Professor da UFRJ, o belga Fréderic Vandenberghe acredita que a democracia do País não é tão sólida.
A situação do Brasil foi tema de uma palestra do sociólogo belga Fréderic Vandenberghe na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS), onde atua como professor convidado. No evento, ele expôs um quadro preocupante do país a partir da eleição de Jair Bolsonaro e posiciona o Brasil alinhado a um eixo populista de extrema direita que se instalou em várias regiões do mundo.
Nascido na Bélgica, Vandenbergue percorreu vários países para aperfeiçoar sua formação acadêmica na área de Sociologia. Sua trajetória profissional de professor e pesquisador inclui França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Brasil, onde atuou na Universidade de Brasília, em 2003, antes de se instalar no Rio de Janeiro. Atualmente, ele integra o quadro docente do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Convidado para falar do Brasil na prestigiosa EHESS, Fréderic escolheu como título da palestra O túnel no final da luz : análise da conjuntura brasileira em uma perspectiva comparativa. “A escolha deste título é para indicar um desespero que é objetivo. A vivência no Brasil depois das eleições é muito difícil. Os sentimentos mais compartilhados no meio acadêmico, universidades, entre os colegas e os amigos é de tristeza e também de muito medo”, explicou na entrevista à RFI Brasil.
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O SOCIÓLOGO FRÉDERIC VANDENBERGHE (FOTO: RFI BRASIL/ELCIO RAMALHO)
Vandenberghe define a situação política do Brasil como extrema e estima que Jair Bolsonaro “não é um presidente que se pode comparar a qualquer outro” na história do país. “Estamos confrontados com um populismo da extrema-direita. Todos os valores que as pessoas liberais e democratas acreditam estão em suspenso e ameaçados”, afirma. “Nunca pensei que viria em minha vida uma desconstrução ativa dos direitos humanos e de uma democracia liberal”, acrescenta.
O sociólogo diz ter recorrido a vários livros e textos sobre populismo e autoritarismo para preparar sua intervenção na capital francesa. Em sua análise, ele observou que, em um espaço muito curto de tempo, o espectro político brasileiro se deslocou.
“O que era centro-esquerda e centro-direita virou simplesmente extrema-esquerda porque a direita populista é tão extrema, que, de acordo com o ponto de vista deles, tudo o que estiver mesmo um pouquinho à sua esquerda é taxado de socialista, comunista, e portanto, como um inimigo interno”, argumenta.
Além da análise teórica, Fréderic Vandenberghe usou sua experiência na observação de manifestações de diferentes grupos políticos para elaborar suas teses. Em uma delas, na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, diz ter ouvido militares em carros de som se referindo às centenas de mortes de “comunistas” durante a ditadura (1964-1985) e pessoas gritando o nome do general Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela justiça como torturador durante o regime militar.
“Podemos chamá-las de fascistas. Quando vejo essa apologia da ditadura e da tortura, isso me choca. Não gosto de falar de extrema-direita e fascismo, mas numa escala de 1 a 10, estamos em 8, 8,5. Isso assusta”, diz.
Brasil é uma mistura de muitos países
No entanto, diz o sociólogo, para entender o que acontece no Brasil é preciso avaliar dentro de uma perspectiva internacional comparativa. E o país, a partir do governo Bolsonaro, faz parte de uma conexão de ultradireitas, mas com características particulares, que seria “uma mistura” do que acontece em outros países.
“O Brasil é uma mistura da Rússia, com uma democracia de fachada, da Turquia, com a depressão que vai atingir os intelectuais e os artistas, e também das Filipinas, onde a política que é articulada para combater criminosos e favelados vai resultar em uma matança”, resume.
Vanderberghe também estima que a democracia brasileira não é tão sólida quanto se propaga, até por lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “O Brasil tem uma alternância regular de períodos democráticos e oligárquicos. Temos agora uma volta da oligarquia com uma política de extrema direita. Não compartilho com a ideia otimista de que as instituições no Brasil são sólidas”, afirma.
Preocupação com o futuro das universidades
Com sua experiência no meio acadêmico, o sociólogo belga considera a situação das universidades muita crítica, não apenas sob o aspecto financeiro. “Nos últimos três anos, o orçamento nos departamentos das Ciências Sociais e também em outros foi cortado em 75%. O novo governo deve cortar ainda mais”. Para ele, tão grave como a falta de recursos é a percepção de que essas áreas do conhecimento não oferecem muitas oportunidades de trabalho e de atuação no futuro.
“A disciplina que eu ensino, a Sociologia, vai ser tirada do currículo do ensino médio a partir de 2021. Os jovens que fazem doutorado não veem perspectivas de emprego”, lamenta. “O que vai acontecer também, como já foi anunciado, é um controle ideológico, vão introduzir critérios até para avaliar a distribuição de bolsas de estudos para os alunos. Como eles consideram que as Ciências Sociais e as Ciências Humanas, na sua totalidade, são simplesmente lugares de doutrinamento da extrema esquerda, esse controle ideológico é claramente preocupante”, destaca.
Outro motivo de inquietação manifestado por Vanderberghe é sobre um eventual programa de privatizações das universidades federais do país. Como ex-professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ele considera a desestruturação da instituição um “plano piloto” para um projeto que seria mais amplo de desmonte do ensino superior público do país.
“Sabemos que as universidades são locais de resistência. Será que quando houver manifestações, a repressão será muito violenta? Serão usadas balas de verdade? Esse sentimento de ataque contra as universidades e as Ciências Sociais e Humanas realmente é muito, muito preocupante”, conclui.
No momento em que o presidente eleito Jair Bolsonaro saiu da sua zona de conforto e se expôs em cenários não controlados como o Fórum Econômico de Davos ou a tragédia humano-ambiental de Brumadinho/MG, revela-se a sua condição limítrofe, com sérias deficiências cognitivas. E diante de pesquisas de opinião cujos resultados se colocam contra as principais linhas da sua “plataforma de governo”, muitos questionaram: mas afinal, como ele foi eleito? Discurso fascista? Anti-petismo? Há um fator ainda não tematizado - as relações intrínsecas entre a chamada “alt-right” (direita alternativa) e as redes sociais não é um mero acaso ou oportunismo. Personagens como Bolsonaro ou Trump são produtos das tecnologias de convergência da Revolução Industrial 4.0. Tecnologias que criaram uma cultura de aplicativos e redes sociais estruturada na noção algorítmica de “Inteligência Artificial”, que consiste em rebaixar os padrões do que entendemos como “inteligência”, enquanto os usuários se tornam simples processadores de informação.
Recente pesquisa Datafolha mostrou que a maioria dos brasileiros é contra privatizações e a redução das leis trabalhistas, propostas defendidas pelo atual governo.
Ao mesmo tempo, a participação do presidente eleito no Fórum Econômico de Davos, Suíça, foi um vexame internacional. Diante de um cenário que exigia interações políticas mais sofisticadas, Bolsonaro revelou sua condição de limítrofe: um curto “discurso” em linguagem quase tatibitate (herança da cultura da obediência infantil na caserna), cuja linha mais forte foi convidar os empresários a vir passar férias no Brasil, “país de belas riquezas naturais...”
Além de fugir de qualquer contato humano que exigisse algum tipo de relação dialógica e expusesse ainda mais suas deficiências cognitivas.
Diante do silêncio nas redes sociais dos próprios apoiadores da ultra-direita (principalmente diante bomba-relógio do caso Queiroz) muitos começaram a se perguntar: então, porque diabos ou como o capitão da reserva foi eleito?
Será porque a facada providencial tirou-o dos debates, livrando Bolsonaro de situações constrangedoras, como a que foi exibida em Davos? Seria porque o discurso populista de ultra-direita despertou o psiquismo fascista do Brasil profundo? Ou, então, a ausência de debates na campanha eleitoral tirou o foco da discussão dos programas de governo para a polarização sobre questões identitárias, culturais e de costumes?
Talvez todos esses fatores sejam explicativos no contexto de uma campanha eleitoral na qual os candidatos favoritos da “Casa Grande” (Alckmin, Meirelles e cia.) naufragaram nas pesquisas. Restando tão somente um militar rústico, ignorante e limítrofe com um histérico discurso anti-PT, líder de um clã do baixo clero que vive de rapinas financeiras. Não tem tu, vai tu mesmo...
Não tem tu, vai tu mesmo...
“Alt-right” e Revolução Industrial 4.0
Mas há um fator que ainda não foi tematizado, relacionado com conexão íntima entre a chamada “direita alternativa” (alt-right populista e nacionalista) e as redes sociais, cujas plataformas tecnológicas fazem parte da chamada Revolução Industrial 4.0 – Inteligência Artificial, algoritmos probabilísticos, mineração de Big Data, ao lado de nanotecnologia, biotecnologia e neurotecnologia.
Uma conexão entre o retrocesso político e cultural paradoxalmente turbinado por um capitalismo hiper-tecnológico.
Em postagens anteriores, este humilde blogueiro vem apontando para a importância do fator da canastrice na política – acostumados com simulacros televisivos e fílmicos, a opinião pública veria nos candidatos canastrões, que emulam personagens ficcionais, políticos verossímeis ou críveis... por lembrarem personagens da ficção. Trump e o reality show televisivo "O Aprendiz" ou Doria Jr. e o meme do “Rei do Camarote”. E as “mitagens” de Bolsonaro, iniciadas como um personagem bizarro de humor em programas como Pânico na TV ("as mitagens do Bolsonabo”) ou no quadro “O Povo Quer Saber” no CQC da Band seriam os exemplos mais atuais.
Mas o fenômeno da canastrice na política ainda está associado às mídias clássicas de massas como Cinema e TV.
Bolsonaro e a alt-right vão além disso: também são produtos das tecnologias de convergência da RI 4.0. Tecnologias que criaram uma cultura de aplicativos assentada sobre a noção dúbia de “inteligência artificial”.
Rebaixamento dos padrões de inteligência
Dúbia, porque, para muitos pesquisadores, a noção de “inteligência” trabalhada pelos cientistas computacionais e designers de softwares e aplicativos pressupõe uma autoabdicação humana: rebaixar os padrões do que entendemos como “inteligência”, enquanto os usuários se tornam simples processadores de informação.
Por exemplo, segundo o engenheiro computacional Jaron Lanier, para acreditarmos que aplicativos e algoritmos são realmente “inteligentes” temos que obrigatoriamente reduzir os nossos padrões de inteligência humana – o exercício diário de tratar máquinas ou aplicativos, como por exemplo Waze ou Google Maps, como formas de inteligência reais. O que resulta num senso de realidade mais flexível.
Isso sem falar nos aplicativos de relacionamentos que reduzem as relações afetivas à probabilidade estatística. Chama-se isso de “inteligência emocional” – a capacidade de adaptação irrefletida em um ambiente como forma de sobrevivência emocional.
Inteligência coletiva, nuvem, algoritmo ou qualquer outro objeto cibernético é aceito como uma super-inteligência por que reduzimos os nossos padrões e expectativas sobre a inteligência. As pessoas se degradariam o tempo todo para fazerem os aplicativos parecerem espertos.
Por exemplo, a ideia de amizade nas redes sociais é vulgarizada e reduzida. Uma pessoa se orgulha em dizer que possui milhares de amigos no Facebook. Essa afirmação só poderia ser verdadeira se a ideia de amizade for restrita. Ignora-se que a verdadeira amizade deve expor à estranheza inesperada do outro.
Talvez não seja mera coincidência ou determinismo tecnológico (Trump e Bolsonaro apenas teriam sido espertos em se aproveitar das mídias em ascensão no momento, assim como Goebbels se apropriou do cinema e rádio à sua época) essa relação íntima entre a atual direita alternativa e as redes sociais como locus privilegiado para a guerra semiótica.
Mais do que o discurso fascistoide, beligerante e que apela mais ao fígado do que à mente dos receptores, a normatização ou verossimilhança de uma figura tão limítrofe como Bolsonaro (achar “aceitável” o capitão da reserva, com explícitas limitações cognitivas, ser um candidato a chefe de Estado), está sincronizada a esse projeto hipertecnológico que consiste em rebaixar o conceito de “inteligência”.
Uma das consequências mais importantes da precarização do conceito de inteligência com a cultura dos aplicativos e das redes sociais é, principalmente, o rebaixamento das expectativas sobre o que seja um debate político ou de ideias. E a confusão entre uma importante categoria civilizatória: a distinção entre público e privado.
Jaron Lanier: Aplicativos reduzem os nossos padrões de inteligência
Redes sociais confundem Público e Privado
Semioticamente, a linguagem das redes sociais é indicial e performática – embora simbólica, emula características e funções da comunicação oral e não verbal. Como plataformas “públicas” (embora com interesses privados) são semioticamente simbólicas: digitamos textos e postamos mensagens supostamente de interesse público. Porém, os índices de comunicação não verbal (emoticons, memes, gifs animados, onomatopeias, recursos de digitação etc. que imitam conotações ou entonações) simulam comunicação oral presencial – reforçado pelo efeito on-line e tempo real que acabam simulando uma situação presencial.
Daí uma forma de comunicação composta por pitacos, adjetivações, xingamentos, provocações, insultos, como fosse comunicação presencial mas, paradoxalmente, com o anonimato “garantido” por um avatar. Do isolamento de um indivíduo diante da tela de um smartphone ou computador, o ponto de vista da comunicação é privado, sem o ritual ou a necessidade do rigor argumentativo de uma esfera pública.
A noção de debate de ideias e da própria ideia de Política ou de ideologia é rebaixada ao pitaco, frases chapadas, platitudes e clichês – “Conspiração para esconder a verdade da Terra plana!” ou “matar um gay é profilático!” são sofismas que, num ambiente de precarização generalizado, ganha a aparência de “debate”.
Assim como um deficiente cognitivo como Jair Bolsonaro ganha o status de “candidato presidencial” e, depois, “presidente da República”, com um “discurso” de bravatas e provocações que se confunde com “debate político” ou “programa de governo”.
Nesse momento as rusgas da Globo e Folha contra o clã Bolsonaro é mais um episódio desse enredo: a pobreza cognitiva de Bolsonaro (e do próprio clã) é tão evidente que não perceberam em seus cálculos políticos que, como egressos da corrupção de baixo clero (milícias e tráfico), não são bem vindos às mesas elegantes da “Casa Grande” – especializados na alta corrupção de empreiteiras e portos.
O clã Bolsonaro apenas foi o meio para que o projeto neoliberal (ruim de voto em qualquer eleição democrática) passasse incólume numa campanha eleitoral sem debates. O vice General Mourão é o núcleo duro militar e racional que garantirá a permanência do projeto da pulverização de direitos e garantias sociais com as “reformas” visadas pela “Casa Grande” (banca financeira e grande mídia).
E Bolsonaro, assim como Trump e tantos outros tantos “líderes” que ainda virão pela cruzada internacional da nova direita populista nacionalista comandada pelo norte-americana Steve Bannon, foi apenas um avatar criado para surfar na cultura de redes sociais e aplicativos.
A precarização das noções de inteligência e política é o meio para hackear a Democracia. Enquanto no mundo real, fora das bolhas digitais, as políticas de controle e extermínio de garantias e direitos sociais e econômicos passam sem nenhum debate público e inteligente.
No Brasil do governo Bolsonaro, o futuro tem nostalgia do
passado, do obscurantismo pré-moderno que existiu no passado antes da
revolução científica
Por Liszt Vieira
12/01/2019 17:06
Créditos da foto: (Reprodução)
O sono da razão produz monstros (Goya)
A
quadrilha de ministros mega corruptos do governo Temer cedeu lugar a um
bando de doidos de extrema direita, com mentalidade pré-moderna e
anti-científica. São fundamentalistas que preferem a crença à razão. Mas
não se trata de um hospício com doidos do tipo maluco beleza. Sabem o
que fazem e a quem vão servir.
Há, portanto, um método nessa
loucura, como dizia o personagem Polonius a respeito de Hamlet, na
famosa peça de Shakespeare. Antes, porém, de examinar os beneficiários
do novo governo, vale a pena repassar as demonstrações de loucura já
alardeadas para todo o país.
A começar pelo deputado que defendeu
em sua carreira política teses fascistas e foi eleito presidente após
uma enxurrada de fake news como, por exemplo, o kit gay. Apoiou a
tortura, elegeu como herói um dos torturadores e assassinos mais
sanguinários da ditadura, o coronel Brilhante Ustra. Propôs a guerra
civil para resolver o problema do Brasil, quer porte de arma para todo
mundo, discrimina gays, negros, índios e mulheres. Sobre as mulheres,
disse barbaridades. Teve três filhos homens. No quarto filho,
"fraquejou" e veio mulher. Estupro? Só se a mulher não for feia. Feia
não merece. Foi expulso do Exército, por "indisciplina" e, segundo
consta, por problemas "psico-emocionais". Em gesto simbólico, bateu
continência para a bandeira dos EUA.
Seus ministros não ficam
muito atrás. Vou citar apenas os casos mais extravagantes. O ministro de
Relações Exteriores nega a ciência, ignora todos os cientistas do mundo
e diz que o aquecimento global e as mudanças climáticas são coisas do
"marxismo cultural". O ministro da Educação propõe uma Escola
totalitária, de ideologia única, batizada espertamente de escola sem
partido. Em vez de reflexão e diversidade, o dogma sectário.
A
ministra de Direitos Humanos é pastora evangélica e disse que é hora de a
Igreja governar o país. A Constituição Brasileira consagrou a visão
moderna de separar a Igreja do Estado que legalmente deve ser laico, mas
a ministra acha que sua Igreja é a dona da verdade. É bom não esquecer
que ela disse que viu Jesus subindo numa goiabeira e impediu, temendo
que ele caísse e se machucasse.
Além desses casos irracionais,
outros ministros nos brindam com decisões estapafúrdias. A futura
ministra da Agricultura anunciou sua decisão de acabar com a inspeção
diária em frigoríficos do país. Ela propõe que cada produtor auto
inspecione a sua unidade. Provavelmente, os exportadores de carne vão
reclamar, pois vão perder clientes no exterior, desconfiados da
qualidade da carne. Nessas circunstâncias, o risco de carne estragada
existe, mas seria muito maior no mercado interno.
Segundo a
imprensa, o Ministério da Cidadania vai cuidar de bolsa família,
políticas de combate à pobreza, esporte, cultura, política anti drogas,
desenvolvimento social, direitos humanos e parte do espólio do
Ministério do Trabalho. Não é difícil imaginar o caos que resultará
dessa salada mista.
O ministro do Meio Ambiente é réu na Justiça
de São Paulo por falsificação de licenças e adulteração de mapas, tudo
para agradar as empresas poluidoras. O novo presidente do IBAMA já
anunciou que deseja implantar licenciamento ambiental automático. Ele
defende
que produtores rurais emitam sua própria licença por meio de um sistema
eletrônico. Ou seja, violando todos os princípios do Direito Ambiental,
ele vai acabar com o licenciamento ambiental.
Como se vê, a cada
dia fica mais claro o "método na loucura". Bolsonaro quer perdoar
dívida de R$ 17 bilhões do agronegócio. "Em resposta ao apoio de um dos
setores que o elegeu, o presidente recém-eleito Jair Bolsonaro deverá
perdoar dívida de R$ 17 bilhões do FunRural (Fundo de Assistência ao
Trabahador Rural)", conforme matéria publicada no jornal Valor na sexta-feira 21/12/2018.
A
morte anunciada do Brasil enquanto país autônomo tem na venda da
Embraer um dos seus símbolos mais fortes. Além do desbaratamento da
indústria de auto peças que abastecia a Embraer, toda a indústria
nacional sofre um rude golpe. Investimentos públicos, como financiamento
do BNDES, por exemplo, geraram produção e tecnologia nacional na
fabricação de aviões de pequeno porte, exportado para muitos países. Já
há quem preveja que, daqui a alguns anos, a Boeing vai fechar a fábrica
no Brasil para abrir outra na Ásia, onde a mão de obra é mais barata.
Em
brilhante demonstração de ignorância e mediocridade, o novo presidente
rejeitou o Brasil ser a sede da Conferência Internacional do Clima, a
COP-25, em 2019. O Brasil vai perder mais ainda o resquício do
protagonismo internacional que teve no governo Lula e que perdeu
rapidamente no governo Temer.
O Chile, que tem um governo de
direita mas não é idiota, aceitou sediar a COP-25. Isso é uma honraria
que fortalece o país na comunidade internacional, além de trazer
benefícios para o turismo, comércio etc. O Chile tem uma área de 756.626
km2, menor do que cada um dos estados de Amazonas, Pará ou Mato Grosso,
e pouco maior do que Minas Gerais. A população do Chile é de 17
milhões, aproximadamente. Menos do que o Estado de São Paulo ou Minas
Gerais e equivalente à população do Estado do Rio de Janeiro .
O
Brasil sediou a primeira Conferência da ONU de Meio Ambiente e
Desenvolvimento, a chamada Rio-92. Pela extensão de seu território e
população, pelas extraordinárias riquezas naturais - ameaçadas pela
cobiça predatória de um capitalismo míope e selvagem - pela grande
diversidade de seu patrimônio biológico (fauna e flora), o Brasil
poderia ter uma liderança mundial em matéria de desenvolvimento
sustentável.
Em vez disso, caminha visivelmente para se candidatar a
ser a província predileta dos EUA, que sempre esnobaram a América
Latina, e cujo presidente já começou a descer a ladeira. Com a ideologia
pré-moderna e anti-científica do deputado eleito Presidente do Brasil e
com a visão medieval de seu Ministro de Relações Exteriores, o Brasil
vai desaparecer do cenário internacional, a não ser como objeto de
chacota e desprezo de todo o mundo.
Enquanto isso, a extrema
pobreza voltou aos níveis de 12 anos atrás. Para o economista Francisco
Menezes, os números de pobreza sugerem que o Brasil voltará ao Mapa da
Fome da ONU (El País, 14/7/2018). No mesmo sentido, o Relatório de 2018
da OXFAM, denominado "País Estagnado - Retrato das Desigualdades
Brasileiras", afirma que
"O Brasil, pela primeira vez durante
anos, vê sua distribuição de renda estacionar. A pobreza no país
recrudesceu e teve fim a dinâmica de convergência entre a renda de
mulheres e homens – o primeiro recuo em 23 anos. Também recuou a
equiparação de renda entre negros e brancos até chegar à estagnação, que
completa atualmente sete anos seguidos. São retrocessos inaceitáveis,
especialmente em um país onde a maioria populacional é de mulheres e
negros."
O retrocesso assustador que ameaça o Brasil nos faz
pensar sobre o papel do tempo na política. O filósofo francês Henri
Bergson disse certa vez que o presente é o passado projetando-se no
futuro. Mas o fantasma da regressão que assombra o Brasil nos leva à
tentação de inverter os termos da equação: o presente é o futuro
projetando-se no passado.
Na avaliação de Enzo Traverso (Melancolia de Esquerda - Marxismo, História e Memória),
"a obsessão pelo passado que vem moldando nosso tempo resulta do
eclipse das utopias: é inevitável que um mundo sem utopias acabe olhando
para trás".
No Brasil do governo Bolsonaro, o futuro tem
nostalgia do passado, do obscurantismo pré-moderno que existiu no
passado antes da revolução científica. Mas se o sono da razão dirige os
olhos ao passado, estão despertos no presente os generais encastelados
no poder e o ministro Sergio Moro, condutor do aparelho institucional do
Estado de Exceção, ambos a serviço da lógica privatista, improdutiva e
entreguista do capitalismo financeiro, o verdadeiro senhor e mestre do
novo governo.
Ainda que o WhatsApp
seja a plataforma preferida na divulgação de notícias falsas e boatos
nessas eleições, o YouTube também se tornou um dos principais meios de
comunicação dos conservadores brasileiros. Quem analisa o ranking dos
vídeos “em alta” da plataforma logo percebe a predominância de figuras
da direita nacional. O YouTube, aliás, foi responsável pela fama e
eleição de alguns deputados da bancada bolsonarista.
Desses pregadores de ódio e desinformação, destaca-se a figura de Olavo de Carvalho, o principal guru do radicalismo de direita no Brasil há mais de duas décadas. Dos EUA, onde vive, o pensador escreveu livros e deu cursos online que formaram uma geração de brasileiros.
Um de seus vídeos mais recentes, intitulado “O aviso mais importante que já dei aos brasileiros”, é uma rigorosa exposição do estado da arte do antipetismo vesicular, crônico, paranoico.
Segue uma tentativa de análise de seu pensamento, que ajuda a
entender não apenas a cabeça de Olavo, mas a cabeça dos entusiastas de
Jair Bolsonaro.
Olavo começa seu vídeo falando sobre o atentado sofrido por
Bolsonaro. Em suas palavras, um “crime cometido por um membro do PSOL”.
Aqui já começa o espetáculo de mentiras e meias verdades,
características da retórica radical.
O autor do atentado, ainda que tenha sido filiado ao PSOL até 2014,
é notoriamente uma pessoa desequilibrada e que, segundo investigação da
própria Polícia Federal, agiu sozinho. Mas ao chamá-lo de “membro do
PSOL”, Olavo instiga o ódio pelos agrupamentos de esquerda.
Como a polícia chegou a conclusões pouco excitantes, Olavo faz
questão de colocar em dúvida a isenção do delegado responsável,
chamando-o de “assessor condecorado pelo governador petista de Minas
Gerais”. Ademais, diz que ele foi “proibido de divulgar os dados da
investigação” de modo a “não ajudar o Bolsonaro”.
Vê-se aqui a conspiração esquerdista: o autor da facada é “membro do
PSOL”, e o delegado é mancomunado com o “governador petista”.
Partidos Comunistas do Brasil
O Capitão Ensandecido reverberou essa mesma teoria em cadeia nacional.
Olavo faz então uma digressão histórica. Para entender o grande
domínio da esquerda, diz, é preciso voltar à redemocratização do país.
Segundo sua paranoia, “todos os políticos que emergiram” naquele
período e/ou “voltaram do exílio”, “eram esquerdistas”. Sendo que
“alguns, profundamente comprometidos com o partido comunista”.
É certo que figuras de esquerda, como Luiz Carlos Prestes e Miguel
Arraes, puderam retornar ao Brasil a partir da anistia em 1979.
Mas para Olavo, em verdade, eram “todos esquerdistas”.
A única exceção seria o PFL (Partido da Frente Liberal, atualmente
Democratas), que nasceu de um racha no PDS, que deu também origem ao PP
(Partido Progressista).
Porém, esse partido seria apenas “nominalmente liberal”, mas que
tentava, a todo custo, mostrar que “não era tão direitista assim”,
mostrando-se “a favor da causa gay, feminista, abortista”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista.
Aos mais jovens, vale lembrar, o PFL foi o grande partido a se
coligar com FHC em 1994, tendo na sua liderança as figuras do
catarinense Jorge Bornhausen e o baiano Antônio Carlos Magalhães.
Bornhausen, em 2005, ao falar sobre os petistas que agonizavam
durante o escândalo do mensalão, afirmou: “estaremos livres dessa raça
pelos próximos 30 anos”.
ACM, em discurso no Senado em 2006, afirmou: “Quero dizer aos
comandantes militares: reajam enquanto é tempo! Antes que o Brasil caia
na desgraça de uma ditadura sindical, presidida por um homem, mais
corrupto que já chegou ao governo da República”.
Esses são os “moderados”, segundo Olavo.
Ao afastar o PFL, Olavo afirma que havia três grandes partidos no
Brasil: PT, que seria o “comunista mais radical”, o PSDB, o “comunista
mais adocicado” e o PMDB, que “sempre foi controlado pelo Partido
Comunista” e que “tinha a função de parecer o partido isento”, mas que
estaria “100% a serviço dos comunistas”.
O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a
democracia brasileira era 100% comunista. Ou melhor, 99,9%, já que o PFL
era menos comunista que os demais. Essa democracia, pois, seria uma
farsa, já que ia contra os anseios da população, que é em sua maioria,
conservadora.
Os conservadores, porém, não teriam partido, não teriam jornal, não
teriam universidade, não teriam uma revista semanal conservadora…
Mas os comunistas não dominam apenas o Brasil: o “comunismo é uma
rede internacional”, que tem “apoio das megafortunas”, apoio dos
“bancos”, de gente como George Soros e Mark Zuckerberg.
Como os fanáticos que enxergam a imagem da Virgem numa mancha na
parede, Olavo enxerga a imagem do comunismo até nos bilionários do
capitalismo contemporâneo.
A Igreja vermelha
Nesta altura, Olavo cita o seu satanás particular: o Foro de São Paulo.
Diz que a democracia brasileira foi “calculada para consolidar o
poder comunista/socialista, mais ainda após a fundação” do Foro.
Foro esse que em sua análise é “uma organização nitidamente
criminosa, onde partidos supostamente legais, se associavam intimamente a
organizações criminosas como as FARCS, o MIR, que tinha o monopólio dos
sequestros na América Latina”, além de ser a “grande fornecedora de
cocaína ao mercado brasileiro”.
E Lula, nosso ex-presidente, comandava essa organização, junto com o comandante das FARCS.
Como profeta, Olavo afirma que “durante 16 anos, a mídia inteira
negou a existência do Foro”, que seria “a maior entidade política que já
existiu na América Latina”.
Fundado em 1990, o Foro de São Paulo apareceu nos arquivos do jornal O
Estado de São Paulo em 1997, por exemplo, quando da realização de seu
7º encontro, realizado em Brasília.
Mas a suposta ocultação do Foro faz com que Olavo afirme que “a mídia
inteira faz parte desse esquema”. Alerta seus seguidores que se algum
deles ainda “tem um pingo de confiança na Folha de São Paulo, Globo,
Estadão, Veja”, etc., isso significa que “você está sendo simplesmente
enganado”. Deve-se negar o jornalismo e os jornalistas, pois essa classe
de trabalhadores é “100% cúmplice desta coisa, são todos criminosos”.
E assim se faz o viés anti-intelectual e contra o jornalismo
profissional, que são pilares do radicalismo verde-amarelo que tanto
sucesso tem obtido no Brasil.
É assim que se convence a massa que os jornais são todos mentirosos e
que eles só devem acreditar na verdade emanada a partir de centros e
indivíduos autorizados pelo Führer, pelo Duce, pelo Mito.
Ao tratar de outro tema inescapável dos radicais brasileiros, Olavo
afirma que “Hugo Chávez destruiu” a economia venezuelana, por ter
financiado “o terrorismo e o narcotráfico no mundo inteiro, com a ajuda
do sr. Lula e o PT”. Adiante, afirma que “essa gente está envolvida numa
rede criminosa de um tamanho descomunal”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie.
Note-se que, para Olavo e seus seguidores, o PT não é um partido
político, não é um agrupamento ideológico, é uma rede internacional de
criminosos, envolvidos com tráfico de drogas, assassinatos, terrorismo,
etc.
Essa é o elemento central do antipetismo patológico que vivemos.
Eis outro elemento do radicalismo nacional: divide-se a sociedade
entre bolsonaristas e “petralhas”. Os primeiros são patriotas, cidadãos
de bem, amam suas famílias, têm boa higiene pessoal, trabalham e
estudam. Os outros, os “judeus” da ocasião atual, são os apátridas, os
canalhas, os que querem destruir os valores familiares, os sujos, os
parasitas, os ignorantes.
Exagero? Olavo afirma que “essa gente” – vocês devem saber a quem ele
se refere – “está matando milhões de pessoas no Brasil, são genocidas
todos eles”.
Olavo encerra afirmando:
“Gente, acordem, não é uma disputa política, eleitoral, é uma disputa
contra o banditismo organizado, contra criminosos psicopatas, gente sem
escrúpulo de espécie alguma, incluindo os colaboradores mais suaves,
tipo Alckmin… Acordem, ou é eleger o Bolsonaro, ou dizer adeus ao
Brasil”.
É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em
uma barbárie. Que provocou agressões de todo tipo às vésperas das
eleições. É esse o tipo de mensagem que se entranhou no bolsonarismo
mais radical. É essa mensagem de ódio e de divisão que Bolsonaro vai
pregar, insistir e aumentar.
Nós, os que não somos bolsonaristas, mesmo os “colaboradores mais
suaves”, estamos em risco. Nossa moral, nossa integridade física e
emocional, tudo isso pode ser alvo de linchamentos.
Poucas vezes o futuro foi tão lúgubre neste país.
Imagem em destaque: O escritor, conferencista,
ensaísta, jornalista e filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, o papa do
conservadorismo brasileiro, em Richmond, nos EUA.
Sete anos depois de cometer o ataque mais sangrento da noruega, o
terrorista Anders Behring Breivik não parece tão isolado como antes
Por Ishaan Tharoor
15/10/2018 10:40
Créditos da foto: (AP Photo/Frank Augstein)
é merca
É sem expressão que o terrorista chega a um acampamento cheio de adolescentes confiantes e alegres. Vestido
como policial e com um arsenal de armas de fogo, ele abate
dezenas. Algumas vítimas, encolhidas de medo, são enganadas por suas
instruções e são executadas deitadas de bruços. Outros são baleados nas
costas enquanto fogem em busca de segurança. O próprio terrorista
humildemente se rende às forças de segurança que acabam encurralando-o,
recebendo a clemência que ele se recusou a dar aos outros.
O
terrorista em questão é Anders Behring Breivik, que realizou o massacre
mais sangrento da história moderna norueguesa em 22 de julho de 2011.
Breivik detonou um carro-bomba em um complexo do governo em Oslo e
depois seguiu para a ilha de Utoya, onde membros da juventude da ala do
Partido Trabalhista de centro-esquerda da Noruega reunira-se para um
retiro. Sua fúria levou a 77 mortes.
O massacre é o tema de um
filme do aclamado diretor britânico Paul Greengrass, lançado na semana
passada. "22 de julho" oferece um relato inabalável dos ataques e, em
seguida, analisa o que se seguiu - um processo judicial que testou o
sistema legal da Noruega e sua paciência, como um assassino impenitente
cheio de ódio foi autorizado a tomar posição e se deleitar em seus
crimes.
As ações de Breivik eram vistas como as de um lobo solitário de extrema direita. Um manifesto que ele circulou antes
de embarcar na matança foi contra a imigração, o multiculturalismo e o
suposto marxismo do establishment político, citando vários membros da
extrema direita na Europa e nos Estados Unidos. Ele se intitulava um guerreiro cruzado dos Cavaleiros Templários e
se gabava de uma rede de camaradas prontos para pegar em armas ao lado
dele - embora os investigadores nunca tenham encontrado muita evidência
de tais companheiros de viagem.
Mas sete anos depois, Breivik não parece mais tão isolado. Em
toda a Escandinávia, Europa e até mesmo nos Estados Unidos, as
políticas anti-imigração de extrema-direita estão em ascensão. Falando
ao WorldView de hoje, Greengrass disse que a "visão intelectual de
mundo" de Breivik migrou para mais perto do centro político.
"Podemos
testar o grau em que deveríamos ser perturbados pela medida em que você
pode ver o manifesto de Breivik entrar no mainstream", disse Greengrass
em uma entrevista na semana passada enquanto visitava Washington. Com o
presidente Trump e outros criticando os “globalistas”, imigrantes e
liberais, a sugestão é que deveríamos ficar muito perturbados, de fato.
Greengrass
fez um verdadeiro cânone de filmes que abordam a violência política e o
terrorismo, do sectarismo irlandês à pirataria somali. Ele liga “22 de
julho” ao seu filme “United 93”, de 2006, que relata os eventos a bordo
de um jato de passageiros apreendido pelos sequestradores da Al-Qaeda em
11 de setembro. Passageiros lutaram contra os terroristas que haviam
tomado o avião, que finalmente caiu em uma clareira na Pensilvânia.
Tanto
os militantes islâmicos como Breivik estavam envolvidos em "uma revolta
contra a globalização", disse Greengrass. Embora Breivik dificilmente
represente todos os populistas de extrema-direita, o cineasta argumentou
que há um segmento do movimento que está “começando a usar a linguagem e
defendendo crenças que não são mais compatíveis com as normas
democráticas”. O manifesto de Breivik - embora, felizmente, ainda não
suas ações - oferece uma janela para o perigo real que enfrenta a
democracia liberal.
"Estamos nos estágios iniciais de uma luta ideológica por um mundo aberto ou fechado", disse Greengrass.
O
general Michael Hayden, ex-diretor da CIA no governo George W. Bush,
advertiu que "a linha do discurso mudou" nos Estados Unidos de maneira
preocupante. Ele disse que, embora os países europeus possam voltar a um
cenário passado mais etnocêntrico, os Estados Unidos são construídos
sobre o pluralismo.
"Se não mais adotarmos os conceitos" nos
quais os Estados Unidos foram fundados "e, em vez disso, nos voltarmos
para a política do sangue e do solo, o impacto poderá ser muito maior e
mais destrutivo", disse Hayden.
Nos Estados Unidos e na Europa, tais pedidos têm se dirigido a ouvidos tampados . Os
eleitores - irritados por sentimentos de ressentimento cultural e
aprofundamento da desigualdade social - optaram por partidos nos
extremos e não se incomodam com a bronca das vozes do
establishment. Greengrass descreve o que ele considera a “insurgência
populista” rugindo no Ocidente “como ver uma tempestade assolar os
edifícios”.
A questão é se as estruturas existentes podem
suportar o ataque. Políticos centristas estão sendo castigados ou
derrotados nas eleições em todo o continente. Jens Stoltenberg, o
primeiro-ministro norueguês durante o massacre de Breivik e uma figura
heróica em "22 de julho", foi expulso do poder em 2013. Ele é agora o
secretário-geral da OTAN, a aliança militar amplamente desaprovada pelos
populistas do Ocidente.
A dramática tensão no filme de
Greengrass depende da capacidade da Noruega de confrontar os feitos e
crenças de Breivik. "Eles demostraram grande coragem e sabedoria para
tomar o caminho difícil e defender o Estado de direito", disse
Greengrass.
Vemos o momento forte em que jovens sobreviventes do
ataque de Breivik em Utoya falam diante dele no tribunal. "O que eles
fizeram foi entrar naquela corte e confrontá-lo - alguns moralmente,
alguns intelectualmente, alguns emocionalmente - e coletivamente eles o
derrotaram", disse Greengrass. A vida de Breivik está agora para sempre
consignada ao "espaço confinado" da prisão.
"O que você vê no
julgamento são duas visões de mundo radicalmente diferentes", disse
Greengrass. Ele se agarra à esperança de que as crenças das vítimas de
Breivik "venham a emergir mais fortes".
*Ishaan Tharoor
escreve sobre assuntos externos para o Washington Post. Foi editor
sênior e correspondente na revista Time, em Hong Kong e em Nova York
**Publicado originalmente no Washington Post | Tradução de Aluisio Schumacher
Para compreender o avanço da agenda de retrocessos, falta
examinar algo: como o medo de perder micropoderes – relacionados a
classe, gênero, raça e sexualidade – leva tantos a se aferrarem à
própria opressão
Por Berenice Bento
Entre os anos de 1965 e 1966, ruas de várias capitais brasileiras
foram ocupadas por manifestações que estampavam em seus cartazes: “Em
nome da tradição, família e propriedade” (TFP – Tradição, Família e
Propriedade). Neste tripé, setores consideráveis da sociedade brasileira
se organizaram e deram sustentação civil ao golpe militar. Atualmente,
os discursos que defendem o direito exclusivo da família heterossexual
existir e a defesa da propriedade privada como um valor superior à vida
estão organizados em partidos políticos, no MBL e na Escola sem Partido.
Estes três níveis organizacionais das direitas não esgotam seus
campos de atuação. Talvez sejam os mais visíveis, uma vez que estão na
esfera pública disputando visões de mundo. Há, contudo, outras formas de
atuação que passam pelo legislativo, mas não começam nem terminam nele:
os mecanismos que os grandes empresários (da indústria/do
agronegócio/do sistema financeiro) utilizam para retirar o máximo
possível de recursos públicos, a exemplo do perdão das dívidas (renúncia
fiscal). Cálculos da Unafisco – Associação Nacional dos Auditores
Fiscais da Receita Federal do Brasil – estimam que chegue a R$ 322
bilhões o que o governo deixará de arrecadar com programas de perdão ou
renegociação de dívidas criados em 2017, por meio da edição de medidas
provisórias (MPs).
Para se chegar à edição de uma medida provisória, inúmeras
negociações são realizadas, mas elas não aparecem nas grandes manchetes
da mídia. Tudo é feito na invisibilidade dos gabinetes ministeriais de
Brasília, com forte assessoramento da tecnoburocracia estatal e de
representantes de grandes empresários/banqueiros. Este tipo de
apropriação dos recursos nacionais acontece fora e dentro do Parlamento.
Em algum momento, os/as parlamentares são chamados/as para dar seu aval
a esta expropriação – não seria melhor chamá-la de “corrupção
institucionalizada”? – dos recursos públicos.
A expressão política dos interesses da classe economicamente
dominante está fragmentada em diversos partidos políticos; acredito,
porém, que não se pode entender o nível político sem vinculá-lo a esta
rede de tecnoburocratas espalhada nas estruturas do Estado. São eles que
irão justificar tecnicamente medidas provisórias e outros dispositivos
legais que garantem que a gestão de recursos esteja voltada para a
manutenção das estratificações sociais que se caracterizam por níveis
abissais de desigualdade social.
Alguns interpretam a atuação desses setores organizados da direita –
ou, nos termos de Richard Miskolci, dos “empreendedores morais” – como
uma forma de escamotear os verdadeiros interesses que os movem: os
econômicos. Outros preferem analisar a dimensão das moralidades sem
fazer referência às possíveis conexões entre estes dois níveis (o
econômico e o moral) e acabam recaindo em um tipo de discurso
identitário que isola um dos elos daquilo que nomeio de sistema CGRS –
Classe, Gênero, Raça e Sexualidade. Cito um exemplo, em uma conjuntura
tão rica deles: no dia 17 de abril de 2016, várias deputadas declararam a
plenos pulmões que votavam pela admissibilidade do impeachment da
presidenta Dilma, justificando sua posição na defesa da família. Setores
dos feminismos diziam que as mulheres parlamentares estavam atualizando
em seus discursos o patriarcado – que tem como ponto alto de sua
eficácia de dominação fazer com que as mulheres sejam agentes
reprodutores da própria dominação.
Outros setores da esquerda, no entanto, não deram muita importância
ao nível manifesto daquelas declarações de voto (pura perfumaria)
porque, na verdade, o que se estava defendendo ali era uma posição de
classe social.
Acredito, no entanto, que as duas perspectivas analíticas (que têm
efeitos políticos concretos e singulares em termos táticos e
estratégicos) pecam por não entender que as direitas – assim como as
esquerdas – organizadas, e aqueles/aquelas que aderem aos seus
discursos, não podem existir sem uma concepção de mundo que lhes forneça
os valores que lhes conferem sentido. Esta concepção de mundo não é
determinada pela dimensão econômica. Não é uma “falsa consciência”, ou
seja, uma forma turba de ler o mundo ou de ler o mundo com a lente
dos/das dominantes.
Ora, em nenhum momento durante os anos dos governos petistas os
interesses da classe economicamente dominante foram ameaçados e, em
alguns casos, os lucros foram ampliados, a exemplo do sistema
financeiro. O direito inalienável à propriedade privada jamais foi
questionado.
No momento em que a parlamentar vota pela retirada da Dilma, ela está
operacionalizando o sistema CGRS. Daí, portanto, não ter nenhum sentido
exigir algum tipo de coerência à sua atuação parlamentar a partir da
categoria gênero. Ela atuou coerentemente. Qualquer uma das categorias
que estrutura o sistema CGRS – quando isolada como variável determinante
– tem pouco valor explicativo. Como é possível contar a história do
capitalismo brasileiro sem evocar a raça? E quem gerava os seres que
iriam alimentar o sistema escravocrata? A unidade política e econômica
do Brasil, por séculos, não foi o Estado, mas a família. Assim, a
relação entre propriedade privada e família, no caso brasileiro, é
indissolúvel. E qual família? A heterossexual.
Pela primeira vez na história do Brasil, o Estado, ao longo dos
governos petistas, passou a pautar o debate sobre a necessidade de
reparação histórica às pessoas negras, a formulação de um Plano Nacional
de Combate à Homofobia e o crescente protagonismo dos ativismos
trans/travesti no âmbito da luta por igualdade de gênero. Tanto as
políticas públicas quanto os debates promovidos pelo governo federal
padeciam de anemia política. Eram fracas. Lidamos com tempos políticos
distintos. Nós, das esquerdas, tínhamos (temos) pressa. O executivo
atuava lentamente, mas atuava, navegando no mar revolto das alianças
políticas. E as direitas queriam o tempo do passado, da tradição.
Os pactos para garantir a governabilidade tentavam fazer uma alquimia
impossível: mistura de água e azeite. Levou-se até o abismo a crença no
pacto social. Como aceitar que o terreno simbólico máximo das elites
intelectuais, as universidades públicas, fosse tomado por uma turba de
gente negra? A luta de raças estourou nas salas de aula, nas redes
sociais. Como aceitar que as bichas, as lésbicas, tenham direito a
adentrar como membros legítimos à sagrada família? A luta dos gêneros e
das sexualidades dissidentes ganhou vida, institucionalizou-se em
dezenas de Núcleos de Pesquisa nas universidades públicas. E um novo
termo passou a habitar a família das palavras abjetas das direitas:
gênero. Embora houvesse certo consenso da importância da formulação de
políticas públicas que pautavam temas inéditos, também se percebia o
pouco alcance destas políticas. Fazíamos um trabalho de pressionar o
executivo para avançar. Às vezes, no entanto, nos tornávamos Sísifos.
O que era mínimo para nós, pesquisadores/as e ativistas dos direitos
humanos, para os/as conservadores/as, era inaceitável. Cenas de madames
se recusando a sentar-se ao lado de uma pessoa negra em um avião, de
estudantes que negavam o direito de uma mulher trans usar o banheiro
feminino, da censura de exposições artísticas, tornaram-se rotineiras.
Não querem ter apenas o direito à universidade pública. O usufruto
deste direito só tem sentido se as pessoas negras e pobres não estiverem
no mesmo espaço. Não estamos diante do ódio ao pobre – o chamado “ódio
de classe” –, mas às pessoas negras, às feministas, às travestis, às
lésbicas, às bichas, a toda e qualquer diferença que polua os espaços
públicos.
O medo tem sido um recurso historicamente utilizado pelas direitas
para produzir adesões. Nas disputas pelo poder político institucional,
há outro dispositivo discursivo acionado pelas direitas: o da eficácia.
No poder institucional exigem-se níveis de conhecimento técnico que
apenas aqueles/as que estudaram possuem. Nada fascina mais o imaginário
social do que a crença de que um empresário bem-sucedido irá colocar
seus conhecimentos de gestão a serviço do Estado. Ou, ainda, quando os
tecnoburocratas são convocados para explicar (o verbo é sempre
“explicar”) que os dados da Previdência Social não fecham, sendo a
Reforma o único caminho para nos salvar do precipício. A GloboNews tem
sido um dos lugares privilegiados em transfigurar questões políticas em
técnicas.
Assim, embora haja considerável fragmentação nos setores que
operacionalizam o sistema CGRS, no sentido de manutenção de posições de
poder – sejam elas referentes à classe social, ao gênero, à raça ou à
sexualidade –, devemos perguntar: o que produziria a coesão deste
sistema? É necessário ver o conteúdo dos seus discursos (nos termos de
Michel Foucault), ou seja, o conjunto de enunciados que se apresentam
como verdade, com força suficiente para assegurar sua reprodução. Sugiro
que o medo – na dimensão dos valores morais – e o discurso da
eficiência – na esfera do Estado – são duas possíveis estratégias
discursivas acionadas pelas direitas que lhes asseguram, no âmbito da
fragmentação, certa coesão.
Assim, para entender e enfrentar as direitas não basta produzir uma
oposição entre ações universais (via classe social) e identidade.
Acionando o sistema CGRS pode-se entender, por exemplo, por que as
camadas sociais populares e periféricas, mesmo sem ter qualquer
esperança de ascenderem socialmente, tomam para si o discurso
antigênero. O medo de perder o poder de reproduzir as verdades que me
constituem, e que agora me vejo na tarefa de fazê-lo ganhar vida nas
vidas de meus/minhas filhos/as, produz desorganização nas famílias
porque faz o micropoder se deslocar.
Como aceitar que uma professora afirme que temos que respeitar gays,
lésbicas, travestis? Como suportar o questionamento de minha filha que
se nega a fazer a tarefa doméstica porque o irmão também não faz?
A politização do privado produz níveis de instabilidade emocional
vivenciados com angústia e medo. Nada é mais dramático do que a luta de
valores no âmbito da família. Muitas vezes, é mediante a violência que
se tenta silenciar as vozes dissonantes e se instaura uma crise ética
profunda neste espaço. Estes sentimentos, vazios politicamente, são
preenchidos de sentido por movimentos como a TFP, nos anos de 1960 e,
atualmente, pela Escola sem Partido e pelo MBL.
Manifestantes protestam no MAM em repúdio à apresentação do coreógrafo Wagner Schwartz no dia 30 de setembroTiago QueirozEstadão Conteúdo
Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas.
Observe a situação do país. Você acredita mesmo que a grande ameaça para
o Brasil – e para você – são os pedófilos? Ou os museus?
Quantos pedófilos você conhece? Quantos museus você visitou nos últimos
anos para saber o que há lá dentro? Não reaja por reflexo. Reflexo até
uma ameba, um indivíduo unicelular, tem. Exija um pouco mais de você.
Pense, nem que seja escondido no banheiro.
Seria fascinante, não fosse trágico. Ou é fascinante. E também é
trágico. No Brasil atual, os brasileiros perdem direitos duramente
conquistados numa velocidade estonteante. A vida fica pior a cada dia. E
na semana em que o presidente mais impopular da história recente se safou pela segunda vez de uma denúncia criminal,
desta vez por obstrução da justiça e organização criminosa, e se safou
distribuindo dinheiro público para deputados e rifando conquistas
civilizatórias como o combate ao trabalho escravo, qual é um dos principais assuntos do país?
A pedofilia.
Desde setembro, quando a mostra QueerMuseu – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira foi fechada, em Porto Alegre, pelo Santander Cultural, após ataques liderados por milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL),
arte, artistas e instituições culturais têm sido atacados e acusados de
estimular a pedofilia e/ou de expor as crianças à sexualidade precoce
no Brasil. Resumindo: enquanto os brasileiros têm seus direitos
roubados, uma parte significativa da população está olhando para o outro
lado. Ou, dito de outro modo: sua casa foi tomada por assaltantes de
dinheiro público e ladrões de direitos constitucionais, mas você está
ocupado caçando pedófilos em museus.
Conveniente, não é? E para quem? A resposta é tão óbvia que qualquer um pode chegar a ela sem ajuda.
Uma pergunta simples: por que os movimentos que ergueram a bandeira anticorrupção para derrubar Dilma Rousseff (PT), uma presidente ruim, mas que a maioria dos brasileiros elegeu, não estão fazendo nenhum movimento para derrubar Michel Temer
(PMDB), um homem que só se tornou presidente por força de um
impeachment sem base legal, ligado a uma mala de dinheiro e que tem como
um dos principais aliados outro homem, Geddel Vieira Lima (PMDB),
ligado a mais de 51 milhões de reais escondidos num apartamento?
Ou Aécio Neves (PSDB), que em conversa gravada pediu dois milhões de
reais a Joesley Batista, um dos donos da JBS, para pagar os advogados
que o defendem das denúncias da Operação Lava Jato?
Isso não é corrupção? Isso não merece movimento? Quem mudou? E por quê?
Responda você.
Outra pergunta simples: por que, em vez disso, parte destes
movimentos, que se converteu em milícia, criou um problema que não
existe justamente num momento em que o Brasil tem problemas reais por
todos os lados?
A não ser que você realmente acredite que o problema da sua vida, o
que corrói o seu cotidiano, são pedófilos em museus, sugiro que você
mesmo responda a essa pergunta. Eu vou buscar responder a algumas
outras.
1) Como criar monstros para manipular uma população com medo?
A criação de monstros para manipular uma população assustada não é
nenhuma novidade. Ela se repete ao longo da história, com resultados
tenebrosos, seguidamente sangrentos. Como muitos já lembraram, a Alemanha nazista
atacou primeiro exposições de arte. Os nazistas criaram o que se chamou
de “arte degenerada” e destruíram uma parte do patrimônio cultural do
mundo. E, mais tarde, assassinaram 6 milhões de judeus, ciganos,
homossexuais e pessoas com algum tipo de deficiência.
Dê um monstro a uma população com medo, para que ela o despedace, e
você está livre para fazer o que quiser. Mas hoje há uma diferença com
relação a outras experiências ocorridas na história: a internet. A disseminação do medo e do ódio é muito mais rápida e eficiente, assim como a fabricação de monstros para serem destroçados.
Mas a internet é uma novidade também em outro sentido, que está sendo
esquecido pelos linchadores: as imagens nela disseminadas estarão
circulando no mundo para sempre. A história não conheceu a maioria dos
rostos dos cidadãos comuns que tornaram o nazismo e o holocausto
uma realidade possível, apenas para ficar no mesmo exemplo histórico.
Eles se tornaram, para os registros, o “cidadão comum”, o “alemão médio”
que compactuou com o inominável. Ou mesmo que aderiu a ele.
Aqueles que hoje chamam artistas de “pedófilos”
se esquecem de que sua imagem e suas palavras permanecerão para sempre
nos arquivos do mundo
Hoje, no caso do Brasil e de outros países que vivem situação
parecida, o “cidadão comum” que aponta monstros com o rosto distorcido e
estimula o ódio não é mais anônimo e apagável. Ele está identificado.
Seus netos e bisnetos o reconhecerão nas imagens. Seu esgar de ódio
permanecerá para a posteridade.
Será interessante acompanhar como isso mudará o processo de um povo
lidar com sua memória. E com sua vergonha. Tudo é tão instantâneo e
imediato na internet, tão presente contínuo, que muitos parecem estar se
esquecendo de que estão construindo memória sobre si mesmos. Memória
que ficará para sempre nos arquivos do mundo.
2) Como criar uma base eleitoral para “botar ordem na casa” sem mudar a ordem da casa?
A fabricação de monstros é uma forma de controle de um grupo sobre
todos os outros. A escolha do “monstro” da vez é, portanto, uma escolha
política. O que se cria hoje no Brasil é uma base eleitoral para 2018.
Uma capaz de votar em alguém que controle o descontrole, alguém que
“bote ordem na casa”. Mas que bote ordem na casa sem mudar a ordem da
casa. Este é o ponto.
A escolha do “monstro” da vez é uma escolha política
Primeiro, derrubou-se a presidente eleita com a bandeira
anticorrupção. Mas aqueles com os quais esses movimentos se aliaram eram
corruptos que tornaram a mala de dinheiro uma referência ultrapassada,
ao lançar o apartamento de dinheiro. Personagens desacreditados,
políticos desacreditados, como então manter as oligarquias no poder para
que nada mude mas pareça mudar? Capturando o medo e o ódio da população
mais influenciável e canalizando-os para outro alvo.
A técnica é antiga e segue muito eficiente. Enquanto a turba grita
diante de museus (museus!), às suas costas o butim segue sendo dividido
entre poucos. Rastreia-se qualquer exposição cultural com potencial para
factoides, o que é bem fácil, já que o nu faz parte da arte desde a
pré-história, e alimenta-se o ódio e os odiadores com monstros fictícios
semana após semana. Aos poucos, a sensação de que o presente e o futuro
estão ameaçados infiltra-se no cérebro de cada um.
