Folha - Como o senhor se sente hoje, prestes a ser preso de novo?
Dirceu - O país vive uma situação de insegurança e
instabilidade jurídica, de violação dos direitos e garantias
individuais. O aparato judicial policial se transformou em polícia
política.
Como a minha vida é o PT e o projeto que o Lula lidera, eu tenho que
me preparar para continuar fazendo política. Eu não posso me render ao
fato de que vou ser preso.
O senhor está com 72 anos e foi condenado a 41 anos de prisão. Estamos falando de um regime fechado de sete anos.
É. E eles acabaram com a progressão penal. Você só pode ser
beneficiado se reparar o dano que dizem ter causado. E como, se todos os
seus bens estão bloqueados? Acabaram com o indulto [para crimes de
colarinho branco]. Vamos cumprir a pena toda.
Então o senhor pode entrar agora na cadeia para não sair nunca mais?
É uma hipótese.
E como se sente?
Não muda nada. Preso ou aqui fora, vou fazer tudo o que eu fazia:
ler, estudar e fazer política.Eu tenho que cumprir a pena. Eu não posso
brigar com a cadeia. O preso que briga com a cadeia cai em depressão,
começa a tomar remédio.
Os presos antigos, de forma jocosa mas a sério, quando veem um de nós
não aceitando... porque é duro perder a liberdade. Quer dizer, não
perde porque não perde a liberdade de criar, de pensar, e também não
perde o afeto, o amor. Milhões de pessoas vivem numa condição subumana
por causa da pobreza, da exploração. E criam, né? Fazem música, arte,
criam os filhos, batalham.
Mas eles [presos antigos] dizem [para quem chega na cadeia]: "Já
chorou bastante? Já rezou? Já chamou mamãe? Já leu a Bíblia? Então
agora, cidadão, começa a trabalhar! Arruma emprego aqui dentro pra fazer
remissão [da pena]. Estuda, viu?
Outra coisa: arruma a tua cela. Transforma aquilo num mocozinho seu,
num apartamentinho, põe fotografia da tua filha, põe a bandeira do teu
time. Limpa ela direitinho, melhora o que você come. Joga futebol.
Porque você vai ficar aqui quatro anos. [Aumentando o tom de voz]. Tá
entendendo o que eu tô te falando? Ou você quer ficar igual àqueles lá?
[referindo-se a presos deprimidos].
Aquilo ali é três Frontais [remédio para ansiedade] por dia. Olha
como ele já tá andando durinho. É o crack em parte que queimou a cabeça
dele. Mas o resto é a depressão.
O senhor ouviu esses conselhos quando entrou no sistema penitenciário?
Ouvi. Eu cheguei muito deprimido no CMP [Complexo Médico Penal de
Pinhais, em Curitiba]. A minha filha estava denunciada —depois ela foi
inocentada—, o meu irmão estava preso.
Eu tomava indutor do sono. Mas logo parei. Fui buscar emprego na
biblioteca. Li cem livros no um ano e nove meses em que fiquei lá.
Outros presos vão trabalhar na lavanderia, consertam roupa, outros
vão para a censura para ver se os Sedex [enviados pelas famílias] estão
dentro da norma, orientados por um agente.
E eu virei, né? Todo sábado e domingo, quando fazíamos almoços coletivos, eu também escrevia as minhas memórias, na cela, à mão.
E como era a convivência com Eduardo Cunha?
Normal. Você está preso. Convive com [condenados pela lei] Maria da
Penha, com um pedófilo condenado a cem anos de prisão. Ele é o chefe de
um setor. É uma pessoa normal, quieta.
A primeira reação é "não vou falar nunca com ele". Depois de três anos, minha cara, não adianta. Tem que falar.
Lá tá todo mundo na mesma m., entendeu? Há uma solidariedade. "Vamos
evitar que o velhinho pegue sarna, vamos limpar a cela dele, vamos levar
ele para tomar banho".
Se contamina uma cela, pode contaminar todas as 32 celas da galeria,
com sarna, com pulga. Temos que cuidar para que todo mundo ferva a água.
E o Eduardo Cunha?
Ele é muito disciplinado. Dedica uma parte do tempo para ler a
Bíblia, frequenta o culto. Conhece a Bíblia profundamente. E em outra
parte do tempo se dedica a ler os processos.
É uma convivência normal. Vamos limpar os banheiros? Vamos. Vamos lavar os corrimões? Vamos.
