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quarta-feira, 15 de junho de 2016

O futuro da usurpação e as alternativas impensáveis: o trabalho do vento e a necessidade da tempestade, por Mauro Luis Iasi.

futuro da usurpacao
“Sento-me na praia e espero o vento”
Antes mesmo de completar um mês de usurpação, o usurpador tem problemas. Sua ponte balança fortemente acossada pelos ventos de denuncias e o futuro, logo ali do outro lado do abismo, parece uma visão distante.
Um ministro atrás de outro vai caindo ou sendo envolvido em escândalos, os que se mantêm ostentam uma ficha corrida de fazer inveja a qualquer quadrilha e o próprio usurpador é condenado, tornado-se inelegível por oito anos (dois dos quais espera passar no cargo maior de mandatário da República).
O futuro da usurpação
Na sanha de afastar a presidente eleita, os conspiradores prometeram o que não podem entregar: a estabilidade. Primeiro porque, ao contrario de suas pretensões, a raiz da instabilidade é a crise econômica e o remédio amargo dos “ajustes”, que o governo anterior já aplicava e o usurpador impõe com mais profundidade, não indicam uma recuperação milagrosa no curto prazo. As previsões já afastam a recuperação em 2017 e projetam a volta de um crescimento pífio só para 2018. Em segundo lugar, o bloco usurpador está longe de ser homogêneo. A mídia que tão convictamente apoiou com boa vontade a aventura usurpadora tenta se apresentar agora como surpresa com aquilo que sempre soube muito bem. O judiciário divide-se, a operação Lava Jato continua a oferecer denuncias, o Ministério Público continua indiciando e o STF continua se fingindo de morto.
O preço da interrupção do mandato da presidente é pago com um custo considerável. Liberação de recursos, nomeações, barganhas, acordo para livrar Cunha da cassação, acenos ao obscurantismo de valores e o fundamentalismo dos preconceitos, fechamento de ministérios para depois reabri-los sem recursos. Ministros vaiados em público e um precário reconhecimento internacional que se dilui numa consistente percepção da ilegalidade do ato usurpador.
Estamos diante de um governo provisório ilegítimo e instável. Os ex-governistas querem a volta da presidente, os aliados do usurpador disputam entre si o protagonismo em uma nova fase de crescimento que virá, os trabalhadores reagem, ainda desordenadamente, contra a brutalidade do “ajuste”, e disso tudo resulta que a instabilidade é a regra e nada indica que tal quadro se reverta no curto prazo.
O ajuste, no entanto, não espera a estabilidade política. Ao contrario do que se apregoava, ele vai se implantando no próprio curso da tempestade. Começou ainda no governo interrompido, seguiu por entre a crise do afastamento da presidente e seguiu no governo usurpador indiferente aos percalços políticos que o abalam. Enquanto a esfera política decide quem governa, o capital exerce seu direito ao Estado e impõe a direção necessária.
No entanto, isso tem consequências. É essencial ao jogo político burguês que o governo de plantão assuma o ônus de uma crise para que a oposição no interior da ordem se apresente como alternativa. Assim alternam-se liberais e conservadores, democratas e republicanos, socialdemocratas e democratas cristãos, tucanos e petistas. A atual crise política, por uma espécie de irresponsabilidade daquilo que Sofia Manzano denominou corretamente de “lumpem-parlamentares”, acabou por queimar na fogueira dos interesses da pequena política a própria aparência de respeitabilidade em que se sustentava a frágil fantasia ideológica sob a qual se legitima o jogo político burguês.
Quando um ataca o outro, o outro ataca o primeiro e todos se atacam torcendo os limites da legalidade ao sabor de conveniências e oportunismos. E o povo aqui de fora olha e vai formando a incômoda convicção que todos estão certos ao se acusarem mutuamente de canalhas e ladrões. A fantasia ideológica supõe que as pessoas tecem uma forma que lhe serve de mediação entre elas e a realidade objetiva, como afirma Žižek, não como uma mera falsidade, mas como uma ilusão necessária. Nas palavras do filósofo esloveno: “não é simplesmente uma mentira, mas uma mentira vivenciada como verdade, uma mentira que pretende ser levada a sério.” (Žižek, S. “Como Marx inventou o sintoma?”. Em: Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro, Contraponto: 1996, p. 313-314).
No limite, isto significa que as pessoas sabem de fato que a esfera da política é esse campo de disputas em torno de interesses mesquinhos, em que se usa e abusa dos meios e métodos mais escusos, que há corrupção e ilegalidades, alianças oportunistas e traições várias… que os senhores deputados e senadores estão ali porque lograram constituir máquinas eleitorais, financiamentos vultosos que compensam com medidas legislativas e governamentais que respondem aos interesses de seus mecenas etc. No entanto, precisam acreditar que se trata de uma esfera do poder político, uma esfera legislativa que tem funções específicas e respeitáveis, exercida por pessoas que têm legitimidade e capacidade para tal função. A crise política rasga o véu da fantasia ideológica e mostra não algo que se desconhecia, mas aquilo que não se queria saber.
O problema não é tanto o que se revela (uma vez que a ideologia não opera aqyu no paradigma do velamento) mas as conclusões que daí derivam. Se este é o jogo da política burguesa, qual seria então a alternativa? É neste ponto que as coisas ficam interessantes. Quando Aécio Neves, por exemplo, tenta capitalizar a crise em seu benefício há uma imediata recusa. O usurpador Temer gostaria de acreditar que ele seria (até por falta de opções) a alternativa… mas não é. Uma senhora magra, vinda das fileiras do povo, tenta olimpicamente se manter distante de tudo e agradar a todos, para assim quem sabe ser escolhida como alternativa. Um dia se diz contra o impedimento, em outro flerta com o golpismo. Quer ser uma alternativa para a esquerda, mas elogia o falecido ministro da Ditadura. Ama a natureza, mas precisa do dinheiro dos monopólios que a assolam. De tanto querer agradar a todos, corre o risco de não agradar a ninguém.
O governo interrompido podia ser uma alternativa. Um dia já foi. Até pouco tempo ainda era. Mas como processar a limpeza necessária e restabelecer as costuras e remendos na fantasia ideológica para reapresentá-lo como a novidade que um dia foi, como artífice de uma democracia de cooptação, como ponto médio que torna possível o pacto? A “lumpem-burguesia-parlamentar” pode ter prestado um grande desserviço à burguesia.
Eleições gerais?
Não é por acaso que setores da mídia, como a Folha de S. Paulo, assim como banqueiros conhecidos, aventam a possibilidade de antecipação de eleições gerais, curiosamente, se aproximando de uma posição que aparece na parte mais à esquerda do espectro político. O sentido mais profundo é que é necessário buscar fora do atual campo político e de sua constituição aqueles que podem recompor a fantasia ideológica necessária ao bom funcionamento das coisas. Evidente que na esquerda o significado é outro: trata-se de construir uma alternativa fora do campo burguês, que partisse dos trabalhadores, mas é aí que as coisas precisam ser diferenciadas.
Antecipar as eleições, na lógica do segmento da direita que defende esta alternativa, não implica mudar as regras e a forma das eleições que constituiu este mesmo circo que agora pega fogo, mas, simplesmente, mudar as pessoas. O mesmo jogo, com outros jogadores. A esquerda que defende esta alternativa tem que ter muito cuidado para não cair nesta armadilha. O mais provável é que eleições gerais agora, além de legitimar o impedimento como águas passadas, produziria uma representação ainda mais conservadora. Mas, o pior é que legitimaria um fundamento da fantasia ideológica, isto é, que esta é uma esfera legitima de poder e tal legitimidade resulta de uma eleição onde a vontade popular é a que prevalece.
