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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Anticidadania e desdemocratização, por Marcus Ianoni.

Em um ensaio clássico, o sociólogo britânico T. H. Marshall argumentou que a cidadania experimentou, nos países desenvolvidos, durante os séculos XVIII, XIX e XX, um desenvolvimento progressista, que foi abarcando, respectivamente, em cada um desses três grandes períodos históricos, os direitos civis, políticos e sociais. No primeiro momento, a constitucionalismo liberal foi fundamental para a limitação do poder do Estado, até então absoluto, e a garantia dos direitos fundamentais. A democratização (extensão do sufrágio e liberdade de organização), processo no qual os trabalhadores desempenharam um papel estrutural, teve importância chave na conquista dos dois últimos grupos de direito mencionados.
O pensador político Norberto Bobbio italiano qualificou essa evolução da cidadania como circunscrevendo “a era dos direitos”, que teriam primazia em relação aos deveres para com o Estado. Deixando de lado a avaliação do quanto os direitos foram universalizados e efetivados, no Norte e alhures, o tempo histórico de “capitalismo da austeridade” pressiona para mudar o discurso e as decisões públicas no sentido da primazia dos deveres, configurando um processo político de desconstrução simultânea da cidadania e da democracia.
Exagerando na dose da tendência internacional de consolidação fiscal, o Brasil está precocemente renunciando ao pacto social da Constituição de 1988. Em nome do reequilíbrio fiscal e da redução do que se considera ser uma elevada carga tributária, considerada incompatível com a competitividade dos produtos e serviços, a emenda constitucional do teto de gastos (EC 95), aprovada em 2016 por uma ampla coalizão reunindo forças governistas e o grande capital e orientada ideologicamente pela perspectiva ultraliberal do Estado mínimo, já está comprometendo, em um processo de alcance estrutural, os recursos orçamentários de dois pilares fundamentais do Estado de bem-estar social desenhado na aurora do regime democrático, ora submetido à desdemocratização: a educação e a saúde públicas. Veja-se, por exemplo, o estudo de Pedro Rossi e Esther Dweck (bit.ly/2tO4ShZ).
A reforma trabalhista (Lei 13.467/2017), em vigor desde o dia 11 do mês corrente, é rejeitada por 81% dos trabalhadores, segundo pesquisa CUT-Vox Populi. Ela alterou 100 itens da CLT, praticamente revogando-a. Seu ponto central já denuncia seu caráter: a negociação (através das convenções e acordos coletivos) prevalecerá sobre a legislação, em temas como parcelamento de férias em até três vezes e duração de horário de almoço, que não poderá ser menor que 30 minutos. Embora os direitos  trabalhistas garantidos constitucionalmente não foram suprimidos (como salário mínimo, férias e 13º), o objetivo da reforma é dificultar o acesso a esses e outros direitos e esvaziá-los. A relação de força tende a ser desfavorável ao trabalho em suas lutas contra o capital.
Tais mudanças têm provocado muita reação contrária entre os juízes trabalhistas e, de certo modo, no Ministério Público do Trabalho, apontando para divergências e disputas jurídicas entre as partes envolvidas (Justiça, trabalhadores e empregadores). Uma das polêmicas e motivo de greves já em curso diz respeito ao que passa a ser considerado como hora extra e ao pagamento dela. Estudo do CESIT-Unicamp indica que a reforma induz à precarização (insegurança,  perda de garantias) das condições de trabalho, conforme se deu em outros países (Espanha, Reino Unido, Alemanha, Chile e México).
Outra ofensiva de grande porte é a reforma da previdência.  Após os aliados do presidente Temer terem logrado impedir, por duas vezes, o processo do chefão no STF, o líder no Executivo da deposição da presidenta Dilma, ao lado do ex-deputado e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (preso pela Lava Jato),  está lançando uma grande ofensiva política para aprovar uma versão sintética da reforma da previdência ainda esse ano, ou seja, a toque de caixa. A ofensiva inclui uma reforma ministerial, negociações com Rodrigo Maia e com a bancada do centrão e uma campanha publicitária de R$ 20 milhões, dirigida à população. Mote: acabar com os privilégios. Sim, das pessoas idosas e pobres, pois se pretende definir, como critério de acesso ao benefício, uma idade mínima única de 62 anos para as mulheres e 65 para os homens. Considerando a dimensão continental do país e as imensas desigualdades, inclusive regionalmente agravadas, como é o caso da expectativa de vida, essa idade mínima fixa e elevada não condiz com a realidade nacional.  Enfim, a matéria é constitucional, por isso depende de maioria qualificada (três quintos do total de cadeiras, com duas votações em cada casa do Congresso).
Na verdade, a austeridade em relação aos gastos sociais e às modalidades de contratação trabalhista tem um grande beneficiário: os ricos, os capitalistas. Os prejudicados são os trabalhadores e os pobres. Os muito ricos querem nada mais, nada menos que pagar pouco imposto e poucos salários e demais custos trabalhistas. Note-se que a estrutura tributária brasileira já está entre as mais injustas do mundo. Tributamos muito os bens e serviços, mas tributamos pouquíssimo a renda e a riqueza, além de premiarmos a sonegação com programas politicamente desenhados para favorecer os poderosos, como o Refis. Os muito ricos querem também mais duas coisas importantes: garantir que o orçamento público seja administrado de modo a que os títulos da dívida pública sejam emitidos e contratados com boa remuneração e sejam devidamente honrados; e investir em áreas ocupadas pelas políticas sociais: educação, saúde e previdência pública.
Esse destrutivo projeto de ofensiva do capital contra a cidadania, contra o Estado social e contra o trabalho precisa subordinar um grande obstáculo político: o processo democrático. Enfim, a anticidadania requer a desdemocratização. A deposição da presidenta Dilma abriu a porteira da direita para a boiada neoliberal.
* Marcus Ianoni é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do INCT-PPED, realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Dobre a Finados, esvai-se o projeto de Nação por Pedro Augusto Pinho.



Após 63 anos de falecimento do dirigente que ousou, pela primeira vez, construir verdadeiramente a nação brasileira, o que nos ficou, além da profunda tristeza?

Os mesmos males, a mesma ignomínia de uma classe que vive em águas turvas e se agarra como cracas ao Estado para entregar das riquezas do Brasil.
O exemplo, o tiro daquele personagem tumular que, nas páginas de seu jornal,  escreveu a 6 de agosto de 1954:
".... perante Deus acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas" (Tribuna da Imprensa).
No dia 23 daquele agosto, injustamente acusado pelo oportunista – que como todos os seus seguidores, sempre foi inimigo da nossa soberania – responde o grande Presidente, na manchete do único jornal que lhe dá acolhida:
" Apenas morto sairei do Palácio do Catete" (Última Hora).
Na distância de mais de meio século, com volumosa literatura desvendando diversas vertentes deste momento infeliz de nossa história, procurarei traçar um paralelo com a desdita de hoje.
Como se forma a mente de um brasileiro, sem qualquer ganho com a submissão aos interesses estrangeiros, às potencias coloniais ou sistemas dominadores, que busca na mentira da publicidade enganosa dos fatos, no engodo das falsidades evidentes, em sua própria miséria, condenar os que lutam pela emancipação nacional e defender os traidores da Pátria? Não é resposta fácil, nem aceito a paranoia de ter a verdade. Coloco em questão a formação da cidadania.
Quantos já reproduziram piadas degradantes, quantas vezes se manifestaram desilusão, descrença na força da nação, em quais situações procuram demonstrar nossa irresponsabilidade, nossa vocação para o êrro, o escamotear? E por que esta autodepreciação? O que é a cidadania, ser cidadão? Em primeiro lugar a dificílima aceitação da paridade; considerar que todos os brasileiros são iguais, pares nas decisões sobre o País.
Esta é uma questão crucial, mas me deterei neste artigo à importância de Vargas em nossa história. Sem dúvida polêmica. Se prendeu e torturou brasileiros, cujo crime era discordar de sua administração, foi o primeiro governante a promover o efetivo desenvolvimento da indústria brasileira e a reconhecer a importância do trabalhador na formação nacional. Vinte anos após, por coincidência, outro presidente, que também prendeu e deixou que se torturasse opositores, Ernesto Geisel, promoveu a capacitação industrial brasileira nos segmentos de ponta, que hoje nos fazem falta: informática, nuclear e aeroespacial. Também este sofreu um golpe para designar seu sucessor.
Getúlio foi crescendo na compreensão do Brasil e do mundo durante seu primeiro governo e chega ao segundo, eleito pelo povo, com a certeza de que só o Estado, atuando com profundidade na economia, poderia desenvolver o Brasil. Isto era, e ainda é, constatado em todo mundo, e só os ideologicamente contrários ao Brasil Soberano podem defender a invasão estrangeira, com as falsidades liberais ou neoliberais, promovidas pela banca, o sistema financeiro internacional. E como vemos, não se trata de esquerda ou direita, mas de nacionalismo ou entreguismo.
Vargas viveu um momento em que as ideologias mais extremas galvanizavam as opiniões, restando um espaço desprezível para posições menos radicais. E como é óbvio, foi arrastado nesta disputa. Daí a acusação de ser um simpatizante do fascismo, como apontam alguns historiadores e biógrafos.
Mas no inconsciente popular ele foi e continua sendo "O Grande Presidente", que defendeu o trabalhador, os menos afortunados, o "Pai dos Pobres".
Tive, há dois anos, uma experiência significativa. Meu amigo do tempo de faculdade, o poliemérito intelectual, artista e escritor Nei Lopes lançava seu romance "Rio Negro, 50", cuja história transcorre em 1950. Participavam do evento amigos sambistas do Nei, que usaram a rua, transformada em de pedestre naquele sábado, para homenageá-lo com músicas da época. Haveria bem mais de 100 pessoas, entre os convidados e os que ocupavam as mesas do bar próximo. Surge o samba que fala de Vargas. Um uníssono e arrepiante aplauso se delonga, vindo de todos. A referência a Getúlio Vargas, num ambiente de classe média, em 2015, despertava esta manifestação. Não é outro o motivo que desde os governos militares, do entreguismo tucano de FHC, mesmo de Lula, para nem falar dos golpistas de 2016, há o desejo de extinguir a Era Vargas. E seus verdadeiros ou pretensos herdeiros sempre foram atacados, caluniados e criminalizados nas páginas da "grande imprensa".
Que possamos prosseguir, com a adequação temporal, social e tecnológica, a Era Vargas, é uma verdadeira saída para o impasse brasileiro.
No blog "Meu Lote", Nei Lopes publicou, em 03/08/17, "Outro agosto, muitos anos atrás", sobre suas recordações do 24 de agosto de 1954. Recomendo.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado