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sexta-feira, 19 de julho de 2019

A arte de ter que relembrar o óbvio, Lucien de Campos


Obviedade não tem partido, não está ligada à esquerda ou direita. Está relacionada ao bom senso, igualdade, direito e garantias fundamentais.

arte relembrar óbvio democracia direito política
Lucien de Campos*, Pragmatismo Político
Infelizmente virou arte.
Está escrito nos muros, em cartazes, camisetas e músicas.
Parece óbvio relembrar que mulheres, trabalhadores, comunidade LGBT,
Indígenas e a população negra devem ter seus direitos respeitados.
Mas em tempos de ódio, a lógica se inverte.
O óbvio é ocultado, esquecido.
Relembrar a obviedade do bem-estar e sua importância numa sociedade democrática
É hoje um ato a ser condenado
Seja em praça pública ou no mundo virtuEm tempos de ódio, relembrar o óbvio também é passível de rótulos
Seu comunista! Petralha!
Ou até mesmo ‘credenciais de acesso a países estrangeiros’
Vai pra Cuba! Vai pra Venezuela!
Em tempos de ódio
A massa de manobra segue em direção contrária.
Nesse ambiente de idiotas tem de tudo:
Tem guru desafiando a ciência sem qualquer profundidade
Ator pornô querendo saber mais que Paulo Freire.
Obviedade não tem partido
Não está ligada à esquerda ou direita.
Está relacionada ao bom senso, igualdade, direito e garantias fundamentais.
Obviedade é a liberdade
Desperdício é o preconceito e opressão.
Em tempos de ódio, a obviedade é oprimida
Consequentemente desperdiçada.
A arte está no pensar, no fazer,
Na poesia, na mensagem, na metáfora.
Não é assim tão óbvia
Mas em tempos de ódio
Defende o óbvio.
Afinal, como disse Bertholt Brecht:
Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?”
*Lucien de Campos é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa e colaborador em Pragmatismo Político.

A fraqueza da ilusão democrática: um ensaio político não sentimental, por Jones Manoel


O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro impõem um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas. Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.


Por Jones Manoel.

O ano de 2016 foi emblemático na história política brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT), organização política surgida no bojo da resistência à ditadura empresarial-militar, originalmente com tendências pronunciadamente socialistas, foi despojado da Presidência da República. O PT tem que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência da luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve que lembrar que o maior mal do mundo não reside na “classe média” paulista.
Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações, não aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a esquerda pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do século XX, aprendeu o “valor da democracia”: as principais tendências da esquerda nos últimos trinta anos respeitaram religiosamente os limites impostos pela democracia burguesa no Brasil e, de tanto respeitarem, como prezam as regras explícitas, mas não ditas do jogo, passaram a ser fiéis gerentes do sistema.
As esperanças brasileiras no processo de redemocratização – que optamos por chamar de otimismo democrático – foram derrotadas. Aliás, mais que isso, esperava-se dos anos 1980 uma oportunidade única para combater o “autoritarismo” e a “exclusão social” históricos da formação socioeconômica brasileira.
Inegavelmente, o otimismo tinha uma razão de ser. Afinal não é em toda conjuntura histórica que, depois de mais de duas décadas de ditadura, emerge um pulsante movimento operário e popular. Tudo podia acontecer. E, no que é essencial, nada aconteceu. O sistema político brasileiro continuou fundamentado numa democracia restringida e com uso dilatado do terrorismo de Estado por meio de uma política sistemática de extermínio frente a segmentos da classe trabalhadora – notadamente, a população negra das favelas brasileiras.
No ano do golpe parlamentar, pudemos constatar que o Estado brasileiro mata, tortura e viola mais os direitos humanos que na época da ditadura empresarial-militar. O extermínio sistemático – enquanto política de Estado – segue firme e encontra até uma forma jurídica e constitucional para sua reprodução: os autos de resistência (Zaccone, 2014). A militarização da vida social não parou de crescer: um soldado do Exército Brasileiro passa, em média, cem dias do ano em atividades “internas” (policiamento) – ver a coletânea Até o último homem, organizada por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira.
Ironicamente, Orlando Zaccone pergunta “o que resta da ditadura?” E responde, ecoando Tales Ab’Saber, tudo, menos a ditadura! A democracia burguesa é bem mais parecida com a ditadura militar burguesa do que suspeitava o otimismo democrático dos anos 80. Porém, curiosamente, a cada nova constatação de que a democracia e o famoso “Estado de Direito” estão longe das ideias dos livros e dos discursos, os setores hegemônicos da esquerda, ao invés de questionarem a própria ideia de democracia abraçada, optam por reforçar suas convicções anteriores insistindo que a democracia é pouco democrática e precisa ser democratizada1. Num ciclo de imunidade auto-atribuída, o problema da democracia se resolve com mais democracia e cada “regressão democrática” deve ser respondida com uma defesa mais enfática da democracia.
O objetivo dessa reflexão é debater a regressão democrática da democracia, abordar o processo de retirada dos direitos democráticos da classe trabalhadora no âmbito da democracia burguesa e o consequente empobrecimento teórico e político dos setores majoritários da esquerda brasileira e mundial na crítica à democracia realmente existente. A chave analítica fundamental que guiará nossa análise é a distinção política e teórica entre direitos democráticos e democracia burguesa, buscando demostrar as diferenças e os desencontros entre ambos e como a confusão entre as duas produziu nas últimas décadas um enfraquecimento significativo na crítica e nas possibilidades revolucionárias.

Somos todos democratas

Na história de organização da classe trabalhadora, desde a gênese do capitalismo, sempre houve concepções diferentes do que é democracia. Até mesmo nas revoluções burguesas europeias, especialmente francesa e inglesa, é possível identificar setores mais radicalizados que apresentavam propostas avançadas do que chamaríamos hoje de soberania popular e igualdade social – como o caso do jacobinismo, na França.
A primeira grande expressão da maturidade organizativa e política da classe operária europeia, a socialdemocracia, continha um projeto de democracia antagônico ao defendido pela classe dominante: o liberalismo, expressão ideológica da burguesia, compreendia uma concepção jurídico-formal e restritiva de democracia (igualdade jurídica e direitos políticos apenas para os homens brancos, proprietários e europeus) e descarta qualquer conteúdo “social” na dimensão do regime político.
A socialdemocracia apresentava uma concepção ampla de democracia, alargando a esfera dos iguais e dos portadores de direitos políticos e exigindo, de forma indispensável, que a democracia tivesse um conteúdo social: o fim da propriedade privada e da anarquia na produção, compreendidos, à época, como os principais elementos do capitalismo, eram determinantes fundamentais da realização da verdadeira democracia.
Durante boa parte do século XX, por matrizes diferentes, houve um confronto entre concepções diferenciadas de democracia. Esse gigantesco embate teórico e político foi esvaziado nos anos 1980. De 1917 até a década de 1970 – entre grandes derrotas, como a Revolução Alemã e a Guerra Civil Espanhola, e grandes vitórias, como as revoluções Russa, Chinesa, Cubana e Coreana – o conflito entre capital e trabalho no âmbito mundial encontrava-se numa situação de relativo equilíbrio. Embora a maioria do mundo fosse capitalista, a distância entre, por um lado, as forças do capital e, por outro, as forças dos povos coloniais e da classe trabalhadora, não era tão discrepante e existiam ameaças reais de superação do capitalismo.
Com a contrarrevolução neoliberal e neocolonial que avançou ao final dos anos 1970, ganhou forças na década seguinte e foi finalmente vitoriosa nos anos 90 – indo além dos sonhos mais otimistas da ordem dominante com a derrubada da União Soviética e das democracias populares do Leste Europeu –, instala-se uma situação social na qual a crítica radical do existente, e, portanto, da democracia, não estava na ordem do dia e foi banida do debate teórico. A despeito da valentia de intelectuais tomados individualmente que se recusaram a capitular e a aceitar “o fim da história”, formou-se um “consenso conservador sobre a democracia2.
A democracia em sua versão liberal parlamentar, tida apenas como uma competição eleitoral regular entre partidos semelhantes, passou a ser o sinônimo da única democracia possível e aceitável. O revezamento sistemático do poder entre partidos da classe dominante, liberais ou conservadores, socialdemocratas ou neoliberais, que executam basicamente o mesmo programa e garantem que “não há alternativa”.
Nesse cenário, os poucos que se atreviam a debater os limites da democracia burguesa – agora não mais adjetivada como tal – eram logo tachados de autoritários ou totalitários. Três noções são fundamentais para a hegemonia do consenso conservador em torno da democracia burguesa. A primeira (talvez a que se mantém mais sólida nos dias atuais) é que a esquerda revolucionária (sobretudo os comunistas) seria antidemocrática, violadora dos direitos humanos e que sacrifica no altar da igualdade social as liberdades individuais. Como consequência disso, as experiências de transição socialista, chamadas em linguagem jornalística de “países” ou “governos” comunistas, se resumiriam a regimes autoritários ou totalitários – e a crítica/denúncia do “stalinismo” evidentemente desempenha um papel central nessa narrativa3.
Se o principal problema das experiências de transição socialista foi a ausência de democracia e o autoritarismo dos Partidos Comunistas, é necessário compreender a importância do valor em si da democracia. Aqui entramos na segunda noção. Os anos 1980 e 90 marcaram processos muito importantes: o fim do apartheid na África do Sul e o término de várias guerras de libertação nacional em África, a saída de cena do ciclo de ditaduras militares do grande capital na América Latina e a legalização/desarmamento de agrupamentos político-militares revolucionários na América Central. Nesses processos, já numa correlação de forças política e militar em âmbito mundial desfavorável e com a hegemonia neoliberal consolidada, vários ex-revolucionários das mais diversas matizes, aceitaram que não se tratava de pôr termo à dependência, ao subdesenvolvimento e às democracias burguesas, mas recuperar ou criar uma democracia liberal burguesa.
O desenrolar histórico é, por si só, expressivo, e podemos abordar rapidamente como exemplo o caso da África do Sul. O regime pós-apartheid, dirigido Nelson Mandela e seu partido (Congresso Nacional Africano), garantiu a vigência de uma igualdade jurídico-formal, mas a segregação étnico-racial nos seus vários determinantes (geográfico, econômico, cultural, social e político) não só se manteve, como foi ampliada. Em suma, na democracia pós-apartheid na África do Sul, mantém-se intacto o Estado racialista4.
O complemento necessário desse violento desarme político e teórico é o banimento da tematização do imperialismo, do colonialismo e da máquina de guerra operante em todos os cantos do planeta, mas em especial na periferia do sistema – a terceira noção desse consenso democrático. A derrota do movimento comunista no século XX foi acompanhada da derrota da revolução anticolonial que marcou a América, a África e a Ásia (revolução que politicamente teve várias expressões, como o movimento terceiro-mundista, o nacionalismo revolucionário e a fusão entre patriotismo e marxismo, como na Revolução Coreana e Chinesa); o imperialismo, nos anos 90, retoma uma ofensiva neocolonial de proporções assustadoras e, justamente nesse momento, some de cena a reflexão sobre o imperialismo, o colonialismo e o complexo industrial-militar5.
Enquanto o neocolonialismo vivia seu melhor momento desde a ascensão do nazifascismo, as modas acadêmicas do momento falam em micropoder, disciplina, poder simbólico, fim do Estado Nacional e dominação burguesa especialmente por meio da ideologia. Poucas vezes na história foi possível achar um momento em que reflexões que se pretendiam críticas ao establishment (em aspectos totais ou parciais) se descolaram tanto da realidade6. Como ciclos que se completam, a negação de qualquer “aspecto positivo” nas experiências de transição socialista se combina com a canonização “crítica” ou acrítica da democracia (burguesa) e se fundem com o banimento de qualquer reflexão a respeito do imperialismo, do militarismo e do colonialismo. Surge o melhor dos mundos: um mundo em que não haveria mais espaço para ditaduras, golpes militares ou o fascismo e todos serão beneficiados pela globalização. O grande problema da ideologia dominante é que a realidade teima em contradizê-la.

