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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Atire a primeira pedra, por Mauro Iasi.







































O sangue ainda manchava a areia onde tinha ocorrido a execução. As pedras e o muro testemunhavam as marcas da violência e na Polis não se falava de outra coisa. “Ela fizera por merecer”, diziam os cidadãos, como que desculpando-se da ignomínia, “a lei determina e nossos valores condenam, ela sabia.”
Foi quando veio a notícia de que entre os que atiraram as pedras havia pelo menos seis cidadãos que praticaram o mesmo ignóbil ato. Justo eles, que ergueram as pedras com mais raiva, gritando xingamentos e bradando loas às nossas leis e tradições. A reprovação dos olhares sérios – pelo menos assim parecia naquele momento – seguia-os quando foram levados à frente de todos.
Havia, no entanto, algo estranho. Os cidadãos se encontravam e se cumprimentavam respeitosamente, no entanto, em seus recônditos pensamentos repetiam como um mantra: “não me olhe assim, eu sei que tu também o fizeste, denuncia-me que te denuncio…”
E um denunciou o outro, que denunciou o próximo que reagiu denunciando os demais, até que quase todos estavam denunciados pelos denunciadores, que foram denunciados. Os magistrados, bem… os magistrados se punham solenes ao proferirem as sentenças e a declamarem os valores sobre os quais se fundou a gen que formou um dia nossa Polis, da vergonha, do profano e do sagrado… até que foram denunciados.
A noite que antecedeu o dia trágico correu calada. Nem o vento nas colinas próximas se mostrou confiante para dizer algo. As estrelas no oco do firmamento apenas olhavam incrédulas. A lua se ausentou…
Logo pela manhã os cidadãos começaram a chegar na Ágora, rostos severos, cenhos tensos. Os gritos e as falas incompreensíveis, os ataques, as pedras… Na ástey se ouvia tudo como um tumulto distante. Não se compreendia as palavras, era como um alvoroço de pássaros pegos em um incêndio, uma… barbárie.
As pedras voavam agudas até que encontravam rostos e crânios. O sangue jorrava, os gritos foram sucedidos por gemidos, murmúrios. Até que… silêncio. Um silêncio como nunca se ouvira. Os corpos jaziam retorcidos e as mãos como garras portavam dedos acusadores que apontavam em todas as direções.
Todos… cidadãos, prítanes, magistrados… arcontes epônimos, temostelas… e mesmo o arconte polemarco que deveria por função cuidar dos mortos, ali encontrava-se junto aos cadáveres. Todos… todos! Não sobrara ninguém!
A Polis estava vazia, tomada pelo cheiro ferroso de sangue e excrementos… ninguém!
Os honrados cidadãos da Polis tinham todos se digladiado uns aos outros e não sobrara mais nenhum dos seus membros. Restaram vivos apenas aqueles que não pertenciam à Polis: as crianças, as mulheres, os camponeses pobres da khora, os estrangeiros e os escravos; que se reuniram, enterraram os mortos, fizeram novas leis, e governaram a si mesmos.
Na Acrópole hoje se ergue um único monumento. Não aos deuses, nem aos magistrados, muito menos aos reis, mas àquilo que livrou a cidade de todos eles:. uma única e enorme… pedra.
***
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O futuro da usurpação e as alternativas impensáveis: o trabalho do vento e a necessidade da tempestade, por Mauro Luis Iasi.

futuro da usurpacao
“Sento-me na praia e espero o vento”
Antes mesmo de completar um mês de usurpação, o usurpador tem problemas. Sua ponte balança fortemente acossada pelos ventos de denuncias e o futuro, logo ali do outro lado do abismo, parece uma visão distante.
Um ministro atrás de outro vai caindo ou sendo envolvido em escândalos, os que se mantêm ostentam uma ficha corrida de fazer inveja a qualquer quadrilha e o próprio usurpador é condenado, tornado-se inelegível por oito anos (dois dos quais espera passar no cargo maior de mandatário da República).
