fazer exatamente isso, e a experiência o ensinou conscientemente a explorar essa faculdade, a fazer uso racional de sua irracionalidade, de modo semelhante ao ator ou a certo tipo de jornalista que sabe como vender sua estimulação e sua sensibilidade. Sem sabê-lo, ele é, assim, capaz de falar e agir em acordo com a teoria psicológica pela simples razão de que a teoria psicológica é verdadeira. Tudo o que ele tem a fazer para que a psicologia de sua platéia funcione é explorar maliciosamente sua própria psicologia.

“O líder pode adivinhar os desejos e necessidades psicológicas dos que são suscetíveis à sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibições o que neles está latente, em vez de lançar mão de alguma superioridade intrínseca.”

A adequação dos dispositivos dos agitadores à base psicológica de seus objetivos é aperfeiçoada por outro fator. Como sabemos, a agitação fascista tornou-se uma profissão, por assim dizer, um meio de vida. Ela teve bastante tempo para testar a efetividade de seus vários atrativos (appeals), e, pelo que poderia ser chamado de seleção natural, apenas os mais cativantes sobreviveram. Sua efetividade é, ela própria, uma função da psicologia dos consumidores. Por um processo de “congelamento” (freezing), que pode ser observado em todas as técnicas empregadas na moderna cultura de massa, os atrativos sobreviventes foram estandardizados, de forma similar aos slogans de propaganda que provaram ser valiosos na promoção dos negócios. Essa estandardização, por sua vez, corresponde ao pensamento estereotipado, ou seja, à “estereopatia” daqueles suscetíveis a essa propaganda e a seu desejo infantil por repetição interminável e inalterada. É difícil predizer se essa última disposição psicológica evitará que os dispositivos-padrão (standard) dos agitadores fiquem embotados pelo uso excessivo. Na Alemanha nacional-socialista costumavam-se ridicularizar certas expressões propagandísticas como “sangue e solo” (Blut und Boden), contraída jocosamente para Blubo, ou o conceito da raça nórdica, do qual o verbo paródico aufnorden (“nortizar”) foi derivado. Não obstante, esses atrativos não parecem ter perdido seu apelo. Antes, sua própria “impostura” (phonyness) pode ter sido cínica e sadicamente saboreada como um sinal de que o poder sozinho decidia o destino das pessoas no Terceiro Reich, ou seja, o poder desembaraçado da objetividade racional.
Além disso, pode-se perguntar: por que a psicologia de grupo aplicada discutida aqui é mais peculiar ao fascismo que à maioria dos outros movimentos que buscam apoio de massa? Mesmo a comparação mais casual da propaganda fascista com a dos partidos liberais e progressistas mostra que é assim. Contudo, nem Freud nem Le Bon consideraram tal distinção. Eles falavam de multidões “como tais”, de modo similar às conceitualizações utilizadas pela sociologia formal, sem distinguir os objetivos políticos dos grupos em questão. De fato, ambos pensavam antes nos movimentos socialistas tradicionais que em seu oposto, embora se deva notar que a Igreja e o Exército – exemplos escolhidos por Freud para a demonstração de sua teoria – são essencialmente conservadores e hierárquicos. Le Bon, no entanto, está preocupado principalmente com multidões não organizadas, espontâneas e efêmeras. Somente uma teoria explícita da sociedade, que transcenda em muito os limites da psicologia, pode responder completamente à pergunta feita aqui. Por ora nos contentamos com algumas sugestões. Primeiro, as finalidades objetivas do fascismo são amplamente irracionais na medida em que contradizem os interesses materiais de grande número daqueles que elas tentam incorporar, não obstante o boom pré-guerra dos primeiros anos do regime de Hitler. O risco contínuo de guerra inerente ao fascismo significa destruição, e as massas sabem disso ao menos pré-conscientemente. Desse modo, o fascismo não é totalmente mentiroso quando se refere a seus poderes irracionais, não importando se é falsa a mitologia que ideologicamente racionaliza o irracional. Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos. Essa tarefa é facilitada pelo estado de espírito de todos aqueles estratos da população que sofrem frustrações sem sentido e desenvolvem, por isso, uma mentalidade mesquinha e irracional. O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles são – os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade – em vez de estabelecer metas cuja realização transcenderia o status quo psicológico não menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus próprios propósitos – não precisa induzir uma mudança –, e a repetição compulsiva, que é uma de suas características primárias, estará em acordo com a necessidade dessa reprodução contínua. Ela se apóia absolutamente na estrutura total tanto quanto em cada traço particular do caráter autoritário, que é, ele mesmo, produto de uma internalização dos aspectos irracionais da sociedade moderna. Sob as condições prevalecentes, a irracionalidade da propaganda fascista se torna racional no sentido da economia pulsional. Pois, se o status quo é tomado como algo aceito e petrificado, é necessário um esforço muito maior para se ver através dele do que para se ajustar a ele e obter pelo menos alguma satisfação por meio da identificação com o existente – o núcleo da propaganda fascista. Isso pode explicar por que os movimentos de massa ultra-reacionários usam a “psicologia das massas” num grau muito maior do que movimentos que mostram mais fé nas massas. Entretanto, não há dúvida de que mesmo o movimento político mais progressista pode se deteriorar até chegar ao nível da “psicologia da multidão” e de sua manipulação, se seu próprio conteúdo racional é despedaçado pela reversão ao poder cego.

