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quarta-feira, 17 de abril de 2019

O BOLSONARISMO ARREPENDIDO JÁ COMEÇOU NAS CLASSES POPULARES, por Rosana Pinheiro-Machado

O presidente Jair Bolsonaro durante almoço do Encontro do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil 2019, no Rio de Janeiro (RJ).
15 de Abril de 2019, 23h02
A LUA DE MEL não durou 100 dias. Uma recente pesquisa do DataFolha mostrou que, após três meses, Bolsonaro tem a pior avaliação entre presidentes no primeiro mandato, confirmando algo que estava na cara: o fenômeno do bolsonarismo arrependido chegaria muito rápido.

Vale retomar o que escrevi em minha coluna de 29 de outubro, logo após a vitória de Bolsonaro:

Os eleitores de Bolsonaro foram seduzidos pela mobilização política populista, movidos por onda de contágio que foi espalhando medo e uma esperança de mudança radical. É muita expectativa popular para pouco projeto, pouca equipe e pouca experiência. Isso não pode funcionar. Isso não dará certo.

De novembro de 2016 a novembro de 2018, eu e a antropóloga Lucia Scalco fizemos uma pesquisa etnográfica, baseada em observação participante e grupos focais, sobre eleitores de Bolsonaro entre eleitores de baixa renda na zona leste de Porto Alegre. Nós percebemos que, conforme a eleição se aproximava, a adesão a Bolsonaro se transformava em um movimento emocional. Havia uma esperança crescente dos eleitores, inclusive entre aqueles que outrora desprezavam o candidato.

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Até poucos meses antes da eleição, era possível identificar um padrão de eleitores de baixa renda: eram jovens desempregados que se sentiam ameaçados pelo feminismo emergente na escola; ou homens brancos, dos 30 aos 50 anos, com trabalho precário (como motoristas de aplicativos ou vigilantes terceirizados). Nas motivações de voto, o desalento econômico se misturava a uma narrativa que apontava também uma crise na masculinidade. Homens estavam desempregados e/ou com emprego precário, endividados, com pressão alta, sofrendo assaltos e tendo seu papel de provedor ameaçado. Em comum, todos eles tinham um desejo íntimo de portar uma arma para se proteger das muitas ameaças — reais e imaginárias — que desestabilizam a ordem do mundo.

As pessoas apoiavam Bolsonaro pelos mais variados motivos. Por tudo ou, talvez, por nada.
No final do período eleitoral, após a retirada de Lula da corrida e a facada de Bolsonaro, as coisas mudaram na pesquisa. Não havia mais um perfil de eleitores identificável, tampouco uma razão específica para justificar o voto. As pessoas falavam que votariam em Bolsonaro por causa da corrupção, para varrer comunismo, tirar o PT, conseguir emprego, melhorar a economia, ter segurança na escola do filho, matar bandido, mamadeira de piroca, ditadura gayzista, evitar invasão alienígena, resolver a unha encravada. Tudo. Tudo o que chegava pelo WhatsApp.

As pessoas apoiavam Bolsonaro pelos mais variados motivos. Por tudo ou, talvez, por nada: embarcavam em uma onda na qual o então candidato surfou sozinho. Foram muitas as pessoas que nos perguntavam: “ué, mas tem outro candidato?”

Para além dos convictos, talvez a grande maioria de eleitores que encontramos no final do processo era não-convicta. Eles achavam que Bolsonaro não era uma opção ideal, mas que alguma mudança era necessária. O capitão, ao menos, colocaria ordem na casa: “Acho ele muito radical, machista como diz minha filha, mas é um militar, ao menos para colocar ordem nesse país esse homem deve servir, né?”, disse dona Silvinha, 58 anos, vendedora de bolos.

Tendo em vista esses perfis de eleitores, é evidente que a desilusão bateria logo na porta, pois foi uma esperança projetada sobre o nada.

Os estratos esmagados
Como observado pelos professores André Singer e Laura Carvalho, há uma significativa desilusão bolsonarista – representada no declínio de 18% de aprovação entre as últimas duas pesquisas Ibope justamente entre os estratos sociais que ganham de 2 a 5 salários mínimos. Em um artigo irretocável, Carvalho mostra que, de 2014 a 2018, o PT perdeu mais adesão, em contextos urbanos, entre as camadas “atachadas” que se situam entre a base e o topo da distribuição. Estamos, portanto, falando dos setores precarizados que sentiram a crise econômica de forma brutal.

Agora, os eleitores  começam a pular fora do barco.
Ainda que eu tenha defendido que o papel da crise econômica precisa ser mais seriamente levado em consideração nas análises das eleições, o único ponto que ainda não estou plenamente convicta em relação ao argumento da professora é sobre o peso da insegurança econômica em relação às pautas morais nas eleições. Ela acredita que o primeiro aspecto foi preponderante no Brasil, diferentemente da eleição de Trump nos Estados Unidos, em que algumas pesquisas já apontaram que o fator “preconceito” foi decisivo – como esta publicada na revista Critical Sociology. Sem dúvidas, o peso econômico foi imenso, um ponto de partida que mostrou luz no fim do túnel para homens desesperados. Mas também entendo que ainda não temos pesquisa suficiente para ter clareza acerca do impacto de diferentes forças.

Por ora, com base nos insights da experiência em campo, tendo a pensar que, no caso das eleições brasileiras, a dicotomia economia/moral tem se demonstrado falsa — na linha argumentativa da cientista política e historiadora Tatiana Vargas Maia em seu artigo no El País. O Brasil tem passado por uma crise multidimensional. Ainda que a penúria econômica tenha dado o primeiro pontapé entre os eleitores que se sentiam desamparados socialmente, o conservadorismo, o fundamentalismo religioso, a crise política, as fake news e o fator de “efervescência social” do final das eleições arrastaram milhões de eleitores na onda de contágio.

Agora, os eleitores começam a pular fora do barco.

Desilusão de baixo para cima
Desde o término da pesquisa, tenho conversado, de forma não sistemática, com alguns antigos interlocutores e com outros trabalhadores precarizados com os quais eu convivo. Essas conversas não sugerem nenhum entusiasmo no ar. Pelo contrário: o clima de esperança parece ter cedido lugar ao desânimo.

O grupo da “masculinidade machucada” pela crise econômica não viu ainda a situação de emprego melhorar e tampouco sentiu os efeitos práticos nem do decreto presidencial de facilitação da posse armas, nem no preço de uma Taurus. Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer.

Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar comum “de que político é tudo uma bosta”.

O bolsonarista arrependido não é confesso.
Ainda há aqueles eleitores que, como Dona Silvinha, estão esperando sentados a tal da ordem na casa. Eles encontram mesmo é “um bando de trapalhões” como disse-me Pedro, motorista de aplicativo de Santa Maria, Rio Grande do Sul, que votou em Bolsonaro querendo mudança, mas entende que “estão muito atrapalhados. Palhaçada isso do Carnaval… [referia-se ao tuíte sobre Golden Shower]”. E continuou desabafando: “Minha cunhada trabalha no posto de saúde e disse que o dinheiro acabou, que cortaram tudo. Como vai ser?”

O bolsonarista arrependido não é confesso. Ele tem vergonha e mantém seu orgulho: “Não me arrependo, não é possível um governo estar por 20 anos no poder, não é democrático”, disse-me Luis. Mas ele reconhece o caos do país e já colocou Bolsonaro na vala comum do político ruim.

Um dos erros de avaliação do bolsonarismo é acreditar em tudo que vê na internet, na malha de ódio da extrema direita. Os trolls possuem presença robusta na rede e fazem grande barulho. Quando eles são sujeitos de carne e osso — e não robôs —, representam uma pequena parte do eleitorado, a mais fanática e a mais fiel. Nós encontramos vários desses bolsolovers durante o trabalho de campo, mas posso afirmar que eram um número insignificante perto de todo o resto que aderiu ao projeto por frustração na onda de contágio.

O que esse eleitorado tem visto é despreparo, mandos e desmandos via rede social e guerra de vaidades.
Poucos dias antes da eleição, vi um vendedor ambulante em São Paulo gritando “Bolsonaro!” para os carros que passavam com bandeira do candidato. Era uma cena triste. Ele parecia comemorar a final da Copa do Mundo, soltando o grito engasgado dos 7×1 de toda a tragédia nacional dos últimos cinco anos. Um país quebrado como o Brasil, em meio a um sistema político e econômico que colapsou, fez com que o baixo clero ganhasse a eleição por fatores excepcionais.

O bolsonarismo arrependido já impacta o governo. Rumores em correntes do WhatsApp diziam que os caminhoneiros iriam parar. Quando a pesquisa do DataFolha foi lançada, Bolsonaro reagiu nervoso com dois tuítes seguidos: um mostrava crianças que o abraçavam, como se fosse a prova cabal de que ele era amado pelo povo; o outro tuíte só dizia “kkkkkkk”. Não demorou muito para que o presidente reagisse e interferisse no preço do diesel.

O eleitor não fanático até pode ter achado graça do personagem que “fala o que pensa” e que “é gente como a gente”. Mas num país violento em crise como o Brasil, as trapalhadas do presidente terão cada vez menos apelo se não vierem com mudanças concretas no cotidiano das pessoas. Bolsonaro foi eleito por uma grande parte do eleitorado popular que cultiva no imaginário a ideia do pulso firme. Mas o que esse eleitorado tem visto é despreparo, mandos e desmandos via rede social e guerra de vaidades entre os membros do PSL. Sem um projeto de governo e passando o tempo preocupado com temas distantes do povo — de Cuba a Israel —, a desilusão só tende a piorar.

Isso não é necessariamente uma boa notícia. Há uma tendência muito maior agora à descrença com a democracia representativa e a política institucional. Nossa sorte é que não parece haver um grupo de militares articulados que demonstrem querer mais do que tudo que já têm. Cabe agora a nós, dos setores progressistas, tratar de arrumar a casa e ter a capacidade para dar respostas para Dona Silvinha.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das fontes.

domingo, 7 de abril de 2019

ELEIÇÕES – PORQUE POLÍTICA SE APRENDE NO COLÉGIO, por Eduardo Escorel

Documentário usa disputa por grêmio escolar para discutir condições de ensino, democracia e conjuntura  

EDUARDO ESCOREL
03abr2019_11h58
E
m toda eleição, quem perde fica decepcionado. Nada mais natural. Insólito é grande número de eleitores que votaram em quem ganhou estarem desapontados poucos meses depois do vencedor tomar posse.

Quem desde sempre considerou o atual presidente da República despreparado para a função não sente nenhum prazer em constatar que tinha razão. Mas lamenta ver o país desgovernado, inclusive sem política educacional e cultural. E se pergunta por quanto tempo, ainda, essa aventura irá perdurar.
O desfecho da eleição do ano passado resultou, em parte ao menos, do fato de milhões de eleitores não terem sabido avaliar em quem estavam votando. Não mediram a gravidade da sua escolha. Para rejeitar um candidato, deram seu voto de maneira irresponsável a um capitão reformado do Exército, de extrema direita, um deputado federal sem experiência em cargo executivo. Assim fazendo, votaram mal. Faltou a todos conhecimento mínimo de política e lucidez suficiente para não se  deixarem iludir.
Nesse contexto, Eleições, de Alice Riff, é especialmente oportuno – o documentário permite testemunhar a experiência de aprendizagem política, feita com adolescentes, de fevereiro a abril de 2018, na Escola Estadual Doutor Alarico Silveira, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Isso, sem esquecer a relevância do assunto face ao alto índice de evasão escolar no ensino médio do país.
Mesmo assim, o filme sumiu do circuito apenas duas semanas depois de estrear em 14 de março. Com uma sessão por dia, em dois cinemas, um no Rio, outro em São Paulo, foi visto por 1 015 espectadores, e rendeu 7 480 reais (dados do portal Filme B). Ter atraído público tão reduzido demonstra, por si só, a concentração do mercado exibidor em atrações divertidas, assim como a inércia de eleitores carentes de ensino político.  
Eleições continua disponível para sessões públicas e gratuitas na plataforma videocamp.comonde já teve 105 exibições. A maioria em escolas nas quais 2 390 estudantes assistiram ao documentário. Outros mil viram o filme nas exibições fechadas, feitas pela manhã para escolas públicas, seguidas de debate com alunos, professores e jovens que participaram da filmagem (dados fornecidos pela produtora Studio Riff).
Além disso, desde a semana passada, Eleições começou a ser exibido no Circuito Spcine, que tem vinte salas em bairros da periferia de São Paulo e quatro na Zona Central da cidade. É um trabalho de “formiguinha”, Riff admite, mas que procura uma alternativa à demanda escassa no circuito convencional de salas.
A produção de Eleições foi patrocinada na íntegra por uma empresa privada, depois do projeto ser escolhido no edital Videocamp de Filmes, iniciativa do Instituto Alana, em 2017, para filmes com o tema “diálogos”.
Lançando mão de três variantes de registro, Eleições acompanha quatro chapas candidatas à diretoria do grêmio da escola. A principal maneira de filmar é baseada na observação, feita a partir de um acordo tácito, pelo qual os jovens aparentam desconhecer a presença da câmera; outra estratégia, oposta à anterior e recorrente durante o filme, é a de duas supostas youtubers que atuam interagindo diretamente com o espectador; a terceira variação de linguagem, usada apenas uma vez, é a dos vídeos de propaganda política.
A alternância de estilos assegura tanto o andamento justo da montagem de Yuri Amaral, ora mais rápido, ora mais vagaroso, quanto a visão abrangente, destituída de sectarismo, da escola, de seus professores, alunos e diretoria, da carência de suas instalações e da própria campanha eleitoral.
No primeiro dia de aula, o professor de sociologia Anderson Righetto assinala que, em todas as aulas, tudo que ele fala sobre política é comumente associado “por preconceito” à corrupção, porque “nosso país tem um histórico muito grande, desde quando foi descoberto até hoje, sobre esse assunto”.
Além disso, Righetto enfatiza que 2018 é ano de eleições em âmbito nacional, pergunta “o que são as eleições e o que temos também para escolher [na escola] este ano através de uma votação”. “O grêmio”, responde uma aluna timidamente. “O grêmio”, confirma o professor e completa: “Alguém aqui acompanhou a atuação do grêmio ano passado, ou participou de uma chapa?”
Uma aluna comenta a experiência do ano anterior: “Eles tentaram fazer alguma coisa, mas não dependia só deles”; outra, diz que “o grêmio deveria pedir para melhorar um pouco a comida da escola por que quase ninguém se satisfaz com essa comida”; um aluno propõe que o bebedouro seja mudado de lugar para ficar mais perto das salas de aula. Propostas variadas, umas pertinentes, outras nem tanto, que coexistem com certo desencanto e se repetem ao longo do filme.
Após as intervenções iniciais, Righetto pergunta: “Alguém cogita alguma possibilidade do que poderia mudar no Brasil com um novo presidente? E aí? Ninguém?” As perguntas ficam no ar, sem resposta. O prólogo termina e surge o título em letras brancas sobre fundo preto.
IMAGEM DE DIVULGAÇÃO

N
esses 3’40” iniciais, o tema de Eleições fica definido – a eleição para a diretoria do grêmio é situada no contexto da eleição presidencial, marcada para oito meses depois. Atuando como uma espécie de mestre de cerimônias, Righetto não poderia ser mais pedagógico ao se dirigir aos alunos: “Vocês têm que pensar, claro, na realidade da escola que é onde vocês vão atuar, mas é um primeiro passo para vocês terem um contato político. Então, não é pensar só na escola, mas ver aonde vocês podem atuar: na sociedade, na cidade, no país, no mundo.”

Depois da primeira intervenção descontraída da dupla de youtubers Laura Felix da Luz e Livia Santos Martins, na qual elas se apresentam e dão o tom bem-humorado de suas participações, elas entrevistam duas integrantes da chapa Rosa que está fazendo um abaixo-assinado pela volta do som no intervalos das aulas, proibido desde o ano anterior.
A reconquista desse direito teria sido decisiva no resultado da eleição e proporciona outros momentos de descontração total. Os alunos cantam e dançam no pátio, como se estivessem em um musical.
O primeiro debate entre as quatro chapas (ID, PAS, Mais Diversidade e Rosa) tem início com uma foto de Marielle Franco projetada na tela armada no centro do palco. Ela fora assassinada na semana anterior. Ao abrir a discussão, Righetto explica: “A importância da Marielle e a associação com o grêmio é que ela foi uma mulher que estava lutando por seus direitos. Então, a questão de vocês gremistas é essa também. É lutar por uma escola melhor. Mas não é para representar um interesse pessoal, é um interesse coletivo.”
Washington Penha é o primeiro aluno a falar: “O que levou a gente a querer criar a nossa chapa é a indignação com o estado da nossa escola. Esta é a intenção da gente ter levantado a ID.”
Clóvis de Moura, representante da chapa PAS, admite que o objetivo inicial deles foi “sair da sala” de aula. Depois, “a gente foi vendo que a escola precisava de mudanças, realmente, e a gente começou a levar a sério. Aquilo parou de ser uma brincadeira.”
Felipe Quiin apresenta a mensagem da Mais Diversidade como sendo “mostrar para vocês que a minoria pode ser a mudança de tudo. A gente envolve um conceito maior de várias pessoas, seja gay, lésbica, hétero, pobre, rico, gordo, negro, branco. É isso que a gente quer transmitir para vocês”.
Amanda Gomes, da Rosa, propõe “criar um diálogo entre o corpo docente e a escola. É por isso que a gente vai lutar e fazer o máximo pra que ocorram mudanças o mais rápido possível, porque a gente acredita na escola e no potencial que ela tem e que vocês têm”.
Ao menos da maneira como são apresentadas no filme, as propostas das chapas têm um denominador comum – mudanças. Quais, não fica claro. Apenas a Mais Diversidade se diferencia ao assinalar a força das minorias como uma de suas bandeiras.
Mesmo sem serem explicitados pelos alunos, porém, Eleições deixa claro que há diversos problemas a enfrentar: o mau estado do prédio, espaços ociosos, o abismo entre o vocabulário dos alunos usado em uma reivindicação e os termos empolados da diretora ao responder, a violência da Ronda Policial, aulas ditadas e anotadas com tédio, baixo aproveitamento, desconhecimento das atribuições do grêmio etc.
Cerca de seiscentos alunos votaram na eleição e a chapa vitoriosa ganhou por uma diferença de 100 votos. Quando o resultado é anunciado, a decepção com a derrota está estampada no rosto de um candidato. Seria preciso conferir se, passada a euforia inicial, os eleitores de quem ganhou ficaram ou não desapontados em seguida.
Participar da campanha foi um aprendizado político que se renova agora, cada vez que Eleições é exibido em outras escolas. A partir de 2020, quando muitos desses estudantes, com mais de 16 anos, terão se tornado eleitores fora do âmbito escolar, restará verificar se elegerão políticos mais qualificados do que a maioria dos atuais.
Pesquisa recente indica que, mantido o ritmo atual, o Brasil “pode levar até duzentos anos – equivalente a quinze gerações – para atingir a universalização do atendimento escolar a jovens de 15 a 17 anos” (“Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens”, pesquisa conduzida por Ricardo Paes de Barros). Através da integração e cumplicidade criativa entre a equipe e os alunos, Eleiçõescontribui para fortalecer os vínculos entre os estudantes e a escola, e minorar a tendência a abandonarem os estudos.

EDUARDO ESCOREL

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

segunda-feira, 25 de março de 2019

Žižek: A eleição de Bolsonaro e a nova direita populista, por Slavo Zizek

Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, o filósofo esloveno comenta a eleição de Bolsonaro no contexto da onda global de ascensão da extrema-direita populista e provoca: “a única maneira de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda”.

Blog da Boitempo entrevista Slavoj Žižek.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek bateu um papo via Skype com Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo, sobre a eleição de Bolsonaro no contexto da onda global de ascensão da extrema-direita populista e a implosão do centro político. Para ele, o desafio é saber diferenciar o sintoma de sua causa: o acontecimento-chave do mundo hoje não é o surgimento da nova direita, e sim a desintegração do grande consenso liberal capitalista ao qual ela responde. Assim, a resposta a esse fenômeno não deveria ser ensaiar um novo populismo de esquerda, nos moldes das figuras de direita que estão ganhando espaço. Mais do que nunca, a esquerda precisa manter sua vocação internacionalista para fazer frente ao capitalismo global. Maoísta de ocasião, Žižek vê na desordem da conjuntura atual uma janela de oportunidade diante da qual a esquerda deve ter a ousadia de propor uma nova visão básica da sociedade.
Quanto ao Brasil, o filósofo demonstra certa preocupação acerca da preservação de uma democracia formal no país com Bolsonaro, mas vê que a implementação de uma política de austeridade pode minar a legitimidade do novo governo e manter nas mãos da esquerda o monopólio sobre a política antiausteridade. Žižek alerta ainda para a armadilha de priorizar neste momento a composição de uma frente ampla de defesa da democracia com setores de centro e centro-direita, em vista de preservar um programa mínimo contra a ameaça posta pela extrema-direita. E provoca: “a única maneira de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda”. Confira a tradução completa da entrevista abaixo.

* * *
Como você situa o caso brasileiro atual, com a eleição de Jair Bolsonaro, no contexto global mais amplo, marcado pela ascensão de populismos de direita e extrema-direita em diversos países?
Até onde sei, o caso brasileiro é bastante singular. Não é como na Europa Ocidental, onde oponente não é, como no caso de vocês, um movimento relativamente honesto de esquerda. O oponente lá é simplesmente o establishment – talvez um pouco de esquerda, democrático, mas ainda assim o establishment. Na Europa Ocidental, o que está desaparecendo é a social-democracia tradicional. O que se tem é uma oposição entre aquilo que denomino o establishment liberal de esquerda (que é economicamente neoliberal mas socialmente a favor de direitos LGBT, das mulheres etc.) e esse novo populismo de direita.
No Brasil, parecia que o populismo não era principalmente um populismo de direita. Com Lula e Dilma, a esquerda havia ocupado esse espaço. Mas aqui vou traçar algumas observações que provavelmente soarão problemáticas para muitos de vocês. Não concordo com toda essa ideia de um populismo de esquerda. Está na moda defender isso na Europa Ocidental e nos Estados Unidos: por que deixar o populismo – essa modalidade engajada de política, centrada no estabelecimento de um conflito com um determinado inimigo –, por que deixar o populismo exclusivamente na mão dos direitistas? Por que não responder a ele com um populismo nosso, de esquerda?
Por motivos teóricos e práticos creio que não devamos trilhar esse caminho. Como admite Ernesto Laclau – que é o teórico do populismo –, o populismo concentrou-se em construir uma imagem clara do inimigo. É claro que, no nosso caso, os inimigos não seriam os estrangeiros, os imigrantes etc., seriam algo como as elites financeiras, a classe dominante etc. Mas o problema aqui, fundamentalmente, é que as coisas não são tão simples assim… Vejamos o caso dos Estados Unidos. É claro que o inimigo imediato é Donald Trump, mas penso ser absolutamente crucial se colocar uma pergunta mais profunda. Como diz Michael Moore, logo no início de seu novo documentário, Trump não caiu do céu. Foi com o fracasso do establishment liberal de esquerda que abriu-se espaço para o surgimento de figuras como Trump. Essa é a grande decepção. O pacto político que regulou os países desenvolvidos nas últimas décadas foi o pacto desse establishment liberal.
Jamais devemos esquecer que uma democracia (e aqui não me refiro a uma autêntica democracia do povo, mas uma simples democracia multipartidária, em que diversos partidos disputam o poder) só funciona sob o pano de fundo de certo consenso ou pacto. Você pode fazer suas escolhas, promover seus debates etc., mas somente dentro dos limites de certo pacto ou marco consensual. De forma que, por exemplo, nos Estados Unidos você tem os Republicanos e os Democratas. É verdade que eles têm suas diferenças, mas eles compartilhavam todo um conjunto de ideias e premissas básicas. O mesmo valia para a Europa Ocidental.
O que mudou agora? Dois anos atrás, você lançou uma provocação ao afirmar que a eleição de Trump seria melhor do que a de Hillary, no sentido de que poderia abrir o caminho para o surgimento de uma esquerda radical mais autêntica, livre das amarras desse grande consenso liberal representado pelo Partido Democrata. Como você avalia essa questão agora, com dois anos de Trump na Casa Branca? Você arriscaria dizer que algo parecido talvez seria aplicável para o caso brasileiro, com a eleição de Bolsonaro?
O que está ocorrendo agora com Trump é que esse pacto liberal está se desintegrando. Penso que não devemos cair na armadilha (na qual boa parte dos liberais atualmente se encontra) de pintar Trump como o grande demônio e tentar implicitamente retornar a esse pacto liberal de esquerda, Estado de bem-estar social e tal. Não! Esse pacto está perdido. Devemos aprender com Trump a aceitar essa ideia de que o velho pacto político que sustenta nossa sociedade está ruindo. E é preciso agora ter a ousadia de propor um novo pacto social, nosso, mais à esquerda – um pacto, ou, se quiser, uma visão básica da sociedade. Nesse sentido, sou maoísta. Como dizia Mao: “Tudo sob o céu está mergulhado no caos; a situação é excelente”. Com Trump, há uma grande desordem sob o céu estadunidense. Por isso, eu diria que a situação também é um pouco propícia, no sentido de que há uma abertura única para que nós, uma esquerda mais radical, possamos fazer algo. E incluo aqui não apenas Bernie Sanders, mas todas as gerações de outros democratas de esquerda mais radicais que não temem reabilitar a palavra socialismo.
Agora, essa é a imagem geral. Sobre o que ocorre no Brasil, não posso dizer que sei o suficiente. Quer dizer, eu sei que houve uma grande manipulação. A forma pela qual Bolsonaro e seus demagogos populistas de direita foram capazes de mobilizar essa eterna acusação contra Lula, Dilma e seus partidários de que eles seriam os representantes da corrupção, que eles seriam parte de um Estado não transparente, corrupto e por aí vai… Eu não conheço suficientemente a situação brasileira para opinar aqui, mas diria o seguinte: quando disse ironicamente que votaria em Trump, o que eu quis dizer era que ele seria bom, negativamente, para estilhaçar a ideologia hegemônica existente e, nesse sentido, abrir espaço para o surgimento de uma esquerda mais radical. Mas não penso que essa seja uma fórmula universal. Mesmo no caso da Europa Ocidental – porque temos um tipo diferente de Estado na Europa, muito mais centralizado –, eu jamais teria dito algo como “Vote na Marine Le Pen!”, porque com ela no poder à frente do Estado francês teríamos algo muito maior do que Trump. O Estado francês é muito mais forte e centralizado e regula num grau muito maior a vida social como um todo. Teria sido uma verdadeira catástrofe. Temo que o mesmo valha para o Brasil.
Slavoj Žižek em entrevista via Skype com Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo.
Em seus artigos mais recentes, você resume da seguinte maneira a “pervertida situação política” da Europa: por um lado, temos a “esquerda” oficial efetivamente implementando políticas de austeridade (ao mesmo tempo que assume a pauta progressista e multiculturalista no que diz respeito aos valores) e, por outro, temos a “direita populista” de fato tomando a frente das medidas antiausteridade (e empunhando a bandeira e o discurso da xenofobia e do nacionalismo). Nesse sentido, me pergunto se a infeliz novidade que temos agora no Brasil não seria que o nosso governo eleito parece juntar o pior desses dois mundos: ele é economicamente pró-austeridade e ao mesmo tempo extremamente reacionário no que diz respeito a direitos humanos, ações afirmativas, direitos das mulheres e das minorias etc.
Isso é muito interessante! Quer dizer, se o Estado brasileiro permanecer, ao menos em algum sentido formal (no sentido corriqueiro do termo), basicamente democrático, essa situação, apesar de tudo, abre espaço para que a esquerda ao menos retenha o monopólio da política antiausteridade, por assim dizer. Porque o que faz de Trump um perigo tão grande é precisamente esse aspecto. Se você prestar atenção ao que diz Steve Bannon, ele afirma abertamente coisas como “Eu não sou pró-austeridade. O Estado deveria gastar mais com os trabalhadores”, e por aí vai. Bannon é realmente um perigo. Ele quer aumentar os impostos dos ricos a 44%, até mais. E na Europa temos ainda mais disso. Na Hungria e especialmente na Polônia (que, como você sabe, é o caso mais perigoso), o atual governo, extremamente católico, implementou uma série de medidas que nenhuma social-democracia na Europa jamais teria se atrevido a fazer: reduzir a idade de aposentadoria, elevar a previdência, melhorar a saúde pública, ampliar o apoio financeiro aos estudantes etc.
E aqui devemos ter muita cautela na análise. Dou um exemplo. Muitos dos meus amigos ficaram horrorizados quando Syriza capitulou, sabe? E eu concordo, eles não deveriam ter feito isso. Mas também não era simplesmente como se eles tivessem uma escolha. Não se tratou de uma simples traição, mas da revelação de uma necessidade mais profunda. Esse para mim foi o momento de verdade daquele processo todo. É por isso que sou muito cético quanto àquela ideia bastante em voga hoje entre certos setores da esquerda de que, da mesma forma que novos populistas como Bannon ou Trump em geral investem no nacional populismo de direita, também a esquerda deveria defender algo análogo. Não, eu não acredito que seja possível derrotar o capitalismo global jogando com cartas nacionais. Não compro essa ideia de nos retirar da União Europeia, ou o que quer que seja, para tocarmos nossa própria política nacional.1 Não se pode fazer isso. O capital global é um fenômeno internacional. A resposta a ele também terá de ser internacional.
É por isso que vejo alguns sinais progressistas em certas movimentações hoje. Você sabe que há agora um eixo – que não é um eixo do mal, mas digamos um eixo do bem – se formando: Sanders e seus democratas de esquerda nos EUA estão estabelecendo ligações com Corbyn e com o Partido Trabalhista inglês, e com alguns movimentos de esquerda como aqueles em torno de Varoufakis e similares na Europa. Precisamos permanecer – e digo que isso é mais importante hoje do que nunca – precisamos permanecer internacionalistas.
O próprio Fernando Haddad está em Nova York agora, a convite de Varoufakis, para participar do lançamento dessa frente. Uma das questões que a esquerda brasileira debate hoje no que diz respeito à organização da oposição a Bolsonaro é o seguinte: até que ponto se deve investir na criação de uma frente ampla “democrática” contra o neofascismo e a extrema direita, priorizando assim a busca por pontos de contato mínimos com setores de centro e até centro-direita contra um perigo maior; ou se, pelo contrário, ela deve radicalizar ainda mais seu discurso e seu programa pra tentar atingir maior apoio popular. Como você avalia esse dilema?
Essa é uma pergunta traiçoeira! Penso que devemos tomar muito cuidado aqui. É claro que, por motivos táticos, quando você quer barrar determinada legislação perigosa de direita, não há problema algum em estabelecer coalizões táticas com quem quer que seja. Mas eu não diria que devemos renunciar totalmente nossa visão mais radical de esquerda. Não apenas por conta de algum tipo de purismo esquerdista. Penso que não devemos jamais perder de vista que a crise à qual Bolsonaro e Trump aparecem como respostas é a crise do establishment liberal de centro.
Há coisas boas no liberalismo: liberdades humanas, direitos LGBT, direitos das mulheres etc. Mas, no longo prazo, a única maneira de redimir, de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda. Aquilo que, por exemplo, o Partido Trabalhista está tentando fazer na Inglaterra, com Jeremy Corbyn. Não penso que devamos apostar todas as fichas na direção do “agora estamos diante de um enorme perigo e devemos todos nos unir contra os novos populistas de direita”.2 Se fizermos isso, mesmo que tenhamos êxito, só voltaríamos à situação que ensejou o nascimento do populismo de direita.
Algum recado final para seus leitores brasileiros?
Mande um salve para todos aí no Brasil. Diga a eles que estamos todos na mesma merda. O jeito é tentarmos permanecer o mais alegre que pudermos neste inferno em que vivemos!3

NOTAS
1 Tariq Ali defendeu recentemente essa posição no contexto do Brexit em entrevista a Edemilson Paraná e Gustavo Capela para o número 29 da revista da Boitempo, a Margem Esquerda. Žižek desenvolve sua crítica a essa ideia em sua coluna no Blog da Boitempo aqui. [N. E.]
2 O cientista político André Singer, organizador de As contradições do lulismo, defendeu essa posição na plenária pós-eleições convocada por Ruy Braga, com Marilena Chaui e Vladimir Safatle no dia 1º de novembro de 2018 na USP. Confira a gravação completa da intervenção dele na TV Boitempo clicando aqui. [N. E.]
3 Tradução de Artur Renzo, com colaboração de Thaisa Burani. [N. E.]

Depois de muitos pedidos, ele chegou: o livro de Žižek sobre cinema ganha nova edição, totalmente revista e ampliada! Em Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno, o filósofo esloveno propõe um estudo aprofundado das motivações de diretores renomados internacionalmente, como Krzysztof Kieślowski, Alfred Hitchcock, Andrei Tarkovski e David Lynch. Esta nova edição traz seis novos textos e análises originais sobre o cinema contemporâneo: Žižek analisa sucessos hollywoodianos recentes como “Blade runner 2049”, “Batman: O cavaleiro das trevas ressurge”, e o novo “Pantera Negra” da Marvel, além de uma análise leninista de “La La Land”.
“Os ensaios reunidos neste livro estão conectados não só pela riqueza do método, mas também pelas referências reiteradas a ideias que se manifestam em obras tão distintas quanto as de Kieslowski, os irmãos Wachowski, Hitchcock, Tarkovski e David Lynch.” — Sérgio Rizzo
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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Artur Renzo é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Como Bolsonaro convenceu os brasileiros a combater moinhos de vento, por Carla Guimarães.

Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seus delírios em realidade



Seguidores do presidente Jair Bolsonaro caminham na frente de um boneco gigante com sua figura em Brasília. EFE

Seguidores do presidente Jair Bolsonaro caminham na frente de um boneco gigante com sua figura em Brasília.Em um país tropical, cujo nome não quero lembrar, vivia um militar aposentado que defendia a ditadura e que acreditava que o grande erro daquele regime foi não ter matado mais vermelhos. Esse militar, em seus momentos de ócio, se dedicava a fazer campanhas políticas e até chegou a ser deputado. Em quase três décadas no Congresso, aprovou apenas duas leis de sua autoria. Sua grande contribuição, em suas próprias palavras, foi impedir que certos projetos fossem aprovados. Por causa desses projetos, passava noites em claro. “As minorias têm que se curvar às maiorias”, disse em certa ocasião. A luta contra a expansão dos direitos de mulheres, homossexuais, negros e indígenas o consumia por completo. E assim, dormindo pouco e lutando muito, seu cérebro secou de tal maneira que perdeu o juízo. De fato, terminada sua sanidade, um estranho pensamento se instalou em sua mente: tornar-se presidente e sair pelo país com suas armas defendendo os direitos dos homens brancos e ricos. Para alcançar seu nobre objetivo, estava disposto a enfrentar o maior dos perigos, a esquerda radical.

Como foi paraquedista, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com incríveis malfeitos
Como foi paraquedista em seu tempo no Exército, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com os incríveis malfeitos cometidos por seu recalcitrante inimigo. Onde quer que fosse, advertia sobre o perigo da esquerda, que pretendia instaurar uma ditadura gay no país. Se os seus adversários chegassem ao poder, legalizariam a pedofilia, os bicos das mamadeiras teriam a forma de pênis e, nas escolas, as crianças heterossexuais se tornariam homossexuais por causa de um material didático apelidado de kit gay pelo militar.
Outra de suas grandes preocupações era evitar o avanço do feminismo, uma ideologia que levaria o país inexoravelmente ao apocalipse. O feminismo era capaz de transformar mulheres em monstros peludos cheios de ódio contra o gênero masculino. O objetivo desses monstros era instaurar uma ditadura feminista que, junto com a ditadura gay, perseguiria sem descanso os pobres homens heterossexuais.


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Os ativistas que defendem os direitos humanos e a natureza também representavam um risco. Eram um claro obstáculo ao desenvolvimento da nação. “Hoje em dia é muito difícil ser patrão”, defendeu o ex-paraquedista não faz muito tempo. Para ele, os donos das grandes empresas e os latifundiários eram as verdadeiras vítimas esquecidas pelas ONGs. Oprimidos pelos direitos de seus trabalhadores ou pelas leis de preservação da natureza, os patrões são uma espécie indefesa que deve ser protegida. No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente e “direitos humanos” era pouco mais que um palavrão.
Além de denunciar as terríveis injustiças que seriam perpetradas pela esquerda radical, o militar aposentado oferecia a solução para o grave problema da insegurança no país tropical. “Bandido bom é bandido morto”, gritavam seus acólitos. Seu plano inovador para melhorar a segurança era armar a população. Combater a violência com mais violência. Como ninguém tinha pensado nisso antes?

No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente
As armas foram, sem dúvida, o grande símbolo de sua cruzada pelo país. Em suas mãos, qualquer objeto se tornou uma alusão a elas. Na falta de um objeto, seus próprios dedos imitavam pistolas e revólveres. O ex-militar fez o gesto de disparar em inúmeras ocasiões, tanto que ninguém se lembrava mais de que tinha 10 dedos. Aqueles que o viram garantiam que ele só tinha dois dedos em cada mão: o indicador e o polegar, ambos manchados de pólvora.
Apesar de se apresentar como um herói à maneira de Chuck Norris, o ex-paraquedista não pôde esconder sua maior fraqueza: o medo do debate. Toda vez que enfrentou um adversário, perdeu seguidores. Os adversários o crivavam com argumentos, disparavam-lhe ideias e o acabavam com dados. Ele estava, pela primeira vez, desarmado e indefeso, perdido no meio de um tiroteio dialético. Portanto, como bom militar, optou por outra estratégia. Quando falava, preferia fazê-lo sozinho, em um discurso; ou de maneira acordada, com um interlocutor amigável. Adorava frases de efeito, geralmente vazias de conteúdo. O discurso de ódio se tornou seu melhor aliado e tirou milhares de intolerantes do armário. Para seus fãs, o desprezo pelas minorias era sinceridade, os ataques à liberdade de expressão eram puro senso comum e a defesa da repressão policial era pragmatismo. Para justificar o discurso de ódio, o carrasco se faz passar por vítima, o perseguidor diz que está sendo perseguido e o covarde se disfarça de herói.
Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seu delírio em realidade e no primeiro dia do novo ano tomou posse como presidente do país tropical. Para os narradores que descrevem suas façanhas é quase impossível explicar como o ex-paraquedista conseguiu convencer uma grande parte da população de que os moinhos de vento eram, na verdade, gigantes.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Como será o amanhã? “Se você não pode dar pão ao povo, dê a ele o sangue de um inimigo”, por Marcello Faulhaber.


Bolsonaro em encontro de governadores eleitos em Brasília no dia 14 de novembro
Bolsonaro em encontro de governadores eleitos em Brasília no dia 14 de novembro  EFE



O Sistema foi o grande derrotado das eleições presidenciais

Há exatamente dois anos, logo após as eleições municipais de 2016, eu afirmei em entrevista para este jornal que a eleição presidencial de 2018 seria ganha por um outsider da política ou por uma figura anti-establishment. Desde então, eu reafirmei o mesmo prognóstico em entrevistas para outros veículos e também em diversos textos que escrevi para este jornal. Muitas vezes, fui questionado pelos meus clientes do mercado financeiro e por tradicionais players do mundo da política por conta desta afirmação – questionamentos esses que eram mais fruto de um desejo que tal prognóstico não se concretizasse do que consequência de uma análise racional a respeito do comportamento do eleitorado brasileiro.
Ao final do primeiro turno das eleições, veio a comprovação: as duas candidaturas mais rejeitadas pelo establishment (popularmente conhecido como O Sistema) estavam no segundo turno.
Hoje, eleitores de cada um dos dois lados, me criticam por não considerar o candidato do campo oposto como parte do establishment. Essa é uma discussão apaixonada, mas ela se torna irrelevante quando trazida para o campo da objetividade. Para isso, basta olharmos as matérias e as linhas editoriais que dominaram a grande mídia do país até dez ou quinze dias antes do primeiro turno - quando o Sistema ainda sonhava com uma vitória de Geraldo Alckmin. Ao fazer esse exercício, fica fácil perceber que o pior pesadelo para o establishment era exatamente um segundo turno entre o candidato do PT e Jair Bolsonaro.
De fato, para o punhado de plutocratas que comanda o Sistema, a candidatura do PT trazia diversos riscos que poderiam ameaçar sua contínua acumulação de riqueza e poder: 1) a adoção de políticas fiscais expansionistas; 2) o combate ao rentismo; 3) a desvalorização do câmbio; 4) a proposição de uma reforma tributária ousadamente progressista; 5) a revogação da reforma trabalhista; 6) o repúdio à reforma da previdência nos termos desejados pelo mercado; 7) a luta por uma reforma política capaz de tornar o Congresso Nacional mais partidário, mais ideológico e consequentemente, menos pulverizado e menos “fluido e manobrável”; 8) o fim da concentração do mercado de comunicação na mão de pouquíssimos grupos familiares; 9) o enfrentamento ao poder que o judiciário, a polícia federal e o ministério público acumularam ao longo da última década; e por último, 10) a soltura do ex-presidente Lula.
O deputado Jair Bolsonaro, por outro lado, aos olhos desse mesmo punhado de plutocratas, representa(va) outros riscos: 1) o enfrentamento à agenda de costumes defendida por eles (relacionada à descriminalização do aborto, ao desarmamento dos cidadãos, ao aprofundamento dos direitos dos grupos LGBTs, à descriminalização do consumo de drogas e à defesa do meio-ambiente e de políticas afirmativas); 2) a promoção de um autogolpe durante o mandato; ou 3) a volta dos militares ao poder - menos “fluidos e maleáveis” que os políticos tradicionais. Além desses três riscos, a eleição dele também pode(ria) ameaçar o poder da grande mídia, do Congresso Nacional (historicamente comandado pelo “centrão” – um importante aliado do establishment) e do Supremo Tribunal Federal.
Logo, por mais que ao longo do segundo turno, tenhamos visto esses plutocratas aderindo ao candidato do PSL (para eles, o bolso é sempre mais importante que os ideais...), não dá para falar que o parlamentar do Rio de Janeiro era o candidato dos sonhos desse pequeno grupo que comanda o Sistema. Da mesma forma, só alguém com a cabeça muito contaminada nessa era da pós-verdade, poderia afirmar que esses titãs do capitalismo tupiniquim desejavam a eleição do candidato do PT - por mais que na década passada, eles tenham enriquecido enormemente durante o governo pelo ex-presidente Lula.
Enfim, o grande derrotado do primeiro turno das eleições presidenciais foi o establishment. Não poderia ser diferente num país em que a soma dos eleitores que diziam não confiar nada ou confiar pouco no Congresso Nacional em meados de abril, chegava a uma taxa impressionante de 89%. Similarmente, não poderia ser diferente num país em que cerca de 80% dos eleitores diziam - em questionamentos separados – confiar pouco ou não confiar nada na grande mídia, nos grandes bancos, nas grandes empresas e na justiça brasileira – apesar da avaliação bastante positiva acerca da Operação Lava Jato.

No segundo turno, essa narrativa anti-establishment também sagrou-se vencedora.
Curiosamente, apesar do mercado financeiro e desse punhado de plutocratas brasileiros terem aderido ao deputado Jair Bolsonaro no segundo turno, ele venceu a eleição exatamente por ter encarnado a narrativa antissistema melhor que Fernando Haddad.
Os valores, as ideias e a base eleitoral do presidente eleito
Mas, não pretendo me prolongar nesse texto sobre as razões que fizeram Bolsonaro vencer Haddad. Meu objetivo aqui é traçar um possível prognóstico a respeito do futuro Governo.
Nesse sentido, a teoria dos jogos nos ensina que quando conhecemos os valores pessoais, as relações de poder e os objetivos dos jogadores, fica fácil prever as ações dos mesmos e consequentemente, o resultado final do jogo.
O presidente eleito defende valores morais bastante conservadores – outro fator fundamental que explica sua vitória sobre Fernando Haddad. Ele é contra a descriminalização do aborto, contra a descriminalização do consumo de drogas e contra o aprofundamento das agendas LGBT, feminista e pró-minorias. Por outro lado, é a favor do direito das pessoas portarem armas de fogo para defenderem suas posses e a sua integridade física.
Politicamente, o deputado e ex-capitão do Exército tem uma retórica ultranacionalista e é um grande admirador da linha dura do regime militar brasileiro (que reagiu à abertura política iniciada no governo Geisel), do Coronel Brilhante Ustra e do General Augusto Pinochet.
Ele enxerga os partidos, intelectuais, políticos, movimentos e organizações de esquerda como os maiores inimigos da nação e dele próprio – em seu discurso, ele também os classifica como os maiores inimigos do povo.
Dentre suas referências mais atuais, destacam-se o ensaísta Olavo de Carvalho, o Juiz Sérgio Moro e o Presidente Donald Trump.
Na economia, apesar de ter defendido durante toda sua carreira parlamentar o modelo nacional-desenvolvimentista implantado pelo regime militar brasileiro, o presidente eleito foi recém-convertido ao liberalismo econômico.
Com essa conversão, que fez aumentar ainda mais sua admiração pelo regime militar chileno, o deputado Jair Bolsonaro passou a declarar-se um defensor da reforma trabalhista, da reforma da previdência, das privatizações e da redução do tamanho do estado.
No campo internacional, o presidente eleito defende uma relação umbilical (para alguns analistas, vassalar) com os Estados Unidos e, por isso, se mostra reativo ao multilateralismo e aos laços que o Brasil construiu ao longo das últimas décadas com a China, a Rússia, o Mercosul e alguns países africanos, árabes e até mesmo europeus de tradição social-democrata.
Por último, na questão do meio-ambiente, assim como o atual presidente norte-americano, o parlamentar do Rio de Janeiro também entende que há exageros na agenda do aquecimento global e acredita que, atualmente, ela é prejudicial ao progresso do país e do mundo.
Passemos agora, para o entendimento de sua base eleitoral - originalmente construída a partir da defesa dos interesses dos integrantes das forças armadas e das polícias. Além das questões salariais e de carreira que afetam essas corporações, o presidente eleito destacou-se nos últimos anos, pela sua proposta de mudança da legislação do excludente de ilicitude. Na prática, ele pretende dar mais garantias legais para policiais que são acusados de homicídio ou de abuso de autoridade por parte do Ministério Público - com as propostas de afrouxamento das exigências para a comercialização de armas de fogo e de ampliação do excludente de ilicitude, é natural que grupos parapoliciais e milicianos tenham sido fortes defensores de sua candidatura conforme já foi retratado por este jornal em algumas matérias.
A partir das eleições de 2014, essa base eleitoral original foi bastante ampliada.
Uma classe média com valores conservadores, que não foi favorecida pelas políticas sociais dos governos do PT, que sofre com o aumento da violência nas ruas, e que foi convencida pela grande mídia que a corrupção política é a grande responsável pela crise econômica, pelo desemprego e pela perda do seu poder aquisitivo, passou a se sentir representada pelo parlamentar do Rio de Janeiro - são pessoas que entre 1994 e 2014, “tapavam o nariz” para votar no PSDB nas eleições presidenciais apenas porque este tinha o PT como adversário.
Essa classe média é filha e neta da mesma classe média que apoiou a queda de João Goulart em 64 e que ainda carrega em suas entranhas a bipolarização do pós-guerra, isto é, a visão de um mundo em que patriotas defensores da família, da propriedade privada e do cristianismo devem lutar continuamente contra a expansão do comunismo ateu.
Depois dessa classe média conservadora, a base se ampliou com o rebanho evangélico neopentecostal. Uma massa que cresce pari passu com a carestia, o desemprego e a miséria nos grandes centros urbanos. O forte posicionamento do presidente eleito a favor de algumas causas ligadas à defesa da família tradicional e contra as pautas comportamentais e de identidade que passaram a dominar a militância de esquerda na última década, foi fundamental para que ele conquistasse o eleitorado evangélico – inclusive um grande número de eleitores de baixa renda que se beneficiaram imensamente pelas políticas públicas dos governos do PT e que costumavam votar em candidatos apoiados pelo ex-presidente Lula.
Simultaneamente, veio o voto “sertanejo” - tradicionalmente mais conservador que o voto nas áreas urbanas. As propostas de 1) promover um relaxamento da legislação e da fiscalização ambiental e trabalhista nas áreas rurais; 2) de permitir que os proprietários de terra possam se armar mais fortemente para proteger suas posses; e 3) de combater duramente (ou até mesmo, de criminalizar) o MST, ganharam o coração das lideranças políticas e econômicas do Brasil Rural. Como essas lideranças ainda detém forte influência sobre o voto popular em seus domínios, o deputado Bolsonaro obteve larga vantagem sobre o candidato do PT no interior do país.
De fato, a retórica nacionalista, messiânica, de resgate de valores morais tradicionais e de criminalização da esquerda, foi fundamental para a vitória do parlamentar do Rio de Janeiro. Por outro lado, essa mesma retórica também faz com que o presidente eleito acabe sendo percebido pela imprensa internacional como mais um representante do neopopulismo de extrema direita que vem conquistando eleitores no mundo todo.
A combinação dessa mesma retórica com a admiração declarada pela linha dura do regime militar (e por figuras como o Coronel Ustra), somada ao apoio recebido por militares, policiais e parapoliciais, faz com que outros analistas políticos desconfiem das declarações de respeito à democracia e à Constituição feitas pelo deputado Bolsonaro depois de eleito - são analistas que vão além e que afirmam que seu futuro Governo representa uma ameaça fascista para o Brasil.

Um prognóstico para o futuro governo do Presidente Bolsonaro

Todavia, no atual contexto de pós-verdade, todas essas expressões precisam ser relativizadas. Afinal o que seria esse neopopulismo de extrema direita? O que significa uma ameaça fascista? Será que ao longo dos últimos anos, as instituições da nossa República têm de fato respeitado a Constituição e a democracia?
As palavras têm poder, mas às vezes, pouco importam. Para a maior parte dos brasileiros, o importante agora é entender o que presidente eleito vai fazer a partir de primeiro de janeiro.
Se ele for tão sagaz quanto tem se mostrado desde o início da campanha eleitoral em agosto, ele vai conseguir implantar grande parte da sua agenda.
Com algumas ações heterodoxas e tendo o Juiz Sérgio Moro como seu ministro da Justiça, não será difícil para o presidente Jair Bolsonaro conseguir criminalizar e, eventualmente, banir a esquerda da cena política nacional. Com a criação de alguns fatos, a instalação de novos inquéritos, o apoio da Procuradoria Geral da República (o presidente eleito já sinalizou que assim como fez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não vai se comprometer a seguir a lista tríplice proposta pelo Ministério Público para a escolha do próximo Procurador Geral da República) e a complacência do Congresso Nacional, da grande mídia e do Judiciário, não será difícil incriminar, encarcerar e calar as principais lideranças de esquerda do país – tudo feito sob o manto do combate à corrupção e dentro da legalidade.
Com a escolha do próximo chanceler, também não haverá nenhuma dificuldade para o presidente Jair Bolsonaro implantar uma política externa umbilicalmente associada à política externa norte-americana – afinal, tal movimento não afeta em nada os interesses daquele punhado de plutocratas a que me referi anteriormente.
Por exemplo, é muito provável que a embaixada brasileira em Israel seja mesmo transferida para Jerusalém. Além do desejo de alinhamento com os Estados Unidos, há também a pressão das igrejas evangélicas neopentecostais brasileiras que apoiaram o presidente eleito – elas, assim como suas coirmãs norte-americanas, associam o retorno de Jesus ao reconhecimento de Jerusalém como a única capital do estado judeu. Dessa forma, é improvável que o lobby do agronegócio (que gostaria de evitar uma eventual retaliação dos países árabes por causa dessa transferência) seja capaz de reverter o anúncio que foi feito logo após o fim das eleições.
Adicionalmente, o endurecimento das relações comerciais com a China e com a Rússia também deve acontecer apesar dos potenciais prejuízos para o agronegócio e para o setor de mineração do país.
A agenda comportamental conservadora (relacionada a temas como aborto, drogas, maioridade penal, porte de armas de fogo e excludente de ilicitude) e o afrouxamento da legislação ambiental também devem ser implantadas com sucesso. Para isso, basta atrelar a condução de tais medidas no Congresso Nacional à aprovação da reforma da previdência (a grande obsessão do establishment e do mercado financeiro) e ao programa de privatizações que será proposto pelo futuro Ministro da Economia.
Na verdade, o economista Paulo Guedes será muito útil ao Sistema enquanto estiver na linha de frente da reforma da previdência, do programa de privatizações, da redução do tamanho do Estado, da independência do Banco Central e do aprofundamento da reforma trabalhista recentemente aprovada.
“A porca só vai torcer o rabo” quando ele resolver acelerar sua agenda liberal na tentativa de fazer o país crescer de forma significativa.
O futuro ministro da economia encontrará um muro intransponível quando quiser: 1) reduzir os juros reais e tornar o Real mais competitivo para favorecer a exportação e com isso, gerar demanda para o setor produtivo brasileiro; 2) combater privilégios fiscais e os juros subsidiados oferecidos pelos bancos estatais; e 3) enfrentar os poderosos cartéis e monopólios privados do país para aumentar a produtividade da nossa economia por meio de políticas antitruste, da redução de tarifas de importação e da atração de investimento estrangeiro direto para aumentar a competição nesses setores.
Quando entrar nesse “capítulo”, o futuro ministro deixará de ser visto como herói pela grande mídia e passará a ser alvo dos plutocratas e de seus aliados no Congresso Nacional, no Ministério Público e no Judiciário.
O presidente Bolsonaro terá então três alternativas: 1) bancar a agenda liberal do seu “Posto Ipiranga”; 2) dar um “cavalo de pau” na economia e adotar políticas de expansionismo fiscal e/ou de distribuição de renda para tentar gerar crescimento econômico; e por último, 3) ceder à pressão do establishment e manter o velho capitalismo de compadrio brasileiro – o mesmo que que favorece o rentismo, a concentração de renda e que é responsável pela estagnação econômica do país nos últimos 30 anos.
As duas primeiras alternativas farão com que o presidente eleito também se torne alvo do Congresso, do Ministério Público e do poder judiciário. Nesses casos, assim como aconteceu com Jânio Quadros e Fernando Collor, que também foram eleitos com um discurso “apolítico”, anticorrupção e liberal na economia, é possível que o mandato de Jair Bolsonaro fique ameaçado - tendo o General Mourão como seu substituto direto, é pouco provável que as Forças Armadas se arrisquem a defender o presidente eleito num eventual embate contra o Congresso e o Judiciário.
A terceira alternativa vai lhe garantir a permanência no cargo até o final do mandato, mas não será capaz de gerar o crescimento econômico necessário para melhorar seus níveis de aprovação nos dois últimos anos de governo.
Dessa forma, para sua própria sobrevivência política, lhe restará “caçar e queimar novas bruxas” - no que tiver sobrado na esquerda, em outro campo político, ou quem sabe até fora do país. Seria o uso da velha tática do “se você não pode dar pão ao povo, dê a ele o sangue de um inimigo” - imaginário ou não.
O mundo já viu muitos exemplos trágicos dessa tática ao longo da história. No curto prazo, ela pode até dar algum resultado, mas no final, nunca acaba bem.
Marcello Faulhaber é consultor e estrategista político. É mestre (MSc.) em Economia Política pela London School of Economics.