Nossa convicção é que a atual forma das eleições – o peso do poder econômico, a condições desiguais da disputa determinadas desde acesso ao tempo de televisão, aos debates e aos recursos, o peso do controle das máquinas governamentais e eleitorais, o tratamento manipulatório da grande mídia – deforma a expressão do que poderia ser uma vontade popular. As eleições burguesas não são uma forma de garantir a expressão de uma vontade coletiva, mas uma eficiente maneira de evitar que se forme uma verdadeira expressão política daquilo que constitui a maioria da sociedade.
As alternativas impensáveis
Mas qual, então, a alternativa? Em grande medida, a eficácia da fantasia ideológica é excluir do campo das possibilidades algumas alternativas. Vejam como em 1847, às vésperas da entrada em cena da rebelião operária de 1848, um pensador conservador colocava a questão:
“A pobreza e o proletariado são as úlceras que supuram no organismo dos Estados modernos. Elas podem ser curadas? Os médicos comunistas propõem a completa destruição e aniquilação do organismo existente. […] Uma coisa é certa, se estes homens receberem o poder para agir, haverá não uma revolução política, mas social, uma guerra contra toda a propriedade, uma completa anarquia. Por sua vez, isto daria lugar a novos Estados Nacionais, e em que bases morais e sociais? Quem erguerá o véu do futuro?”
(Haxthausen, Studen ueber… Russland [1847]. Apud Hobsbawm, E. A era das revoluções – 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979: p. 321)
Notem, o proletariado é a doença e a sociedade atual é o organismo saudável, de forma que sua completa destruição resultará em “completa anarquia”. Ora, ninguém quer matar o doente para salvar a doença, logo tal possibilidade deve ser descartada. No entanto, como em todo discurso ideológico, para sua plena eficiência é necessário incluir o real para deformá-lo. É verdade que os comunistas querem destruir o “organismo existente”, assim como é também verdade que se os comunistas tiverem condições “não haverá uma revolução política, mas social” que tem por alvo a propriedade privada dos meios de produção. Mas isso, além de não poder ser feito, não pode sequer ser pensado. Se pergunta o angustiado conservador, “em que bases morais e sociais” se constituiria um novo estado de coisas? Certamente em outras bases econômicas, sociais e morais. E não podemos pensar esta possibilidade porque…? Bem… porque…? Por que, mesmo?
A ideologia opera de várias formas, mas na crise atual parece ter sido necessário conjurar um antigo fantasma. O conservadorismo e o fundamentalismo religioso não se movem apenas para estigmatizar o governo interrompido, mas, principalmente, para delimitar o campo do possível aberto ao futuro. Hobsbawm cita uma conhecida publicação católica para descrever a ideologia religiosa nos seguintes termos:
“Deem-me um povo em que as paixões em ebulição e a ganância terrena sejam acalmados pela fé […]; um povo que veja esta terra como peregrinação e a outra vida como sua verdadeira pátria; um povo ensinado a admirar e a acatar no heroísmo cristão sua própria pobreza e seu próprio sofrimento […]. Dêem-me, digo eu, um povo assim moldado, e o socialismo não será somente derrotado com facilidade, mas será impossível mesmo que se pense nele[…].
(Cilvità Cattolica II, 122, [1950], apud Hobsbawm, op. cit., p. 239)
É necessário para a ordem excluir a alternativa revolucionária do campo do possível e do pensável. É urgente conter a crise nos limites da crise política para que ela não se torne uma crise do Estado. Mas, no entanto, é este o caminho que a usurpação abre e, por isso, é fundamental que se oculte.
O problema destes senhores conservadores é que o fundamento desta possibilidade se inscreve em seu próprio campo teórico. Um dos fundamentos do campo político, como apresenta John Locke, é que o Estado se legitima na medida que há o “consentimento” dos governados. Um usurpador seria, nos termos deste autor clássico da teoria política burguesa, aquele que “entre em posse daquilo que um terceiro tem direito”, por isso, conclui que “não pode nunca ter o direito a seu favor” (LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil). Ocorre que isto acarreta segundo ainda Locke, a seguinte situação:
“Quem quer que ingresse no exercício de qualquer parte do poder por meios diferentes dos que as leis da comunidade prescreveram não tem o direito a ser obedecido, embora a forma da comunidade ainda continue reservada, desde que não é a pessoa que as leis indicaram e, em consequência, não é a pessoa a que o povo dera assentimento.” (Idem).
Numa situação como esta o povo estaria desobrigado de prestar obediência, mas pode chegar a muito mais que isso, pode levar a dissolução do governo. O pensador liberal argumenta que há uma diferença entre o usurpador e o tirano, sendo esta diferenciação localizada no fato do usurpador respeitar a lei existente ou refazer a lei sem que para isso tenha uma mandato que expresse o consentimento do povo, colocando nestes termos o assunto:
“Se um homem ou mais de um chamarem para si a elaboração de leis, sem autoridade, a que o povo, em conseqüência , não está obrigado a obedecer; e, nessas condições, o povo ficará novamente desobrigado a sujeição, podendo constituir novo legislativo conforme julgar melhor, tendo inteiramente liberdade de resistir à força aos que, sem autoridade, quiserem impor-lhe seja lá o que for.” (Idem).
Vejam, o elemento da crise que não pode ficar visível como alternativa é que as alternativas não restringem-se à escolha entre as peças existentes e na forma política que hoje prevalece. É possível, e às vezes necessário, constituir um novo poder na forma que julgarmos melhor. Locke é um filósofo da fase revolucionária da burguesia e expressa em suas ideias o chamado “direito à rebelião”, pois é isso que a burguesia fez na sua Inglaterra e fará na França em 1789: ela destruiu o organismo social existente. Mas agora isso precisa ser descartado como possibilidade. Houve história, mas não há mais, já disse Marx.
Não se trata de escolher entre as alternativas colocadas, não se trata de escolher outras pessoas pela mesma sistemática política que constituiu esta forma política que agora implode. A possibilidade que se abre é questionar se esta é a única forma possível de expressão de vontades coletivas, se esta é a única forma da política?
Nenhuma solução que mantenha a atual sistemática política e o sistema eleitoral pode ser, de fato, uma alternativa, ainda que troquem todas as pessoas envolvidas nos escândalos de corrupção por outras que irão se envolver nos próximos escândalos de corrupção. Nenhuma mudança política ou engenharia de representação eleitoral pode ser eficaz, no sentido de uma verdadeira mudança, se não tocar na base real da forma política, a sociedade cindida em interesses antagônicos e inconciliáveis de classe e a ordem capitalista fundada na propriedade privada dos meios de produção e na transformação dos bens necessários à vida em mercadorias.
A crise do poder burguês abre a possibilidade dos trabalhadores se constituírem em poder, legislarem sobre sua vida e desobedecerem ao poder governamental ilegítimo. Destruir o organismo social e reorganizar a sociedade em novas bases econômicas, sociais e morais. O preocupado conservador de 1847 termina suas reflexões angustiadas, agravadas pela dor que a úlcera proletária lhe causava, perguntando quem poderia erguer o véu do futuro, indagando que papel a Rússia desempenharia nesta trama. Sabemos que papel ela desempenhou. Ele lembra ainda um velho ditado russo que diz: “sento-me na praia e espero o vento”. Bem, acredito que já passou da hora de nos levantar e ajudar o trabalho da tempestade.
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Gostou? Leia também “O usurpador e o caminho da usurpação“, de Mauro Iasi, no Blog da Boitempo.
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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A crise brasileira é a espuma superficial de um problema estrutural ignorado pela esquerda, por Luiz Marques.

luiz marques
Entrevista especial com Luiz Marques.
A esquerda erra ao separar a agenda ambiental da agenda social, como se fosse possível manter o combate à desigualdade sem levar em consideração as consequências suicidarias de uma política desenvolvimentista que concebe o planeta erroneamente como estoque infinito de recursos. Esta é a avaliação do historiador Luiz Marques que avalia neste entrevista a atual conjuntura política e econômica do Brasil da perspectiva ambiental. “A crise brasileira é a espuma superficial de um problema estrutural e profundo, para o qual os contingentes majoritários da esquerda não estão dando a devida atenção,” afirma o autor de Capitalismo e colapso ambiental (Ed Unicamp, 2015), “conservar o que resta da biosfera tornou-se essencial para manter qualquer sociedade organizada”.
Esta conversa, conduzida por Gabriel Zacarias (pós-doutorando USP/EHESS-Paris) e Fernanda Marinho (pós-doutoranda Unifesp/Musée du Louvre), dá sequência à série de entrevistas do Movimento Democrático 18 de Março (MD18) com grandes intelectuais de esquerda publicadas no Blog da Boitempo. Leia a primeira entrevista da série, com o sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, clicando aqui, e a segunda entrevista da série, com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, clicando aqui.
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O senhor foi militante político e atuou na resistência à ditadura militar no Brasil. Partindo dessa experiência, como o senhor considera a atual situação política brasileira? É possível estabelecer, de fato, um paralelo entre o Brasil pós-64 e o momento atual?
Paralelos são sempre possíveis e tentadores, mas não subestimemos o que foi o golpe de 1964. Ele instalou uma ditadura militar que se tornou, sobretudo após 1968, terrivelmente violenta. Fechou o Congresso Nacional, criou órgãos específicos de repressão dirigidos pelas Forças Armadas e articulados com outras ditaduras latino-americanas e com os Estados Unidos. Tão ou ainda mais grave que tudo isso, mas menos lembrado, a ditadura é também culpada pelo mais fulminante “ecocídio” jamais perpetrado pelo gênero humano. Segundo o INPA, até meados do século XX a ocupação humana da Amazônia não ocasionara alterações significativas em sua cobertura vegetal. Foram os militares que desencadearam a dinâmica de sua destruição. Em 1992, sete anos após o fim da ditadura, a área desmatada por corte raso da Amazônia correspondia, segundo dados do IBGE, a 499.037 km2. Em apenas 25 anos (1967-1992), a ditadura e os governos civis que ela gerou – os de José Sarney (1985-1990) e de Fernando Collor de Mello (1990-1992) –, haviam destruído na Amazônia uma área de floresta quase equivalente ao território da França.
Diante desse quadro, o paralelo proposto com o golpe parlamentar em curso é até compreensível, mas a escala dos dois fenômenos é incomparável. O que presenciamos é uma sórdida manobra parlamentar, no intuito, até agora não bem-sucedido, de circunscrever a ofensiva do Judiciário contra o PT e de salvar a própria pele. A precária coalizão que hoje dirige o país aproveita-se de uma crise econômica profunda e da desmoralização do PT para tentar anular as pequenas, mas significativas, conquistas sociais obtidas durante o primeiro decênio do século. Encontrará dificuldades, talvez intransponíveis se considerarmos sua imoralidade, impopularidade e os conflitos entre os grupos rivais dentro da própria coalizão. A dupla Temer-Blairo Maggi tentará a proeza de ser ainda pior que a dupla Dilma-Kátia Abreu em termos de devastação ambiental. Isso posto, não há como equiparar sua destrutividade, por hedionda que seja, à do ecocídio perpetrado pela ditadura, pelo simples fato de que Temer não pode passar por cima da sociedade, da crítica internacional, da comunidade científica e das instituições em geral, vigilantes em relação à conservação do que ainda resta da Amazônia.
Para alguns comentadores, a atual crise brasileira seria resultante de uma luta de classes que encontra sua expressão em duas formas distintas de políticas públicas: políticas neoliberais, de Estado mínimo, por um lado, e políticas sociais, por outro lado, ainda inspiradas pelo modelo do Welfare State. O senhor concorda com essa visão? A crise ambiental provocada pelo capitalismo, da qual o senhor trata em seu livro Capitalismo e colapso ambiental, não apontaria justamente para um limite da política de Bem-Estar Social?
Para responder à primeira pergunta, digo que a visão de que a atual crise brasileira reflete um conflito social, uma luta de classes, é indiscutível. Os que detêm a propriedade e o controle sobre o capital querem, como sempre, aumentar sua rentabilidade. Os que não detêm capital lutam para pelo menos manter sua participação na distribuição da riqueza nacional, participação em parte assegurada pelo Welfare State. Isso é uma constante social, mesmo quando não há crise. Quando a crise se instala, o conflito tende naturalmente a se acirrar. Mas aqui beiramos o truísmo: como imaginar uma crise socioeconômica e política alheia à luta de classes?
Quanto à segunda, não acredito que a crise ambiental apontaria para um limite da política do Bem-Estar Social. Ao contrário. O Welfare State é fundamental para a diminuição do impacto ambiental. Satisfazer as carências básicas de 90% da humanidade aumentaria de modo irrelevante o impacto humano sobre os ecossistemas ou mesmo o diminuiria. Por exemplo, em 2015, havia 2,7 bilhões de pessoas sem acesso à infraestrutura sanitária básica. Provê-las dessa infraestrutura, missão primeira do Welfare State, implicaria radical diminuição, e não aumento, de seu impacto ambiental.
No mesmo livro, o senhor apresenta como crenças falaciosas duas posições comumente defendidas também por setores progressistas: a de que seria possível um capitalismo ambientalmente sustentável, e a crença segundo a qual “quanto mais excedente material e energético formos capazes de produzir, mais segura (e feliz) será a nossa existência”. Seria, portanto, necessário romper com a própria lógica do crescimento econômico, como apontam aqui na França grupos como o do “decrescimento” e o da “crítica do valor”? Ou ainda, mais além, romper com o próprio estado tecnológico atual, como afirmam, por exemplo, os “anti-industriais”?
A crença de que o crescimento econômico como um fim em si ainda é um bem é errônea. Como afirma Herman Daly, “o termo ‘desenvolvimento sustentável’ […] faz sentido para a economia, mas apenas se for compreendido como desenvolvimento sem crescimento”. A ideia de um decrescimento administrado remonta às teses de Nicholas Georgescu-Roegen sobre as relações inevitáveis entre economia e entropia. Ela se afigura, hoje, como a proposta mais consequente, talvez a única efetiva, para uma sociedade viável. Ela se assenta sobre dois pressupostos, sem a compreensão adequada dos quais ela pareceria absurda. O primeiro pressuposto é que o decrescimento econômico, bem longe de ser uma opção, é uma tendência inexorável. Já estamos crescendo, em escala internacional, a taxas muito inferiores às dos anos 1945-1973 e iremos decrescer dramaticamente num futuro muito próximo, porque estamos esgotando os recursos minerais, hídricos e biológicos do planeta, e porque estamos desestabilizando as coordenadas ambientais que prevaleceram no Holoceno. Um crescimento anêmico ou mesmo negativo já é a nova normalidade do capitalismo. Os poucos países que ainda apresentam taxas elevadas de crescimento são vítimas de estrangulamentos ambientais que imporão em breve também estrangulamentos econômicos. Conscientes de que a ilusão desenvolvimentista está conduzindo à falência os serviços prestados pela biosfera aos seus integrantes, os partidários do decrescimento percebem que um decrescimento administrado seria a única forma de evitar um colapso ambiental, o qual será tanto mais brutal e mortífero quanto mais for protelado.
Segundo pressuposto: o decrescimento administrado é essencialmente anticapitalista. A ideia de decrescimento nos marcos do capitalismo foi justamente definida por John Bellamy Foster como um teorema de impossibilidade. Um mal-entendido tenaz deve definitivamente ser dissipado: o decrescimento administrado não é uma proposta de redução quantitativa do PIB. Ele advoga uma redefinição qualitativa dos objetivos do sistema econômico, que devem passar a ser a adequação das sociedades humanas aos limites da biosfera e dos recursos naturais. Essa adequação implica, como é óbvio, investimentos em áreas e países carentes de infraestrutura básica e, em geral, crescimento econômico imprescindível à transição para energias e transportes de menor impacto ambiental. Mas se trata de investimentos localizados, vetorizados e orientados para a diminuição de impactos ambientais (infraestrutura sanitária, abandono do uso de lenha, transporte público, etc); jamais de um crescimento pelo crescimento. Serge Latouche explicita o liame entre decrescimento e superação do capitalismo: “O movimento do decrescimento é revolucionário e anticapitalista (e até antiutilitarista), e seu programa, fundamentalmente político”.
Sobre a segunda parte da pergunta, o decrescimento não é tecnofóbico. É preciso evitar o mal-entendido que consiste em atribuir a crise ambiental à técnica como se esta fosse uma instância originária. A técnica é a objetivação de uma faculdade inerente a todas as espécies e em uma escala muito maior à nossa. Parece impossível, de resto, separar cirurgicamente seu lado benfazejo de seu lado ominoso. Mais que nunca, de qualquer modo, seu progresso é, hoje, imprescindível pois a inadiável transição para uma sociedade de baixo impacto ambiental requererá aceleração da inovação tecnológica. Pôr o engenho humano a serviço da diminuição da pressão antrópica sobre a biosfera – ao invés de mantê-lo cegamente atrelado a uma anacrônica e disfuncional pulsão acumulativa –, tal é a questão inescapável, definidora de uma nova agenda e de um novo espectro político-ideológico, inconcebíveis enquanto persistir a ilusão de que podemos crescer de modo ilimitado.
Nesse contexto, como situar a crise política brasileira? Encontramo-nos diante da deposição ilegítima de um governo de esquerda, mas cujo projeto não representava, porém, uma ruptura com essa lógica de acumulação capitalista. Tendo em vistas os limites ecológicos do capitalismo, como podemos nos posicionar perante o projeto desenvolvimentista da esquerda brasileira? O risco ambiental de projetos como o da exploração do pré-sal ainda podem valer à pena se seus ganhos forem reconvertidos em políticas públicas de combate à desigualdade? Ou se trataria de apenas mais uma ilusão?
A crise brasileira é a espuma superficial de um problema estrutural e profundo, para o qual os contingentes majoritários da esquerda não estão dando, a meu ver, a devida atenção. A defesa do monopólio do pré-sal pela Petrobrás é um ótimo exemplo do extravio da esquerda. Como se o petróleo da Petrobrás emitisse menos gases de efeito estufa… A esquerda deveria estar lutando, é sua obrigação, pelo fim de todo e qualquer petróleo! O consenso da direita de que o crescimento econômico contínuo é uma condição de possibilidade de uma sociedade segura e próspera tem sido subscrito também pela maioria das agremiações de esquerda, ou que assim se denominam. Os partidos socialdemocratas, socialistas e ex-comunistas na Europa e na Ásia, assim como o PT no Brasil, não apenas integram esse consenso, mas reivindicam maior competência que os governos supostamente situados à sua direita para garantir taxas mais robustas de crescimento econômico. São mais ou menos competentes, que importa? O traço mais distintivo do capitalismo no século XXI é a tendência ao colapso ambiental. Diante dessa tendência definidora de nosso século, conservar o que resta da biosfera tornou-se a condição primeira de possibilidade, não apenas de avanços sociais (os quais serão cada vez mais improváveis e efêmeros, a se manter o paradigma desenvolvimentista), mas da simples manutenção de qualquer sociedade organizada.
Não percebendo a radical novidade da situação histórica atual, e muito menos sua gravidade, as esquerdas em sua maioria, o PT entre elas, ainda dissociam a agenda social da agenda ecológica, reservando a esta última um espaço secundário em seu ideário e em seus programas, isso quando não a desqualificam como um estratagema de dominação imperialista, como na tristemente famosa carta de Aldo Rebelo a Marcio Santili, de 15 de julho de 2010, intitulada “A trapaça ambiental”, carta na qual afirma: “O chamado movimento ambientalista internacional nada mais é, em sua essência geopolítica, que uma cabeça de ponte do imperialismo”. Tal posição negacionista do PCdoB define à perfeição a política ambiental do governo de Dilma Rousseff e é, aliás, quase idêntica à do Partido Republicano dos EUA.
Atardadas na concepção de um planeta estoque-de-recursos (e ainda mais grave: estoque infinito), essas esquerdas distinguem-se da direita apenas por reivindicar mais investimentos nas áreas sociais e uma melhor distribuição de renda e dos serviços. No mais, subscrevem a premissa que legitima como universal o ponto de vista do capital, a saber, a da bondade e mesmo da necessidade de acumulação contínua de excedente e de energia. Escapa-lhes que a única crítica que vai à raiz do sistema capitalista é a crítica dessa premissa e do tipo suicidário de sociedade que ela implica. A protelação de um “aggiornamento” [atualização], melhor seria dizer de um “svecchiamento” [desenvelhecimento], de parte da maioria da esquerda é a maior responsável pela incipiência atual das alternativas políticas às crises socioambientais que se alastram e se agravam.
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O Movimento Democrático 18 de Março (MD18) nasceu da luta contra o golpe de Estado no Brasil. Sediado em Paris, e com grande presença de pesquisadores, professores universitários, artistas e militantes de movimentos sociais, o movimento propõe ampliar a reflexão sobre as possibilidades da esquerda na atual conjuntura de crise. É com esse objetivo que o MD18 inaugura uma série de entrevistas com intelectuais, artistas e militantes de diferentes horizontes, que visam ampliar o debate sobre as formas de resistência que podem e devem advir. O projeto se inicia com a participação de grandes pensadores da esquerda como Michael Löwy, Boaventura de Sousa Santos, Nancy Fraser e Anselm Jappe, além de contar com a colaboração de inúmeros intelectuais brasileiros. As entrevistas serão disponibilizadas em português e em francês no site do MD18.
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Luiz Marques é professor do Departamento de História (IFCH) da Unicamp. Publicou diversos livros e ensaios sobre a Tradição Clássica e, mais recentemente, também sobre a crescente degradação antropogênica dos ecossistemas, entre os quais, “Brazil. The legacy of slavery and environmental suicide” (History of Nations, Londres, Thames & Hudson, 2012); e Capitalismo e colapso ambiental (Ed Unicamp, 2015). Atualmente participa, com um coletivo de professores da Unicamp, da criação do portal Rio+40, dedicado à informação, pesquisa, debate e mobilização acadêmica em torno das crises socioambientais contemporâneas.

