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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Para tautismo da Globo Marisa Letícia supostamente morreu, por Wilsom Roberto Ferreira Vieira.



O tautismo (autismo + tautologia) crônico da TV Globo chegou a um nível bizarro e surreal com a “morte” de Dona Marisa Letícia. Enquanto a emissora mostrava imagens de pesar e condolências (minuto de silencio no Congresso e os pêsames de FHC a Lula), a Globo se apegava ao “protocolo de morte encefálica” para adiar em 18 horas o anúncio do falecimento e a palavra “morte”. Uma cobertura, no mínimo, anômala: em se tratando de políticos, celebridades e artistas o "modus operandi" da grande imprensa diante da morte sempre foi o sensacionalismo, ilações e especulações. Por que esse inesperado comedimento, como se repórteres e apresentadores usassem luvas de pelica enquanto pisavam em ovos? No dia 02 de fevereiro, Dona Marisa Letícia estava supostamente morta. Para no dia seguinte a palavra “morte” ser anunciada de forma protocolar. Para quê serviu esse pesar tautista da Globo? Algumas hipóteses: (a) AVC político, (b) Lula vai ser preso, (c) Sebastianismo e Eleições 2018, (d) Tática do diversionismo, (e) Corrente de Esperança.

Criado pelo pesquisador francês Lucien Sfez, o conceito de “tautismo” (neologismo criado pela combinação das palavras “tautologia”, do grego “tauto”, “o mesmo”, e “autismo”, auto, si mesmo) é resultante de pesquisas sobre processos contemporâneos de comunicação. Processos  abstratos e estudados por áreas especializadas como Teoria dos Sistemas ou Teoria da Informação que o leitor mais leigo muitas vezes não consegue acompanhar - sobre o conceito clique aqui.

Em postagens recentes o Cinegnose vem procurando descrever esse fenômeno do tautismo na TV Globo, principalmente no telejornalismo – objeto exemplar por ser ponto de contato de um sistema fechado em si mesmo com a realidade exterior. Em geral, as manifestações do tautismo são sutis, subliminares às vezes, exigindo do pesquisador método e atenção.

Porém, dessa vez o tautismo crônico da emissora foi direto e evidente. Poucas vezes esse humilde blogueiro testemunhou uma manifestação tão explícita, bizarra e surreal do tautismo como na edição de 02/02 do Jornal Nacional.

Nos seus pouco mais de 2 minutos dedicados à morte da esposa de Lula, Dona Marisa Letícia, enquanto um infográfico explicava a evolução do AVC ao quadro irreversível de morte encefálica, os apresentadores falavam em “ausência de fluxo cerebral”, “ausência de atividade cerebral”, “ausência de circulação sanguínea” e a confirmação de doação de órgão pela família.

Tal como o restante da grande mídia, o Jornal Nacional evitou usar  a palavra “morte”. Ao mesmo tempo, as imagens mostravam a Câmara dos Deputados paralisando uma sessão para fazer um minuto de silêncio para... a morte de Dona Marisa Letícia?... ou para a “ausência de fluxo cerebral?


Uma foto mostra Fernando Henrique Cardoso prestando condolências a Lula pela... morte?... ou pela “ausência de fluxo cerebral” da esposa do seu opositor político?

O mais próximo de uma notícia sobre morte foi a matéria do JN falar em “pêsames” dados pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia e “notas de pesar” pelo presidente do senado Eunício Oliveira e a ex-presidenta Dilma Rousseff. Mas a tautista Globo em nenhum momento admitiu que estava dando a notícia sobre a “morte” de Marisa Letícia Lula da Silva.

A morte em cena no jornalismo


Por que? Segundo relato do veterano repórter José Roberto Burnier, com a fachada do Hospital Sírio Libanês como fundo (o velho clichê de enquadramento para conferir credibilidade ao que o repórter diz), porque o protocolo oficial de constatação de morte cerebral só pode ser feito 18 horas depois da interrupção da sedação. Surpreendentemente, a Globo e toda a grande mídia se apegaram no detalhe técnico de que os médicos não confirmaram a morte, mas sim a “ausência de fluxo sanguíneo”.

No mínimo, a cobertura da Globo foi anômala. Em décadas como jornalista e pesquisador de mídia, esse humilde blogueiro nunca viu a grande imprensa se apegar a “protocolos”. Até então, detalhes apenas conhecidos pelos médicos e desconhecidos do grande público... e dos jornalistas.

Em se tratando de políticos, celebridades e artistas, o sensacionalismo da morte sempre esteve em cena: Ayrton Senna, Lady Di, Tancredo Neves, Getúlio Vargas etc., foram mortes tratadas sem rodeios ou meios termos pela imprensa. Ilações, especulações e obituários antes da hora do anúncio “técnico” sempre foram a regra.

Ayrton Senna: Globo seguiu protocolos?

O que torna anômala a cobertura da Globo é inesperado apego a “protocolos” da medicina, destoando do modus operandi histórico da grande imprensa. Talvez a Globo tenha “tecnicamente” tomado a opção correta. Afinal, jornalista não declara morte. É o médico que o faz e o jornalista apenas noticia.

Porém, na anômala cobertura o que se viu foram repórteres e apresentadores com se vestissem luvas de pelica e pisassem em ovos.

A matéria do JN criou uma situação bizarra: o morto só morre quando o médico confirma que o cadáver morreu! O que as imagens transmitiam eram pesares e rostos consternados. Enquanto a locução se apegava no protocolo no qual, tecnicamente, Dona Marisa Letícia era uma morta-viva.

Por que essa tautista negação da morte? Por que, de repente, baixou o espírito de Hipócrates na redação do telejornalismo global? Ou será que foi o espírito de Getúlio Vargas? - aos amigos, tudo. Aos inimigos a Lei (ou, no caso, protocolo).

O Cinegnose vai propor algumas hipóteses desse súbito interesse tautista da Globo em protocolos médicos. Nesse caso, o tautismo crônico da emissora poderia ter sido bem seletivo.

(a) AVC político


Hipótese do jornalista Paulo Henrique Amorim – clique aqui. Para ele, o AVC de Dona Marisa vai para a conta do juiz Sérgio Moro: a casa de Lula foi invadida pela PF de madrugada, o colchão revirado em busca de dinheiro, passaporte ou qualquer coisa, os filhos perseguidos e o marido levado em condução coercitiva. A pressão vivida por Dona Marisa Letícia nos últimos tempos foi irresistível: além de Lula, ela própria foi acusada por “crimes” como, por exemplo, comprar pedalinhos para os netos.

Portanto, todos os eufemismos foram uma estratégia para desvincular a perseguição política ao AVC, evitando qualquer tipo de compaixão para com a vítima e seus familiares.


(b) Lula vai ser preso


O juiz Sérgio Moro está próximo da decisão de mandar prender Lula. Na eminência de ver concretizado seu objeto de desejo político, a Globo não pode involuntariamente humanizar a imagem do futuro e mais importante prisioneiro depois de anos de cobertura exaustiva da Lava Jato.
  
E o que é pior: com a morte de Marisa Letícia, criar empatia na opinião pública com o sofrimento de Lula. O fator reação popular é uma das variáveis calculadas por Moro e sua força tarefa de Curitiba. Sendo a TV Globo o cão Cérbero que guarda o inferno do bombardeio midiático diário, seria um erro fatal e indesculpável.

Por isso, a cobertura deve ser a mais anódina, sedante, paliativa e mais insignificante possível. Evitar que o drama pessoal de Lula se transforme no pavio que seja aceso com a futura prisão.


(c) Sebastianismo e Eleições 2018


Assim como a Globo jamais fala da Fórmula Indy (produto esportivo da emissora concorrente Band), também deve evitar pautas positivas ou humanas do atual maior inimigo político – no passado era Leonel Brizola. Principalmente com a proximidade das eleições presidenciais no próximo ano.

Os analistas políticos da emissora, assim como o juiz Sérgio Moro, sabem que Lula é a maior expressão moderna do sebastianismo na política brasileira – mito que se arraigou no Nordeste com Antônio Conselheiro no início do século XX e assumiu diversas modulações na política brasileira. A crença de que a morte pode render uma dimensão messiânica a um personagem.

Um exemplo recente foi a morte do candidato à presidência Eduardo Campos pelo PSB (outro em acidente aéreo). A canonização post mortem do candidato revolucionou a campanha, agigantando sua vice, Marina Silva, que se tornou um desafio mais arriscado e inesperado para Dilma Rousseff.

Uma cobertura com viés mais humanizante da morte de Marisa Letícia pela grande mídia poderia ser um tiro no pé: Lula poderia se transformar no herói redimido pela dor da morte da sua própria mulher. O espírito da mulher guerreira incorporado em Lula, o mito condutor da Nação.


(d) Tática diversionista


Essa estratégia é comum nos telejornais da emissora, mas agora parece que sua aplicação está intensificada nesse início de 2017.

Temas desconfortáveis para a Globo, obrigada a cobrir porque, afinal, vivemos numa suposta democracia, são abordados de maneira diluída, muitas vezes de maneira propositalmente confusa e contraditória, para desviar a atenção. A tática do diversionismo é eficaz porque, naturalmente, telespectadores possuem uma recepção muito mais dispersa comparado com outros meios de comunicação – sobre isso clique aqui.

Por exemplo, o aumento das tarifas dos ônibus em São Paulo foi suspensa em decisão liminar do Tribunal de Justiça. O Governo do Estado ignorou e manteve aquilo que chamava de “redução de descontos” nas tarifas (expressão diligentemente reproduzida como um mantra pelo SPTV da Globo). Entre idas e vindas, suspensões e voltas dos reajustes, o noticiário simplesmente abandonou a pauta.

Ou na oportuna morte de Teori Zavascki no Triângulo das Bermudas da política brasileira em Paraty (sobre isso clique aqui) no qual as especulações sobre quem seria o próximo relator das delações da Lava Jato STF desviaram a atenção das investigações sobre as causas do acidente aéreo. Até que o andamento das investigações simplesmente desapareceu da escalada dos telejornais.

O adiamento da palavra “morte” e o inusitado apego aos protocolos médicos, diluíram o conteúdo político do falecimento da Dona Marisa Letícia. Só na edição do dia seguinte do JN, Burnier, novamente com a fachada do Sírio Libanês como fundo, foi autorizado pelos protocolos a anunciar a palavra “morte” definitiva. Uma estranha morte em câmera lenta que ocupou duas edições do telejornal.

No final, o obituário de Dona Marisa Letícia concluiu a tática diversionista: um vídeo como uma espécie de versão à esquerda do clichê “bela-recatada-do lar” da Era Temer – enquanto Lula “viajava” (para quê?), Marisa Letícia ficava em casa “bordando, costurando e estampando camisetas” (qual o propósito?)...


(e) Corrente de Esperança


Não sejamos tão negativos e implicantes com a Globo. Vamos a uma hipótese Pollyana... Quem sabe que esse deliberado adiamento da morte de Dona Marisa Letícia foi uma tentativa de criar uma corrente de fé e esperança de petistas e simpatizantes em frente ao Sírio Libanês. Assim como os fãs de Leandro em frente ao Hospital São Luiz em 1998, que passaram a noite com velas na mão rezando pela cura do astro da música sertaneja diante das câmeras da Globo.

Porém, parece que não deu muito certo: repórteres e câmeras de emissoras de TV foram escrachados por militantes petistas enquanto o desinterino Temer entrava no hospital sob gritos de “assassino”. Temer chegava para prestar condolências a Lula pela morte de Dona Marisa Letícia... ou será que foi pela “ausência de fluxo cerebral”?...

O ódio de classe a Marisa Letícia, por Juremir Machado da silva.



Em “O jogo das contas de vidro”, romance de Herman Hesse ambientado no século XXIII, livro volumoso que ninguém mais lê, intelectuais envolvem-se numa brincadeira que define os “valores da sociedade”. Entre muitas passagens paradoxais uma serve para os tempos atuais: “Fritz pertencia a essa categoria de pessoas que nunca estão satisfeitas, mas que nunca ultrapassam as raias da moderação, dessas pessoas que se ocupam horas a fio com um buquê de flores ou com a decoração da mesa de jantar com uma satisfação movimentada e intranquila e retoques carinhosos e intermináveis, quando para qualquer outro o trabalho já estaria pronto e perfeito há muito tempo; pessoas que sabem fazer do trabalho mais insignificante a tarefa de um dia, cuidada com seriedade e determinação”.
No Brasil, neste século XXI, pessoas que se julgam incapazes de ultrapassar as raias da moderação, sempre insatisfeitas com os radicalismos alheios, vestem-se de verde e amarelo e vão para a frente de um hospital protestar contra uma doente. É o que está acontecendo com os “de bem” que comemoram a doença de Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, nas redes sociais. O ódio de classe por essa senhora vinda da plebe e que se tornou primeira-dama do país é evidente.
Esses insatisfeitos, ou insatisfeitas, não se preocupam com a decoração da mesa de jantar.
Comem o ódio que plantam e embalam como se fosse justa indignação moral.
Não há retoques carinhosos nem trabalho interminável de acabamento.
Nem contas de vidro.
Só acertos de contas no meio da rua.
O ódio de classe pode vir também de pessoas da mesma classe da pessoa visada.
É o ódio transfigurado em complexo de distinção. Identificação com o algoz.
Cartazes cobram que Marisa Letícia vá se tratar com médicos cubanos.
Quem disse que esses médicos viriam para trabalhar com casos da chamada alta complexidade?
Há ódio também no fato de que Cuba, uma ilha socialista parada no tempo, que não conseguiu dar o salto para a democracia nem para o desenvolvimento econômico, em grande parte por causa do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, tenha políticas de saúde pública mais eficazes do que as de muitos florões do capitalismo.
Ou boa mesmo é a saúde do capitalismo do Haiti?
Ou quando a miséria domina deixa de ser capitalismo?
Qualquer manifestação que explore a doença de alguém é pusilânime.
No caso, mostra o pior do Brasil.
O mal pintado de “bem”.
As raias da moderação ultrapassadas por radicais da moral de conveniência.