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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Por que votamos em Hitler, por El País.

Por que a Alemanha, o país com um dos melhores sistemas de educação pública e a maior concentração de doutores do mundo na época, sucumbiu a um charlatão fascista?





Por que os alemães elegeram Hitler

Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo. Por que tantos alemães instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo?
Em primeiro lugar, os alemães tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham causado a pior crise econômica na história do país. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Hitler ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.
Em segundo lugar, Hitler sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Hitler usava um linguajar simples, espalhava fake news, e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Hitler era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada discurso era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões. Como escreveu em seu livro "Minha Luta":
Toda propaganda deve ser apresentada em uma forma popular (...), não estar acima das cabeças dos menos intelectuais daqueles a quem é dirigida. (...) A arte da propaganda consiste precisamente em poder despertar a imaginação do público através de um apelo aos seus sentimentos.
Em terceiro lugar, muitos alemães sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Hitler prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que surgiram por volta de 1920, época em que as mulheres se tornavam cada vez mais independentes, e a comunidade LGBT em Berlim começava a ganhar visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Hitler eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, quebrar vitrines de lojas, cujos donos eram judeus, para reafirmarem sua masculinidade.
Em quarto lugar, apesar de Hitler fazer declarações ultrajantes – como a de que judeus e gays deveriam ser mortos -, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus votaram em Hitler, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Hitler poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.
Em quinto, Hitler ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte com mais frequência e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas. Os judeus - que representavam menos de 1% da população total - eram o bode expiatório favorito. Os alemães "verdadeiros" não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: "Alemanha acima de tudo", "Renascimento da Alemanha", "Um povo, uma nação, um líder."
Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Hitler porque ele prometeu -- e implementou -- um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiava grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Hitler.
Em sétimo, mesmo antes da eleição de 1932, falar contra Hitler tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que apoiavam Hitler, ameaçavam os oponentes, limitando-se inicialmente ao abuso verbal, mas logo passando para a violência física. Muitos alemães que não apoiavam o regime preferiam ficar calados para evitar problemas com os nazistas.
Doze anos depois, com seis milhões de judeus exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que votaram em Hitler disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo. “Se soubesse que ele mataria pessoas ou invadiria outros países, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Hitler falou publicamente de enforcar criminosos judeus durante a campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, minha avó, cujo irmão morreu na guerra, responderia.
De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã.
Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

'Comparar Trump a Hitler distrai da ameaça real' por Michael Knigge

"Prezados americanos, vão em frente, votem no cara de voz alta e que odeia minorias, ameaça prender seus adversários, não está nem aí para a democracia e diz que pode resolver tudo sozinho. O que pode dar errado?"


Em entrevista à Deutsche Welle, Thomas Weber, professor de História e Política Internacional e diretor do Centro de Segurança Global na Universidade de Aberdeen, na Escócia, diz que tal comparação é plausível em nível tático, mas que não se deve esquecer que há mais diferenças que semelhanças entre Trump e Hitler.

 
Deutsche Welle: A lista daqueles que comparam Donald Trump com Adolf Hitler fica cada vez mais longa. Além de um ex-presidente mexicano, de uma meia-irmã de Anne Frank e diversos observadores eleitorais, no início da semana um Twitter do usuário Johan Franklin com uma advertência comparativa viralizou na rede social. Essa comparação é justificável?
Thomas Weber: Antes de saber se a comparação é justificável ou não, deve-se considerar se ela é politicamente útil. Quando se menciona Hitler perde-se qualquer discussão, pois a conversa passa a girar em torno somente da comparação com o ditador nazista. No caso de Trump, isso distrai da ameaça real que pode surgir independentemente de uma alusão a Adolf Hitler.
Mas acredito que existam semelhanças entre o atual sucesso de Donald Trump e o êxito de Hitler no passado. Acho que elas devem ser procuradas principalmente no nível tático, pois ambos se apresentam como antipolíticos que querem levar novamente seu país a uma posição de liderança. E ambos proporcionam uma grande flexibilidade tática. E isso é mais contundente no novo presidente republicano do que no antigo ditador nazista.


Em entrevista, historiador explica diferenças entre ascensão do ditador nazista e do novo presidente dos EUA e alerta sobre risco de compará-los, como foi feito por post no Twitter que viralizou.

          

É possível fazer uma comparação entre Donald Trump e Adolf Hitler? Um tuíte do usuário Johan Franklin viralizou nesta semana, provocando a ira de fãs do magnata nova-iorquino e novo presidente dos Estados Unidos.



E também existe uma semelhança na forma como os dois são percebidos pelo público. Justamente pelo fato de ambos se apresentarem com tanta flexibilidade, é difícil saber o que realmente querem dizer. Isso é bastante útil porque permite que pessoas das mais diferentes posições políticas possam pensar que Hitler ou Trump esteja do seu lado. Nesses níveis, vejo grandes semelhanças. Apesar disso, diria que as diferenças entre os dois estão em número ao menos igual, senão ainda maior.

E quais são as diferenças?

Em primeiro lugar, Trump representa aquilo que Hitler odiava. O ditador nazista não era somente antissemita e antibolchevista, mas particularmente em seu período inicial, o anticapitalismo e o antiamericanismo também tinham a mesma importância para ele. Assim, o milionário republicano seria quase a personificação daquilo que Hitler não gostava.

Mais importante ainda é que, por trás dessas semelhanças, Trump dispõe de uma grande flexibilidade de pensamento e ação política, algo que não se encontra em Hitler. No caso do ditador nazista, existe uma flexibilidade somente em nível tático, enquanto no caso de Trump, isso vai bem mais além. O novo presidente republicano é um empresário para quem acordos e compromissos fazem parte, afinal, do próprio negócio. Para Hitler, por outro lado, qualquer acordo era um mau acordo. Por isso, em última análise, a abordagem política deles é completamente diferente para além da campanha eleitoral. Como foi indicado inicialmente, isso não significa que Trump não seja perigoso. O arriscado está no fato de o republicano, como demagogo e populista, fazer e dizer tudo que for necessário para chamar atenção e chegar ao poder.

Agência Efe

Manifestantes protestam contra Trump diante da embaixada norte-americana em Londres

Na melhor das hipóteses, isso significa que teremos um presidente que talvez não nos agrade muito, mas que não é nenhuma catástrofe, já que aceita acordos e compromissos.

Mas acho antes que esse cenário positivo não vai acontecer e que, na verdade, emana de Trump uma grande ameaça, pois como um populista e demagogo, ele destrói todas as regras escritas e tácitas da política americana, para chamar atenção e chegar ao sucesso. Afinal de contas, ele emprega as regras da "reality TV" americana na política, destruindo assim todas as regras políticas do país. E quando as regras da política e da vida social de uma nação são destruídas, então não se sabe que efeitos colaterais surgirão desse fato.

Trump não é comparado somente com Hitler, mas também os EUA com a antiga Alemanha nazista. Essa comparação é legítima?

A comparação é, naturalmente, legítima, mas é preciso se perguntar até onde se vai com ela. A semelhança está no fato de, na Alemanha da década de 1920 e 1930, uma classe média baixa e uma classe baixa se viam como as perdedoras da crise econômica mundial, da inflação e das consequências do Tratado de Versalhes – da mesma forma que acontece hoje nos EUA.

Ali, uma classe média baixa e branca acredita, pela primeira vez em décadas, que o futuro não será melhor que o passado, vendo-se como perdedora da globalização, de Wall Street e da crise financeira. Portanto, há certas semelhanças na situação política Alemanha-EUA no tocante a essas classes sociais e à sua disposição de apoiar Trump ou Hitler.

Mas deve-se ter cuidado para que essa comparação não seja levada longe demais. Afinal de contas, eu diria que as diferenças são mais importantes que as semelhanças. E, apesar de existirem sérios problemas, os EUA funcionam como Estado e sociedade, o que não era o caso na Alemanha no período entre guerras.




terça-feira, 21 de junho de 2016

Ele está de volta, por Mauro Santayana.


O lançamento, na Europa, do filme "Ele está de volta", uma "comédia" "leve" sobre o que aconteceria se Adolf Hitler voltasse à Alemanha de nossos dias, com cenas de pessoas parando, na rua, para tirar selfies com o maior assassino da História; e o relançamento de sua obra-síntese, o "Mein Kampf" — "Minha Luta", em vários países — uma edição portuguesa esgotou-se em poucas horas, esta semana, na Feira do Livro de Lisboa — mostram que, mais do que perder o medo de Hitler, o mundo está, para com ele, cada vez mais simpático, no rastro da entrega — quase sem concorrência — dos grandes meios de comunicação globais a meia dúzia de famílias e de milionários conservadores que, se não simpatizam abertamente com o nazismo, com ele comungam de um profundo, hipócrita, e tosco anticomunismo, fantasma a que sempre recorrem quando seus interesses estão em jogo, ou se sentem de alguma forma ameaçados.

Como também mostram o filme e o livro, e manifestações em vários lugares do planeta, defendendo a tortura, a ditadura, o racismo, o sexismo, a homofobia, o criacionismo, o fundamentalismo religioso, não é Hitler que está de volta.

É o Fascismo.

Um perigo sempre iminente, permanente, persistente, sagaz, que se esconde no esgoto da História, pronto a emergir, como a peste, com sua pregação e suas agressões contra os direitos individuais, a Liberdade e a Democracia, regime que não apenas odeia, como despreza, como um arranjo de fracos e de tolos, desprovidos de mão forte na defesa dos seus interesses.

Os interesses de uma elite "meritocrática" e egoísta, ou da elite sagrada, ungida por direito de sangue e de berço, na hora do nascimento.