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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Arquitetura, a dura poesia concreta das metrópoles, por Mariany Araujo.

on 01/04/2017Categorias: Cidades, Destaques, Mobilidade Urbana, Periferias e Centro
170401-SP
Na imagem, São Paulo. “A Arquitetura imprime no meio físico um discurso, e levanta o questionamento a respeito de como, e com qual intenção, estão sendo contornados nossos espaços”
Toda construção expressa um conflito e uma forma – às vezes oculta – de resolvê-lo. Para criar cidades menos alienadas é preciso um outro olhar sobre os espaços públicos
Por Mariany Araújo
As grandes cidades se veem na tentativa de equilibrar um complexo jogo formado por tensões de naturezas bastante antagônicas: interesses coletivos e individuais, públicos, privados, históricos, vanguardistas, filosóficos e morais que, de tão constantes e aparentemente indissolúveis, se tornaram quase premissas para a convivência – ou ao menos a tentativa de convivência – na metrópole. Este jogo normalmente exige uma escolha individual, uma tomada de posição que não vem acompanhada da clareza necessária sobre qual caminho leva, de fato, à construção de um lugar melhor para todos.
Diante da dúvida, a virtualidade dos encontros parece um escape tangencial: o homem moderno acreditou que a ciência e a tecnologia o libertariam da dependência direta dos lugares pelas vivências virtuais. Distâncias diminuídas, noção de tempo e espaço completamente alterada, neste lugar meio não-lugar se chega tão rápido quanto se parte, e sem necessariamente levar a cabo o motivo que te fez ir até lá. Mas, quando até o virtual tornou-se objeto concreto de análise, o caos ambiental é que ironicamente devolveu à questão espacial sua devida relevância. Não houve escapatória: lidar com os lugares que ocupamos e seus limites se coloca também como mais uma condição inerente da vida em sociedade.
O espaço público é palco de múltiplas manifestações, numa espécie de descompressão coletiva do estresse cotidiano; onde da rua se assiste ao surgimento de religiões, dietas, festas, obras de arte, apropriações e reapropriações, saraus e manifestos políticos. A grande beleza do espaço público se revela em, justamente, ser público; de todos, e por isso conformado por limites um tanto, digamos, enevoados. O virtual e o físico encontram-se e se permeiam, confundem-se. Torna-se difícil ter certeza de onde estamos, quais são os contornos, onde eles nos cercam, onde nos permitem e onde nos proíbem. O limite se instala entre realidades, não pertencendo a nenhuma delas mas, ao mesmo tempo, pertencendo às duas; é um jogo duplo que marca a ruptura mas também a união, inícios e finais, portas e transições, como duas faces que olham em sentidos opostos. E é muito importante não perder a dimensão de que neste jogo existem sempre os dois lados separados-unidos pela fronteira, e que por mais confortável que seja o lado de dentro – onde estamos -, também tem o lado de fora, ou seja, o outro, que se colocando a uma distância razoável de nós, se faz visível. É imprescindível para a cidadania enxergar esse outro, mas para isso é preciso sair da centralidade de si mesmo, é necessário olhar em volta.
Em meio a tanto vizinhos, vêm se criando os chamados “condomínios virtuais”, com muros quase invisíveis. Bem, os muros na arquitetura nada mais são do que limites virtuais trazidos à materialidade e que impõem a ruptura a um espaço antes contínuo; tal limite sempre é pensado antes de ser construído, e justamente por ser princípio de qualquer construção é que o pensamento rígido e intolerante pode segregar tanto e até mais do que qualquer fronteira física.
De qualquer maneira, a arquitetura exerce um papel social essencial enquanto conformadora dos limites concretos e simbólicos que tratamos aqui: ela imprime no meio físico um discurso, e levanta o questionamento a respeito de como, e com qual intenção, estão sendo contornados nossos espaços. Praças, condomínios, escolas e cortiços: nenhum deles existe sem estar inserido em um amplo contexto que abarca todos nós, e como a existência de um fato arquitetônico não confere automaticamente uma licença ética para que ele exista, é preciso perceber o alcance destes projetos para além de suas paredes; pois este é o alcance do espaço na arquitetura.
Construir é inevitável, e construir é sempre uma decisão política. Qualquer obra, mais que decisão técnica, é sempre política, e há de se questionar a respeito desta intervenção do espaço que, tantas vezes, é feita maneira violenta e deixa cicatrizes não só no tecido urbano como na vida e história das pessoas que vivenciam esse lugar, que construíram suas vidas tendo este cenário, e neles desenvolveram uma relação de troca, de identidade e conformação mútua.
A busca de um outro olhar sobre nossos espaços construídos pode criar uma cidade melhor, mais inclusiva e civilizada; que nos proporcione a humanização das relações, que reverta esse cenário urbano de hoje, tão cheio de coisas e vazio de significados, e que, por fim, nos ofereça também o acolhedor conforto da estabilidade do lugar – a tão helênica stabilitas loci – na era do efêmero e da mudança.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Arquitetura hostil: as cidades contra seres humanos, por Ben Quinn.

