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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Avise a esquerda: luta de classes existe, e está em Brumadinho e no CT do Flamengo, por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Cansada de tantas derrotas nos últimos tempos, a esquerda simplesmente comemora como fosse um gol a forma como a Globo detonou a ministra Damares Alves no quadro “Detetive Virtual” no Fantástico do último domingo. Uma detonação bem seletiva: enquanto a emissora demonstra toda sua indignação e furia investigativa nas questões identitárias e de costumes (vide a caça aos abuso sexuais de João de Deus), as tragédias de Brumadinho e do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo são encaixadas na narrativa “tragédia-emoção-homenagens” – com direito a Galvão Bueno narrando os nomes dos jovens atletas mortos... Depois de colocar Lula na prisão perpétua e por os militares no Governo, agora o novo papel da Globo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete – cônscia de que, a partir de agora, acidentes como esses e a tensão social tenderão a crescer sob o modelo econômico de extrativismo selvagem: vender commodities módicas como ferro, manganês e jovens jogadores. Tudo a baixo custo, no limite da irresponsabilidade. Enquanto isso, sem se ater à tática semiótica de dissonância posta em ação pela parceria Governo/Globo, a esquerda reage de forma reflexa a cada bravata “politicamente incorreta” e esquece da luta de classes.
Enquanto a esquerda vibra com o quadro do Fantástico chamado “Detetive Virtual”  que desmentiu as afirmações bizarras da ministra Damares Alves (“Estamos vivendo numa ditadura gay”, “Europa ensina a masturbar bebês”, entre outros delírios), a Globo continua com suas feitiçarias semióticas – depois da missão cumprida colocando Lula na prisão perpétua e entronar um governo militar, agora seu escopo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete.
Afinal, os feiticeiros da emissora sabem: o acerto de contas neoliberal sem limites, prometido contra as garantias e direitos sociais (chamado de “reformas”), daqui em diante somente vai acirrar as tensões sociais, ao retroceder o País a um regime econômico extrativista colonial  - relegando à condição de país sub-industrial, mero exportador de commodities (produtos primários de baixo grau de transformação).
Mas a esquerda parece hipnotizada pela estratégia dissuasiva de criação sistemática de dissonâncias por parte do atual governo: colocar ministros falastrões e delirantes para desviar a atenção com seus ataques a questões culturais, identitárias e de costumes progressistas. Talvez por falta do que comemorar nos últimos tempos, quando vê uma emissora como a Globo apontar seus canhões contra essas figuras, a esquerda vê nesses eventos a oportunidade de revanche, raros momentos de prazer e comemoração como fosse um gol.
                 Porém, a mesma fúria investigativa demonstrada pela emissora, por exemplo, na caça a João de Deus, seus assédios e abusos sexuais da pedofilia a agressões físicas, até aqui não foi demonstrada nas duas últimas tragédias em um país com uma atmosfera cada vez mais pesada, triste e soturna: o genocídio de Brumadinho e a negligência do Flamengo por trás do incêndio do alojamento e centro de treinamento chamado “Ninho do Urubu”, matando dez jovens atletas.


A seletiva fúria investigativa da Globo contra João de Deus

Fúria seletiva

Estrategicamente, o furor investigativo e indignação do jornalismo global é muito bem seletivo: enquanto os ataques aos temas identitários e agendas de costumes progressistas do atual governo de ultradireita merecem indignação e caras de espécie de jornalistas e apresentadores, os acidentes criminosos de Minas Gerais e Rio de Janeiro apenas merecem a velha narrativa da tragédia-emoção-homenagens.
Enquanto a cobertura da catástrofe de Brumadinho vai ampliando espaço para as “boas notícias” e “homenagens” (doações em dinheiro da Vale para as famílias, as aulas que voltam depois da tragédia, tudo no tom lacrimoso de praxe), vemos no Fantástico familiares dos jovens atletas mortos no gramado do Maracanã de mãos dadas em volta das quatro linhas, enquanto no telão aparecem, um a um, as fotos da vítimas e a indefectível voz de Galvão Bueno dizendo o nome dos atletas – afinal, o onipresente locutor já havia narrado o velório do time da Chapecoense...

O “sanduíche” semiótico

                A “pegadinha” semiótica foi a narrativa, por assim dizer, “sanduíche”: para começar, as emotivas imagens do Maracanã narrado por Galvão Bueno. Em seguida uma reportagem comprometedora sobre a negligência do Flamengo (um grande container, com apenas uma porta, sem rota de fuga, janelas gradeadas e parede recheada com isolante térmico/acústico do mesmo material tóxico da trágica Boate Kiss). E para finalizar, mais matérias de cunho passional: homenagens, aplausos e relatos emocionados dos familiares sobre sonhos interrompidos. Espremida entre matérias de cunho passional, a matéria sobre a apuração das responsabilidades perde a força.


A narrativa tragédia-emoção-homenagem

Somente ontem o JN carregou nas denúncias de irregularidades (certamente pressionado por emissoras concorrentes como a ESPN, que apresentou em destaque os laudos recentes da prefeitura do RJ mostrando as gambiarras elétricas, deterioração e mofo nas instalações), mas sempre no “sanduíche” do “voice roll” lacrimejante – discurso vocal com ritmo para criar audição imersiva de sensações – clique aqui sobre o kit semiótico de manipulação das multidões.  
É evidente que a Globo participa deliberadamente nessa treinada tabelinha com os delirantes e falastrões ministros e generais do governo atual – enquanto o jornalismo é “contra” a regressão das pautas identitárias e de costumes, por outro lado fecha incondicionalmente com a agenda neoliberal que vai rifar todas as conquistas políticas, constitucionais e econômicas de décadas.

É a luta de classes, estúpido!

Por que? É a luta de classes, estúpido! Daqui em diante as tensões sociais serão crescentes. E Brumadinho, combinado com o incêndio no Ninho do Urubu, é apenas a ante-sala daquilo que nos aguarda.
Foram dois acontecimentos com a mesma matriz causal: a radical conversão do Brasil em uma economia extrativista, transformando as riquezas nacionais em commodities módicas, mas com alto custo social.
                Se não, vejamos. Em Minas, enquanto os trabalhadores da Vale morrem sob o tsunami de lama descendo a 80 km/h da barragem de rejeitos tóxicos, os únicos personagens responsabilizados e presos (com toda a pompa da meganhagem policial nas telas da TV) foram dois engenheiros de empresa terceirizada que concedeu laudo de segurança e três funcionários da Vale. Enquanto CEO e executivos da empresa seguem sem serem molestados, recebendo seus polpudos salários e bonificações, sob o beneplácito da grande mídia.
Classe trabalhadora morre, engenheiro classe média é punido e elite...

Deu para perceber a distribuição das consequências e responsabilidades? A divisão entre classe trabalhadora, classe média e elite?
E ao mesmo tempo em que o Flamengo paga salários da ordem de um milhão de reais para jogadores do elenco profissional, jovens são alojados num enorme container que mais parecia uma ratoeira mortal.

Exploração e extrativismo

As duas tragédias são amostras da calamidade social de um regime econômico de exploração e extrativismo – commodities baratas (minérios e garotos pobres cheios de sonhos) que serão vendidos como matéria-prima de baixo custo para serem beneficiados no mercado externo: ferro que ajudará a construir a infraestrutura chinesa e meninos-atletas que ganharão alto valor agregado no mercado europeu para dar lucros aos grandes clubes do continente. Enquanto o País vende esses insumos a preço de banana.
                Baixo custo: manganês e ferro extraídos sem os custos de proteção ambiental e trabalhista; e meninos pobres que surgem aos borbotões atrás de sonho de virar um Neymar ou um Messi – de resto, ídolos transformados em iscas para a atual geração, alimentando a máquina de vender matéria-prima barata, com baixo custo, para o mercado de futebol europeu.



Enquanto isso, o voice roll lacrimejante e passional da grande mídia narra imagens de jogadores com camisetas estampadas com uma rashtag corporativista, análoga ao notório corporativismo das associações de Medicina: #ForçaFlamengo – os clubes ajudam a estender o manto do sentimentalismo para proteger os seus pares e a integridade do negócio: continuar a explorar garotos, com empresários já a reboque.
O “descuido” de gestão do Flamengo (a sanha de querer reduzir drasticamente custos) foi apenas um pequeno ponto fora da curva dentro do espírito extrativista generalizado – a pobreza produz um insumo inesgotável, até mais do que ferro e manganês. A desigualdade social crescente, aliada ao script midiático padrão da “tragédia-emoção-homenagens”, mantem a máquina azeitada.
Os 300 mortos e desaparecidos e Brumadinho e os 10 garotos mortos no incêndio serão imediatamente repostos pelo desespero da pobreza e do desemprego.
Enquanto isso, a esquerda se comporta tal como na batida metáfora do cão que caiu do caminhão de mudança e perdeu o caminho: hipnotizada pelas bravatas identitárias das estratégias de dissonância da alt-right e comemorando a detonação da Globo em Damares Alves (afinal, depois de tantas derrotas, precisa minimamente comemorar alguma coisa), esquece da luta de classes.
Ou será que apenas está seguindo os passos da velha estratégia do “quanto pior, melhor”?
Se Bolsonaro ainda não desceu do palanque eleitoral para governar, também a esquerda ainda não foi à luta: continua hipnotizada pelas deliberadas provocações do “coiso”, sempre reagindo de forma reflexa, ajudando o trabalho da grande mídia de tirar da cara do distinto público o endurecimento da luta de classes.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O alto preço de negar a luta de classes, Yanis Varoufaskis.

 

A atmosfera política da anglosfera está tomada pela indignação burguesa. Nos Estados Unidos, o chamado establishment liberal está convencido de ter sido roubado por uma insurgência de "deploráveis" armados por hackers de Vladimir Putin e pelo funcionamento interno sinistro do Facebook. Na Grã-Bretanha, igualmente, uma burguesia furiosa precisa se beliscar para acreditar que o apoio para trocar a União Europeia por um isolamento inglório continua inabalável apesar de um processo que poderia ser descrito como um Brexit de cão.

O intervalo da análise é surpreendente. A ascensão do paroquialismo militante dos dois lados do Atlântico está sendo investigada sob todos os ângulos imagináveis: psicanalítico, cultural, antropológico, estético e, claro, em termos de política identitária. O único ângulo ignorado é justamente aquele que contém a chave para entender o que acontece: a luta de classes travada contra os pobres incessantemente desde o fim da década de 1970.

Em 2016, o ano do Brexit e de Trump, tomemos dois dados devidamente negligenciados pelos mais perspicazes analistas do establishment. Nos EUA, de acordo com os dados do Fed, o Banco Central americano, mais de metade das famílias americanas não têm as condições mínimas para obter um empréstimo para comprar o carro mais barato no mercado (o sedan Nissan Versa, a 12.825 dólares). Enquanto isso, no Reino Unido, mais de 40% das famílias dependem de crédito ou de bancos de alimentos para se alimentar e cobrir as necessidades básicas.

William de Ockham, filósofo britânico do século XIV, argumentava que, quando confusos diante de explicações conflitantes, devemos optar por aquela com menos suposições e de maior simplicidade. Pois todos os habilidosos comentaristas do establishment nos EUA e na Grã-Bretanha parecem ter negligenciado esse princípio.

Relutando em perceber a intensificação da luta de classes, martelam suas intermináveis teorias de conspiração sobre a influência russa, enquanto disparam rajadas espontâneas de misoginia, queixas contra a maré de migrantes, o domínio das máquinas e assim por diante. Embora todos esses medos estejam estreitamente correlacionados com o paroquialismo militante que alimenta os fenômenos Trump e Brexit, eles apenas tangenciam sua causa mais profunda – a luta de classe contra os pobres – evidenciada pelos dados sobre a acessibilidade ao carro, nos EUA, e a dependência de crédito de grande parte da população britânica.

É verdade que alguns eleitores da classe média relativamente alta também apoiaram Trump e o Brexit. Mas muito desse apoio é decorrente do medo causado pela observação das classes logo abaixo, mergulhadas em desespero e raiva, ao mesmo tempo em que viam encolher as perspectivas de seus próprios filhos.

Há vinte anos, os mesmos comentaristas liberais cultivavam o sonho impossível de que a globalização do capitalismo financiado ofereceria prosperidade para quase todos. Num momento em que o capital estava cada vez mais concentrado, em escala global, e mais militante contra quem não possuíam ativos, eles declaravam a guerra de classes. À medida que a classe trabalhadora crescia em tamanho no mundo todo, apesar de seus empregos e perspectivas de emprego encolherem na anglosfera, essas elites se comportavam como se o conceito de classe fosse ultrapassado.

O colapso financeiro de 2008 e a recessão subsequente enterraram esse sonho. Ainda assim, os liberais ignoraram o fato inegável de que as perdas gigantescas sofridas pelo quase criminoso setor financeiro foram cinicamente transferidas para os ombros da mesma classe trabalhadora à qual não davam mais nenhuma importância.

Apesar de se verem como progressistas, a prontidão das elites em ignorar a ampliação das divisões de classe e substituí-las por políticas de identidade cegas para a questão (de classe) foi o maior presente para o populismo tóxico. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista (sob Tony Blair, Gordon Brown e Edward Miliband) foi tímido demais para sequer mencionar a intensificação da luta de classes pós-2008 contra a maioria, levando ao crescimento, em todo o coração trabalhista, do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), com seu paroquialismo Brexit.

A sociedade educada parecia não se importar com o fato de que se tornara mais fácil entrar em Harvard ou Cambridge sendo negro do que sendo pobre. Eles ignoraram deliberadamente que as políticas identitárias podem ser tão desagregadoras quanto o apartheid se utilizadas como ferramenta para invisibilizar o conflito de classes.

Trump não demonstrou escrúpulo algum para falar de classes claramente e incluir – ainda que enganosamente – quem não tinha como comprar um carro financiado, muito menos mandar seus filhos para Harvard. Os partidários do Brexit, igualmente, abraçaram os britânicos do andar de baixo, como tentavam mostrar imagens do líder do UKIP Nigel Farage bebendo em pubs com "sujeitos comuns". E quando grandes faixas da classe trabalhadora deram as costas para os filhos e filhas favoritas do establishment (os Clintons, os Bushes , os Blairs e os Camerons), preferindo endossar o paroquialismo militante, analistas e comentaristas culparam as ilusões da ralé sobre o capitalismo.

Mas não foram as ilusões sobre o capitalismo que levaram ao descontentamento que alimentou a vitória de Trump e do Brexit. Pelo contrário, é a desilusão com a política moderada como a que intensificou a guerra contra as classes populares.

Previsivelmente, a inclusão da classe trabalhadora por Trump e pelos partidários do Brexit os armaria de um poder eleitoral que, mais cedo ou mais tarde, se voltaria contra os interesses da classe trabalhadora e, claro, das minorias – o comportamento habitual do populismo no poder, desde a década de 1930 até hoje. Assim, Trump usou o apoio da classe trabalhadora para conduzir reformas fiscais escandalosas, cuja ambição evidente é ajudar a plutocracia, enquanto milhões de americanos enfrentam cortes na cobertura de saúde e, à medida que o déficit orçamentário federal incha, maiores impostos de longo prazo.

Da mesma forma, o governo conservador da Grã-Bretanha, que abraçou os objetivos populistas de Brexit, anunciou recentemente mais uma redução de bilhões de libras em programas sociais, educação e reduções fiscais para os trabalhadores pobres. Esses cortes equivalem exatamente às reduções nos impostos corporativos e sobre herança.

Os comentaristas do establishment, que tanto desdenham da pertinência das classes sociais, acabaram contribuindo para criar um ambiente político em que a política de classe é mais pertinente e tóxica – e menos discutida – do que nunca. Falando em nome de uma classe dominante composta por consultores financeiros, banqueiros, representantes corporativos, proprietários de mídia e executivos da indústria, eles agem como se seu objetivo fosse justamente entregar as classes trabalhadoras nas mãos sujas dos populistas e sua promessa vazia de fazer a América e a Grã-Bretanha "voltarem a ser grandes".

A única perspectiva de civilizar a sociedade e desintoxicar a política está em um movimento político que aproveite, em nome de um novo humanismo, a incômoda injustiça evidenciada pela luta de classes. A julgar pela forma impiedosa como trata o senador dos EUA, Bernie Sanders, e o líder trabalhista inglês Jeremy Corbyn, o establishment liberal parece temer esse movimento mais do que teme Trump e o Brexit.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Luta de classes na era do Uber, por Marco Antonio Gonsales de Oliveira

diego
Distintos entre si, fordismo e toyotismo tinham algo em comum: a oferta, aos trabalhadores, de compensações parciais. O novo arranjo “produtivo” é retrocesso puro
Por Marco Antonio Gonsales de Oliveira, Rodrigo Bombonati de Souza Moraes  e Rogério de Souza |  Imagem: Diego RiveraDetroit Industry Murals (1933)
No início do século XX, a Ford inovou as relações de trabalho ao implementar salários melhores e controle ideológico: um modo de produção que combinava a gerência racional e científica aliada a um sistema de remuneração mais agressivo, oferecendo salários acima da média e um conjunto de benefícios até então desconhecidos do mundo industrial.
Uma das expectativas do fundador era que os próprios trabalhadores pudessem comprar os veículos que produziam. Além disso, esses trabalhadores precisavam seguir o perfil desejado pela empresa, o modelo subjetivo proposto por ela. Para tanto, os funcionários da Ford Motor Company deveriam comprovar que seguiam um estilo de vida condizente com a empresa e aprovado por um departamento especializado que examinaria a vida privada dos trabalhadores, impondo valores como fidelidade conjugal, estabilidade familiar e emocional, repulsa ao álcool e à vida boêmia, apego à religião e ao patriotismo.
Décadas depois, sem desprezar as escolas que lhe antecederam, a Toyota do pós-guerra inovou e recuperou a capacidade flexível da produção artesanal, regulada pela demanda (just in time), sem perder a capacicade da produção em massa, além de promover um novo projeto de engajamento. O paradigma da administração toyotista ou flexível valeu-se do sentimento de pertencimento a um grupo que parecia ser, no Japão dos anos 1970, ainda mais forte do que a acepção de individualidade. Para perpetuar tal harmonia nas relações entre empresa e trabalhador, principalmente nos países ocidentais, essa prática sabiamente recorreu à escola das Relações Humanas e disseminou as ideias da gestão participativa, da cooperação, do consenso, da integração e da participação, além da retórica da valorização dos grupos informais. Quem fiscaliza o produto e corrobora o seu aperfeiçoamento é o próprio trabalhador, transformado em colaborador que faz parte de uma equipe e é responsável e responsabilizado diretamente pelos resultados da empresa.
Nesse contexto, foram de suma importância para o desenvolvimento dos conceitos do toyotismo as escolas da Administração Estratégica, hegemônica no final dos anos 1970, e o seu conceito de core business, e também a Administração Empreendedora, dominante no final da década de 1980, que estimulou e profissionalizou uma vasta rede de micro e pequenos negócios, preparando-os para servirem às grandes corporações.
Não há nenhuma novidade na busca capitalista pelo resultado — a busca racional pelo lucro, segundo Weber (2004). O fordismo, sob as condições de racionalização propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico no início do século XX, principalmente nos EUA, tornou-se o pioneiro na articulação entre coerção capitalista e consentimento da classe trabalhadora. De certo modo, o modelo flexível deu continuidade ao processo de racionalização capitalista com os novos avanços tecnológicos do início da década de 1970, principalmente por meio da tecnologia da informação e da comunicação, que possibilitaram a reestruturação organizacional. Os entusiastas desses modelos flexíveis de gestão, como John Naisbitt (1982) e Alvin Toffler (1980), acreditavam que a superação do fordismo pelos conceitos do toyotismo nos levaria a uma sociedade mais democrática para além dos muros e das paredes das grandes fábricas.
Hoje, no entanto, a realidade daqueles que vivem do trabalho evidencia que tais previsões estavam equivocadas e que o que temos é uma sociedade mais desigual do que no período fordista, seja nos países centrais ou periféricos, com raras exceções. Em outras palavras, o toyotismo, como uma das frentes fundamentais do avanço do neoliberalismo, especializou-se em reestruturar e exteriorizar sem perder o foco no objetivo principal da empresa, a partir da cooptação dos trabalhadores e do gerenciamento de uma vasta rede de terceirizados. Logrou-se atribuir ritmos intensos em condições precárias de trabalho sem a total consciência do trabalhador e de grande parte da rede de terceiros.
A gestão uberizada — depois da gestão fordista e toyotista, é a vez de a empresa Uber emprestar o seu nome para denominarmos o novo paradigma da gestão contemporânea: a empresa uberizada. Nesse novo processo de reestruturação organizacional, as empresas inovam a partir de conceitos da economia de plataforma, também conhecida como economia compartilhada e economia do bico.
Na realidade, um processo de radicalização do projeto toyotista de ajuste à demanda, exteriorização do trabalho e subjetivação. Se o modelo japonês logrou em transformar o trabalhador em colaborador, agora, por meio dos conceitos da economia do compartilhamento, eis que surge o consumidor, colaborador e chefe: uma nova morfologia do trabalho que borra as fronteiras entre consumo e trabalho, entre o que é trabalho e o que não é, entre trabalhador e consumidor, entre o trabalho e o bico (Abílio, 2017), entre trabalhador-empreendedor.
Um modelo que se espalha por todo o mundo são as milhares de iniciativas como a TaskRabbit, a Zazcar, a Parkingaki, a Holidog e a famosa Airbnb. Essa última, uma empresa que presta serviço para pernoite e que nunca construiu um hotel nem mesmo contratou um profissional de turismo, já é a maior rede de prestação desse tipo de serviço no mundo. Fundada em 2009, a empresa oferece 1,2 milhão de vagas por noite, 500 mil vagas a mais do que a maior rede de hotéis do mundo, a InterContinental (Slee, 2017). Já a norte-americana Taskrabbit, conhecida por oferecer serviços rápidos domésticos e para escritórios, como montagem de móveis, limpeza, pequenas reformas entre outros, não para de aumentar o seu número de clientes. No Brasil, a Zazcar tem feito sucesso: mesmo sem nunca ter comprado um automóvel, oferece carros de aluguel de pessoas que não estão sendo utilizados – veículos on demand, segundo a própria empresa. A Parkingaki faz o mesmo, não possui estacionamento e também não contrata nenhum manobrista, mas oferece, “em um click”, vagas em garagens para locação mensal ou de apenas algumas horas. Outra conhecida empresa brasileira presente na economia do compartilhamento é a Holidog. A organização é uma espécie de Airbnb para cachorros, onde você pode encontrar pessoas dispostas a receber e hospedar o seu “amigão” enquanto você viaja.
São empresas que se beneficiam de forma criativa dos avanços tecnológicos, promovidos e guiados pelo capital, “destroem” mercados tradicionais através de estratégias que consideram apenas a ética dos negócios, sem levar em conta as relações, inclusive legais, que estabelecem com as comunidades onde estão inseridas, sejam com os seus concorrentes, consumidores, fornecedores ou trabalhadores.
No âmbito do consumo, os chamarizes das empresas da economia do compartilhamento, como apontou a pesquisa, já não tão recente, da PWC, realizada em 2015 nos EUA, são: o preço, a eficiência e sua “pegada” ecológica. Segundo a PWC, 44% dos americanos já estavam familiarizados com o termo da economia do compartilhamento. Destes, 86% confirmaram o menor custo dos serviços e produtos oferecidos pelas empresas uberizadas. Já 83% respaldaram os benefícios e a eficiência dos serviços prestados, e 76% concordaram que a economia compartilhada é uma opção “mais ecológica” ante o mercado tradicional. Afinal, para que uma furadeira se o que precisamos são apenas furos? Para que um carro se o que precisamos é apenas nos deslocar?
Por outro lado, as empresas uberizadas logram a conquista de corações e mentes amargurados da classe trabalhadora, os partners – desempregados ou empregados precarizados em busca de um complemento para a sua renda ou de um ambiente menos despótico. As empresas da economia do compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do trabalho, em crise, oferece: consumidores em busca de baixo preço e trabalhadores em situação de desespero.
Economia compartilhada - a economia compartilhada não é apenas um modelo organizacional, é um conceito e uma ferramenta que pode ser apropriado por qualquer empresa em qualquer setor – indústria ou serviço, tradicionais ou digitais. É uma plataforma digital que ultrapassa a esfera da comunicação (sites, blogs, e-mail, mensagens de texto e redes sociais) e da venda (e-commerce) e se insere na contribuição e na cooperação da fabricação do produto ou da prestação do serviço.
Mesmo empresas tradicionais da era digital como a Microsoft oferecem aos seus consumidores ajuda de outros clientes experts que trabalham gratuitamente para a empresa. Rádios, jornais e TVs solicitam informações e notícias dos seus próprios ouvintes, leitores e telespectadores, como, por exemplo, a revista norte-americana Time. A revista cede espaços em seu site para que os clientes colaboradores gratuitamente contribuam com conteúdo. Em 2007, a gigante farmacêutica Novartis utilizou o conceito de open innovation, promovido por Henry Chesbrough, da Universidade de Berkeley, para avançar em suas pesquisas sobre a diabetes tipo 2. O laboratório disponibilizou grande parte da sua pesquisa de três anos para domínio público e solicitou em contrapartida e gratuitamente o trabalho de cientistas e empresas do mundo todo (Tapscott, Willians, 2010).
Para que contratar profissionais se temos milhares de pessoas disponíveis para trabalhar gratuitamente ou quase? Essa é uma prática conhecida e já amplamente explorada há décadas pelos bancos e pelas fábricas de móveis, em que tais empresas transferem parte do trabalho para o cliente, seja por meio do sistema internet banking ou do ‘monte você mesmo’ o seu mobiliário, criado pela empresa de móveis sueca Ikea. As tradicionais e conhecidas NaturaAvon, entre tantas outras empresas, nunca contrataram um profissional de vendas, utilizam-se das suas próprias clientes como “consultoras” (na prática, simplesmente vendedoras) (Abílio, 2017).
Outra antiga do mundo digital, a Amazon, cada vez mais se insere na economia do compartilhamento por meio de empresas como a Flex, um serviço de entregas que usa pessoas comuns, e não funcionários treinados, para entregar caixas e pacotes nos EUA. Ela também lançou o Home Services, que localiza encanadores, pintores, montadores de móveis, entre outros serviços. Outro serviço na linha da economia do compartilhamento é a loja online Handmade at Amazon, em que produtos artesanais e caseiros são ofertados e distribuídos (Scholz, 2017). A indústria não fica atrás no processo de reestruturação, exteriorização e comprometimento dos consumidores. A impressora 3D promete transformar o setor industrial. Assim, além de montarmos os móveis em casa, a impressora 3D permitirá a finalização de inúmeros produtos em nossas próprias residências. Steve Vincent (2011) denominou esse tipo de trabalho de voluntary emotional labour (trabalho voluntário emocional).
Cooperativismo de plataforma – a terceirização e a produção em rede foram para o toyotismo o que novo consumidor, agora, como parceiro empreendedor, está sendo para as empresas uberizadas: a possibilidade de se reduzir ainda mais o custo da mão de obra. As constantes reestruturações organizacionais transformam a morfologia do trabalho, e dos seus resultados derivam as principais implicações para a degradação das condições de vida, dada a precarização crescente das condições de trabalho. São reestruturações que se inserem na própria dinâmica do capitalismo do século XXI. Portanto, as novas formas de organizar e de remunerar a força de trabalho fazem com que a regularidade do assalariamento formal e a garantia dos direitos sociais e trabalhistas sejam reduzidas drasticamente (Abílio, 2017; Fleming, 2017; Pochmann, 2017) e nos obriguem a indagar: que tempos são esses em que ser explorado e ter um trabalho formal tornou-se um privilégio?
Rafael Zanata (2017), Trebor Scholz (2017), Tom Slee (2017), entre outros, entendem que as plataformas de compartilhamento não são novidades, são apenas grandes classificados digitais, em que pessoas que precisam de um bem ou serviço encontram os que possam oferecê-los por intermédio de grandes empresas. Portanto, o intermediário que possibilita esse encontro de troca deveria ser o menos importante nesse elo. Para contrapor essa lógica, os autores propõem que os/as próprios/as trabalhadores e trabalhadoras desenvolvam as suas plataformas, com a ajuda de prefeituras, sindicatos e iniciativas autônomas. Já são centenas de trabalhadores e trabalhadoras que desenvolvem o que chamam de cooperativismo de plataforma, valendo-se da autogestão e do cooperativismo.
O cooperativismo de plataforma pretende ressignificar os conceitos de inovação, tecnologia e eficiência tendo em vista o benefício de todos, e não de poucos proprietários e acionistas. Tal proposta assemelha-se à Economia Solidária, desenvolvida no Brasil pelo economista Paul Singer. São plataformas como a de serviço de transporte realizado pela Transunion Car Service de Newark, a Bliive, em São Paulo, e a Coopify, de Nova York, na conexão entre pessoas da mesma comunidade com o objetivo de trocar competências e conhecimentos, a Cooperative Cleaning, de Nova York, onde as trabalhadoras da limpeza residencial e comercial criaram a sua própria plataforma, ou mesmo, a La’Zooz, de Tel Aviv, que atua na oferta de caronas dentro da cidade. São diversos exemplos de iniciativas similares pelo mundo como contrapeso aos modelos de negócios da Uber, Airbnb e tantas outras.
Um contrapeso importante, mas não nos iludamos. As cooperativas e as empresas autogestionárias, no sistema capitalista, sofrem inúmeras desvantagens que não caberia levantá- las neste momento. Não é difícil perceber que também na economia compartilhada a alternativa pelo cooperativismo será, assim como no mercado tradicional, importante, mas de pequena expressão. São alternativas à heterogestão que podem também se beneficiar das plataformas de compartilhamento. São importantes à resistência ao capital, mas não são suficientes para que sejam consideradas constitutivas de mudanças na estrutura de reprodução sociometabólicas do capital (Mészáros, 2002).
Destarte, o modelo que se alastra mundo afora é o da Uber, pois dá sequência à lógica da reestruturação contínua do sistema capitalista que permite a momentânea superação das suas crises, propiciando novamente o excedente de capital. No entanto, as relações de trabalho nas organizações fordistas, e mesmo nas toyotistas, valorizam, no limite, o trabalhador e a garantia de uma dose de direitos, com destaque para a previdência social. O uberismo marca o retorno das condições de trabalho semelhantes àquelas praticadas antes das conquistas da classe trabalhadora. Ou seja, estamos diante da recapitulação da economia de bico – um “negócio da China” para os “neopatrões”.
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Referências
Abílio, L. C. (2017) Uberização traz ao debate a relação entre precarização do trabalho e tecnologia. IHU-Online 503.
Mészáros, I. (2002) Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo.
Morozov, E. (2015) Resistir à uberização do mundo. Disponível em: http://diplomatique.org.br/resistir-a-uberizacao-do-mundo/.
Naisbitt, J. (1980) Megatendências. As dez grandes transformações ocorrendo na sociedade moderna. Tradução: José E. Mendonça. Amana.
PWC (2015). The sharing economy. Consume Intelligence Series.
Scholz, T. (2017) Cooperativismo de plataforma. Tradução: Rafael A. F. Zanatta. Editora Elefante, Autonomia Literária & Fundação Rosa Luxemburgo.
Slee, T. (2017) Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. Tradução João Peres. Editora Elefante.
Tapscott, D. Willians, A. D. (2010). Macrowikinomics: new solutions for a connected planet.
Toffler, A. (1980) A terceira onda. A morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização. Tradução: João Távora. Record.
Vincent, S. (2011) The emotional labour process: An essay on the economy of feelings. Human Relations 64(10): 1369–1392.
Weber, M. (2004) A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Boaventura reexamina as formas de luta, por Boaventura de Sousa Santos.