A regressão democrática da democracia

Domenico Losurdo, no seu livro Contra-história do liberalismo, demostra que o pensamento liberal, desde o seu surgimento, foi uma ideologia que buscou compreender a liberdade como um direito da comunidade dos livres: homens brancos, proprietários e europeus (dos países centrais da Europa). Os trabalhadores eram considerados não-humanos, como máquinas falantes, os escravos e os povos coloniais apareciam como essência da inumanidade, e as mulheres recebiam a qualificação de seres inferiores.
Nunca houve dúvidas para a burguesia de que era necessário construir um sistema político que tivesse como objetivo primeiro a defesa da propriedade privada e da riqueza fruto da exploração: o mecanismo de câmaras legislativas para os lordes, o voto censitário, a proibição da montagem de partidos operários e sindicatos, a negação de votos para analfabetos e mulheres, a perseguição à imprensa operária, o terrorismo estatal etc. exemplificam esse momento histórico.
Portanto, a burguesia nunca confundiu a democracia política (isto é, liberdade de organização partidária, imprensa, reunião, manifestação, etc.) para a classe trabalhadora (ou seja, a imensa maioria da população), com seu regime constitucional-parlamentar. A primeira é criação da classe trabalhadora nos seus enfrentamentos contra o capital, enquanto o último é criação da burguesia sob o liberalismo. A relação entre regime burguês e democracia política em tempo algum foi harmoniosa. Ao aceitar pela força a participação da classe operária no “jogo” democrático-burguês, a classe dominante nunca deixou de buscar mecanismos de exclusivismo no exercício do poder: a lógica é permitir a participação política da classe trabalhadora negando sua incidência nos centros de controle do poder político.
Não é nosso objetivo nesta coluna detalhar os mecanismos mobilizados pela classe dominante a fim de esvaziar qualquer possibilidade mínima de incidência da classe trabalhadora no poder por meio da participação política institucional. O fato importante é o seguinte: para a ordem do capital sempre foi clara a distinção entre os direitos democráticos e seu regime constitucional.
Contudo, há que se considerar um fenômeno importante já brevemente pontuado: durante a fase de ascensão das lutas proletárias e dos povos coloniais, a tensão entre regime burguês e direitos democráticos chegou a tal ponto que condicionou várias rupturas democráticas, ensejando soluções fascistas, ditaduras militares e/ou invasões militares neocoloniais. Houve, efetivamente, momentos em que a burguesia não suportou a sua democracia burguesia, porém, ao mesmo tempo em que a democracia política sob o Estado burguês era um impedimento temporário para seguir num padrão de acumulação de capital desejável, era um limitador da ação das classes subalternas contra a ordem do capital; exemplo significativo é o Chile da Unidade Popular7.
Durante a contrarrevolução neoliberal e neocolonial, ganhou força um fenômeno novo em sua proporção: a gigantesca regressão dos direitos democráticos da classe trabalhadora sem precisar de rupturas institucionais. Um dos exemplos mais significativos desse processo é a chamada “onda punitiva” e a formatação do Estado penal nos países centrais do capitalismo (ver as obras do sociólogo francês Loïc Wacquant, em especial As duas faces do gueto As prisões da miséria).
Todo esse processo de regressão democrática dos direitos da classe aconteceu com uma inestimável contribuição dos aparelhos de repressão e espionagem do Estado burguês. A narrativa de uma “sociedade ocidental” na qual a repressão cede lugar progressivamente à luta pelo consenso na dominação burguesa, perde de vista que, frente ao aumento da densidade da rede associativa das classes em luta na disputa ideológica, a classe dominante respondeu com a criação de aparelhos de repressão/controle/vigilância herméticos a qualquer controle popular ou público. Esses aparelhos atuam numa permanente “guerra suja” contra os movimentos e organizações das classes subalternas: sequestros, assassinatos, infiltrações, roubos, sabotagens, apoio a golpes de Estado, falsificação de eleições, promoção de determinadas vertentes culturais e guerra econômica estão entre algumas atividades promovidas pela CIA e o FBI – paradigmas maiores desse tipo de aparelho estatal burguês, que se generalizou e profissionalizou nos países centrais do capitalismo no pós Segunda Guerra8.
O avanço da classe dominante em seus objetivos de fazer regredir os direitos democráticos dentro da democracia burguesa é sempre facilitado pela própria posição de classe das personificações do capital. Democracia política não é a mesma coisa que dominação burguesa, mas, sob o Estado burguês, toda democracia política é uma forma de dominação burguesa.
Isso ocorre porque: a) Os centros decisórios estratégicos do Estado estarão sempre subordinados ao interesse geral de acumulação do capital (o que não se confunde com o interesse de um capitalista ou um de grupo deles tomado como exemplo “empírico”); b) são tomados como fato dado, natural de um ponto de visto ideológico, político e jurídico, a propriedade privada dos meios de produção, a apropriação privada da riqueza e a mercantilização da força de trabalho; c) por ter o poder econômico concentrado, a burguesia em suas diversas frações está estruturalmente em vantagem na disputa pelo controle dos diversos aparelhos do Estado e, quando perde aparelhos centrais, como um Governo Federal, dispõe de uma rede de aparelhos de hegemonia privados que conseguem com relativa facilidade paralisar ou destruir a ação incômoda do aparelho estatal que se tornou disfuncional.
Dito de maneira mais simples: sobre a base capitalista, toda democracia é burguesa, embora os direitos democráticos sejam conquistas da classe trabalhadora. Cabe, portanto, a pergunta: qual é o fator determinante que permite em determinadas conjunturas a classe trabalhadora impor conquistas democráticas ou tornar disfuncional a democracia burguesa? Resposta: a ação de classe com radicalidade na defesa não da democracia em si, mas dos direitos democráticos da classe9. Em todos os momentos históricos em que a classe trabalhadora avançou em conquistas democráticas se deu em um horizonte onde se pretendia muito mais que melhorar o Estado burguês. Isto é, foi criticando agudamente os limites da democracia burguesia e buscando radicalmente superá-la que foi possível impor uma relativa democratização do Estado burguês.
No caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores, em sua origem advoga a conquista do poder político. O PT dizia, numa formulação de clara inspiração leninista clássica, que não existe exemplo de transição socialista iniciada sem os trabalhadores tomarem o poder do Estado (ver as obras de Mauro Iasi, em especial, As metamorfose da consciência de classe e Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural).
A não aliança com partidos da ordem, independência financeira e política, o foco na luta de massas e não na disputa institucional e o programa político radical foi o principal vetor de resistência à transição conservadora da ditatura empresarial-militar à democracia burguesa. Por uma série de determinantes históricos que não cabe aprofundar nesse momento, o PT progressivamente suavizou a radicalidade do programa, abrandou a independência de classe financeira e política, centrou-se na luta institucional e passou a defender como sinônimo de “caminho democrático ao socialismo” a atuação nos marcos da democracia (burguesa) brasileira.
A consequência é o esvaziamento da ação de classe dos subalternos como vetor de resistência ao fortalecimento da autocracia burguesa, e a conversão do PT em operador político do sistema, deixando “legados” perfeitos à dominação de classe, como a lei antiterrorismo, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e o apassivamento dos explorados. Nas palavras de Mauro Iasi:
“As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente, mas no sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves vão substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das formulações: ruptura revolucionária por rupturas, depois por democratização radical, depois por democratização e finalmente chegamos aos “alargamento das esferas de consenso”; socialismo por socialismo democrático, depois por democracia sem socialismo; socialização dos meios de produção por um controle social do mercado; classe trabalhadora, por trabalhadores, por povo, por cidadãos; e eis que palavras como revolução, socialismo, capitalismo, classes, vão dando lugar cada vez mais marcante para democracia, liberdade, igualdade, justiça, cidadania, desenvolvimento com distribuição de renda”.
Mauri Luis Iasi, Mauro Luis Iasi, As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento (São Paulo: Expressão Popular, 2006), p. 435.
Em resumo, o consenso conservador em torno da democracia é o norte de uma época histórica de brutal regressão da democracia política, e as respostas hegemonicamente formuladas pela esquerda (a perspectiva de democratizar a democracia) não estão conseguindo fazer frente a esse fenômeno. O desarme teórico está imbricado com a derrota política num processo de retroalimentação.

Conclusão

O adversário de classe não está retrocedendo na democracia. Esta conclusão não impõe posturas esquerdistas e mecanicistas que não conseguem apreender, para as classes dominadas, a diferença entre lutar sob uma democracia burguesia ou sob uma ditadura fascista. A mudança de rota que deve ser operada pelas forças de esquerda empenhadas em derrubar a ordem capitalista tem como prisma primeiro encarar a democracia burguesa como ela realmente é: na democracia realmente existente, a violência, o terrorismo estatal, a negação de direitos básicos (como liberdade de imprensa e organização sindical), os massacres no campo, os autos de resistência e a história de milhares na mesma situação de Rafael Braga não constituem um desvio, uma perversão, do ideal do Estado democrático de Direito – são o seu funcionamento concreto, são a sua essência de classe em movimento.
O confronto da democracia realmente existente deve andar casado com a defesa intransigente, estratégica, dos direitos democráticos da classe trabalhadora. A democracia política sempre carregou altíssimo potencial de contradição com a ordem burguesa. A novidade, contudo, é que nesse momento de crise estrutural do capital e ofensiva neocolonial, tal contradição é aguçada. O golpe parlamentar de 2016 e a posterior eleição de Jair Bolsonaro, enquanto particularidades da conjuntura brasileira, impõem, igualmente, um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas.
Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com “mais do mesmo”, como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.
A conclusão que se impõe, portanto, é máximo combate à democracia burguesa e máxima defesa dos direitos democráticos da classe trabalhadora. Dentro desta perspectiva temos um norte de atuação para uma retomada crítica da luta política no âmbito da “questão democrática”. Democratizar a democracia é a forma política do reformismo burguês. Tal como as ideologias do crescimento econômico com a distribuição de renda, democratizar o Estado burguês retira do horizonte a luta pelo poder popular, isto é, pela derrubada do Estado burguês e a construção de uma verdadeira democracia fundada na propriedade social com economia planificada e democracia operária. Não há futuro fora da luta pelo poder popular.

Žižek: Uma comédia grega do absurdo

Žižek: Uma comédia grega do absurdo
O triste destino do Syriza é emblemático da nova situação da esquerda europeia.
Publicado em 11/07/2019 // 1 comentário

Alexis Tsipras (Syriza) deixa a Mansão Maximos, em Atenas, após reunião com Kyriakos Mitsotakis (Nova Democracia), recém-eleito Primeiro Ministro grego. 8 jul. 2019.
Por Slavoj Žižek.
* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.

O triste destino do Syriza é emblemático da nova situação da esquerda europeia.

No capitalismo, tal como o conhecíamos, quando uma crise econômica severa impossibilitava a reprodução normal do sistema, algum tipo de domínio autoritário (geralmente uma ditadura militar) era imposto por cerca de uma década até que a situação econômica fosse re-normalizada o bastante para que um retorno à democracia pudesse novamente ser tolerado – lembre dos casos do Chile, da Argentina, da Coreia do Sul… O papel único do Syriza é que lhe foi permitido desempenhar esse papel geralmente reservado à ditadura de direita: ele assumiu o poder em um momento de profundo descontentamento social e crise, cumpriu sua tarefa de implementar medidas duras de austeridade, e agora deixa o palco para ser substituído por um partido chamado Nova Democracia – o mesmo que conduziu a Grécia à crise em primeiro lugar.


Os feitos do governo do Syriza são mistos: ele fez algumas coisas boas (que também poderiam ter sido feitas por um governo racional de centro, como o acordo com a Macedônia sobre a mudança de seu nome), mas no geral o resultado é uma dupla catástrofe. Não apenas porque as medidas de austeridade foram implementadas – exatamente aquilo ao qual toda a campanha e o programa do partido haviam se oposto. O gênio perverso dos burocratas da União Europeia foi permitir que justamente o Syriza o fizesse. Para eles, foi muito melhor que essa tarefa fosse realizada por um partido radical de esquerda porque assim os protestos contra a austeridade foram minimizados – dá para imaginar os protestos públicos organizados pelo Syriza se fosse um governo de direita impondo medidas de austeridade? Pior, ao implementar as medidas de austeridade, o Syriza de fato destruiu sua própria base social, a rica textura de grupos da sociedade civil da qual ele surgiu como partido político – agora o Syriza não passa de um partido político como qualquer outro…

Quando o Syriza assumiu e passou a participar de negociações com a União Europeia, ficou claro que a partir do momento em que a única escolha era entre austeridade ou “Grexit” [saída da Grécia da zona do Euro], a batalha já estava perdida. Aceitar implementar medidas de austeridade significava trair o princípio básico de seu programa, e a saída da zona do Euro teria feito com que o padrão de vida dos gregos despencasse mais 30% e provocado um colapso da vida social (falta de remédios, de alimentos…), levando a um estado de emergência. Agora sabemos que o “Grexit” era algo bastante aceitável para a elite financeira europeia: Yanis Varoufakis relata que quando ele mencionou a saída da zona do Euro como uma ameaça a Wolfgang Schauble (o então ministro das finanças alemão), este imediatamente ofereceu bilhões para ajudar a Grécia a fazê-la. O que era intolerável para a elite da UE não era o “Grexit” mas sim a permanência da Grécia na UE e a construção de uma contraofensiva no seu interior. A ideia era clara: o colapso causado pela saída da zona do Euro teria servido como uma boa lição a todos os esquerdistas para que sequer ousassem brincar com medidas econômicas radicais. O establishment gosta que uma esquerda mais radical assuma o poder a cada duas ou três décadas só para alertar o povo do tipo de perigo que esse tipo de caminho guarda.

Então tudo dependia de se evitar essa escolha binária e encontrar uma terceira alternativa. Ingenuamente, nós que apoiamos o Syriza pensávamos que eles tinham um plano para esse terceiro caminho. Em todos os debates que participei com eles, me foi garantido que eles sabiam o que estavam fazendo e que não era preciso se preocupar, pois o Syriza tinha uma equipe dos sonhos e eles vão ganhar. Até eu caí nessa por algum tempo porque, apesar de todas as críticas de esquerda à brutalidade da pressão exercida pela UE sobre a Grécia, não se pode dizer que a UE fez qualquer coisa de inesperado: os gestores de Bruxelas agiram precisamente conforme o esperado, não houve surpresas nesse sentido.