Quando o problema é com você?, por Fabrício Longo.


Você
Você diz que faz sua parte mas não admite culpa por nada. Você acha que todos problemas do mundo são “globais”, que “é cada um por si”. V-O-C-Ê. Você se incomoda com essa palavra. Você acha injusto quando ela aparece para te lembrar da sua participação nas coisas. Você grita, esperneia, diz que não. Você não vê que tudo que afeta a mim, a nós e a eles é seu também. É nosso. Geral sim, só que por inclusão. Não adianta tentar se omitir…
Outra semana, outro tiro. Outro estupro de alguém que pediu, outro suicídio do cara muito gordo para caçar sexo no aplicativo, outro negro atirado às masmorras do nosso sistema carcerário ou executado porque estava sem camisa no lugar e na hora errados. Quantos gays não se dão ao respeito? Quantas travestis metem medo só de olhar? Quem provocou ou deu a entender que merecia uma lampadada? Quem estava pedindo para morrer em uma boate? Quem é o culpado? O que você tem com isso? Por que qualquer coisa pode acontecer desde que não atinja VOCÊ?
Parece que sempre que a palavra “você” é usada, as pessoas levam tudo para o lado pessoal. Faz sentido, já que “você é você”. Entretanto, em geral os assuntos tratados são aqueles que todo mundo insiste em considerar “dos outros”, os problemas sociais que até conquistam a nossa solidariedade mas não nos afetam diretamente. Então o que existe de ruim quando o destinatário é “você”? Se você – de fato – não tem “culpa no cartório”, porque essa generalização incomoda tanto? A carapuça serviu? Será que lá no fundo você não sabe que também é parte do problema? Desculpe, mas é o que parece!
Qualquer coisa direcionada a “você”, pode mesmo ser para você. Por mais inteligentes, empáticos, bonzinhos, legais, desconstruídos, críticos, estudados ou maravilhosos que podemos ser, não estamos livres de errar e especialmente de errar sem perceber. Então alguém vem e aponta este erro, o que muitas vezes pode não ser feito da maneira mais educada, mas independente das palavras, a gente se irrita e se ofende com a POSSIBILIDADE de estar errado, inclusive ao desconsiderar que isso não seria nem inédito e nem necessariamente ruim. A pessoa do outro lado não é forçosamente uma inimiga e pode ser que você não seja mesmo o destinatário.
Que seja esse “você”, que funciona como figura de linguagem, apenas para instigar o leitor a pensar sobre si, ainda que ele possa concluir não ter nada com aquilo. Até mesmo a mais generosa das pessoas cedo ou tarde vai esbarrar em algum limite, em alguma “parede” daquilo que pode ou não pode fazer ou entender. Ou seja, é impossível que uma mensagem abrangente, sobre um problema comum, tenha destinatário definido. A não ser que ela venha com nome e sobrenome, tanto pode ser você quanto qualquer vizinho. Eu, tu, eles, nós, vós, eles.
Tanto a política praticada por movimentos sociais quanto o discurso de ódio funcionam – conscientemente ou não – com a mesma lógica de campanhas publicitárias. Assim como no jornalismo, o que se diz e principalmente COMO se diz importa, já que é capaz de conduzir as emoções de quem lê. É assim, entre títulos mirabolantes, memes, fotos, likes e vídeos que a comunicação vai construindo e ao mesmo tempo refletindo o que pensa a sociedade. É um processo eternamente circular. Evidentemente que as grandes corporações de mídia e as celebridades possuem grande responsabilidade, já que seu alcance e poder de influência é maior. Porém não significa que nós, eu e você, os “pobres mortais”, não precisemos pensar sobre o que falamos entre amigos ou publicamos em nossas redes.
Hoje não atirei em ninguém e nem estuprei ninguém.
Não acho que tenha sido racista.
Hoje.
Eu certamente possa me revoltar se for acusado de alguma coisa através de uma generalização sem destino definido, mas preciso ter a consciência de que posso ter contribuído para algum desses fatos chocantes através de atitudes que eu considerava inofensivas. Claro, pode até ser “mania de perseguição” de alguém “do outro lado”, mas aí se nenhum argumento conseguir me convencer do erro eu posso ao menos pedir desculpas ou tentar não fazer mais.
Para se sustentar, qualquer coisa precisa de uma base. Até algo “instintivo” como o ódio, a intolerância, a raiva ou o “gosto pessoal” precisa disso. As ideias devem estar disseminadas por toda a população. E somos mesmo todos iguais. Todos humanos, todos falhos, todos células de um corpo gigante consumindo o planeta.
Se um problema não te afeta, talvez o problema seja VOCÊ.
Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Massacre em Orlando também não aconteceu, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.


Há pouco mais de seis meses o “Cinegnose” afirmava que o atentado à casa de show Bataclan em Paris não havia acontecido. O mesmo agora ocorreu com o massacre na casa noturna LGBT Pulse, em Orlando, EUA. Claro que essa afirmação é uma alusão à tese do filósofo francês Jean Baudrillard de que eventos atuais como o atentado ao WTC em 2001 não “acontecem” por serem eventos prioritariamente destinados ao impacto no contínuo midiático. Pelas recorrências presentes nesses atentados (sincronismos, coincidências etc.), deixam de ser eventos “históricos” para tornarem-se narrativas que confirmam agendas de Estado e pautas prontas das redações da grande mídia. Em todos esses eventos repetem-se os mesmos “plots”: a mitologia do “lobo solitário” que era velho conhecido da inteligência; estranhas ligações com o governo; o suicídio (variando com a execução do atirador); depoimentos contraditórios; exercícios de simulação nas proximidades do atentado; além de pistas deixadas na cultura pop.


Os leitores mais assíduos do Cinegnose devem ter percebido que a busca de recorrências é o método preferido desse blog, seja no campo cinematográfico como também no estudo dos eventos midiáticos.

Acontecimentos tornam-se eventos midiáticos quando percebemos neles recorrências que caracterizam padrões ou a construção de uma narrativa.

Em muitas postagens viemos destacando o modus operandi da grande mídia na produções de notícias, tão invertida como a famosa pirâmide do método do texto jornalístico: repórteres vão a campo com uma pauta ou script pré-definido pelos seus editores e chefes de redação – fatos e depoimentos serão sempre índices ou evidências que confirmarão uma narrativa. O texto já está pronto. Resta ao jornalista preencher as suas lacunas.

 A grande mídia internacional, que a brasileira obedientemente replica, tem uma agenda e uma narrativa recorrente desde o 9/11 dos EUA: a guerra ao terrorismo internacional, mais precisamente o chamado “choque das civilizações” – Ocidente X muçulmanos.

Diversos sites alternativos (sejam os chamados “conspiratórios” ou os jornalísticos alternativos) vem apontando ligações suspeitas, recorrências e “coincidências” no massacre de Orlando. O que indicam que o atentado à casa noturna LGBT Pulse foi mais um evento midiático que reforçaria esta narrativa.

Por “evento midiático” poderíamos compreender desde um evento false flag, “trabalho interno” ou um cenário de terror propositalmente preparado para impactar o contínuo midiático e a opinião pública, reforçando o apoio a atual agenda do governo norte-americano da guerra ao terror.


Recorrências ou “plots”


Vamos mapear algumas dessas recorrências ou “plots” que tornam o massacre de Orlando (já rotulado pela grande mídia como o pior atentado desde 9/11), no mínimo, uma narrativa com peças que repetem tantas outras como o atentado da Maratona de Boston ou aqueles ocorridos na França no ano passado.

(a) O atirador e seu pai 


Como sempre, o atirador Omar Mateen era investigado pelo FBI, mostrando como estranhamente os serviços de inteligência parecem ter dificuldade de lidar com “lobos solitários”.

Omar foi interrogado três vezes em 2013 por suas supostas conexões com o ISIS e Taliban. Se Omar estava já há algum tempo no radar do FBI e sua vida era investigada, como foi possível planejar e executar o massacre? Segundo as notícias, ele circulava por parques como a Disney escolhendo o melhor lugar para cometer um atentado.  

Assim como os terroristas da casa de show Bataclan, em Paris, que também eram considerados “perigosos extremistas” e eram observados pela inteligência francesa.

As coisas começam a ficar mais esquisitas quando sabemos que Omar estava empregado em uma empresas de segurança britânica chamada G4S Plc desde 2007, firma que conta com clientes em mais de 100 países. Incluindo o governo dos EUA, desde os atentados de 9/11 – sim, ele tinha posse das armas que usou no atentado: uma AR-15 e pistola. Omar tinha uma licença para o trabalho de segurança na Flórida.

A G4S tem contratos com o governo de 89,3 milhões de dólares em 2015, providenciando segurança em aeroportos, prisões, instalações portuárias e transporte de dinheiro. Segundo o Chicago Tribune, o FBI não quis comentar se comunicava à empresa suas investigações sobre as atividades do seu empregado Omar Mateen.

As informações sobre o pai de Omar, Seddique Mateen, são um verdadeiro prato cheio para os teóricos da conspiração: ex-candidato às eleições presidenciais no Afeganistão, teve um encontro em 2015 com importantes membros do Departamento de Estado do Congresso norte-americano de acordo com o Independent Journal.

Pai de Omar em visita ao Departamento de Estado - foto postada no Facebook

(b) A mitologia do atirador solitário 


Outro elemento recorrente é a narrativa do atirador solitário que, embora sem treinamento militar, é sempre extremamente rápido, calmo e preciso. Sandy Hook, Aurora, San Bernardino etc. repetem a mesma história: são verdadeira máquinas de matar, precisas e frias. Nesse caso da casa noturna Pulse, os primeiros questionamento foram em torno dessa performance precisa onde um atirador consegue ferir mais de 100 pessoas, destas matando 50?

(c) Depoimentos contraditórios 


Isso conduz a um sintoma que denuncia o artificialismo da construção narrativa: testemunhos divergentes entre os sobreviventes – sobreviventes falam em apenas um atirador, enquanto outros relatam participações de outras pessoas.

O canal do YouTube DAHBOO 777 conseguiu gravar um flagrante em uma transmissão da emissora de TV Fox News. Um sobrevivente dava um depoimento ao vivo quando começou a revelar o mais importante detalhe na tragédia da Pulse: a testemunha dizia que “algumas pessoas” seguravam as portas, impedindo as vítimas de fugirem da casa noturna – veja o vídeo abaixo.


O testemunho da vítima foi imediatamente cortado e a testemunha retirada da transmissão ao vivo.

A SuperStation95 FM de Nova York reportou que outro sobrevivente, Janeil Gonzalez, viu no momento do ataque outros homens segurando as portas para evitar fugas. A emissora FM informou que esses depoimentos estão sendo sistematicamente cortados das redes de TV americanas.

Foi necessário a Swat abrir com explosivos, uma passagem para a fuga dos sobreviventes, além de matar o próprio atirador. A grande mídia não questiona o porquê disso: um homem segurou todas rotas de fuga?


(d) O atirador é morto ou se mata 


Outro elemento clichê dessa narrativa: no final o atirador comete suicídio ou rapidamente é morto pela ação dos policiais. Outra variação dessa fórmula é uma emocionante perseguição em alta velocidade transmitida ao vivo. Estranhamente parece que os serviços de inteligência não querem interroga-lo ou extrair dele mais informações que levem à descoberta da rede terrorista. Será por que essas informações, divulgadas pela grande mídia, levaria a eles mesmos?

(e) Exercícios de simulação na proximidade dos atentados 


Tal como no evento dos atentados de Paris, sempre na proximidade da tragédia há algum tipo de exercício de simulação onde policiais ou para médicos participam em situações análogas ao atentado que irá ocorre.

Recentemente em Orlando havia ocorrido um exercício de simulação de vítimas de atentado por atirador, a Conferência de Enfermagem de Emergência com socorristas do Gabinete de Orange County Sheriff e bombeiros. Os participante sabiam que fariam parte de um exercício de socorro, mas não sabiam que seria incluído uma simulação de evento com um atirador em massa – clique aqui e assista à matéria da Wesh2News.


(f) Pistas na cultura pop 


Aqui estamos diante de uma recorrência de natureza sincromística: muitas vezes envolve a representação do próprio incidente que teria ocorrido em um filme ou programa de televisão. Em outros casos, pode envolver a colocação visível ou mesmo imperceptível de detalhes aleatórios do ataque em filmes e na televisão. Por exemplo, no filme The Lone Gunman, um spinoff de curta duração da série Arquivo X mostra uma história onde um avião de passageiros era sequestrado por controle remoto e estava sendo levado contra as torres do World Trade Center. Em The Dark Knight Rises,  há uma referência muito curioso para Sandy Hook com um mapa de Newtown, Connecticut na parede.

Um evento trágico envolvendo a cultura pop foi uma sombria introdução ao que estava por vir: também em Orlando, na madrugada do sábado, a cantora Christina Grimmie (terceiro lugar no programa The Voice) foi assassinada após um show por mais um atirador solitário no momento dos autógrafos aos fãs... e que também teve o destino clichê: matou-se.

(g) Quem ganha? 


Para os especialistas em teorias da conspiração, essa é a principal pergunta a ser feita diante de uma Operação False Flag.

Seja um False Flag ou um Trabalho Interno, essas estratégias possuem duas funções: reforçar uma agenda pré-existente, além de ser uma tática diversionista.

 Imediatamente após o massacre em Orlando a grande mídia passou a concentrar o debate na polêmica do controle de armas e na homofobia, desviando da evidente demonização do bode expiatório que é o verdadeiro objetivo: a conexão natural entre islamismo e intolerância. O que reforça a agenda do chamado “choque de civilizações”, ideologia que legitima a política externa norte-americana.


Homofóbicos são covardes. Preferem atacar em bandos indivíduos isolados e acuados. A narrativa de um homofóbico fortemente armado entrando em uma casa noturna lotada para efetuar um massacre em massa foge totalmente ao perfil dessas pessoas.

Outros analistas falam que essa tragédia reforça o discurso racista e xenófobo do candidato republicano Donald Trump.

Essa é outra estratégia diversionista de busca de outro bode expiatório para a crescente intolerância na sociedade norte-americana, como se Trump fosse uma anomalia.

A agenda do “choque das civilizações” e as supostas Operações False Flag do século XXI são a verdadeira origem da escalada de ódio, promovida pelo terrorismo de Estado e não por “lobos solitários” ou candidatos aloprados com discursos “de direita”.

