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terça-feira, 30 de outubro de 2018

‘Vitória de Bolsonaro faz soar um alarme mundial’, por João Paulo Charleaux.


29 Out 2018
(atualizado 29/Out 21h49)

José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da ONG internacional de direitos humanos Human Rights Watch, compara Bolsonaro a Chávez e diz que Brasil se converteu numa das prioridades da organização

Foto: John Vizcaino/Reuters - 03.02.2010
Jose Vivanco
José Miguel Vivanco em entrevista a jornalistas em Bogotá
José Miguel Vivanco foi expulso da Venezuela em 2009 por denunciar violações aos direitos humanos cometidas pelo então presidente Hugo Chávez. O diretor para as Américas da Human Rights Watch, uma das maiores e mais influentes organizações de direitos humanos do mundo, já previa então que o país se tornaria uma ditadura.
Nesta segunda-feira (29), um dia depois da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para presidente, Vivanco disse ao Nexo, de Washington, por telefone, que teme que o Brasil siga caminho semelhante, em alguns aspectos, não apenas ao da Venezuela, mas também ao de países como Filipinas, Rússia, Turquia e outros, que passaram a ser governados por populistas autoritários de diferentes matizes.
A vitória de Bolsonaro “faz soar um alarme que é muito, muito sério”, disse Vivanco. O professor de direito nas universidades Georgetown e John Hopkins, ambas nos EUA, alertou ainda: “Muitos pensam que é preciso estar preocupado com o que um político faz, não com o que ele diz. Nossa experiência mostra que o discurso contrário aos direitos humanos tem que ser sempre identificado a tempo. Do contrário, pode ser tarde demais”.
Ele avisou que pretende “mobilizar a opinião pública mundial e todos os mecanismos disponíveis, tanto na Organização das Nações Unidas quanto na Organização dos Estados Americanos, além dos governos democráticos e amigos que se importam com os direitos humanos, seja na América Latina, na Europa ou na América do Norte, para defender a vigência dos direitos fundamentais no Brasil”.

Qual é sua preocupação com o Brasil a partir do resultado da eleição presidencial?

José Miguel Vivanco Penso que esta é a primeira vez na história moderna da América Latina que por votação popular, numa decisão democrática, alguém cuja plataforma política e cujas promessas de campanha são, na maioria, contrárias a valores e princípios básicos em matéria de direitos humanos, se consagra.
Que um candidato populista como este, com um discurso demagogo desses, chegue ao poder, não é propriamente uma surpresa. Há muitos políticos populistas demagogos eleitos, começando por Donald Trump, nos EUA. Mas a eleição de um candidato que faz apologia à ditadura militar brasileira, que defende o uso da tortura, que promove o fácil acesso às armas por parte dos cidadãos, e que promete que, no futuro, policiais que matem delinquentes sejam premiados, condecorados ou promovidos, implicando numa licença para matar sem prestar contas, alguém que trata os meios de comunicação como fake news, que abertamente adere a posições racistas e discriminatórias contra as mulheres, contra os negros, contra aqueles que têm uma orientação sexual diferente, que ameaça as instituições, incluindo as instituições judiciais, e que, nesta condição, é eleito com o apoio de uma ampla maioria dos eleitores, implica não somente numa ameaça muito séria ao sistema democrático brasileiro e à vigência dos direitos humanos de caráter universal, pelo tamanho do país, pelo fato de o Brasil ser um gigante na América Latina, mas representa também um perigo, um risco muito, muito grave para a defesa dos direitos mais básicos em toda a América.

O que a sua organização pretende fazer em relação a isso?

José Miguel Vivanco Nossa organização tem o mandato de investigar e mostrar a fotografia mais nítida possível do comportamento dos Estados em relação aos direitos humanos no mundo todo. Para nós, a chegada de alguém como Bolsonaro, eleito democraticamente no Brasil, converte o país numa das principais prioridades da organização.
Nossa experiência indica que os discursos e as promessas de campanha, a retórica, especialmente quando se trata de uma retórica tão negativa, tão provocadora, mais que provocadora, tão anti-direitos humanos, como é a dele, é um alarme. Isso faz soar um alarme que é muito, muito sério. É um alarme igual ao que temos hoje em relação a Rodrigo Duterte, [presidente] nas Filipinas. Queremos informar ao mundo tudo o que possa começar a ocorrer no Brasil a partir de 1º de janeiro de 2019.
Estaremos atentos para registrar como vão se dando os acontecimentos, quais são as políticas específicas que Bolsonaro tentará implementar na hora de cumprir suas promessas de campanha.
Muitos pensam que é preciso estar preocupado com o que um político faz, não com o que ele diz. Nossa experiência mostra que o discurso contrário aos direitos humanos tem que ser sempre identificado a tempo. Do contrário, pode ser tarde demais.
Nós fomos talvez a primeira organização mundial de direitos humanos a fazer soar o alarme em relação a Hugo Chávez na Venezuela. Estou falando de 2003, 2004, quando Chávez começou a abertamente atacar os meios de comunicação, a falar em censura à imprensa, a retirar arbitrariamente a concessão de funcionamento do principal canal de televisão do país, a RCTV, e a impor controles aos meios de comunicação audiovisual, assim como quando Chávez começou a criticar o Poder Judiciário, a falar contra os mecanismos de controle do Estado.
Quando alertávamos sobre isso, muitos nos diziam: “deixe-o tranquilo, isso é parte de um debate político muito polarizado. Não se deve dar atenção a esse tipo de declaração, porque são provocações. Espere para ver se ele vai fazer o que diz”. Eu acho que todos os que baixaram a guarda finalmente lamentaram, depois, terem chegado tarde demais para defender as liberdades públicas e os direitos básicos.
Bolsonaro desenhou claramente um plano de ação. E, nisso, ele foi muito claro. Ele foi muito claro a respeito de suas posições contra os direitos humanos. Isso é mais do que suficiente para nos obrigar a estarmos muito atentos a tudo o que aconteça, para mobilizar a opinião pública mundial e todos os mecanismos disponíveis, tanto na Organização das Nações Unidas quanto na Organização dos Estados Americanos, além dos governos democráticos e amigos que se importam com os direitos humanos. Seja na América Latina, na Europa ou na América do Norte, estaremos muito atentos para mobilizar esses governos, para defender a vigência dos direitos fundamentais no Brasil.

A Venezuela foi um assunto muito recorrente nas mensagens de campanha de Bolsonaro, como uma ameaça de que o Brasil, pelas mãos do PT, seria convertido numa nova Venezuela. Mas o sr. menciona a Venezuela agora como um risco de destino ao qual o Brasil poderia chegar pelas mãos do próprio Bolsonaro. Como esses extremos, à direita e à esquerda, chegam ao mesmo lugar em relação aos direitos humanos?

