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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Pelo direito a não ter carreira alguma, por Maria Bitarello.

on 08/08/2017Categorias: Crónica, Cultura, Destaques
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Um dos aspectos mais aprisionantes do trabalho assalariado é a tendência a vincular a vida a uma única profissão. Que, em vez de carreira, tenhamos trajetória, aventura, travessia
Crônica de Maria Bitarello
“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.
E pra despistar o carreirismo e evitar que a profecia se concretizasse, tive que dar uma voltinha por aí. Nos Estados Unidos, me agradava observar o valor que conferem às conquistas atléticas. Fulano é bancário, mas na verdade quando chega em casa e tira o disfarce de Clark Kent ele vira um ultra-maratonista, treina todos os dias e disputa até cinco provas anuais, incluindo o triathlon. Trabalho; qualquer um pode fazer. Mas os feitos atléticos dependem de disciplina e perseverança individuais, o que é uma prova de caráter na terra do self-made man. Aí na França era parecido, porém diferente – todo poder ao cérebro. Beltrano é carteiro, mas está escrevendo um ensaio definitivo sobre a obra completa de Marcel Proust. Sicrano é funcionário administrativo da prefeitura, mas todos os anos viaja pro Norte da África pra fotografar mulheres da cultura tuaregue.
Foi um alívio perceber que a carreira não precisava ser a luz no fim do túnel, o fim que justificaria todos os meios, nem o topo da cadeia alimentar. Poderia ser maratonista e escritora, ciclista e jardineira, yogi e cozinheira, professora e mochileira. Foi gloriosa e alforriante a descoberta. Ia de encontro a tudo que eu sentia. Era possível, sim, ter um trabalho que não me definisse enquanto espécie e não fazer desse trabalho uma trilha monocórdica. A ausência de uma carreira no sentido de um curriculum vitae não equivale a carência de ofício. De jeito nenhum. E o trabalho não dignifica o homem (e a mulher) coisa nenhuma.
Diante de tais descobertas, a ideia de voltar ao Brasil e, consequentemente, precisar encontrar uma profissão definitiva me mantinha firme e forte lá do outro lado do Atlântico – onde, parecia, estaria a salvo desse fardo e das expectativas, minhas e de outrem, acerca de quem eu deveria ser aqui na terrinha. No além-mar, em terras estrangeiras, não esperavam muito de mim. Um sentimento libertador, a princípio, mas por fim infantilizador. E com o tempo foi tornando-se desestimulante sustentar o status café-com-leite do visto de estudante. Era hora de voltar. Hora de peitar o utilitarismo profissionalizante de frente.
E eis o que constatei. Carreira não pode ser algo que você busca, como passar de fase no videogame, ou passar de júnior pra sênior na firma. Uma carreira dotada de sentido só pode ser algo que te acontece, como a vida. Movida pelo tesão, pelo amor, pela alegria. Ela vai sendo trilhada ao longo da sua jornada terrena, como um passo dado depois do outro, como os capítulos de um épico russo ou o avanço da escola de samba na avenida. Haverá caminho, percurso, trajeto. Dos trabalhos que você amou aos que detestou, dos amantes às amadas, das dores de garganta às de cotovelo, passando pelas unhas encravadas e os vãos desesperos. É a história de cada um. Natural e inevitável. A humana aventura. Travessia.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Literatura é coisa de mulher, por Maria Bitarello.

on 11/07/2017Categorias: Arte e Literatura, Brasil, Cultura, Posts
Martha Gellhorn, uma das grandes correspondentes de guerra do século XX, tornou-se conhecida por ser esposa de Ernest Hemingway
Martha Gellhorn, uma das grandes correspondentes de guerra do século XX, tornou-se conhecida por ser esposa de Ernest Hemingway
Faço dessa crônica minha macumba textual. Que a literatura não seja mais terra de macho. E que estes abandonem o que tanto os amedronta nas escritoras
Por Maria Bitarello
A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela
se pretende mesmo escrever ficção.”

Virginia Woolf, em
Um teto todo seu
Em português, existem as palavras embaixadora e embaixatriz. São distintas. Embaixadora é o feminino de embaixador, ou seja, uma mulher que representa seu país em outro país, uma diplomata do escalão mais alto. Embaixatriz é o nome dado à mulher do embaixador. A primeira-dama, digamos assim. Aliás, bem assim mesmo. Tanto embaixatriz quanto primeira-dama são termos sem equivalente referência masculina. Que eu saiba, não existe um nome pro marido da embaixadora nem pro da presidenta. Chama-se essa pessoa por seu nome próprio. Afinal, não se trata de um título de nobreza transferível via casamento.
Me pus a pensar nisso motivada por escritoras que foram também casadas com escritores. Exemplos: esperava-se da poeta e contista Sylvia Plath ser, primeiramente, mulher do também poeta Ted Hughes; Martha Gellhorn, uma das correspondentes de guerra mais importantes do século 20, foi célebre por ser esposa de Ernest Hemingway. E a lista segue. Mas quantos homens são conhecidos, publicamente, por serem maridos de uma escritora? Não me lembrei de nenhum.
Literatura é terra de macho. Em 1971, em uma fala que ficou conhecida, a escritora americana Susan Sontag enquadra o escritor e machão à moda antiga, Norman Mailer, quando ele se refere a outra autora como lady writer. Em inglês, existe até o termo chick lit – literatura feita por e pra garotas –, pra sugerir que se trata de uma literatura inferior. No vídeo acessível pelo link acima, Sontag indaga Mailer por que é preciso fazer a distinção da “mulher escritora” se a mesma distinção não é feita para os homens. Por que a palavra writer, sem gênero, remete necessariamente a um homem, foi sua dúvida. Por que a literatura com L maiúsculo é território masculino. E, subliminarmente, o que tanto os amedronta nas escritoras. Penso eu que o medo seja da exposição de toda a farsa e da consequente perda de privilégios. Só um chute.
Pra evitar tal exposição, é preciso que as moças entendam seus lugares ou então que caiam fora. E o esquema a ser compreendido é o seguinte: você é bem vinda no meio literário como groupie (fanzoca) ou como musa, ambos papéis inofensivos e sexualizados. Assim, você permanece maravilhosa, desejada, uma mulher inteligente, letrada, que ama bons livros, mas não compete. O que de melhor pode haver nesse mundo?
Homens, segundo pesquisas, leem escritores homens que criam protagonistas masculinos que, por sua vez, são frequentemente escritores também. Respire fundo e clique pra ler as estatísticas de 2013 sobre a literatura nacional. São assustadoras: 72% dos autores publicados são homens. O ambiente é não só masculino, mas branco, heterossexual, ocidental, urbano e de classe média. Aqueles e aquelas que fogem do perfil estão condenados a ocupar as prateleiras menos nobres da livraria e, esse ano, surpreendentemente, muitas das mesas da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece esse mês. É verdade. Pela primeira vez, desde a inauguração do evento em 2003, há mais mulheres na programação do que homens: 24 a 22.
Não estou dizendo que não haja motivos pra se comemorar, mas trata-se de uma diferença mais importante em níveis simbólicos que absolutos. Afinal, até hoje, no mundo todo, dos 111 premiados com o Nobel, apenas 13 são mulheres. No Brasil, dos 40 membros da Academia Brasileira de Letras, apenas 5 são mulheres. Rachel de Queiroz foi a primeira, em 1994, quando a instituição comemorou seu primeiro centenário. Cem anos se passaram sem que nenhuma mulher ingressasse. E só agora, também nesse mês de julho, uma mulher foi contemplada, pela primeira vez, com o Prêmio de Literatura do Estado de Minas Gerais pelo Conjunto da Obra. A mulher: Adélia Prado.
São conquistas importantes, mas a caminhada ainda é longa e cheia de obstáculos fálicos. Dentro do tabu da mulher que escreve, por exemplo, ainda existe o tabu dos tabus, que é o romance. Mulheres podem ser jornalistas, poetas, às vezes letristas de música, até contistas, mas não romancistas. Romance, dizem, é coisa de homem.
Faço dessa crônica minha macumba textual. Que injustiças como essa se reparem com mais eficiência. Que a história não demore mais uma vida inteira pra reconhecer a grandeza de escritoras tornadas invisíveis, como Hilda Hilst – que ainda por cima escrevia literatura erótica, que audácia. Que a geração atual de autoras de ficção não seja reconhecida apenas postumamente. E que os escritores e escritoras sejam tão diversos quanto as histórias que contam e os leitores que as leem. As estantes, com certeza, serão muito mais coloridas.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Devaneios sobre a cultura do olhar, por Maria Bitarello.

on 04/04/2017Categorias: Arte e Literatura, Cultura, Destaques
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A troca de olhares, no Brasil, é como na Índia, na Etiópia, no Peru. A gente olha, é flagrado e não se constrange. A roupa, a bunda, a cara, a conversa da mesa ao lado
Por Maria Bitarello | Imagem: Amrita Sher-Gil, autorretrato
Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.
Há quem fique embaraçado diante de uma encarada. Os americanos são assim. E sim, estou generalizando americanos. De modo geral, o americano médio vai sorrir e dizer alguma amenidade pra amaciar o desconforto e quebrar o silêncio que envolve a troca de olhares com um desconhecido. Dá pra ver no corpo deles a agitação. Já os franceses, também de forma grosseiramente generalizada, reagem com mais agressividade. Uma troca de olhares sustentada durante certo tempo pode ser percebida como uma afronta, uma provocação. E daí pode surgir um bate-boca. O comportamento no Brasil se aproxima mais do observado em países menos formais, muitas vezes ditos subdesenvolvidos. Onde as pessoas não têm vergonha de se olhar e onde isso não é, a princípio, um desrespeito. Na Índia é assim, no Nepal; também no Benim, na Etiópia; aqui ao lado na Bolívia, no Peru.
Talvez sejamos mais cara-de-pau, porque a gente olha mesmo. Olha, é flagrado olhando e não se constrange. Continua a olhar. A roupa, a bunda, a cara, presta atenção na conversa da mesa ao lado. A gente disfarça menos nossa curiosidade. Mas, seguindo a dica do meu padastro, há, sim, distinções regionais. Tomemos São Paulo. Aqui, como em outras megacidades cosmopolitas, convivemos com pessoas muito diversas o tempo todo. Tem gente do Brasil todo, do mundo todo, pertencente a uma enormidade de tribos urbanas diferentes, o que muda o guarda-roupa, o código social, o corte de cabelo, o vocabulário, a linguagem corporal. É difícil chocar alguém em São Paulo: aqui se vê de tudo. Talvez por isso o olhar do outro pareça até meio desinteressado e blasé, porque afinal é difícil competir com aquela pessoa que desce a Augusta de madrugada vestida de Edward Mãos-de-Tesoura.
Esse anonimato que a multidão paulistana confere pode ser o desespero de muitos recém-chegados; muitos dos quais desistem da cidade por essa razão mesma. Outros se refestelam nessa liberdade. Porque ninguém te conhece, pode-se estar a só, entregue ao devaneio, à observação, lá no meio da multidão, sem patrulha. Numa cidade menor é o contrário: há sempre alguém conhecido; essa delícia do anonimato parece intangível. Penso que pode ser esse olhar “vigilante” do interior a que meu padastro se referia. Ele, que é gringo no país e na cidade, embora já esteja no Brasil faz tempo, sente esse olhar que é curioso e, ao mesmo tempo, espia. É o que acho.
Sampa é uma cidade gigantesca e organizada em bolsões regionais e culturais, agrupada em comunidades. Essa cidade só é possível porque reiteramos todos um acordo tácito de conviver nesse espaço. E aqui dentro também o olhar varia de bairro pra bairro. Na Vila Madalena, onde morei nos últimos cinco anos, durante os dias de semana a onda é hipster/cool. Cada pessoa transmite mensagens muito específicas com suas roupas, tatuagens, piercings, bicicletas e bigodes. Ocorre uma troca de olhares muito afirmativa de sua identidade, muito diferente da que se nota na Av. Paulista no fim da tarde, quando saem dos edifício comerciais batalhões de homens de terno e mulheres de tailleurs. Esse é um olhar apressado; o spam de atenção dura um segundo.
Ambos, por sua vez, nada têm a ver com o do Bixiga, pra onde estou me mudando essa semana. Ali ainda tem uma pegada de interior apesar de estar bem na região central da cidade, na muvuca. Churrasquinho na esquina, crianças em bando, pelada de rua, todo tipo de ofício e pequeno comércio, restaurantes com comida boa e barata, casinhas operárias, e o olhar familiar, comunitário. Lembra Minas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Classe média: o fetiche do igual, por Maria Bitarello.

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Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades
Por Maria Bitarello
Há uns anos ouvi um podcast de rádio americana, não me lembro mais qual, em que o entrevistado daquele dia dizia que o fator determinante da pobreza – econômica, não de espírito – é a possibilidade de escolha. O pobre, dizia o entrevistado que também o era, muito mais do que carecer de coisas, pertences, bens, é privado de escolhas, de alternativas. E, salvo as exceções que sempre existem, a vida lhe impõe um caminho, muitas vezes sem bifurcações no percurso. O que o dinheiro compra, portanto, segundo o tal entrevistado, são escolhas. Fiquei pensando sobre isso muito tempo. Claro que se trata de uma dentre tantas formas possíveis de interpretação e que, de certo, é limitada. Mas vamos seguir nessa via, limitada que seja. Porque acho que ela traz insights.
De acordo com esse raciocínio de pobreza, por menor que possa ser minha identificação com essa classe amorfa chamada de média, de fato, é dela que eu vim. Eu cresci num lar de classe média. Tive oportunidades de escolhas. Muitas. Como a de ter uma infância e crescer na hora em que estava pronta pra crescer; a de estudar, o que e onde fazê-lo; as de viajar, trabalhar, aprender línguas, música, esportes, conhecer culturas diferentes, ser exposta à leitura, às artes; a de votar; a de não virar, cedo demais, nem esposa nem mãe; a de me relacionar com quem meu coração eleger; a de mudar de ideia, voltar atrás, andar pra frente, jogar tudo pro alto e começar de novo; a de viver da forma que é verdadeira pra mim. E isso é ouro. Alguns diriam que não tem preço, mas se isso fosse verdade, todos teriam um pouquinho pra si. O que sabemos não ser o caso.
As escolhas às quais tive acesso não estão disponíveis a todos e me foram concedidas, em grandíssima medida, devido à classe social à qual pertenço. Eu as tive porque outra pessoa não as teve. É uma lei básica e pervesa do capitalismo. Ao mesmo tempo, a classe média não é só uma fatia social; é uma cultura também. E uma das características constitutivas dessa classe cultural é o medo. A classe média é apavorada. Tem medo de perder suas regalias disfarçadas de segurança e estabilidade. Ela paralisa sua vida em função desse medo. Segrega. Empurra o diferente pra longe. Vota mal. Não quer pretos nas escolas dos filhos brancos. Nem a boca no fim da rua. Tem medo do flanelinha que cuida dos carros. Da puta. De sair do carro, de andar na rua. Acha que a riqueza máxima será, um dia, se separar do convívio com os pobres.
É uma cultura pobre de espírito. Chata. A ela pertencem a moral e os bons costumes. Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela, na classe média, que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades. Movida pelo pavor, a classe média é capaz de qualquer coisa pra manter erguidas as barras que a aprisionam dentro do apartamento, enjaulada; dentro do carro, atrás de vidros blindados; dentro do bairro, onde todos são iguais. A personagem infantil de Pessoas Sublimes, peça que vi há umas semanas n’Os Satyros, em São Paulo, não sai de casa porque lá fora é muito perigoso. E já viu o que faz um bicho em perigo, acuado? Ele morde. Ele ataca.

TEXTO-MEIO
Essa noção da classe média apavorada não é minha; tomei-a emprestada do documentário A Opinião Pública, do Arnaldo Jabor, lançado em 1967. Vale a pena assistir. Prometo que não tem nada a ver com o Jabor da Globo. É um registro das mudanças sociais pelas quais o Brasil passava na década de 1960. Uma época semelhante à de agora, quando um momento de abertura foi nocauteado por uma tenebrosa onda conservadora. Esse “medo” do qual fala Jabor nasce do que Marcia Tiburi chama de fetiche do igual, outra expressão que tomo emprestada – dessa vez do último romance dela, Uma fuga perfeita é sem volta, que estou acabando de ler. Os adeptos desse fetiche “amam o igual porque, na vida, só o que querem ver é espelho. O espelho que certifica que existem. Onde não há espelho, as pessoas põem ódio”.
O ódio. A força de uma classe média apavorada movida por ele, quando nas mãos da pessoa errada, pode ser monumental. A massa de manobra em que se transforma pode varrer uma sociedade, pode matar. E uma classe média assustada é tudo o que a direita mais aprecia e melhor sabe usar. Ela vai instigar ainda mais esse ódio que vem do medo, que por sua vez vem da não compreensão do diferente. Se a classe média brasileira não for sacudida de seu torpor, temos exemplos históricos palpáveis que mostram para onde esse discurso pode descambar. E a memória precisa ser exercitada, sempre, pra que a história não se repita.
Evitar repetições é o que um paciente encontra na análise. É o que se alcança com uma epifania. Com um momento de iluminação. Perceber essas repetições e fazer o furo, não reproduzi-las mecanicamente, liberta. Porque aí, sim, há escolha. E em tempos de uma classe média que tantas panelas bateu nas janelas – a imagem própria do desespero –, não parece haver escolha, mas mera reprodução. Por isso, em meio a essa embriaguez burguesa (classista, racista, machista, fascista), será preciso muita riqueza de espírito interior pra despertar do transe e exercitar a capacidade de discernimento. Pra perceber as bifurcações no caminho, as opções de desvio que existem, sempre.
Suspeito eu que a maneira de vê-las é olhar pro outro, pro diferente e, ao mesmo tempo, pra dentro – sem medo. Porque, no fundo, é a mesma coisa. Reconhecer o diferente é um ato íntimo. E só daí sairá algo novo.