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Em Londres, espetos antimendigos, bancos contra skatistas e namorados expõem horror de certos urbanistas e autoridades a interações pessoais

Por Ben Quinn, The Guardian | Tradução Maria Cristina Itokazu
Ele é chamado de banco Camden, por causa do distrito londrino que primeiro encomendou esses assentos esculpidos em concreto cinza, que podem ser encontrados nas ruas da capital britânica. A superfície inclinada dos bancos, resistente a pixações, foi desenhada para afastar tanto os moradores de rua quanto os skatistas.
Ainda que menos óbvios do que os espetos “antimendigo” de aço inoxidável que apareceram há pouco, do lado de fora de um prédio de apartamentos de Londres, esses bancos fazem parte de uma fornada recente de arquitetura urbana planejada para influenciar o comportamento público e conhecida como “arquitetura hostil”.
Os skatistas tentam subverter os bancos fazendo aquilo que sabem melhor. “Hoje estamos mostrando que você ainda pode andar de skate aqui”, disse Dylan Leadley-Watkins, freando depois de se lançar com seu skate por sobre um dos bancos no Covent Garden. “O que quer que as autoridades façam para tentar destruir o espaço público, elas não podem se livrar das pessoas que frequentam a área sem ter que gastar dinheiro e fazer algo de que elas gostem.”
As ações dos skatistas e daqueles que se indignaram com os espetos – removidos depois que uma petição online conseguiu 100 mil assinaturas e o prefeito de Londres, Boris Johnson, aderiu às críticas – chegam num momento em que muitos argumentam que as cidades estão se tornando ainda menos acolhedoras para certos grupos.
Além dos dispositivos antiskate, os parapeitos das janelas ao nível do chão têm sido “enfeitados” com pontas ou espetos para impedir que as pessoas se sentem; assentos inclinados nos pontos de ônibus desencorajam a permanência e os bancos são divididos com apoio para os braços para evitar que as pessoas se deitem neles.
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Acrescentem-se a essa lista as áreas com pavimentação irregular, desconfortável, as câmeras de circuito fechado com auto-falantes e os intimidantes sonoros “antiadolescentes”, como o uso de música clássica nas estações e os chamados dispositivos mosquito, que emitem sons irritantes de alta frequência que só os adolescentes escutam.
“Uma grande parte da arquitetura hostil é adicionada posteriormente ao ambiente da rua, mas é evidente que “quem nós queremos neste espaço, e quem nós não queremos” é uma questão consideradas desde cedo, no estágio do design”, diz o fotógrafo Marc Vallée, que tem documentado a arquitetura antiskate.
Outros enfatizam o valor do design de ambiente na prevenção do comportamento criminoso, insistindo que o tempo das soluções brutas como os espetos de aço já passou. “Os espetos são parte de uma estética da fortaleza, já ultrapassada e nada bem-vinda nas comunidades para as quais o design urbano precisa ser inclusivo”, diz Lorraine Gamman, professora de design na Central St Martins (Faculdade de Artes e Design) e diretora do centro de pesquisas Design Contra o Crime, da mesma instituição.
Hostile architecture: benches
Novos bancos em frente às Cortes Reais de Justiça na região central de Londres. Foto: Linda Nylind
“Se quisermos usar o design para reduzir comportamentos antissociais, a democracia deve ser visível no design para a prevenção do crime que incorporamos às nossas ruas”, diz ela. “Não tenho problemas com o banco Camden – cuja estética outros têm criticado – mas em muitos lugares, os bancos, banheiros e lixeiras parecem ter sido removidos para reduzir crimes presumíveis, às custas da maioria das pessoas, que costuma respeitar das leis”.
Inovações atualmente em desenvolvimento na Central St Martins incluem “arte para caixa eletrônico” – marcadores de piso que visam aumentar a privacidade e a segurança dos usuários de caixas eletrônicos.
Outros criaram projetos relacionados com o graffiti (“Graffiti Dialogues”), ganchos antifurto para pendurar bolsas e mochilas nos bares e cafés e o suporte Camden para bicicletas, que facilita a vida do ciclista por manter a bicicleta na posição vertical e prender as duas rodas e o quadro ao suporte.
Hostile architecture: spikes
A indignação contra os tipos mais grosseiros de arquitetura hostil está crescendo. Há semanas, ativistas derramaram concreto sobre os espetos instalados na frente de uma unidade da rede de supermercados Tesco na região central de Londres. A empresa disse que pretendia prevenir comportamentos antissociais e não afastar moradores de rua, mas concordou, dias depois, em retirar os espetos.
O historiador da arquitetura Iain Borden disse que o surgimento da arquitetura hostil tem suas raízes no design urbano e na gestão do espaço público dos anos 1990. Esse aparecimento, afirmou ele, “sugere que somos cidadãos da república apenas na medida em que estamos trabalhando ou consumindo mecadorias diretamente”.
“Por isso é aceitável, por exemplo, ficar sentado, desde que você esteja num café ou num lugar previamente determinado onde podem acontecer certas atividades tranquilas, mas não ações como realizar performances musicais, protestar ou andar de skate. É o que alguns chamam de ‘shoppinização’ do espaço público: tudo fica parecendo um shopping”.
Rowland Atkinson, co-diretor do Centro para a Pesquisa Urbana da Universidade de York, sugere que os espetos e a arquitetura relacionada são parte de um padrão mais abrangente de hostilidade e desinteresse em relação à diferença social e à pobreza produzida nas cidades.
Hostile architecture: seat
“Sendo um pouco cínico mas também realista, é um tipo de ataque aos pobres, uma forma de tentar deslocar sua angústia”, diz ele. “São vários processos que se somam, incluindo os processos econômicos que tornam as pessoas vulneráveis em primeiro lugar, como o imposto por quarto extra e os limiares do bem-estar, mas o próximo passo parece ser afirmar que ‘não vamos permitir que você se acomode nem mesmo do modo mais desesperado’.”