José Miguel Vivanco A única diferença entre o discurso de extrema direita e o discurso de extrema esquerda é a ideologia. Mas ambos estão unidos por um discurso messiânico, fundamentalista e populista, um discurso que ignora ou desconhece as instituições democráticas.
São políticos que surgem prometendo o paraíso na Terra, quando nossos povos estão passando por etapas difíceis, quando há um grande desprestígio da classe política, quando há medo e há incerteza em relação ao futuro, quando a credibilidade do jogo democrático está em jogo — esse é exatamente o caldo de cultura no qual aparecem esses falsos profetas, esses messias que exploram os temores das pessoas e que oferecem soluções demagogas, simplistas, como a mão dura, a força bruta. Eles dizem que as pessoas devem depositar uma fé cega neles, com a promessa de que, com isso, as coisas mudam. Mas toda a história, toda a nossa experiência demonstra que, com a ausência de controles institucionais, há mais abusos, mais violência. Quando as pessoas têm acesso fácil às armas, há inevitavelmente mais violência. Quando os policiais recebem autorização para matar antes de perguntar, também há como consequência mais violência, mais milícias, mais grupos de extermínio e mais injustiça, mais abusos.
Insisto: a diferença é essencialmente ideológica, mas o populismo é o mesmo. A irresponsabilidade é a mesma. A aposta no caudilhismo é a mesma. E digo mais: muitas vezes, um dos principais obstáculos para os que promovem a vigência dos direitos humanos são os setores que se deixam levar pela ideologia de maneira tal que começam a aplicar um duplo padrão, que é um padrão de fazer vista grossa para fatos atrozes, sob a justificativa de possuir uma afinidade ideológica em relação a um determinado governo.
Quando essas pessoas se deixam levar por afinidades ideológicas — que são perfeitamente legítimas — é preciso parar, distinguir e dizer: “eu me sinto ideologicamente simpatizante deste modelo, mas rechaço categoricamente as violações aos direitos humanos, as perseguições contra minorias e os abusos contra as liberdades de expressão que este mesmo governo promove. Mesmo estando próximo ideologicamente deste governo, sou capaz de identificar, de reconhecer, que este modelo, neste país, está cometendo ou vai cometer violações de direitos humanos, porque o líder é autoritário, reivindica a ditadura e diz que o pior erro da ditadura foi ter torturado sem ter matado as vítimas da repressão”.
Com esse tipo de proposta, são claríssimos os problemas que Bolsonaro representa para os direitos humanos, e é clarríssimo identificar onde estão as semelhanças entre esse discurso autoritário e o discurso que Nicolás Maduro promove na Venezuela.

Líderes populistas e nacionalistas de extrema direita acusam organizações como a sua, assim como a imprensa, de tentar limitar ou controlar governos autônomos, que foram eleitos democraticamente justamente para executar o plano que foi apresentado ao longo de uma campanha. Como o sr. vê essa acusação de intromissão?

José Miguel Vivanco Isso faz parte do repertório dessas pessoas. Foi o que fez Alberto Fujimori no Peru. Ele foi eleito democraticamente. Derrotou [o escritor peruano, prêmio Nobel de Literatura e candidato presidencial na eleição de 1990, Mario Vargas] Llosa, num contexto muito difícil que o Peru então atravessava, e, um ano depois de tomar posse, deu um autogolpe e começou a governar diretamente como um ditador. Ele perseguiu a sociedade civil, os meios de comunicação e o Poder Judiciário. Há muitos exemplos como esse.
São governantes que acreditam que são eleitos com poderes para fazer e para desfazer. Acham que basta a legitimidade de origem: se é eleito democraticamente, tem liberdade para governar e para fazer o que quiser, pois tem o mandato dado pela maioria. Eles não entendem que os valores democráticos implicam, primeiro, serem eleito em eleições limpas, competitivas e sem fraudes. Mas, depois, é preciso governar democraticamente. E o governo democrático se define pelo respeito às minorias, não às maiorias. E pelo respeito às instituições do Judiciário, à liberdade dos meios de comunicação, para que possam promover sempre um debate público aberto e sem censura, e à sociedade civil.
Há exemplos à esquerda e à direita de caudilhos populistas que atacam principalmente e primeiramente a sociedade civil, os meios de comunicação e os juízes. Aí está centrada toda a artilharia. Foi o que fez Fujimori, foi o que fez Álvaro Uribe [presidente da Colômbia de 2002 a 2010], foi o que fez Rafael Correa [presidente do Equador de 2007 a 2017], foi o que fez Hugo Chávez [presidente da Venezuela de 1999 a 2013] e Nicolás Maduro [sucessor de Chávez, desde 2013 até hoje], assim está fazendo Donald Trump nos EUA, assim faz Viktor Orban [primeiro-ministro da Hungria desde 2010], Recep Erdogan [presidente da Turquia desde 2014] e Vladimir Putin [presidente da Rússia desde 2012].
Há inúmeros exemplos de líderes que assumiram em eleições democráticas, ou não tão democráticas assim, mas que, logo, passaram a governar como autocratas. Para eles, o primeiro alvo da artilharia são as vozes independentes, são os mecanismos de controle, os especialistas que falam sobre mudanças climáticas, os especialistas que podem converter-se numa pedra no sapato para o governante autoritário. Por isso, nós estaremos extremamente atentos ao trabalho dos juízes, dos meios de comunicação independentes e, com certeza, da sociedade civil brasileira.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Bolsonaro: a suspeita de caixa dois para espalhar boatos, por João Paulo Charleaux.


18 Out 2018
(atualizado 19/Out 11h00)

Segundo jornal Folha de S.Paulo, empresas financiam ataques ao PT no WhatsApp. Aplicativo de mensagens se converte em terreno fértil para militantes que agem no subterrâneo da campanha

Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (PSL) fala em conferência no Rio de Janeiro
O WhatsApp se tornou central na campanha presidencial brasileira ainda no primeiro turno de 2018, em razão do volume de notícias falsas que circularam por ele. Agora, o aplicativo aparece como ferramenta principal de um sistema de disparos de mensagens em massa que, segundo o jornal Folha de S. Paulo, é financiado por empresas aliadas de Jair Bolsonaro e usado para atacar Fernando Haddad, seu adversário direto na etapa final da disputa pelo Palácio do Planalto.
O PT de Haddad acionou o Tribunal Superior Eleitoral após a publicação da reportagem na quinta-feira (18). O partido acusa a campanha rival de prática de caixa dois, pois a ajuda empresarial ao candidato do PSL não está registrada nas contas oficiais. Relaciona ainda o sistema de disparos de mensagens à disseminação de mentiras e ao abuso de poder econômico. Bolsonaro, por sua vez, diz não ter controle sobre eventuais ajudas recebidas, algo que ele chama de “apoio voluntário”.
O caso revela, de forma mais ampla, as confusões que as redes sociais e outros meios eletrônicos vêm provocando na forma tradicional de se fazer política não apenas no Brasil, mas em outras parte do mundo. Partidos, imprensa, opinião pública e principalmente órgãos de controle no Judiciário ficaram um passo atrás em relação às novas situações impostas pelas redes sociais, como o Facebook, e por cadeias de trocas de mensagens, como as que existem no WhatsApp, que escapam ao monitoramento convencional.
“Esta é a eleição mais digitalizada da história do Brasil. Desde 2014, o Whatsapp ganhou uma importância gigantesca e o Twitter se tornou ainda maior. As redes sociais influenciaram fortemente o voto dos eleitores”
Arthur Igreja
professor de Tecnologia e Inovação na FGV Rio, em entrevista ao Nexo