“O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles são – os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade – em vez de estabelecer metas cuja realização transcenderia o status quo psicológico não menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus próprios propósitos – não precisa induzir uma mudança –, e a repetição compulsiva, que é uma de suas características primárias, estará em acordo com a necessidade dessa reprodução contínua.”

A assim chamada psicologia do fascismo é amplamente gerada por manipulação. Técnicas racionalmente calculadas provocam o que é ingenuamente considerado a irracionalidade “natural” das massas. Esse insight pode nos ajudar a resolver se o fascismo como fenômeno de massa pode ser explicado em termos psicológicos. Apesar de certamente existir uma potencial suscetibilidade ao fascismo entre as massas, é igualmente certo que a manipulação do inconsciente, o tipo de sugestão explicada por Freud em termos genéticos, é indispensável para a atualização desse potencial. Isso, entretanto, corrobora a suposição de que o fascismo como tal não é uma questão psicológica e também de que qualquer tentativa para entender suas raízes e seu papel histórico em termos psicológicos permanece no nível das ideologias, como a das “forças irracionais”, promovidas pelo próprio fascismo. Embora o agitador fascista indubitavelmente assuma certas tendências internas àqueles aos quais se dirige, ele o faz como mandatário de interesses econômicos e políticos poderosos. Disposições psicológicas não causam, na verdade, o fascismo; antes, o fascismo define uma área psicológica que pode ser explorada com sucesso pelas forças que o promovem por razões completamente não-psicológicas de interesse próprio. O que acontece quando massas são apanhadas pela propaganda fascista não é uma expressão primária espontânea de instintos e desejos, mas uma revitalização quasi-científica de sua psicologia – a regressão artificial descrita por Freud em sua discussão sobre os grupos organizados. A psicologia das massas foi controlada por seus líderes e transformada em meio para sua dominação. Ela não se expressa diretamente pelos movimentos de massa. Esse fenômeno não é completamente novo, mas foi pressagiado pelos movimentos contra-revolucionários ao longo da história. Longe de ser a fonte do fascismo, a psicologia se tornou um elemento entre outros em um sistema sobreposto cuja própria totalidade é tornada necessária pelo potencial de resistência das massas – a própria racionalidade das massas. O conteúdo da teoria de Freud – a substituição do narcisismo individual pela identificação com a imagem dos líderes – aponta na direção do que poderia ser chamado de apropriação da psicologia de massa pelos opressores. Esse processo tem, com certeza, uma dimensão psicológica, mas também indica uma tendência crescente à abolição da motivação psicológica no sentido antigo e liberal. Tal motivação é sistematicamente controlada e absorvida por mecanismos sociais que são regulados a partir de cima. Quando os líderes se tornam conscientes da psicologia de massa e a tomam nas próprias mãos, ela deixa de existir, num certo sentido. Essa potencialidade está contida no constructo básico da psicanálise, porquanto para Freud o conceito de psicologia é essencialmente negativo. Ele define o reino da psicologia pela supremacia do inconsciente e postula que o que é isso deveria se tornar eu. A emancipação do homem do domínio heterônomo de seu inconsciente seria equivalente à abolição de sua “psicologia”. O fascismo promove essa abolição no sentido oposto, pela perpetuação da dependência em lugar da realização da liberdade potencial, pela expropriação do inconsciente por meio do controle social em lugar de tornar os sujeitos conscientes de seus inconscientes. Pois, ao mesmo tempo que sempre denota algum aprisionamento do indivíduo, a psicologia também pressupõe liberdade no sentido de uma certa auto-suficiência e autonomia do indivíduo. Não é acidental que o século XIX tenha sido a grande era do pensamento psicológico. Numa sociedade completamente reificada, na qual não há virtualmente nenhuma relação direta entre homens e na qual cada pessoa foi reduzida a um átomo social, a uma mera função da coletividade, os processos psicológicos, apesar de persistirem dentro cada indivíduo, deixaram de aparecer como forças determinantes do processo social. Assim, a psicologia do indivíduo perdeu o que Hegel teria chamado de sua substância. Talvez o maior mérito do livro de Freud, apesar de ter se restringido ao campo da psicologia individual e sabiamente se abstido de introduzir fatores sociológicos de fora, tenha sido, não obstante, alcançar o momento decisivo no qual a psicologia renuncia a seu poder. O “empobrecimento” psicológico do sujeito que “se entregou ao objeto”, o qual “substituiu seu componente mais importante”36, isto é, o supereu, antecipa quase com clarividência os desindividualizados átomos sociais pós-psicológicos que formam as coletividades fascistas. Nesses átomos sociais, as dinâmicas psicológicas da formação de grupo foram para além de si mesmas e não são mais uma realidade. A categoria da “impostura” (phonyness) se aplica aos líderes tanto quanto ao ato de identificação por parte das massas e a seus supostos frenesi e histeria. Do mesmo modo que, no fundo do coração, as pessoas pouco crêem nos judeus como o demônio, elas também não acreditam completamente no líder. Não se identificam realmente com ele, mas simulam essa identificação, encenam seu próprio entusiasmo e participam, assim, da performance de seu líder. É por meio dessa encenação que atingem um equilíbrio entre seus desejos instintuais continuamente mobilizados e a fase histórica de esclarecimento que alcançaram e que não pode ser arbitrariamente revogada. É provavelmente a suspeita do caráter fictício de sua própria “psicologia de grupo” que torna as multidões fascistas tão inabordáveis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encenação desmoronaria, e só lhes restaria entrar em pânico.

“A psicologia das massas foi controlada por seus líderes e transformada em meio para sua dominação. Ela não se expressa diretamente pelos movimentos de massa.”

Freud descobriu esse elemento de “impostura” em um contexto inesperado, isto é, quando discutia a hipnose como um retrocesso dos indivíduos à relação entre a horda primitiva e o pai primitivo.
“Como sabemos por outras reações, os indivíduos preservaram um grau variável de aptidão pessoal para reavivar velhas situações desse tipo. Algum conhecimento de que, apesar de tudo, a hipnose é apenas um jogo, uma renovação ilusória dessas antigas impressões, pode, porém, permanecer por detrás e cuidar para que haja uma resistência contra quaisquer conseqüências sérias da suspensão da vontade na hipnose.”37
Nesse meio tempo, esse jogo foi socializado, e as conseqüências provaram-se muito sérias. Freud estabeleceu uma distinção entre hipnose e psicologia de grupo descrevendo a primeira como a que toma lugar entre duas pessoas apenas. Entretanto, ao apropriar a psicologia de massa e aperfeiçoar sua técnica, os líderes coletivizaram o feitiço hipnótico. O grito de guerra nazista – “Desperta, Alemanha”– esconde seu próprio contrário. A coletivização e a institucionalização do feitiço, no entanto, tornaram a transferência cada vez mais indireta e precária, de forma que o aspecto de performance, a “impostura” da identificação entusiástica e de toda a dinâmica tradicional da psicologia de grupo, foi tremendamente aumentado. Aumento esse que bem pode terminar numa súbita consciência da inverdade do feitiço e, por fim, em seu colapso. A hipnose socializada cria no interior de si mesma as forças que eliminarão o fantasma da regressão por controle remoto, e que, no fim, despertarão aqueles que mantêm seus olhos fechados apesar de não estarem mais dormindo.
* Artigo publicado originalmente na revista Margem Esquerda