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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Globo despacha William Waack para tirar a lama das próprias mãos, por Wilson Ferreira Vieira.

Assim como no episódio do assédio sexual do ator José Mayer (naquele momento a Globo fez o cast feminino da casa vestir uma camiseta estampada “Mexeu com uma mexeu com todas”), da mesma maneira prontamente a emissora despachou William Waack depois da repercussão de um antigo vídeo no qual o jornalista fazia afirmações racistas em tom de galhofa enquanto aguardava para entrar ao vivo. Fosse em outros tempos, episódios como esses entrariam para o folclore da história dos bastidores televisivos.  Quem armou essa cilada contra William Waack levou em conta o atual contexto delicado da Globo: depois de seu jornalismo de guerra nos últimos anos ter dado visibilidade e repercussão à direita raivosa (aquela que vê o “politicamente correto” como “conspiração comunista”) para acirrar a crise política que culminaria no impeachment, agora a emissora tenta limpar suas mãos da lama que estrategicamente revolveu por anos. Disse em nota que é “visceralmente contra o racismo”. A Globo tenta ignorar de forma tautista a patologia psíquica que ajudou a incitar, da mesma maneira como até hoje tenta provar que nada teve a ver com a lama da ditadura militar que ajudou a esconder.  
Nesse momento há um movimento de manada, uma atmosfera de revanche e linchamento contra o jornalista (ou ex) da TV Globo William Waack depois do episódio do vazamento de uma gravação antiga, feita durante a cobertura das eleições nos EUA – com a Casa Branca ao fundo, Waack aparece ao lado do diretor do Instituto Brasil do Wilson Center, Paulo Sotero. Os dois esperam o momento de entrar ao vivo até serem incomodados por uma insistente buzina alguns andares abaixo na rua.



“Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou falar quem é... é preto... É coisa de preto”, fala Waack em tom de galhofa, enquanto o constrangido Sotero deixa escapar uma gargalhada.



É tido e sabido que William Waack é um dos jornalistas mais odiados, seja dentro da própria emissora (não costumava tratar com, digamos, cavalherismo o “baixo clero” jornalístico da casa) ou fora dela - nos últimos anos fez parte da linha de frente da polarização política que culminou no golpe, desde que em 2005 apresentou o Jornal da Globo em frente ao Congresso Nacional para repercutir a crise do mensalão.



É evidente que Waack foi o pivô de uma armação típica daquelas em que o peixe sempre morre pela boca. Na atmosfera nacional dos últimos anos em que a grande mídia (capitaneada pela própria Globo) açodou o conservadorismo até chegar ao protofascismo para criar o clima propício para o desfecho do impeachment, jornalistas como Waack e Augusto Nunes se colocaram ao lado de próceres como Alexandre Frota, Constantino e Diogo Mainardi para desancar o chamado “politicamente correto” – para eles, uma agenda esquerdista que deveria ser banida do País.






No topo da cadeia alimentar




Surfando na onda do neoconservadorismo incorreto, sentiram-se à vontade para arroubos como, por exemplo, o de Boris Casoy ridicularizando garis ao vivo em um telejornal da Band ou Mainardi mandando o desafeto Reinaldo Azevedo “dar a bunda”, em rede social.



E como podemos perceber no vídeo vazado, Waack estava bem à vontade e confortável como estivesse em terra conquistada, no topo da cadeia alimentar política, sem ameaças, como um capitão que venceu a guerra e colhe os louros da vitória.



Seja quem for o “Edward Snowden” de dentro da Globo que conseguiu ter acesso às imagens e vazá-las, foi capaz de destruir o jornalista desafeto em pleno voo, no auge da arrogância.



Mas os cálculos dessa eminência parda que atingiu mortalmente Waack certamente levaram em conta o atual contexto tautista (tautologia + autismo) em que a Globo vive depois de uma década atuando como oposição política explícita aos governos lulopetistas: depois de anos pegando pesado e dando espaço a tudo de mais baixo que podia ser reunido às hostes da oposição (da bancada de Bala, Boi e Bíblia do Congresso até simpatizantes da intervenção militar e histeria anticomunista do anti politicamente correto), agora tenta se desvencilhar dessa agenda que ajudou a criar.