A reportagem e a reação das campanhas

Segundo a reportagem do jornal Folha de S.Paulo, empresas privadas apoiadoras de Bolsonaro contrataram serviços de marketing para distribuir “centenas de milhões” de mensagens com propaganda eleitoral contra o PT no WhatsApp. Os contratos chegariam a R$ 12 milhões.
Após a publicação, Haddad disse que Bolsonaro pediu a empresários que, em vez de doarem dinheiro para o caixa de campanha do PSL, pagassem diretamente agências de marketing que trabalham disparando mensagens via WhatsApp.
A tese do PT é a de que o dinheiro desses apoiadores circulou fora do caixa oficial de campanha do PSL, mas a manobra é, na prática, equivalente à doação eleitoral. A questão é que empresas estão proibidas de doar para campanhas eleitorais desde 2015.
“Ele próprio [Bolsonaro], em jantares com empresários, fez o pedido para que a doação fosse feita dessa maneira”
Fernando Haddad
candidato do PT à Presidência da República, em entrevista a jornalistas, em São Paulo, nesta quinta-feira (18)
“Eu não tenho controle se tem empresário simpático a mim fazendo isso. Eu sei que fere a legislação. Mas eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência”
Jair Bolsonaro
candidato do PSL à Presidência da República, em entrevista ao site Antagonista, nesta quinta-feira (18)
Carlos Lupi, presidente do PDT — partido do candidato Ciro Gomes, derrotado no primeiro turno, que agora dá “apoio crítico” a Haddad —, anunciou que os advogados da legenda estão estudando formas de pedir a anulação das eleições.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira (18), Haddad aparece 18 pontos atrás de Bolsonaro. O segundo turno será no dia 28 de outubro.

O caso de 2014 que acabou em absolvição

Em 2014, após Dilma Rousseff vencer a eleição no segundo turno numa disputa apertada contra o tucano Aécio Neves, o PSDB questionou a campanha petista no TSE, também sob o argumento de abuso do poder econômico. O partido alegou que o PT usou dinheiro desviado da Petrobras na campanha, a partir das revelações da Operação Lava Jato.
O caso teve idas e vindas no tribunal eleitoral. Em determinados momentos, foi uma ameaça de cassação para Dilma. Mas a então presidente acabou caindo por um impeachment, por decisão do Congresso, em razão de manobras fiscais.
O caso, no entanto, prosseguiu, já que se tratava de uma acusação contra a chapa vitoriosa em 2014. E Michel Temer, que assumiu o comando do país em maio de 2016, era vice de Dilma. O TSE, no fim, acabou absolvendo a chapa. E, dessa forma, Temer manteve o cargo.
Todo o processo, da impugnação feita pelo PSDB, em dezembro de 2014, à decisão final do plenário, tomada em junho de 2017, durou um período de dois anos e meio.

O caso de 2018 e a Justiça Eleitoral

O professor de direito eleitoral da penal da FGV de São Paulo e do Mackenzie Diogo Rais disse ao Nexo que fatos como esse “podem caracterizar doação ilegal de campanha por fonte vedada, já que, desde 2015, as empresas estão proibidas de financiar candidatos”.
Rais explica que, no caso de abuso de poder econômico, não faz diferença se o candidato sabia ou não sabia das ações, “pois o que a Justiça preserva é a lisura do processo eleitoral como um todo”.
O professor de direito eleitoral lembra ainda que a lei proíbe que empresas comprem bancos de dados com cadastros de eleitores. Segundo a reportagem da Folha, as agências que realizam os disparos de mensagens em massa via WhatsApp podem ter usado o banco de dados de telefones de eleitores reunidos pela própria campanha de Bolsonaro ou mesmo um banco de dados de terceiros, fornecidos ilegalmente.
Se confirmadas as suspeitas, tais irregularidades podem levar à cassação (da candidatura, algo improvável até 28 de outubro, já que é necessário investigar e depois julgar o caso) ou mesmo de um eventual mandato, se Bolsonaro vier a vencer a eleição.

O funcionamento do Whatsapp

Foto: Dado Ruvic/Reuters
Para estudiosos, uso do Whatsapp nas eleições ainda é uma 'incerteza'
Para estudiosos, uso do Whatsapp nas eleições ainda é uma 'incerteza'
O aplicativo que está no centro da polêmica é criticado por funcionar como uma espécie de submundo da comunicação de conteúdo político, protegido por políticas de privacidade que impedem quantificar e qualificar o nível da informação trocada entre os usuários.
O WhatsApp é “a ferramenta mais eficaz para espalhar notícias sobre política, com destaque para as fake news, pela fácil disseminação entre os grupos”, diz Igreja, da FGV. “Nem todas as pessoas têm muitos seguidores nas redes sociais, mas a maioria faz parte de mais de um grupo no WhatsApp.”
Esse tipo de crítica vem sendo rebatida pela empresa que administra o serviço. “Mais de 90% das mensagens enviadas no WhatsApp no Brasil são entre duas pessoas”, diz Chris Daniels, vice-presidente mundial do Whatsapp e ex-vice-presidente do Facebook. “A maioria dos grupos [de usuários de Whatsapp] tem ao redor de seis pessoas — uma conversa tão pessoal e privada como a que acontece em uma sala de estar.”
Daniels diz, por exemplo, que “uma única pessoa precisaria criar perto de 4.000 grupos para atingir 1 milhão de pessoas”. Seus argumentos foram publicados também na Folha, páginas antes das revelações  que apontavam a ação de empresas pró-Bolsonaro.
A reportagem fala de contratos com empresas de marketing que fazem “disparos em massa” de mensagens políticas, e da venda de bancos de dados com milhares de números de telefones de usuários do serviço — o que se choca com qualquer tentativa de dar ao WhatsApp o caráter restrito do uso pessoal e intimista que seus proprietários apresentam.
As informações não são exatamente contraditórias. O que ocorre é que a empresa WhatsApp fala como se ignorasse o fato de que empresas de marketing se dedicam precisamente a colocar funcionários trabalhando na criação de grupos, na formação de bancos de dados e no envio de mensagens em massa.

A questão do Facebook nos EUA

Foto: Aaron P. Bernstein/Reuters
Mark Zuckerberg durante sabatina na Câmara dos Representantes dos EUA, em 11 de abril de 2018
Mark Zuckerberg durante sabatina na Câmara dos Representantes dos EUA, em 11 de abril de 2018
O WhatsApp não é um aplicativo tão popular nos EUA quanto no Brasil. Mas isso não significa que o país tenha ficado imune aos problemas provocados pela desinformação eleitoral no ambiente digital. Lá, o Facebook e o Twitter estiveram no centro do debate.
Hoje, é sabido que pelo menos uma grande empresa privada de comunicação, a Cambridge Analytica, contratada pela campanha do republicano Donald Trump em 2016, teve acesso a informações sigilosas de pelo menos 50 milhões de usuários do Facebook.
Esses dados foram combinados com outras informações de perfil, provenientes de empresas de cartão de crédito, de streaming de vídeo, de consumo de música, entre outras, para traçar um perfil do comportamento e das preferências dos indivíduos aos quais a empresa passou a disparar mensagens políticas personalizadas, promovendo Trump, que acabaria sendo eleito.
Em 2016, Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica, extinta após o escândalo, apresentou, ele mesmo, a “abordagem revolucionária” usada pela empresa na campanha americana.
A inovação fez a empresa abandonar “segmentação por características demográficas ridículas, por gênero, cor e idade”, disse Nix, e passar a trabalhar com o que ele chama de perfil psicográfico, “que é o que influencia a personalidade. E personalidade é o que orienta seu voto”.
Esse perfil vem do levantamento de informações como clubes que a pessoa frequenta, a religião, as músicas que ela ouve, as séries que são vistas na televisão, entre outras.
A partir disso, a empresa classificou as pessoas dentro de um esquema chamado Ocean, feito a partir dos seguintes parâmetros:
  • Openness (abertura): abertura do indivíduo a novas experiências
  • Conscientiousness (nível de consciência): preocupação da pessoa com organização e eficiência
  • Extroversion (extroversão): nível de sociabilidade e tendência de ver o lado positivo das coisas
  • Agreeableness (amabilidade): cooperação e sensibilidade com questões de outras pessoas
  • Neuroticism (instabilidade emocional ou neurose): intensidade emocional com que a pessoa reage ao receber informações
Assim, uma mesma mensagem de campanha política, por exemplo, defendendo o porte de armas, pode ter duas formas diferentes, dependendo de a quem ela se destina: com um tom legalista para um perfil de pessoa ou com um tom emotivo para outro tipo.
“Você está brincando com a psicologia de um país inteiro sem o consentimento ou ciência deles. Você está brincando com a psicologia de um país inteiro no contexto de um processo democrático”
Christopher Wylie
antigo empregado da Cambridge Analytica, em março de 2018
O uso de informações sigilosas de usuários do Facebook pela Cambridge Analytica e a interferência nas eleições presidenciais fez com que, em abril de 2018, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, fosse chamado a depor no Senado e na Câmara, nos EUA.
Zuckerberg assumiu muitas vezes posição ambígua sobre a disposição da empresa em lidar com o fluxo de informações políticas e a política de privacidade dos usuários do serviço.
Um dos maiores estrategistas da campanha de Trump, Steve Bannon, esteve envolvido na fundação da Cambridge Analytica e na concepção dos serviços prestados pela empresa.
Bannon, que mais tarde se afastaria de Trump, passou a se dedicar à tarefa de ajudar outros políticos populistas de extrema direita a vencer eleições na Europa. Ele mesmo comprou uma propriedade na Itália, onde diz pretender fundar uma espécie de universidade ou fundação para atingir esse fim.
Foto: Jonathan Ernst/Reuters - 28.01.2017
Steve Bannon
Steve Bannon coloca documento sobre a mesa de Donald Trump
Em agosto, um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, esteve com Bannon em Nova York. “Bannon se colocou à disposição para ajudar”, disse Eduardo, após o encontro. “Isso, obviamente, não inclui nada de financeiro. A gente deixou isso bem claro, tanto eu quanto ele. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”, disse o filho e membro da campanha de Bolsonaro.
Depois do escândalo nos EUA, o Facebook encampou algumas iniciativas para combater a desinformação na eleição brasileira. Perfis falsos ou associados à disseminação recorrente de informações comprovadamente falsas foram desativados.
O WhatsApp, porém, não tem esse mesmo tipo de controle. As medidas tomadas pelos administradores do aplicativo de trocas de mensagens são mais brandas, como impedir que um pessoa que tenha rejeitado um convite para participar de um grupo seja reiteradamente convidada.
A fórmula conhecida como Ocean funciona mais em redes como o Facebook do que no WhatsApp, onde as empresas de marketing dizem saber, no máximo, a localização geográfica do número de telefone do usuário.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Datafolha com Lula preso: o que a pesquisa projeta para a eleição, por José Roberto Castro.


16 Abr 2018
(atualizado 17/Abr 18h51)

Ex-presidente segue na liderança. Seu provável impedimento abre disputa por votos de centro-esquerda. Percentual de eleitores sem candidato é recorde

Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
O jornal Folha de S.Paulo divulgou em sua edição de domingo (15) o resultado da primeira pesquisa do instituto Datafolha após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrida uma semana antes, em razão do cumprimento da pena da condenação por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex em Guarujá.
Além de ser o primeiro levantamento com Lula preso, foi também o primeiro depois de 7 de abril, data-chave da eleição, a partir de quando quem não estiver filiado a um partido não pode mais concorrer. Além disso, é quando governadores, prefeitos e ministros que querem disputar a eleição têm de deixar seus cargos no Executivo.
O fim do prazo para a filiação ou para a renúncia aos cargos produziu o seguinte: o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se filiou a um partido; Luciano Huck, não; Geraldo Alckmin, governador paulista, e Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, deixaram seus cargos de olho no Palácio do Planalto.
As entrevistas do Datafolha foram realizadas entre quarta-feira (11) e sexta-feira (13), com 4.194 eleitores em 227 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O resultado dos cenários apresentados mostra que Lula terá papel central na disputa, sendo candidato ou não, estando ou não preso.

O papel de Lula é central

Lula lidera todos os três cenários com seu nome. A pontuação varia entre 30% e 31% das intenções de voto, independemente de quem venha a ser o candidato oficial do governo, se o atual presidente Michel Temer ou se o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.
A intenção de votos no petista é o dobro da registrada pelo segundo colocado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que tem 15% no cenário principal.

Liderança

Os cerca de 30%, no entanto, são menores do que Lula obteve na pesquisa anterior. No final de janeiro, depois de ser condenado em segunda instância judicial no caso tríplex, o petista aparecia com cerca de 37%. Os dois números, porém, não são estatisticamente comparáveis porque os cenários simulados são diferentes, segundo o Datafolha.
A pesquisa mostra ainda que dois de cada três eleitores de Lula dizem que certamente votariam em um candidato indicado por ele. Isso significa que, de seus 31%, Lula teoricamente conseguiria entregar uma intenção de voto de cerca de 20% a alguém que venha apoiar publicamente. Essa votação seria suficiente para dar a qualquer candidato a liderança nos cenários sem Lula.

O que esperar a partir de agora

Lula venceria também em todas as simulações de segundo turno, mas é improvável que ele chegue lá. Isso porque o petista foi condenado em segunda instância em uma decisão colegiada - dada por mais de um magistrado -, e assim deve ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa.
Por enquanto, o PT mantém o discurso de que não pensa em uma alternativa, ou seja, Lula é o candidato. O registro das candidaturas deve ser feito até o dia 15 de agosto. A partir desse momento, o Tribunal Superior Eleitoral pode analisar a situação do petista. Lula será impugnado e julgado na Justiça Eleitoral.
Se Lula for cassado até 20 dias do primeiro turno, marcado para 7 de outubro, o PT poderá apresentar outro nome. Depois disso, o partido fica sem candidato ao Palácio do Planalto.
Na teoria, ele pode disputar a eleição mesmo preso, assim como pode obter liminares judiciais capazes de mantê-lo na corrida presidencial mesmo após ser impugnado. Mas esse cenário é improvável.

Sem Lula

Sem Lula nos cenários, o pré-candidato mais bem colocado é Jair Bolsonaro, deputado federal (PSL-RJ) com discurso de extrema-direta. O número de pessoas dispostas a não votar em ninguém cresce de forma significativa.

Os votos nulos e brancos estão altos

O Brasil vive uma crise de representatividade agravada pela Operação Lava Jato, que a partir de março de 2014 passou a escancarar grandes esquemas de corrupção que acabaram por atingir as principais figuras da República, além de praticamente todos os grandes partidos.
Nessa perspectiva, Lula é o único pré-candidato que mantém um alto índice de intenção de voto. Quando ele deixa a pesquisa, nos outros cenários aplicados, nem Fernando Haddad nem Jaques Wagner, candidatos alternativos do PT, ultrapassam 2%.
Um terço dos eleitores de Lula declararam, inclusive, que preferem votar em branco ou anular o voto caso o ex-presidente não consiga se candidatar. Com isso, cria-se uma legião de eleitores que não têm candidato.
Segundo o Datafolha, faltando seis meses para a eleição, o número de eleitores que não têm candidato é o maior da história.

Número inédito

O que esperar a partir de agora

Com mais de um quarto do eleitorado se declarando sem candidato no cenário sem Lula, começa a disputa pelos indecisos. Os candidatos identificados à centro-esquerda, como Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), aparecem entre os favoritos na disputa pelos votos dos eleitores órfãos do ex-presidente.
É importante lembrar que dois terços dos eleitores do líder petista afirmam que votariam com certeza em um nome indicado por ele. Apesar de Jaques Wagner e Fernando Haddad serem cotados como plano B do PT, uma indicação formal de Lula ainda não aconteceu.

Joaquim Barbosa é o ‘outsider’ viável até aqui

Até a data limite para a filiação, em 7 de abril, uma candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República era apenas uma especulação. No fim do prazo, sem estardalhaço, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal se filiou ao PSB mesmo sem ter a garantia de que seria candidato.
Sem nunca ter disputado uma eleição e sem qualquer atuação política, Joaquim Barbosa aparece com 8% das intenções de voto no cenário com Lula, e 9% na simulação sem o ex-presidente. O resultado acontece mesmo sem ele ter oficializado a pré-candidatura.
Barbosa foi o primeiro ministro negro da história do Supremo, indicado por Lula em 2003. Ele ganhou notoriedade, porém, quando foi escolhido relator do processo do mensalão e ajudou na condenação de alguns dos principais assessores do ex-presidente. Barbosa decidiu deixar o Supremo por conta própria em 2014 e, desde então, trabalha como advogado.
O resultado da primeira pesquisa feita depois de filiação animou seus novos companheiros de partido. O líder do PSB na Câmara, Júlio Delgado (MG), vê a candidatura do ex-ministro como irreversível depois da pesquisa. O presidente da legenda, Carlos Siqueira, acha que o novo filiado tem um potencial ainda maior do que o apresentado na pesquisa. Joaquim Barbosa aparece numericamente à frente, por exemplo, de pré-candidatos que estão em ritmo de campanha como Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT).

O que esperar a partir de agora

Apesar da animação dos líderes do PSB, a pré-candidatura de Joaquim Barbosa ainda não está oficializada. Poucos dias antes da divulgação da pesquisa, Carlos Siqueira dizia que faltava “uma eternidade” até a confirmação da candidatura do ex-ministro. Oficialmente, os partidos têm até 15 de agosto para fazer o registro.
O PSB pode optar ainda por formar uma chapa com algum outro candidato. O governador de São Paulo, Márcio França, sugeriu que o novo companheiro de partido forme uma dupla com Geraldo Alckmin. Outra possibilidade seria uma aliança com Marina Silva, que foi candidata do PSB à Presidência em 2014, antes de fundar o próprio partido, a Rede.
As alianças são importantes não apenas pela soma de forças políticas, mas também pela soma de tempo de propaganda de TV dos partidos aliados.

Marina e Ciro crescem numa eleição sem Lula

A ausência de Lula aumenta o número de brancos e nulos a um patamar inédito na história, mas parte dos votos do ex-presidente migra para candidatos de centro-esquerda: principalmente Marina Silva e Ciro Gomes.
Marina tem origem no PT. Foi filiada ao partido por décadas e foi ministra do Meio Ambiente de Lula. Ciro, com a oposição que fez ao impeachment de Dilma Rousseff e ao governo de Michel Temer, se aproximou do eleitorado de esquerda. Ele também foi ministro de Lula, ao ocupar a pasta da Integração Nacional a partir de 2003.
Os dois pré-candidatos já disputaram eleições presidenciais, são conhecidos de boa parcela do eleitorado e são os maiores beneficiados diretamente pela ausência de Lula, segundo a pesquisa.

Maiores beneficiados

O que esperar a partir de agora

A disputa pelo eleitor de esquerda vai depender de até quando o PT vai conseguir manter a candidatura de Lula e, principalmente, da capacidade de transferência de votos do ex-presidente preso.
O Datafolha mostra que nenhum dos candidatos alternativos do PT tem atualmente um eleitorado significativo. Mas parte da explicação pode estar no fato de que Lula não fez qualquer movimento para indicar um sucessor.

A centro-direita patina nas pesquisas

Com ou sem Lula no páreo, o resultado da mais recente pesquisa Datafolha foi ruim para os candidatos identificados com a agenda de reformas do atual governo Michel Temer. Seja com o próprio presidente ou com seu antigo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a candidatura governista varia apenas entre 1% e 2% das intenções de voto.
Outros defensores das reformas de Temer também aparecem mal na pesquisa. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fica sempre em 1% das intenções de voto. O ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro (PSC) também tem entre 0% e 1%.
O tucano Geraldo Alckmin, que governou por 13 anos o estado mais rico do país e já foi candidato à Presidência em 2006, tem entre 6% e 8% das intenções de voto.
O PSDB ajudou na ascensão de Temer durante o impeachment de Dilma, apoiou suas reformas, mas tenta se afastar de um governo impopular, apesar de ainda ter nomes no primeiro escalão do Executivo federal, como o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.
Nenhum dos candidatos da direita ou centro-direta, no momento, se aproxima de Jair Bolsonaro (PSL). O deputado de extrema-direita tem entre 15% e 17% em todos os cenários testados.

O que esperar a partir de agora

Com resultados ruins nas pesquisas de intenção de voto, não se sabe quantas nem quais candidaturas governistas vão conseguir se viabilizar. O MDB de Temer e Meirelles não tem voto, no momento, mas como uma das maiores bancadas do Congresso pode emprestar seu tempo de televisão a um aliado.
O mesmo vale para o DEM, de Rodrigo Maia. O partido diz oficialmente que quer lançar uma candidatura, mas apoiou todos os candidatos do PSDB desde 1994.
Alckmin aparece como provável beneficiário de uma união da centro-direita. Ele seria o cabeça-de-chapa em caso de uma aliança mais ampla. Depois, surge um outro desafio: os votos do PSDB são, atualmente, divididos com Bolsonaro, em especial no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil e principal reduto eleitoral dos tucanos.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Diálogo das Coreias: o que está sobre a mesa. E sob ela também, por João Paulo Charleaux.

oto: Jung Yeon-Je/Reuters - 27.07.2017
Coreia do Norte
Militares norte-coreanos na Zona Desmilitarizada de fronteira  
Representantes dos governos da Coreia do Norte e da Coreia do Sul darão início nesta terça-feira (9) a uma rodada de diálogo na cidade de Panmunjom, na zona desmilitarizada que, desde a década de 1950, separa os dois países.
O encontro – o primeiro deste tipo em dois anos – é visto como uma promissora janela de oportunidade para abrir um caminho que possa levar ao fim da tensão nuclear que domina o sudeste asiático.
A Península Coreana foi dominada pelo Japão de 1910 a 1945. Após a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos passaram a controlar o norte, comunista, e os EUA, o sul, capitalista. Coreanos das duas partes se engajaram numa guerra por procuração entre 1950 e 1953. A separação persiste até hoje, com os dois lados vivendo uma situação formal de “armistício”, que é a suspensão das hostilidades, mas não de paz definitiva.
As raízes do programa nuclear norte-coreano, que tanto preocupa o mundo todo, vêm de 1962, quando o país começou a desenvolver essa tecnologia, com apoio soviético e chinês. Em 1986, a Coreia do Norte construiu sua primeira usina nuclear e, entre os anos 1990 e 2000, o regime norte-coreano importou cientistas saídos das ex-repúblicas soviéticas, que começaram a ruir a partir de 1991. Esses cientistas nucleares levaram o país a dominar a tecnologia da qual dispõe hoje, para fabricar ogivas atômicas e lançá-las com mísseis balísticos capazes de chegar até os EUA.
É nessa linha do tempo e nesse contexto que se insere o diálogo entre os dois países em Panmunjom em 2018. A razão manifesta, entretanto, é bastante mais prosaica: norte-coreanos e sul-coreanos discutirão uma possível participação do lado comunista na Olimpíada e Paralimpíada de Inverno, que ocorre na cidade sul-coreana de Pyeong Chang, de 9 a 25 de fevereiro.

Agenda aberta e agenda oculta

O sinal verde para o encontro partiu do líder norte-coreano, Kim Jong-un, em seu discurso de Ano Novo, na virada de 2017 para 2018.
Num mesmo pronunciamento, ele disse que se considerava “aberto ao diálogo” com o sul, mas advertiu que mantinha na mesa de trabalho o botão capaz de acionar o arsenal nuclear do país. A fala deu o tom que domina essa janela de oportunidade, situada entre a esperança de paz e a desconfiança mútua.
O “episódio do botão” tornou-se conhecido também pela réplica do presidente dos EUA, Donald Trump, que, em Washington, disse que tinha “um botão maior” que o de Kim Jong-un.
A capacidade militar norte-coreana faz com que muitos países temam o risco de ataques a suas delegações, durante os jogos, na Coreia do Sul. Por isso, discutir uma agenda comum durante a Olimpíada é importante, como parte de uma estratégia de distensão.
Os sul-coreanos se mostraram dispostos a financiar a participação dos vizinhos do norte nos Jogos, como sinal de abertura, boa vontade e disposição para a cooperação. Por causa do programa nuclear, a Coreia do Norte é um dos países mais sancionados do mundo, o que dificulta a entrada de bens e de serviços no país.
77%
Dos sul-coreanos são favoráveis à participação dos norte-coreanos nos Jogos de Inverno, de acordo com o Realmeter
54%
Dos sul-coreanos acham que seu próprio governo deveria financiar a participação dos norte-coreanos nos Jogos de Inverno, de acordo com o Realmeter
Além da ajuda financeira, há propostas ainda mais ambiciosas, envolvendo os Jogos. Uma delas é sobre a possibilidade de que delegações dos dois países desfilem juntas nas cerimônias de abertura e de encerramento.
Além disso, os dois países podem discutir até mesmo a possibilidade de que, em algumas categorias, sul-coreanos e norte-coreanos compitam como membros do mesmo time.
Essa, porém, é a agenda pública do diálogo. Enquanto isso, temas mais sensíveis vêm sendo tratados nos bastidores. Um desses temas é a possibilidade de promover a reunificação de famílias separadas pelo conflito de 1950-1953, que vivem dos dois lados da fronteira.
A outra possibilidade é a de que a Coreia do Sul possa – a despeito do embargo e das sanções – concretizar o envio dos US$ 8 milhões que havia prometido ao norte, por meio da Unicef, a agência das Nações Unidas que cuida de crianças e adolescentes no mundo.
Por fim, há outras duas teorias sobre a real motivação do norte para o encontro. Uma delas diz respeito a uma estratégia atribuída a Kim de, ao se aproximar do sul, deixar de lado Trump, que é percebido como um ator indesejado nas negociações.
Há também uma teoria mais desconfiada, que é a de que, no fundo, com esse diálogo, a Coreia do Norte só quer ganhar tempo enquanto, na verdade, acelera seus testes de mísseis balísticos e de ogivas nucleares.