Tem que limpar o xadrez todos os dias, lavar as portas e a galeria,
para evitar doenças. Nós ficamos na sexta galeria, [que abriga] os
presos da Lava Jato, Maria da Penha, advogados, empresários, alguns
condenados por crimes sexuais. São 60 presos, separados dos 700 [do
complexo penal].
Falavam de política?
Falávamos. Sempre tem uma hora em que um preso joga xadrez, dominó, o
outro toca música, ou está acabando de almoçar, voltando do trabalho.
Nessas horas você sempre conversa.
E todo mundo é inocente, né? O cara matou a avó, fritou o gato dela,
comeu. Mas ele começa a conversar com você e a reclamar que é inocente.
Ficam mais tempo trancados ou circulando?
Ficamos na tranca quando tem rebelião no sistema porque se tem em uma
cadeia pode ter na outra. No dia a dia, levantamos às 6h30. Os carros
chegam entregando o café da manhã. São muito barulhentos. Todo mundo
acorda. Aí sai da cela. Quem tem que trabalhar vai trabalhar.
Às 11h30, chega o almoço. Tudo lá é simples, mas honesto. A comida é
simples —de pensão, de quartel—, mas honesta. A roupa de cama é simples,
mas honesta. Às 13h30, alguns presos vão ao médico, outros ao
parlatório [falar com os advogados]. Todos podem ir na biblioteca
retirar um livro.
Desce no pátio duas horas por dia para jogar futebol e tomar sol. E
volta. Desce uma vez por semana para ver a família. E volta. Por três,
quatro, dez anos, você passa a maior parte do tempo numa galeria de 120 m
por 30 m com várias celas. Essa é a realidade do preso.
E as visitas da família?
Você não pode receber a tua família mal. A gente briga muito com os
outros presos: "Tua família não pode te ver assim. Fique melhor. Se
arruma. Levante o ânimo. Imagine como vai ficar a tua mãe".
E, se a família chega chorando, o preso volta da visita, deita na
cama e cai. É duro ver a família indo embora. É duro. Muitos choram.
O senhor conviveu com Antonio Palocci?
Estive com ele uma só vez, na Polícia Federal. Foi quando ele me
disse —ele usou esta expressão: "o Leo [Pinheiro, ex-executivo da OAS]
vai salgar o Lula [o empreiteiro revelou à Justiça que pagou a reforma
do tríplex do petista]".
E me disse que ele mesmo ia relatar, em depoimento, como era o caixa
dois no Brasil. Deu a entender que ia falar do sistema bancário, eu
entendi que ia falar da TV Globo. E fiquei apreensivo. Voltei e
conversei com o Eduardo [Cunha] e com o [João] Vaccari [ex-tesoureiro do
PT que está preso]: "Tô achando que o Palocci vai fazer delação".
Os dois ficaram indignados comigo. Principalmente o Eduardo, que
disse: "Eu convivi com ele. Em hipótese nenhuma". Eu deixei para lá.
É verdade que o marqueteiro João Santana contou para o senhor que delataria?
O que fizeram com a Mônica [Moura], mulher dele, foi terror
psicológico. Colocaram ela na triagem de Piraquara, uma das piores
penitenciárias do Paraná, totalmente dominada pelo crime.
Colocar na triagem significa o seguinte: te colocam numa cela
pequena, sem luz, sem nada. Te dão a comida pela bocuda. Sai para tomar
banho dez minutos e volta. Em dois dias você faz delação, né?
E isso não é uma tortura psicológica?
Ele falou para mim depois, um pouco como desabafo, angustiado: "Não
tenho condição". Preocupado, né? Porque as pessoas têm vergonha de fazer
delação.
Eu falei: "João Santana, da minha parte você vai continuar tendo o
meu respeito. Essa é uma questão de vocês". Já os empresários têm as
razões deles, salvar a empresa, o patrimônio, os empregos.
O senhor também conviveu com o Marcelo Odebrecht.
Ele ficava sozinho numa cela. É afável, educado. Mas tem uma vida
muito própria. Faz ginástica oito, dez horas por dia. Então não convive,
né? Todo mundo sabia que ele era assim e todo mundo respeitava.
Ele se comportou muito bem. Até poderia ser de maneira diferente,
pelo que representava. Mas ali é todo mundo igual. Preso não aceita
[comportamento diferente]. Quando você entra no sistema, tem que pôr na
cabeça o seguinte: "Eu sou preso. Aqui eu sou igual a todo mundo". Os
presos te respeitam se eles veem que você é um deles.
Como vê a perspectiva de Lula ficar preso sozinho? Ele suporta o isolamento?
Como o tratamento é respeitoso e ele recebe advogados todos os dias, e a família uma vez por semana, vai se adaptando.
O pior para ele já aconteceu:
a indignidade de ser condenado e preso injustamente. Depois disso, tem
que se adaptar às condições e transformar elas em uma arma para você.
Esse é o pensamento. Mas eu acho que raramente um ser humano suporta
ficar um ano num banheiro e quarto vendo três vezes por dia alguém
trazer comida para ele.
Agora surgiu a ideia de o Lula ir para um quartel. Seria pior ainda.
Porque eles não querem ninguém lá. A função do quartel não é ser
presídio. Ele vai ficar mais isolado.
E ele não consegue?
Eu acho que ele não deve. É uma questão política. Ele deve conviver
com outras pessoas, pensar o país, pensar no que está acontecendo. Ele
não está proibido de fazer política só porque está preso.
Se o Lula vier para a sexta galeria [unidade do complexo penal em que
Dirceu ficou detido], verá que é uma convivência normal. É muito raro
ter um incidente. E na prisão você conversa, aprende muita coisa. As
pessoas têm muito o que ensinar.
Às vezes você acredita no mito que criam sobre você. Que você é
especial, que teve uma vida, no meu caso, que dá até um filme. Mas você
começa a conversar com um preso comum, e descobre que é fantástica a
vida de cada um lá.
O que o senhor sentiu quando viu Lula sendo preso?
Eu sou muito frio para essas questões, sabe? Acho que ele fez o que
tinha que fazer, aquela resistência simbólica foi necessária. E nós
ganhamos essa batalha política e midiática.
Mas nada mexeu com o senhor?
Eu fiz da minha vida praticamente o Lula. E me mantive leal a ele.
Não faltaram oportunidades, amigos e companheiros que me empurravam para
romper com ele, em vários episódios. Mas eu sempre achei que a obra do
Lula, a liderança dele, o que ele fez pelo país, compensava qualquer
outra coisa. Então eu não dei importância. Depois de uma semana, já não
lembrava.
Em 2011, eu estava num barco alugado, pescando, e recebi um
telefonema com a informação de que o Lula estava com câncer. Eu chorei.
Me deu a sensação de que poderia ser o começo do fim da vida do Lula.
Mas agora, como já passei três vezes pela prisão, é diferente.
Você tem que lutar por todos os meios, legais e políticos, para ser
solto. Mas sempre tenho a ideia de que, se souber levar a prisão, ela
pode se transformar numa melhora para você mesmo. De estudo, de
pesquisa, de reflexão.
Em algum momento dessas reflexões na prisão o senhor concluiu que errou e cometeu crimes?
Eu não cometi crimes. Não há nenhuma prova, nenhum empresário ou
diretor afirmando que eu pedi alguma coisa na Petrobras. O que eu errei?
Na minha relação com [o lobista e delator] Milton Pascowitch. Eu comprei um imóvel, financiei, paguei a entrada.
Ele reformou o imóvel. Eu não paguei. Foi um erro meu. Eu não poderia ter estabelecido essa relação.
Era um empréstimo não declarado. Que virou propina. Foi uma relação indevida. Admito. Mas não criminosa.
O senhor já disse que a militância é solidária mas que vocês cometeram muitos erros.
Eu estava falando de mim. Eu sempre digo: eu tenho apoio da quase
absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa
solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo
que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT,
pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento.
Querer ser consultor e ganhar dinheiro foi um erro?
Eu não queria ganhar dinheiro. Eu queria sustentar a minha defesa e a
minha vida política. Eu não tenho patrimônio. A casa da minha mãe eu
tinha comprado antes, o apartamento do meu irmão foi financiado.
Eu tenho R$ 2.000 na minha conta. É só ver como eu vivo, no apartamento
da minha sogra. É só perguntar para o prédio sobre o IPTU. Vai na escola
da minha filha perguntar sobre a mensalidade.
Quais foram os erros que o senhor cometeu então?
Eu não deveria ter feito consultoria. Ela cria um campo nebuloso
entre os meus interesses como consultor e o interesse público. Eu ficava
me lamentando: "Por que eu fui fazer essa coisa
[consultoria] com a Engevix [pela qual foi condenado]?"
O Vaccari falava: "Para com isso, Zé Dirceu. Você não foi condenado
por isso". Depois fui condenado em outro processo sem ter nada a ver com
nada. E o Vaccari falou: "Tá vendo?".
Então eu às vezes fico dividido. E concluo que na verdade eu fui
condenado por razões políticas. Eu não fui condenado pelas consultorias
que prestei.
Lula fez um governo aprovado por 83% dos brasileiros. Por
outro lado, desvios de milhões foram comprovados. O fato de vocês terem
financiado campanhas com dinheiro de estatais e caixa dois não seria
razão para um arrependimento, uma autocrítica?
Nós temos que denunciar o que fizeram conosco, e não foi por causa de
nossos erros. O legado do Lula, o nascente estado de bem-estar social
que ele consolidou, está sendo todo desmontado. Estão desfazendo a era
Lula como quiseram desfazer a era Getúlio.
Eu faço o balanço histórico: estamos do lado certo e o saldo de tudo o
que fizemos é fantástico. Eu vou dizer uma coisa para você: a Igreja
Católica Apostólica Romana tem uma história de crimes contra a
humanidade.
Não vou nem falar das Cruzadas ou da Inquisição. Se eu for olhar para
ela, vou mandar prender todos os padres e bispos porque a pedofilia é
generalizada. Ou não é? Mas é a Igreja Católica Apostólica Romana. A
vida é assim. O mundo é assim.
O PT cometeu erros? Muitos. Mas tem uma coisa: o lado do PT na história, o nosso lado, é o lado do povo, do Brasil.
Não tinha outro jeito de financiar campanha?
Tem: o autofinanciamento com apoio popular. Mas, nas condições que
estávamos enfrentando, era impossível fazermos isso. Porque a dinâmica
da vida política, do sistema, é essa. A solução seria financiamento
público com lista [partidária]. O PT lutou, o Lula lutou também por
isso. Mas ninguém quis fazer.
Alguma vez o senhor imaginou que a história terminaria com o senhor e o Lula presos?
A tentativa de derrubar o nosso governo eu sempre imaginei. Toda vez
que no Brasil há um crescimento muito grande das forças políticas
sociais, populares, de esquerda, nacionalistas, progressistas,
democráticas, isso acontece.
De 1946 a 1964, o Brasil viveu sob expectativas de golpe contra
governos trabalhistas, getulistas. O Juscelino [Kubitschek] só tomou
posse porque o [marechal Henrique Teixeira] Lott deu o contragolpe.
Só teve a posse do Jango porque [Leonel] Brizola se levantou em armas.
Aliás, só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou
falando sério.
Mas essa seria uma possibilidade?
A solução hoje é igualzinha à que eles fizeram. Desestabilizaram o
governo Dilma. Impediram que ela aprovasse uma pauta de ajustes.
Colocaram milhões de pessoas na rua e buscaram uma solução legal. Nós
devemos fazer a mesma coisa.
E têm força para isso?
Temos. Pode demorar dois, quatro, seis anos, mas temos. Você não
desmonta a estrutura de bem-estar social que o país tem sem
consequências. As forças políticas e sociais vão ganhando consciência.
Vão surgindo novas lideranças, novos movimentos.
O país vai ter um longo ciclo de lutas. Mas primeiro é ganhar a
eleição. No segundo turno, se as esquerdas se unirem, teremos força para
isso.
Quem o senhor coloca como esquerda?
Os candidatos do PSOL, do PC do B, o PT, o PDT e o PSB.
O senhor então inclui o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, hoje no PSB?
É um candidato que pode ser cooptado pela direita. Mas pode ser que não. É uma incógnita.
O senhor votaria nele no segundo turno contra contra alguém da direita?
Bem, essa hipótese... vamos esperar. O meu candidato é o Lula. Nós
temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e
registrá-lo em agosto.
Se não fizermos isso, será um haraquiri politico. Nós dividiremos o
PT em quatro ou cinco facções. Nós temos que manter o partido unido.
Daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a
executiva, os deputados.
Como ele fará uma consulta de dentro da prisão?
Da prisão você consulta quem quiser. Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar.
De dentro da prisão?
É a coisa mais fácil que tem. É só ele falar o que ele pensa.
Mas a gente sabe o trabalho que deu para ele transferir votos
em outras eleições. Ele aparecia na TV todos os dias, viajava pelo
país.
Sabe qual é a diferença de 2014? É que o lado de lá tem a TV Globo, o
aparato judicial militar e o poder econômico. Mas está mais
desorganizado e enfraquecido do que nós.
Eu tenho confiança de que o fio da história do Brasil não é o fio das
forças da direita. O fio da história do Brasil é o fio que nós
representamos.