Marcadores

Mostrando postagens com marcador POLITICAMENTE CORRETO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POLITICAMENTE CORRETO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

“Criamos o discurso politicamente correto, mas nossa sociedade continua violenta”, por Wania Pasinato.


A manhã deste 2 de janeiro, o primeiro dia útil de 2017, começou em Campinas sob forte tristeza e transtorno, com o sepultamento das 12 vítimas da chacina provocada pelo técnico de laboratório Sidnei de Araújo na noite de Réveillon. Antes da virada do ano, três outros crimes violentos já tinham ganhado as manchetes dos jornais brasileiros, sensibilizando o país em datas consideradas  sagradas: o espancamento até a morte de um vendedor ambulante do metrô em São Paulo no dia do Natal, o estupro e assassinato de uma jovem num bar da zona leste paulistana dias antes, e o assassinato do embaixador grego pelo amante de sua esposa e um cúmplice no Rio de Janeiro, no dia 26.Além de chocar, os acontecimentos recentes desatam uma reflexão sobre o ambiente que fomenta a violência no país, imerso em uma recessão econômica e uma crise política ainda sem perspectivas concretas de solução. Mas a socióloga Wânia Pasinato rejeita a tese de que as crises são capazes de explicar sozinhas o aumento na violência – e defende que o problema tende a crescer. Para ela, que atuou no Núcleo de Violência da USP e em várias pesquisas sobre justiça criminal, violência policial e violações de direitos humanos, o atual cenário passa pela “perda de direitos no plano social”. E "requer muito mais do que expor a indignação nas redes sociais”, opina Pasinato.
Pergunta. Como podemos interpretar os crimes violentos que aconteceram nas últimas semanas no país? Há algum tipo de relação entre eles, analisando o contexto do país, ou são casos isolados?
Resposta. Há mais de um aspecto na pergunta. Primeiro, sim, são crimes isolados no sentido de que não ocorrem em conexão direta um com o outro. Mas não no sentido de que são únicos ou excepcionais. São crimes que expressam uma violência recorrente, que acontece com uma frequência muito maior do que podemos acompanhar e do que a imprensa é capaz de cobrir. A repercussão desses casos nos dá a sensação de que estão mais frequentes ou mais violentos. Mas o que temos é um retrato parcial dessa cruel realidade de violação de direitos humanos, porque é disso que estamos tratando.
O outro aspecto é uma possível interpretação para esses crimes. Há o caso do ambulante atacado no metrô de São Paulo, a chacina envolvendo o feminicídio em Campinas, o estupro seguido de morte da jovem no bairro paulistano da Mooca e mesmo, ainda que com características um pouco diferentes, o assassinato do embaixador grego no Rio de Janeiro, que aparentemente também envolve violência nas relações afetivas. Aí necessitaríamos aprofundar mais, mas existe uma clara indicação de que estamos diante de crimes de intolerância. E nesse sentido, é muito bom que esses casos causem comoção, que haja indignação, mas precisamos ir além disso. Precisamos passar para a ação que ajudará a conter essa violência e intolerância.
P. No fim dos anos 1980, começo dos 1990, vários sequestros, como o do empresário Abílio Diniz e do publicitário Washington Olivetto, aconteceram seguidos um do outro, e isso era em parte atribuído às recessões econômicas. Com a crise que vivemos atualmente, é possível analisar os crimes atuais sob essa ótica?

"Quando falamos de crimes de intolerância, não podemos pensar em fatores conjunturais como a crise econômica. A raiz é outra"