O trágico antecedente de 1988

Em 1988, a Coreia do Sul sediou a Olimpíada (não a de inverno, mas a de verão, a convencional).
Um ano antes, em 1987, dois agentes secretos norte-coreanos plantaram uma bomba dentro do voo 858 da Korean Air que fazia o trajeto de Bagdá para Seul, com escala nos Emirados Árabes.
O avião explodiu em pleno voo, matando 115 pessoas. O episódio acentuou o distanciamento entre os dois países e ajuda a explicar parte do temor com os Jogos de Inverno que se aproximam.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Como é feita a tributação de lucros e dividendos no Brasil, por José Roberto Castro

Tributação de lucros no Brasil é feita apenas na empresa
A crise fiscal que atinge o governo federal e a tentativa do presidente Michel Temer de limitar o crescimento das despesas reativaram o debate sobre o sistema tributário brasileiro.
Um dos argumentos mais comuns entre os que se opõem ao congelamento dos gastos do governo é a necessidade de aumentar os impostos, principalmente sobre os mais ricos, para ajudar o país a fechar a conta.
Mesmo sem consenso, a tributação de lucros e dividendos é sempre abordada nas discussões sobre reforma tributária. 
Um estudo da Consultoria Legislativa da Câmara de 2015 estima que a cobrança de Imposto de Renda sobre os dividendos distribuídos a pessoas físicas poderia gerar uma receita extra entre R$ 30 bilhões e R$ 63 bilhões ao ano. Entenda como ocorre a tributação dos lucros e dividendos atualmente no Brasil.

A tributação dos lucros

O lucro obtido por uma empresa é tributado. Mas quando essa empresa distribui uma parte ou a totalidade do lucro (pós tributação) na forma de dividendos a seus sócios ou acionistas, estes declaram os valores como pessoa física e não pagam Imposto de Renda sobre eles. O argumento para justificar a isenção, criada pela lei 9249 de 1995, é evitar a bitributação.

Veja como funciona:

  1. Empresas pagam imposto sobre lucros
  2. Após tributados, esses lucros podem ser distribuídos aos acionistas
  3. Os sócios que recebem os dividendos os declaram, mas não pagam imposto sobre esse rendimento
Segundo os defensores dessa forma de tributar, como há cobrança de impostos sobre o lucro das empresas, a tributação desses valores, quando vão para as mãos dos sócios, resultaria em bitributação.
“Nosso sistema tributário é extremamente complexo e tem muito mito, como o de que dividendo não paga Imposto de Renda. Como todo mito na retórica da política, ele é meio verdadeiro e meio falso. Com dividendos, no resto do mundo, há uma alíquota baixa para as empresas e depois se tributa nas famílias. No Brasil se faz toda a tributação na empresa, evita sonegação.”
Marcos Lisboa
economista e presidente do Insper
O modelo de tributação apenas no nível da empresa praticado no Brasil é contestado. A grande discussão é se a tributação não deveria incidir sobre a empresa e também sobre seus sócios. E se a opção for tributar os dois, o debate é sobre que parcela caberá a cada parte.

Comparação

Juros sobre capital próprio

Existe outra maneira de as empresas distribuírem seus ganhos, os chamados "juros sobre capital próprio". Esses repasses são tributados de maneira diferente: os acionistas pagam 15% sobre o valor.

Argumentos pela mudança

Até 1995, o governo cobrava impostos sobre o lucro na empresa e sobre dividendos distribuídos. O sistema de cobrança adotado pelo Brasil é defendido por alguns sob o argumento de que facilita a cobrança e evita a sonegação de impostos. Quem critica, diz que o modelo favorece os mais ricos.
Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra, por exemplo que dos 71 mil brasileiros mais ricos, 51 mil receberam dividendos em 2013. Na visão dos que querem mudar a regra, isso causa uma distorção, fazendo com que grande parte do que os ricos ganham não seja tributada. Os ricos têm uma parte maior de sua renda proveniente do capital do que do trabalho, como mostra esse artigo do jornal O Globo.
Este argumento, entretanto, não liquida o debate sobre a escolha pela taxação no nível da empresa ou de ambos, empresa e acionista.
“À medida em que você vai subindo na faixa de renda, a renda do capital passa a ser dominante e como não incide imposto, isso faz com que as alíquotas para os muito ricos comecem a cair”
Rodrigo Orair
pesquisador do IPEA
A estimativa é que essa parcela mais rica, que recebe mais de R$ 1,3 milhão por ano, pague cerca de 6,7% em tributos. Para quem fatura entre R$ 162 mil e R$ 325 mil, o imposto chega a 11,8%.
No início do segundo mandato de Dilma Rousseff, quando a então presidente tentava fazer seu ajuste fiscal, parlamentares de esquerda tentaram emplacar projetos de revisão da isenção do imposto sobre dividendos. Mas a ex-presidente, assim como seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, não adotaram a ideia. Agora, com o governo Michel Temer, o projeto está ainda mais longe de voltar à pauta já que a atual equipe econômica quer acertar as contas reduzindo gastos.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O livro que conta a história do Brasil pela trajetória de mulheres extraordinárias, por Juliana Domingos de Lima





Lançada em novembro de 2017, a obra apresenta a biografia de 44 personalidades femininas notáveis, frequentemente apagadas

Foto: Ilustração de Alessandra Lemos/cedida pela Companhia das Letras

A guerreira Dandara
 Entre os temas ensinados aos jovens brasileiros no ensino básico, estão, por exemplo, a fase inicial da colonização, a resistência dos quilombos à escravidão e a Inconfidência Mineira. Nessas aulas, porém, os alunos ouvem falar pouco ou nada da ativista de ascendência indígena Madalena Caramuru, que viveu no século 16, da guerreira quilombola Dandara ou da inconfidente Hipólita Jacinta de Melo.
Na literatura, estudam romances de José de Alencar e de outros autores do Romantismo, mas não são informados da existência de Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, um dos primeiros romances de autoria feminina do Brasil, primeiro de autoria negra e primeiro escrito ficcional de cunho abolicionista. Outras, como Anita Garibaldi, são mencionadas, mas quase sempre à sombra de seus companheiros homens. 
O apagamento de brasileiras responsáveis por contribuições importantes se repete em diversas áreas de atuação. Em uma tentativa de reparar esse desconhecimento, o livro “Extraordinárias Mulheres que Revolucionaram o Brasil”, lançado pela Companhia das Letras na última semana de novembro, reúne a trajetória de 44 mulheres, com  ilustração inédita de cada uma delas.   

