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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Datafolha com Lula preso: o que a pesquisa projeta para a eleição, por José Roberto Castro.


16 Abr 2018
(atualizado 17/Abr 18h51)

Ex-presidente segue na liderança. Seu provável impedimento abre disputa por votos de centro-esquerda. Percentual de eleitores sem candidato é recorde

Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
O jornal Folha de S.Paulo divulgou em sua edição de domingo (15) o resultado da primeira pesquisa do instituto Datafolha após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrida uma semana antes, em razão do cumprimento da pena da condenação por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex em Guarujá.
Além de ser o primeiro levantamento com Lula preso, foi também o primeiro depois de 7 de abril, data-chave da eleição, a partir de quando quem não estiver filiado a um partido não pode mais concorrer. Além disso, é quando governadores, prefeitos e ministros que querem disputar a eleição têm de deixar seus cargos no Executivo.
O fim do prazo para a filiação ou para a renúncia aos cargos produziu o seguinte: o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se filiou a um partido; Luciano Huck, não; Geraldo Alckmin, governador paulista, e Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, deixaram seus cargos de olho no Palácio do Planalto.
As entrevistas do Datafolha foram realizadas entre quarta-feira (11) e sexta-feira (13), com 4.194 eleitores em 227 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O resultado dos cenários apresentados mostra que Lula terá papel central na disputa, sendo candidato ou não, estando ou não preso.

O papel de Lula é central

Lula lidera todos os três cenários com seu nome. A pontuação varia entre 30% e 31% das intenções de voto, independemente de quem venha a ser o candidato oficial do governo, se o atual presidente Michel Temer ou se o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.
A intenção de votos no petista é o dobro da registrada pelo segundo colocado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que tem 15% no cenário principal.

Liderança

Os cerca de 30%, no entanto, são menores do que Lula obteve na pesquisa anterior. No final de janeiro, depois de ser condenado em segunda instância judicial no caso tríplex, o petista aparecia com cerca de 37%. Os dois números, porém, não são estatisticamente comparáveis porque os cenários simulados são diferentes, segundo o Datafolha.
A pesquisa mostra ainda que dois de cada três eleitores de Lula dizem que certamente votariam em um candidato indicado por ele. Isso significa que, de seus 31%, Lula teoricamente conseguiria entregar uma intenção de voto de cerca de 20% a alguém que venha apoiar publicamente. Essa votação seria suficiente para dar a qualquer candidato a liderança nos cenários sem Lula.

O que esperar a partir de agora

Lula venceria também em todas as simulações de segundo turno, mas é improvável que ele chegue lá. Isso porque o petista foi condenado em segunda instância em uma decisão colegiada - dada por mais de um magistrado -, e assim deve ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa.
Por enquanto, o PT mantém o discurso de que não pensa em uma alternativa, ou seja, Lula é o candidato. O registro das candidaturas deve ser feito até o dia 15 de agosto. A partir desse momento, o Tribunal Superior Eleitoral pode analisar a situação do petista. Lula será impugnado e julgado na Justiça Eleitoral.
Se Lula for cassado até 20 dias do primeiro turno, marcado para 7 de outubro, o PT poderá apresentar outro nome. Depois disso, o partido fica sem candidato ao Palácio do Planalto.
Na teoria, ele pode disputar a eleição mesmo preso, assim como pode obter liminares judiciais capazes de mantê-lo na corrida presidencial mesmo após ser impugnado. Mas esse cenário é improvável.

Sem Lula

Sem Lula nos cenários, o pré-candidato mais bem colocado é Jair Bolsonaro, deputado federal (PSL-RJ) com discurso de extrema-direta. O número de pessoas dispostas a não votar em ninguém cresce de forma significativa.

Os votos nulos e brancos estão altos

O Brasil vive uma crise de representatividade agravada pela Operação Lava Jato, que a partir de março de 2014 passou a escancarar grandes esquemas de corrupção que acabaram por atingir as principais figuras da República, além de praticamente todos os grandes partidos.
Nessa perspectiva, Lula é o único pré-candidato que mantém um alto índice de intenção de voto. Quando ele deixa a pesquisa, nos outros cenários aplicados, nem Fernando Haddad nem Jaques Wagner, candidatos alternativos do PT, ultrapassam 2%.
Um terço dos eleitores de Lula declararam, inclusive, que preferem votar em branco ou anular o voto caso o ex-presidente não consiga se candidatar. Com isso, cria-se uma legião de eleitores que não têm candidato.
Segundo o Datafolha, faltando seis meses para a eleição, o número de eleitores que não têm candidato é o maior da história.

Número inédito

O que esperar a partir de agora

Com mais de um quarto do eleitorado se declarando sem candidato no cenário sem Lula, começa a disputa pelos indecisos. Os candidatos identificados à centro-esquerda, como Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), aparecem entre os favoritos na disputa pelos votos dos eleitores órfãos do ex-presidente.
É importante lembrar que dois terços dos eleitores do líder petista afirmam que votariam com certeza em um nome indicado por ele. Apesar de Jaques Wagner e Fernando Haddad serem cotados como plano B do PT, uma indicação formal de Lula ainda não aconteceu.

Joaquim Barbosa é o ‘outsider’ viável até aqui

Até a data limite para a filiação, em 7 de abril, uma candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República era apenas uma especulação. No fim do prazo, sem estardalhaço, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal se filiou ao PSB mesmo sem ter a garantia de que seria candidato.
Sem nunca ter disputado uma eleição e sem qualquer atuação política, Joaquim Barbosa aparece com 8% das intenções de voto no cenário com Lula, e 9% na simulação sem o ex-presidente. O resultado acontece mesmo sem ele ter oficializado a pré-candidatura.
Barbosa foi o primeiro ministro negro da história do Supremo, indicado por Lula em 2003. Ele ganhou notoriedade, porém, quando foi escolhido relator do processo do mensalão e ajudou na condenação de alguns dos principais assessores do ex-presidente. Barbosa decidiu deixar o Supremo por conta própria em 2014 e, desde então, trabalha como advogado.
O resultado da primeira pesquisa feita depois de filiação animou seus novos companheiros de partido. O líder do PSB na Câmara, Júlio Delgado (MG), vê a candidatura do ex-ministro como irreversível depois da pesquisa. O presidente da legenda, Carlos Siqueira, acha que o novo filiado tem um potencial ainda maior do que o apresentado na pesquisa. Joaquim Barbosa aparece numericamente à frente, por exemplo, de pré-candidatos que estão em ritmo de campanha como Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT).

O que esperar a partir de agora

Apesar da animação dos líderes do PSB, a pré-candidatura de Joaquim Barbosa ainda não está oficializada. Poucos dias antes da divulgação da pesquisa, Carlos Siqueira dizia que faltava “uma eternidade” até a confirmação da candidatura do ex-ministro. Oficialmente, os partidos têm até 15 de agosto para fazer o registro.
O PSB pode optar ainda por formar uma chapa com algum outro candidato. O governador de São Paulo, Márcio França, sugeriu que o novo companheiro de partido forme uma dupla com Geraldo Alckmin. Outra possibilidade seria uma aliança com Marina Silva, que foi candidata do PSB à Presidência em 2014, antes de fundar o próprio partido, a Rede.
As alianças são importantes não apenas pela soma de forças políticas, mas também pela soma de tempo de propaganda de TV dos partidos aliados.

Marina e Ciro crescem numa eleição sem Lula

A ausência de Lula aumenta o número de brancos e nulos a um patamar inédito na história, mas parte dos votos do ex-presidente migra para candidatos de centro-esquerda: principalmente Marina Silva e Ciro Gomes.
Marina tem origem no PT. Foi filiada ao partido por décadas e foi ministra do Meio Ambiente de Lula. Ciro, com a oposição que fez ao impeachment de Dilma Rousseff e ao governo de Michel Temer, se aproximou do eleitorado de esquerda. Ele também foi ministro de Lula, ao ocupar a pasta da Integração Nacional a partir de 2003.
Os dois pré-candidatos já disputaram eleições presidenciais, são conhecidos de boa parcela do eleitorado e são os maiores beneficiados diretamente pela ausência de Lula, segundo a pesquisa.

Maiores beneficiados

O que esperar a partir de agora

A disputa pelo eleitor de esquerda vai depender de até quando o PT vai conseguir manter a candidatura de Lula e, principalmente, da capacidade de transferência de votos do ex-presidente preso.
O Datafolha mostra que nenhum dos candidatos alternativos do PT tem atualmente um eleitorado significativo. Mas parte da explicação pode estar no fato de que Lula não fez qualquer movimento para indicar um sucessor.

A centro-direita patina nas pesquisas

Com ou sem Lula no páreo, o resultado da mais recente pesquisa Datafolha foi ruim para os candidatos identificados com a agenda de reformas do atual governo Michel Temer. Seja com o próprio presidente ou com seu antigo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a candidatura governista varia apenas entre 1% e 2% das intenções de voto.
Outros defensores das reformas de Temer também aparecem mal na pesquisa. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fica sempre em 1% das intenções de voto. O ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro (PSC) também tem entre 0% e 1%.
O tucano Geraldo Alckmin, que governou por 13 anos o estado mais rico do país e já foi candidato à Presidência em 2006, tem entre 6% e 8% das intenções de voto.
O PSDB ajudou na ascensão de Temer durante o impeachment de Dilma, apoiou suas reformas, mas tenta se afastar de um governo impopular, apesar de ainda ter nomes no primeiro escalão do Executivo federal, como o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.
Nenhum dos candidatos da direita ou centro-direta, no momento, se aproxima de Jair Bolsonaro (PSL). O deputado de extrema-direita tem entre 15% e 17% em todos os cenários testados.

O que esperar a partir de agora

Com resultados ruins nas pesquisas de intenção de voto, não se sabe quantas nem quais candidaturas governistas vão conseguir se viabilizar. O MDB de Temer e Meirelles não tem voto, no momento, mas como uma das maiores bancadas do Congresso pode emprestar seu tempo de televisão a um aliado.
O mesmo vale para o DEM, de Rodrigo Maia. O partido diz oficialmente que quer lançar uma candidatura, mas apoiou todos os candidatos do PSDB desde 1994.
Alckmin aparece como provável beneficiário de uma união da centro-direita. Ele seria o cabeça-de-chapa em caso de uma aliança mais ampla. Depois, surge um outro desafio: os votos do PSDB são, atualmente, divididos com Bolsonaro, em especial no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil e principal reduto eleitoral dos tucanos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O rei está nu: a manipulação para além do escândalo Datafolha, por João Feres Jr.




O rei está nu: a manipulação para além do escândalo Datafolha
por João Feres Jr
Os estudos sobre comunicação e política identificam várias maneiras com as quais as mídias podem manipular a opinião pública. Certamente, o episódio recente da Folha de S. Paulo constitui a mais vil e descarada delas: a fraude. Não é necessário repetir aqui as informações preciosas levantadas pela colaboração competente de jornalistas independentes brasileiros e estrangeiros sobre o caso, que transformaram uma prática comum de nossos meios de comunicação em escândalo, com consequências ainda não muito claras para a reputação do jornal e de nossa mídia como um todo. Quem quiser mais detalhes, veja matéria no blog do jornalista Glenn Greenwald, um dos autores do furo metajornalístico.
O resumo da ópera é simples e deprimente. A Folha de S. Paulo encomendou para seu instituto de pesquisa, o Datafolha, uma pesquisa sobre a popularidade dos  atuais “presidentes” de nosso país, e distorceu completamente os resultados publicados na manchete da capa de sua edição de domingo. Primeiro os jornalistas investigativos implicaram com o fato de a Folha ter feito uma pergunta maliciosa para os entrevistados, limitando-os a responder se queriam Temer ou Dilma, e, ao mesmo tempo, publicado que somente 3% queriam novas eleições, ou seja, a destituição de ambos, quando pensavam ainda nesse momento que não havia essa pergunta na pesquisa do Datafolha.
A manipulação era, porém, muito mais profunda. O Datafolha havia publicado no seu site texto sobre a pesquisa no qual dizia que 60% queriam novas eleições, mas essa página logo foi retirada do ar. Os jornalistas notaram que o relatório do instituto não relatava o resultado de algumas perguntas e ficaram curiosos acerca de sua natureza. Acabaram por descobrir uma versão primeira do mesmo relatório com todas as perguntas, inclusive com uma que versava sobre a possibilidade de novas eleições, opção escolhida por 62% dos respondentes. Outras perguntas omitidas revelam alta rejeição ao processo de impeachment (37%) da maneira como está sendo conduzido. Em suma, o escândalo atinge a reputação da editoria do jornal e também do instituto, ainda que sua diretora tenha se esforçado para jogar toda culpa na Folha. Ele mostra, entre outras coisas, como na empresa familiar dos Frias até o instituto de pesquisa é manietado para cumprir à risca os desígnios políticos dos patrões.
Mas a corrupção diária da opinião pública feita pela Folha não se limita ao caso deste escândalo. Gostaria de chamar atenção aqui para outros aspectos da cobertura recente que funcionam como complemento à interpretação fraudulenta dos resultados da pesquisa. Estou me referindo ao agendamento tendencioso do noticiário com a mesma finalidade de beneficiar Temer e prejudicar Dilma.
Vejamos, no dia 14 de julho o Ministério Público Federal determinou o arquivamento da investigação pedida pelo Tribunal de Contas da União, apontando que não houve operações de crédito e que as chamadas “pedaladas” não configuram ilícito penal. Pois bem, a Folha simplesmente não noticiou o fato na sua edição do dia seguinte. É difícil falar sobre coisas que não aconteceram, mas esta omissão, dado o contexto tão delicado do processo de impeachment, constitui um caso sério de agendamento militante do jornalismo.
Agora, voltemos à edição de Domingo, 17 de julho, aquela que traz os resultados da pesquisa na capa. O editorial daquele dia contém elementos que ajudam a entender o comportamento do jornal. O texto é inteiramente pró-Temer e contrário à volta de Dilma. Louva a suposta estabilidade política trazida por Temer como “condição necessária para o país emergir desta crise profunda e multifacetada” e elogia também sua equipe econômica, chamada de “coesa e prestigiosa”. É quase uma mea culpa da declaração de rejeição do impeachment feita por Otávio Frias há algum tempo atrás, declaração essa que nunca se manifestou na cobertura golpista que o jornal faz. O apoio a Temer de fato se reflete, não somente no noticiário da capa e nos textos de opinião, como as análises do Manchetômetro já mostram, mas também na manipulação de pesquisas e reportagens.
A Folha historicamente nega que manipula a opinião. Durante as eleições de 2014 a ombudsman do jornal me ligou para fazer uma entrevista sobre o Manchetômetro. Disse que iria publicar em sua coluna. No transcorrer da conversa, ao ser confrontada com o viés brutal que nossos dados revelam contra o então governo do PT e sua candidata, ela atribuiu isso à suposta função de cão de guarda da mídia: sempre criticar o poder da vez. Pois quando respondi que nosso estudo da eleição de 1998, quando FHC concorreu à reeleição, mostra que isso não se verificou, pois o apoiaram francamente, ela ficou irritada e terminou a entrevista dizendo que não havia mais interesse em publicar coisas do Manchetômetro.
Os editores do jornal devem pensar que uma vez revelado tal comportamento, todo mundo vai começar a notar que o rei está nu. Eu antes achava que para qualquer pessoa com mais de dois neurônios e algum senso crítico o comportamento manipulador e politicamente enviesado da Folha fosse uma obviedade. Mas não. Há muita gente que ainda se seduz pela presença dos Boulos, Duviviers e Safatles nas colunas de opinião do jornal, que, a despeito de serem flagrante minoria, estão lá para cumprir a função de emprestar à Folha um verniz de pluralidade e equilíbrio. Ou seja, essa estratégia hipócrita dos editores ainda tem algum efeito.
As perguntas que não querem calar são: até quando esses colunistas “de esquerda” vão se prestar a esse papel ignóbil de fingir que estão em um jornal sério promovendo um debate sério sobre questões importantes para o Brasil? O rei está nu, e sua nudez contagia toda sua corte, revelando aos olhos do público, mais do que nunca, a hipocrisia e o apego mesquinho à autopromoção daqueles que com ele insistem em colaborar. Até quando os cidadãos e cidadãs progressistas do Brasil e blogueiros e jornalistas independentes vão ficar se preocupando em comentar as barbaridades publicadas e silenciadas por Folha, Globo, Estadão, Abril et caterva e continuar a agir de forma atomizada, sem coordenação qualquer, em uma luta de formiguinha contra o Golias midiático? É preciso que criemos canais de financiamento coletivo efetivos e um mínimo de coordenação para evitar muita redundância nos trabalhos. O Brasil progressista precisa se levantar puxando o cadarço das próprias botas, pois se não o fizermos, ninguém fará por nós.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Precisamos falar da mídia, por Julia Felmanas.




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Algumas semanas atrás a Datafolha e a Folha de São Paulo publicaram uma pesquisa de opinião que - para sermos muito educados - poderíamos chamar de manipulada. No entanto, blogueiros e jornalistas independentes descobriram que o publicado não reproduzia fielmente os resultados da pesquisa.
Esta não é a primeira vez que se manipula fatos para montar as verdades que os donos da mídia querem nos impor. Basta ver a construção midiática-jurídica do caça às bruxas ao Lula detalhada por Bajonas Teixeira aqui no Cafezinho para lembrar o quanto isso acontece. Tampouco é um fenômeno restrito ao Brasil, como os resultados do Brexit, aqui no Reino Unido, e as iminentes eleições nos Estados Unidos mostram.
Em inglês o termo “post-truth journalism” – que poderia ser traduzido informalmente como “jornalismo na era da pós-verdade” – é cada vez mais corrente. Esta expressão descreve a prática jornalística que é conivente com certas posições políticas ou a falta de investigação ou verificação dos fatos políticos, seja por questões ideológicas, por pura preguiça ou inabilidade jornalística.
O descaso do jornalismo contemporâneo com os fatos, e principalmente com os fatos políticos, é extremamente grave, pois quando a mídia se baseia em mentiras, reprime ou manipula fatos, ou simplesmente deixa de checá-los, quem responsabilizará os políticos pelos seus atos, falas e falhas? Se as pessoas em posição de poder distorcem a verdade e o jornalismo não apura, o que será do público que não tem outra maneira de receber informação direta, não tem tempo (e nem vontade) de fazer pesquisas, e não é especialista?
Na era das redes sociais o jornalismo sério é ainda mais imprescindível.
Se o sonho idealizador da Internet era justamente acabar com a mediação de supostos profissionais e trazer maior democracia à liberdade de expressão, onde todos e não somente os colunistas dos grandes meios podem dar sua opinião, o que de fato se verifica são desdobramentos complexos em tempos de crescente concorrência num mercado selvagem de informação.
Não se pode negar que, de fato, a internet trouxe uma certa renovação dos meios de comunicação, abrindo espaço para blogueiros que, de outra maneira, teriam que permanecer fieis às redações dos grandes jornais ou que simplesmente não teriam espaço dentro do restrito mundo da mídia televisionada ou escrita.
E certamente é verdade que a internet e as redes sociais trouxeram muitos benefícios, principalmente para nós, cidadãos de países que mal saíram da ditadura, cujas democracias se mostram ainda frágeis e onde os principais meios de comunicação continuam nas mãos daquelas mesmas elites que faziam jornalismo durante a época da mordaça.
Mas para além dos benefícios, as redes sociais trouxeram também grandes desafios. Um desses está ligado à mercantilização das escolhas, à oportunidade de consumir exatamente e somente aquilo que queremos e gostamos - um tanto mais fácil no mundo virtual do que no físico.
Podemos, pois, passar a vida num círculo interminável de episódios de Friends ou programas de culinária, se assim o desejamos e, um tanto mais nocivo, podemos também nos rodear com as ideias e ideologias que nos atraem sem ter que ouvir, ler ou presenciar nada que nos incomode, nada que nos aborreça e nada que não aceitemos.
E mais, os sites que utilizamos como o Facebook e outros nos ajudam nesta tarefa de auto-alienação com logaritmos que asseguram que o que aparece na nossa tela é somente aquilo que os números calculam ser o que nos interessa, o chamado Filtro de Bolha.
Kathrine Viner, em seu ótimo artigo “Será que a verdade ainda importa?”, publicado no Guardian e reproduzido no site do Observatório da Imprensa, cita o caso de auto-alienação involuntária constatado por Tom Steinberg, fundador de um site chamado MySociety. Tom queria encontrar pessoas que estivessem felizes com o Brexit. Porém, diz ele, que apesar de saber que mais de 50% da população britânica votou Brexit, não conseguiu encontrar estas pessoas na ‘time-line’ do seu Facebook.
Um pouco antes de ler este artigo fiquei chocada ao saber que uma amiga com visões que considerava parecidas às minhas não só votou Brexit, mas pior, quando tentou se informar, sua internet só lhe trazia artigos que exaltavam esta posição. Assim, nada do que ela tinha lido era favorável à permanência do Reino Unido na União Europeia.
Não é de admirar que assistimos a uma crescente polarização da sociedade. E essa polarização não se dá só no Brasil e nem mesmo entre os chamados ‘polos’.
Uma das repercussões do Brexit foi o caos no Partido Trabalhista Britânico (Labour Party) que hoje está a um passo de rachar, polarizando um grupo de pessoas que, em teoria, se encontrariam no mesmo espectro sócio-político. Um fenômeno parecido vimos durante a nomeação de Hillary Clinton, onde eleitores de Bernie Sanders se recusaram a apoiar Hillary, apesar da necessidade de derrotar Trump e dos pedidos de Sanders.
São muitas as teorias que explicam a radicalização da sociedade, envolvendo várias áreas de conhecimento. Mas sem dúvida, não dá para deixar de fora a mídia. Infelizmente, o debate sobre a mídia está cheio de armadilhas, uma delas envolve a liberdade de expressão que nos faz calar, justamente a nós que nos intitulamos liberais.
Quero deixar muito claro: não estou aqui questionando a liberdade de expressão, que acho imprescindível. O que questiono é o debate polarizado e dicotômico desta noção democrática que está nos levando a um beco sem saída. É precisamente porque a liberdade de expressão nos é cara que não sabemos como rebater os gritos da grande mídia quando ela se sente minimamente ameaçada de perder seus privilégios. E quaisquer tentativas de regulamentar a sua autonomia – ainda que básicas como a instituição de um conselho regulador que incluísse outros stakeholders além da própria mídia - são rechaçadas em nome da mesma liberdade de expressão.
Entretanto, a alardeada ‘liberdade de expressão’ de uns poucos meios midiáticos poderosos e certos formadores de opinião escolhidos a dedo não está somente restringindo a liberdade de expressão de outros sujeitos que não tem a mesma exposição, como também está distorcendo o que podemos chamar de “objetividade”.
Não acredito que haja uma única realidade na interpretação do mundo social e, portanto, não acredito na objetividade como conceito irrefutável. Mas isto não quer dizer que possamos simplesmente ignorar fatos ou descartar a opinião de especialistas, ou pior, reprimir informações durante anos sem fim, como parece ser a praxe do jornalismo brasileiro.
É importante ter um debate muito mais complexo sobre o que significa a liberdade de expressão em contraposição às inverdades propagadas pela grande mídia em nome de seus próprios interesses, porque assim como está a ‘liberdade de expressão’ da grande mídia está ameaçando a verdadeira liberdade de expressão de muitos sujeitos e a participação de todos na democracia.
Um debate mais complexo sobre a liberdade de expressão, não quer dizer que os jornalistas e os meios de comunicação não possam ter suas opiniões. Aliás, seria muito mais saudável para a democracia se os jornais brasileiros, especialmente a Folha de São Paulo, manifestassem suas posições políticas explicitamente em editoriais ou páginas de opinião, em vez de se esconder atrás de uma falsa imparcialidade. Mas é importante também saber diferenciar as opiniões, do falso relato dos fatos, das manipulações, ou da repressão de informação.
Há também uma segunda armadilha que nos imobiliza. Durante um debate em Londres, Otávio Frias, diretor da Folha de São Paulo, utilizou-se desta ferramenta. Segundo ele, a mídia pode fazer e dizer o que quiser porque o público midiático é inteligente suficiente para não ser manipulado pelas escolhas editoriais.
Essa visão nos imobiliza porque, obviamente, não queremos dividir a sociedade entre os inteligentes - que sabem criticar a mídia - e os burros que não sabem. Seria uma visão incompatível com a nossa perspectiva de uma sociedade de sujeitos capazes, que têm iguais direitos de participação e direitos de opinião. O temor aqui é que se aceitarmos a premissa oposta - de que as pessoas são sim manipuladas - estaríamos abrindo o caminho para aceitar o que a grande mídia vem a algum tempo nos forçando goela a baixo, caindo na armadilha que Frias nos colocou: que a ‘falta de educação’ afeta a capacidade das pessoas de fazerem decisões e de votar, e já que são os menos educados que votam na esquerda, votam porque são burros.
É importante reconhecer que a mídia nos influencia. De novo, precisamos trazer mais complexidade para o debate, que não se limita a uma relação direta entre a falta de educação ou inteligência e a influência dos meios de comunicação. Somos todos influenciados e todos críticos. Somos, sobretudo, influenciados nas nossas decisões sobre assuntos que não nos interessa, ou que não conhecemos, dependendo nestes momentos da opinião de amigos e outros que consideramos ‘mais bem informados’, incluindo a mídia.
Para dar um exemplo, digamos que o Arnaldo Jabor faça comentários no Jornal Nacional sobre um discurso feito por um político. Primeiro precisamos ter interesse no fato, depois querer ir além para comparar os comentários com o discurso do político e o contexto no qual este se deu.
É só nesta fase que vamos acionar a nossa capacidade crítica para saber se os comentários de Jabor correspondem à realidade do discurso. E ainda nem chegamos aos fatos! Para isso, vamos necessitar de mais comparações: a dos comentários de Jabor com a realidade do discurso e dos fatos, que podem ser identificados pelo conhecimento direto das coisas (digamos, para ficar num exemplo comum, um beneficiário do Bolsa Família, que tem um conhecimento – não podemos esquecer – limitado àquela realidade pessoal) ou através do conhecimento científico.
Todos nós somos vulneráveis à influência, especialmente quando as táticas utilizadas pela mídia, seja deliberadamente, seja por falta de experiência e compreensão da complexidade da realidade midiática, são injustas. Os jornalistas têm nas mãos informação privilegiada. São eles que escolhem as pautas. São eles que interpretam uma entrevista, um discurso ou um documento para nos dar um resumo fácil, são eles que escolhem os termos do debate.
Para dar um exemplo fora do Brasil, durante os debates do Brexit as visões da maioria dos economistas a favor da permanência na União Europeia foram contrapostas com a visão de um ou dois economistas contra, sem que as pessoas se atentassem à falta de proporcionalidade. Quando questionados sobre esta disparidade, os políticos a favor do Brexit, como o ex-Ministro da Justiça Michael Gove, simplesmente argumentavam que “estávamos todos cansados das opiniões dos especialistas”.
A tão louvada “imparcialidade” da BBC também causou problemas, já que esta corporação se achou cumpridora de seu dever simplesmente por ter dado espaço a ambas as partes sem questionar a veracidade ou credibilidade das informações ou fontes.
Em nome da ‘imparcialidade’ membros de think-tanks anti-imigração debatiam com acadêmicos especializados sem que as pessoas soubessem que os think-tanks existem justamente para promover a visão de certos grupos de interesse, pondo a ‘objetividade’ dos fatos em segundo plano em nome da ‘imparcialidade’, representada pelo tempo dado a cada lado.
Um estudo feito por acadêmicos da Universidade de Loughborough, Inglaterra, mostrou que as preocupações e interesses de parte da população e, especialmente da esquerda, foram deixados de lado para dar maior espaço ao ‘equilíbrio’ de visões entre os grandes políticos do Partido Conservador, porque eram eles que estavam divididos sobre a União Europeia.
Ficaram fora do debate questões como o meio-ambiente, direitos trabalhistas e os efeitos do Brexit no custo de vida, todas questões de interesse direto dos cidadãos. Segundo o estudo, os debates concentraram-se nos efeitos para o mercado financeiro, de pouco interesse público, e apontado por muitos como o culpado pela crise.
Não surpreende, portanto, que muitos não se importaram com as consequências que o Brexit traria.
Outro estudo mostrou que 75% das estatísticas apresentadas não foram sequer analizadas pelos jornalistas, mas foram simplesmente reproduzidas sem questionamentos ou contextualização.
Não é de surpreender que o público tenha ficado “confuso” (somente um terço dos eleitores se achavam bem informados antes do referendo), especialmente quando se buscava na BBC – a maior fonte de confiança e informação no Reino Unido – a elucidação dos fatos, respostas claras. Na verdade, o que se viu foi uma cacofonia que contrastava políticos com especialistas e celebridades com grupos de interesse.
Há muitas razões pelo caos que vivemos neste começo do século XXI e são distintos os motivos pelos desencadeamentos chocantes da política brasileira.
Os protestos a favor e contra o Governo Dilma deixaram claro que boa parte da culpa recai na grande mídia, haja visto os ataques à Rede Globo e os clamores e a consternação com a falta de democratização da mídia em 13 anos de governo PT. Eventos globais nos mostram também que esta questão não se restringe à esfera nacional.
É premente promover um debate muito mais complexo sobre a mídia e seu papel na manipulação da política. Isso se faz necessário até mesmo pela sobrevivência da própria democracia. Mas também para que possamos ter debates políticos mais equitativos com a participação de vozes que são deixadas à margem. Isso não é possível sem acesso à informação de qualidade, para que nós, não-especialistas, possamos também participar e para que não nos fechemos em guetos virtuais com consequências ainda desconhecidas.
A manipulação dos fatos, principalmente por corporações poderosas, não pode ser considerada liberdade de expressão, é necessário encontrar uma maneira democrática de lidar com este impasse. Infelizmente a expectativa de que a Internet e as redes sociais seriam capazes de corrigir a rota da democratização da informação não se concretizou, elas também estão tomadas por interesses corporativos.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Folha: fraude jornalística na “pesquisa” sobre golpe, por Glenn Greewald.

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Jornal e Instituto Datafolha eliminaram, das alternativas para futuro político do país, opção por novas eleições — exatamente aquela que a população prefere
Por Glenn Greenwald e Erick Dau, no The Intercept
Um dos mistérios mais obscuros da crise política que atingiu o país nos últimos meses (conforme relatado inúmeras vezes pela Intercept ) tem sido a ausência completa de pesquisas de opinião nos grandes meios de comunicação e órgãos de pesquisa do país. Há mais de três meses, no dia 17 de abril, a Câmara dos Deputados votou em favor de enviar ao Senado Federal o pedido de impeachment da presidente democraticamente eleita, Dilma Rousseff, resultando na investidura temporária de seu vice-presidente, Michel Temer, como “presidente interino”.
Desde a posse de Temer, o Datafolha – instituto de pesquisa utilizado pelo maior jornal do país, Folha de São Paulo  – não havia publicado pesquisas de opinião sobre o impeachment da presidente, nem sobre o impeachment de Temer, e nem mesmo sobre a realização de novas eleições para presidente. A última pesquisa do instituto antes da votação do impeachment foi realizada em 9 de abril e apontava que 60% da população apoiava o impeachment de Dilma, enquanto 58% era favorável ao impeachment de Temer. Além disso, a sondagem indicou que 60% dos entrevistados desejavam a renúncia de Temer após o impeachment de Dilma, e 79% defendiam novas eleições após a saída de ambos.
A última pesquisa de outra grande empresa do setor, o Ibope, foi publicada em 25 de abril, e concluiu que 62% desejavam que Dilma e Temer saíssem e que novas eleições fossem realizadas; 25% queriam a permanência de Dilma e a conclusão de seu mandato; e apenas 8% eram favoráveis a situação atual: com suspensão de Dilma e Temer como presidente interino. Essa pesquisa, mesmo sendo negativa para Temer, foi realizada há algum tempo, em abril deste ano.
De forma surpreendente, mesmo três meses depois da entrada de Temer, a poucas semanas da votação final do impeachment de Dilma no Senado e com toda a atenção do mundo voltada para o Brasil por conta das Olimpíadas, nenhuma pesquisa havia sido publicada até o último final de semana. No sábado, a Folha de São Paulo anunciou uma nova pesquisa realizada pelo Datafolha que se demonstrou, ao mesmo tempo, surpreendente e positiva para o presidente interino, Michel Temer, além de apresentar uma grande variação com relação a pesquisas anteriores. A manchete principal impressa pela Folha, que rapidamente se alastrou pelo país como era de se esperar, dizia que metade do país deseja que Temer permaneça como presidente até o fim do mandato que seria de Dilma no final de 2018.
A iminência da votação final do impeachment torna esse resultado (50% dos brasileiros desejam que Temer conclua o mandato de Dilma) extremamente significativo. Igualmente importante foi a afirmação da Folha de que apenas 4% disseram não querer nenhum dos dois presidentes, e somente 3% desejam a realização de novas eleições. O artigo on-line de destaque no sábado:

O jornal também estampou o resultado na primeira página da edição impressa de domingo, a edição de jornal mais lida do país:

Esse resultado não foi apenas surpreendente por conta da ampla hostilidade com relação a Temer revelada pelas pesquisas anteriores, mas também porque simplesmente não faz sentido. Para começar, outras perguntas foram colocadas aos eleitores pelo Datafolha sobre quem prefeririam que se tornasse presidente em 2018 e os resultados apontaram que apenas 5% escolheriam Temer, enquanto o líder da pesquisa, o ex-presidente Lula, obteve entre 21% e 23% das intenções de voto, seguido por Marina Silva, com 18%. Apenas 14% aprovam o governo de Temer, enquanto 31% o consideram ruim/péssimo e 41%, regular. Além disso, um terço dos eleitores não sabe o nome do Presidente Temer. E, conforme observou um site de esquerda ao denunciar a recente manchete sobre a pesquisa da Folha como uma “fraude estatística”, é simplesmente inconcebível que a porcentagem de brasileiros favoráveis às novas eleições tenha caído de 60%, em abril, para apenas 3% agora, enquanto a porcentagem da população que deseja a permanência de Temer na Presidência da República tenha disparado de 8% para 50%.
Considerando todos esses dados, fica extremamente difícil compreender como a manchete principal da Folha – 50% dos entrevistados querem que Temer continue como presidente até o fim do mandato de Dilma – possa corresponder à realidade. Ela contradiz todos os dados conhecidos. A Folha é o maior jornal do país e o Datafolha é uma empresa de pesquisa de credibilidade considerável. Ambos foram categóricos em sua manchete e gráfico principal a respeito do resultado da pesquisa. Curiosamente, a Folha não publicou no artigo as perguntas realizadas, nem os dados de suporte, impossibilitando a verificação dos fatos que sustentam as afirmações do jornal.
Como resultado disso, a manchete – que sugere que metade da população deseja a permanência de Temer na Presidência até 2018 – foi reproduzida por grande parte dos veículos de comunicação do país e rapidamente passou a ser considerada uma verdade indiscutível: como um fato decisivo, com potencial para selar o destino de Dilma. Afinal, se literalmente 50% do país deseja que Temer permaneça na Presidência até 2018, é difícil acreditar que Senadores indecisos contrariem a vontade de metade da população.
TEXTO-MEIO Mas ontem, os dados completos e as perguntas complementares foram divulgados. Tornou-se evidente que, seja por desonestidade ou incompetência extrema, a  Folha cometeu uma fraude jornalística. Apenas 3% dos entrevistados disseram que desejavam a realização de novas eleições, e apenas 4% disseram que não queriam nem Temer nem Dilma como presidentes, porque nenhuma dessas opções de resposta encontrava-se disponível na pesquisa. Conforme observado pelo jornalista Alex Cuadros hoje, a pergunta colocada deu aos entrevistados apenas duas opções de resposta: (1) Dilma retornar à Presidência ou (2) Temer continuar como presidente até 2018.

Portanto, fica evidente que os 50% de entrevistados não disseram que seria melhor para o país se Temer continuasse até o fim do mandato de Dilma em 2018: eles disseram apenas que essa seria a melhor opção se a única alternativa fosse o retorno de Dilma. Além disso, simplesmente não procede alegar que apenas 3% dos entrevistados querem novas eleições, já que essa pergunta não foi feita. O que aconteceu foi que 3% dos entrevistados fizeram um esforço extra para responder dessa forma frente a opção binária entre “Dilma retorna” ou “Temer fica”. É impossível determinar com base nessa pesquisa a porcentagem real de eleitores que desejam a permanência de Temer até 2018, novas eleições ou o retorno de Dilma. Ao limitar de forma infundada as respostas a apenas duas opções, a Folha gerou as amplas distorções observadas nos resultados.
É totalmente injustificável, por inúmeras razões, que a pergunta tenha sido colocada dessa maneira, excluindo todas as outras opções, com exceção das duas respostas disponíveis. Primeiramente, o Supremo Tribunal Federal  já havia decidido que a votação do impeachment de Temer deve prosseguir, visto que o interino cometeu o mesmo ato que Dilma. Em segundo lugar, diversas figuras de destaque político no país – incluindo o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, bem como um editorial da própria Folha – se manifestaram em favor de novas eleições para presidente após o impeachment de Dilma. Andréa Freitas, Professora de Ciência Política na Unicamp, disse à Intercept: “como as novas eleições são uma opção viável, deveriam ter sido incluídas como uma das opções”.
E como Cuadros observou, pesquisas anteriores sobre Dilma e Temer, incluindo a pesquisa de 9 de abril do Datafolha, perguntaram explicitamente aos entrevistados a respeito de novas eleições. Portanto, é difícil entender por que essa pesquisa do Datafolha omitiria propositadamente o impeachment de Temer e as novas eleições, e limitar as opções a “Dilma volta” ou “Temer fica”.
Mas o argumento a respeito de limitar as possíveis respostas a apenas duas opções é simplesmente referente à metodologia da pesquisa. O que aconteceu foi muito mais grave. Após ter decidido limitar as opções de resposta dessa forma, a Folha não pode enganar o país fingindo ter oferecido aos entrevistados todas as opções possíveis. Com a omissão desse fato, a manchete e o gráfico principal do artigo da Folha se tornam enganosos e completamente falsos.
É simplesmente incorreto alegar (como fez o gráfico da Folha) que apenas 3% dos brasileiros acreditam que “novas eleições são o melhor para o país”, já que a pesquisa não colocou essa pergunta aos entrevistados. E ainda mais prejudicial: é completamente incorreto dizer que “50% dos brasileiros acreditam que a permanência de Temer seja melhor para o país” até o fim do mandato de Dilma. Só é possível afirmar que 50% da população deseja a permanência de Temer se a única outra opção for o retorno de Dilma. 
Mas se outras opções forem incluídas – impeachment de Temer, renúncia de Temer, novas eleições – é praticamente certo que a porcentagem de brasileiros que desejam a permanência de Temer até 2018 caia vertiginosamente. Como observou a Professora Andréa Freitas: “pode ser que 50% da população prefira Temer a Dilma se essas forem as únicas opções, mas parte desses 50% pode ser favorável a novas eleições. Com a ausência dessa opção, não há como estabelecer que essas pessoas prefiram o Temer”.
Isso não é trivial. Não se pode subestimar o impacto dessa pesquisa. É a única pesquisa de um instituto com credibilidade a ser publicada em meses. Sua publicação se deu exatamente antes da votação final do impeachment no Senado. E contém a extraordinária alegação de que metade do país deseja que o Michel Temer permaneça na presidência até 2018: uma manchete tão sensacionalista quanto falsa.
Considere como os resultados dessa pesquisa foram reproduzidos de forma incansável – como era de se esperar – em manchetes de outros grandes veículos do país:

No primeiro parágrafo: “Pesquisa do Instituto Datafolha realizada nos dias 14 e 15 aponta que 50% dos brasileiros preferem que o presidente interino Michel Temer continue no poder até 2018. A volta da presidente afastada Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto foi a opção de 32% dos entrevistados. Os 18% restantes não escolheram nenhum dos dois, disseram não saber ou que preferiam novas eleições”.
Em entrevista à Intercept, Luciana Schong do Datafolha insistiu que foi a Folha, e não o instituto de pesquisa, quem estabeleceu as perguntas a serem colocadas. Ela reconheceu o aspecto enganoso na afirmação de que 3% dos brasileiros querem novas eleições “já que essa pergunta não foi feita aos entrevistados”. Luciana Schong também conta que qualquer análise desses dados que alegue que 50% dos brasileiros querem Temer como presidente seriam imprecisos, sem a informação de que as opções de resposta estavam limitadas a apenas duas.
No fim de abril, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) publicou seu ranking anual de liberdade de imprensa e o Brasil caiu para a 104ª posição, em parte devido à “propriedade dos meios de comunicação continuar concentrada nas mãos de famílias dominantes vinculadas à classe política”. Mais especificamente, o grupo observou que “de forma pouco velada, a mídia nacional dominante encorajou o povo a ajudar a derrubar a Presidente Dilma Rousseff” e “os jornalistas que trabalham nesses grupos midiáticos estão evidentemente sujeitos à influência de interesses privados e partidários, e esses conflitos de interesse permanentes são obviamente prejudiciais à qualidade do jornalismo produzido”.

Uma coisa é a mídia plutocrática brasileira incentivar e incitar abertamente a queda de um governo democraticamente eleito. De acordo com a RSF, esse comportamento representa uma ameaça direta à democracia e à liberdade de imprensa. Mas é muito diferente testemunhar a fabricação de manchetes e narrativas falsas insinuando que uma grande parte do país apoia o indivíduo que tomou o poder de forma antidemocrática, quando isso não é verdade.