Então como dar conta do duplo cavalo de pau dado pela crise grega em julho de 2015? O que se sucedeu foi uma passagem não apenas da tragédia à comédia, mas de uma tragédia repleta de reversões cômicas, diretamente a um teatro do absurdo – há outra forma de caracterizar a extraordinária reversão de um extremo em seu oposto que deixaria espantado até mesmo o filósofo hegeliano mais especulativo? Cansado das intermináveis negociações com os executivos da União Europeia, marcadas por humilhação atrás de humilhação, o Syriza decidiu convocar um referendo no domingo, dia 5 de julho, perguntando ao povo grego se eles apoiavam ou rejeitavam a proposta da UE de novas medidas de austeridade. Embora o partido claramente afirmou que apoiava o “NÃO”, o resultado foi uma surpresa para o próprio governo: a esmagadora maioria de mais de 61% dos eleitores disseram “NÃO” à chantagem europeia. Começaram a circular boatos de que o resultado – vitória para o governo – era uma má notícia para o próprio Aléxis Tsipras, que secretamente esperava que o governo perdesse o referendo, para que uma derrota permitisse que ele resguardasse sua dignidade ao se render às demandas da UE (“respeitamos a voz dos eleitores…”). Contudo, literalmente na manhã seguinte, Tsipras anunciou que a Grécia estava pronta para retomar as negociações, e dias depois o país negociou uma proposta da UE que é basicamente idêntica à que os eleitores rejeitaram (até mais dura em alguns quesitos). Em suma, ele agiu como se o governo tivesse perdido, e não ganho, o referendo. Aqui chegamos à verdade do populismo: seu fracasso de confrontar o Real do capital. O momento populista supremo (vitória do referendo) imediatamente reverteu-se em capitulação, em confissão de impotência no que diz respeito à ordem capitalista – não se trata de uma simples traição, mas da revelação de uma necessidade mais profunda. Esse para mim foi o momento de verdade daquele processo todo. É fácil demais falar em “traição” aqui – estamos diante de uma crise muito mais profunda da esquerda.

Lembro-me de como, nos debates de 2015, alertei contra o perigo do fascínio diante de grandes acontecimentos públicos – todo aquele falatório sobre “um milhão de nós reunidos na praça Sintagma, batendo palmas e cantando juntos…” O que realmente importa é o que ocorre na manhã seguinte, quando passa o transe coletivo inicial e o entusiasmo precisa ser traduzido em medidas concretas. Eu frequentemente evoquei a imagem de um grupo de participantes que, uma vez ao ano, se encontram em um café no aniversário das manifestações do passado e relembram de forma sentimental aqueles momentos de unidade sublime… mas em seguida o celular de um deles toca e eles precisam correr de volta a seus empregos enfadonhos. Podemos facilmente imaginar uma cena dessas hoje: membros do Syriza se encontram em um café para relembrar, afetuosamente, o espírito único dos protestos de massa dos quais participaram em 2015, e em seguida um celular toca, e eles precisam voltar correndo ao escritório para continuar implementando a austeridade…

Esse é o nosso mundo hoje, um mundo em que populistas de direita levam a cabo medidas de estado de bem-estar social e a esquerda radical cumpre o papel autoritário de impor austeridade. Será que uma nova esquerda conseguirá encontrar uma saída para esse impasse?

* * *

Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, feita logo após a eleição de Bolsonaro, Slavoj Žižek comentou a capitulação do Syriza e refletiu que uma novidade potencialmente interessante do Brasil é que aqui o populismo de direita que está no poder não abriu mão da imposição da austeridade. Leia aqui.

* * *


Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Artur Renzo é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.

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terça-feira, 11 de junho de 2019

ENTREVISTA: ‘PRECISAMOS CONSTRUIR A IDEIA DE QUE A ESQUERDA É UMA ALTERNATIVA AGORA’, DIZ SABRINA FERNANDES.

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Foto: Gabriela Di Bella/The Intercept Brasil

Juliana Sayuri
5 de Junho de 2019, 16h56
Saídas à esquerda
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Saídas à esquerda
2013 NÃO ACABOU. As jornadas abriram um capítulo na história que, até agora, desperta discussões calorosas no Brasil. Entre as manifestações de junho daquele ano e as eleições de outubro de 2018, declarou-se o fim da “velha política” e a hora da “nova política”. Mas o velho não morreu e o novo não nasceu. Ou, como diz o filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937): “O velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Este é o ponto de partida da socióloga Sabrina Fernandes em seu livro de estreia, Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Autonomia Literária, 2019). Nele, a autora – hoje pesquisadora na Universidade de Brasília – analisa a ascensão da extrema-direita, o fenômeno da pós-política e a fragmentação das esquerdas no país.

Fernandes ficou conhecida com o seu canal Tese Onze, no YouTube, que tem mais de 170 mil inscritos desde 2017. O título é uma referência a Karl Marx, no livro Teses sobre Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo”.
Mas, diferente do canal que a catapultou à posição de influencer de esquerda, o tom do seu livro é teórico – o texto é um desdobramento de sua tese de doutorado, defendida na Carleton University, no Canadá, em 2017.

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Em 2013, estudando na universidade canadense, a socióloga assistiu às manifestações à distância. Nos anos seguintes, já no Brasil, foi a campo: acompanhou de perto protestos em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, além de registrar reuniões de partidos políticos e movimentos, conversas paralelas e atos.

Durante o trabalho etnográfico, escreveu um diário, sigiloso, com anotações referentes a mais de 600 militantes consultados, por exemplo, do Psol, PSTU, PCB, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Movimento Passe Livre, Terra Livre e Brigadas Populares. Também fez 34 entrevistas aprofundadas com lideranças de esquerda, cujas identidades preferiu preservar “para não personalizar a discussão”.

Fernandes é de esquerda, estuda a esquerda e escreve (principalmente) para a esquerda. Mas “a esquerda”, lembra no segundo capítulo do livro, são muitas. Ao analisar a fragmentação do campo progressista, ela não se pauta pela auto-definição das siglas, mas considera sua teoria e prática: PT, PCdoB, MST, por exemplo, estão no campo da esquerda moderada; Psol, PSTU, PCB, MTST, Terra Livre e Brigadas Populares, na esquerda radical.

A socióloga, entretanto, gosta de frisar suas próprias definições: declara-se marxista, feminista, vegana e revolucionária – este último marcador, define, “como contraponto ao reformismo que realimenta o status quo, para romper com o bom-mocismo da democracia liberal que, em termos coloquiais, é uma passação de pano para estruturas opressoras”.

Filiada ao Psol, Fernandes descarta a possibilidade de se lançar na política partidária. “Estou plantando sementinhas de rebeldia e revolução. Não tenho saúde mental para disputar eleição”, diz. Nesta entrevista ao Intercept, Sabrina Fernandes fala sobre o livro e os rumos da esquerda.

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Hoje pesquisadora na UnB, Fernandes defende que é hora da esquerda sair do discurso ‘anti’ e partir para o ‘pró’. Foto: Gabriela Di Bella/The Intercept Brasil
Intercept – Que impacto junho de 2013 teve no outubro de 2018? E o que isso traz para o atual junho de 2019?

Sabrina Fernandes – Junho de 2013 é a abertura da conjuntura atual. Elementos de junho, que eu classifico como “ultrapolíticos”, tomaram muito mais força no contexto eleitoral de 2018. Ultrapolítica é o uso da polarização política que suspende o debate politizado, substituindo-o por um “inimigo”. É a descaracterização do que é esquerda e direita, anticapitalismo, comunismo e outros. É uma despolitização, que se deu porque passamos a ter um debate simplesmente de inimigos, sem considerar antagonismos reais da sociedade. O trabalhador explorado pelo patrão, por exemplo, tem um antagonismo real: os interesses são contrários.

Mas o antagonismo não entrou no debate, que ficou na caricatura, de um lado e de outro. Este é um dos impactos de 2013. Em 2019, além da ultrapolítica, a pós-política é outro fenômeno de despolitização, que chegou tentando “salvar o dia”. Trato ultrapolítica e pós-política como dois lados da mesma moeda. Ou seja, as pessoas estão cansadas dessa polarização (baseada em inimigos e não em antagonismos) e começam a pensar que é necessário um tipo de moderação. “O problema é a ideologia”, eles dizem. “Então precisamos moderar e ir mais ao centro”. Isso é problemático, porque acabaríamos substituindo um projeto à extrema-direita do Bolsonaro por um projeto de status quo que mantém o capitalismo no Brasil.

Você já criticou Tabata Amaral como representante da pós-política. Autoras como Rosana Pinheiro-Machado e Tatiana Roque destacaram o ‘fogo amigo’, argumentando que, diante da extrema-direita, a crítica sinaliza um discurso que intensifica o isolamento da esquerda. Primeiro: o que é pós-política? Segundo: como vê a questão do fogo amigo?

A pós-política é um fenômeno de despolitização que se propõe superar a política ideológica. Nesta linha, o problema seria o embate ideológico, como quem diz: “nós ficamos sempre presos nisso, em vez de tirar o melhor de cada lado, negociar e assim fazer o país andar”. Isso também pode ser feito por apelo nacionalista, por exemplo, para quem diz: “nós precisamos trabalhar juntos a favor do Brasil”. Ou tratar tudo como questão de gestão, como se tivéssemos problemas apenas por conta de politicagem. A galera da pós-política vem com esse discurso pós-ideológico.

O resultado é praticamente um espaço liberal, em que você negocia no balcão de negócios do governo, sem questionar as bases. Apenas se aceita as instituições tal como são dadas e é preciso gerenciar a partir disso. Isso gera equívocos, como se o problema do projeto de educação do governo Bolsonaro fosse apenas a ênfase na questão da ideologia de gênero, ou no alinhamento religioso, ou a perspectiva de dados e metas.

‘A esquerda liberal pode tratar a crítica que eu faço como fogo amigo, mas, como eu faço parte da esquerda socialista, não tem nada de fogo amigo.’
Dados e metas, para ficar em um dos exemplos, não são produzidos ou promovidos em uma bolha. Eles se referem a objetivos concretos, que fazem parte de um projeto político que é, sim, ideológico. O projeto do Banco Mundial, por exemplo, aceita uma pressão quantitativa de fundos para educação e, se não tiver dinheiro suficiente, nós temos que favorecer e aceitar que o setor privado esteja presente, via parcerias público-privadas e startups. Se não tivermos dinheiro suficiente para todas as universidades [públicas], cortamos as que estão com desempenho pior. Ao mesmo tempo, isso leva mais pessoas para o sistema privado de universidade. O que gera falsos dilemas: em vez de olharmos de onde está vindo a receita para investirmos em educação pública, para todos e gratuita, aceitamos como o sistema capitalista tem tratado a educação como mercadoria – e defendemos apenas uma melhor gestão.

Essa lógica pertence ao centro ou, no máximo, à esquerda liberal. A esquerda liberal pode tratar a crítica que eu faço como fogo amigo, mas, como eu faço parte da esquerda socialista, não tem nada de fogo amigo. Quem está relacionado com esse tipo de perspectiva com o capitalismo não está no meu campo. Então cabe a mim fazer a crítica. E seria irresponsável da minha parte não fazê-la.

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Protestos contra o aumento das passagens, em 2013, em São Paulo, o estopim da crise política. Foto: Miguel Schincariol/AFP/Getty Images
No livro, você propõe uma etnografia da esquerda brasileira. O que descobriu durante o trabalho etnográfico de campo?

A ideia de unidade de esquerda é muito romântica. As pessoas tratam como se “ah, se pelo menos a esquerda conversasse, se as pessoas parassem de tretar entre si, se elas estivessem abertas para o diálogo, aí a gente ia conseguir se unir e derrotar a direita”. E não é assim que unidade funciona. Quanto mais eu me aprofundei no trabalho etnográfico, na interpretação das entrevistas, na leitura das notas das organizações, nos posts dos blogs de esquerda, nesse conjunto inteiro, mais ficou evidente que a fragmentação da esquerda brasileira pouco tem a ver com a falta de as pessoas de esquerda estarem conversando entre si. Elas conversam o tempo inteiro. Há reuniões o tempo inteiro no campo da esquerda radical, da esquerda moderada e entre os dois campos. Há também relações pessoais. O ponto é entender onde estão processos viciosos relacionados à despolitização e onde estão as questões de projeto político. É nelas que precisamos focar. Não falta debate. Falta debate para formar sínteses, e esse é um processo muito mais doloroso.

No dia seguinte ao lançamento do livro Sintomas Mórbidos, aconteceu o Festival Lula Livre. Atualmente, a pauta Lula Livre lhe parece forte o suficiente para aglutinar outros atores além do PT, isto é, para quem não se vê representado pelo partido e/ou pelo ex-presidente?

A pauta da liberdade do Lula transcende o PT e deve transcender o PT. O que está em jogo é uma intervenção de politização do Judiciário, de forma conservadora, voltada a fazer uma seletividade penal política no contexto da Lava Jato – que é diferente da seletividade penal do sistema, caso do encarceramento em massa que, inclusive, foi promovido durante os governos do PT. Nós devemos fazer esse debate.

‘Crítica e ataque são coisas diferentes. Fortalecer a crítica inclusive pode contribuir para o processo de liberdade do Lula.’
É muito importante que essa pauta seja considerada pelo restante da esquerda, mas há uma dificuldade nesse processo, pois muita gente a confunde com a perspectiva de que só Lula pode ser a alternativa de esquerda para o Brasil. Aí entramos em outras questões: discussão de projeto político e de que tipo de esquerda devemos ter, não somente para fazer contraponto a Bolsonaro, mas que tipo de esquerda queremos ter no lugar do Bolsonaro. Esta é uma discussão mais ampla e complexa, que vai além da liberdade do Lula.

Um dos problemas que encontramos entre a esquerda moderada e a esquerda radical, inclusive a esquerda radical que apoia a liberdade do Lula, é o debate da autocrítica, necessária. Um debate que acaba sendo truncado ou travado pela esquerda moderada, como se uma crítica fosse fazer coro imediatamente à direita. No meu ponto de vista, crítica e ataque são coisas diferentes. Fortalecer a crítica inclusive pode contribuir para o processo de liberdade do Lula, pois teríamos mais politização e, a partir disso, mais mobilização.

No livro, você diz: ‘Sob uma situação econômica favorável, o lulismo era forte o suficiente para garantir essa adesão e a alta popularidade de Lula mesmo sob os ataques da direita e uma imprensa que havia instrumentalizado o escândalo do mensalão para alimentar o antipetismo’. A seu ver, o mensalão foi uma invenção da imprensa? Quando se questiona a famosa autocrítica do PT, o acerto de contas não deve incluir o mensalão?

Não acredito que o mensalão foi uma invenção, acredito que o mensalão ocorreu. A questão é quando se instrumentaliza um escândalo de corrupção para ter um propósito de colocar outro projeto político no lugar. A entrada e a extensão disso dentro dos eixos do PT, não tenho como avaliar. Mas, tendo corrupção, isso precisa ser criticado. E precisa ser avaliado para que não possa se repetir. O que não posso fazer é simplesmente dizer que o maior erro do PT foi a corrupção, ou dizer que todas as acusações do mensalão e da Lava Jato sejam verdades absolutas como se o Judiciário fosse neutro. E, a partir disso, acabar negando todos os outros aspectos que estão por trás disso.

‘Parte das dificuldades que a esquerda encontra é justamente focar no “anti”, em vez de focar no “pró”.’
No caso do Lula: não tenho como saber se Lula é inocente ou não, e eu não vou fazer esse tipo de afirmação. Fiz um vídeo sobre isso, em 2017, e fui muito atacada por uma base petista. Mas não posso afirmar coisas que não sei. O que sei é que o processo de acusação e de condenação do Lula foi altamente direcionado a um projeto político de direita. Não foi um processo isento.

No caso do mensalão: a imprensa burguesa instrumentalizou isso com bastante afinco, só que, como as condições materiais da sociedade eram outras, não conseguiu mobilizar o sentimento de antipetismo para um efeito imediato na época [o caso estourou em 2006 e foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012]. Isso mudou a partir de junho de 2013, diante da crise de representação e de como o governo Dilma Rousseff passou a lidar com a crise econômica [em 2014].

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Lançamento de ‘Sintomas Mórbidos’ em São Paulo na semana passada. Foto: Gabriela Di Bella/The Intercept Brasil
Embora a esquerda tenha conseguido articulações marcantes nos últimos tempos, os ecos das palavras de ordem reverberaram só na bolha? Lembrando dos protestos: não vai ter copa, não vai ter golpe, não vai ter Bolsonaro e agora, não vai ter corte. Bom, teve copa, teve golpe, teve Bolsonaro – e tudo indica que terá cortes. No saldo de 2013 para cá, a esquerda está no negativo?

Parte das dificuldades que a esquerda encontra é justamente focar no “anti”, em vez de focar no “pró”. Se falo de socialismo, automaticamente estou falando de anti-capitalismo, isto é, estou falando de um projeto de sociedade. Mas, muitas vezes, por conta da conjuntura, faz sentido o “anti” para convocar pessoas. Por exemplo, o campo do #EleNão é muito maior do que o campo de [Fernando] Haddad ou [Guilherme] Boulos. Há uma diferenciação de análise de conjuntura, de como se faz a tática. No momento eleitoral, o #EleNão fazia sentido, mas fazia sentido desde que não desconsiderasse o debate interno.

Nunca fui favorável, por exemplo, à discussão, desde o início, do “mal menor”, isto é, de que os outros deveriam retirar as candidaturas porque precisávamos unir a ideia ao redor de um contra o oponente maior. Esse “ao redor de um” vai propor o quê? Se for eleito, ele vai governar e vai governar como? Esta é a discussão do “pró”. Não podemos abrir mão dela em nenhum momento. É a dificuldade de realmente fazer a síntese. É onde entram as lideranças, que não têm tido muito êxito.

Quão importante é para a esquerda, neste momento, criar novas lideranças?

Não é simplesmente trazer alguém de outro campo ou alguém novo sem experiência política. Uma pessoa pode ser nova e ter os mesmos vícios do sistema. Os pós-políticos do Partido Novo são exemplos evidentes. O que nós precisamos tratar é: como vamos alcançar as pessoas com os nossos projetos, convictos na nossa perspectiva política? Aí sim, vamos tratar de questões novas sobre como valorizar mandatos coletivos e trabalhos nas redes sociais, sem abrir mão do trabalho de base, do dia a dia, construindo alternativas nas comunidades. E construindo uma relação de solidariedade autêntica com essas pessoas.

Você critica autores que argumentam que é possível ‘mudar o mundo sem tomar o poder’, título do livro de John Holloway. A esquerda radical está realmente tentando tomar o poder institucional?

O poder institucional, tal como é hoje, precisa ser destruído. E superado com outras formas de governar. Este é o objetivo da transição do socialismo para o comunismo. Faz parte, mas a disputa eleitoral não pode ser o foco principal, pois a instituição atual é um balcão de contradições e negócios. Então se você colocar as eleições como prioridade, a tendência é sucumbir a essas contradições simplesmente para segurar esse espaço.

‘O poder institucional, tal como é hoje, precisa ser destruído. E superado com outras formas de governar.’
É importante, sim [disputar eleições]. Mas é importante construir outras formas de poder. Há uma tensão no campo da esquerda: a esquerda moderada é muito mais maleável em relação a tomar o poder institucional, enquanto a esquerda radical faz mediações em relação a isso. Mas há alternativas de poder que são importantes desde agora e que ainda são deixadas para trás. Por exemplo, o sindicalismo. Passa por uma crise, mas é relevante construir sindicatos, para ter ferramentas mais autônomas da classe trabalhadora. Então, é preciso pensar qual é o papel do sindicato diante de uma quarta revolução industrial, da precarização do trabalho e do contexto no qual um dos maiores empregadores no Brasil são apps, afinal.

Alguns autores se referem ao trabalho intelectual de Karl Marx dividindo-o entre ‘jovem’ e ‘maduro’ Marx. Em outras ocasiões, você já referiu criticamente a seu próprio trabalho (‘own, que fofinha’, você brincou em um podcast, por exemplo). Diria que o livro é o trabalho de uma ‘jovem’ Sabrina?

Não gosto da distinção referente a Marx. Não penso que Marx estava errado na juventude, mas foi aprimorando suas ferramentas de análise. Ao ler os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, por exemplo, é possível notar o início da crítica ao idealismo, o rompimento com os jovens hegelianos e a sinalização para o materialismo histórico. O Marx d’O Capital não existiria sem esse processo. Então, “eu, fofinha” também se insere neste contexto: ao rever publicações minhas de 2012 a 2014, tenho convicção e concordo com o que escrevi, mas hoje tenho mais aprimoramento teórico, pois adquiri novas ferramentas.

Você se declara marxista. Como vê as pautas identitárias?

Trato de vertentes. A opressão é material: uma mulher trans, por exemplo, é oprimida materialmente, não por símbolos. Considero questões relacionadas ao feminismo, racismo e outras pautas porque são opressões materiais. A demarcação é de onde, a origem, das opressões e como resolvê-las. Há a proposta pós-moderna, a proposta liberal, o feminismo radical, o feminismo marxista. Ou seja, dentro do campo anti-opressão, há vertentes. Penso que o debate deve ser feito nesses eixos, e não eliminar a possibilidade de debate como fazem alguns autores marxistas ortodoxos – isto é, se não é o debate clássico de classe, é uma discussão automaticamente burguesa e não vale. Tento diferenciar as tendências e o que elas implicam nos projetos políticos.

No caso do feminismo liberal, por exemplo, o debate é muito mais voltado à questão da oportunidade, de quebrar o teto de vidro e da ascensão na escada social. No feminismo marxista, queremos destruir a escada, destruir a pirâmide, para construir algo melhor.

É a segunda vez que você se refere à expressão ‘destruir’. Como se destrói essa estrutura?

Precisamos construir alternativas. O capitalismo tem suas crises cíclicas, crises ecológicas inclusive, mas não conseguimos simplesmente substituir um sistema por outro. Precisamos superar e construir algo melhorado.

‘No caso do feminismo, se pretendemos mexer nas estruturas sociais para incluir mulheres e discutir gênero, precisamos deslocar a discussão da arena doméstica para a pública.’
No caso do feminismo, se pretendemos mexer nas estruturas sociais para incluir mulheres e discutir gênero, precisamos deslocar a discussão da arena doméstica para o público. Não basta você se amar como mãe, ou se defender como não mãe e “não vou ser julgada”, ou dizer “eu vou me amar como mulher e a sociedade que diz sou que um pedaço objetificado de carne, não vou dar bola”. Há estruturas materiais, não só de simbologia, por exemplo, a necessidades de mais creches, licença-maternidade, parto humanizado, a garantia de direitos reprodutivos, educação emancipatória e outros espaços. Não acabamos com a opressão sobre a mulher sem mudar as estruturas. O empoderamento individual não vai resolver tudo, precisa mexer nas estruturas.

Projetos socialistas, de comunas a conselhos, são muito importantes no sentido de tirar poder do estado e apostar na comunidade, construindo alternativas e relações de solidariedade que vão além do estado.

Quais são os possíveis caminhos para a esquerda daqui para frente?

A partir de agora, é importante já começar a demarcar o que a gente defende. Caso contrário, vamos chegar em 2020, ou em 2022, diante das mesmas escolhas de sempre e precisando fazer concessões porque não construímos alternativas. Se não pegarmos agora para discutir assuntos como reforma tributária como prioridade e educar as pessoas sobre o que é tributo, vamos chegar nas próximas eleições e encontrar um monte de gente classe média baixa entendendo que será prejudicada pela proposta de reforma tributária, porque não sabe o que é. Voltamos à questão de pensar no “anti” ou no “pró”. Precisamos construir a ideia de que a esquerda é uma alternativa agora, pensando ressonância das propostas.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Esquerda e direita, conceitos superados? (1), por Valdei L. Araujo


O projeto da transformação social está sendo pressionado pelo “atualismo” — a noção de que todas as mudanças se fazem dentro do sistema e o mundo se divide em “atualizados” e “obsoletos”. Por que a esquerda está perdendo este debate?
Por Mateus H. F. Pereira e Valdei L. Araújo | Imagem: Paul Klonowski
“o desafio não está em superar 
os conceitos de esquerda ou de direita, 
mas sim de atualizar os conceitos 
de esquerda e de direita, exatamente 
para que as pessoas consigam 
estabelecer as diferenças.” 
(Eliane Brum, dez, 2018) 

As questões que motivaram a escrita deste texto nasceram uma semana antes do segundo turno das eleições que elegeria Bolsonaro presidente do Brasil, em 2018, e enquanto lançávamos o nosso livro Atualismo 1.0, em Mariana, Minas Gerais. Não imaginávamos que, logo em janeiro de 2019, a tragédia-crime da Samarco, ocorrida em Mariana, fosse se repetir, em Brumadinho, também em Minas Gerais, e não por falta de alertas, pois eles têm sido persistentes e há tempos. Depois do primeiro turno da eleição, sabíamos, sim, que havia possibilidades concretas do pesadelo daquela eleição se concretizar. Diante desses fatos, naquelas semanas, só queríamos falar sobre “o coiso”, “o bozo”, “o inominável”: #elenão!
Nossa hipótese é que a vitória de Bolsonaro – e de outros representantes internacionais da direita e da extrema-direita – se deve, dentre outras coisas, ao fato de que a centro-direita, a direita e a extrema-direita estão construindo espaços comuns de diálogos, de disputas e de negociações entre seus perfis de obsoletos e de atualizados, em especial, no que tange a certas dimensões atualistas. E, nessa direção, outra hipótese complementar é que a esquerda contemporânea ter maior dificuldade em produzir essa convergência.
No livro Atualismo 1.0, demonstramos que o conceito de atualização (update) é relativamente recente, tendo se desenvolvido em paralelo à cultura digital, a partir de meados da década de 1960. O que chamamos atualismo é o crescimento vertiginoso de certa acepção da possibilidade humana de se relacionar com o tempo histórico como atualização. Em algum momento de nossa história recente, a ideia de modernização, que guardava em si as promessas emancipadoras das utopias modernas, acumuladas desde o século XIX, vai sendo substituída pela sensação de que o progresso só pode ser entendido como atualização incremental e automática do status atual das sociedades capitalistas. De algum modo, pretendemos pensar se o sujeito histórico, bem como as promessas de emancipação e de redenção a ele associadas estão sendo substituídas, em especial, por dois estados possíveis desse mundo presente, a saber: sujeito atualizado ou sujeito obsoleto.
Livro dos autores está esgotado. Segunda edição ficará pronta no início de maio
Temos consciência de que essas afirmações, ambiciosas em certo sentido, são apostas que precisam ser conferidas. Por isso, a parte mais relevante desse ensaio é a decisão de escutar algumas pessoas, mesmo sabendo que a escuta aqui não deva ser entendida de modo ingênuo enquanto um gesto neutro ou imparcial, toda escuta é já um diálogo e envolve decisões e posições de parte a parte. Aqui fizemos um recorte nas diversas conversas e entrevistas que já realizamos, pois o objetivo é desenvolver hipóteses e especulações iniciais. O leitor não encontrará um espelho do real, mas fotografias que retratam os fotografados, os fotógrafos e as câmeras utilizadas para fotografar.
Trata-se de construir tipologias. Para isso, vamos nos concentrar apenas em alguns relatos de moradores e turistas de uma ilha localizada no Nordeste do Brasil, bem como de nossa experiência, ao longo do primeiro mês do governo Bolsonaro. Os nomes e as ocupações de algumas pessoas foram alterados para evitar identificação. Essa escolha é uma apropriação inspirada em uma série a que assistimos em janeiro, cujo início sempre começa com a seguinte sentença: “Esta é uma história verdadeira, os acontecimentos retratados aconteceram […]. A pedido dos sobreviventes, os nomes foram alterados. Em respeito aos mortos, todo o resto foi relatado exatamente como ocorreu” (Fargo – Netflix).
As pessoas foram escolhidas não pela sua suposta representatividade, mas a partir da perspectiva benjaminiana de que nada do que passou pode ser perdido para a história e, sendo assim, cada percepção tem um valor em si. Além disso, e para construirmos a nossa tipologia, as escolhas e seleções foram feitas a partir do jogo necessário entre teoria e empiria. Outra fonte utilizada foram os diversos memes que circularam em grupos de Whatsapp durante esse período. É importante ressaltar que, nesse momento da pesquisa, e como homens, um branco e o outro pardo, que se reconhecem como obsoletos de esquerda, não foi um processo sem sofrimento deixar, mesmo que parcialmente, “nossa bolha”. De todo modo, enfatizamos que obsoletos e atualizados, esquerda e direita, não podem ser reduzidos a sinais positivos e negativos, a despeito das preferências e posições dos autores. Acreditamos, nesse momento da pesquisa, que pode haver um potencial emancipador tanto no situação existencial atualizada e obsoleta que, de resto, não são homogêneas.
Foi em Porto Alegre e em São Paulo, em 2018, conversando com alguns motoristas de aplicativo, que tivemos a certeza de que valeria a pena investir nessa investigação. Escutar e conversar com esses motoristas, eleitores do Bolsonaro, mostrou-nos o quanto a esquerda diminuiu ou perdeu a sua capacidade de dialogar com o que alguns autores têm chamado de precariado.
Isto é: foram os motoristas de aplicativo, dessas cidades, inicialmente, que confirmaram que as nossas hipóteses tinham algum sentido. Hipóteses já anunciadas na cidade do Rio de Janeiro, em 2016, quando o livro Atualismo 1.0 foi gestado. Naquela ocasião, os motoristas de aplicativo já apontavam a vitória de Bolsonaro. Achávamos que era um fenômeno local do Rio, um Estado arrasado pela violência, que vivia diretamente a crise da Petrobrás e os escândalos de corrupção. E, também, porque muitos dos motoristas com os quais conversamos eram e foram militares ou pelo menos tinham relação com militares. A história nos mostrou que estávamos errados, como a maioria dos que nos leem. Aliás, o Uber foi tema de algumas junk news da campanha eleitoral:

TipologiaO projeto de deixar para trás o capitalismo está sendo substituído pelo “atualismo” — a noção de que todas as mudanças se fazem dentro do sistema e, o mundo se divide em “atualizados” e “obsoletos”. Por que a esquerda está perdendo este debate? Como ele se relaciona com a eleição de Bolsonaro? Tipologia

Enquanto o sujeito moderno entendia-se como acelerador ou desacelerador do processo histórico, a depender de suas posições político-existenciais, o sujeito atualista parece não esperar mais ter controle sobre o tempo histórico. Frente a um presente que continuamente se reproduz, ele é levado a estar atualizado ou obsoleto, com diversas possibilidades de modulação. O atualismo, como valor social e ideologia hegemônica, em certas dimensões da vida atual, produz continuamente ondas de obsolescência. Sua fronteira final e decisiva é o próprio humano, que não apenas deixa de ser visto como fator decisivo das transformações históricas, mas pode se tornar inclusive o elemento a ser descartado por supérfluo.
Ao que parece, o sujeito atualizado procura se compreender como uma espécie de surfista, que tenta, continuamente, equilibrar-se nas ondas de atualização, e retirar dessa situação de perigo o seu lucro e o seu sentido existencial. Aliás, ele sabe nadar após a submersão. Já o sujeito obsoleto existe com a contínua sensação de sua incapacidade de sobreviver à próxima onda. Não por acaso, o vocabulário da extinção é continuamente invocado para caracterizá-lo. Ele é o peixe fora d’água ou o dinossauro que se recusa a desaparecer.
Embora a tipologia atualizados e obsoletos já estivesse sugerida em Atualismo 1.0, ainda não havíamos atentados para a possibilidade de cruzá-la com as definições clássicas de direita e esquerda. Esse cruzamento começou a nos parecer útil para a compreensão daquilo que poderia aproximar, existencialmente, a sua relação com a temporalidade, como atualizados de direita e de esquerda e obsoletos de direita e de esquerda. Da mesma forma, as vozes que trazemos aqui nos mostram que é possível pensar em como certas pontes entre atualizados e obsoletos podem ou não ser construídas dentro de um mesmo espectro ideológico. Ou seja, seria possível unir atualizados e obsoletos em torno de uma mesma agenda política? Quando nos colocávamos perguntas como essa, estávamos pensando no enorme abismo que, como docentes, visualizávamos entre a nova e a velha esquerda, entre as pautas identitárias e ecológicas, por exemplo, e a agenda social-desenvolvimentista. As vozes aqui invocadas ainda reforçam essa constatação inicial.
Na teorização sobre o atualismo, tentamos deixar claro que, enquanto ideologia, o atualismo não oferece futuro aos obsoletos, embora a existência deles funcione como legitimação funcional das demandas por atualização. Nossas investigações indicam que há um lugar sistêmico para os obsoletos no atualismo e que esse lugar parece ter sido descoberto pelas direitas globais. Para além dessa posição funcional, ser obsoleto, assim como ser atualizado, pode conter uma força emancipatória. Para começar a pensar nas possibilidades analíticas dessas tipologias – e que fique claro, não são descrições realistas, mas manipulação do real, utilizada como ferramenta para melhor observá-lo -, chegamos a este primeiro diagrama que procura, de modo provocativo, classificar alguns tipos dos mundos-vida atual:
Como não é nossa intenção aqui descrever minuciosamente cada um desses tipos, que de resto apenas exemplificam as situações, sem qualquer pretensão de esgotamento, nos limitaremos a apontar quatro perfis que acreditamos poder exemplificar melhor o aspecto de cada tipo.
O motorista de aplicativo é o nosso grande personagem. Ele encarna o obsoleto de direita integrado, ele é capaz de celebrar e admirar a força destrutiva do capitalismo atualista, ser uma de suas vítimas e, ao mesmo tempo, sobreviver funcionalmente em suas fronteiras. No ano passado, a venda de carros no Brasil bateu recordes, apesar e em função da crise econômica. Muitos desempregados, dentre eles homens brancos com curso superior, financiaram um automóvel para trabalhar no aplicativo. O que torna a situação atualista extrema é todos eles saberem, em algum grau, que o sentido de sua atuação no Uber é ajudar a empresa a desenvolver um veículo autônomo. É como aguardar o apocalipse de camarote. Nas conversas com esses motoristas sempre nos impressionava o entusiasmo de sua adesão ao sistema, mesmo sabendo que dele estaria excluído. Os outros tipos de obsoletos de esquerda são mais claramente nostálgicos. Nos motoristas, a nostalgia parece se manifestar mais com relação aos valores, raça, gênero e classe. Quando não estão distraídos com o futuro tecnológico, do qual podem ser apenas usuários periféricos, sonham com um passado fantasioso em que pobres, mulheres e gays sabiam seus lugares.
O nosso tipo-ideal obsoleto de esquerda é o líder sindical de alguma categoria do serviço público. Ele representa no Brasil aqueles que o discurso atualista considera os privilegiados, trabalhadores com direitos e poder político. Como as estruturas sindicais são, geralmente, corporativamente congeladas, as lideranças podem recusar tudo aquilo que o atualizado considera o seu oxigênio: as redes sociais e as novas tecnologias de comunicação e deliberação. O sindicalista público exerce a possibilidade da obsolescência como um privilégio que precisa ser garantido contra todas as forças do futuro atualista. O limite de sua situação político-existencial é duplo, pois não consegue avançar de uma agenda reativa, na defesa das prerrogativas de sua categoria, e tem enormes dificuldades estruturais de universalizar o próprio futuro. Ele, então, passa a encarnar o arquétipo da esquerda tradicional, que oferece como futuro a manutenção de direitos em um contexto social em que esses mesmos direitos nunca foram universalizados.
Obsoletos de esquerda e direita encontram na nostalgia um refúgio comum, embora para a esquerda aquilo que se deseja manter é mais imediato, como ficou evidente no slogan “nenhum direito a menos”. Ao ampliar o serviço público e se esforçar para ampliar o emprego privado formal, os governos petistas acertaram em cheio, mas sem transformações e reformas estruturais, as condições para a manutenção dessas realidades logo se esgotaram – isso sem falarmos nas forças políticas e sociais adversárias que trabalharam para inviabilizar e limitar o alcance do projeto petista.
Dentre os atualizados de direita, destacaremos o inovador-empreendedor. Ele ou ela entendem a si mesmos como os grandes surfistas da atualização. Todos os problemas políticos e sociais poderiam ser rapidamente resolvidos com a adoção de novas tecnologias, com a criação destartups e centros de inovação. Para ele, o obsoleto tem valor apenas como matéria-prima barata para alimentar seus bancos de dados. Ele é, por exemplo, um desenvolvedor a serviço do Uber, que vai explorar os dados gerados por passageiros e motoristas. O problema é que o mundo hipercompetitivo, em que ele ou ela acreditam viver, pode substituí-lo a qualquer momento. A ansiedade é a forma básica em que vivem o tempo; e as drogas de aceleração um de seus aditivos. Recentemente, uma pesquisa realizada pela universidade de Oxford atribuiu a hiperatividade das enguias do rio Tâmisa às altas taxas de cocaína na água, cuja origem parece ser a urina dos moradores. O fato talvez justifique a atribuição de Londres como cidade mais atualista da Europa.
A forma mais corriqueira dos atualizados de direita lidarem com a sua ansiedade é transferi-la, como responsabilidade e culpa, para os obsoletos de direita e de esquerda, que respondem com ressentimento ou identificação fantasiosa a essa atribuição. Esses atualizados são igualmente a inteligência do atualismo, que, em revistas, redes sociais, tvs e palestras, segregam diariamente a doutrina da atualização e suas promessas. Esse discurso infiltra todas as dimensões da vida social até se projetar como um clima social. Para ficar apenas em um exemplo, o número de outubro de 2018 da revista de bordo da companhia aérea Gol traz na capa um “pesquisador” com a chamada: “Temos pressa. Pesquisador Ronaldo Lemos indica caminhos para impedir que os governos se tornem obsoletos na era da tecnologia”. No mês do primeiro turno da eleição, o número inteiro vendia a promessa de uma aceleração atualista. Nas palavras de Lemos, “percebi que ou o governo vira tecnologia, ou ele deixa de ser governo”. A matéria continua prometendo uma uberização do governo: “quer dizer: assim como aconteceu com as cooperativas de táxi e com os aparelhos de fax, é possível que soluções digitais resolvam as demandas do cidadão melhor do que os governos, tornando-os obsoletos”. Ou seja, a atualização do governo é a utopia libertária de um mundo sem governo – logo, sem funcionários públicos e sem sindicalistas.
No mesmo número da revista, a propaganda da montadora Chevrolet ordena “Não pare de evoluir”, em uma curta coluna sobre os desafios futuros da educação a articulista promete ou ameaça, “mas em um futuro próximo, muito próximo mesmo, que já está na nossa esquina, as máquinas farão muito do que nossos filhos aprendem na escola hoje. As máquinas acabarão com profissões inteiras, tomarão seus espaços”. Outro articulista, em matéria intitulada “O fim é o começo”, profetiza, “mais do que um momento de transição, estamos vivendo a falência do mundo que conhecemos. Perdeu o sentido. Acabou-se diante das infinitas possibilidades e necessidades de criação de um novo mundo. ‘aceita que é mais fácil’, dizem por aí”. Esse “otimismo” que, ao longo da campanha eleitoral, encantava os seguidores de Bolsonaro, atingidos pela nova linguagem fragmentada e rasteira, ia, ao mesmo tempo, destruindo as instituições democráticas pelo uso abusivo da tecnologia. A questão é que o fim do governo sonhado pelos atualizados de direita é o fim da política e da democracia, por isso poderiam não se sentir ameaçados pelo obscurantismo bolsonarista. O lugar dos evangélicos nessa tipologia é duplo. Os pastores tendem a ser atualizados, ao contrário, de suas ovelhas. De todo modo, os praticantes que entrevistamos, em função das atividades empreendedoras que desenvolvem, nós pareceram mais híbridos dos dois tipos.
Para os atualizados e atualizadas de esquerda, a eleição de Bolsonaro parece ter sido o apocalipse sem camarote. No lugar de selecionar um personagem, o caminho mais curto para a nossa aproximação foi considerar o ativista – não o militante obsoleto – o ponto de apoio para produzirmos o modelo desse tipo de atualizado. Como o atualizado de direita, o de esquerda também tende a se ver como representante de forças que moldam ou deveriam moldar o futuro, ainda que em um mar mais agitado, ele ou ela também podem se ver como surfistas das profundas transformações do mundo atualista. Também aqui, e não raro, veremos o escândalo contra os obsoletos, afinal, como seria possível que no mundo atual ainda existam racistas e machistas ou, mesmo, comedores de carne? Mas, diferente dos atualizados de direita, os ativistas, como as vozes sugerem, acreditam que precisam atuar contra as tendências automáticas do capitalismo atualista, e isso os aproxima da tradição emancipatória da esquerda tradicional.
No entanto, para além dessas análises, a pesquisa até o momento nos mostrou que, na relação entre atualizados e obsoletos de esquerda, na conjuntura brasileira recente, poucas pontes parecem ter sido construídas entre esses dois blocos, apesar de alguns sinais positivos recentes nos mostrarem que há uma tentativa de aproximação, como o maior diálogo entre o PSOL e o PT. O que gostaríamos de destacar, no entanto, é que os atualizados de esquerda, mesmo a contragosto, também parecem provocar efeitos de angústia e ressentimento nos obsoletos de esquerda, fenômeno apontado no sucesso da palavra esquerdomacho ou da resistência de certa inteligência tradicional de matriz marxista levar a sério a agenda racial.

Breve contexto

O fim do ano de 2018 terminava como ano e começava com uma promessa (pelo menos para alguns atualizados de esquerda): o primeiro escândalo de um governo que sequer tinha começado: o caso Queiroz! Ele envolvia e envolve corrupção na família do então eleito presidente do Brasil: a família Bolsonaro. O escândalo chegou tarde? Talvez. E se “toda” a esquerda estivesse apoiado o Ciro Gomes? E se Lula tivesse tido a chance de se candidatar?
Pois bem: essas eram as questões que permearam as “páginas seguintes” do WhatsApp e do Facebook. Mas, a essa altura, ser ou não ser, ter sido ou não ter sido, já não importava à maioria da população: tínhamos um novo presidente no Brasil, eleito pela via democrática. O voto, pelo qual lutamos tanto já não nos representa com a mesma força que nos representou há três décadas? Independentemente da crise da representação política a questão em nossa bolha era saber: “onde está o Queiroz?”
Enquanto isso, bolsonaristas vibravam com o discurso em libras e a performance da primeira dama. Do outro lado: Goiabeira, Queiroz, Globalismo, desencontros e escândalos.
Muitos dos atualizados de direita, de fato, ficaram constrangidos com o início atrapalhado, e com alguns dos ministros escolhidos pelo eleito presidente. Mas, “antes isso do que o PT”. “E se tiver ruim, a gente tira”. E o vídeo com dúvidas sobre a facada também ganhava força entre os atualizados e obsoletos de esquerda: “Viralizar esse vídeo vai encurtar o tempo de Bozo na ‘presidência’”.
Além disso, ainda tivemos o episódio do “rosa para meninas e do azul para meninos”, protagonizado pela nova ministra dos Direitos humanos: Damares.