on 27/09/2017Categorias: Alternativas, Capa, Mundo, Pós-Capitalismo
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O que diferencia revolução, luta institucional, rebedia e desobediência civil? Por que, nas últimas décadas, a ciência política esqueceu este debate? Vale a pena retomá-lo?
Por Boaventura de Sousa Santos
Há temas que, apesar de serem uma presença constante na vida da grande maioria das pessoas, ora aparecem ora desaparecem do radar daqueles a quem compete refletir sobre eles seja no plano científico, cultural ou filosófico. Alguns dos temas hoje desaparecidos são, por exemplo, a luta social (mais ainda, a luta de classes), a resistência, a desobediência civil, a rebeldia, a revolução e, subjacente a todas eles, a violência revolucionária. Ao longo dos últimos cento e cinquenta anos estes temas tiveram um papel central na filosofia e na sociologia políticas porque sem eles era virtualmente impossível falar de transformação social e de justiça. Hoje em dia, a violência está onipresente nos noticiários e nas colunas de opinião, mas raramente é referida aos temas anteriores. A violência de que se fala é a violência despolitizada, ou como tal concebida: a violência doméstica, a criminalidade, o crime organizado. Por outro lado, é sempre de violência física que se fala, raramente de violência psicológica, cultural ou simbólica e, nunca, de violência estrutural. Os únicos contextos em que a violência é, por vezes, referida como política é a violência nos países “menos desenvolvidos” ou “Estados falidos” e a violência terrorista, considerada (e bem) como um modo inaceitável de luta política.
Em termos de debate filosófico e político, o nosso tempo é um tempo simultaneamente infantil e senil. Engatinha por entre ideias que o atraem pela novidade e lhe conferem o orgulho de ser protagonista de algo inaugural (autonomia, competição, empoderamento, criatividade, redes sociais). E, por outro lado, deixa-se perturbar por uma ausência, uma falta que não consegue nomear exatamente (solidariedade, coesão social, justiça, cooperação, dignidade, reconhecimento da diferença), uma falta obsoleta mas suficientemente impertinente para o fazer tropeçar na sua própria ruína. Como a luta, a resistência, a rebeldia, a desobediência, a revolução continuam a constituir a experiência quotidiana da grande maioria da população mundial que, aliás, paga um preço muito alto por isso , a disjunção entre o modo como se vive e o que é dito publicamente sobre ele faz com que o nosso tempo seja um tempo dividido entre dois grupos muito assimétricos: os que não podem esquecer e os que não querem recordar. Os primeiros só na aparência são senis e os segundos só na aparência são infantis. São todos contemporâneos uns dos outros, mas reportam-se a contemporaneidades diferentes.
Revisitemos, pois, os conceitos senilizados. A luta é toda a disputa ou conflito sobre um recurso escasso que confere poder a quem o detém. As lutas sociais sempre existiram e sempre tiveram objetivos e protagonistas muito diversificados. No final do século XIX, Marx conferiu um papel especial a um certo tipo de luta: a luta de classes. A sua especificidade residia na sua radicalidade (a parte perdedora perderia tudo), na sua natureza (entre grupos sociais organizados em função da sua posição face à exploração do trabalho assalariado) e nos seus objetivos incompatíveis (capitalismo ou socialismo).
As lutas sociais nunca se reduziram à luta de classes. A meio do século passado, surgiu o termo “novos movimentos sociais” para dar conta de atores políticos organizados em outras lutas, segundo outros critérios de agregação que não a classe e para objetivos muito diversificados. Esta ampliação não só alargava o conceito de luta social como dava mais complexidade à ideia de resistência, um conceito que passou a designar todos os grupos inconformados com o estatuto de vítima. É resistente todo aquele que se recusa a ser vítima.
Esta ampliação recuperava alguns debates do final do século XIX entre anarquistas e marxistas, sobretudo o debate sobre a revolução e a rebeldia. A revolução implicava a substituição de uma ordem política por outra, enquanto a rebeldia significava a rejeição de uma dada (ou qualquer) ordem política. A rebeldia distinguia-se da desobediência civil, porque esta, ao contrário da primeira, questionava uma determinação específica (por exemplo, serviço militar obrigatório) mas não a ordem política no seu conjunto.
O conceito de revolução foi-se alimentando com a revolução russa, a revolução chinesa, a revolução cubana, a revolução argelina, a revolução egípcia, a revolução vietnamita ou a revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974 (ainda que muitos, eu incluído, duvidássemos do seu carácter revolucionário). A queda do Muro de Berlim veio retirar atualidade ao conceito de revolução, ainda que ele ressuscitasse alguns anos depois na América Latina com a revolução bolivariana (Venezuela), a revolução comunitária (Bolívia) e a revolução cidadã (Equador), mesmo que também nestes casos fossem muitas as dúvidas sobre o caráter revolucionário destes processos. Com o levantamento neozapatista de 1994, o Fórum Social Mundial de 2001 e anos seguintes e os movimentos indígenas e afrodescendentes, os conceitos de rebeldia e de dignidade voltaram a dominar. Até hoje.
Subjacente às vicissitudes destes diferentes modos de nomear as lutas sociais contra o status quo estiveram sempre duas questões: a dialética entre institucionalidade e extra-institucionalidade; e a dialética entre luta violenta ou armada e luta pacífica. As duas questões são autônomas, ainda que relacionadas: a luta institucional pode ou não ser violenta e a luta armada, se duradoura, cria a sua própria institucionalidade. Ambas as questões começaram a ser discutidas ao longo do século XIX e explodiram em momentos diferentes no final do século XIX e início do século XX. Por que as refiro aqui? Porque, apesar de nos últimos trinta anos terem sido consideradas obsoletas ou residuais, ganharam ultimamente uma nova vida.
Institucional versus extra-institucional:
Esta questão agudizou-se com as divisões no seio do partido social-democrata alemão nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Lutar dentro das instituições? Ou pressioná-las e mesmo transformá-las a partir de fora por vias consideradas ilegais? A questão teve o seu curso durante cinquenta anos e pareceu ter-se esgotado com o fim da revolta estudantil de Maio de 1968. Obviamente que em diferentes partes do mundo continuou a haver insurreições, guerrilhas, protestos, greves ilegais, lutas de libertação; mas de algum modo foi-se consolidando a ideia de que representavam o passado e não futuro, uma vez que a democracia liberal, agora apadrinhada pelo neoliberalismo global, FMI, Banco Mundial, ONU, acabaria por se impor como o único modo legítimo de dirimir conflitos políticos. Tudo mudou em 2011 com a onda de movimentos de protesto em diferentes países: as diferentes primaveras de revolta, o movimento Occupy Wall Street, os movimentos dos indignados, etc. Por que esta mudança? Suspeito que a crise da democracia liberal tem se aprofundado de tal modo que movimentos e protestos fora das instituições podem passar a ser parte da nova normalidade política.
Luta armada versus luta pacífica:
A questão da violência é o tema que o pensamento político dominante (tão viciado no estudo dos sistemas eleitorais) evitou a todo o custo ao longo do século passado. No entanto, os protagonistas das lutas no terreno debateram-se continuamente com ele. Obviamente, nem toda a violência é revolucionária. Ao longo do século, quem mais recorreu a ela foram os contra-revolucionários, os nazis, os fascistas, os colonialistas, os fundamentalistas de todas as confissões e os próprios estalinistas após a perversão da revolução que empreenderam. Mas no campo revolucionário as divisões foram acesas: entre os marxistas e maoístas indianos e Gandhi; entre Martin Luther King Jr. e Malcom X; entre diferentes movimentos de libertação do colonialismo europeu e Frantz Fanon; entre movimentos independentistas na Europa (País Basco, Irlanda do Norte) e movimentos revolucionários da América Latina.
Também aqui – e pese embora a continuidade da luta armada no delta do Niger e nas zonas rurais da Índia dominadas pelos naxalitas (maoístas) – a ideia da violência revolucionária e da luta armada tem perdido legitimidade, de que é eloquente demonstração as negociações de paz em curso na Colômbia. Mas há dois elementos perturbadores de que quero dar conta. Em muitos países onde a violência política terminou com negociações de paz, a violência voltou (muitas vezes contra líderes políticos e de movimentos sociais) sob a forma de violência despolitizada ou criminalidade comum. El Salvador e Honduras são casos paradigmáticos e a Colômbia pode vir a sê-lo. Por outro lado, a luta armada foi deslegitimada porque falhara muitas vezes nos seus objetivos e porque se acreditou que estes seriam mais eficazmente atingidos por via pacífica e democrática. E se a crise da democracia se aprofundar?
Um dos revolucionários que mais admiro e que pagou com a vida a sua dedicação à revolução socialista, o Padre Camilo Torres, da Colômbia, doutorado em sociologia pela Universidade de Lovaina, respondeu assim em 1965 à pergunta de um jornalista sobre a legitimidade da luta armada: “Os fins não justificam os meios. No entanto, na ação concreta, muitos meios começam a ser impraticáveis. De acordo com a moral tradicional da Igreja, a luta armada é permitida nas seguintes condições: 1) terem-se esgotado os meios pacíficos; 2) existir uma probabilidade bastante alta de ter êxito; 3) que os males resultantes dessa luta não sejam piores que a situação que se quer remediar; 4) que haja um grupo de pessoas com critérios ilustrados e corretos sobre o cumprimento das condições anteriores”.
A um pacifista como eu, que sempre lutou pela radicalização da democracia como via não violenta para construir uma sociedade mais justa, causa arrepios pensar se em muitos países os padrões de convivência pacífica e democrática não estarão a degradar-se a tal ponto que as quatro condições do Padre Camilo Torres possam ter resposta positiva.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Luta de classes, século XXI Por Gustavo Henrique Freire Barbosa.

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Zygmunt Bauman avisou, apoiando-se em Gramsci: a democracia torna-se cada vez mais oca, quando a aristocracia financeira impõe seu poder e resta à sociedade participar de eleições cosméticas
Por Gustavo Henrique Freire Barbosa
A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos”, escreveu Antonio Gramsci durante o longo período em que ficou encarcerado na prisão de Tudi di Bari, na Itália.
Sobre os dizeres do pensador italiano, escritos entre os anos 1920 e 1930, Zygmunt Bauman sugere que a atual situação do planeta corresponde a um novo interregno. O velho, assim, estaria morrendo, de maneira que se encontraria moribunda a antiga ordem baseada no entrelaçamento entre o território, o Estado e a nação enquanto referências de organismos operacionais soberanos. Neste contexto, a prevalência do capital financeiro e a transnacionalização das relações econômicas, características fundamentais da globalização, vêm sucessivamente transferindo os núcleos de decisão política dos Estados nação para entidades internacionais como o FMI e a Comissão Europeia. Tais entidades, no afã de atingir seus predatórios objetivos de acumulação, adotam como modus operandi a sistemática subjugação de soberanias nacionais e a incontida subversão de ordenamentos jurídicos, conseguindo escapar do princípio clássico de que “aquele que governa tem o poder e faz as leis”.
Eis onde se encontra, conforme refletiu Gramsci, o nascituro impossibilitado de sair do ventre: os organismos políticos herdados de tempos anteriores à globalização vêm se mostrando inadequados e insuficientes para lidar com uma realidade na qual as novas formas de organização política e econômica escapam do controle local por meio de leis e da própria Constituição. Veja-se o recrudescimento das medidas de austeridade aplicadas no Brasil, consagradas com a PEC da previdência e com a mais recente aprovação da PEC 55: para atender aos reclamos do rentismo internacional, comprometeu-se a normatividade de uma série de direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, restringindo, assim, o aporte de recursos imprescindíveis para as suas concretizações. Munidos da tecnocracia vulgar, ignoraram as alternativas palpáveis ao arrocho fiscal e optaram por seguir à risca a cartilha da espoliação pós-moderna, na qual recursos são drenados para o mercado financeiro ao completo arrepio dos mecanismos de controle e dos objetivos programáticos encartados no texto constitucional.
Assim, toda a estrutura decisória que fundamenta esta nova ordem global passa a gravitar em torno das corporações internacionais, deixando um “déficit democrático” nos parlamentos, governos e instituições voltadas à participação popular direta, de maneira que as expressões de uma democracia eficaz costumam ser vistas com manifesta desaprovação. Basta atentarmos para a histeria com que foi recebido o Decreto nº 8.243/2014, que visa instituir a Política Nacional de Participação Popular na gestão pública, e as paradigmáticas experiências da Argentina, Equador e Eslovênia: enquanto os credores internacionais encararam com preocupação o fato dos países latino-americanos terem, em momentos diversos, demonstrado condições de saldar suas dívidas, preocupando-se com a possibilidade da liberdade econômica e a independência financeira adquiridas serem usadas para rechaçar a aplicação de medidas de austeridade, a suprema corte eslovena impediu a realização de um referendo constitucional convocado contra as imposições do mercado financeiro. Alegou que colocaria em perigo outros valores constitucionais que deveriam ter prioridade em uma situação de crise econômica. Que valores são estes? Os oriundos da racionalidade das autoridades financeiras internacionais que pressionavam o país europeu para que adotasse o austericídio que vêm destruindo nações como o Chipre, a Grécia e a Espanha.
Falar de um livre mercado nestas circunstâncias é uma piada de péssimo gosto, concluiu Chomsky em uma de suas entrevistas ao jornalista David Barsamian compiladas no livro A Minoria Próspera e a Multidão Inquieta. Sua declaração faz total sentido no momento em que é completamente estranha ao mapeamento cognitivo dos think tanks liberais a compreensão de que a verdadeira liberdade está indiscutivelmente ligada à efetiva soberania nacional, livre de pressões e ameaças. A abertura de canais para interferências externas na autodeterminação dos Estados nacionais, cuja desregulamentação é vista com satisfação pelos ideólogos do neoliberalismo, é tida por estes como uma expressão da “liberdade econômica” ainda que se trate de um descarado atentado ao poder e a liberdade das nações decidirem seus rumos conforme os interesses do que Rousseau definiu como “vontade geral”. Não assusta que o economista Friedrich Hayek, referência intelectual da apologética globalitária, tenha afirmado em uma reveladora visita ao Chile de Pinochet que sua “preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”.
No artigo “O mundo da ordem”, publicado em setembro de 1984 na Folha de S. Paulo, Marilena Chauí afirmava que a perenidade do pensamento conservador autoritário no Brasil apoia-se não apenas no conjunto das instituições e práticas sociopolíticas, mas também na interiorização de certas imagens. Uma destas imagens é a peculiar visão que se tem da luta de classes, que aparece simplesmente como um confronto armado provocado pelo andar de baixo contra o andar de cima da sociedade. Esta perspectiva reducionista da insolubilidade de interesses entre classes sociais não consegue observar que o conflito gira, sobretudo, em torno da conservação das formas de dominação através das instituições, leis e costumes. Os embates por maiores fatias do orçamento geral – hoje destinado quase em sua metade ao pagamento de juros e amortização da dívida – e contra a drenagem de recursos públicos em favor do mercado financeiro, por exemplo, correspondem a claras manifestações das lutas de classes, pois englobam postulações inconciliáveis acerca de quem o Estado deve servir. Ademais, se problemas globais requerem soluções globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está vencendo.”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O ódio de classe a Marisa Letícia, por Juremir Machado da silva.



Em “O jogo das contas de vidro”, romance de Herman Hesse ambientado no século XXIII, livro volumoso que ninguém mais lê, intelectuais envolvem-se numa brincadeira que define os “valores da sociedade”. Entre muitas passagens paradoxais uma serve para os tempos atuais: “Fritz pertencia a essa categoria de pessoas que nunca estão satisfeitas, mas que nunca ultrapassam as raias da moderação, dessas pessoas que se ocupam horas a fio com um buquê de flores ou com a decoração da mesa de jantar com uma satisfação movimentada e intranquila e retoques carinhosos e intermináveis, quando para qualquer outro o trabalho já estaria pronto e perfeito há muito tempo; pessoas que sabem fazer do trabalho mais insignificante a tarefa de um dia, cuidada com seriedade e determinação”.
No Brasil, neste século XXI, pessoas que se julgam incapazes de ultrapassar as raias da moderação, sempre insatisfeitas com os radicalismos alheios, vestem-se de verde e amarelo e vão para a frente de um hospital protestar contra uma doente. É o que está acontecendo com os “de bem” que comemoram a doença de Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, nas redes sociais. O ódio de classe por essa senhora vinda da plebe e que se tornou primeira-dama do país é evidente.
Esses insatisfeitos, ou insatisfeitas, não se preocupam com a decoração da mesa de jantar.
Comem o ódio que plantam e embalam como se fosse justa indignação moral.
Não há retoques carinhosos nem trabalho interminável de acabamento.
Nem contas de vidro.
Só acertos de contas no meio da rua.
O ódio de classe pode vir também de pessoas da mesma classe da pessoa visada.
É o ódio transfigurado em complexo de distinção. Identificação com o algoz.
Cartazes cobram que Marisa Letícia vá se tratar com médicos cubanos.
Quem disse que esses médicos viriam para trabalhar com casos da chamada alta complexidade?
Há ódio também no fato de que Cuba, uma ilha socialista parada no tempo, que não conseguiu dar o salto para a democracia nem para o desenvolvimento econômico, em grande parte por causa do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, tenha políticas de saúde pública mais eficazes do que as de muitos florões do capitalismo.
Ou boa mesmo é a saúde do capitalismo do Haiti?
Ou quando a miséria domina deixa de ser capitalismo?
Qualquer manifestação que explore a doença de alguém é pusilânime.
No caso, mostra o pior do Brasil.
O mal pintado de “bem”.
As raias da moderação ultrapassadas por radicais da moral de conveniência.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O preço de enfatizar gênero e raça sem considerar as classes sociais, por Vicenço Navarro.

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É um erro não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito.


O establishment político e midiático do Partido Democrata dos Estados Unidos continua sem entender o que aconteceu nas eleições na qual a vitória ficou com o candidato republicano Donald Trump. Diante da perplexidade, a única maneira que encontraram para explicar a sua derrota é a demonização do eleitor de Trump, definindo-o como ignorante, pouco educado, pouco sofisticado, cheio de racismo e machismo, preconceitos que seriam o resultado da sua inexistente educação, quando não de sua visão irracional.

As declarações da própria candidata democrata, a senhora Hillary Clinton, contribuem para esta demonização. Durante a campanha, numa reunião com a comunidade de lésbicas de Nova York, ela indicou que “poderia colocar a metade dos partidários de Trump na categoria de ‘gente desprezível’, são racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos e muitas outras coisas”. Segundo sua conclusão, muitos deles são “irrecuperáveis”. Para não ficar atrás, o próprio presidente Obama disse que o comportamento dos eleitores de Trump “havia sido a totalmente irracional, aferrado aos preconceitos ou à religião, ou a uma hostilidade para com os que não são como eles, apontando para o discurso contra os imigrantes ou contra o comércio internacional”.

Essa percepção, generalizada nos grandes meios de informação, tanto os estadunidenses quanto os europeus, não deixa de ser surpreendente, pois um grande número desses supostos “ignorantes”, “poco educados”, “racistas” e “xenófobos” votou pelo candidato (e depois presidente) Obama nas eleições de 2008, quando tal candidato despertou uma grande ilusão, devido ao seu compromisso de realizar uma grande “mudança”, a qual nunca chegou, ao menos na percepção de grandes setores das classes populares. Bairros operários brancos dos Estados de Pensilvânia, Wisconsin, Ohio e Michigan, que haviam dado a vitória ao candidato Obama em 2008, votaram desta vez pelo candidato Trump. Foi precisamente a mudança de tendência eleitora nestes quatro estados que permitiu a vitória do republicano no colégio eleitoral.

A demonização do eleitor de Trump

A única explicação que o establishment do Partido Democrata está dando ao ocorrido no dia das eleições é acusar aos eleitores republicanos de racistas, ou de sexistas, assumindo equivocadamente que não votaram por Hillary Clinton porque era mulher. Na verdade, Clinton havia orientado sua campanha a partir da premissa de que “era a hora das mulheres” chegarem ao poder (como as eleições anteriores foram a hora dos afro-americanos). Entretanto, a grande surpresa do Partido Democrata foi que a grande maioria das mulheres brancas votaram em Trump (maioria inclusive entre as mulheres da classe trabalhadora). Explicar este fato da forma como faz Clinton agora, afirmando ser consequência da falta de instrução (mostrando, como prova, que os setores com maior escolaridade votaram por ela, e que os menos educados optaram por Trump), é achar que a educação é a variável determinante do comportamento eleitoral, quando a variável determinante foi, na verdade, a indignação de classe – predominantemente a classe trabalhadora – diante do establishment democrata, representado por Clinton. A educação é um indicador da classe social do eleitor. Donald Trump foi o único candidato (junto com Bernie Sanders, nas primárias) que apelou ao sentido e à consciência de classe do eleitorado. A eliminação sectária de Bernie Sanders por parte del Partido Democrata canalizou o processo de mobilização da classe trabalhadora ao candidato Donald Trump, um personagem enormemente astuto, que utilizou essa consciência de classe e a rejeição ao establishment político e midiático, assim como o fato de que a candidata Hillary Clinton era evidentemente a representante do mesmo. Os “bem educados” sempre estiveram do lado do presidente Obama e da candidata Clinton, assim como dos presidentes Clinton e dos Bush pai e filho, e contribuíram com a criação da enorme crise que destruiu substancialmente o Estado de bem-estar e qualidade de vida das classes populares pouco educadas. O establishment político e midiático praticamente não deu outra alternativa a essas classes senão votar em Trump, para mostrar sua ira e sua rejeição contra o establishment do Partido Democrata, responsável, junto com o establishment do Partido Republicano, pela Grande Recessão, iniciada em 2008. Os establishments unidos eliminaram juntos a Bernie Sanders, que era a única possibilidade de mudança profunda nas políticas que causaram a Grande Recessão. Aliás, a maioria das pesquisas apontavam uma vitória de Sanders por margem bem maior que a de Clinton, se fosse ele o adversário de Trump em novembro.

O fracasso das políticas identitárias diante do elemento de classe

Nos Estados Unidos, as maiores diferenças entre a direita (o Partido Republicano) e o partido que, com excessiva generosidade, poderia ser chamado de esquerda (o Democrata) se encontram na estratégia de integração dos setores discriminados – como as minorias negras, os latinos, e também as mulheres – dentro das estruturas de poder. O Partido Democrata liderou as campanhas antidiscriminação contra as minorias e as mulheres. Essas campanhas tiveram certo sucesso, incrementando notavelmente o número de mulheres e de pessoas pertencentes às minorias discriminadas nas estruturas de poder, tanto públicas quanto privadas. Contudo, foram as mulheres ou representantes das minorias provenientes da classe média com renda alta, os que se beneficiaram desse sucesso, sem que isso significasse uma melhora na qualidade de vida das minorias e das mulheres pertencentes às classes populares. O principal valor desse avanço é simbólico, mostrando (ou tentando mostrar) que todos os cidadãos, independentemente de sua raça ou gênero, podem alcançar os principais espaços de poder. Esta imagem reciclada do sonho americano não corresponde à realidade, pois ainda é muito difícil chegar ao poder quando se é filho ou filha da classe trabalhadora, e essa situação é inclusive mais acentuada hoje em dia, quando a evidência mostra que os filhos não viverão melhor que seus pais neste futuro desenhado pela elite financeira.

Logo, a variável de classe ainda é enorme importância para entender como a população pensa, vive e vota. A classe trabalhadora (pessoas que obtêm sua renda do trabalho, de um trabalho repetitivo, supervisado e assalariado) continua existindo, e representa a maioria entre os setores que conformam as classes populares. Quando a esquerda se esquece disso, permite que essas classes votem pela ultradireita. Foi o que ocorreu nos Estados Unidos, e também no Reino Unido. É o que pode acontece na França e em outros países da União Europeia.

A experiência das eleições estadunidenses mostra claramente que existem classes sociais entre as minorias e entre as mulheres. A maioria de associações de defesa das minorias, assim como as das mulheres (todas elas apoiaram a candidata Clinton), são lideradas por mulheres de classe média alta, pertencentes às classes profissionais, e se consideram representantes de todas as mulheres, ou de todos os diferentes grupos de minorias. Porém, na hora do voto, a maioria das mulheres e boa parte das minorias escolheram o que percebiam ser seus interesses de classe – rechaçando o establishment político e midiático – e não o que os seus dirigentes definiram como seus interesses identitários, de raça ou de gênero. Seria um erro enfrentar os interesses de raça e gênero com os de classe, e vice-versa, mas é claramente um erro maior ainda não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito. O recente caso dos Estados Unidos é um exemplo disso.

Vale lembrar também que o governo Trump, composto por figurões da classe empresarial, impulsionará políticas que causarão ainda mais danos ao bem-estar das classes populares, e por isso a sua vitória mostra o grau de insatisfação das classes populares, sobretudo da classe trabalhadora branca (que é a maioria da classe trabalhadora no país), para com o que foi definido historicamente como o “partido do povo”, o Partido Democrata. A perda de credibilidade dos instrumentos que historicamente defendiam os interesses das classes populares levou à vitória da ultradireita nos Estados Unidos, e esse fenômeno pode se repetir em muitos países da Europa.

* Professor de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.

Tradução: Victor Farinelli