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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Os estranhos interesses por trás da ração humana, por Outras Palavras.

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on 23/10/2017Categorias: Brasil, Destaques, Políticas
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Uma empresa que nada produz. Uma gestora ligada a causas de ultra-direita. Uma “clínica” onde 14 morreram por intoxicação alimentar. Um projeto de lei suspeito
Reportagem de Alex Tajra
Muito tem se falado sobre o projeto da Prefeitura de distribuir um complexo nutritivo chamado de “farinata” para supostamente combater a fome na cidade. A gestão João Doria, em parceria com a nebulosa Plataforma Sinergia, produziu um alimento de qualidade duvidosa, com um aspecto peculiar (lembra uma mistura do tradicional doce cajuzinho com uma pedra de crack), proveniente de uma maçaroca de produtos próximos do vencimento, desinteressantes para bares, restaurantes, supermercados, etc.
Não há qualquer informação nutricional sobre o produto, tampouco foi feita uma consulta aos órgãos competentes que deveriam fiscalizar os acordos alimentícios feitos pelo poder público com empresas privadas, tais quais o Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Plataforma Sinergia também é uma empresa sobre a qual poucas informações estão disponíveis. Uma delas é de que é gerida pela empresária Rosana Perrotti, entusiasta do “Allimento” (nome do produto, elaborado com um trocadilho sórdido) e fã declarada do prefeito. Mas quem é Perrotti?
Numa pequena consulta feita na internet, nota-se que Rosana possui uma posição político-partidária muito explícita. Não raro em sua página pessoal no Facebook posta vídeos e textos criticando os “esquerdopatas”. Em uma das publicações, uma crítica virulenta à “ideologia de gênero” que o Ministério da Educação quer nos colocar “goela abaixo”. O professor Felipe Nery, no vídeo, diz que “está acontecendo uma explosão de crianças confusas com o próprio sexo” e que as crianças estão “duvidando de si mesmas nas salas de aula”.
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No círulo vermelho, Rosana Perrotti, que se empenha em postagens ultraconservadoras na internet. Entre os “colaboradores” citados por sua empresa, a PUC-SP. Que relações obscuras ligariam Dom Odilo (o Grão Chanceler da universidade, ao microfone) com a “farinata”?
As postagens não são antigas; pelo contrário, foram publicadas nas últimas semanas. Em outro vídeo, o pastor e senador Magno Malta (PR), discorre sobre o ECA e como a performance do artista carioca Wagner Schwartz, no MAM, supostamente incentiva a pedofilia. “Se a Organização Mundial de Saúde pede para os fumantes não fumarem perto das crianças, quanto mais um adulto induzir uma criança a tocar no órgão genital do outro”, é uma das comparações feitas por Malta.
Em outra publicação, um vídeo de uma criança de no máximo cinco anos explicando “como Deus escolheu David para ser rei”. Esse, sim, em clara violação do Estatuto da Criança e do Adolescente, já que explora uma criança com fins de proselitismo religioso. Rosana também não deixa de lado o arauto da ética e da moral brasileiras, Sérgio Moro, e reserva espaços em sua linha do tempo para alguns vídeos do magistrado, exaltando a Operação Lava-Jato e seus feitos heroicos.
Profissionalmente a trajetória de Perrotti é igualmente cerceada por uma neblina cinzenta. Em seu perfil no Linkedin, apresenta-se como “Controller” na empresa Mead Johnson Nutrition, companhia estadunidense “líder no mercado de nutrição” e concentrada na “investigação científica” de nutrição para bebês e crianças.
No campo de experiência, a criadora da Sinergia se define como “CFO (Diretora Financeira, em tradução livre) com foco em alimentação, agronegócio e farmacêuticas multinacionais”, com passagens pela maior empresa do mundo de alimentação, a Kraft Foods, e a gigante do agrotóxico Monsanto.
Na rede social voltada para o mundo corporativo, a Plataforma Sinergia é descrita como uma “rede de especialistas e organizações dividindo sinergia para promover desenvolvimento sustentável por meio das melhores práticas sociais e ambientais”. Apresentada como um Instituto ou uma ONG pelos meios de comunicação, a empresa tecnicamente é uma entidade privada com “atividades associativas não especificadas anteriormente”, segundo dados do Cadastro Nacional. Em seu site, pede doações pouco objetivas, em um grande banner onde se pode ler “A CADA R$10 VOCÊ NUTRE 1 CRIANÇA POR 1 MÊS”, com dados bancários da empresa abaixo.
A Sinergia, como já revelado pela rádio CBN, não possui sequer uma fábrica. Atua em parceria com “indústrias licenciadas”, segundo Perrotti, que não podem ser reveladas por conta de acordos de confidencialidade. Aí entra também uma contradição, já que a comandante da empresa disse nesta mesma entrevista que só foram produzidas amostras da farinata, as quais foram distribuídas em algumas creches. No texto de divulgação elaborado pela Prefeitura e publicado no dia 9 de outubro, todavia, a gestão afirma que a Sinergia já possui 50 toneladas do produto em estoque. Não se sabe onde, nem quando e nem o porquê dessa produção.
Tem como colaboradores nomes de peso, como a Câmara Internacional de Comércio, a CNBB e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Também não há qualquer menção sobre como ou por qual razão essas organizações mantêm vínculo com a Sinergia.
Chamam atenção, porém, mais que qualquer colaborador, os nomes da Fazenda da Esperança e da Missão Belém no portal da empresa. A primeira é uma conhecida rede de “comunidades terapêuticas” privadas, onde se tratam dependentes de drogas, e que possui uma série de contratos com o poder público. A segunda também trata de dependentes químicos, porém abriga moradores em situação de rua. Em junho deste ano o jornal O Estado de São Paulo publicou uma reportagem contando que, só naquele mês, 14 pessoas morreram na Missão Belém, todas com sinais de intoxicação alimentar.
A situação da Fazenda da Esperança é ainda mais conturbada. São diversas denúncias de alimentação ruim, tratamento negligente e até acusações de escravidão. Em 2014, quatro jovens de Alagoas, internados na unidade de Poço das Trincheiras, denunciaram que estavam sendo tratados como escravos, recebendo uma comida de péssima qualidade e que a situação é maquiada quando um grupo vinculado à Igreja Católica fazia visitas.
Cristiano dos Santos, Max Gonçalves, Italo Henrique e Jonata da Silva foram entrevistados pela Rádio Milênio e as denúncias foram amplamente repercutidas por veículos regionais.  “A comida não prestava. A que prestava quem comia era o coordenador Josafá”, disse Jonata à rádio na época, ainda relatando que o local não possuía psicólogos e nem médicos.
Em 2015, um caso de violência marcou a Fazenda da Esperança de Guaratinguetá. Um homem teria invadido o local e assassinado uma freira para roubar dinheiro. O crime, no entanto, nunca foi esclarecido, e houve uma clara tendência em afastar a possibilidade de ter sido cometido por alguém de dentro da instituição.
A última notícia que se tem do assunto é um alento aos conselhos de nutrição e aos profissionais do segmento, que se posicionaram de forma contrária à farinata nas últimas semanas. A  Promotoria de Justiça de Direitos Humanos de São Paulo instaurou em 19/10 um procedimento administrativo afim de obter mais informações sobre o “granulado nutricional” de João Doria e Rosana Perrotti. Além disso, a Comissão de Saúde, Promoção Social, Trabalho e Mulher, da Câmara Municipal de São Paulo também pediu esclarecimentos à prefeitura.
O Ministério Público da capital encaminhou cinco perguntas sobre o “Allimento” para a Prefeitura, entre elas o do porquê o granulado substituir os alimentos convencionais. Outro questionamento é a composição e o valor nutricional do produto, onde o MP também solicitou um laudo técnico para diagnosticar cientificamente o “Allimento”. O texto é assinado pelo promotor José Carlos Mascari Bonilha.
A Plataforma Sinergia e o “combate à fome”
Uma das relações pouco exploradas pela mídia até agora é a da Plataforma Sinergia com o Projeto de Lei 6867 de 2013, que instala a Política Nacional de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos – PEFSA. A norma foi proposta pelo deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP) e, depois de alguns meses parada, voltou a circular com mais intensidade pelas comissões da Câmara dos Deputados no segundo semestre desse ano. A última movimentação foi no dia 14 de setembro, cerca de um mês antes do anúncio feito pela Prefeitura do acordo com a Sinergia.
A lei, que estabelece diversas diretrizes em relação ao combate à fome e ao desperdício de alimentos, possui alguns dispositivos que claramente tendem a beneficiar o setor privado e seguem quase que exatamente o mesmo modus operandi que João Doria adotou com a Sinergia. No PL, diversas formas de isenção fiscal e incentivos ao setor privado estão regulamentadas, tais como o inciso terceiro do Art. 9º:
“III – isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados na fabricação pela indústria nacional de máquinas e equipamentos cujo uso esteja comprovadamente associado ao combate à insegurança alimentar;”
A relação mais explícita entre a Plataforma Sinergia e o Projeto de Lei de 2013, porém, está na justificativa escrita por Jardim, ao fim do documento:
“Ao mesmo tempo, também em Roma, na sede da FAO, reunir-se-ão representantes do projeto “Save Food”, que discute 170 soluções selecionadas em nível global voltadas para a otimização do uso de alimentos e salvar vidas. Dentre as soluções selecionadas, encontra-se a proposta pelo ‘Projeto Fome’ da Plataforma Sinergia, que desenvolve processos para evitar a destinação inadequada de alimentos.”

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O que os pobres comem, por Urariano Mota a Urariano Mota.


O que os pobres comem
por Urariano Mota
As notícias desta semana atualizaram uma fala do prefeito de São Paulo, que em vídeo de 2011 gritou:  “Pobre não tem hábito alimentar”.  Essa frase lapidar de João Doria esteve de volta quando ele anunciou a distribuição da farinata – mistura de fascio e lixo de comida -  como ajuda alimentar para os pobres e crianças em creches. No vídeo, o então apresentador Doria repreendeu um candidato que havia apresentado um programa que incluía hábitos alimentares da gente do povo. E gritou, o burguês Doria, cheio de ciência e autoridade:
- Hábitos alimentares?! Você acha que gente humilde, pobre, miserável, lá vai ter hábito alimentar? Se ele se alimentar, ele tem que dizer graças a Deus. O pobre tem fome, não tem hábito alimentar. Por que essa insistência em um tema como esse?
Ontem, soubemos que o prefeito desistiu de incluir na merenda das escolas da rede municipal de São Paulo a ração maravilhosa. Mas ele continua com a farinata para os pobres adultos, que será distribuída pela assistência social da prefeitura. Então, anoto brevíssimas observações para essa caridade típica do burguês.
Primeiro, não é demais ensinar ao senhor prefeito que pobres são pessoas, são gente. Se o miserável burgomestre de São Paulo não sabe, vou lhe deixar aqui duas ou três coisas, do alto da minha experiência de pobre, que em dias mais sombrios também  passou fome. Saiba, prefeito, que é uma experiência universal: as pessoas, por mais carentes, adaptam ou adotam um caminho de vida humana em meio à penúria. Assim, em todo o Nordeste brasileiro, do sertão ao litoral, as pessoas de todas as classes gostam de comer cuscuz, arroz e feijão. Isso é um hábito, pré-feito, isso é um gosto, uma escolha, um instinto de nacionalidade que vai de geração a geração. Entre os pobres, até mesmo entre os mais miseráveis, existe o hábito de comer carne, ou algo que pareça ou lembre carne, quando nada vezes nada se possui para comer.
Saiba, perdido feito, que eu já vi família de quem era vizinho comer pés e cabeças de galinha, cozidos em um caldeirão.  Quero dizer, comer aquilo não era bem uma opção, mas uma resistência do hábito de se comer carne no almoço. Isto agora é cultura, burromestre, aprenda:  uma mãe pode fritar um só ovo para quatro filhos, ou pegar meio quilo de carne de terceira, cheia de pelancas e osso, e servi-la para numerosa família. De pedacinho em pedacinho, de taquinho em taquinho de carne. Ou até mesmo – no extremo – sem ter nada vezes nada, uma senhora mãe pode pegar ervas no mato e fervê-las para servir em farofa. Nesse limite, ervas com farinha – não farinata, mas farinha de mandioca – essas pessoas lembram o hábito alimentar de comer carne,  feijão, arroz. Que passa então a ser sonhado para melhor oportunidade.
Um exemplo, que talvez o magnífico burromestre entenda: um homem pode viver sozinho, sem mulher, mas isso não quer dizer que ele tenha se acostumado a não ter o calor do sexo. Ou que ele tenha se transformado em uma nova categoria de marciano. Então, tente compreender num máximo esforço, pré-histórico Doria: pobres também são pessoas que têm hábitos seculares, que estão inscritos no seu DNA antes que tenham consciência. Quero dizer: o hábito é um modo de ser, quando não, uma marca inescapável de identidade. Os pobres vivem e se adaptam como podem, mas têm sua identidade, seus hábitos alimentares, e o miserável burromestre não sabe.  
E atenção, amigos, olhem só até onde poderemos cair. A proposta da farinata – fascistada -  levada adiante por Doria já foi aprovada este ano na Câmara dos Deputados e agora tramita no Senado. Ou seja: a ração para os pobres ameaça se tornar uma lei nacional de combate à fome. Amigos, saibam que depois da legalização do trabalho escravo, poderemos ter ração de lixo em farinha para os miseráveis do Brasil. O Estado a que chegamos supera os mais inverossímeis pesadelos. 
Daí que não será indevida a grande antecipação de Swift , que piedoso já havia notado a terrível condição dos miseráveis que não têm o que comer:
“É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola”.
 E  num ato de gênio criou em 1729 a farinata de Doria:
“Foi-me garantido por um muito sábio americano, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num ragu... Uma criança dará duas doses numa festa de amigos; e se for a família a jantar sozinha, os quartos da frente, ou de trás, proporcionarão um prato razoável. Se temperada com um pouco de sal ou pimenta e cozida, estará ainda bem conservada no quarto dia, especialmente no Inverno.
Concedo que esta comida venha a ser de certo modo cara e, portanto, estará muito adequada aos senhorios – e dado que estes já devoraram a maior parte dos pais, poderão ter direito de preferência sobre os filhos. A carne dos bebés estará dentro do prazo o ano todo, mas será mais abundante um pouco antes, e depois, de março”.
Ao fim, penso que em lugar do título “O que os pobres comem”, mais próprio seria ter escrito:
O que come os pobres
A resposta é simples: todo carnívoro de classe come os pobres. Gente à semelhança de porco feito Geddel, Blairo Maggi. Gente feito vampiro à semelhança de Michel Temer. Gente feito os parlamentares vendidos na Câmara e no Senado. Todo capital assim representado, todo capitalista come os pobres. Swift já dizia.