R. Acredito que vamos voltar a conviver com o crescimento da criminalidade urbana em razão da recessão econômica, mas também por conta de uma desorganização doestado democrático. Já estamos vivenciando situações que nos remetem aos anos 1980-90, como as rebeliões nos presídios, manifestações de força e disputas de poder entre o crime organizado, como a que aconteceu domingo em Manaus. Porém, quando falamos de crimes de intolerância, não podemos pensar em fatores conjunturais como a crise econômica. A raiz é outra. Para além da crise vivemos uma guinada conservadora no Brasil que não tolera o diferente, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade sexual. Um conservadorismo que tenta impedir que falemos em gênero, um conceito que nos permite compreender a desigualdade social entre homens e mulheres. É a Escola sem Partido que está aí.
P. Qual a importância da discussão de gênero para combater violência, a seu ver?
R. Se não podemos falar em gênero, como poderemos vencer essa desigualdade e a intolerância? No caso da violência contra mulheres existem linhas de análise que a relacionam às crises econômicas, ao desemprego, sobre como esses fatores afetam os homens e os tornam mais inseguros quanto ao papel de provedor e na experiência de uma “perda de poder” sobre a mulher. Contudo, veja o caso de Campinas. A carta deixada pelo assassino depois de matar, entre todos, a ex-esposa e o filho, mostra uma violência muito mais arraigada. Se pensarmos a violência contra as mulheres, a crise financeira pode aparecer como justificativa ou motivação, mas não pode ser admitida como causa. Entender as causas exige que passemos do plano individual para o social. Nesse sentido, podemos dizer que a crise atual no país contribui para a violência quando vemos um retrocesso nos direitos sociais que ocorre em contexto de maior tolerância do Estado em relação a esses crimes.
P. A PEC 55 é uma iniciativa do Governo que limita investimentos sociais. A que outras coisas você se refere quando fala de retrocesso e em tolerância?
R. Focando na violência contra as mulheres, concretamente, até maio de 2016 tínhamos um Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, com autonomia financeira e administrativa. Com a chegada do novo Governo, esse ministério foi em um primeiro momento dissolvido e, posteriormente, as secretarias que formavam esse superministério foram reativadas dentro da pasta da Justiça e Cidadania. Esse movimento resultou em perda de institucionalidade com a consequente perda de autonomia financeira e capacidade administrativa. Mas, principalmente, resultou em perda de força política, uma vez que as ações que eram coordenadas pelas respectivas secretarias foram paralisadas ou abandonadas. Hoje, no caso da Secretaria de Políticas para Mulheres, à exceção da Casa da Mulher Brasileira que se encontra instalada e em funcionamento em três capitais, não houve continuidade em nenhuma política de enfrentamento à violência contra as mulheres. Mesmo a Casa da Mulher Brasileira se encontra ameaçada por falta de investimentos. Nesse mesmo período a violência contra as mulheres não deixou de ocorrer.
Para além da violência que foi capturada pela imprensa, diariamente ocorrem casos de violência contra as mulheres. E quais são as propostas do atual governo para combater essa violência? Não há, pelo menos até onde sabemos. Há algo a ser inserido no Plano Nacional de Segurança, que está sendo elaborado, mas que fará referência, no máximo, à capacidade do Estado em responsabilizar criminalmente os autores de violência. Mas se estamos falando de violênciabaseada no gênero, uma violência cujo enfrentamento requer mudança da sociedade no reconhecimento da igualdade de direitos para as mulheres, então precisamos muito mais que políticas de segurança pública. Já aprendemos sobre isso e temos uma lei, a Lei Maria da Penha, que orienta a articulação de políticas públicas na educação, saúde, trabalho, desenvolvimento social como necessárias para dar uma resposta a esse cenário de violência.
P. Na carta que o assassino de Campinas deixou, ele se refere à lei Maria da Penha como “vadia da Penha”, fala em “sistema feminista” e se diz vítima na relação com a ex-esposa. Diz também que ela, mãe de seu filho, “inspirou outras vadias” e que agora “são os pais quem irão se inspirar”. No atual contexto, você acha o que ele diz pode incitar outras pessoas?
R. A carta deixada por ele é uma justificativa de seu ato. Como costuma ocorrer nos casos de violência contra as mulheres, há sempre uma tentativa de responsabilizar a mulher pela violência que ela sofre. Mas os trechos que foram publicados revelam o que está permeando o imaginário social, e que gera incômodo, é o fato das mulheres terem se tornado mais conscientes de seusdireitos. Alguém tem que ser responsável por isso, e nesse caso, para ele, é o “feminismo”. Por outro lado, ele vai juntando tudo o que está na mídia: corrupção, violência envolvendo a polícia, crítica aos defensores de direitos humanos... Há uma crítica e uma acusação a tudo que também – vale ressaltar – é fomentada pela própria imprensa. Enfim, pode se tratar do surto de uma pessoa, no entanto, é alguém que não estava vivendo fora dessa sociedade, que estava indignado com a situação do país e com sua história pessoal. Infelizmente, era uma pessoa armada e colocou fim na vida de outras 12 pessoas. Não sei se essa carta pode incitar outras pessoas. Mas sei que ela e o próprio crime devem ser motivadores para que pensemos o tipo de mensagem que temos dado, como sociedade, sobre a violência contra as mulheres.
P. O brasileiro tende a não se considerar machista, homofóbico ou violento. Ainda que muitas estatísticas e novos crimes comprovem que, definitivamente, não é assim. Por que essa percepção é tão difícil de mudar?
R. O que temos feito para que as coisas mudem? Temos leis, e tivemos boas políticas públicas que contribuem para essa mudança, mas a maioria delas nãochegou a ser efetivada seja em decorrência do pouco tempo, seja em decorrência da falta de vontade política dos governos. Por outro lado, nunca contabilizamos muito bem as nossas conquistas, para avaliá-las e fazer as correções necessárias. Nossa sociedade é desigual em sua raiz, e continuará a ser assim porque as mudanças sociais levam tempo para acontecer e se consolidar. Mudamos muito o nosso discurso. E essas mudanças de discurso são, na verdade, muitas vezes apenas politicamente corretas.
P. Como as pessoas podem partir para a ação, na sua opinião?
R. De diferentes maneiras. Estamos num momento de chegada de novos prefeitos e vereadores às prefeituras. Os municípios têm sua responsabilidade na defesa dessas políticas públicas sociais. É preciso cobrar deles que elas sejam aplicadas e que não haja mais perdas. Para além disso, temos que cobrar das demais esferas de poder a construção de mais políticas de enfrentamento à violência e combate à intolerância. Não é possível que haja apenas uma resposta midiática e ações pontuais que não sanam os problemas. Devemos rebater, por exemplo, a Escola Sem Partido e o avanço no Congresso de pautas conservadoras e exigir efetividade na aplicação das leis Maria da Penha, lei do Feminicídio, e das políticas de segurança e acesso à justiça no país.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Como guerra ao politicamente correto ajuda a explicar ascensão de Trump, por João Fellet.

Donald Trump                           

Quando perguntados sobre as maiores qualidades de Donald Trump, muitos eleitores do próximo presidente dos Estados Unidos costumam citar sua recusa em se preocupar com o "politicamente correto".

Analistas sugerem que esse comportamento o ajudou a capitalizar sobre a revolta de muitos americanos que consideram que sua liberdade de expressão está sendo cerceada pelos limites impostos - mesmo que informalmente - ao uso de termos ou posturas que seriam ofensivos.

"O grande problema deste país é ser politicamente correto", disse Trump inúmeras vezes ao longo da campanha.
Após se lançar candidato, ele se referiu a imigrantes mexicanos como "estupradores", defendeu suspender a entrada de muçulmanos estrangeiros nos Estados Unidos e insinuou que uma jornalista havia lhe tratado com rispidez porque estaria menstruada.
Na mesma medida em que inflamou seus críticos, as posturas lhe renderam elogios entre simpatizantes, para quem Trump apenas "diz as coisas como elas são". Segundo eles, ao se posicionar sobre os assuntos, o empresário não se curva a sensibilidades e patrulhas linguísticas que dificultam o combate de problemas reais dos Estados Unidos, como a criminalidade e o terrorismo.
A cruzada de Trump contra o politicamente correto se insere num conflito mais amplo, que vai além da linguagem. O embate muitas vezes põe direita e esquerda em lados opostos e se reproduz em vários países do mundo, inclusive no Brasil.
Evento de latinos em apoio a Trump, que promoteu construir um muro para evitar entrada de imigrantes                          

           

Da Guerra Fria à cultura

No fim de 2015, conforme a discussão sobre o politicamente correto se tornou central na campanha americana, o jornalista Philip Bump analisou no The Washington Post o emprego da expressão ao longo da história dos EUA. Ele diz que o termo ganhou popularidade durante a Guerra Fria, quando era normalmente associado ao comunismo.
Naquela época, diz o articulista, "politicamente correto" era o que o regime soviético considerava correto. Ele cita uma reportagem de 1985 sobre uma importadora de discos. "Atualmente o jazz é politicamente correto na União Soviética", dizia o texto de um jornalista americano.
Nos anos 1990 e com a implosão soviética, Bump diz que a expressão passou a ser mais usada no campo cultural, ligada a práticas ou expressões que deveriam ser evitadas por ofender certos grupos.
É nesse contexto que muitos passam a associar o politicamente correto a uma postura cerceadora e que, muitas vezes, beiraria o ridículo.
Alguns críticos costumam citar, ao exemplificar o que consideram exageros dessa atitude, o cancelamento da peça Diálogos da Vagina por uma faculdade de Massachusetts em 2015.
Tida como um manifesto feminista ao ser criada nos anos 1990, a peça foi rejeitada pela faculdade Mount Holyoke por não ser inclusiva o suficiente: estudantes avaliaram que ela poderia ofender mulheres transexuais que não têm vagina.
Um artigo em 2015 na Chronicles Magazine, publicação de um instituto conservador americano, diz que o pensamento politicamente correto cala ou torna objeto de ódio e deboche todos que se recusam a seguir seus códigos.
O objetivo da prática, segundo a revista, é exercer um controle social que "torne impossível a pessoas comuns manifestar suas queixas publicamente de uma maneira aceitável, de modo que suas objeções possam ser facilmente rejeitadas como expressões de ignorantes preconceituosos".
Para alguns, esse comportamento põe em risco a própria comunicação e se choca com a Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão.
No outro lado da disputa, muitos avaliam que ser politicamente correto significa apenas tratar as pessoas com respeito, e que a oposição aos códigos é alimentada por grupos que se recusam a rever privilégios ou a deixar de usar expressões racistas.
Apoiadores de TrumpImage copyright AP



Um artigo no Christian Science Monitor diz que, para as gerações que cresceram sob essa filosofia, "o discurso é uma arma, e suprimir palavras que possam ser vistas como ofensivas ou odiosas é a nova fronteira dos direitos civis".

Etiquetas e democracia

Diante desse embate, há quem veja argumentos válidos nos dois campos.
Conor Friedersdorf diz na revista The Atlantic que alguns códigos politicamente corretos - como a crença de que americanos muçulmanos merecem ser tratados como os demais cidadãos - ajudam a impedir que pessoas inocentes sofram injustiças.
Por outro lado, ele afirma que algumas práticas são "etiquetas arbitrárias que pessoas formadas em faculdades concorridas usam para se sentir superiores a outras".
"Entre as normas-chave que são vitais à democracia e as demandas mais frívolas por correção política há muitos territórios em disputa", afirma. Para ele, a ascensão de Trump mostra que pessoas que rejeitam os caprichos da elite intelectual estão ganhando espaço nesse embate.
Friedersdorf diz que críticos do "trumpismo" devem estudar os danos causados pelos exageros dessas normas, identificar quais delas merecem ser defendidas e convencer os americanos a adotá-las voluntariamente, e não sob a ameaça de humilhação pública.
Mas os contornos que o debate vem ganhando nos últimos anos sugerem que a pacificação da disputa está distante.
Para Philip Bump, a expressão "politicamente correto" virou um guarda-chuva para várias posições associadas à esquerda, como a defesa do casamento gay, da igualdade de gêneros e de ações afirmativas em prol de minorias raciais.
Apoiadores de Trump                           

              

Segundo ele, muitos críticos do politicamente correto são, no fundo, críticos de bandeiras progressistas.
No Brasil, políticos conservadores também têm se insurgido contra essas normas. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), um dos principais expoentes do grupo, costuma dizer que "estamos vivendo a ditadura do politicamente correto".

Tanto no caso americano como no brasileiro, o discurso ganhou força após vários anos de governos à esquerda, que assumiram bandeiras em favor de minorias.
Curiosamente, Philip Bump nota que o sentido da expressão tem se reaproximado do que tinha na Guerra Fria. "'Politicamente correto' hoje é em grande medida um sinônimo para 'o modo como a esquerda age'", diz.