Os livros e a onda de representatividade#

Com proposta semelhante, o livro “Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes” reúne narrativas curtas que descrevem os feitos de 100 mulheres de diferentes épocas e países. Foi escrito pelas italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo, conta com a contribuição de 60 mulheres artistas do mundo todo nas ilustrações e chegou ao Brasil em fevereiro de 2017.
Desde sua publicação, volumes do tipo, com o propósito de resgatar a biografia de mulheres cuja contribuição histórica é pouco difundida ou mesmo desconhecida, foram preparados em vários países. O contexto é a reivindicação de representatividade que tem sido pautada por feministas e profissionais das artes, da ciência, da tecnologia, entre outros campos.
“Extraordinárias Mulheres” é o primeiro dessa onda que se propõe a compilar os dados biográficos e os feitos de mulheres nascidas no Brasil ou “abrasileiradas” – que adotaram o país para viver, como é o caso da arquiteta Lina Bo Bardi e da missionária e ativista Dorothy Stang.
O projeto das jornalistas Duda Porto de Souza e Aryane Cararo é fruto de dois anos de pesquisa – um mergulho na vida de quase 300 mulheres, a partir das quais as autoras chegaram às 44 que estão no livro. Consultaram arquivos de jornais, livros, documentos e realizaram entrevistas. Entraram para a seleção as que representaram um marco, um divisor de águas em suas respectivas áreas.
Foto: Ilustração de Barbara Malagoli/cedida pela Companhia das Letras

Anita Garibaldi
 Apesar da vocação educativa explícita, seu público alvo transcende uma faixa etária específica, segundo as autoras.
“Espero que seja um passo inicial. Que sirva de inspiração para crianças, jovens e adultos irem atrás de outras brasileiras brilhantes. E que a gente possa contar uma história um pouco mais igualitária, justa, dando nomes e rostos a quem fez o país chegar até aqui”, disse Aryane Cararo ao Nexo.
“Que a gente possa contar a história de Anita, a mulher que enfrentou tropas imperiais no Brasil e lutou pela unificação da Itália. E não a Anita do Garibaldi. De Dandara, a mulher que não queria fechar o quilombo para novos escravos fugitivos, e não a mulher de Zumbi. De Dinalva, que quase ficou invisível na história da luta armada no Brasil na época da ditadura. De Marinalva, que está fazendo história agorinha mesmo”, complementa a autora. 
O livro também conta com uma extensa linha do tempo que mostra conquistas de direitos obtidas pelas mulheres do século 16 até o presente, e traz informações que esclarecem como era ser mulher em determinadas épocas. 
Abaixo, o Nexo publica curtos perfis de 6 das 44 personalidades do livro e reproduz algumas das ilustrações. A seleção foi realizada pelas autoras.

6 mulheres ‘que revolucionaram o Brasil’

Dandara (?-1694)#

Rainha do Quilombo dos Palmares, Dandara viveu na região da serra da Barriga, atualmente pertencente ao município de União dos Palmares (AL). Não se sabe ao certo onde ela nasceu ou como chegou ao maior e mais duradouro quilombo das Américas.
Segundo narrativas consultadas pelas pesquisadoras, ela não só atuava na proteção do quilombo, na resistência ao regime colonial português e nos ataques aos holandeses, como também propunha estratégias para ampliar Palmares e extinguir o trabalho escravo.
“O mais curioso foi perceber o quanto a falta de registros sobre as mulheres foi prejudicial para nossa história. É um caso bem emblemático, porque ela é tão famosa e, ao mesmo tempo, não sabemos muito ao certo o que aconteceu com ela. Os escritos tratam de Zumbi e de Ganga Zumba, mas quase nada de Dandara”, disse Cararo.

Anita Garibaldi (1821-1849)#

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em Santa Catarina e lutou na Revolução Farroupilha (1835-45). Morreu precocemente, aos 27 anos, na Itália.
“Ela pegou em armas, se expôs a perigos, foi mais corajosa que muito homem durante as batalhas (chegou a disparar canhões e a buscar rebeldes medrosos no porão do navio). Mas o que mais me chamou atenção é que Anita fez muitas de suas proezas como guerreira quando estava grávida ou com filho pequeno. Essa história de sexo frágil é uma falácia. Gestar, parir e ainda fazer o que Anita fez é para ganhar prêmio!”, comentou a autora Aryane Cararo. 

Dona Ivone Lara (1921)#

Primeira mulher na história do samba a se consagrar como cantora e compositora, Dona Ivone começou no ambiente machista das escolas de samba da década de 1940. No início, apresentava suas composições como se fossem de seu primo Fuleiro, também compositor.
Formou-se em enfermagem e assistência social e trabalhou como terapeuta ocupacional em um hospital até o final da década de 1970. “Os cinco bailes tradicionais da história do Rio”, de 1965, composto por ela, Silas de Oliveira e Bacalhau, foi o primeiro samba-enredo de uma escola de elite do carnaval carioca a ser assinado por uma mulher. Foi a estreia de Lara na Ala dos Compositores da escola Império Serrano.

Dinalva de Oliveira (1945-1974)#

Nascida na Bahia, no vilarejo de Argoim, formou-se geóloga na Universidade Federal da Bahia em 1968. Na faculdade, envolveu-se com o movimento estudantil durante a ditadura militar e chegou a ser detida. Filiou-se ao Partido Comunista do Brasil e nos anos 1970, participou da guerrilha do Araguaia. Foi presa e executada, e dada como desaparecida política em 1974.
Oliveira virou lenda na região do Araguaia pela bravura. Foi a única mulher a comandar uma equipe no Araguaia e se tornou muito querida na região, porque também era parteira.

Marinalva Dantas (1954)#

De Campina Grande, Paraíba, a auditora fiscal do trabalho se formou em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em pleno século 21, sua atuação tirou mais de 2.500 pessoas de situações de trabalho em regime de escravidão e mais de 15 mil crianças do trabalho infantil. “Queríamos mostrar que nossas heroínas não estão mortas, muitas estão por aí, lutando, brigando”, disse Aryane Cararo.

Indianara Siqueira (1971)#

Paraense, ativista dos direitos humanos, coordenadora da ONG Trans-Revolução e idealizadora de projetos como a Casa Nem e o Prepara Nem, que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade.
Siqueira é uma das maiores ativistas da causa transvestigenere, termo que une travestis, transexuais e transgêneros. Sua atuação foi pioneira, no Brasil, na reivindicação pelo reconhecimento do nome social.  Foi candidata a vereadora nas eleições municipais de 2016 do Rio de Janeiro pelo Psol.