O futuro da usurpação
Na sanha de afastar a presidente eleita, os conspiradores prometeram o que não podem entregar: a estabilidade. Primeiro porque, ao contrario de suas pretensões, a raiz da instabilidade é a crise econômica e o remédio amargo dos “ajustes”, que o governo anterior já aplicava e o usurpador impõe com mais profundidade, não indicam uma recuperação milagrosa no curto prazo. As previsões já afastam a recuperação em 2017 e projetam a volta de um crescimento pífio só para 2018. Em segundo lugar, o bloco usurpador está longe de ser homogêneo. A mídia que tão convictamente apoiou com boa vontade a aventura usurpadora tenta se apresentar agora como surpresa com aquilo que sempre soube muito bem. O judiciário divide-se, a operação Lava Jato continua a oferecer denuncias, o Ministério Público continua indiciando e o STF continua se fingindo de morto.
O preço da interrupção do mandato da presidente é pago com um custo considerável. Liberação de recursos, nomeações, barganhas, acordo para livrar Cunha da cassação, acenos ao obscurantismo de valores e o fundamentalismo dos preconceitos, fechamento de ministérios para depois reabri-los sem recursos. Ministros vaiados em público e um precário reconhecimento internacional que se dilui numa consistente percepção da ilegalidade do ato usurpador.
Estamos diante de um governo provisório ilegítimo e instável. Os ex-governistas querem a volta da presidente, os aliados do usurpador disputam entre si o protagonismo em uma nova fase de crescimento que virá, os trabalhadores reagem, ainda desordenadamente, contra a brutalidade do “ajuste”, e disso tudo resulta que a instabilidade é a regra e nada indica que tal quadro se reverta no curto prazo.
O ajuste, no entanto, não espera a estabilidade política. Ao contrario do que se apregoava, ele vai se implantando no próprio curso da tempestade. Começou ainda no governo interrompido, seguiu por entre a crise do afastamento da presidente e seguiu no governo usurpador indiferente aos percalços políticos que o abalam. Enquanto a esfera política decide quem governa, o capital exerce seu direito ao Estado e impõe a direção necessária.
No entanto, isso tem consequências. É essencial ao jogo político burguês que o governo de plantão assuma o ônus de uma crise para que a oposição no interior da ordem se apresente como alternativa. Assim alternam-se liberais e conservadores, democratas e republicanos, socialdemocratas e democratas cristãos, tucanos e petistas. A atual crise política, por uma espécie de irresponsabilidade daquilo que Sofia Manzano denominou corretamente de “lumpem-parlamentares”, acabou por queimar na fogueira dos interesses da pequena política a própria aparência de respeitabilidade em que se sustentava a frágil fantasia ideológica sob a qual se legitima o jogo político burguês.
Quando um ataca o outro, o outro ataca o primeiro e todos se atacam torcendo os limites da legalidade ao sabor de conveniências e oportunismos. E o povo aqui de fora olha e vai formando a incômoda convicção que todos estão certos ao se acusarem mutuamente de canalhas e ladrões. A fantasia ideológica supõe que as pessoas tecem uma forma que lhe serve de mediação entre elas e a realidade objetiva, como afirma Žižek, não como uma mera falsidade, mas como uma ilusão necessária. Nas palavras do filósofo esloveno: “não é simplesmente uma mentira, mas uma mentira vivenciada como verdade, uma mentira que pretende ser levada a sério.” (Žižek, S. “Como Marx inventou o sintoma?”. Em: Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro, Contraponto: 1996, p. 313-314).
No limite, isto significa que as pessoas sabem de fato que a esfera da política é esse campo de disputas em torno de interesses mesquinhos, em que se usa e abusa dos meios e métodos mais escusos, que há corrupção e ilegalidades, alianças oportunistas e traições várias… que os senhores deputados e senadores estão ali porque lograram constituir máquinas eleitorais, financiamentos vultosos que compensam com medidas legislativas e governamentais que respondem aos interesses de seus mecenas etc. No entanto, precisam acreditar que se trata de uma esfera do poder político, uma esfera legislativa que tem funções específicas e respeitáveis, exercida por pessoas que têm legitimidade e capacidade para tal função. A crise política rasga o véu da fantasia ideológica e mostra não algo que se desconhecia, mas aquilo que não se queria saber.
O problema não é tanto o que se revela (uma vez que a ideologia não opera aqyu no paradigma do velamento) mas as conclusões que daí derivam. Se este é o jogo da política burguesa, qual seria então a alternativa? É neste ponto que as coisas ficam interessantes. Quando Aécio Neves, por exemplo, tenta capitalizar a crise em seu benefício há uma imediata recusa. O usurpador Temer gostaria de acreditar que ele seria (até por falta de opções) a alternativa… mas não é. Uma senhora magra, vinda das fileiras do povo, tenta olimpicamente se manter distante de tudo e agradar a todos, para assim quem sabe ser escolhida como alternativa. Um dia se diz contra o impedimento, em outro flerta com o golpismo. Quer ser uma alternativa para a esquerda, mas elogia o falecido ministro da Ditadura. Ama a natureza, mas precisa do dinheiro dos monopólios que a assolam. De tanto querer agradar a todos, corre o risco de não agradar a ninguém.
O governo interrompido podia ser uma alternativa. Um dia já foi. Até pouco tempo ainda era. Mas como processar a limpeza necessária e restabelecer as costuras e remendos na fantasia ideológica para reapresentá-lo como a novidade que um dia foi, como artífice de uma democracia de cooptação, como ponto médio que torna possível o pacto? A “lumpem-burguesia-parlamentar” pode ter prestado um grande desserviço à burguesia.
Eleições gerais?
Não é por acaso que setores da mídia, como a Folha de S. Paulo, assim como banqueiros conhecidos, aventam a possibilidade de antecipação de eleições gerais, curiosamente, se aproximando de uma posição que aparece na parte mais à esquerda do espectro político. O sentido mais profundo é que é necessário buscar fora do atual campo político e de sua constituição aqueles que podem recompor a fantasia ideológica necessária ao bom funcionamento das coisas. Evidente que na esquerda o significado é outro: trata-se de construir uma alternativa fora do campo burguês, que partisse dos trabalhadores, mas é aí que as coisas precisam ser diferenciadas.
Antecipar as eleições, na lógica do segmento da direita que defende esta alternativa, não implica mudar as regras e a forma das eleições que constituiu este mesmo circo que agora pega fogo, mas, simplesmente, mudar as pessoas. O mesmo jogo, com outros jogadores. A esquerda que defende esta alternativa tem que ter muito cuidado para não cair nesta armadilha. O mais provável é que eleições gerais agora, além de legitimar o impedimento como águas passadas, produziria uma representação ainda mais conservadora. Mas, o pior é que legitimaria um fundamento da fantasia ideológica, isto é, que esta é uma esfera legitima de poder e tal legitimidade resulta de uma eleição onde a vontade popular é a que prevalece.
Nossa convicção é que a atual forma das eleições – o peso do poder econômico, a condições desiguais da disputa determinadas desde acesso ao tempo de televisão, aos debates e aos recursos, o peso do controle das máquinas governamentais e eleitorais, o tratamento manipulatório da grande mídia – deforma a expressão do que poderia ser uma vontade popular. As eleições burguesas não são uma forma de garantir a expressão de uma vontade coletiva, mas uma eficiente maneira de evitar que se forme uma verdadeira expressão política daquilo que constitui a maioria da sociedade.
As alternativas impensáveis
Mas qual, então, a alternativa? Em grande medida, a eficácia da fantasia ideológica é excluir do campo das possibilidades algumas alternativas. Vejam como em 1847, às vésperas da entrada em cena da rebelião operária de 1848, um pensador conservador colocava a questão:
“A pobreza e o proletariado são as úlceras que supuram no organismo dos Estados modernos. Elas podem ser curadas? Os médicos comunistas propõem a completa destruição e aniquilação do organismo existente. […] Uma coisa é certa, se estes homens receberem o poder para agir, haverá não uma revolução política, mas social, uma guerra contra toda a propriedade, uma completa anarquia. Por sua vez, isto daria lugar a novos Estados Nacionais, e em que bases morais e sociais? Quem erguerá o véu do futuro?”
(Haxthausen, Studen ueber… Russland [1847]. Apud Hobsbawm, E. A era das revoluções – 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979: p. 321)
Notem, o proletariado é a doença e a sociedade atual é o organismo saudável, de forma que sua completa destruição resultará em “completa anarquia”. Ora, ninguém quer matar o doente para salvar a doença, logo tal possibilidade deve ser descartada. No entanto, como em todo discurso ideológico, para sua plena eficiência é necessário incluir o real para deformá-lo. É verdade que os comunistas querem destruir o “organismo existente”, assim como é também verdade que se os comunistas tiverem condições “não haverá uma revolução política, mas social” que tem por alvo a propriedade privada dos meios de produção. Mas isso, além de não poder ser feito, não pode sequer ser pensado. Se pergunta o angustiado conservador, “em que bases morais e sociais” se constituiria um novo estado de coisas? Certamente em outras bases econômicas, sociais e morais. E não podemos pensar esta possibilidade porque…? Bem… porque…? Por que, mesmo?
