O martelo está batido.
Começamos uma nova história sem uma ideia na cabeça, condenados em meio
às trevas a tatear em busca de um caminho para uma sociedade que se
perdeu de si mesma, do seu passado e de suas melhores tradições, tanto
nas elites como nos setores subalternos. É hora de recolher os cacos,
identificar as raízes dos nossos erros, da autocrítica impiedosa quanto
aos rumos equívocos em que nos deixamos enredar e ameaçam pôr sob risco
nossas conquistas democráticas. Trata-se de uma derrota política
levada a efeito no campo do processo eleitoral, terreno que sempre
identificamos como propício ao avanço dos temas sociais e das lutas pela
igualdade, e cuja expressão quantitativa ainda mais denuncia a sua
gravidade e o alcance de suas repercussões.
Mas com o erro também se aprende e não são poucas as lições que essa miserável sucessão presidencial
deixa como legado para os que recusam que o veneno do que há de mais
anacrônico no passado volte a assumir as rédeas do nosso futuro, como
nesse retorno patético ao anticomunismo do presidente eleito,
que, na verdade, visa a atingir a nossa Constituição. Com efeito, fora
os artifícios de mão usados na campanha vitoriosa de Bolsonaro,
como o desse cediço anticomunismo, analisados os resultados eleitorais,
principalmente em alguns dos Estados da Federação, o que há de comum
neles é o argumento utilitarista, fundamento filosófico do neoliberalismo. No cerne do texto constitucional, entretanto, vige o princípio da solidariedade, antípoda desde E. Durkheim, das concepções utilitaristas, alvo oculto das campanhas bolsonaristas em Minas Gerais e no Rio de Janeiro,
acompanhando a orientação da candidatura presidencial e do seu
principal consultor econômico de explícita adesão ao ideário do
neoliberalismo.
O princípio da solidariedade e o centro político guardam relações antigas no processo de modernização conservadora do País, pois se iniciam com Vargas na legislação social sob a inspiração do corporativista Oliveira Vianna, embora sob o registro restritivo do autoritarismo e da tutela dos trabalhadores. Depurada dessa chave a Constituição,
que é obra do centro político, a solidariedade foi elevada a princípio
fundador da República, com o mesmo estatuto dos princípios da liberdade e
da igualdade, conferindo caráter público à previdência social, que ora
muitos dos atuais eleitos querem deslocar para a dimensão do mercado.
Dessa
perspectiva, não se pode ignorar talento político aos estrategistas do
campo vitorioso, que mantiveram sob estrita clandestinidade seu programa
in pectore de reformas, inclusive as constitucionais, confiando ao PT
e a seus aliados e aos intelectuais que gravitavam em torno dele, em
nome da luta contra a corrupção, a tarefa de implosão do centro
político, trave-mestra da arquitetura constitucional e de suas
principais instituições, como o Poder Judiciário, como em escandaloso fato recente vindo à luz por inconfidências palacianas em que se ameaçava o Supremo Tribunal Federal.
Caem os véus e já se divisa a situação de risco a que seremos submetidos. Querem nos reduzir ao Homo oeconomicus, aqui, no país do carnaval, do Círio de Nazaré, do culto de massas a Nossa Senhora Aparecida e do candomblé, onde o capitalismo
jamais foi uma ideia popular, vindo de cima por imposição do Estado.
Aqui, onde as favelas são denominadas comunidades e o individualismo
metodológico só existe na bibliografia importada, vinculados que estamos
às nossas raízes ibéricas, na forma do belo estudo de Rubem Barbosa Filho em Tradição e Artifício (UFMG, 1998), em trilha aberta pelo saudoso brasilianista Richard Morse.
O sistema de defesa contra a barbárie está à mão e começa a operar na defesa da Carta de 88, reduto das nossas melhores tradições e programa para uma futura social-democracia, que ela já contém em embrião. Seus defensores estão alinhados, à frente de todos o decano do STF, o ministro Celso de Mello.
Os primeiros esboços do que deverá ser a oposição começam a ser
debatidos, e digno de atenção é o pequeno texto do ensaísta Antonio
Risério Por um outro caminho, em que se sustenta a tese da necessidade “de
construção de um novo e contemporâneo partido de centro-esquerda
verdadeiramente centrado no campo da social-democracia. (...) A fusão de
PPS, Rede e PV (linha Eduardo Jorge) pode vir a ser um passo primeiro e
fundamental. Mas é preciso trazer para este campo magnético os focos
genuínos da social-democracia que ainda resistem (minoritários) no PSB e
no PSDB. Tentar trazer também para este processo construtivo os raros
verdadeiros democratas que insistem em tentar sobreviver no MDB. E em
outros movimentos e instâncias da sociedade”.
Esse sistema geral de orientação não sairá do papel sem os intelectuais,
a quem coube assumir posições de vanguarda na formação da opinião
pública em momentos cruciais da história do nosso país, tal como no
movimento abolicionista pela obra e ação de Nabuco, Antônio Rebouças e José do Patrocínio, e mais recentemente nas lutas sociais e políticas em favor de um Estado Democrático de Direito, pelo envolvimento ativo de personalidades que, entre tantas, podem ser lembradas: Florestan Fernandes, Raimundo Faoro e Fernando Henrique Cardoso. O momento da hora presente confronta nossos intelectuais com desafios e exigências do mesmo calibre.
Na cena política aberta à nossa frente não há como negar que o longo ciclo da modernização conservadora
chegou ao fim nesta triste sucessão presidencial. O passado não mais
ilumina, como diria um grande autor, e não se pode ser mais fiel a ele.
Reflexividade não é um conceito da moda entre cientistas sociais, mas
uma exigência do tempo presente que requer de cada um de nós a escolha
do caminho a seguir quando nos devemos soltar do que nos aparecia como
destino de um país do Terceiro Mundo e dele prisioneiros. Sem os intelectuais não faremos isso.