Marcadores

Mostrando postagens com marcador MUSEU NACIONAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MUSEU NACIONAL. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Tautismo Global, sincronismos e ironias no incêndio do Museu Nacional terça-feira, setembro 04, 2018 Wilson Roberto Vieira Ferreira .



No Manifesto Futurista, Marinetti falava em “destruir museus” para libertar as consciências dos “inúmeros cemitérios”, e nos prepararmos para o futuro. Em visita ao Rio em 1926, Marinetti repetiu tudo isso e viu no Brasil um país futurista porque não teria “nostalgia das suas tradições”... Claro, Marinetti era um iconoclasta. Mas o Brasil é mais realista que o rei. Leva ao pé-da-letra coisas como “austeridade fiscal” (cuja realização máxima foi, até aqui, a “PEC da Morte”) que até o próprio FMI criticou em 2016. O incêndio do Museu Nacional foi um acontecimento irônico e sincrônico, na cidade em que Marinetti via a “realização acidental” do futurismo: resultado do neoliberalismo levado à sério num momento em que o fascismo se aproxima no segundo turno das eleições – um fascismo próximo ao de Marinetti. E, mais uma vez, o motor dessa austeridade levada à sério foi a cobertura tautista (tautologia + autismo midiático) pela Globo da catástrofe científico-cultural. Sinal dos tempos: a cobertura de Carlos Nascimento ao vivo dos choques dos aviões contra as torres gêmeas em 2001 conseguiu ser mais objetiva do que os relatos sobre o incêndio, encaixados nos dois eixos narrativos globais: “esse país é uma merda!” e “corrupção, corrupção e corrupção...”.
O poeta Menotti Del Picchia era um dos artistas brasileiros mais entusiasmados com a visita do pai do movimento do Futurismo no Brasil em 1926. Via o Brasil um país talhado para o Futurismo, por não sofrer “a nostalgia das tradições e que nunca tivera a preocupação de queimar museus”. Ao contrário de Marinetti, cujo manifesto futurista na Itália falava em “destruir museus e fuzilar todos os comendadores”.

Marinetti viu no Rio de Janeiro a própria realização futurista: favelas que eram “acidentalmente futuristas” e a cidade como “um fruto tropical que produz um delicioso suco: a velocidade dos automóveis”. Para retornar ao País em 1936, dessa vez como representante do Governo italiano fascista de Mussolini, vendo na guerra a realização máxima do Futurismo: a destruição de toda tradição – leia BARROS, Orlando de, O Pai do Futurismo no País do Futuro, E-Papers, 2010.

É claro que Marinetti era um iconoclasta: jamais mandaria Roma pelos ares e destruiria museus e bibliotecas. Era a linguagem da propaganda elevada a condição de arte. Por isso, modernistas como Mário de Andrade não o levavam a sério e recusavam qualquer comparação do modernismo brasileiro com o Futurismo.

Mas hoje tudo mudou.  Somos mais realistas que o rei: responsabilidade fiscal, teto de gastos (a chamada “PEC da Morte” - congelamento por 20 anos dos recursos destinados à ciência, educação, saúde e cultura) e todo o conteúdo do saco de maldades das políticas neoliberais aqui são levadas à sério. Enquanto nos países que deram origem ao discurso do “Estado Mínimo”,  desde o crash financeiro de 2008, o neoliberalismo não resistiu ao rescaldo da crise e foi relativizado até pelo FMI com críticas em seus relatórios em 2016: as medidas neoliberais “aumentam a desigualdade e colocam em risco uma expansão duradoura” – clique aqui.

Marinetti (no centro, de bigode) no Rio em 1926

“Acelerar!”


Dessa maneira, a catástrofe científica e cultural no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro mostra como o país que Marinetti tanto elogiou no poema-reportagem “Brasiliane Velocitá” em 1926 realizou também ao pé-da-letra os slogans propagandistas do Futurismo. Definitivamente, o Brasil não sabe brincar...

  Num conjunto de sincronismos, o Brasil pós-golpe torna real os delírios de Marinetti: destruir o passado, o patrimônio, a História e a memória para nos tornarmos mais leves e acelerarmos rápido para o futuro – temos até um ex-prefeito e candidato a governador do Estado de São Paulo obcecado com a ideia de “acelerar”!

Memória, Ciência e História Natural viraram cinzas justamente na cidade brasileira mais amada pelo fascista Marinetti num momento em que um candidato fascista de extrema-direita se aproxima das eleições com reais possibilidades de chegar ao segundo turno – tá certo que Bolsonaro não é um “fascista” nos moldes de Mussolini, mas é tão deletério quanto...

Para o neoliberalismo brasileiro levado ao pé-da-letra, o passado pesa demais na nossa corrida para o futuro: Petrobrás, Getúlio Vargas, trabalhismo, Lula, sindicalismo, estatais, nacionalismo etc.

Para um país que almeja o empreendedorismo, a terceirização, as flexibilizações, as desregulamentações, as privatizações e o livre comércio, a redução a cinzas do Museu Nacional é simbólica – os custos da manutenção do conhecimento e memória pesam demais na futura miniaturização do Estado. E para o mercado, História e patrimônio não dão lucro. É tudo sólido demais para a “Modernidade Líquida” (Zygmunt Bauman) tão almejada pelos luminares do mercado financeiro.


Memória afetiva tautista da Globo


E o tautismo (tautologia + autismo midiático) da emissora hegemônica de corações e mentes brasileiras, a Rede Globo, é o motor dessas coisas que aqui foram levadas a sério.

Como não poderia deixar de ser, a cobertura da emissora do terrível sinistro do Rio de Janeiro foi marcada por uma interpretação tautista de repórteres e apresentadores que, de tão fechados nas bolhas televisivas dos estúdios, passaram a relatar o incêndio a partir de uma narrativa que a Globo faz de si mesma.

O ponta pé inicial dos sintomas começou na Globo News, cobrindo o início da catástrofe no início da noite do domingo: “pega fogo um museu com DEZENAS de anos”... Na verdade com duas centenas de anos. Definitivamente, a História é um problema para a visão de mundo “líquida” da Globo.

A cobertura ao vivo de Carlos Nascimento na Globo durante os choques dos aviões contra as torres gêmeas em Nova York em 2001 foi mais objetiva, comparada com a cobertura do traumático incêndio no Rio.

O que se via ao longo da programação eram memórias afetivas do museu de repórteres e apresentadores falando das suas infâncias vendo as múmias, o fóssil de 11 mil anos de “Luzia” (que fez parte das primeiras populações que entraram no continente americano) e os esqueletos de dinossauros.

Telejornais mostravam repetidamente cenas da novela “Novo Mundo” (2017) para explicar que o museu foi o endereço da família real no século XIX e que lá foi assinada a independência do Brasil por dom Pedro I.

A História virou cinzas... mas temos a História tautista nas telenovelas

Mesmo na tragédia, a Globo precisa marcar a “ferro e fogo” a ficção global no imaginário brasileiro.

Esse, por assim dizer, tautismo virtual chegou ao ápice no dia seguinte quando, no programa “Estúdio i”, o especialista em tecnologia Ronaldo Lemos cantou loas à possível ressurreição do Museu Nacional com réplicas em impressoras 3D das peças perdidas a partir de fotografias e selfies que os telespectadores poderiam enviar... Assim como foi feito com o Arco do Trinfo de Palmira da Síria, destruído pelo Estado Islâmico.

Então o ar de consternação deu lugar a de um leve otimismo... a iniciativa privada salvará o dia... Mais uma vez, Bauman tem razão sobre a liquidez dos paradigmas atuais: não há espaço para lutos e perdas que poderiam criar o impulso para a transformação a partir da dor – tudo pode ser virtualmente ressuscitado e recriado como réplica. Ou simulacro, como definiria o pensador francês Jean Baudrillard.

Eixos narrativos globais


 Mas um incidente catastrófico como esse, com terríveis imagens noturnas das enormes chamas das telas globais na noite de domingo, precisa ser encaixado em uma narrativa tautista. A mesma que há anos a Globo vem repetindo, um discurso genérico que, entre outras vitórias, turbinou o impeachment de 2016. Afinal, é necessário levantar o astral dos brasileiros que precisavam voltar à realidade na segunda-feira.

Uma narrativa composta por dois eixos básicos:

(a) “Esse País é uma merda!” -  Repetidas matérias dos correspondentes internacionais sobre como os museus europeus são tão rigorosos com suas treinadas brigadas anti-incêndio e sofisticados sistemas de detecção de calor. Típica pauta jornalística de contraste para mais uma vez, marcar a ferro e fogo (literalmente!) que o Brasil é um país que cronicamente não dá certo. Por isso, temos que levar ao pé-da-letra os “remédios” recomendados para nós. Somente esquecem de dizer que em países como França e Inglaterra museus não sofrem os danos das austeridades fiscais. Porque lá as medidas dos “Chicago boys” são relativizadas. E o anarco-capitalismo ridicularizado.

(b) “Corrupção, corrupção e corrupção!...”  Quem é o culpado pelo incêndio do Museu Nacional? Pergunta-se Sandra Annenberg na bancada do “Jornal Hoje” no dia seguinte. A resposta é disparada como uma rajada de metralhadora: “burocracia, má gestão, corrupção!...”. Com o início da busca de culpados na UFRJ que supostamente não repassava as verbas do MEC para o Museu.

Busca que acabou se concretizando em uma inacreditável entrevista com o secretário-geral da Associação Contas Abertas: a culpa é do salário líquido do reitor da UFRJ e do dinheiro destinado para lavar os carros dos deputados... disparou Gil Castello Branco na Globo News e prontamente repercutida pelo restante da grande mídia.

Definitivamente, 200 anos de Brasil foram mais fatais para o fóssil “Luzia” do que os 11 mil anos de intempéries.

                 A única coisa que resistiu ao incêndio foi o meteorito Bendegó, achado em 1784 no Nordeste: se um objeto extraterrestre sobreviveu à entrada na atmosfera, não seriam agora as questões terrenas que o destruiriam.

Única coisa que restou: o meteorito Bendegó - um objeto extraterrestre está alheio às questões terrenas

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo, por Eliane Brum.

Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado








Incêndio Museu Nacional
Vista geral do Museu Nacional, no Rio, em chamas. EFE
Então descobri que não tinha mais passado.
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No sem tempo. No fora do tempo.
O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar água do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação?
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom Pedro II em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro II está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra, um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. É o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau Guajajara. É a nossa memória que estão apagando. É o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou Gabriela Carneiro da Cunha. “A realidade é Science Fiction.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã, sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
“O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara: “Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
O Brasil está queimando.
E o meteorito estava dentro do museu

Mais que um incêndio, um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo, por Juan Arias.



Pessoas observam como as chamas destroem o Museu Nacional.
Pessoas observam como as chamas destroem o Museu Nacional. REUTERS

Um país que deixa sua memória histórica arder corre o perigo de queimar com ela seu presente e seu futuro



O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio, e com ele 200 anos da história do Brasil, foi mais do que um incêndio. As chamas são o triste símbolo de um país que abandona a espinha dorsal da ciência, a da cultura e da arte para privilegiar uma política mesquinha de pequenos interesses pessoais dos que deveriam ser os guardiões da maior riqueza de um país, que é a memória da sua cultura.
Não é por caso que, ainda neste ano, nem um só ministro do Governo tenha participado das festividades do bicentenário do Museu Nacional no Rio. Não é por caso que todos os mecanismos de proteção do museu estavam abandonados, e que os professores tivessem que pagar a passagem de ônibus das faxineiras do museu, que já havia sido abandonado à própria sorte.
As imagens dessas labaredas queimando o coração cultural e histórico do Brasil, que estão correndo o mundo, poderiam ser um triste presságio, às vésperas de uma eleição presidencial que se prenuncia incendiária e incerta para este país. Quem estranha os surtos autoritários e direitistas que estamos observando deveria analisar o Museu Nacional em chamas, pela incúria de quem deveria ter cuidado de preservar sua riqueza histórica. Poderia assim entender melhor o voto de raiva de milhões de brasileiros desiludidos com um sistema democrático que agoniza a partir da morte de seus valores culturais.
Um país que deixa sua memória histórica arder corre o perigo de queimar com ela seu presente e seu futuro, comprometidos pelo abandono de seus melhores valores, que agonizam asfixiados por uma classe política incapaz de entender que não existem saltos na formação das novas gerações. Elas se constroem, se aperfeiçoam e se modernizam a partir dessa memória do passado. Sem memória, os jovens que deverão criar o novo Brasil sem romper o cordão umbilical com o que seus antepassados lhe deixaram acabarão como náufragos sem bússola, num mar já muito agitado pela incerteza e pelas nuvens negras antidemocráticas e obscurantistas que o ameaçam.
Sem esperança, então? Não. Brasil é maior que seus melhores museus, e todos os povos aprenderam na escola sobre seus fracassos e derrotas. Que, das cinzas tristes e amargas do Museu Nacional do Rio, um novo Brasil possa ressuscitar como a ave fênix da mitologia. Um Brasil que só será melhor e mais justo se a cultura e a ciência chegarem a todos, em vez de serem apenas patrimônio dos privilegiados.
Que as chamas do Museu Nacional, que hoje entristecem o Brasil e o mundo, sirvam de alarme e de exame de consciência na hora de digitar, dentro de algumas semanas, o voto na urna eletrônica, para não escolher de novo os que têm sido incapazes de preservar a rica memória deste país que hoje parece, como o museu que ardeu, abandonado à própria sorte.