A ideologia opera de várias formas, mas na crise atual parece ter sido necessário conjurar um antigo fantasma. O conservadorismo e o fundamentalismo religioso não se movem apenas para estigmatizar o governo interrompido, mas, principalmente, para delimitar o campo do possível aberto ao futuro. Hobsbawm cita uma conhecida publicação católica para descrever a ideologia religiosa nos seguintes termos:
“Deem-me um povo em que as paixões em ebulição e a ganância terrena sejam acalmados pela fé […]; um povo que veja esta terra como peregrinação e a outra vida como sua verdadeira pátria; um povo ensinado a admirar e a acatar no heroísmo cristão sua própria pobreza e seu próprio sofrimento […]. Dêem-me, digo eu, um povo assim moldado, e o socialismo não será somente derrotado com facilidade, mas será impossível mesmo que se pense nele[…].
(Cilvità Cattolica II, 122, [1950], apud Hobsbawm, op. cit., p. 239)
É necessário para a ordem excluir a alternativa revolucionária do campo do possível e do pensável. É urgente conter a crise nos limites da crise política para que ela não se torne uma crise do Estado. Mas, no entanto, é este o caminho que a usurpação abre e, por isso, é fundamental que se oculte.
O problema destes senhores conservadores é que o fundamento desta possibilidade se inscreve em seu próprio campo teórico. Um dos fundamentos do campo político, como apresenta John Locke, é que o Estado se legitima na medida que há o “consentimento” dos governados. Um usurpador seria, nos termos deste autor clássico da teoria política burguesa, aquele que “entre em posse daquilo que um terceiro tem direito”, por isso, conclui que “não pode nunca ter o direito a seu favor” (LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil). Ocorre que isto acarreta segundo ainda Locke, a seguinte situação:
“Quem quer que ingresse no exercício de qualquer parte do poder por meios diferentes dos que as leis da comunidade prescreveram não tem o direito a ser obedecido, embora a forma da comunidade ainda continue reservada, desde que não é a pessoa que as leis indicaram e, em consequência, não é a pessoa a que o povo dera assentimento.” (Idem).
Numa situação como esta o povo estaria desobrigado de prestar obediência, mas pode chegar a muito mais que isso, pode levar a dissolução do governo. O pensador liberal argumenta que há uma diferença entre o usurpador e o tirano, sendo esta diferenciação localizada no fato do usurpador respeitar a lei existente ou refazer a lei sem que para isso tenha uma mandato que expresse o consentimento do povo, colocando nestes termos o assunto:
“Se um homem ou mais de um chamarem para si a elaboração de leis, sem autoridade, a que o povo, em conseqüência , não está obrigado a obedecer; e, nessas condições, o povo ficará novamente desobrigado a sujeição, podendo constituir novo legislativo conforme julgar melhor, tendo inteiramente liberdade de resistir à força aos que, sem autoridade, quiserem impor-lhe seja lá o que for.” (Idem).
Vejam, o elemento da crise que não pode ficar visível como alternativa é que as alternativas não restringem-se à escolha entre as peças existentes e na forma política que hoje prevalece. É possível, e às vezes necessário, constituir um novo poder na forma que julgarmos melhor. Locke é um filósofo da fase revolucionária da burguesia e expressa em suas ideias o chamado “direito à rebelião”, pois é isso que a burguesia fez na sua Inglaterra e fará na França em 1789: ela destruiu o organismo social existente. Mas agora isso precisa ser descartado como possibilidade. Houve história, mas não há mais, já disse Marx.
Não se trata de escolher entre as alternativas colocadas, não se trata de escolher outras pessoas pela mesma sistemática política que constituiu esta forma política que agora implode. A possibilidade que se abre é questionar se esta é a única forma possível de expressão de vontades coletivas, se esta é a única forma da política?