Assim como até hoje a emissora luta para desassociar sua história com a do apoio ao golpe de 1964 e da ditadura militar brasileira.



Por isso, ato reflexo, a Globo teve que largar na estrada o fiel oficial ferido mortalmente.



Augusto Nunes: "punhado de frases sem importância"



Isenção politicamente correta




Em outras palavras, nesse caso a questão principal não é o boquirroto William Waack, por mais que se satisfaça o doce sabor siciliano da vingança – o sabor de um prato que se come frio.



Assim como no caso do assédio sexual do ator José Mayer a uma figurinista terceirizada da emissora (prontamente a Globo fez o cast feminino da casa vestir camisetas com dizeres “Mexeu com uma mexeu com todas”), da mesma forma prontamente a Globo rifou Waack para provar sua isenção politicamente correta.



E tentar limpar das mãos a lama que teve que revolver nos últimos dez anos.



Talvez na defesa do amigo de guerra feita pelo apresentador do Roda Viva da Cultura e colunista da Veja e rádio Jovem Pam, o jornalista Augusto Nunes, esteja a origem da contradição tautista da Globo por trás desse episódio:
“Não é surpreendente que por um punhado de frases sem importância, ele vire alvo de seitas repulsivas:  os politicamente corretos, os fanáticos extremistas, os perdedores congênitos, os patrulheiros esquerdopatas, os cretinos fundamentais e os idiotas em geral”.
É dessa “incorreção política” (a visão do racismo como “frase sem importância”) que a Globo tenta agora se livrar, depois de estrategicamente instiga-la em passado recente.



Rapidamente a Globo se livrou do ator José Mayer: o politicamente correto tautista



Efeito colateral




Nesses últimos anos de oposição política, a Globo colheu como efeito colateral o choque entre a agenda comercial e o papel de oposição política assumido conjunturalmente diante da inépcia da oposição parlamentar.



Por exemplo, o beijo de um casal de idosas lésbicas protagonizado por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na telenovela Babilônia (2015) fez atrair a ira de grupos evangélicos que defendiam o boicote à novela em redes sociais – “a Globo é a maior patrocinadora da imoralidade e homossexualismo”, gritavam de evangélicos e toda a direita raivosa que, paradoxalmente, começaram a acusar a Globo de “petista” e “comunista” por supostamente defender a “ditadura gay” – a suposta agenda secreta financiada pelo ouro de Cuba - clique aqui.



A Globo sabe que a agenda do politicamente correto é a agenda política liberal nos EUA e da própria Globalização. E que a cultura das novas tecnologias disruptivas como Internet e dispositivos moveis (a grande ameaça da Globo) é liberal e que também preza pela correção política.



Mas aqui no Brasil, para a direita alucinada com seus “bolsominions”, pastores evangélicos e fundamentalistas em geral tudo não passa de uma maquiavélica conspiração comunista, bolivariana.
Como ponta de lança da oposição contra o lulopetismo, a Globo teve que dar espaço e visibilidade para esses grupos nas indefectíveis manifestações de rua e bateções de panelas para conseguir formar uma “massa crítica” – adensar ainda mais a já pesada atmosfera política nacional para alcançar o clímax no golpe.



Globo aprendeu a lição com o caso da novela "Babilônia"



Tentando limpar a lama das mãos




Agora tenta limpar as mãos da lama chafurdada nesse período com histéricas demonstrações de pauta politicamente correta:



(a) A série Malhação tem como subtítulo “viva a diferença” propagandeando a tolerância e o fim dos preconceitos;



(b) Karol Conka apresentando o programa Superbonita no canal GNT levantando bandeira do empoderamento feminino e de que “beleza é poder!”;



(c) Matérias especiais no Fantástico sobre crianças transgênero e identidade transgênero;



(d) Espaço crescente nos telejornais para pautas sobre violência contra a mulher, intolerância religiosa e crimes motivados por intolerância de gênero e orientação sexual;



(e) Série de documentários no canal fechado GNT com temas como “tabus”e “preconceito”.



Em passado recente tal recorrência seria impensada dentro da cavalgada da grande mídia em tentar cooptar todo e qualquer grupo que tivesse ódio suficiente para ser direcionado contra o Governo Federal.



Em outros tempos as incorreções do ator José Mayer e a galhofa racista do jornalista William Waack talvez ficassem restritas no campo do folclore das suas respectivas profissões. Mas hoje a Globo não pensa duas vezes em imolar em público seus fiéis colaboradores de outrora para tentar tirar a lama de suas mãos.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

William Waack representa o que a sociedade não tolera mais, por Celso Athayde.


William Waack suspenso pela Globo por racismo

Nessa última quarta feira, mais precisamente às 16h45, minha timeline foi invadida com a expressão: “Isso é coisa de preto”. Conheço bem essa expressão, ela é a forma mais objetiva de apontar quem você acha ser uma pessoa menor, menos educada, menos capaz e menos humana. Para quem possui a pretensa superioridade étnica essa expressão é clássica, inconfundível e recheada de ódio, desprezo pelo outro, seja lá quem for. É preto e pronto. Para mim, era mais uma onda de racismo, como essas que vemos nas redes sociais toda hora. Só que não. Essa onda tinha um surfista famoso, essa onda era protagonizada por ninguém menos que um mestre da comunicação, era ele: William Waack. Na mesma hora um filme passou pela minha cabeça, minha experiência "Waack" foi em 2000 .
Quando o rapper MV Bill e eu apresentamos para os moradores da Cidade de Deus um videoclipe de 10 minutos chamado Soldado do Morro, fizemos um grande evento para cerca de 30.000 pessoas na favela. Era dia 25 de dezembro, noite de Natal. Levamos shows de Caetano, Djavan, Dudu Nobre, Cidade Negra, além do próprio Bill que começava sua carreira. No clipe apareciam algumas imagens de jovens armados, e como a TV Globo estava presente filmou o telão e o evento.
O senhor Waack, que na ocasião substituía a apresentadora Ana Paula Padrão, que estava de férias em Nova York, nos xingou em rede nacional. Ele destilou todo o seu preconceito e arrogância costumeira contra nós afirmando na tela que o que fazíamos era apologia ao crime. O episódio virou caso de polícia, que acabou requisitando uma cópia do videoclipe sob alegação de que faria, como disse Waack, apologia ao crime organizado. Nós não tínhamos dinheiro para pagar um advogado para processá-lo e, lógico, brigar com a TV Globo parecia suicídio.
Bill e eu resolvemos ir à Globo para acertar as contas com ele e acabamos num debate riquíssimo com o então diretor de comunicação, Luis Erlanger, que se tornou um dos nossos melhores amigos, e nos convenceu de que a opinião do moço não representava a opinião da emissora. A maior prova de que ele não mentia é que seis anos depois, aquelas mesmas imagens fora de contexto  que Waack usou para nos execrar nacionalmente , foram reeditadas e transformadas no filme Falcão  Meninos do Tráfico, que recebeu prêmios em mais de 20 países. Mais que isso, foi considerado um filme que mudou a tevê brasileira. Foi um projeto costurado pelo próprio Erlanger e abraçado por seu gerente social na época, Luiz Roberto Ferreira.
Nossa posição em relação a Waack externamos em vários momentos, inclusive no próprio livro Falcão Meninos e Mulheres, onde contamos os bastidores do documentário.
Quando a noticia sobre Waack veio à tona, tenho certeza de que não surpreendeu ninguém, por tudo que ele já fez e faz. Pelas posições debochadas que ele tem em relação aos movimentos sociais e a qualquer movimento que não seja alinhado com sua postura elitista, ou mesmo com seus princípios estéticos.
Faço essa reflexão sem nenhum prazer, ao contrário. Fico triste de ver um homem tão culto, que prestou serviços tão relevantes ao jornalismo do país, manchar sua carreira com um fato tão grave. Triste também por ver que essas práticas estão aí e só conseguimos provar por acaso, pois os racistas negam que são racistas até a morte.
