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terça-feira, 25 de junho de 2019

Líder chinês exclui Bolsonaro de reunião e dá indício de fim do BRICS

Ao convocar uma reunião trilateral somente com Rússia e Índia, Xi Jinping sinaliza que o que antes se chamava BRICS pode se transformar somente em RIC, devido à submissão, sobretudo do Brasil, ao governo dos Estados Unidos


Putin, Jinping e Modi, durante encontro dos BRICS, em 2018 (Arquivo)
Por Victor Farinelli   
A submissão aos Estados Unidos impulsada pelo governo de Jair Bolsonaro parece já estar dando frutos, ou ao menos é o que se pode supor pelo anúncio desta segunda-feira (24) do governo da China de que aproveitará a reunião do G20 (no Japão, durante o próximo fim de semana) para um encontro trilateral paralelo do seu presidente, Xi Jinping, com os mandatários da Rússia, Vladimir Putin, e da Índia, Narendra Modi.

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Por se tratar de uma reunião entre três dos sócios do BRICS, chama bastante a atenção a ausência dos outros dois, o brasileiro Jair Bolsonaro e o sul-africano Cyril Ramaphosa, que também estão entre os líderes convidados para o evento que se realizará na cidade japonesa de Osaka.

Embora o vice-ministro chinês de Relações Exteriores, Zhang Jun, que anunciou o encontro trilateral, não tenha comentado sobre a situação dos BRICS, não é nenhum segredo para o mundo que a devoção demonstrada por Bolsonaro a Trump, durante sua recente passagem por Washington, não agradou a Putin e sobretudo a Jinping, em um cenário em que seu país e os Estados Unidos vêm travando uma ríspida guerra comercial.


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Por sua parte, a prioridade do Brasil durante o evento em Osaka será organizar junto com a diplomacia argentina, um encontro conjunto de Bolsonaro e Mauricio Macri com o presidente estadunidense Donald Trump – visando fortalecer a relação com o país norte-americano, ao mesmo tempo em que poderia gerar maior distância com o gigante asiático.

A julgar por essas movimentações, o que em algum momento se chama BRICS poderia, muito em breve, se tornar somente RIC.


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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

“Brasil é mistura da Rússia com Turquia e Filipinas”, diz sociólogo Frederic Vandenberghe

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Professor da UFRJ, o belga Fréderic Vandenberghe acredita que a democracia do País não é tão sólida.

A situação do Brasil foi tema de uma palestra do sociólogo belga Fréderic Vandenberghe na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS), onde atua como professor convidado. No evento, ele expôs um quadro preocupante do país a partir da eleição de Jair Bolsonaro e posiciona o Brasil alinhado a um eixo populista de extrema direita que se instalou em várias regiões do mundo.

Nascido na Bélgica, Vandenbergue percorreu vários países para aperfeiçoar sua formação acadêmica na área de Sociologia. Sua trajetória profissional de professor e pesquisador inclui França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Brasil, onde atuou na Universidade de Brasília, em 2003, antes de se instalar no Rio de Janeiro. Atualmente, ele integra o quadro docente do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Convidado para falar do Brasil na prestigiosa EHESS, Fréderic escolheu como título da palestra O túnel no final da luz : análise da conjuntura brasileira em uma perspectiva comparativa. “A escolha deste título é para indicar um desespero que é objetivo. A vivência no Brasil depois das eleições é muito difícil. Os sentimentos mais compartilhados no meio acadêmico, universidades, entre os colegas e os amigos é de tristeza e também de muito medo”, explicou na entrevista à RFI Brasil.

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O SOCIÓLOGO FRÉDERIC VANDENBERGHE (FOTO: RFI BRASIL/ELCIO RAMALHO)

Vandenberghe define a situação política do Brasil como extrema e estima que Jair Bolsonaro “não é um presidente que se pode comparar a qualquer outro” na história do país. “Estamos confrontados com um populismo da extrema-direita. Todos os valores que as pessoas liberais e democratas acreditam estão em suspenso e ameaçados”, afirma. “Nunca pensei que viria em minha vida uma desconstrução ativa dos direitos humanos e de uma democracia liberal”, acrescenta.

O sociólogo diz ter recorrido a vários livros e textos sobre populismo e autoritarismo para preparar sua intervenção na capital francesa. Em sua análise, ele observou que, em um espaço muito curto de tempo, o espectro político brasileiro se deslocou.

“O que era centro-esquerda e centro-direita virou simplesmente extrema-esquerda porque a direita populista é tão extrema, que, de acordo com o ponto de vista deles, tudo o que estiver mesmo um pouquinho à sua esquerda é taxado de socialista, comunista, e portanto, como um inimigo interno”, argumenta.

Além da análise teórica, Fréderic Vandenberghe usou sua experiência na observação de manifestações de diferentes grupos políticos para elaborar suas teses. Em uma delas, na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, diz ter ouvido militares em carros de som se referindo às centenas de mortes de “comunistas” durante a ditadura (1964-1985) e pessoas gritando o nome do general Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela justiça como torturador durante o regime militar.

“Podemos chamá-las de fascistas. Quando vejo essa apologia da ditadura e da tortura, isso me choca. Não gosto de falar de extrema-direita e fascismo, mas numa escala de 1 a 10, estamos em 8, 8,5. Isso assusta”, diz.

Brasil é uma mistura de muitos países
No entanto, diz o sociólogo, para entender o que acontece no Brasil é preciso avaliar dentro de uma perspectiva internacional comparativa. E o país, a partir do governo Bolsonaro, faz parte de uma conexão de ultradireitas, mas com características particulares, que seria “uma mistura” do que acontece em outros países.

“O Brasil é uma mistura da Rússia, com uma democracia de fachada, da Turquia, com a depressão que vai atingir os intelectuais e os artistas, e também das Filipinas, onde a política que é articulada para combater criminosos e favelados vai resultar em uma matança”,  resume.


Vanderberghe também estima que a democracia brasileira não é tão sólida quanto se propaga, até por lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “O Brasil tem uma alternância regular de períodos democráticos e oligárquicos. Temos agora uma volta da oligarquia com uma política de extrema direita. Não compartilho com a ideia otimista de que as instituições no Brasil são sólidas”, afirma.

Preocupação com o futuro das universidades
Com sua experiência no meio acadêmico, o sociólogo belga considera a situação das universidades muita crítica, não apenas sob o aspecto financeiro. “Nos últimos três anos, o orçamento nos departamentos das Ciências Sociais e também em outros foi cortado em 75%. O novo governo deve cortar ainda mais”. Para ele, tão grave como a falta de recursos é a percepção de que essas áreas do conhecimento não oferecem muitas oportunidades de trabalho e de atuação no futuro.

“A disciplina que eu ensino, a Sociologia, vai ser tirada do currículo do ensino médio a partir de 2021. Os jovens que fazem doutorado não veem perspectivas de emprego”, lamenta. “O que vai acontecer também, como já foi anunciado, é um controle ideológico, vão introduzir critérios até para avaliar a distribuição de bolsas de estudos para os alunos. Como eles consideram que as Ciências Sociais e as Ciências Humanas, na sua totalidade, são simplesmente lugares de doutrinamento da extrema esquerda, esse controle ideológico é claramente preocupante”, destaca.

Outro motivo de inquietação  manifestado por Vanderberghe é sobre um eventual programa de privatizações das universidades federais do país. Como ex-professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ele considera a desestruturação da instituição um “plano piloto” para um projeto que seria mais amplo de desmonte do ensino superior público do país.

“Sabemos que as universidades são locais de resistência. Será que quando houver manifestações, a repressão será muito violenta? Serão usadas balas de verdade? Esse sentimento de ataque contra as universidades e as Ciências Sociais e Humanas realmente é muito, muito preocupante”, conclui.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo, por Glenn Grenwald.



Rowland Scherman/Getty Images
PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americanojustificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.



MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

“A culpa é do Putin!” - A guerra midiática do Ocidente e a demonização da Rússia, por Frederico Füllgraf.



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Por Frederico Füllgraf
Enquanto a imaginação do leitor se introduz no vasto território virtual indicado pelo título, nas primeiras semanas de 2017, aproximadamente 3.000 blindados e 4.000 soldados norte-americanos, transportados até Zagan, em terras polonesas, foram colocados em regime de prontidão junto às fronteiras da Polônia e dos países bálticos – Lituânia, Estônia e Letônia – com a Rússia, enquanto outra divisão se deslocou à Romênia, vizinha da Ucrânia.
Iniciada antes do Natal de 2016, com o descarregamento de aparatoso arsenal no porto alemão de Bremerhaven e seu translado para 900 trens, que somaram 10 quilômetros de extensão, nas palavras do brigadeiro Timothy Ray, chefe do comando militar norte-americano na Europa (Eucom), a operação "Atlantic Resolve" (“Determinação Atlântica”) tem por objetivo “repelir agressões russas, reafirmar a integridade territorial dos países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte – NATO, no acrônimo inglês)”, e – pasme-se - “estabilizar a paz na Europa”.
Ao ler a declaração beligerante do militar norte-americano, a primeira indagação do leitor desavisado é: por acaso perdi essa notícia? Quê país europeu foi ameaçado, bombardeado ou invadido pelas tropas de Wladimir Wladimirowitsch Putin?
Resposta correta: nenhum.
Eis, pois, um case da guerra midiática em curso, na qual fake news – pseudo-notícias - são disparadas como projéteis da contra-informação.
Destoando do discurso de voz única da OTAN, em junho de 2016, o socialdemocrata Frank Walter Steinmeier - ministro de Relações Exteriores no governo Angela Merkel e negociador da paz ucraniana, decepcionado com as manobras de Kiev - antecipara-se à encenação da “Atlantic Resolve”, advertindo : “O menos recomendável neste momento é jogar gasolina na fogueira com a ostentação de armas e brados de guerra... A História ensina que, além da garantia da defesa recíproca, deve haver predisposição ao diálogo e à cooperação... Seria de muito bom alvitre não criar pretextos, com a entrega a domicílio de uma nova, antiga confrontação.”
A fraude americana do escudo anti-mísseis
A operação "Atlantic Resolve" foi decidida na última cúpula da OTAN, no verão de 2016, em Varsóvia, após John Kirby, porta-voz do State Department de Barack Obama, acusar a Rússia de “desestabilizar a segurança da Europa”, ao posicionar em Kaliningrado, portanto em seu próprio território, o sistema anti-mísseis S-400 Iskander.
Porém, na cúpula, os EUA tiraram o coelho da cartola: não fariam apenas uma fugaz manobra, mas posicionariam, em caráter definitivo, uma brigada de blindados, com pelos menos 4.000 combatentes, no Leste Europeu.
A resposta russa a Kirby apenas reiterou o óbvio: “A Rússa tem o direito soberano de adotar as medidas que considere necessárias em toda a extensão de seu território”. advertiu Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. E Viktor Ozerov, coordenador do comitê de defesa do Senado russo, foi ao ponto: o Iskander é uma réplica ao controvertido “escudo anti-mísseis” dos EUA (US Missile Shield in Europe) . Seu primeiro estágio entrou em operação em Deveselu, na Romênia, em maio de 2016, o segundo iniciará suas operações na Polônia, em 2018.
Mas, afinal, o que é o “escudo anti-mísseis” dos EUA? Na verdade, trata-se de um velho projeto da administração George W. Bush, reciclado de modo oportunista por Barack Obama.
A justificativa do Pentágono para sua instalação não poderia ser mais risivel: “defender a Europa de mísseis da Coreia do Norte e do Irã” - pretexto já questionado em 2013 por peritagens secretas das próprias FFAA norte-americanas, às quais teve acesso o semanário alemão Der Spiegel (“Geheimstudien stellen Raketenabwehrschirm in Frage”, 09/02/2013)
A evasiva esgrimida para o “escudo” é grotesca por vários motivos. Em primeiro lugar e propaganda norte-coreana à parte, Coreia do Norte e Irã estão muito longe da posse de tal poder de fogo. Ademais, não têm inimigos, nem motivos para atacar quem quer que seja na Europa. Finalmente, se os EUA tecem a teoria conspirativa de servirem, eles mesmos, como alvo, é óbvio que um hipotético lançamento de um míssil norte-coreano, via Europa Ocidental, contradiria as leis elementares da balística.
Para bom entendedor, atrás dos panos, dois pretextos municiam os movimentos da OTAN, sob o comando do Pentágono.
O primeiro opõe-se à retomada pela Rússia de seu poderio militar, o que lhe custou a estigmatização de “novo, velho adversário”. Aos olhos da OTAN, a Rússia de Putin é um “renegado” que não aderiu à “primavera árabe”, ao bombardeio da Líbia, que rechaçou o golpe de 2014 na Ucrânia, e ousa apoiar militarmente o movimento separatista do Donbass.
O segundo é uma “revanche” à secessão da Crimeia. Seu pano de fundo é a não aceitação da adesão da península à Federação Russa, definida pelos EUA e seus aliados como “anexação mediante violação do Direito Internacional”. Neste quesito, a hipocrisia volta a ser empregada como arma venal, mas fútil, na guerra da informação. Por acaso, as invasões do Afeganistão, do Iraque, o financiamento e treinamento da Al Qaeda e do “Estado Islâmico” na Síria, e o assassinato de milhares de pessoas pelos “Obama-drones” (4.404 vítimas civis até 2014, segundo o Bureau of Investigative Journalism) respeitaram o “Direito Internacional”? 
As forças-tarefa midiáticas da União Europeia
Mal Steinmeier assim se pronunciara em entrevista ao tabloide marrom BILD, e foi maldito por furiosa campanha midiática, Alemanha e Europa afora, na qual não faltaram eufemismos para acusá-lo de “traidor”.
Entrara em cena a confraria dos “atlantistas” e da recém-constituída “Taskforce Stratcom East”.
Os “atlantistas” integram o mais antigo lobby pró-americano na Alemanha, conhecido como “Atlantik-Brücke” – a “Ponte Atlântica”.
Fundada em 1952, como “sociedade privada, suprapartidária e beneficiente”, seu objetivo é estender “pontes” financeiro-econômicas, educativas e de política militar entre a potência vencedora EUA e a Alemanha, perdedora da Segunda Guerra Mundial. No seu plantel de associados conta-se aproximadamente 500 nomes de alto coturno da elite civil e militar transatlântica. Com nova sede em Berlim, é do conhecimento público que a “Ponte Atlântica” opera como o mais influente think tank do planejamento das relações teuto-americanas. Ali bebericam, contam piadinhas e dão-se tapinhas nos ombros, executivos dos principais bancos, das corporações multinacionais, dos partidos políticos, dos grandes centros de pesquisa científica, lobistas e maketeiros, ladeados em suas rodas pelos serviços de inteligência e uma notável falange de editores sênior das principais mídias alemãs. Uma pletora ideologicamente transversal, que vai da BILD, com seu sensacionalismo marrom, pela ultra-conservadora Frankfurter Allgemeine, até a socialdemocrata-liberal Der Spiegel.
Pois, desde que Wladimir Putin resolveu frear o desmonte da Economia russa por uma confraria de inescrupulosos operadores neoliberais, nacionais e internacionais, modernizar as sucateadas FFAA do período soviético, e reconduzir a nova Rússia ao cenário mundial como global player, a metralhadora giratória da “Ponte Atlântica” escolheu a Rússia e seu mandatário como alvos prediletos. São 90 diretores e editores-chefe, 13 dos quais em posições de comando das duas maiores redes de Rádio e TV da Alemanha.
Consumado o Euromaidán - o golpe de Estado de fevereiro de 2014, com mais de 100 mortos na Ucrânia - em agosto de 2014 a rede ARD, de rádio e TV, realizou uma pesquisa indutiva, perguntando, quem fora o responsável pela escalada da violência em Kiev. Segundo a pesquisa, 80% dos alemães apontaram a Rússia e 70% saudaram as sanções contra o governo Putin – uma guinada de 180 graus na simpatia pró-Rússia em menos de cinco meses. Já oito meses depois, em abril de 2015, em nova pesquisa, desta vez da rede concorrente, ZDF, 55% dos consultados criticaran a exclusão da Rússia das reuniões do G-7 + 1 (EUA, Alemanha, Japão, Itália, Grã-Bretanha, França e Canadá + Rússia).
Porém, à medida que a cobertura das disputas geopolíticas com a Rússia se deslocaram da Europa para o campo de batalha na Síria - sobretudo após a série de atentados terroristas na França e na Alemanha - e a percepção de que os êxitos no combate ao terrorismo salafista não eram mérito de Barack Obama, mas de Wladimir Putin, a rejeição à Rússia e seu presidente voltou a recuar.
Com êxito sofrível, no final de 2016, a “ponte” instalada nos principais veículos de comunicação recebeu reforços da "Força Tarefa Rússia", criada pela União Europeia (UE) para contrarrestar o que definiu como “propaganda” e “mentiras” na cobertura de veículos russos, em particular sobre a crise na Ucrânia.
Alarmada com altos índices de rating da mídia russa nos países do Báltico, nos quais até 25% dos habitantes entendem e falam o Russo, cabe à nova força-tarefa observar e filtrar a mídia russa, com a especial missão de “impor valores da UE”, mediante a produção de conteúdo para TV, por enquanto em Alemão, Espanhol e Inglês.
Um milênio de russofobia
A confrontação referida por Steinmeier remonta à primeira guerra-fria, iniciada logo após a vitória aliada sobre a Alemanha, em 1945, mas a rachadura na porcelana é muito mais antiga e profunda. Analistas russos como Dmitri Michejew definem-na como o discurso da superioridade anglo-saxônica, que já beirou o racismo.
“Russos brutos, subdesenvolvidos, de segunda categoría – bárbaros!”, são juízos de valor emitidos no clássico francês “La Russie en 1839“ (traduzido para vários idiomas com o entrevado título “Sombras da Rússia”), de autoria de Astolphe-Louis-Léonor (nome-de-guerre: Marquês de Custine), aristocrata e viajante francês, eivado de preconceitos e prepotência, que vinte e seis anos após a desastrosa “Campanha da Rússia” de 1812-13, de seu conterrâneo Napoleão Bonaparte, não resistiu à curiosidade, resolvendo conhecer de perto os vencedores da grande armée. É verdade que o gélido inverno foi o grande marechal-de-campo russo, mas aguardá-lo para investir contra os franceses, foi astúcia habilmente maquinada pelas mentes “bárbaras”.
Após sua publicação, em 1843, o livro tornou-se um must read da intelectualidade ocidental, deleitada com pérolas como “eles [os russos] desconhecem o gênio da criação, nem o entusiasmo que tudo cria o que é grandioso. Jamais conseguirão galgar as cúspides da genialidade”.
Ao longo de 150 anos, o livro sofreu muitas reedições sutilmente sincronizadas com importantes eventos políticos envolvendo a Rússia, como o início da guerra-fria ou a perestroika de Michail Gobatschow. A mais recente foi em 2014, no auge da campanha de ódio à Rússia, desencadeada pela extrema-direita da Ucrânia.
Entre os ardentes reverenciadores de Custine, como “expert em assuntos russos”, figura Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, autor de “The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives - O Grande Tabuleiro de Xadrez: Primazia Americana e os seus Imperativos Geoestratégicos” (1993) – e estrategista da doutrina “Encircling Russia, Targeting China – cercar a Rússia e mirar na China,”, desenvolvida como reação à implosão da URSS e do sistema bipolar de poder mundial, e que reivindica a ascensão dos EUA ao postp de “primeira, efetivamente única e última potência mundial” (sic!).
Brzezinski chegou a recomendar o livro, emitindo duvidoso juízo de valor: “Nem um único sovietólogo conseguiu acrescentar qualquer coisa às observações de Custine sobre o caráter russo e a natureza bizantina de seu sistema político”.
Quem não sabe do centenário ódio visceral da maioria dos poloneses aos russos em geral, tomará a frase de Brzezinski pelo valor de face. Nascido em Varsóvia, em 1928, como filho de um diplomata polonês nomeado para um posto no Canadá, em 1938, Brzezinski assistiu à Segunda Guerra, por assim dizer, de binóculos, mas com as lentes do nacionalismo polaco (profundamente humilhado com a divisão da Polônia por Hitler e Stalin) e do anticomunismo norte-americano. Em 1953 emigrou aos EUA, cuja cidadania adotou em 1958, seguida por meteórica carreira acadêmica em Harvard e como assistente do extinto Russian Research Center.
Em sentido oposto, em seu livro recentemente lançado, “Feindbild Russland: Geschichte einer Dämonisierung (Rússia bicho-papão: História de uma demonização), o historiador austríaco Hannes Hofbauer seguiu as pistas do preconceito anti-russo até o séc. XVI, ressaltando que “a primeria onda de russofobia foi desencadeada na Universidade de Cracóvia, atual Polônia, pelo filósofo Johannes von Glogau, criador do estigma do ´russo asiático e bárbaro´”; estereótipo que teimosamente persistiu até os dias atuais.
Alexandr Zinoviev, escritor e filósofo russo, que se auto-exilou na Alemanha durante as eras Kruchev, Brejnev e Gorbachov, sentiu na própria pele o preconceito ocidental: “No Ocidente sempre se temeu a etnia russa. E não por motivos militares ou de competição econômica e, sim, por causa do medo, de que os russos eram e continuam sendo adversários do Ocidente. A isso somou-se seu o temor do imenso potencial criativo russo. Do que mais tinham medo era de que a cultura russa alcançasse o Ocidente. Falo por experiência própria. Não fosse russo e as portas de todas as universidades estariam abertas para mim, todas as editoras ofereceriam publicar meus livros. No começo, tive sorte, e por acaso me tornei relativamente famoso. Porque achavam que eu era dissidente, mas quando descobriram que eu era russo e não era dissidente, subitamente começaram a me temer...”.
Guy Mettan, cientista político suíço e membro da Câmara de Comércio Russo-Suíça, fez penetração mais profunda no túnel do tempo.
Em seu livro Russie-Occident, une guerre de mille ans: La russophobie - editado na Suíça, Rússia e Itália, com previsão de lançamento em 2017, nos EUA - Mettan insiste que “a russofobia se inicia com divergências políticas e institucionais entre o Império Romano do Ocidente, fundado por Carlos Magno em 800 d.C., e o Império Bizantino de Constantinopla, quer dizer entre as Igrejas Católica e Ortodoxa".

No livro, Mettan voltou a tematizar uma célebre fake news francesa, que serviu de pretexto para a invasão da Rússia por Napoleão. Trata-se do falso "Testamento de Pedro, o Grande", urdido pelo gabinete secreto de Luís XV, no qual o czar, como último desejo, teria legado a seus sucessores a missão de conquistar toda a Europa. Segundo o suíco, o documento foi usado em 1853 pelos ingleses, para provar as intenções imperialistas da Rússia na Guerra da Crimeia (1853-1856), que cobrou 700.000 vítimas. Algumas décadas mais tarde, foi admitida a falsidade do testamento, mas ao preço de prolongado surto de russofobia na França e na Inglaterra.
O vendaval “Russia Today”
“Quebrar a hegemonia do discurso anglosaxão” foi a frase que alguns comentaristas ocidentais colocaram na boca de Wladimir Putin, que em 2005 resolveu colocar no ar um canal de TV internacional para contrabalançar a coletânea de estigmas anti-russos.
Seis anos depois, em março de 2011, a então secretária de Estado, Hillary Clinton, fazia uma surpreendente advertência ao comitê de Prioridades de Política Exterior do governo Barack Obama, dizendo: ”os EUA estão perdendo uma guerra da informação”.
Foi a primeira vez que uma “guerra da informação” era admitida pelos EUA, referindo-se, sobretudo, aos canais estatais Russia Today e Al Jazeera (“A Península”) do Qatar.
Incisiva, Clinton cobrou mais investimentos em propaganda para contrarrestar a penetração dos canais russo e qatari através de plataformas domésticas que há vários anos desafiam os grandes grupos midiáticos norte-americanos, tais como Alex Jones Infowars, Max Keiser, Paul Craig Roberts e The Young Turks.
Que na tal “guerra da informação”, de uma hora para outra, bombas podem substituir eufemismos, ilustra o ódio pessoal de George W. Bush contra o cobertura independente da invasão do Iraque.pelo canal Al Jazeera, pertencente ao seu aliado Qatar.
Em abril de 2003, a aviação dos EUA bombardeou o escritório do canal em Bagdá,matando três jornalistas e ferindo gravemente vários outros. Um crime de guerra escancarado, ao qual os EUA cinicamente deram de ombros. Um ano mais tarde, segundo documentação do Mirror britânico (“EXCLUSIVE: BUSH PLOT TO BOMB HIS ARAB ALLY- Madness of war memo, 22.11.2005), Bush Jr. estava decidido a bombardear a sede mundial do Al Jazeera, em Doha. O ataque demencial foi impedido graças à persuasão de Tony Blair, durante uma reunião ocorrida em 2004.
No Iraque, perplexa como o resto do mundo, a Rússia assistira a uma das mais pérfidas mentiras históricas como pretexto para a invasão do país árabe e o assassinato de seu presidente: as tais “armas de extermínio em massa”, que Sadam Hussein jamais possuíra. A tonitruante e avassaladora campanha orquestrada pelas mídias mainstream ocidentais, ao adotarem a mentira do Pentágno e seus aliados, convenceu a Rússia, mal restabelecida do ataque predador à sua Economia que, alternando com morteiros e mísseis, o Ocidente travava também uma guerra das palavras e das imagens.
Tendo como embrião a agência de noticias RIA Novosti, em dezembro de 2005, na primeira gestão presidencial de Wladimir Putin, a Rússia decide transmitir - via satélite e para recepção à cabo – seu primeiro serviço em inglês, a TV-Novosti, definida como empresa autônoma sem finalidade de lucro, veiculadora do conceito “Russia Today”, mais conhecida pelo acrônimo RT.
A expansão foi passo a passo. Em 2007, foi ao ar seu programa em árabe, Rusia Al-Yaum. Em 2009, lançou RT Actualidad, seu serviço em espanhol. Após a inauguração em Washington dos estúdios de RT America, em 2010, quatro anos mais tarde passaram a operar os serviços de RT Deutsch, em Berlim, e RT UK, em Londres. Em 2014, penúltimo ano do governo de Cristina Kirchner, a presidente argentina inaugurava em festiva teleconferência com Wladimir Putin, o sinal do RT na grade de programação da TV estatal da Argentina, onde, apesar de uma primeira tentativa de exclusão, persiste sob o governo Mauricio Macri.
O serviço alemão, RT Deutsch, revela estratégia perspicaz: em vez de vultosos investimentos em estúdios e transporte de dados via cabo, a RT resolveu apostar na Internet. Russia Today é o campeão de acessos no YouTube, conseguindo a proeza, em 2013, de um 1,0 bilhão de visitas. Recorde estrondosamente superado em 2016, com 4,0 bilhões de visitas, segundo estatística da própria RT, somando, de modo combinado, mais do que o dobro dos acessos ao canal Youtube da concorrente CNN, ao triplo da Euronews e sete vezes ao da BBC.
Três anos depois, quem ecoou a chamada de Clinton foi a BBC. Peter Horrocks, antigo diretor do BBC World Service, desabafou: a emissora estaria sendo “tirada do páreo pelos orçamentos dos canais estatais da Rússia e da China”. E outra vez fez-se ouvir a frase “estamos perdendo a guerra da informação”. Ato contínuo, em 2015 a BBC World Service anunciou o maior aumento orçamentário desde a década de 1940: 721 milhões de dólares, contra aproximadamente 300 milhões de dólares anuais da RT, que cobrem despesas com instalações e salários de 2.500 funcionários e free-lancers distribuídos mundo afora.
O contraponto russo
Comentando o êxito do RT, Hillary Clinton advertia: “Você pode não concordar com o que transmite, mas você tem a sensação de estar recebendo notícias reais 24 horas ao dia, ao invés da enxurrada de milhões de comerciais e brigas entre cabeças falantes e essas coisas que se vê em nossos noticiários, que não são particularmente informativos”.
Clinton sabia que a audiência da mídia doméstica diminuía e, inversamente, aumentava a cobertura crítica à atuação internacional da auto-declarada super-potência. Desde sua entrada em cena, em 2010, a sintonia do RT nas maiores cidades norte-americanas - de San Francisco por Chicago a Washington e Nova York - supera a de suas concorrentes internacionais. Por exemplo, para cada espectador do canal alemão Deutsche Welle World, há 13 sintonizados no canal russo. Na Grâ-Bretanha, 2,0 milhões de espectadores estão habitualmente ligados no RT, número jamais alcançado por outros canais internacionais no país.
Margarita Simonyan
Escolhida pessoalmente por Putin, foi Margarita Simonyan - descendente de refugiados do genocídio armênio, perpetrado pela Turquia entre 1915 e 1923 – quem moldou a grade de programação do canal. Com a missão de jamais permitir a repetição da derrota sofrida pela Rüssia à mentirosa narrativa da mídia ocidental sobre a guerra com a Geórgia, em 2008, Simonyan entendeu que o RT deveria ser fomatado como tela para capturar corações e mentes, insatisfeitos com os monopólios midiáticos ocidentais, mas abrindo espaço para alguns de seus rostos celebrizados. Por exemplo, contratando ou associandos-se a profissionais americanos de renome, como o showmaster Larry King, cujos programas “Larry King Now” e “Politicking with Larry King” - produzidos por sua produtora Ora TV, em sociedade com Carlos Slim, dono da Claro e dos três homens mais ricos do planeta – o RT retransmite em sua grade inglesa.
O anti-americanismo da emissora não é avant la lettre, mas construído com bem humoradas provocações e ironias, farta publicidade de moderno armamento russo, além de historietas com sex appeal e “causos” exotéricos de gosto duvidoso, sobretudo no serviço online de RT Español. Sua contribuição ao jornalismo sério é discutível, mas compreensível como tentativa de ampliar a audiência, o que o RT conseguiu com folga, sintonizado em 38 países, com público semanal estinado em 700 milhões, segundo dados da própria emissora.
Consideração finais: Putin e o cerco militar da Rússia
Herdeira da hostilidade histórica contra a Rússia, a beligerância midiática da OTAN é uma espiral iniciada nos primeiros anos do novo milênio e se intensifica com a “primavera árabe” e o conflito na Ucrânia.
Sua adversidade diriige-se contra os seguintes movimentos da Federação Russa, robustecida sob a presidência de Wladimir Putin:
 Reafirmação do Projeto Nacional russo, com a neutralização das forças neoliberais na Economia, fortalecimento do Estado, modernização das FFAA, e ofensiva diplomática em escala global;
 Rejeição da intervenção na Líbia, em 2011, e denúncia da “primavera árabe”;
 Ofensiva contra o fascismo na Ucrânia e apoio militar ao movimentio sessecionista no Donbass;
 Reincorporação da Crimeia;
 Criação dos BRICS - China entrando com seus bancos, a Rússia com a estratégia;
 Aliança politica com os governos de centro-esquerda da América Latina; e
 Bloqueio do plano internacional em fatiar a Síria, entrada na guerra, combate duro ao terrorismo e reversão do xadrez militar.
Todavia, do ponto de vista russo, muito antes desses eventos, a OTAN traiu sua palavra.
Em um memorando de de fevereiro de 1990, mantido em segredo até 2009, o recentemente falecido e então chanceler da Alemanha, Hans-Dietrich Genscher, disse textualmente ao seu colega soviético, Eduard Schewardnase, “tenhamos consciência de que a filiação de uma Alemanha unificada à OTAN levanta questões complicadas. Apesar disso, para nós [Alemanha] uma coisa é certa: a OTAN não se expandirá em sentido leste”.
Confirmando a promessa de Genscher, em 9 de fevereiro de 1990, o então chanceler dos EUA, James Baker, deleitou os ouvidos russos na Sala Catarina do Kremlin, dizendo, “a aliança [OTAN] não expandirá nem uma polegada da sua esfera de influência em sentido leste, caso os soviéticos apoiem a filiação de uma Alemanha unificada na OTAN” .
Michail Gorbatschow, que aceitara a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha, respondeu, taxativo: “Toda expansão da OTAN certamente seria inaceitável”
Os russos acreditaram em Genscher e Baker, mas as promessas jamais foram vertidas em contrato, e no decorrer dos últimos vinte anos se fizeram palavras ao vento.
Eis por que.
Já na cúpula da OTAN de 1997, em Madrí, países do ex-Pacto de Varsóvia, como a Polônia, a República Checa e a Hungria, eram convidadas para aderir à OTAN, o que fizeram em março de 1999.
Cinco anos depois, em março de 2004, sete ex-membros do Pacto de Varsóvia – Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia – aderiam à OTAN, deslocando enorme contingente militar para as fronteiras russas.
Em abril de 2008, seduzidas pelos EUA e a União Europeia, Albânia e Croácia aderiam à OTAN, seguidas pela Macedônia e Montenegro, ex-integrantes da Iugoslávia, destruída pela OTAN em meados da década de 1990.
Para não deixar espaços em branco no mapa geopolítico, e completar o cerco europeu à Rússia, em 2008, a Bósnia e a Hercegovina iniciaram a negociação de sua adesão, que se completou em 2010, com exigências de “democratização” por parte da OTAN.
Declarando sua neutralidade militar, a Sérvia foi coagida a assinar um protocolo de “parceria” com a OTAN, mediante ativa participação em operações internacionais; pressão igualmente usada para acelerar a adesão do Cosovo.
O cerco apenas se deteve diante da Geórgia, perdedora da guerra de 2008 da Ossétia, mas desde 2014 insiste em provocar a Rússia com manobras militares e forçar a adesão da Ucrânia e da Moldávia, sem falar dos assédios às ex-repúblicas da URSS na Ásia Central, assentadas sobre notaveis reservas de petróleo e gás, e localizadas sobre o arco geoestratégico do poderío russo e chinês.
A decepção e a mágoa russas não eram para menos.
Consumada a traição, daí a guerra da informação em curso.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Uma alternativa ao poder imperial dos EUA?, por Pepe Escobar.


Putin e Rouhani, presidentes da Rússia e Irã: há semanas, pela primeira vez desde Revolução Islâmica, Irã autorizou outra nação a usar seu território para operação militar
Putin e Rouhani, presidentes da Rússia e Irã: há semanas, pela primeira vez desde Revolução Islâmica, Irã autorizou outra nação a usar seu território para operação militar
Rússia e Irã advertem – agora com apoio da China: não permitirão que potências ocidentais reduzam Síria a uma Líbia. Qual o significado, para a geopolítica global?
Por Pepe Escobar | Tradução Vila Vudu
Os bombardeiros russos Tu-22M3 Backfire – além dos jatos Sukhoi-34 – decolam do campo de pouso iraniano em Hamadan para bombardear jihadistas e sortimento variado de “rebeldes moderados” na Síria, e imediatamente nos vemos diante de movimento geopolítico da mais alta importância, não previsto, que muda tudo.
Os registros mostram que a última vez que a Rússia esteve militarmente presente no Irã aconteceu em 1946; e essa é a primeira vez, desde a Revolução Islâmica de 1979, que o Irã autoriza outra nação a usar território iraniano para operação militar.
Pode-se apostar que o Pentágono enlouquecerá completamente, feito gangue de adolescentes mimados furiosos. Já começou, com reclamações de que o aviso que os russos distribuíram não permitiu tempo suficiente para “preparação” – quer dizer, para se porem a bradar por todo o planeta que teria acontecido mais um episódio da “agressão russa”, e, para piorar, em conluio com “os mulás”. Na sequência, ainda mais desespero, com Washington a pretender que o Irã teria violado resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
O trabalho e a divulgação feitos por Moscou, por sua vez, foi uma beleza; trata-se exclusivamente de logística e de reduzir despesas. O almirante Vladimir Komoyedov, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento e ex-comandante da Frota do Mar Negro, explicou belamente o modus operandi:
“É muito caro e exige muito tempo voar a partir de bases localizadas na parte europeia da Rússia. A questão do custo de atividades militares de combate é, atualmente, alta prioridade. Não podemos ultrapassar o orçamento atual do Ministério da Defesa. Voar Tu-22s a partir do Irã significa menos combustível e maior capacidade para carga (…) A Rússia não poderia encontrar país mais adequado e mais solidário, do ponto de vista da segurança, nessa parte do mundo; e podemos realizar todos os ataques necessários para pôr fim a essa guerra (…) Campos de pouso na Síria não são adequados, porque essa localização exigiria sobrevoo em áreas onde há atividade de combate.”
Não se metam com a Organização de Cooperação de Xangai (OCX)
Assim sendo, tudo ótimo. O Pentágono continuará a espernear. Sionistas enfurecidos em Israel e wahhabistas fanáticos na Arábia Saudita farão muito barulho e turbinarão até níveis apocalípticos a proverbial “ameaça existencial” que lhes viria do Irã. Esses “fatos nos céus” não podem ser alterados. Especialmente porque, se abrirem caminho para uma vitória decisiva na batalha por Aleppo Leste, a guerra civil – imposta de fora para dentro aos sírios – logo estará acabada.
Ali Shamkhani, presidente do Conselho de Segurança Nacional do Irã absolutamente não se engana ao dizer que tudo aí tem a ver com cooperação estratégica Irã-Rússia, numa luta – real – contra o terror de ISIS/ISIL/Daech terror, e não, como a mídia-empresa ocidental não se cansa de repetir, com alguma volta do Irã como “agente militar” de uma grande potência.
O primeiro-ministro iraquiano, por sua vez, fez questão de esclarecer que “Autorizei o sobrevoo dos bombardeiros porque recebemos informação clara sobre eles. Fazem ataques precisos, evitam baixas entre os civis. Pode-se ter certeza de que está assegurada a segurança dos civis na Síria“.
Foi a senha para que Bagdá liberasse sem sobressaltos o acesso dos bombardeiros TU-22M3s russos ao espaço aéreo iraquiano. Passo seguinte inevitável será a frota russa no Cáspio disparar mísseis cruzadores que atravessarão espaço aéreo iraniano e iraquiano, para alcançar os tais “rebeldes” que a av. Beltway em Washington protege na Síria.
E há muito mais.
Um acordo de 2015 firmado entre Moscou e Damasco acaba de ser ratificado agora pela Rússia. Graças a ele, a base aérea russa em Khmeimim é convertida em base militar permanente no leste do Mediterrâneo.[1]
Pequim e Damasco, por sua vez, acabam de firmar laços militares mais próximos, a partir da ajuda humanitária que os chineses oferecem. E o pessoal do Exército Árabe Sírio receberá eventualmente instrutores militares chineses.
Pequim está agora diretamente envolvida na Síria por uma razão chave de segurança nacional: centenas de uigures uniram-se aos terroristas do Daech ou se alistaram nas fileiras de Abu Muhammad al-Julani, comandante da al-Qaeda, e muito prestigiado em Washington como líder do Exército da Conquista da Síria; esses uigures sempre podem voltar a Xinjiang como jihadistas.
Há ainda uma deliciosa cereja para esse cheesecake, como o professor de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, Zhao Weiming, disse ao Global Times: essa nova jogada de poder de Pequim na Síria é o revide, contra a interferência do Pentágono no Mar do Sul da China.
Assim sendo… o que fará Hillary?
Tudo que acima se lê aponta para nova evidência de que, o que antes foi um elefante branco no meio da sala, a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), passa agora a significar assunto sério.
Quando os “4+1″ (Rússia, Irã, Iraque, Síria, plus Hezbollah) começaram a partilhar inteligência e procedimentos operacionais, ano passado, incluindo um centro de coordenação em Bagdá, analistas como Alistair Cooke e eu vimos naquela ação um embrião do que seria a OCX em ação. Foi, sem dúvida, já desde o início, uma alternativa ao imperialismo “humanitário” e à obsessão com mudança de regime, da OTAN. Pela primeira vez a OTAN já não andava solta e livre pelo mundo, feito um Robocop descontrolado.
Embora só Rússia e China fossem membros da OCX, com o Irã como observador, a cooperação envolvida – a pedido de um governo que lutava contra jihadistas e continuava como alvo de ataque para mudança de regime – já marcou um importante novo fator geopolítico em campo.
Agora, essa variante das Novas Rotas da Seda – Novas Rotas Aéreas da Seda? – que reúne Rússia, Irã, Iraque e Síria contra, precisamente, o salafismo-jihadismo, aparece como, mais uma vez, ação acelerada de integração na Eurásia. Os dois pesos-pesados da OCX, China e Rússia, não apenas admitirão o Irã como membro pleno, logo no início de 2017; ambos contam com o Irã como ativo estratégico chave numa batalha contra a OTAN, e absolutamente não permitirão que a Síria seja convertida numa nova Líbia. Paralelamente, os movimentos estratégicos da Rússia na Crimeia e na Síria passam a ser objeto de análise, até os mais ínfimos detalhes, nas academias militares chinesas.
Progressivamente, a integração da Eurásia vai-se entretecendo com a OCX.
Sejam quais forem os temores de Telavive e Riad – com seus massivos lobbies em Washington – sobre essa cooperação russo-iraniana de segurança, é a OTAN quem está lívida. E ainda mais lívida que a OTAN está Hillary “Rainha da Guerra” Clinton.
Os registros mostram que Hillary manifesta acentuada queda para tentar despachar Assad como despacharam Gaddafi. No caso de governo Hillary, pode-se apostar que ela forçará o Pentágono a impor uma zona aérea de exclusão no norte da Síria e a armar quaisquer remanescentes, por misturados que sejam, dos tais “rebeldes”, até o Juízo Final.
E há também o Irã. Na campanha eleitoral de 2008 nos EUA, assisti da plateia ao discurso que Hillary fez na Conferência do AIPAC em Washington, espetáculo realmente aterrorizante. Partindo da premissa – falsa – de que o Irã atacaria Israel, disse ela: “Quero que os iranianos saibam que, se eu for presidenta, atacaremos o Irã. Nos próximos dez anos, durante os quais podem considerar a loucura de atacarem Israel, seremos capazes de contê-los totalmente.”
Ah, é?! É mesmo?! E passará por cima da cooperação estratégica Rússia-Irã? E passará por cima de uma Organização de Cooperação de Xangai cada vez mais integrada? É? Então venha, Rainha da Guerra.
[1] Parece que esse detalhe está mais claramente explicado em “Eixo Teerã-Pequim-Moscou muda tudo”, 21/8/2016, Ruslan Ostashko, PolitRussa (trad. ru-ing. J. Arnoldski) Fort Russ News, traduzido no Blog do Alok [NTs].