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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Que país é esse?, por Joaquim Ernesto Palhares


A 'democracia' que estamos vivendo: que não decide nada de fundamental, capturada pelas determinações dos poderes econômicos que colocaram o Estado brasileiro a seu serviço. Na prática, uma espécie de "stalinismo neoliberal que depende exclusivamente do Estado para viver e dominar a plebe"

18/02/2019 07:39
(André Dahmer)
Créditos da foto: (André Dahmer

Você anda pelas ruas, apesar dos milhares de sem teto, e a sensação é a de que vivemos na mais pura e genuína democracia. Parece que o país não sofreu nenhum ataque ao estado democrático de direito, vale dizer, não houve golpe. É como se nossa economia surfasse em ondas de crescimento, com pleno emprego, confirmados por amplas pesquisas e total vigência de direitos sociais e trabalhistas.

A Petrobras e a Embraer ainda parecem nossas. Brumadinho? Nada a ver com o lucro pelo lucro das privatizações. Reforma trabalhista? Nem pensar. Justiça do Trabalho? Não será extinta. Reforma da Previdência? Suicídio de idosos no Chile? Que calúnia! Mortes de garotos futebolistas? Chacinas? Tudo invenção dos comunistas ou do marxismo cultural.

No Brasil do faz de conta, o presidente da República tem uma equipe ministerial coesa, competente, escolhida exclusivamente por critérios técnicos e não políticos ou ideológicos. Seu vice é um político nato, leal parceiro, um democrata e ambos falam a mesma língua. O governo não volta atrás após uma decisão anunciada e inexistem declarações estapafúrdias, muito menos ministros aconselhando pais a retirarem seus filhos do país.

Os filhos do presidente – 01, 02 e 03 – não exercem nenhuma influência política, afinal não fazem parte do governo.

Você anda pelas ruas e é como se houvesse segurança plena, sem balas perdidas e um projeto de país e, pior, como se as pessoas soubessem que projeto é este, porque ele foi amplamente debatido na campanha eleitoral. O que sabemos é que no tripé – economia, segurança e fundamentalistas – figuram dois superministros:

O da economia que, naturalmente, nunca foi investigado pela Polícia Federal por má gestão em fundos de pensão, jamais foi sócio de Daniel Dantas, nunca trabalhou para o Pinochet, nem foi diretor de um banco com quase quarenta filiais em paraísos fiscais.

O da Justiça e dos "etceteras", ao tempo que era Juiz de Direito Federal da República de Curitiba, jamais determinou uma condução coercitiva ilegal ou deu uma sentença destituída de provas, fundamentada exclusivamente em delações premiadas de criminosos. Em sua brilhante carreira, enquanto juiz garantista e isento, ouviu muitos testemunhos, dezenas dos quais de criminosos confessos, em procedimentos de delação premiada, exceto um a quem, sem sentença, declarou tratar-se de um criminoso, contrariando inclusive decisões da Corte espanhola.

Da mesma forma, jamais vazou conversas de uma Presidenta da República; jamais interferiu em eleições prendendo a principal liderança popular do país e, por acaso, o principal concorrente do atual presidente, seu chefe. Um servidor público tão exemplar e cioso de suas obrigações que mesmo em férias e fora do país interfere em decisões de autoridades superiores.

Um ministro pop, ícone de uma legião de juízes (existem exceções) que jamais diferenciaria amigos de inimigos, brancos de negros, pobres de ricos. O país parece não lembrar, apesar da transmissão ao vivo e em rede nacional, da apresentação de certo Power Point, produzido pela força tarefa do Ministério Público Federal, onde foi "decretada" a culpa de um ex-presidente, sem nenhuma prova concreta, apenas CONVICÇÕES, mas que serviu de fundamentação para a apresentação de uma denúncia criminal contra o ex-presidente.

Um primeiro parêntese: esse Power Point, é parte integrante e fundamental de mais um processo contra o ex-presidente, na fila do forno condenatório. Teria sido ele produzido e utilizado exclusivamente para fundamentar uma denúncia ou para obter resultados eleitorais? A verdade é que ele foi apresentado no dia 15 de setembro de 2016 (pasmem!), apenas 17 dias antes do 1º turno das eleições para as prefeituras de todo o país.

Um segundo parêntese: a denúncia fundamentada nesse Power Point adotou a teoria do domínio do fato para acusar o ex-presidente. Segundo a denúncia, como mandatário da nação, ele deveria conhecer todos os "malfeitos praticados por servidores públicos e por membros de seu partido".

Estranho, muito estranho.

No nosso país existem determinadas acusações, investigações, denúncias, instalação de procedimentos judiciais e decretação de prisões de servidores e membros de outros partidos políticos, por envolvimento em escândalos de propina, que não geram o mesmo efeito. Por exemplo, os escândalos do Cartel de trens e metrô de São Paulo, assumido pela própria corruptora; obras civis de grande porte;  licitações de transporte público;  desvios em merenda escolar;  crimes de caixa 2, denunciados em 2006 por Carta Capital, envolvendo campanhas de três dos principais candidatos do PSDB e outros tantos estão perdidos nos escaninhos da Justiça, alguns até mesmo com investigações policiais parados há mais de cinco anos.

Um terceiro parêntese: um ex-Senador de Minas, criador do crime que passou a ser conhecido como mensalão tucano, delitos praticados em 1998 durante sua gestão como governador, somente em 2017, ou seja, 19 anos depois, foi julgado e o réu preso.

O estranho é que vários envolvidos nestes crimes recentes foram presos e estão sendo processados, porém, dos figurões do PSDB somente um está sendo processado, mas ele próprio e os demais não sofreram nenhum outro tipo de constrangimento, além de breves notícias da imprensa e todos detêm o domínio do fato.

Não é estranho? Um dos principais envolvidos, tido e havido como "capa preta" do PSDB acaba de ser libertado por ordem do "soltador mor" e o crime corre para a prescrição.

Agora, Brumadinho, onde engenheiros e técnicos são presos e o presidente da empresa, também detentor do domínio do fato, até agora nada...talvez por ter sido indicado para o cargo pelo Mineirinho.

Falando em bandidos...

É como se as milícias não existissem e nada tivessem a ver com a família real e com assassinatos de uma vereadora e lideranças sociais. Calúnia também é afirmar que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria grampeado representantes do Papa, chefe do Estado do Vaticano e autoridade máxima da Igreja Católica.

Você anda pelas ruas e leva um susto porque, apesar de tudo, as ruas estão vazias. Impossível não lembrar de 2013, 2014, 2016... E você se pergunta "o que está acontecendo"? E observa a verdadeira queda de braços, por privilégios, entre mídia e governo.

Que país é esse?

Até parece que a grande mídia é investigativa, movida pelo afã da verdade, pelo compromisso com a comunicação. Vejam o sossego que deram para o motorista da família Presidencial que, apesar dos "rolos", é excelente pé de valsa e passa bem, muito obrigado, quem sabe um dia, quando der na telha, ele aparece lá Ministério Público...

Mas isso tem explicação: pode ser porque ele não é um petralha.

Na verdade, o atual governo é isento de suspeitas. Nada pesa contra o Presidente da República, sua família, partido e base de apoio. Chegou ao Planalto numa disputa totalmente dentro das regras democráticas, um WhatsApp aqui outro ali, tudo sem muita importância, tanto que foi investigado pelo TSE que nada encontrou de ilegal.

No geral, trata-se de um governo composto por um fantástico quadro de ministérios que não tem, de jeito nenhum,  uma suposta sequestradora de uma criança indígena; um detrator de Chico Mendes; um defensor de milícias; um acusado de fraude ambiental; um suspeito de desviar fundo de pensão; suspeitos de desvios de recursos do Fundo Partidário (suspeita-se que o dinheiro foi transferido para uma senhora, dois dias antes do final da campanha, ela já se encontra no exterior).

Também não tem, de jeito nenhum, aquele bando de urubus engravatados a serviço das corporações estrangeiras, ocupando cargos de ponta. Nem juiz acostumado à fama, acusado de abuso de poder, com as Nações Unidas no pescoço. Na Pátria Amada, não tem nada disso e a polícia só pode matar em legítima defesa.

Você anda pelas ruas e é como se no poder Judiciário, ninguém tivesse rabo preso. Vide a Suprema Corte, contra a qual não pesa nenhuma suspeita. Que digam as mútuas acusações feitas em plenário, ao vivo e a cores, para todo o país assistir. Aliás, o sentimento é de que as instituições operam normalmente. É por isso que, no Brasil, golpes são impossíveis de serem armados e executados.

Ante qualquer ameaça ao regime democrático, a imprensa, o STF, o STJ, o TSE, TRFs, o MP e própria PF atuam em socorro da democracia. Seus membros jamais operam por interesses próprios ou políticos. É por isso que essas instituições são tão ilibadas. Os agentes de justiça zelam, dia após dia, pela proteção do Estado Democrático de Direito. Tudo do povo, pelo povo e para o povo, frase consagrada por Abraham Lincoln.

Um golpe também seria impossível porque temos um conjunto, diversificado e representativo da pluralidade que é o país, de empresas de comunicação. Comprometidas com a liberdade de expressão essas empresas estão preocupadas em informar bem as pessoas.  Não manipulam o debate, trabalham com o contraditório, criam dúvidas saudáveis em seis leitores ou telespectadores, verdadeiramente botam o país para pensar.

Aliás, seriam as primeiras a denunciar conspirações ou golpes de estado. Nacionais e internacionais, em respeito à soberania dos povos e temor à iminência de uma guerra, pauta impensável, afinal, estamos seguros no Brasil. É cada vez menos importante o conteúdo que vem da imprensa mundial, não vem ao caso o que afirmam ou escrevem, afinal, são dominados por comunistas e impregnados de marxismo cultural.
É fake news que mais de 60 milhões de brasileiros estejam com seus nomes "sujos" nos cadastros de controle de crédito.

O atual governo está tão ciente de que nosso pior inimigo é a desigualdade social, que passaremos a fazer justiça na cobrança de impostos. Estamos seguros de que nosso sistema bancário jamais apostará contra o país na ciranda financeira. O Banco Central está fortalecido, mais precisamente sobre o controle do lucro (spread) dos bancos, impedindo que ele seja o mais alto do mundo e em boas mãos, um economista de Chicago, neto do pai do neoliberalismo brasileiro.
Você anda pelas ruas e é como se vivêssemos em um país soberano. Um Brasil que jamais permitiria a instalação de bases militares do império em território pátrio, muito menos entraria ou facilitaria uma guerra contra um país irmão, como é o caso da Venezuela.

Aliás, seria impensável um general brasileiro assumir o subcomando no Comando Sul dos Estados Unidos. O atual governo, inclusive, deu provas de total consciência de que isso seria incompatível com nossa política nacional de defesa, até porque isso foi decidido no Congresso Americano e não no brasileiro, basta procurar vídeo no youtube.

Além disso, temos um chanceler que é exemplo de estratégia e inteligência. Sem dúvidas, ele saberá aproveitar as oportunidades abertas na disputa pela hegemonia entre Estados Unidos e China. Até porque tem sido inspirado pelo guru da República. Um homem verdadeiramente sábio, conhecedor dos mistérios dos astros e das principais teorias filosóficas que nos guiaram até este verdadeiro paraíso na terra.

Tanto que na Educação, ministério de tão grande relevo, existe outro pupilo por ele ungido. Um ministro que mostra ter plena consciência da importância da universidade pública. Privatizar o ensino superior? Militarização total, em todas as esferas do ensino? Controle ideológico de professor? Escola Sem Partido? Questões que passam longe das preocupações de alunos e professores.

Não nos enganemos: o que ouvimos de críticas não passam de calúnias, afinal, a ONU é comunista, o Papa é comunista, até Obama, para quem Lula é o cara, é comunista. E que ninguém aqui nos acuse de falsa ironia! Trata-se de ironia verdadeira e assumida, porque você anda pelas ruas, praias, parques, shoppings e a sensação é a de que nada de grave está acontecendo.

Falando sério...

Marielle e seu motorista foram assassinados e até agora, passados mais de 11 meses de "investigação" sequer suspeitos foram efetivamente apontados. Um escândalo pior do que outro surge na mídia e desaparece, sem consequência alguma. Nada funciona e aumentam represálias e ameaças contra parlamentares, artistas, professores, cientistas, jornalistas.

Agora, após a morte dos meninos no Flamengo, descobriu-se que o local não tinha "Habite-se". E pior: a prefeitura do Rio de Janeiro, segunda cidade em importância da América do Sul, também não tem "Habite-se".
Aliás, certamente, o Brasil não tem "Habite-se".

Fake news continuam a todo vapor disseminando ondas e ondas de desinformação e, ninguém, até agora, impediu isso. Nenhuma voz é forte o bastante – seja do meio político, jurídico ou da sociedade civil – para alertar o risco imenso que corremos.

Risco de entrarmos em uma guerra que justifique o Estado de exceção e policialesco que, ao fim e ao cabo, é o que está aparecendo no horizonte, porque, como afirma Manolo Monero - editor de El Viejo Topo de Madri –, em Crisis de las ideologías e ideologías de crisis, nós estamos vivendo um anticomunismo sem comunistas, um anti-socialismo sem socialistas, uma contrarrevolução sem revolucionários.

As elites dominantes sentem que não têm inimigo. Não precisam mais pactuar seu modo de vida, seus privilégios, suas crenças, com uma plebe que não possui um projeto, um partido, um movimento social e sindical forte, portanto com baixa capacidade de resposta, vide o silêncio constrangedor das ruas. O que está em questão é o reformismo.

Falar do programa do PT como o programa de uma força comunista, socialista, revolucionária é um exagero histórico. O que o sistema não admite hoje é o reformismo em fortes ou débeis versões. O que aparece é uma elite com aspiração e poder de impor seus pré-juízos a toda a sociedade.

O que resta à democracia? Somente seu aspecto mais formal, um procedimento para selecionar as elites governantes. Desaparece a democracia entendida como meio para conseguir justiça social, igualdade substancial entre homens e mulheres e desenvolvimento das liberdades públicas.

Sobra, portanto, essa democracia que estamos vivendo:

Uma democracia que não decide nada de fundamental, capturada pelas determinações dos poderes econômicos que colocaram o Estado brasileiro a seu serviço. Na prática, uma espécie de "stalinismo neoliberal que depende exclusivamente do Estado para viver e dominar a plebe."

E mal chegamos a 50 dias de governo...

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O gol contra das elites brasileiras Por Joaquim Ernesto Palhares.


09/07/2018 09:54
 

Finda a Copa do Mundo, o Brasil retoma o cotidiano de desmontes. Estamos, após o mundial, muito mais pobres e desprotegidos. Três exemplos bastam, aprovação da PL do Veneno, a entrega dos 70% do pré-sal às estrangeiras e, claro, a venda da Embraer nesta semana.

A festa do agrotóxico – impedida em vários países, por isso eles jogam agrotóxico nas nossas terras – foi garantida por parlamentares que ignoraram todos os laudos científicos apresentados contra o projeto de lei. Estamos falando de comida envenenada, de trabalhadores envenenados, de imensas extensões de terra envenenadas.

A entrega do pré-sal, que analisamos na última semana, é outro descalabro que passou durante a Copa, levando à publicação da Carta do ex-presidente Lula, indignado, como todos estamos, com o roubo do pré-sal, um patrimônio de todos nós, sobretudo, das novas gerações.

O terceiro exemplo da virulência do desmonte, perpetrado durante o mundial, foi a venda da Embraer que, juntamente com a Petrobrás, atuava no centro do projeto de desenvolvimento nacional e econômico dos governos Lula, abordado, aliás, no livro organizado pelo economista Pedro Chadarevian a pedido da editora Routledge, para explicar ao público acadêmico internacional o que aconteceu e está acontecendo no país (mais aqui).

O terceiro desmonte foi a venda da Embraer, imenso golpe à política de desenvolvimento nacional dos anos Lula, assim como a Petrobras, um patrimônio nacional, segunda maior em exportações e uma das propulsoras de pesquisas em tecnologia. Um verdadeiro gol contra do Brasil, à favor da norte-americana Boeing, com direito a escancarado apoio das Organizações Globo.

Vivemos em tempos de mudança. Ao contrário da “ponte do futuro” de Temer que nos trouxe a esse brejo, o desenvolvimento tecnológico é o único caminho para entrarmos no século XXI. Em junho, a National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos publicou um relatório sobre os Indicadores de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos que merece atenção, confira aqui (em inglês)

Em 2015, os Estados Unidos investiram 2,74% do PIB em pesquisa em desenvolvimento; a China, que já ultrapassou os norte-americanos em número de publicações científicas, investiu 2,07% naquele ano. Em 2014, quando ainda havia governo, nós investíamos 1,17% do PIB.

Segundo reportagem da Câmara dos Deputados, em 2014, foram injetados R$ 8,4 bilhões em Ciência e Tecnologia; em 2018, o governo programava investir apenas R$ 2,7 bilhões. Vejam o que aconteceu, na prática, de janeiro até agora, conforme detalha a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC):

"Dos cerca de R$ 1,6 bilhão gastos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), R$ 83 milhões foram utilizados pela Secretaria de Telecomunicações (Setec), enquanto a Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação obteve pouco mais de R$ 19 mil. Também sob a rubrica da pasta, o Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) recebeu, até o momento, de R$ 740 mil, dos quais R$ 680 mil serviram para cobrir apenas despesas correntes, sobrando R$ 60 mil para investimentos" (leia mais na RBA).

Enquanto as potências mundiais investem em Ciência e Tecnológica, nós estamos deixando de investir. O estrangulamento do setor, pelo corte de verbas, alia-se ao desmonte de toda uma estrutura – puxadas pela Petrobras e Embraer – de criação, desenvolvimento e geração de tecnologia nacional. As decisões de Temer, sem exceção, visam impedir a entrada do Brasil no século XXI. Um ataque evidente à soberania nacional.

E por falar em soberania nacional, não deixem de ler a entrevista exclusiva de Celso Amorim, “López Obrador é um exemplo para América Latina”, sobre a eleição de AMRO no México. Em sua avaliação, a vitória de Obrador “desmente o argumento de que a onda progressista na região se esgotou. Este é o primeiro governo de esquerda no México nos últimos 90 anos”.

Amorim também comenta a visita de Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, ao Brasil. Para o chanceler, essa visita tem dois objetivos: garantir um maior isolamento da Venezuela e que o petróleo brasileiro seja explorado pelas multinacionais.

“A posição dos Estados Unidos como potência hegemônica não se explica nas posições de Donald Trump. Estou falando dos interesses do chamado ´Estado profundo´ que existe nos Estados Unidos, onde estão os interesses dos grandes grupos econômicos, da comunidade de inteligência, da indústria militar. Todos esses fatores vão trabalhar para isolar a Venezuela”, aponta.

“Sabemos que a criação dos BRICS (bloco de novas potências, com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) causou uma grande preocupação a esse “estado profundo” norte-americano. E além de tudo isso, é preciso considerar o descobrimento do Pré-Sal, e a decisão de mantê-lo sob o controle da Petrobras”, complementa. (Leia a íntegra da entrevista aqui).

Daí a importância das eleições em outubro próximo. A direita, não tenhamos dúvidas, não terá pudores em abraçar a ultradireita até porque, bem lembra Gilberto Maringoni em “O empresariado ligou o foda-se”, para eles “pouco importa se as mãos de quem dirigirá o país estiverem sujas de sangue, se há apologia de Brilhante Ustra, ou se há pregação misógina, homofóbica ou de ódio aos pobres. Isso é bobagem. Estamos falando de negócios”.

O mais grave é que não apenas o empresariado ligou o botão de foda-se. No alto de suas cadeiras, a Corte Suprema não apenas assiste ao desmonte do país, como dele participa. Vê, a olhos nus, a democracia ser corroída no seio de suas instituições e nada faz. Ou melhor, faz: acelera ou retarda o processo histórico, esquivando-se do papel central que lhe cabe: proteger a democracia e, sobretudo, a soberania do Brasil.

Não é preciso, nessa altura do campeonato, salientar o quanto é fundamental a luta da mídia alternativa nesse contexto. Dependesse das Organizações Globo, o Brasil inteiro estaria jogando contra a nossa soberania. Torcendo pela Boieng, pela Exxon, pela Shell, os patrões da elite brasileira. Uma das elites mais imbecis da nossa história.

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Boas leituras,

Joaquim Ernesto Palhares

Diretor da Carta Maior

terça-feira, 19 de junho de 2018

Às ruas contra o fascismo, por Joaquim Ernesto Palhares


13/06/2018 15:57
 
Um vídeo absolutamente dantesco está circulando nas redes sociais. Um menino, dez anos no máximo, pobre e negro, é impedido de comer em um shopping de Salvador, Bahia. Um cliente que havia se oferecido a pagar a refeição da criança é hostilizado pelo segurança que afirma: “aqui ele não come”, chegando ao ponto de agredir o garoto, segurando-o pelos braços. Outros seguranças foram chamados e somente após muita humilhação, o menino conseguiu seu prato de comida. Confiram o vídeo aqui.
Onde estamos?

Além da agressão a um menor de idade, impressiona que, com exceção de duas mulheres, ninguém ousou interceder em favor do garoto ou de seu defensor, também, negro. Sentados em suas mesas, saboreando o fast food, as pessoas permaneceram alheias e em silêncio. Levantassem todos naquele momento, o segurança não teria como impedir o garoto de se alimentar. O abuso de poder poderia ser contido caso todos reagissem. Certamente, o desfecho do vídeo foi positivo porque o episódio estava sendo gravado. Havia o “olho do povo” contendo a violência. Onde esse olho não existe, sabemos muito bem o que acontece. 

O vídeo provoca dois sentimentos imediatos. Por um lado, a revolta ante a violência servil dos jagunços (seguranças) e total indiferença dos demais. De outro lado, a esperança ante a coragem do cliente que saiu, sozinho, em defesa do menino. O que se vê nessas imagens é o retrato instantâneo da sociedade brasileira: o fascismo. Não iremos combater o fascismo de braços cruzados. 

Diante de situações como essas, nós precisamos nos manifestar. Toda vez que nos sentirmos intimidados por um fascista, o fascismo vencerá. Se pensarmos que Lula detém 30% das intenções de voto, a pergunta mais óbvia é: onde estão essas pessoas? Se todas fossem às ruas, estaríamos falando, em média, de 60 milhões de brasileiros expressando sua indignação contra o sequestro de seu voto, seu candidato (Lula) e contra a destruição do país. Não podemos mais nos dar ao luxo de ficarmos em casa quando as ruas precisam falar. 

A nossa voz e a nossa presença são decisivas neste momento histórico. O que estamos enfrentando não é pouca coisa. O que está em jogo neste 2018 é a perpetuação disso como uma política de Estado ou a garantia dos direitos humanos e sociais conquistados pelo povo brasileiro nas últimas décadas. Devemos honrar os brasileiros que foram às ruas em 1961, 1964, 1968; os que lutaram pelas Diretas Já; os que morreram por este país, os que estão desaparecidos e foram vítimas das mais bárbaras torturas comandadas pelos generais com apoio da Rede Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e por mais de 60 empresas.

Eleitores de Jair Bolsonaro não têm a menor ideia do que foi a ditadura. Não sabem o impacto daquilo que defende seu candidato:  Estado Mínimo, venda de estatais nacionais, armamento da população (a bancada da bala agradece), redução da maioridade penal, fim da demarcação de terras indígenas, venda de terras a estrangeiros, fim da universidade pública. E o que dizer da animosidade em relação aos países latino-americanos? Ou outros tantos absurdos defendidos por essa sujeito homofóbico, racista e misógino que, queiramos ou não, tem base social.

O deputado candidato é contra a taxação de grandes fortunas, contra a taxação de lucros e dividendos e a favor da PEC 95, aquela que mantêm congelados os investimentos em educação, saúde e segurança por 20 anos. Engana-se quem pensa que a Globo é contra ele. No que mais importa (o tripé acima mencionado), eles estão juntos. Querem inclusive entregar o país e vender a Petrobras – Globo, Bolsonaro, Temer, Alckmin, Parente e cia. São todos iguais.

Durante pelo menos duas décadas, os veículos dessas empresas no exterior e aqui no Brasil, repetiram à exaustão a mesma ladainha de exaltação do Estado Mínimo, do livre mercado, das privatizações, da desregulamentação dos mercados, da necessidade de flexibilizar as relações trabalhistas, a legislação ambiental, da urgência de uma reforma da Previdência. 

Em 2008, porém, quando esse modelo afundou, saíram todos correndo para bater nas portas no Estado: mais de 1 trilhão de dólares foi a cifra dada pelo Tesouro Americano para salvar sistema financeiro global. Os lucros milionários dessas décadas foram apropriados por alguns poucos afortunados, os prejuízos foram socializados com o conjunto da população e a mídia fez de conta que não havia dito o que disse durante décadas.

Nenhum desses meios de comunicação veio a público assumir sua parcela de responsabilidade diante da crise de 2008. No Brasil, inclusive, fortaleceram o discurso, defendendo que o mercado se acalmaria, os investimentos retornariam, a incompetência seria substituída pelo “Dream Team” e a corrupção seria contida se Dilma Rousseff fosse afastada em 2015. 

A realidade conta outra história. Em “A Ficha Caiu”, artigo publicado no Valor, em 11 de junho, o professor Fernando Limongi (DCP/USP), aponta que “os liberais se eximem de culpa e a única solução que enxergam para a crise é a radicalização de seu programa”. A única saída do neoliberalismo é a sua radicalização. 

Não à toa, a Globo finge ser contra um candidato como Bolsonaro. Aliás, esse é um fenômeno que acontece em todo o mundo. O papel da Comunicação seria justamente o oposto disso: caberia a seus veículos, antes de mais nada, duvidar e colocar em debate o pensamento hegemônico (leia-se neoliberal), dando voz a todas as correntes de pensamento. Isso sim seria uma comunicação democrática. 

Ao contrário da mídia neoliberal, Carta Maior sempre se anunciou como um portal de esquerda e, há mais de 17 anos, vem garantindo a presença do contraditório silenciado pela mídia hegemônica. É de fundamental importância a guerrilha diuturna que realizamos; mas é a formação política que nos possibilitará enfrentar o fascismo no campo das nossas certezas. Não aceitar passivamente a agressão a uma criança faz parte dessa formação. 

Diante do quadro que se apresenta, nosso trabalho é cada vez mais necessário. Para desenvolvê-lo, nós precisamos do compromisso e da participação de todos vocês. Se vocês valorizam o conteúdo da Carta Maior, saibam que estamos melhorando ainda mais e teremos mais novidades na próxima semana.

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Joaquim Ernesto Palhares
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