Vi a nota emitida pela TV Globo. Apesar de ela dizer que afastou Waack, eu acho impossível que ele não seja demitido, por várias razões. A primeira é que a repercussão desse fato não poderia ter sido mesmo ignorada. A Globo foi profissional, estratégica, cirúrgica e rápida na hora de dar a resposta. Não o jogou para os leões e não passou a mão na cabeça. Pode ser até que haja um acordo para um pedido de demissão. Mas, neste caso, não havia outra alternativa, apesar de alguns dizerem que a própria emissora produziu esse fato, o que eu não acredito.
Outra razão é que nos últimos anos a Globo tem olhado mais para o público das favelas e, sobretudo, para os afrodescendentes. Basta olhar para a programação mais recente, como o Esquenta, ou o avanço do fenômeno de Lázaro Ramos, Thais Araújo, ou a presença de negros como Manoel Soares e Tia Má no programa da Fátima Bernardes na condição e coapresentadores. A um nível mais local, essa lógica também tem crescido.
Lógico que estou falando de uma presença maior e não numa participação ideal, até porque estamos longe disso. Mas entre o grande jornalista e os 112 milhões de pessoas negras ou pardas que consomem 1,5 trilhão de reais por ano, a Globo não poderia ter dúvida. Entre Waack e a pauta que a emissora teria que abandonar para abrigá-lo, como a defesa da diversidade e do combate ao racismo no esporte, a Globo escolheu.
Este episódio só mostra o quanto o racismo esta naturalizado, impregnado na cultura de muita gente. Racismo que nos impossibilita chegar na civilização do século XXI. O Seu Willam não é o único que pensa assim, que fala assim, que reproduz esse ar de pretensa superioridade sobre outras pessoas e raças. Mas ele vem aos poucos se tornando um símbolo desse comportamento. Para ser franco, a resistência que a Globo tem em muitos setores está relacionada com o que pessoas como Waack representam. Pois bem, se a Globo tem seus interesses comerciais para demiti-lo, isso é legitimo. Se ela tem seus compromissos morais e éticos para dispensá-lo, isso é necessário.
Cabe a ela agora escalar Heraldo Pereira no lugar desse moço e, se isso acontecer, eu vou propor um buzinaço nacional para homenagear Waack. A emissora mostrará assim que é sensível e sintonizada com os novos tempos. É hora da Globo ratificar a demissão, cortar a própria carne ainda que doa. Pois apesar de ser um dos mais importantes e cultos jornalistas que conhecemos, ele há tempos representa um tamanho retrocesso que a sociedade não tolera mais.
Celso Athayde é ativista social, fundador da Central Única das Favelas (Cufa) e do Partido Frente Favela Brasil


Frente Favela Brasil acionará Willam Waack na Justiça por declarações racistas


O partido Frente Favela Brasil divulgou um comunicado informando que decidiu entrar com uma denúncia contra o apresentador da TV Globo William Waack, no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ). Em vídeo que circulou na internet no último dia 8 de novembro, Waack foi flagrado fazendo um comentário racista durante cobertura das eleições nos Estados Unidos em 2016. Depois de reclamar das buzinadas na rua, que atrapalhavam o trabalho no estúdio, o apresentador diz: "Você é um, não vou nem falar, eu sem quem é...". E depois, virando-se para um colega diz: "É preto".
"Tomamos a decisão de acionar o nosso Departamento Jurídico porque o Frente Favela Brasil entende que não cabe mais esse tipo de fala. Isso é inadmissível em todas as esferas da sociedade, vindo de um formador de opinião em uma das principais emissoras de televisão se torna mais grave ainda. Não podíamos ver aquele vídeo e ficarmos parados”, explicou Wanderson Maia, co-presidente do Frente Favela Brasil.
A Globo afastou o apresentador de suas atividades e soltou uma nota em que afirma ser " visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações".