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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

"Coletes Amarelos" na França: a revolução não será televisionada! sábado, dezembro 08, 2018 Wilson Roberto Vieira Ferreira.


Até aqui a grande mídia passa batida para “o déjà vu” dos protestos dos “coletes amarelos” na França: em 2013 as chamadas “Jornadas de Junho” no Brasil foram narradas da mesma maneira como hoje noticiam os protestos franceses – “espontâneos”, “apartidários” e que “começam de forma pacífica, mas que acabam tendo atos de vandalismo...”. Também como em 2013, surgem analistas que veem “o novo” na Política ou “quebra do monopólio da narrativa midiática”. Aqui no Brasil vimos no que deram as Revoluções Populares Híbridas. Na Europa estão sincronicamente conectadas com o tour de Steve Bannon (ex-assessor da campanha de Trump) pelo continente para unificar a direita num “movimento internacional de nacionalistas”. Os “coletes amarelos” são icônicos e as câmeras os amam, saturando de significados suas fotografias e vídeos. A revolução não será televisionada:  a mídia não está relatando o que as pessoas fazem; relatam apenas o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia para o Capitalismo dar um novo salto – o populismo de direita.

“O protesto dos coletes amarelos, que surgiu de maneira espontânea nas redes sociais contra o alto preço dos combustíveis, começou de forma pacífica, mas acabou tendo atos de vandalismo e violência...”. Variações dessa frase estão presentes em matérias jornalísticas na TV, portais da Internet e jornais, nos relatos sobre as manifestações dos “coletes amarelos” na França - movimento de protesto contra o imposto sobre o combustível, taxa ecológica defendida pelo presidente francês Emmanuel Macron.
Caro leitor, esse excerto narrativo, recorrente na grande mídia ao noticiar a atual onda de protestos na França, não lembra nada? Será que o leitor não tem uma estranha sensação de déjà vu diante das fotos dos chamados coletes amarelos, em poses black bloc, mascarados e desafiadores?  
São imagens e relatos noticiosos que imediatamente nos fazem lembrar as “jornadas de junho” de 2013 no Brasil. Claro, o cenário é bem diferente: das ruas e avenidas brasileiras para as emblemáticas ruas de Paris.

“Flash mobs” ou Guerra Híbrida?

Um movimento com marca icônica (“coletes amarelos”), surgido de forma “espontânea”, convocado nas redes sociais como fosse flash mobs, supostamente apartidário, pacífico. Mas que, repentinamente, saltam não se sabe de onde black blocs (dessa vez com o doce sabor retro dos protestos estudantis de maio de 1968 na França) que quebram, picham, incendeiam, apanham da polícia e fazem poses desafiadoras para a primeira câmera (celulares não valem!) de um cinegrafista de grande mídia mais próximo. 
Brasil, 2013; França, 2018 - o mesmo script midiático
Os protestos que explodem nesse momento na França têm todos os elementos daquilo que é denominado Revolução Popular Híbrida (RPH), parte da estratégia da Guerra Híbrida tal como definida pelo pesquisador Andre Korybko, Conselheiro do Institute for Strategic Studies e jornalista da Sputnik News:
As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime ( “Agentes externos provocaram uma guerra híbrida no Brasil, diz escritor”, Brasil de Fatoclique aqui).
Para ele, a dinâmica das RPH é provocar um “caos administrado” para criar grandes movimentos de protesto que podem então ser cooptados e dirigidos para determinados fins políticos.
Até aqui, de um lado a grande mídia e, do outro, a mídia alternativa, não conseguiram ou não se interessaram em entender como os “coletes amarelos” se articulam com a geopolítica do Departamento de Estado norte-americano. Inclusive, muitas análises mais apressadas começam a incorrer nas mesmas avaliações ingênuas idênticas a que cercaram as “jornadas de Junho no Brasil: uma “rebelião peculiar”, “movimento espontâneo”, “rebelião contra Macron que favorece apenas os mais ricos” e assim por diante sempre dentro do raciocínio maniqueísta – a luta do Bem contra o Mal.
Assim como em 2013, começam as avaliações apressadas de que se trata da “insatisfação da população periférica” cujos partidos, sindicatos ou canais institucionais ou de representação política não conseguiriam dar expressão. E toca a se insinuar que há por trás de tudo o chamado “novo” na Política.
A verdade é que em todas essas manifestações há um, por assim dizer, doce sabor de “anarco-capitalismo”: movimentos “espontâneos”, sem lideranças da carcomida Política e sindicatos, sempre contra impostos e o Estado que insiste em incomodar a liberdades das ambições individuais.
E a grande mídia parece estar à espera desses protestos, sempre com um script pronto.


Protestos iconoclatas

Olhando o conjunto dos vídeos e fotografias dos protestos franceses, é inegável que em todas elas há um quê de fotogenia e telegenia – parecem escolhidas à dedo, saturadas de significados (o black bloc cuja máscara é própria a bandeira francesa, o manifestante parado solitário em frente ao Arco do Triunfo pichado, mulheres se abraçando desesperadas – uma delas com uma pequena bandeira nacional tapando a boca – diante do avanço da polícia de choque etc.), a impressão de violência coreografada lembrando as investidas da gangue de Alex no filme Laranja Mecânica, poses desafiadoras de manifestantes tendo ao fundo chamas e grossos rolos de fumaça negra e muitos personagens em contra luz, perfis humanos colocado em frente a incêndios.
Como sempre, toda RPH tem que ser icônica: Revolução Verde (Irã), Revolução Laranja (Ucrânia), Primavera Árabe (Egito, Tunísia, Síria, Líbia), Umbrella Revolution (Hong Kong). E, claro, transformar-se em verbetes da Wikipedia: “Yellow Vests Movement” ou “Gilets Jaune Protests”, “O Movimento dos Coletes Amarelos” etc. Uma autêntica e profissional estratégia de branding.
E ainda análises, como a da socióloga Angelina Peralva, veem nesses movimentos um fenômeno de “quebra do monopólio da mídia institucional sobre as narrativas políticas...” (clique aqui). Pelo contrário: certamente a revolução jamais será televisionada! Uma verdadeira revolução não é fotogênica ou telegênica – será irruptiva o suficiente para câmeras e cinegrafistas fugirem sob as ordens de uma grande mídia em pânico.

Muito além dos ícones

É sincrônico que Steve Bannon, ex-assessor da campanha vitoriosa do presidente Trump e atual líder de um projeto para “unificar a direita” em toda Europa, estivesse na França no primeiro semestre, quando foi o astro da abertura do congresso do partido francês de direita Frente Nacional. Lá, Bannon defendeu um “movimento internacional de nacionalistas” e descreveu o “Estado-Nação como uma joia que deve ser polida, desejada e cuidada”. E completou: “estamos cheios de globalistas!”.

Steve Bannon em campanha européia pela unificação da direita anti-globalista

Por que voltar-se contra Macron? Afinal, ele não é o queridinho dos defensores da mão de ferro das medidas neoliberais do “Estado Mínimo”? E muito menos pretende, como ousaram os governos petistas no Brasil, projetos de infraestrutura multipolares, desafiando o eixo Norte/Sul e a geopolítica (petrolífera e financeira) norte-americana com os BRICS.
O problema é que desde a falência em 2008 do banco de investimentos Lehman Brothers que desencadeou a maior crise do capitalismo desde 1929 numa reação em cadeia que fez a Zona do Euro derreter, o pacto liberal social-democrata (que até incorporou a esquerda) começou a ruir, principalmente na Europa Ocidental.
Depois de três décadas de destruição do Estado Social e de todos os mecanismos que garantiam a possibilidade de ascensão social, destruição sistemática dos direitos sociais, das garantias em Saúde e Educação (tudo em nome de supostos direitos individuais do livre mercado, competição e empreendedorismo), o que restou foi um rastro de isolamento das pessoas, demonização da política e de instituições - como sindicatos e partidos que davam voz a muitos setores da sociedade.
O novo populismo de direita, representado pela vitória de Trump nos EUA e a cruzada anti-globalista e nacionalista de Steve Bannon posam de anti-stablishment ao querer representar essa frustração generalizada dos excluídos da globalização - as camadas pobres e médias da população. 
Agora, mais "coletes amarelos se espalham pela Europa: Suécia, Bélgica, Holanda, Alemanha. Com pautas de extrema-direita como, por exemplo, protestos contra o acordo de migração anunciado pela ONU - clique aqui.
Mas essa aparência antissistêmica é apenas uma simulação, estratégia dissuasiva para o capitalismo em crise dar um novo salto: depois de décadas de globalização e políticas neoliberais de pilhagem (da banca financeira) e desmontagem do Estado de Bem estar Social, a engenharia social volta-se para as estratégias de criação da RPH: destruir o pacto liberal que impulsionou a Globalização para, nas palavras de Korybko citadas acima, trocar ou reorganizar o regime.

"Coletes Amarelos" com pauta de extrema-direita se espalham pela Europa

O sistema cria sua própria oposição

Como o diretor Gus Van Sant mostrou magistralmente no filme Terra Prometida (Promised Land, 2015), o Capitalismo sabe jogar dos dois lados: situação e oposição. Como sempre na História recente, a direita sempre se antecipa à esquerda, simulando uma oposição a partir da própria frustração que o sistema gerou.
Cria sua própria oposição para reorganizar o sistema em um outro nível. Dessa vez o retorno nostálgico do nacionalismo combinado com um Estado fascista e policial, dando voz e representatividade a uma massa frustrada e ressentida sob os escombros do Estado de Direito e da social-democracia.
Assustada, a esquerda (que fazia parte do velho pacto da democracia representativa) assiste à irrupção das RPHs como a dos “coletes amarelos”, cuja explosão de revolta passa ao largo dos canais institucionais de representação, como, por exemplo, as greves lideradas por sindicatos. 
Se no Brasil as Jornadas de Junho de 2013 abriram o caminho para o impeachment de Dilma Rousseff e à chegada da extrema direita ao poder com Jair Bolsonaro, na França um porta voz dos “gilets jaunes”, Christophe Chalençon, declarou à rádio Europe 1 que ele veria “com gosto” um “general de Villers” (Pierre Villers, general que se afastou das Forças Armadas em 2017 após criticar Macron) como chefe de governo.


Um gigantesco “Efeito Heisenberg”

Até aqui as RPHs foram criadas nas diversas “Primaveras Coloridas” que rodaram o mundo como um laboratório de pesquisas antropológicas, sociológicas e psicométricas que conseguiram precisar os pontos fracos das sociedades para perturbar o status quo e manipular desestabilizações – produzir o maior efeito com o mínimo esforço.
Com os “Coletes Amarelos” assistimos a uma nova etapa: troca e reorganização de regimes cooptando a frustração e o ressentimento de massas vitimadas pela aventura da globalização e financeirização que destruíram direitos e garantias sociais. Agora, coopta-se essa raiva como um movimento antissistema. É o paradoxo da manutenção do sistema criando a própria oposição que simula querer destruir o sistema.
Daí porque as câmeras de TV parecerem amar os coletes amarelos e como estes coreografam tão bem diante delas. Não tenham dúvida que uma revolução real jamais será televisionada. Por isso, tudo que assistimos nada mais é do que um gigantesco “Efeito Heisenberg” (sobre esse conceito clique aqui): a mídia não está relatando o que as pessoas fazem; relatam apenas o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A estrela de Macron começa a perder o brilho?, por Milagros Pérez Oliva.

STEPHANE MAHE REUTERS
A súbita queda de popularidade acendeu todos os alarmes de uma presidência sustentada pela comunicação.

Estaria Emmanuel Macron perdendo o estado de graça após três meses de sua chegada ao Palácio do Eliseu? Uma pesquisa do instituto Ifop mostrou esse sinal de preocupação no governo. Realizada entre 17 e 22 julho, a sondagem constatou uma perigosa queda de 10 pontos em apenas um mês. O grau de aceitação do jovem presidente passou de 64% a 54%, e isso que ainda não lançou suas medidas mais polêmicas, como a reforma trabalhista ou as mudanças de status de aposentados e funcionários. É a segunda maior queda de popularidade nos primeiros cem dias de mandato de um presidente, depois da sofrida por Jacques Chirac em 1995, e talvez esta coincidência não seja uma casualidade.

Tanto Chirac quanto Macron se beneficiaram de uma concentração inusual de votos emprestados para frear a ameaça ultra direitista dos Le Pen. Os analistas políticos comentam agora os sinais demográficos, tentando entender se é o caso de uma volta ao princípio de realidade ou se, pelo contrário, a erosão de Macron se deve a uma nova característica, mais peculiar e imprevisível, dos novos tempos: a absoluta volatilidade dos estados de ânimo e das preferências dos cidadãos.

Os recentes casos de corrupção afetaram sua equipe, o conflito com um Exército que reclama pela falta de melhores condições como em outros tempos, ou a inquietude pelas reformas anunciadas podem ter algum peso nessa queda de Macron. Se for assim, tudo pode piorar quando a parte dura do programa comece a ser aplicada. Mas o próprio diretor do Ifop, Jérôme Fourquet, se pergunta se a queda tem a ver com uma presidência baseada na comunicação. Ninguém discute a capacidade de Macron neste aspecto. Sem essa habilidade, por muitas que sejam as circunstâncias favoráveis, não se explica que alguém que era praticamente desconhecido há três anos pudessem ser hoje o presidente mais jovem da França. Embora ele tenha méritos dialéticos, e muitos recordam sua intervenção no debate eleitoral, no qual afundou Marine Le Pen ao mostrar que era uma candidata que se atrevia a falar de temas que não conhecia totalmente, em especial a economia.

A campanha de Macron se baseou numa combinação deliberadamente ambígua de mensagens que visavam debilitar o fenômeno Le Pen e fazer com que muitos pudessem votar por ele por diferentes razões. Inclusive opostas. Tudo foi minuciosamente estudado para cultivar as emoções positivas e levar a imagem idílica de uma França forte e confiante até o máximo. Seus primeiros passos no Eliseu também foram orientados a projetar sua figura de jovem presidente-imperador repleto de entusiasmo juvenil, como mostrou recentemente em Barcelona o cineasta Costa Gravas. O diretor provavelmente mais politizado da cinematografia francesa não esconde sua admiração por Macron e sua habilidade para conectar com esse espírito tão disseminado do “francês que quer ser revolucionário sem deixar de ser burguês”. Mas a equação pode se romper quando muitos se vejam na iminência de perder o bem-estar e as seguranças burguesas em detrimento da modernidade líquida que Macron encarna. O tempo dirá.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Congratulações, Presidente Macron. Agora estamos na oposição, Yanis Varoufakis.




Yanis Varoufakis*Loic Venance/AFP
Antes do segundo turno das eleições presidenciais francesas, o “DiEM25” (um movimento pan-europeu de democratas, a maioria da esquerda que ajudei a fundar) prometeu a Emmanuel Macron que nós nos “mobilizaríamos ao máximo para ajuda-lo”  derrubar Marine Le Pen. E o fizemos – e incorrendo na indignação de muitos à esquerda – porque manter uma “igual distância entre Macron e Le Pen”, nos parecia “inexcusável”.

Mas havia uma segunda parte de nossa promessa a Macro: se ele “se tornasse outro mero funcionário do ‘establishment’ profundo da Europa”, perseguindo caminhos sem saída e o neoliberalismo já falido, nós nos “oporemos a ele com não menos energia que estávamos nos opondo a Le Pen”. Aliviados com a vitória de Macron, e orgulhosos de nosso apoio claro a ele, precisamos agora cumprir a segunda parte de nossa promessa. E sem período de “lua de mel”: precisamos nos opor a Macron imediatamente. Aqui as razões.

O programa eleitoral de Macron deixou clara sua intenção de continuar com as políticas que começaram a ser introduzidas quando ele era ministro da economia do Presidente François Hollande. Tendo conversado muitas vezes com ele sobre estas políticas, não tenho dúvida de que ele acredita nelas piamente. Ele segue a tradição antiga de culpar as restrições legais pela demissão de trabalhadores, pela queda no emprego permanente e a emergência de uma nova divisão entre empregados protegidos e precários – entre incluídos, com postos bem pagos e posições quase estáveis e os excluídos, que trabalham como fornecedores de serviços sem benefícios e contratos frequentemente de “hora-zero”. Sindicatos e a esquerda, de acordo com essa visão, são atualmente as forças conservadoras, porque eles defendem os interesses dos “incluídos”[1] enquanto ignoram a condição do exército crescente de “excluídos”[2].

Para Macron, um progressista genuíno precisa não apenas apoiar as reformas que fortalece os direitos dos empregadores para demitir e gerenciar os trabalhadores; é igualmente importante que aumente a seguridade social para aqueles que perdem seus empregos, treinando-os em novas qualificações e os incentivando a aceitar os novos trabalhos.

A ideia é simples: Se os empregadores têm mais controle sobre quanto pagarem e quanto irá durar o emprego de seus trabalhadores, eles irão contratar mais empregados sob condições de contrato normais. E a rede de segurança social ampliada assegurará aos trabalhadores com as qualificações adequadas estarão disponíveis.

Não há, de fato, nada de novo nesta ideia. Conhecida com o neologismo “flexiguridade”[3], ela foi implementada com algum sucesso na Dinamarca e outros países escandinavos nos anos 90. Mas “flexiguridade” está destinada a ser um grande fracasso na França, fortalecendo ainda mais os nacionalistas xenofóbicos de Le Pen, porque ele apenas pode funcionar num ambiente macroeconômico liderado pelo investimento. Aliás, este não é o ambiente que o novo presidente francês está herdando.

Na França de hoje, o investimento em capital fixo, em relação à renda nacional, está no nível mais baixo em décadas e continua caindo. Isto reforça as expectativas deflacionistas que implicam, se as demissões forem facilitadas, em rápida redução dos empregos permanentes e posições de emprego de tempo integral. Em resumo, ao invés de melhorar a divisão entre incluídos e excluídos, a legislação trabalhista de Macron aprofundará a divisão ainda mais.

A maior dificuldade de Macron será a mesma de Hollande: lidar com os alemães. O governo alemão – e consequentemente o eurogrupo dos ministros das finanças da Eurozona, que a Alemanha domina – nunca perderá a oportunidade de punir a França por sua fracasso em trazer o déficit orçamentário do governo abaixo do limite combinado dos 3 % do PIB.

Macron prometeu alcançar esse valor demitindo funcionários públicos, cortando gastos governamentais e elevando os impostos indiretos que, em última instância, atinge os mais pobres. Em qualquer economia afligida por investimentos baixos e cadentes, cortar despesas governamentais e elevar impostos indiretos leva ao enfraquecimento da demanda, confirmando as expectativas negativas que previnem os investidores de investir e dando outra girada à roda deflacionária.

E se isso não for suficiente. Macron prometeu reparar uma injustiça que ele crê afeta os franceses de baixa renda, mas ricos em ativos: ele propõe a redução de impostos na riqueza e em ativos que não geram rendas acima de um certo patamar. Assim como com a “flexicuridade”, há uma lógica aqui: taxar ativos que não geram rendas faz pouco sentido do ponto de vista econômico, político ou ético.

Ainda assim, para reduzir os impostos sobre a riqueza antes de fechar brechas tributárias que permitem que o ricos em rendimentos (que frequentemente são também os ricos em patrimônio) paguem sua parte no imposto de renda faz pouco sentido; Para faze-lo, enquanto se pratica a austeridade sobre o pobre, é praticar um ato de vandalismo em uma sociedade já dividida.

Macron entende a insensatez em fundações da eurozona. E ele prometeu trabalhar incansavelmente para convencer a Alemanha que a Europa necessita criar rapidamente uma adequada unificação bancária, um seguro desemprego comum, um mecanismo de reestruturação dos débitos de países como a Grécia e Portugal, um adequada estrutura de finanças federalizada, Eurobonds (que opere como o Tesouro norte-americano) e um parlamento federal que legitime a autoridade do Tesouro federal.

Assim, o que fará Macron quando a Alemanha disser nein? De fato, os alemães o fizeram até agora. De acordo com Wolfgang Schäube, o ministro das finanças alemão, toda a Europa precisa agora de se converter o Mecanismo de Estabilidade Europeu em Fundo Monetário Europeu. Em outras palavras, se a França quer constituir um fundo financeiro conjunto, ela precisa se submeter às mesmas condicionalidades da combalida Grécia. Martin Schultz, o líder da oposição social democrata, concorda que nenhuma instituição fiscal é necessária, e propõe apenas que a França e a Alemanha conjuntamente financiem alguns projetos comuns de investimento. Em outras palavras, neiné nein.

Hollande, antes que nos esqueçamos, também ganhou a presidência francesa prometendo desafiar a Alemanha na política macroeconômica da Eurozona – e então abandonou rapidamente a luta. Se Macron quiser ser bem sucedido, ele precisará de uma posição de retorno confiável e uma estratégia na Europa que possa ser perseguida sem a anuência da Alemanha. Tal plano não está em evidência. Tudo o que vemos é uma pronta disposição para cumprir antecipadamente qualquer demanda da Alemanha, o que inclui a “flexiguridade”, austeridade e por aí afora, na esperança de que a Alemanha então concorde com algumas reformas na eurozona, antes que seja tarde demais.

Muita gente razoável entendeu que Macron deveria ser apoiado contra Le Pen. Agora eles entendem que as políticas de Macron vão piorar o ciclo regressivo, deflacionário que é o grande aliado de Le Pen. Com a eleição encerrada, se opor a Le Pen significa se opor a Macron.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Qual a herança da Revolução Francesa?, por Lincoln Secco

Seria ainda possível uma ideologia capaz de amalgamar um “povo” em qualquer grande país da Europa? E se for possível, estaria ela no repertório de valores de 1789?


lincoln revol

Por Lincoln Secco.

A Revolução Francesa finalmente acabou. Ao menos para os intelectuais e políticos (socialistas ou conservadores) que outrora a invocavam no hexágono francês em nome da République. Já faz algum tempo, é verdade.
Em 1889 a burguesia francesa se deixou liderar por uma ala republicana, particularmente depois da aventura do ex-ministro da Guerra General Boulanger que tentara fazer o seu Coup d’État.1
O chamado boulangismo provocou a resistência republicana e condicionou a transformação da Revolução Francesa numa espécie de mito fundador da Terceira República.

Ideia de Revolução

A maioria dos homens e mulheres daquela época concordavam com uma certa ideia da Revolução. E fundamentalmente acordavam entre si que um processo revolucionário de importância europeia, talvez mesmo mundial, havia acontecido na França, independentemente da visão que tinham dele.
As bases daquele “acordo” haviam sido assentadas não por socialistas, mas por liberais. Thiers, Guizot, Mignet e a impressionante Madame de Stäel-Holstein, uma aristocrata que mantinha um círculo de pensadores ao seu pé, aceitaram o processo como um bloco.
Mignet, por exemplo, revelou que o sujeito daquele processo tinha que ser a classe média (entenda-se: a burguesia). Mas para se manter, ela precisou mobilizar o povo e este reivindicou para si o governo. Eis a chave que abre a porta à explicação do terror. O papel atribuído aos jacobinos era o de destruir o Antigo Regime. O de Napoleão Bonaparte era erguer a nova sociedade diante de uma Aristocracia estabelecida que se ria do parvenu e de sua nobreza fake.
Esse era, grosso modo, o modelo de explicação histórica construído no período da Restauração (1815-1830). Ele foi herdado por Marx, pela esquerda jacobina do século seguinte e pelos comunistas.
É verdade que entre os marxistas houve extenso debate sobre ele e em geral eles deixaram o individualismo burguês e os direitos humanos em segundo plano2. Não se apropriaram de fato da Revolução Francesa. Eric Hobsbawm em seu livro Ecos da Marselhesa diz explicitamente que os marxistas mais retiraram do que deram àquele modelo de explicação liberal de 1789.

Segundo Centenário

Conta-se que na época do bicentenário o líder chinês Deng Xiao Ping teria dito que ainda era cedo para se falar da Revolução Francesa. Na verdade, ele queria dizer que não se devia falar de outra revolução ainda mais recente: a chinesa.
O segundo Centenário da Revolução (1989) se deu no sentido inverso à celebração do primeiro. O contexto era outro: o neoliberalismo avançava, a social democracia girava à Direita, o Estado de Bem Estar foi acometido por uma crise fiscal e, finalmente, o ano de 1989 coincidiu com a queda do Muro de Berlim e o fim do socialismo real.
Neste ínterim a historiografia já havia atacado o modelo liberal da Revolução que surpreendentemente ela julgava ser “marxista”. É importante lembrar que depois de Outubro de 1917 a herança da Revolução Francesa se misturou à da Revolução Russa. As comparações históricas eram quase inevitáveis.
A revisão historiográfica tentava agora mostrar que na longa duração a Revolução tinha sido só uma derrapagem na história. A França já vinha se desenvolvendo num sentido capitalista antes e seu verdadeiro take off industrial só aconteceu no Segundo Império (1852-1870), o de Napoleão III. Além disso, o revisionismo visou destruir a ideia de uma luta entre a burguesia e a nobreza.
Sem entrar no mérito intrínseco ao debate historiográfico, a questão que desejo discutir aqui é: se é verdade, como diz Hobsbawm, que muitos dos historiadores revisionistas miraram nos comunistas mas acertaram nos liberais clássicos, por que isso foi possível? A pergunta é relevante porque aqueles historiadores não eram, salvo exceções, assumidamente de Direita.
A burguesia liberal que havia aceito a Revolução em bloco, agora cedia lugar à barbárie, na expressão de Vito Letizia. 1789 tornava-se desnecessário. Simples assim.
Hobsbawm fornece um conjunto de elementos explicativos para isso. Entre eles destaca que os historiadores da tradição republicana eram professores de província e não intelectuais da mídia; e que Paris deixara de ser a cidade das revoluções para se tornar o lócus enobrecido da classe média.

A barbárie administrada

Ainda assim, a pergunta central persiste sem resposta: por que, apesar disso, as classes dominantes europeias, acostumadas a dominar com uma hegemonia assentada em princípios liberais e no consentimento de seus “inferiores sociais”, passou a desdenhar aquilo que parecia o arcabouço irrenunciável do “povo francês”? Refiro-me à democracia eleitoral, às liberdades democráticas e a uma economia de mercado convenientemente regulada para sustentar a cidadania social. Como isso foi possível?
Não há uma explicação única. Os sistemas representativos que o historiador revisionista François Furet opunha à democracia direta das ruas em sua explicação da Revolução Francesa, soçobram dia a dia. Os tecnocratas das principais instituições que comandam a economia europeia não são eleitos. A economia foi naturalizada e como disse Vito Letizia, o governo deixou de ser “político” e um novo vocabulário incorporou a ideia de “governança”.
Não se elege alguém para arbitrar a luta de classes, mas para administrar coisas. A gestão é eminentemente técnica e os contestadores são jogados no limbo dos ideólogos. Curiosa inversão: os marxistas criticavam a ideologia como uma consciência invertida e indicavam uma futura “administração das coisas”. Mas a superação da política seria resultante da revolta universal do proletariado e não a resultante de uma reengenharia de gestores.
No final da Segunda Guerra ainda seria possível ver o conservador Charles De Gaulle, o comunista Maurice Thorez e o futuro presidente socialista François Mitterand num mesmo lado. Já no século XXI o filme de Robert Guédiguian Le promeneur du champ de Mars (no Brasil: “O Último Mitterrand”) exibia a melancólica constatação de que Mitterrand se considerava o último Presidente da França Depois dele, viriam os gestores… E para evitar o mal maior da família Le Pen os franceses tiveram que optar por Jacques Chirac, pelo playboy envelhecido Sarkozy e, finalmente, o ennuyant François Hollande, tedioso até em suas aventuras noturnas.
Eu acrescentaria finalmente outro elemento para o descrédito daquele modelo liberal da Revolução Francesa: quem é o “povo francês”? Para os netos de argelinos o que representam os ideais de 1789 ensinados na escola?
O mesmo poderia ser perguntado para os povos de Espanha ou aos imigrantes em qualquer canto da Europa. As principais seleções “nacionais” da Eurocopa são conjuntos de estrangeiros naturalizados em busca de fama ou dinheiro, embora alguns tentem cantar o Hino nacional que ainda antecede os jogos de futebol.
Ao mesmo tempo surgem na contramão dos grandes países o nacionalismo dos pequenos. Sucessivos plebiscitos são inventados para afirmar o sentimento nacional. Não é um paradoxo, mas as duas faces de um processo que se totaliza exatamente nesses momentos que parecem negá-lo.
A globalização gera uma classe média sem pátria, mas os trabalhadores em seus subempregos acham que ainda têm. O capital abre fronteiras enquanto uma classe operária ressentida tenta encontrar a identidade no seu pequeno torrão natal.
Seria ainda possível uma ideologia capaz de amalgamar um “povo” em qualquer grande país da Europa? E se for possível, estaria ela no repertório de valores de 1789?
Afinal, qual a Herança da Revolução Francesa?

NOTAS
1 Este texto foi escrito para um debate sobre o livro “Diálogos com Vito Letizia – As origens das aspirações modernas de liberdade e igualdade”, organizado em junho de 2016 pelo coletivo Cemap-Interludium. Entre as várias intuições do autor da obra há uma que merece ser destacada. Ele estabelece um cotejo entre a comemoração do primeiro centenário da Revolução Francesa. Eu desenvolvo exclusivamente essa comparação como veremos a seguir.
2 Vito Letizia diz literalmente que “o socialismo é estranho à Revolução Francesa”.
***
Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.