E é um fato. O presente e o futuro estão ameaçados no Brasil porque há menos dinheiro para saúde e educação, porque a Amazônia está sendo roubada
e porque direitos profundamente ligados à existência de cada um estão
sendo exterminados por um Congresso formado em grande parte por
corruptos. Mas como isso está deslocado, parece que a ameaça está em
outro lugar. Neste caso, na arte, nos artistas, nos museus. Com o ódio
deslocado para um monstro que não existe, homens que pregam e praticam
monstruosidades aumentam suas chances de serem eleitos e reeleitos e as
monstruosidades históricas seguem se perpetuando.
Com o ódio deslocado para um monstro que não existe, oprimidos votam em opressores acreditando que se libertam
É assim que se cria uma base eleitoral que vota para botar ordem na
casa, mas não para mudar a ordem da casa. É assim que oprimidos votam em
opressores acreditando que se libertam. É assim que se faz uma democracia sem povo – uma impossibilidade lógica que se realizou no Brasil.
3) Por que o “pedófilo” é o “monstro” perfeito para o momento político?
Por que o “pedófilo” e não outro? Esta é uma pergunta que vale a pena
ser feita. Há muitas respostas possíveis. Já se tentou – e ainda se
tenta – monstrificar muita gente. O aborto foi a moeda eleitoral da eleição de 2010
e os defensores do direito de as mulheres interromperem uma gestação
indesejada foram chamados de “assassinos de fetos”. Gays, lésbicas,
travestis, transexuais e transgêneros estão sempre na mira, como os
episódios homofóbicos e o assassinato de LGBTs nos últimos anos
mostraram. Feminismo e feministas, em algumas páginas do Facebook,
viraram palavrões.
A tentativa acaba de ser reeditada com os protestos contra a palestra da filósofa americana Judith Butler no SESC, em São Paulo. Ela participará do ciclo de debates intitulado Os fins da democracia,
entre 7 e 9 de novembro. Acusam-na, vejam só, de “inventar a ideologia
de gênero”. A vergonha alheia só não é maior porque quem tem um
presidente como Donald Trump é capaz de entender em profundidade tanto o oportunismo quanto a burrice.
Mas, se as tentativas de monstrificar pessoas são constantes, há
grupos organizados para defender os direitos das mulheres sobre o seu
corpo e para denunciar a homofobia e a transfobia. E estes grupos não
permitem mais a conversão de seus corpos em monstruosidades e de seus
direitos em monstruosidades. Nestes campos, há resistência. E ela é
forte.
Qual é, então, o monstro mais monstro deste momento histórico, o
monstro indefensável? O pedófilo, claro. Quem vai defender um adulto que
abusa de crianças? Ninguém.
Mas há um problema. Os pedófilos não andam por aí nem são uma
categoria. A maioria, aliás, como as estatísticas mostram, está dentro
de casa ou muito perto dela. Ao contrário de muitos que apontam o dedo
diante de museus, eu já escutei vários pedófilos reais como repórter.
E posso afirmar que são humanos e que a maioria sofre. E posso afirmar
também que uma parte deles foi abusada na infância. Posso afirmar ainda
que nem todos sofrem, mas todos precisam de ajuda. Ajuda que, aliás,
eles (e elas) não têm.
Como então criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Fabricando pedófilos. Espelhando-se em Hitler
e criando uma “arte degenerada”. Manipulando todos os temores ligados à
sexualidade humana. E manipulando especialmente uma ideia de criança
pura e de infância ameaçada.
Como criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Espelhando-se em Hitler e criando uma “arte degenerada”
A infância está, sim, ameaçada. Mas pela falta de investimento em educação e em saúde,
pela destruição da floresta amazônica e pela corrosão das fontes de
água, pela contaminação dos alimentos, pela destruição dos direitos que
não terão mais quando chegarem à vida adulta. São estas as maiores
ameaças contra as crianças brasileiras de hoje – e não falsos pedófilos
em museus.
As crianças e seu futuro, aliás, estão ameaçados porque há menos
museus do que deveria, menos centros culturais do que deveria e muito
menos acesso aos que ainda existem do que seria necessário. Estas são as
ameaças reais à infância deste momento do Brasil.
Nenhum dos artistas acusados de pedofilia ou de estimular a pedofilia é pedófilo. Mas quando provarem isso na justiça, caso dos que estão sendo investigados,
sua vida ou uma parte significativa dela já foi destruída. E quem se
responsabilizará pela destruição de uma vida humana? Quem se
responsabilizará pelo ataque à cultura, já tão maltratada neste país?
Você, que grita e aponta o dedo e o celular, fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelas vidas que destrói
Você, que grita e aponta o dedo e a câmera do celular, destruindo
vidas e fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelos seus
atos. Porque vidas humanas estão sendo destruídas de fato. E são as
daqueles que estão sendo acusados injustamente de serem o que a
humanidade definiu como “monstros”. E é a vida de todos nós que teremos
ainda menos acesso à cultura num país em que sobram muros e presídios,
mas faltam escolas, centros culturais e museus.
4) Por que manipular os tabus relacionados à sexualidade é uma forma eficiente de criar uma base eleitoral?
Como fazer para criar uma base eleitoral que vote naqueles que
acabaram de espoliá-la? Apele para a moralidade. Não há maneira mais
eficiente de fazer isso que manipular os temores que envolvem a
sexualidade. Os exemplos históricos são infinitos. Quem controla a
sexualidade controla os corpos. Quem controla os corpos controla as
mentes. Quem controla as mentes leva o voto para onde quiser. E também
arregimenta apoio para projetos autoritários.
De repente, uma parcela de brasileiros, incitada pelas milícias de
ódio, decidiu que a nudez humana é imoral. E fabricaram uma equação
esdrúxula: corpo adulto nu + criança = pedofilia. Pela lógica, se esse
pessoal fosse a Florença, na Itália, tentariam destruir a machadadas o
Davi de Michelangelo, porque ele tem pinto.
Quem controla a sexualidade, controla os corpos. Quem controla os corpo e as mentes, leva o voto para onde quiser
Não há registro de que as milhões de crianças que tiveram o
privilégio de ver a estátua ao vivo, levadas por pais ou por professores
em visitas escolares, tenham se sentido sexualmente abusadas ou tenham
vivido algum trauma. Mas há inúmeros registros de crianças traumatizadas
na infância pela repressão à sexualidade inerente aos humanos.
Crianças têm pênis, crianças têm vagina, crianças têm sexualidade. É
lidando de modo natural com essa dimensão da existência humana que se
forma adultos capazes de respeitar a sexualidade, o desejo e a vida do
outro. É conversando sobre isso e não reprimindo que se forma adultos
capazes de respeitar os limites impostos pelo outro na experiência
sexual compartilhada. É informando e não desinformando sobre essa
dimensão da existência humana que se forma adultos que não se tornarão
abusadores de crianças.
5) Por que a arte e os artistas são os alvos do momento?
A decisão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) tomou, de proibir a exposição Histórias da Sexualidade,
aberta em 20 de outubro, para menores de 18 anos, é uma afronta à arte –
e uma afronta à cidadania. É compactuar com o oportunismo das milícias
de ódio. É aceitar que nudez e pornografia são o mesmo. É destruir a
ideia do que é uma exposição de arte. E é, principalmente, abdicar do
dever ético de resistir ao obscurantismo. Do mesmo modo, foi abjeta a
decisão do Santander Cultural de encerrar a exposição Queermuseu depois dos ataques.
Os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o
pior acontece pelas concessões e recuos de instituições que têm a
obrigação de resistir
Que uma turba incitada por milícias de ódio ataque exposições de arte
é lamentável. Mas que as instituições se dobrem a elas é ainda pior. A
resistência é necessária justamente quando é mais difícil resistir. É
pelas fissuras que se abrem, pelas concessões que são feitas, pelos
recuos estratégicos que os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o
pior acontece. Também isso a história já mostrou. Não é hora de se
dobrar. É hora de riscar o chão e resistir.
Por que a arte e os artistas? Esta é uma pergunta interessante. Mesmo
que isso não seja óbvio para todos, é a arte que expande a nossa
consciência mais do que qualquer outra experiência, justamente por
deslocar o lugar do real. Ao fazer isso, ela amplia a nossa capacidade
de enxergar além do óbvio – e além do que nos é dado a ver. Não há nada
mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos
sobre muitos do que a arte.
A arte é o além do mundo que, depois de nos tirar do lugar, nos
devolve ao lugar além de nós mesmos. Somos, a partir de cada
experiência, nós e além de nós. Esta é uma vivência transgressora e à
prova de manipulações. E esta é uma vivência profundamente humana, como
mostram as pinturas encontradas nas cavernas deixadas por nossos
ancestrais pré-históricos. Por isso não é por acaso que regimes de
opressão começaram com ataques contra a arte e os artistas.
Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte
Ao literalizar a arte, interpretando o que é representação como
realidade factual, assassina-se a arte. Quando Salvador Dalí faz um
relógio derretido em uma paisagem de sonho, ele não está afirmando que
relógios derretidos existem daquela maneira nem paisagens como aquela
podem ser vistas no mundo de fora, mas está invocando outras realidades
que nos habitam e que vão provocar reflexões diferentes em cada pessoa.
Literalizar a arte é uma monstruosidade que tem sido cometida contra
obras e artistas desde que o cotidiano de exceção se instalou no Brasil.
O outro motivo é mais prosaico. Artistas podem ser muito populares e
influenciadores do momento político. A admiração pela obra seguidamente é
transferida para a pessoa. E por isso essa pessoa, quando fala e opina,
é ouvida. É nesta chave que pode ser compreendida a tentativa de
destruição de Caetano Veloso, acusando-o de pedofilia por ter tido relações sexuais com sua mulher, Paula Lavigne, quando ela tinha 13 anos.
Essa história é conhecida há décadas, pela voz da própria Paula. Mas
só agora despontou colada a uma acusação de pedofilia. Caetano Veloso é
um dos artistas que mais se posiciona politicamente no Brasil atual.
Recentemente, foi Paula Lavigne que liderou uma reação dos artistas
a um dos ataques de Temer e da bancada ruralista contra a floresta
amazônica. Minar a influência de ambos, assim como a sua vontade de se
posicionar e manifestar-se por medo de mais ataques, é uma estratégia.
Afinal, quem ouviria a opinião política ou as denúncias feitas por um
“pedófilo”? Por mais que se lute, e poucos têm tantas condições de
resistir como Caetano Veloso e Paula Lavigne, uma acusação deste porte
costuma deixar marcas internas.
6) Quem são os políticos e as religiões que se aliam aos fabricantes de pedófilos com o olhar fincado em 2018?
Quando o momento mais agudo da disputa passar, se passar, haverá
muitos mortos pelo caminho. Em especial os invisíveis, aqueles que terão
medo de tocar nos próprios filhos pelo temor de serem acusados de
pedofilia, os professores que optarão por livros sem menções à
sexualidade para não correrem o risco de serem linchados por pais
enlouquecidos e demitidos por diretores pusilânimes, as pessoas que cada
vez mais têm medo de se contrapor à turba, os artistas que preferirão
não fazer. E os que deixarão o Brasil por não suportar os movimentos
brasileiros livres de inteligência ou temerem por sua vida diante dos
odiadores. As marcas invisíveis, mas que agem sobre as funduras de cada
um, são as piores e as mais difíceis de serem superadas.
Quando a gente via no cinema as turbas enlouquecidas assistindo às
execuções medievais como se fossem uma festa, gritando por mais sangue,
mais sofrimento, mais mortes, era possível pensar que algo assim já não
seria possível depois de tantos séculos. Mas mesmo que as fogueiras
(ainda) não tenham sido acesas, o que se vive hoje no Brasil é muito
semelhante.
Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos quanto as bruxas eram bruxas
Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos
quanto as bruxas eram bruxas. E as fogueiras começam na internet, mas se
alastram pela vida. Há muitas formas de destruir pessoas. A crueldade é
sempre criativa. E as milícias já deixaram um rastro de devastação.
Vale tudo para cumprir o propósito de limpar o campo político para 2018.
Para isso, contam menos com a ala conservadora da Igreja Católica e
mais com parte das igrejas pentecostais e neopentecostais, com o
fenômeno que se pode chamar de “fundamentalismo evangélico à brasileira”
e sua crescente influência política e também partidária. Quem acompanha
grupos de WhatsApp
dos fieis fundamentalistas recebe dia após dia vídeos de pastores
falando contra a arte e a pedofilia. A impressão é que o Brasil virou
Sodoma e Gomorra e que um pedófilo saltará sobre seu filho, neto ou
sobrinho assim que abrir a porta da casa. Grande parte destas pessoas – e
isso não é culpa delas – jamais teve acesso a um museu ou a uma
exposição de arte.
As articulações que estão sendo feitas para 2018 são cada vez mais
fascinantes, não fossem assustadoras. Na apresentação do artista Wagner
Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), realizada em 26 de
setembro, o coreógrafo fazia uma interpretação de Bicho, uma
obra viva de Lygia Clark, constituída por uma série de esculturas com
dobradiças que permite que as pessoas saiam do lugar de espectadoras
passivas e se tornem parte ativa da obra. Nesta leitura de Bicho,
que resultou em ataques de ódio, o coreógrafo, nu e vulnerável, podia
ser tocado e colocado em qualquer posição pela plateia. Um vídeo
divulgado pela internet mostrando uma criança tocando o performer,
devidamente acompanhada por sua mãe, foi o suficiente para protestos de
ódio. O artista foi chamado de “pedófilo” – e o museu foi acusado de
incentivar a pedofilia.
Observe bem os dois políticos que se alçaram a
protetores das crianças brasileiras ameaçadas pela arte: João Doria
(PSDB) e Jair Bolsonaro (PSC)
Vale a pena observar quem foram os dois candidatos a presidenciáveis
que se manifestaram por meio de vídeos divulgados na internet: João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro
(PSC). Doria, que gosta de posar como culto e cidadão do mundo, mostrou
mais uma vez até onde pode chegar em sua luta pelo poder. Classificou a
coreografia como “cena libidinosa”. Afirmou que a performance “fere o
Estatuto da Criança e do Adolescente e, ao ferir, ele está cometendo uma
impropriedade, uma ilegalidade, e deve ser imediatamente retirado, além
de condenado”. E aplicou o bordão: “Tudo tem limites!”.
Doria, o protetor das crianças brasileiras, dias atrás anunciou (e depois das críticas recuou momentaneamente) que incluiria um “alimento” feito com produtos próximos do vencimento na merenda escolar das crianças de São Paulo.
Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército e em segundo lugar nas
pesquisas de intenção de voto para 2018, vociferou: “É a pedofilia!”.
E, em seguida: “Canalhas! Mil vez canalhas! A hora de vocês está
chegando!”. Justamente ele, que não se cansa de repetir que o general
Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos assassinos da ditadura, é o seu
herói.
Ustra, apenas para lembrar de um episódio, levou os filhos de Amélia
Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada.
Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus
filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que
você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos
aplicados em todo o seu corpo e também nos genitais. Este é o farol de
Bolsonaro, o protetor das crianças brasileiras.
7) Como parte do empresariado nacional se articula com os ataques à arte enquanto apoia o retrocesso em nome do lucro?
Nenhuma distopia foi capaz de prever o Brasil atual. Parte da
explicação pode ser encontrada no artigo de Flávio Rocha, presidente do
Riachuelo, um dos principais grupos do setor têxtil do país, e
vice-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV),
publicado na página de Opinião do principal jornal brasileiro,
em 22 de outubro. No texto, intitulado “O comunista está nu”, o
empresário ressuscita a ameaça do comunismo, discurso tão presente nos
dias que antecederam o golpe civil-militar de 1964, que mergulhou o
Brasil numa ditadura que durou 21 anos. O empresário escreveu este
texto, vale lembrar, num Brasil tão à direita que até a esquerda foi
deslocada para o centro. Diz este expoente da indústria nacional:
“O movimento comunista vem construindo um caminho que, embora
sinuoso, leva ao mesmo destino: a ditadura do proletariado exaltada pelo
marxismo. (...) Nas últimas semanas assistimos a mais um capítulo dessa
revolução tão dissimulada e subliminar quanto insidiosa. Duas
exposições de arte estiveram no centro das atenções da mídia ao
promoverem o contato de crianças com quadros eróticos e a exibição de um
corpo nu, tudo inadequado para a faixa etária. (...) São todos tópicos
da mesma cartilha, que visa à hegemonia cultural como meio de chegar ao
comunismo. Ante tal estratégia, Lênin e companhia parecem um tanto
ingênuos. À imensa maioria dos brasileiros que não compactua com
ditaduras de qualquer cor, resta zelar pelos valores de nossa
sociedade”.
A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo
A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite
econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo. É também
parte da explicação da face mais atrasada do Brasil. É ainda um
constrangimento, talvez uma falha cognitiva. Mas certo tipo de
empresário está aí, pontificando em arena nobre. Sem esquecer jamais que
a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) de Paulo Skaf
apoiou diretamente os movimentos que lideraram as manifestações pelo
impeachment de Dilma Rousseff , tornando-se uma das principais
responsáveis pela atual configuração do governo corrupto que está no
poder.
Há algo interessante sobre Flávio Rocha, esse personagem amigo de João Doria e, como o prefeito de São Paulo, apoiado pelo MBL. Como mostrou reportagem da Repórter Brasil,
uma das fontes sobre trabalho escravo mais respeitadas do país, o grupo
Riachuelo tem sido acusado nos últimos anos por abusos físicos e
psicológicos de trabalhadores. Flávio Rocha, como já demonstrou, é um
dos interessados em “flexibilizar” a legislação e a fiscalização. Para
isso, conta com o apoio do MBL, que chegou a convocar um protesto contra
o Ministério Público do Trabalho em Natal, no Rio Grande do Norte.
Em 16 de outubro, o governo Temer publicou uma portaria, claramente
inconstitucional, que reduz os casos que podem ser enquadrados em
trabalho escravo. O problema é gravíssimo no Brasil, que ainda convive
com situações de escravidão contemporânea. Hoje, a portaria está temporariamente cassada por liminar concedida pela ministra Rosa Weber,
do Supremo Tribunal Federal, a pedido do partido Rede Sustentabilidade.
Restringir o combate à escravidão foi parte do pagamento de Michel
Temer aos deputados que o absolveram na semana passada e às oligarquias
que representam. Estes “liberais” querem voltar a escravizar livremente.
E estão conseguindo.
Mas, claro, o problema do Brasil são os pedófilos em museus. E, como o
presidente do grupo Riachuelo tem a gentileza de nos alertar, a volta
dos comunistas que comem criancinhas.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook:@brumelianebrum