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terça-feira, 11 de junho de 2019

O RACISMO DA ACADEMIA APAGOU A HISTÓRIA DE DANDARA E LUISA MAHIN, por Ale Santos

Reprodução de foto de Luisa Mahin.
Reprodução de foto de Luisa Mahin.
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Foto: Alberto Henschel/Domínio Público
O RACISMO DA ACADEMIA APAGOU A HISTÓRIA DE DANDARA E LUISA MAHIN
Ale Santos
4 de Junho de 2019, 0h05
Este texto é uma resposta à historiadora Ana Lucia Araujo, que considera perigosa a inclusão no Panteão da Pátria de guerreiras cuja existência não teria sido provada. O projeto, aprovado pelo Senado, ainda depende da apreciação do presidente. 

A ESCRAVIDÃO INTERROMPEU a história da África e de seus descendentes, roubando séculos de produção intelectual em troca de trabalho forçado. O Brasil só aboliu a escravidão há menos de 131 anos e é natural ver alguns nomes de heróis afro-brasileiros sendo reconhecidos cada vez mais no Panteão da Pátria, um memorial cívico inaugurado em 1986 para homenagear personalidades brasileiras.

No “Livro dos heróis e heroínas da pátria”, já constam nomes como Luís Gama, Anita Garibaldi, Zumbi dos Palmares e Heitor Villa-Lobos. Recentemente, o Senado aprovou a inclusão de duas lideranças negras: Dandara, líder quilombola que articulava as estratégias de Palmares ao lado do marido, Zumbi, e Luisa Mahin, considerada uma das maiores lideranças negras contra a escravidão na Bahia do século 19, mãe do abolicionista Luís Gama. Ambas são símbolos da luta feminina contra a escravidão.

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Assim como a maior parte dos personagens negros, o nome dessas duas guerreiras é envolto em polêmica. Historiadores desconectados da realidade negra questionam as fontes que comprovam a existência dessas mulheres porque só há relatos esparsos das suas vidas. Ambas acabaram alvos do desinteresse de historiadores da época, e ainda hoje existe uma dificuldade imensa em recuperar suas biografias por não haver um esforço em catalogar e analisar a tradição oral como fonte historiográfica. A maior parte da vida de Dandara, por exemplo, sobreviveu na forma de lendas, segundo a Fundação Palmares. Não há registros do local onde nasceu, tampouco da sua ascendência africana.

Não sobraram evidências físicas sobre a Dandara após o ataque a Palmares. Nos poucos registros, sabe-se que ela chegou no quilombo ainda menina e participava tanto das atividades corriqueiras, como caça ou agricultura, quanto das atividades de defesa e combate pelo quilombo. Ao ser presa, em 1694, decidiu que nunca seria escravizada e se jogou de uma pedreira para o abismo.

ale-03-1559668980 Ilustração de Luís Game e sua mãe Luísa Mahin. Ilustração: Thiago Krening/TVE/RS
A mãe de Luís Gama é tratada da mesma maneira pela história. Não existem registros oficiais de suas participações nos levantes baianos. O primeiro documento que descreve Luisa é uma carta do abolicionista endereçada ao jornalista Lúcio de Mendonça. A existência de Luisa Mahin é comprovada na descrição de seu filho Luís Gama.

Segundo a historiadora Ligia Fonseca Ferreira, “a riqueza de detalhes e o testemunho pessoal atribuem veracidade a narração de Gama, ampliando as possibilidades de aceitação da personagem”. Luisa pertencia à nação nagô-jeje, originária do Golfo do Benin. Era do povo Mahin, daí seu sobrenome. Ela sempre negou o batismo e manteve suas tradições africanas acima das doutrinas cristãs. Sua casa teria sido o quartel general da Revolta dos Malês em 1835.

A falta desses registros em papel, que nunca seriam obtidos de modo fácil ou que sequer existam, gera um questionamento que, a meu ver, é a face de um preconceito secular na historiografia, tema abordado em “História Geral da África I” por Joseph Ki-Zerbo, um dos mais respeitados historiadores africanos. Segundo Ki-Zerbo, os estereótipos raciais criadores de desprezo estão tão profundamente consolidados que corromperam inclusive os próprios conceitos da historiografia.

A inscrição dessas duas mulheres no Panteão da Pátria não é apenas um reconhecimento das figuras históricas, mas significa uma pequena ruptura na historiografia com viés colonial, um passo em direção a valorização da tradição negra-brasileira como uma entidade histórica. Isso contribui para a construção e fortalecimento da consciência étnica do povo afro-brasileiro. Sem isso, negros e indígenas seguirão a mercê da visão de quem os manteve cativos, exatamente como diz um famoso ditado africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça seguirão glorificando o caçador.”

ale-00-1559661214 Retrato de Machado de Assis. Reprodução: Wikimedia Commons.
Negros que não se achavam negros
Esses estereótipos a que Ki-Zerbo se refere surgiram de forma mais intensa nas produções brasileiras do século 19. Apesar da existência de uma pequena e importante elite intelectual negra, representada por nomes como André Rebouças, Joaquim Nabuco e Machado de Assis, ela estava envolta em uma sociedade em busca do branqueamento. Joaquim Nabuco, por exemplo, sequer se considerava negro e dizia que Machado de Assis também não era. O racismo influenciou, portanto, toda a produção de história daquele período.

O médico Raimundo Nina Rodrigues – que dá nome até hoje ao IML de Salvador e a um hospital em São Luís do Maranhão – se tornou um dos maiores expoentes do preconceito racial. Em sua obra “Os africanos no Brasil”. publicada em 1932, defendeu que, apesar de um mestiço ou negro livre parecer inteligente, não se pode esquecer da sua condição e realidade social:

“Não o pode deter a confusão pueril entre o valor cultural de uma raça e as virtudes privadas de certas e determinadas pessoas. Se conhecemos homens negros ou de cor de indubitável merecimento e credores de estima e respeito, não há de obstar esse fato o reconhecimento desta verdade — que até hoje não se puderam os negros constituir [sic] em povos civilizados.”

É possível encontrar trechos de livros ou matérias de jornais expressando o preconceito de maneira descarada durante toda a fundação da República e mesmo depois. É muito difícil imaginar qualquer autor, historiador e antropólogo vivendo no início da República ou sendo influenciado por grandes personalidades (eugenistas) brasileiras, sem que tenha absorvido sua apatia, preconceito e desprezo pela produção cultural da diáspora negra – vide Gilberto Freyre descrevendo de forma fria e quase romantizada as relações de estupro e abusos recorrentes durante a colonização.

Apesar disso, ainda podemos festejar o dia 21 de março de 1997 como um ponto de virada para nós, quando Zumbi dos Palmares teve seu nome escrito como herói no Panteão. Sua inclusão não significava apenas a valorização de um dos líderes da revolta afro-brasileira contra a escravidão colonial, mas o reconhecimento da importância das tradições orais do povo preto em nossas terras. Zumbi ainda sofre com o fato de a maioria das coisas escritas sobre sua vida venham de quem odiava a resistência quilombola. Sua biografia vem de registros em crônicas ou notícias trazidos por holandeses, um manuscrito chamado de “Relação das guerras feitas aos Palmares de pernambuco no tempo do governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678” e uma descrição em diário de uma expedição que teria visitado uma das possíveis Palmares.

Talvez o racismo dos historiadores de ontem não seja expresso de forma tão direta atualmente, mas os estereótipos raciais ficaram impregnados na pesquisa histórica e na forma padrão de construção do conhecimento historiográfico, construída durante a colonização. Ela determinou o que era civilizado e o que era selvagem. Assim, exterminou outras formas de conhecimento. O professor Boaventura de Santos Souza chama isso de “epistemicídio”. Para ele, “o conhecimento eurocêntrico nas ciências sociais e aliado às outras ciências […] foi construído para não valorizar essas outras experiências”.

Isso impacta diretamente no julgamento de quem olha para a cultura africana sem considerar a tradição oral, que é a principal forma de manutenção da memória popular de quase todo o continente e se contrapõe à historiografia tradicional fundada sobre a escrita. Sem uma tradução intercultural, o historiador pode considerar personagens da história negra como “mito ou folclore” apenas por não encontrar evidências escritas e detalhadas sobre os personagens. Mas é preciso levar em conta que, para os povos ancestrais em África, a palavra falada é um documento muito mais importante a qualquer outro registro talhado em pedras.

Ynaê Lopes dos Santos, autora de “História da África e do Brasil Afrodescendente”, diz que há séculos a historiografia ocidental tem grande dificuldade em trabalhar com a tradição oral, pois o advento da escrita foi tomado como o grande marco a partir do qual a humanidade passou a ter história. “Durante muitos anos, essa perspectiva historiográfica esteve a serviço de projetos imperialistas e colonialistas europeus que tomavam a ausência da escrita como um sinal de ‘não desenvolvimento’ dos povos ágrafos, sem considerar que até pouco tempo atrás grande parte da população da Europa era analfabeta”, disse.

A historiadora acredita que a tradição oral de povos africanos, indígenas e de regiões da Ásia e a Oceania deixou de ser estudada como deveria, pois todas elas receberam “premissas e perspectivas eurocêntricas”. Além dessa análise comprometida e apressada, esses povos foram reduzidos ao nível de “primitivos” e não despertaram interesses em historiadores formados com base nessas perspectivas tradicionais eurocentradas.

Mas transformações nas primeiras décadas do século 20, diz Santos, como a Escola dos Annales, passou a discutir o quanto inviolável eram os documentos escritos. “Passou-se a questionar que mais do que ‘contar a verdade’, esses documentos apontavam versões sobre um determinado momento histórico, e que era necessário ampliar o escopo das fontes, cruzá-las e confrontá-las para que pudéssemos ter uma visão mais aproximada de fatos, eventos e personagens do passado”, explica.


No carnaval carioca de 2019, a Unidos da Tijuca desfilou um navio negreiro com coreografias que remetiam à escravidão.Fotos: Jorge Hely/FramePhoto/Folhapress

Mas modificar um pensamento que moldou a produção de história por séculos e se tornou hegemônico é um processo intenso e vagaroso. A Unesco, por exemplo, levou mais de três décadas para reunir mais de 350 especialistas, coordenados por 39 historiadores – um deles Ki-Zerbo –, que revisitaram fontes, perspectivas e colheram fontes de tradição oral, manuscritos inéditos e promoveram uma discussão sobre a metodologia para contar a história da África.

A obra, iniciada em 1969, só foi publicada no Brasil em 2010 em uma agenda aberta em 1988, quando a nossa Constituição reconheceu, enfim, a desigualdade racial e criminalizou o racismo. Com esse feito, o governo abriu a possibilidade de se questionar a existência do racismo em todas as dimensões sociais, como na própria produção de história.

Infelizmente, apesar de mantermos uma das maiores populações negra do mundo, nosso país não investiu como a Unesco em um projeto para dizimar da historiografia nacional os estereótipos raciais e a visão eurocêntrica que a constituiu. Mas a empreitada da Unesco foi traduzida ao português durante a gestão de Fernando Haddad no MEC.

Também tem crescido os esforços de pesquisadores independentes, com iniciativas isoladas em universidades e instituições nacionais. Recentemente, a Faculdade Zumbi dos Palmares lançou a campanha “Machado de Assis Real”, visando reparar a injustiça histórica que branqueou o autor e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. A inclusão de Dandara e Luisa Mahin no Panteão da Pátria também pode ser encarada como parte da reconstrução de um imaginário negado a um povo escravizado por séculos. A luta segue.


terça-feira, 14 de maio de 2019

Treze de maio, por Urariano Mota


Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros. Todos os negros que somos, claros, mulatos, brancos e homens livres do Brasil.
 
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Foto Repórter Brasil

Treze de maio 

por Urariano Mota

No café da manhã, de passagem minha mulher lembrou o dia treze de maio. Não fosse a sua lembrança, eu não escreveria esta crônica.
Os primeiros trezes de maio que lembro, em mistura aos goles do café, me vêm do Ginásio Ipiranga na infância. Olho para o lado agora como se nada visse, assim como os colegas negros em 1961 olhavam de lado, ou baixavam os olhos, ao ouvirem a lição lida em voz alta no livro didático:
“ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO – A escravidão negra foi introduzida no Brasil em 1550. Não tendo os portugueses conseguido escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar na lavoura, resolveram utilizar negros africanos nessa tarefa…”
E mais adiante, todos haviam que decorar a resposta certa da pergunta no questionário: “Por que foi introduzida a escravidão negra no Brasil?”. Ora, respondíamos todos (negros, brancos e mulatos), “porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar nas lavouras”.
O espaço daquele aprendizado era um círculo fechado, redundante: os índios não quiseram trabalhar como escravos, daí que a solução foi importar negros da África. E, naturalmente, os negros foram escravizados porque os índios eram rebeldes. Então, para dar substância ao círculo, era ensinado que os negros vinham mansos, passivos, cordatos, porque assim era a sua natureza, ser negro e escravo em uma só pessoa. Então os meus antigos amigos, colegas, olhavam de lado.
É interessante notar que, no Brasil de 1961. negros eram os meninos de pele mais escura que a nossa. Negros eram os meninos de cabelo mais duro que o nosso. Negro não era uma raça, era uma cor do lápis de cor, ou a cor do grafite em toda a pele. E por isso líamos todos as lições que confirmavam a exclusão geral, como se fosse uma exclusão particular de outros, dos outros negros, diferentes de nós mesmos:
“A PRINCESA ISABEL ASSINA A LEI ÁUREA – … A Regente vai lançar o nome no pergaminho, quando, em nome do povo, recebe uma caneta de ouro, cravejada de pedras preciosas. E é com a bela caneta de ouro que assina a lei que a Nação enternecida cognominou de ‘áurea’. Da rua, a multidão, em altos brados, exige a presença de Isabel. E a Princesa aparece à janela, tendo ainda na mão a pena com que acabou de dar liberdade à raça negra do Brasil. Na praça inteira, o povo agita os braços festivamente, bradando em coro, em pleno delírio: – Redentora! Redentora! Redentora!…”
Um dia ainda vou escrever sobre o grande mal que esse tipo de educação fez a todos nós. Uma educação mitificadora, preconceituosa, de omissões e mentiras. Todos nós aprendíamos um Brasil sem conflitos e sem história. Aprendíamos um Brasil ideal para as sinhazinhas prendadas. Lá na sala de aula, em todos os trezes de maio nos virávamos para os negros, para os de pele mais escura que a nossa. Os meus colegas, os meus amigos, incapazes de uma resposta plena da rebeldia dos quilombos, baixavam os olhos. Os meus irmãos de pele e coração às vezes sorriam, sorriam com o seu riso mais branco que os detergentes da televisão, sorriam só com os dentes brancos, quando ouviam: “hoje é teu dia, negão”.
E com isso passávamos adiante a formação da escola burra, uma escola que passava o apagador até mesmo em nossa história familiar de negros, com a pregação da redentora Princesa Isabel, Santa Isabel, que libertara os negros do Brasil. Somente muitos anos depois, em São Paulo, vi um treze de maio diferente. Em 1978, vi um treze de maio de negros de todas as cores, de todas as raças, que repunham em lugar da salvadora dos pobres negrinhos um orgulho e uma disposição de puxar o véu da história.
Mas então já não estavam ao meu lado os amigos, irmãos, colegas do Ginásio Ipiranga. Aqueles, de pele mais escura que a minha, que baixavam os olhos. Eles haviam carregado para o resto das suas vidas as lições de perguntas fechadas e respostas prontas. Quem salvou os negros do Brasil? “A Princesa Isabel”, os antigos colegas sabiam na ponta da língua. E por isso viraram médicos medíocres, funcionários servis, engenheiros mesquinhos, indivíduos sem humanidade que mantêm distância dos negros mais pobres.
Vocês não sabem o quanto é bom ter chegado a um 13 de maio, agora, quando as novas gerações sorriem e zombam da redentora, da princesa que salvou os negrinhos de alma branca. Viva este novo tempo. Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros. Todos os negros que somos, claros, mulatos, brancos e homens livres do Brasil.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

“Os mulatos brasileiros são todos mau-caráter”, diz político de Santos, por Pragmatismo Político.

áudio racista secretário santos
Redação Pragmatismo
Redação Pragmatismo
Editor(a)
RACISMO NÃO18/APR/2019 ÀS 20:32COMENTÁRIOS

Vaza áudio racista de secretário-adjunto de Turismo de Santos. "Essa cor é uma mistura de uma raça que não tem caráter. É verdade, isso é estudo. Todo pardo, todo mulato, tu tem que tomar cuidado". Político tentou se justificar após a repercussão
áudio racista secretário santos
Áudio com teor racista enviado em grupo de Whatsapp pelo secretário-adjunto de Turismo de Santos, SP, revoltou internautas (Foto: Reprodução/Twitter)


“Esses caras, têm que desconfiar de todos. Todos que tu conhecer. Essa cor é uma mistura de uma raça que não tem caráter. É verdade, isso é estudo. Todo pardo, todo mulato, tu tem que tomar cuidado”.

A fala acima é do secretário-adjunto de Turismo de Santos, Adilson Durante Filho. Trata-se de um áudio de WhatsApp que vazou nesta sexta-feira (18) e repercutiu fortemente nas redes sociais.

Em nota, Duarte Filho assume a autoria e diz que o áudio foi gravado “em um momento de infelicidade e levado pela emoção, em decorrência de um fato que muito me abalou”. O destinatários, segundo ele, eram integrantes de “um pequeno grupo de supostos amigos de WhatsApp”.

De acordo com o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), Durante Filho pediu licença não remunerada após a divulgação do áudio. A prefeitura acatou, mas não informou se vai exonerá-lo do cargo.

Santos Futebol Clube
Além de secretário-adjunto de Turismo, Adilson Durante Filho é atualmente conselheiro do Santos Futebol Clube. A declaração feita pelo político foi desaprovada pela torcida Santos FC Antifascista, que divulgou nas redes sociais um vídeo com o áudio. Nos comentários da publicação, torcedores pedem sua saída do clube.

Em nota, o Santos Futebol Clube destacou sua trajetória no combate ao racismo. “O time mágico de Pelé, Pepe, Coutinho, Zito e tantos outros gênios do futebol espalhou aquela maravilhosa imagem de brancos e negros se abraçando para comemorar gols que encantavam o mundo. Até hoje mantemos acesa essa tradição”, diz o comunicado.

A íntegra do áudio
A seguir, leia a transcrição do áudio e depois ouça o conteúdo:

“Ô Caco, vou falar uma coisa pra vocês, aqui a gente tá entre amigos, tá? Sempre que tiver um pardo, o pardo o que que é, não é aquele negão, né? Mas também não é o branquinho. É o moreninho da cor dele. Esses caras, têm que desconfiar de todos. Todos que tu conhecer. Essa cor é uma mistura de uma raça que não tem caráter. É verdade, isso é estudo. Todo pardo, todo mulato, tu tem que tomar cuidado. Não mulato tipo o Pedro. O Pedro é tipo pra índio. Tipo chileno, essas porra (SIC). Tô dizendo o mulato brasileiro, entendeu? Os pardos brasileiros são todos mau-caráter. Não tem um que não seja.”



Pedido de desculpas
Confira a íntegra da nota divulgada por Duarte Filho:

“Com relação a um antigo áudio de alguns anos atrás que circula nas mídias sociais, de minha autoria, gostaria de expor que, em um momento de infelicidade e levado pela emoção, em decorrência de um fato que muito me abalou, acabei me expressando de forma absolutamente diversa das minhas crenças e modo de agir. Jamais tive a intenção de atingir quem quer que seja, até porque assim me manifestei em um pequeno grupo de supostos amigos de WhatsApp. Consigno que não tenho qualquer preconceito em razão de cor, raça ou credo, pois minha criação não me permitiria ser diferente. Peço, humildemente, desculpas a todos que se sentiram ofendidos, e expresso, por meio deste comunicado, meu mais profundo arrependimento quanto às palavras genericamente proferidas”

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

África do Sul: do apartheid ao neoliberalismo, Alejandro Nadal.

Os resultados obtidos pela África do Sul não surpreendem: estagnação, desemprego de 27%, desigualdade e pobreza cada vez mais intensas




A transição na África do Sul, de um regime de racismo institucionalizado a uma democracia eleitoral, é um acontecimento de grande relevância. Infelizmente, esta guinada não se refletiu na situação econômica. Em pouquíssimo tempo, o Congresso Nacional Africano (CNA), partido que liderou a luta contra a opressão racista, abraçou e consagrou as políticas do neoliberalismo que haviam cimentado o sistema de exploração e desigualdade do apartheid. A análise da economia política deste processo de transição é uma lição importante para qualquer governo que aspire uma mudança social e econômica real.

No final dos Anos 80, a situação na África do Sul havia chegado a um beco sem saída. Os enfrentamentos drenaram toda a energia de ambos os lados e os militantes do CNA sabiam que o aparato repressivo da minoria branca não se sustentava mais. Mesmo assim, houve uma insurreição final, com muita violência, que levou a um banho de sangue nas ruas, tantos dos principais centros urbanos quanto em algumas comunidades periféricas.

A minoria branca confiava em seu formidável arsenal policial-militar, mas o regime estava em plena bancarrota política, e seu isolamento internacional o levaria finalmente ao fracasso, por escolher o caminho da repressão. Ademais, o apartheid chocava com a lógica da acumulação capitalista, ao impedir a livre mobilidade no trabalho. Toda a indústria do país sofria os inconvenientes. Havia chegado o tempo de negociar para assegurar um acordo de transição vantajosa.

Durante a segunda metade dos Anos 80, as reuniões secretas entre a elite econômica e os altos mandos do CNA se multiplicaram. Quando Nelson Mandela foi libertado, em 1990, os contatos passaram a ser mais frequentes. Mandela e Harry Oppenheimer, o magnata da indústria da mineração de diamantes, se reuniram em banquetes na Little Brenthurst, a casa de campo do industrial. Para a minoria branca, o objetivo era criar condições que permitissem a transição política, sem sacrificar os privilégios econômicos adquiridos durante o apartheid.

No acordo final de transição negociado entre o CNA e a minoria branca, o ingrediente destacado foi o da democracia eleitoral: uma pessoa, um voto. Mas essa paridade política escondia a desigualdade econômica: a nova constituição garantiu os direitos de propriedade da minoria sobre terras, minas, fábricas, bancos e telecomunicações. A lei suprema que nasceu desse acordo consolidou a profunda desigualdade que sempre havia prevalecido na África do Sul.

O programa dos anos de luta do CNA incluía um forte processo de nacionalizações de indústrias (especialmente na mineração) e uma robusta reforma agrária. Tudo isso caiu no esquecimento com a Constituição – a qual ainda é vigente. Ademais, o partido aceitou o pagamento da dívida acumulada durante os anos do apartheid e o novo governo acabou quitando mais de 2 bilhões de dólares anuais em juros de uma dívida odiosa, acumulada antes de 1994. Ou seja, aceitou pagar os créditos que foram utilizados para oprimir a maioria negra da população.

Até a autonomia do Banco Central foi ratificada, como parte do pacote de organização econômica (e a direção do órgão ficou nas mãos de um funcionário que já o havia dirigido durante os anos do apartheid). Os princípios de austeridade e saneamento das finanças públicas também foram incorporados como elemento essencial da nova estratégia econômica.

Assim, o governo de unidade nacional abraçou os princípios do neoliberalismo. Os instrumentos utilizados para convencer os líderes do CNA incluíram numerosas promessas de novos investimentos, que nunca foram cumpridas. Também se utilizaram outros meios, como a corrupção, a fraude, a intimidação e até mesmo o assassinato – como no caso de Chris Hani.

Em última instância, o Congresso Nacional Africano adotou a ideia de que a economia da África do Sul é um mecanismo delicado, que só os especialistas da minoria branca podem manejar com eficiência. Somente os peritos versados na ortodoxia neoliberal podem guiar a política macroeconômica. Os princípios neoliberais em matéria de estabilidade de preços e cortes orçamentários foram a bússola do novo governo.

Atualmente, sabemos que estabilidade de preços não é sinônimo de estabilidade macroeconômica, e que a gestão correta da dívida pública mediante o superávit primário conduz ao desastre. Mas, em 1994, o governo sul-africano preferiu dar migalhas para o gasto social, e um pouco mais em investimentos para obras públicas, sem fazer mudanças medulares na estratégia econômica herdada do apartheid.

Os resultados obtidos pela África do Sul não surpreendem: estagnação, desemprego de 27%, desigualdade e pobreza cada vez mais intensas. Os níveis de violência e criminalidade não são menos desanimadores, porque é impossível combater a criminalidade sem abandonar o neoliberalismo. A lição é clara: não mexer em nada para melhor administrar o modelo neoliberal, e supor que os benefícios chegarão em conta-gotas à maioria da população, não é uma boa estratégia.

Alejandro Nadal é economista mexicano, professor do Centro de Estudos Econômicos do México, colunista do diário La Jornada e membro do conselho editorial do portal Sin Permiso.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Xenofobia e identidade: a saída de Özil da seleção alemã, por Guilherme Eler.


24 Jul 2018
(atualizado 24/Jul 14h14)

Em comunicado divulgado nas redes sociais, atleta de 29 anos atribuiu escolha ao ‘racismo e desrespeito’ que sofreu jogando por seu país natal

Foto: Handout/Reuters
Encontro entre Özil e presidente turco aconteceu em maio de 2018, em Londres
Encontro entre Özil e presidente turco aconteceu em maio de 2018, em Londres
Depois de nove anos, 92 partidas e um título de Copa do Mundo, o meio-campista Mesut Özil anunciou que não jogará mais pela Alemanha. A decisão veio a público em seus perfis nas redes sociais no último domingo (22), por meio de um extenso comunicado.
Entre ataques expressos a Reinhard Grindel, presidente da DFB (Federação Alemã de Futebol) e críticas à imprensa alemã, o jogador de 29 anos afirma que suas motivações principais envolvem o racismo e desrespeito sofridos enquanto vestia a camisa da seleção nacional. Özil é muçulmano e possui ascendência turca.
No mundial de 2018, disputado na Rússia, ele foi um dos nomes mais responsabilizados pela má campanha dos então campeões do mundo. A última vez que a Alemanha havia sido eliminada na fase de grupos foi em 1938, na França.
“Ao ver Özil no gramado eu recorrentemente tinha a sensação de que ele não se sentia à vontade vestindo a camisa da Alemanha, de que ele não estava livre; era quase como se ele não quisesse estar em campo”, disse Lothar Matthäus, campeão mundial com a Alemanha em 1990, em sua coluna no jornal alemão Bild.
O desempenho abaixo das expectativas aumentou o barulho causado por uma situação extra-campo às vésperas do torneio.
Durante um evento realizado em Londres em maio de 2018, Özil posou para uma foto ao lado de Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia. Alimentado pela imprensa local e pelo silêncio do atleta, que optou por não comentar o fato, o encontro se tornou um verdadeiro incidente diplomático na Alemanha - e um dos eixos centrais que motivaram sua aposentadoria precoce.

A repercussão do caso Erdogan

Foto: Handout/Reuters
Além de Özil, Erdogan posou ao lado do alemão Ilkay Gundogan e Cenk Tosun, um dos principais nomes da seleção turca
Além de Özil, Erdogan posou ao lado do alemão Ilkay Gundogan e Cenk Tosun, um dos principais nomes da seleção turca
Por causa de seu líder, a Turquia acumulou um histórico de relações estremecidas com o governo alemão nos últimos anos. Entre as críticas estão o caráter repressivo do presidente turco à oposição, que se intensificou desde a tentativa de golpe militar em 2016. Milhares de pessoas já foram presas no país e meios de comunicação sofrem constante censura.
Há 15 anos no poder e recém-eleito para um novo mandato, Erdogan estava em campanha eleitoral na época do encontro com Özil, que joga atualmente no Arsenal, da Inglaterra.
A foto com o presidente se tornou um problema maior porque, junto de Mesut Özil, outro jogador da seleção de futebol alemã que disputou a Copa da Rússia apareceu ao lado de Erdogan. Ilkay Gundogan compartilha diversas semelhanças com Özil: também tem ascendência turca, é nascido em Gelsenkirchen, cidade do oeste alemão, e é jogador da Premier League, primeira divisão da Inglaterra.
Ambos aproveitaram para entregar camisas autografadas de suas equipes ao chefe de Estado. A de Gundogan, atleta do Manchester City, acompanhava a dedicatória “Ao meu presidente, com meu respeito”.
Estima-se que existam pelo menos três milhões de pessoas com ascendência turca vivendo na Alemanha. Como destaca o jornal britânico The Guardian, pelo menos 1,2 milhões delas poderiam votar nas eleições do país.
3 milhões
é o número de pessoas com ascendência turca que vivem na Alemanha
A postura dos atletas foi abertamente criticada por dirigentes da seleção alemã, que na leitura local, avaliou que os jogadores teriam sido usados como palanque político. “O futebol e a DFB defendem valores que não são respeitados suficientemente por Erdogan. Por isso, não é bom quando nossos jogadores são explorados para sua campanha eleitoral”, afirmou o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Reinhard Grindel, em comunicado veiculado à época.
Após a repercussão negativa da foto, Gundogan rebateu as acusações de motivações políticas no gesto. “Nossa intenção não era usar essa foto para fazer um posicionamento político, e muito menos para tomar partido em uma campanha eleitoral”, disse, após a declaração de Grindel. Özi permaneceu calado sobre o tema até o último domingo.

O comunicado de Özil, em 4 pontos

A escolha por esperar o encerramento da Copa do Mundo e então se manifestar sobre o caso Erdogan foi justificada na nota divulgada nas redes sociais. Comentando o caso Erdogan, o jogador faz também considerações sobre a mídia, patrocinadores e a relação com os dirigentes da DFB.
Antes de suas explicações públicas, a Federação Alemã de Futebol pressionou para que Özil tivesse a mesma postura do parceiro de equipe envolvido no caso, em diferentes oportunidades.
“É verdade que Mesut não comentou a questão ainda. Isso desapontou diversos fãs que têm questões e esperam uma resposta. Eles têm o direito de uma resposta. Estou certo de que ele irá fazer um pronunciamento quando retornar de férias. Isso seria interessante também para ele próprio”, disse o presidente da DFB Reinhard Grindel, no dia 8 de julho, pós-eliminação da Alemanha.
Foto: Carl Recine/Reuters
"Özil e Gundogan também jogam com Erdogan", diz faixa levada por torcedores na estreia da Alemanha na Copa 2018, contra o México
Oliver Bierhoff, diretor esportivo da entidade, criticou a opção de Özil por não comentar a foto, sugerindo que sua ida ao mundial da Rússia havia sido um equívoco. “Deveríamos ter considerado deixá-lo de fora [da Copa].”
“Eu costumava vestir a camisa da Alemanha com orgulho e vontade, mas, agora, não mais. Não vou mais ser o bode expiatório”, afirmou o jogador. Os pontos principais de seus comentários sobre cada uma das polêmicas foram destacados abaixo.

Caso Erdogan

“Não tem nada a ver com políticas e eleições, mas sim, em respeitar o cargo mais alto do país de minha família”, definiu o atleta. “Não importava quem era o presidente, mas que aquele era o presidente.” Sua ação, defende o texto, seria a mesma “caso fosse o líder da Turquia ou da Alemanha”.
O jogador disse não se arrepender da foto. Ter recusado o pedido poderia ser interpretado como “uma falta de respeito” com suas “raízes turcas”.
Além disso, Özil destaca que Lothar Matthaus encontrou “outro líder” e não foi “intimado a deixar a seleção” e não teve sua permanência no cargo questionada. Apesar de não citar explicitamente, a menção faz referência ao encontro do ex-jogador alemão com o presidente russo Vladimir Putin, em julho de 2018. Para Özil, a perseguição e diferença de tratamento teriam motivações racistas.

Federação Alemã de Futebol

Segundo a nota, o tratamento dispensado nos últimos meses por parte da DFB foi o que “mais o frustrou”. Reihard Grindel, presidente da DFB, foi alvo da maior parte das críticas, sendo chamado de “incompetente” e “sem habilidade para realizar seu trabalho da forma adequada”.
“Enquanto eu tentava explicar minha ascendência e a motivação por trás da foto, ele [Grindel] estava mais interessado em falar sobre suas próprias visões políticas e menosprezar minha opinião.”
No trecho mais impactante da carta, reitera sua crença de que o tratamento da questão foi diferenciado e teve tom xenofóbico. “Segundo a visão de Grindel e seus apoiadores, quando ganhamos, sou alemão. Se perdemos, sou imigrante.”

Xenofobia e racismo

Segundo o jogador, o incidente diplomático com o líder turco teria sido uma oportunidade para a sociedade alemã expressar suas tendências racistas escondidas. “Não continuarei jogando para a seleção alemã enquanto existir esse sentimento de racismo e desrespeito. Como muita gente, minhas raízes vão além de um país. Cresci na Alemanha, mas minha história familiar tem suas raízes solidamente arraigadas na Turquia. Tenho dois corações, um alemão e outro turco.”
“Não é para isso que eu jogo futebol, e eu não vou ficar sentado sem fazer nada sobre. O racismo não deveria jamais ser tolerado.” Özil cita, ainda, os exemplos de Lukas Podolski e Miroslav Klose, ambos poloneses que se naturalizaram alemães e tem extenso histórico na seleção. Para o jogador, o fato de suas raízes estarem na Turquia, país muçulmano e que convive com a dualidade Europa-Oriente Médio há séculos, explica o tratamento distinto.

Imprensa alemã

Özil chamou de “sem sentido” a atenção dada pela mídia ao caso. Certos jornais alemães estariam aproveitando de seu histórico e a foto com Erdogan como uma “propaganda direitista” a fim de promover sua própria visão política.
“Qual outro motivo teriam eles para usar imagens e manchetes com o meu nome associando-as à derrota na Rússia? Eles não criticam meu desempenho, nem criticam a performance da equipe, só criticam minha ascendência turca e o respeito às minhas origens. Isso atravessa um limite do campo pessoal, que nunca deveria ser atravessado, ao passo que contribui para jogar a nação alemã contra mim.”

A resposta da DFB

A Federação Alemã de Futebol se manifestou em nota sobre as acusações feitas pelo jogador, rejeitando sua associação ao racismo e reiterando que, “por muitos anos, esteve fortemente envolvida no trabalho de integração na Alemanha”. Novamente, a entidade voltou a cobrar o jogador por ter se omitido em relação ao caso Erdogan.
“As fotos com o presidente turco Erdogan levantaram questões para muitas pessoas na Alemanha. [...] É lamentável que Mesut Özil, diferentemente do caso que envolveu Jerome Boateng, tenha achado que não foi suficientemente protegido como alvo de slogans racistas contra sua pessoa. Mas era importante que Mesut Özil, como Ilkay Gündogan fez antes dele, desse respostas sobre a referida foto, independentemente do resultado esportivo do torneio na Rússia. Na DFB, ganhamos e perdemos juntos, tudo em equipe.”
“A DFB teria ficado feliz se Mesut Özil quisesse continuar fazendo parte da equipe, mas ele decidiu o contrário e respeitamos isso. Para nós, como associação, é preciso lidar de maneira respeitosa com um jogador que merece respeito.”

Repercussão internacional

Pelo Twitter, colegas de seleção de Özil no último mundial como Jérôme Boateng, Antonio Rüdiger e Julian Draxler manifestaram apoio à decisão do jogador. O lateral-esquerdo Jonas Hector, titular na Copa da Rússia, chegou a dizer que a Alemanha “só tem ódio e racismo”.

O presidente do Bayern de Munique, Uli Hoeness, teceu críticas ainda mais duras ao jogador. “Estou feliz por isso ter acabado. Ele não joga merda nenhuma há anos, não ganha uma dividida desde antes da Copa de 2014. Agora, ele e sua performance de merda estão escondidos atrás dessa foto”, disse, também ao Bild. “Você precisa voltar para o que isso é: esporte. Do ponto de vista esportivo, Özil não tem espaço na seleção há anos.”
Políticos turcos, por outro lado, parabenizaram o alemão pela decisão. “Felicito Mesut Özil. Ao deixar a seleção nacional alemã, marcou seu maior gol contra o vírus do fascismo”, destacou o ministro da Justiça do país, Abdülhamit Gül, em sua conta do Twitter. Mehmet Kasapoglu, ministro dos Esportes, chamou Özil de “irmão”, classificando sua posição como honrada.
Presidente da Turquia, Erdogan também se manifestou sobre a decisão na terça-feira (24). Além de lamentar o ocorrido, que definiu como “racista” e “inaceitável”, destacou que o comunicado do atleta havia sido “extremamente patriota”, e disse ter entrado em contato com Özil, por telefone, na segunda-feira.

A carreira de Özil em clubes

Özil despontou como promessa no Schalke 04, em 2005. Após ser campeão europeu sub-21 com a Alemanha, chamou a atenção do Werder Bremen, outro clube alemão. Em 2010, foi para o Real Madrid. Após três temporadas no clube espanhol, se transferiu para o Arsenal, onde joga desde então.
A transação, que custou £40 milhões, foi o valor mais alto pago pelo clube inglês a um jogador à época, como destacou a agência de notícias alemã Deutsche Welle.
£45 milhões
é o valor de mercado atual de Özil, segundo o site Transfermarkt
Após um período de férias, o alemão se reintegrou ao Arsenal para a disputa da International Champions Cup, torneio pré-temporada que acontece em Cingapura.
Pelas redes sociais, a equipe inglesa manifestou apoio ao atleta, em referência explícita ao ocorrido. “Nossa diversidade é uma grande parte do porquê somos um clube tão especial. #Arsenalparatodos”, postou, em sua conta oficial no Twitter.

 

Os imigrantes e o futebol de seleções

As origens étnicas e a relação entre imigrantes e o futebol de seleções ganhou destaque na última Copa do Mundo da Rússia. Dados apontam que 22 dos 32 países que disputaram o torneio tinham pelo menos um “estrangeiro” no elenco.
No total, 82 jogadores que participaram do mundial tem dupla cidadania, ou seja, nasceram em um país mas, por se identificarem mais com outro, trocaram de pátria.
48
é o número de nacionalidades diferentes que marcaram presença no mundial 2018
Além de atletas naturalizados, o intenso fluxo migratório registrado nas últimas décadas, sobretudo na Europa, foi responsável por criar raízes multi-étnicas nas seleções. Boa parte do elenco dos países, ainda que formado por jogadores nascidos em seu território, contou com filhos de imigrantes, vindos principalmente da África e Leste Europeu.
O preconceito e repulsa a raízes estrangeiras, tom principal da carta de Özil, costuma vir à tona em críticas por parte da imprensa e da sociedade a jogadores, expondo casos de xenofobia e racismo. O sentimento comum é de que, por serem filhos de estrangeiros “indesejáveis”, os atletas seriam “cidadãos menores”.
A luta interna de autoafirmação dos atletas foi explicitada recentemente em um caso envolvendo a França, atual campeã do mundo.
O país, historicamente ligado à presença de imigrantes, sobretudo africanos, levou à Rússia grande número de atletas filhos de estrangeiros. Assim como diferentes textos veiculados na imprensa, um tweet do site Sporf destacava as origens de cada jogador francês com emojis que indicavam o local de nascimento de sua família.
O lateral Benjamin Mendy, porém, alterou a proposta da publicação, substituindo as bandeiras de diferentes países por bandeiras da França. “Corrigido”, disse o jogador em sua resposta.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Às ruas contra o fascismo, por Joaquim Ernesto Palhares


13/06/2018 15:57
 
Um vídeo absolutamente dantesco está circulando nas redes sociais. Um menino, dez anos no máximo, pobre e negro, é impedido de comer em um shopping de Salvador, Bahia. Um cliente que havia se oferecido a pagar a refeição da criança é hostilizado pelo segurança que afirma: “aqui ele não come”, chegando ao ponto de agredir o garoto, segurando-o pelos braços. Outros seguranças foram chamados e somente após muita humilhação, o menino conseguiu seu prato de comida. Confiram o vídeo aqui.
Onde estamos?

Além da agressão a um menor de idade, impressiona que, com exceção de duas mulheres, ninguém ousou interceder em favor do garoto ou de seu defensor, também, negro. Sentados em suas mesas, saboreando o fast food, as pessoas permaneceram alheias e em silêncio. Levantassem todos naquele momento, o segurança não teria como impedir o garoto de se alimentar. O abuso de poder poderia ser contido caso todos reagissem. Certamente, o desfecho do vídeo foi positivo porque o episódio estava sendo gravado. Havia o “olho do povo” contendo a violência. Onde esse olho não existe, sabemos muito bem o que acontece. 

O vídeo provoca dois sentimentos imediatos. Por um lado, a revolta ante a violência servil dos jagunços (seguranças) e total indiferença dos demais. De outro lado, a esperança ante a coragem do cliente que saiu, sozinho, em defesa do menino. O que se vê nessas imagens é o retrato instantâneo da sociedade brasileira: o fascismo. Não iremos combater o fascismo de braços cruzados. 

Diante de situações como essas, nós precisamos nos manifestar. Toda vez que nos sentirmos intimidados por um fascista, o fascismo vencerá. Se pensarmos que Lula detém 30% das intenções de voto, a pergunta mais óbvia é: onde estão essas pessoas? Se todas fossem às ruas, estaríamos falando, em média, de 60 milhões de brasileiros expressando sua indignação contra o sequestro de seu voto, seu candidato (Lula) e contra a destruição do país. Não podemos mais nos dar ao luxo de ficarmos em casa quando as ruas precisam falar. 

A nossa voz e a nossa presença são decisivas neste momento histórico. O que estamos enfrentando não é pouca coisa. O que está em jogo neste 2018 é a perpetuação disso como uma política de Estado ou a garantia dos direitos humanos e sociais conquistados pelo povo brasileiro nas últimas décadas. Devemos honrar os brasileiros que foram às ruas em 1961, 1964, 1968; os que lutaram pelas Diretas Já; os que morreram por este país, os que estão desaparecidos e foram vítimas das mais bárbaras torturas comandadas pelos generais com apoio da Rede Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e por mais de 60 empresas.

Eleitores de Jair Bolsonaro não têm a menor ideia do que foi a ditadura. Não sabem o impacto daquilo que defende seu candidato:  Estado Mínimo, venda de estatais nacionais, armamento da população (a bancada da bala agradece), redução da maioridade penal, fim da demarcação de terras indígenas, venda de terras a estrangeiros, fim da universidade pública. E o que dizer da animosidade em relação aos países latino-americanos? Ou outros tantos absurdos defendidos por essa sujeito homofóbico, racista e misógino que, queiramos ou não, tem base social.

O deputado candidato é contra a taxação de grandes fortunas, contra a taxação de lucros e dividendos e a favor da PEC 95, aquela que mantêm congelados os investimentos em educação, saúde e segurança por 20 anos. Engana-se quem pensa que a Globo é contra ele. No que mais importa (o tripé acima mencionado), eles estão juntos. Querem inclusive entregar o país e vender a Petrobras – Globo, Bolsonaro, Temer, Alckmin, Parente e cia. São todos iguais.

Durante pelo menos duas décadas, os veículos dessas empresas no exterior e aqui no Brasil, repetiram à exaustão a mesma ladainha de exaltação do Estado Mínimo, do livre mercado, das privatizações, da desregulamentação dos mercados, da necessidade de flexibilizar as relações trabalhistas, a legislação ambiental, da urgência de uma reforma da Previdência. 

Em 2008, porém, quando esse modelo afundou, saíram todos correndo para bater nas portas no Estado: mais de 1 trilhão de dólares foi a cifra dada pelo Tesouro Americano para salvar sistema financeiro global. Os lucros milionários dessas décadas foram apropriados por alguns poucos afortunados, os prejuízos foram socializados com o conjunto da população e a mídia fez de conta que não havia dito o que disse durante décadas.

Nenhum desses meios de comunicação veio a público assumir sua parcela de responsabilidade diante da crise de 2008. No Brasil, inclusive, fortaleceram o discurso, defendendo que o mercado se acalmaria, os investimentos retornariam, a incompetência seria substituída pelo “Dream Team” e a corrupção seria contida se Dilma Rousseff fosse afastada em 2015. 

A realidade conta outra história. Em “A Ficha Caiu”, artigo publicado no Valor, em 11 de junho, o professor Fernando Limongi (DCP/USP), aponta que “os liberais se eximem de culpa e a única solução que enxergam para a crise é a radicalização de seu programa”. A única saída do neoliberalismo é a sua radicalização. 

Não à toa, a Globo finge ser contra um candidato como Bolsonaro. Aliás, esse é um fenômeno que acontece em todo o mundo. O papel da Comunicação seria justamente o oposto disso: caberia a seus veículos, antes de mais nada, duvidar e colocar em debate o pensamento hegemônico (leia-se neoliberal), dando voz a todas as correntes de pensamento. Isso sim seria uma comunicação democrática. 

Ao contrário da mídia neoliberal, Carta Maior sempre se anunciou como um portal de esquerda e, há mais de 17 anos, vem garantindo a presença do contraditório silenciado pela mídia hegemônica. É de fundamental importância a guerrilha diuturna que realizamos; mas é a formação política que nos possibilitará enfrentar o fascismo no campo das nossas certezas. Não aceitar passivamente a agressão a uma criança faz parte dessa formação. 

Diante do quadro que se apresenta, nosso trabalho é cada vez mais necessário. Para desenvolvê-lo, nós precisamos do compromisso e da participação de todos vocês. Se vocês valorizam o conteúdo da Carta Maior, saibam que estamos melhorando ainda mais e teremos mais novidades na próxima semana.

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Boas leituras
Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Brasil viveu um processo de amnésia nacional sobre a escravidão, por Lilia Schwarcz.



'O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de retardão', diz Schwarcz

  • 'O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de retardão', diz Schwarcz
Sancionada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, a lei que aboliu a escravidão após mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil "saiu muito curta, muito pequena, muito conservadora", descreve Lilia Moritz Schwarcz.
Em entrevista à BBC Brasil, a historiadora diz que as consequências dessa virada de página abrupta, sem políticas para incluir os ex-escravos à sociedade, são sofridas até hoje.
"O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural", considera Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros livros, de O Espetáculo das Raças, As Barbas do Imperador, Racismo no Brasil e Brasil: uma biografia.
Como parte dos eventos para marcar os 130 anos da abolição, Schwarcz lança nesta sexta-feira (11/05) o Dicionário da Escravidão e Liberdade - 50 textos críticos (Companhia das Letras), em coautoria com o historiador Flávio dos Santos Gomes. Schwarcz é também cocuradora da exposição Histórias Afro-Atlânticas, que será aberta no Masp e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, no fim de junho.
"Estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar", afirma.
Renato Parada/Divulgação
Lilia Moritz Schwarcz é professora do departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - Na sua visão, nesses 130 anos desde a abolição, no que o país avançou e no que está parado?
Lilia Schwarcz - Não há motivo algum para celebrar. O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de 'retardão'. Tardou demais. As estatísticas oscilam, mas indicam que o país teria recebido entre 38% a 44% da quantidade absoluta de africanos obrigados a deixar o continente. E teve escravos em todo o seu território, diferente dos EUA, por exemplo, que no Sul tinha um modelo semelhante ao nosso, mas no norte tinha outro modelo econômico.
Quando veio a Lei Áurea, em 1888, ela saiu muito curtinha, muito pequena, muito conservadora. "Não há mais escravos no Brasil, revogam-se as posições em contrário". Corria no plenário uma série de propostas, algumas ainda mais conservadoras, outras mais progressistas.
BBC Brasil - Como esses grupos mais conservadores reagiram à abolição?
Lilia Schwarcz - A queda imediata do Império (é resultado da reação desses grupos). A Lei Áurea foi a lei mais popular do Império e a última. Como não se previram indenizações, os grandes produtores de café, até então vinculados ao Império, se bandearam para as fileiras dos republicanos.
A abolição foi um processo de luta da sociedade brasileira. Não foi uma lei. Não foi um presente da princesa (Isabel), como romanticamente se diz. Muitos setores de classe média e de profissionais liberais aderiram à causa abolicionista, que vira suprapartidária na década de 1880. É importante destacar sobretudo a atuação dos escravizados, dos negros, dos libertos, que pressionaram muito o tempo todo, seja por insurreições, seja por rebeliões coletivas, rebeliões individuais, suicídios, envenenamentos.
O que o Estado fez foi retardar a Lei Áurea a um tal limite que ela acabou custando a própria vida do Império no Brasil. Um ano e meio após a abolição da escravidão, o Império acabou.
BBC Brasil - Qual foi o simbolismo da lei no momento em que foi assinada?
Lilia Schwarcz - A assinatura do documento foi um ritual caprichadíssimo. Para se ter uma ideia, foram criados tipos novos para a composição da Lei Áurea. O pai do (escritor) Lima Barreto, João Henriques, participou de um grupo de tipógrafos que estavam emocionados com a lei, e compuseram tipos novos para o documento, assinado pela princesa com uma caneta valiosíssima. Todo o ritual teve muito apelo popular. A famosa foto da época (de uma multidão reunida do lado de fora do Paço Imperial, no Centro do Rio, para a assinatura da lei), mostra que a população compareceu, e é possível reconhecer bandeiras de irmandades negras que foram comemorar a abolição.
O ritual tinha tudo para encantar, e encantou. Tanto que mais tarde vimos a população liberta conformar a Guarda Negra, que era contra a República e a favor do Império. Hoje, muita gente pode achar isso uma grande contradição. Não é. Na época, a compreensão era que o Império tinha garantido o final da escravidão, e ninguém sabia o que viria com a República. Havia muito medo de projetos de reescravização. Estava tudo muito instável, nebuloso.
Hoje, sabemos que o ritual era parte da estratégia de dom Pedro 2º, que não estava no país, para garantir o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel. A ideia era que a lei tornaria Isabel tão popular que impediria os projetos republicanos e garantiria a sucessão e manutenção do regime monárquico. O que não aconteceu. Mas o ritual foi realizado com grande pompa e circunstância, com o objetivo de fazer emocionar, e de fato emocionou.
BBC Brasil - Quais eram os principais vícios da lei?
Lilia Schwarcz - A lei simplesmente abolia. Dizia que a partir desta data não há mais escravos no Brasil. Ponto final.
A República, que viria um ano e meio depois, tentaria colocar uma pedra no tema da escravidão. Como se tivesse ficado morto no passado junto com o Império. Temos um hino da República, aquele que canta "liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". E há uma estrofe que diz: "Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país". Ou seja, um ano e meio depois, (os republicanos) afirmavam não acreditar mais (que tivesse havido escravidão). Era um processo de amnésia nacional.
BBC Brasil - Quais foram as consequências imediatas desta abolição sem salvaguardas?
Lilia Schwarcz - O (momento) pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão dessas populações (de ex-escravos). Eu me refiro a educação, saúde, habitação, todos os problemas estruturais.
Mas isso não quer dizer que a gente só deva culpar o passado. O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural.
BBC Brasil - As gerações pós-Holocausto viveram o choque com a barbaridade e os horrores da Alemanha nazista. Você acha que no Brasil pós-escravidão houve um senso de choque posterior, uma percepção de que o país perpetrou barbaridades?
Lilia Schwarcz - Aqui no Brasil, não. Você teve essa percepção em outros lugares. E existem alguns memoriais espalhados pelo mundo que falam do que foi a escravidão, como o memorial da abolição em Nantes, na França.
No Brasil, qual foi o suposto? Que a escravidão era a lei. Era legal. E durante muito tempo foi naturalizada. A ideia da naturalização é terrível. Sempre se mostrou uma escravidão muito benéfica. Basta vermos as imagens que passam a ideia de uma escravidão ordeira, tranquila. Como se isso fosse possível, em um sistema que pressupõe a posse de um homem por outro.
Só muito recentemente é que foi se colocando em pauta a dimensão da chacina, e o fato de a escravidão mercantil da era moderna ter produzido a maior diáspora vista no mundo depois de Roma.
Até o movimento negro contestar a data de 13 de maio, a data era uma data cívica. Era celebrada. Era despolitizada. Atualmente, estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar.
BBC Brasil - Ganha força um movimento de cobrança por essa dívida histórica?
Lilia Schwarcz - Eu penso que sim. O movimento internacional por cotas e políticas de ação afirmativa é uma tentativa de cobrar essa dívida histórica. Essa discussão começa no Brasil tarde, no fim dos anos 1970, e demora para pegar.
Os dados do censo vêm mostrando como o país é profundamente desigual. Quando comparamos marcadores sociais da diferença, como classe e raça, vemos que raça é sempre um agravante.
Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil. Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando. Eu acho que ações desse tipo (as cotas raciais) são importantes porque há momentos em que é preciso desigualar para depois igualar. Não se pode falar em uma meritocracia universal num país tão desigual como o Brasil.
BBC Brasil - A eleição da Marielle Franco no Rio foi um exemplo da força que movimentos em prol da igualdade racial e de gênero vêm ganhando. Como você compara a força desses movimentos hoje com o que acontecia na sua juventude?
Lilia Schwarcz - A minha geração viu o crescimento dos direitos civis, do direito à diferença na universalidade, e se orgulhou muito dessas novas conquistas. Acho que, no Brasil e no mundo, nós acreditamos que essas conquistas democráticas estavam de alguma maneira asseguradas.
O que estamos vendo agora é um momento claro de crise e recessão democrática, colocando em risco essas conquistas.
A morte da Marielle representa muito esse momento. Depois de 30 anos de conquistas democráticas, começamos a ver que direitos não são conquistados para sempre.
É absolutamente simbólico que sua morte tenha ocorrido bem no ano dos 130 anos da abolição. A Marielle usou das franjas do sistema. Ela se formou na Maré, entrou na PUC por política de cotas, fez valer o seu mérito, virou uma das vereadoras mais votadas no Rio por sua pauta de inclusão racial e de gênero. Sua morte ainda sem respostas é outro escândalo da nossa democracia.
BBC Brasil - No livro Brasil: Uma Biografia, você e a historiadora Heloisa Starling dizem que o país é uma obra ainda em aberto, e questionam se conseguiria consolidar a república e a democracia. Recentemente, a perspectiva ficou mais pessimista?
Lilia Schwarcz - Quando terminamos o livro, estávamos encantadas, Heloisa e eu, com as passeatas de 2013, com as manifestações, com a ideia de um Brasil mais plural, mais vigilante. Acho que todos ficamos. O que não notamos era que existiam dois grupos que desfilavam na avenida (nos protestos de 2013). Sabíamos, mas depois ficou mais claro. Um que queria esse Brasil diferente, mais plural, mais inclusivo, mais variado; e outro que também queria um Brasil diferente, mas que, de alguma maneira, estava colocando tudo na conta de Dilma Rousseff e de um partido. Um Brasil que queria não pluralidade, mas de fato eliminar o adversário.
Ideologias políticas à parte, acho que o impeachment da presidente Dilma abriu a tampa da democracia no Brasil e deu lugar para a política de ódios, de intolerância. A temperatura política acabou derretendo as nossas instituições. Quando escrevemos Brasil: Uma Biografia, Heloisa e eu dizíamos que a democracia estava forte porque as instituições estavam consolidadas, mas a república ia muito mal. Agora vemos que tanto a república como a democracia vão muito mal, com as instituições muito enfraquecidas e o descrédito da política e dos partidos. Vivemos um momento que pede muita vigilância.
BBC Brasil - Nessa atual conjuntura, como você vê o cenário para as eleições deste ano?
Lilia Schwarcz - Quem diz que sabe, mente. Não vejo nenhum sinal agora que permita comentar como vai ser a composição dos partidos, quem vai se apresentar de fato. Há muitos sinais para ficar em alerta. É preciso aguardar.