Nenhuma solução que mantenha a atual sistemática política e o sistema eleitoral pode ser, de fato, uma alternativa, ainda que troquem todas as pessoas envolvidas nos escândalos de corrupção por outras que irão se envolver nos próximos escândalos de corrupção. Nenhuma mudança política ou engenharia de representação eleitoral pode ser eficaz, no sentido de uma verdadeira mudança, se não tocar na base real da forma política, a sociedade cindida em interesses antagônicos e inconciliáveis de classe e a ordem capitalista fundada na propriedade privada dos meios de produção e na transformação dos bens necessários à vida em mercadorias.
A crise do poder burguês abre a possibilidade dos trabalhadores se constituírem em poder, legislarem sobre sua vida e desobedecerem ao poder governamental ilegítimo. Destruir o organismo social e reorganizar a sociedade em novas bases econômicas, sociais e morais. O preocupado conservador de 1847 termina suas reflexões angustiadas, agravadas pela dor que a úlcera proletária lhe causava, perguntando quem poderia erguer o véu do futuro, indagando que papel a Rússia desempenharia nesta trama. Sabemos que papel ela desempenhou. Ele lembra ainda um velho ditado russo que diz: “sento-me na praia e espero o vento”. Bem, acredito que já passou da hora de nos levantar e ajudar o trabalho da tempestade.
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Gostou? Leia também “O usurpador e o caminho da usurpação“, de Mauro Iasi, no Blog da Boitempo.
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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência, por Mauro Iasi.

Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência

Um dos mitos da estratégia democrática popular é o acumulo de forças. A ideia geral é que por não haver condição de rupturas revolucionárias, nem correlação de forças por mudanças estruturais no sentido do socialismo, a democratização da sociedade e as reformas graduais iriam criando as bases políticas para o desenvolvimento gradual de uma consciência socialista de massa.
No 5o Encontro Nacional do PT em 1987, o problema é colocado da seguinte maneira: certos companheiros não distinguem entre as ações ligadas ao acumulo de forças daquelas voltadas diretamente à conquista do poder, não entendendo, segundo o juízo dos formuladores, a diferença entre o “momento atual, (…) em que as grandes massas da população ainda não se convenceram de que é preciso acabar com o domínio político da burguesia, e o momento em que a situação se inverte e se torna possível colocar na ordem do dia a conquista imediata do poder”.
O resultado desta incompreensão seria que os “pretensamente revolucionários” não seriam entendidos pela população e pelos trabalhadores contribuindo, assim, de fato para a “desorganização das lutas” ficando condenados a “pequenos grupos conscientes e vanguardistas”.
Bem, o centro deste argumento que contrapõe os pretensos revolucionários aos verdadeiros seria que estes últimos teriam a capacidade de dialogar com a consciência imediata das massas e dos trabalhadores criando a mediação necessária para elevá-la à compreensão da necessidade da conquista do poder.
Nada como uma década depois da outra para julgarmos as pretensões anunciadas. A prova da validade ou não de tal formulação deve ser buscada na seguinte pergunta: após dez anos de governo petista os trabalhadores estão hoje (considerando como ponto de referencia 1987 e o 5o Encontro do PT) mais organizados e se desenvolveu uma consciência de classe que coloca de forma mais evidente a necessidade de conquista do poder “acabando com o domínio político da burguesia”?
Comecemos pela expressão maior dessa estratégia e seu líder incontentável: Luis Inácio Lula da Silva. Como operário ele expressava no início de sua trajetória política os elementos evidentes do senso comum, nos termos gramscianos, ou de uma consciência reificada nos termos de Lukács. Em seu discurso de posse no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975, dizia que vivíamos em um momento “negro” para o destino dos indivíduos e da humanidade, porque tínhamos “de um lado” o homem “esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia marxista, tolhido nos seus mais comezinhos ideais de liberdade”, e de outro lado, tínhamos o homem “escravizado pelo poder econômico explorado por outros homens” (Discurso de Lula na posse do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e Diadema, 1975).
As mudanças na consciência dos trabalhadores não vêm da autodescoberta ou do esclarecimento, são o resultado de sua inserção na luta de classes. As lutas operárias do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 colocariam novos elementos à consciência deste operário em construção.
Em seu discurso na 1a Convenção Nacional do PT em 1981, Lula já diria: “O PT não poderá, jamais, representar os interesses do capital”.  Em outra parte do mesmo discurso o líder em formação afirmaria:
“Nós, do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os trabalhadores que tomaram a iniciativa histórica de propor a criação do PT já sabiam disso muito antes de terem sequer a ideia da necessidade de um partido (…). Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso sentimos na própria carne e queremos, com todas as forças, uma sociedade (…) sem exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista”
(
Discurso de Lula na 1a Convenção Nacional do PT, 1981).
Os trabalhadores, no momento de fusão que os constituía em classe contra o capital, expressavam a difícil passagem da consciência reificada à consciência em si, apontando já neste momento os germes de uma consciência para si, ou seja, mais que a consciência de uma classe da ordem do capital, mas uma classe portadora da possibilidade de uma nova forma societária para além da sociedade burguesa.
As lutas operárias, assim como o retomar de um conjunto muito amplo de lutas sociais, tornaram possível um salto organizativo que resultou na formação de um partido e, depois, de uma central sindical, da mesma forma que se alastra pela sociedade a retomada de associações, movimentos sociais e lutas das mais diversas.
Façamos um corte e pulemos para uma entrevista em que Lula recebe o repórter do programa norte americano 60 minutes por ocasião do final de seu segundo mandato como presidente.
Nesta entrevista o repórter norte americano pergunta ao ex-presidente:
“Havia empresários, no Brasil e no exterior, muito preocupados com sua posse, que pensavam que era um socialista e que daria uma virada completamente à esquerda. Agora estas pessoas são seus maiores apoiadores. Como isso aconteceu?”
E Lula responde:
Veja, eu de vez em quando brinco que um torneiro mecânico com tendências socialistas se tornou presidente do Brasil para fazer o capitalismo funcionar.  Porque éramos uma sociedade capitalista sem capital. E se você olhar para os balanços dos bancos neste ano (final do segundo mandato de Lula) verá que nunca antes os Bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil como eles ganharam no meu governo. E as grandes montadoras nunca venderam tantos carros como no meu governo. Mas os trabalhadores também fizeram dinheiro.
O repórter um tanto surpreso pergunta: “Como você consegui fazer isso?”. E Lula responde: “Eu descobri uma coisa fantástica. O sucesso do político é fazer o que é óbvio. É o que todo mundo sabe que precisa ser feito, mas que alguns insistem em fazer diferente”.
Notem bem, Lula expressava entre 1975 e 1987 o movimento da consciência de classe que passava de uma determinação da alienação à consciência de classe em si. Da mesma forma fica manifesto na consciência de sua liderança mais expressiva o caminho de volta à reificação.
O problema é que a consciência expressa na liderança é representativa do resultado político da estratégia por ele implementada no conjunto da classe e em sua consciência. Como a consciência em seu movimento é síntese de fatores subjetivos e objetivos, a ação política da classe conformada por uma estratégia incide diretamente sobre a classe e sua formação enquanto classe.
Em sua análise sobre a social-democracia, Adan Przeworski (Capitalismo e Social-democracia, São Paulo: Cia das Letras, 1989) afirma que:
“A classe molda o comportamento dos indivíduos tão-somente se os que são operários forem organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como operários, e sim como “as massas”, o “povo”, “consumidores”, “contribuintes”, ou simplesmente “cidadãos”, os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe.” (Przeworski, 1989:42).
O mito do acumulo de forças só se sustenta renovando-se ao infinito, isto é, nunca estamos prontos, nunca há a correlação de forças favorável, nunca o nível de consciência das massas e dos trabalhadores chega à necessidade da conquista do poder. O problema é que agindo desta forma criam-se as condições para que de fato nunca estejam dadas as condições.
No entanto, a questão é ainda mais séria. Os defensores do acumulo de forças acreditam piamente que os patamares de consciência não regridem, isto é, a consciência de classe desenvolvida nos anos oitenta e noventa ficaria ali no ponto onde chegou e iria se tornando massiva em consequência do andamento positivo das ditas reformas. Nesta leitura, se ainda não temos uma consciência revolucionária, que já coloca a necessidade da conquista do poder, teríamos a generalização gradual de uma consciência em si, digamos democrática, disposta a manter o patamar das conquistas e reagir quando estes estão ameaçados.
Não é o que verificamos. A consciência expressa na liderança revela que o conjunto da classe retoma um patamar que Sartre denominava de serialidade e ao qual corresponde a consciência reificada. Esta é a consciência da imediaticidade, da ultrageneralização, do preconceito, da perda do capacidade de vislumbrar, ainda que potencialmente,  a totalidade.
Presos a esta forma de consciência, os trabalhadores não agem como uma classe nos limites da ordem do capital em luta contra suas manifestações mais aparentes e, pior, eles a naturalizam e se comportam como agentes de sua reprodução e perpetuação desta ordem.
O senso comum reflete este movimento e é no cotidiano que ele se manifesta. Se podíamos falar de um senso comum progressista, ou tendencialmente de esquerda, no contexto de intensificação da luta de classes na crise da autocracia burguesa e no processo de democratização, hoje no quadro de uma democracia de cooptação consolidada temos um senso comum que tende a ser conservador e, por vezes, reacionário.
Permitam-se um exemplo caseiro, mas creio que significativo. Lincoln Secco escreveu um texto sobre a situação da Coréia do Norte em nosso blog (Kim Jong-un 17/04/2013). Um comentador simplesmente respondeu com um direto “vai morar lá”, mas deixemos este de lado. Destaco dois comentários mais substanciosos e que revelam uma forma de compreensão do mundo atual e seus dilemas:
“Olha, até pouco tempo tinha raiva dos EUA pela sua indústria cultural, sua arrogância, sua intromissão em assuntos de outras nações, etc. Entretanto, depois de conhecer o país e seu povo, mudei completamente minha concepção. Os caras são os “caras” porque trabalham duro, estudam bastante e são muito educados e politizados. O fazem mundo afora é conhecido na natureza como a lei do mais forte. Queria eu morar num país que dita as regras aos outros e ninguém tira farinha. Além disso, em pleno século XXI, os norte coreanos são tratados como um rebanho e não como cidadãos livres. Abaixo o apoio ao totalitarismo, como ocorre por lá!!!”
Um outro, mais duro, afirma:
“kkkkkkkkkkkkkkkkk . País sitiado? por quem? Paranoicos, malucos mesmo, todos eles, o “estadista mirim”, o “professor” que assina esta bobagem. Veja bem, a lição de história pode até ser boa, talvez o que o trai sejam as convicções políticas… o tempo passou e eles não perceberam… O Presidente dos Estados Unidos, já é Obama, viu pessoal…Ameaça do Ocidente? Para quem? Despertem deste “sono” louco, sejam felizes, ou não, mas, deixem de loucura! Vivemos num mundo diferente do das “cartilhas” que vocês estudam!!!”.
Não vou entrar no mérito, não guardo nenhuma simpatia pela forma política norte coreana, mas em seu núcleo central o texto do companheiro Lincoln, apenas afirma que existe um espaço de soberania dos Estados nacionais e que estes tem direito de se defender, o que o leva a constatação que não são eles que provocam e atacam, mas ao contrário, estão sendo provocados por “exercícios militares” que partem dos EUA. Como explicar tal reação?
Não vai aqui nenhuma consideração aos comentadores, eles tem direito de expressar sua opinião, concordemos ou não. Um blog tem de tudo e tais comentários o deixam ainda mais interessante. O que nos preocupa é que ele revela, e isto é uma virtude, um elemento do senso comum que indica uma preocupante guinada conservadora, mesmo em relação a valores mais elementares, e isso em um leitor de um blog de uma editora com uma linha claramente de esquerda em um pais que está há dez anos “acumulando forças”.
Podemos ver este fenômeno como um resquício ou uma exceção em um senso comum que tende a ser mais progressista. Infelizmente eu acredito que não. A forma do senso comum é resultado de toda a história da formação social, sua resultante cultural, a permanência das relações sociais de produção burguesas, mas também do processo político mais recente que como toda práxis pode superar ou reforçar o existente. No caso reforçou.
Lembrando ainda Przeworski, sabemos que a chamada organização das massas precisa ser compreendida de forma mais profunda. Não há uma relação direta entre organização e ação, é possível organizar para apassivar. Diz o autor:
“Os líderes tornam-se representantes. Massas representadas por lideres – eis o modo de organização da classe trabalhadora no seio das instituições capitalistas. Dessa maneira, a participação desmobiliza as massas” (Przeworski, 1989: 27).
É triste.

***
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002).