Observe na foto acima como os senhores da guerra exercitam seu voyeurismo acompanhando on line a caça e a morte de Bin Laden, excitados e tensos como acompanhassem uma jogada em um vídeo game. É a sala de guerra do terrorismo de Estado.

Entrevista inédita com Borges: “Sou um anarquista conservador”, por Claudio Péres Miguez.




Claudio Pérez Míguez e Jorge Luis Borges em 1982 em Buenos Aires.

Quando eu cursava o terceiro ano do ensino secundário, em Don Bosco, distrito de Quilmes, na província de Buenos Aires, com quinze anos de idade, a professora de literatura, uma espanhola radicada desde pequena na Argentina e grande admiradora da obra de García Lorca, Josefa Iglesias de Fanelli, deu como trabalho prático que escolhêssemos alguém para entrevistar.
A literatura e a figura de Borges, tão polêmica naqueles anos, já tinham chamado a minha atenção, por isso tive a ideia de fazer a reportagem com ele. Nem eu nem as pessoas com quem eu convivia tínhamos contatos no meio literário, daí a ideia de ver se encontrava o número dele na lista telefônica. Procurando por Borges, vi que o telefone ainda estava em nome da mãe dele, Leonor Acevedo de Borges, que já era falecida. Lembro-me do número até hoje: 42-2801. Liguei imediatamente e fui atendido por Fanny Úbeda, a mulher que cuidava da casa, que me disse que Borges estava em viagem.



Como havia um prazo para entregar o trabalho, tentamos outras pessoas para cumprir a tarefa, mas, quando faltavam dois dias, ocorreu-me a ideia de tentar novamente. Fui de novo atendido pela senhora Fanny, e quando já esperava falar com alguma outra pessoa para explicar minha ideia para que esta então a transmitisse para Borges, ela passou o aparelho diretamente para ele, que, depois de ouvir a minha solicitação, disse: “Venha amanhã ou depois de amanhã, entre 10 e 10 e meia”. Naquela mesma noite, preparei as perguntas. Mostrei-as ao meu pai, para que me desse a sua opinião sobre o questionário, e ele me sugeriu que eu, em vez de tentar fazer uma entrevista imitando as que eram feitas pelos jornalistas em busca de uma declaração bombástica para dar um bom título, tentasse encará-la do meu ponto de vista, focando naquilo que poderia ser do meu interesse, com a idade que eu tinha. Pareceu-me um bom conselho, e procurei mudar as perguntas nesse sentido.
Como se tratava de um trabalho em grupo, convidei meus colegas e vários deles me acompanhavam quando cheguei à casa de Borges, é claro, às 10 horas da manhã do dia seguinte.
Esse encontro possibilitou que eu passasse a visita-lo com frequência na sua casa, levando-o a falar com os alunos na minha escola, a visita a minha casa, em um grande número de encontros que certamente moldaram o meu gosto pelos livros e pelo universo da literatura. Mas isso já outra história. Voltando ao que nos diz respeito: a entrevista foi feita no apartamento de Borges, na rua Maipú, 994, em Buenos Aires, no dia 29 de julho de 1982, mais de um ano antes da volta da democracia à Argentina. O resultado é este que transcrevemos a seguir e que permanecia inédito até agora. “Para mim, nem parece” que já se passaram mais de três décadas desde a sua morte. “O tempo que os mármores desgasta” muda muitas coisas, outras não. Suas palavras continuam a iluminar o meu caminho.
Poderia nos contar como era formada a sua família?
Sim. Minha mãe era descendente de europeus, católica, mas católica da maneira argentina, ou seja, mais por uma questão social do que teológica. Minha avó inglesa era de tradição protestante, de pastores metodistas. Sabia a Bíblia de cor. Você recitava um versículo qualquer, e ela dizia, sim, Livro de Jó, capítulo tal, versículo tal, e assim em diante. Entre os protestantes, tem muita gente que conhece a Bíblia de cor. Nos hotéis, por exemplo, na Inglaterra, na Escócia e também em Nova York, tem sempre uma Bíblia na gaveta do criado-mudo. Além, disso, as citações bíblicas, que podem soar pedantes em castelhano, são muito comuns em inglês. As pessoas estão sempre fazendo citações de versículos da Bíblia ou de frases bíblicas, e não soa nada pedante. Em contrapartida, nos países católicos, pareceria uma coisa forçada. De forma que minha avó era muito religiosa, metodista.
A família de minha mãe era católica, como eu dizia, à maneira dos países latinos, de uma forma superficial. Meu pai era agnóstico, quer dizer, um livre pensador, e todos nos dávamos muito bem; isso jamais foi motivo de discórdia.


Meus avós participaram da campanha pela independência, depois das guerras civis, da guerra com o Brasil, tudo isso

O que mais posso dizer sobre a minha família? Meu pai era professor de Psicologia no Colégio de Línguas Vivas, e lembro muito bem o quanto ele ganhava, era também advogado, assessor cível. Tinha de dar duas aulas de Psicologia por semana no Colégio e lhe pagavam 100 pesos por mês. Cem pesos por mês era um bom dinheiro na época, sendo que hoje em dia diz mais respeito à literatura fantástica. Hoje, 100 pesos não significam nada. Naquele tempo sim; tudo era muito mais barato do que agora. Lembro que o dólar valia 2 pesos e cinquenta centavos. Acho que hoje o valor dele subiu bastante, não? Acho que a nossa moeda é a mais barata do mundo.
Do lado do meu pai e minha mãe, era uma família militar. Meu avô, o Coronel Francisco Borges, morreu, realmente, na batalha de La Verde, que aconteceu perto do vilarejo de 25 de Maio, na província de Buenos Aires. Meus avós participaram da campanha pela independência, depois das guerras civis, da guerra com o Brasil, tudo isso.
Agora, do lado da minha avó inglesa, não. Eram pastores e professores.
Quais estudos o senhor fez?
Poucos. Estudei no Collège de Genebra, estudei e tenho o meu diploma. Ali havia duas matérias principais, que eram o francês e o latim. Eu logo percebi que, se estudasse bastante o francês e o latim, poderia prescindir das outras matérias, o que fez com que me tornasse uma pessoa extremamente ignorante, pois tive aulas de física, botânica, mineralogia, zoologia, música, ginástica, química, e não sei absolutamente nada sobre esses assuntos. História, sim, disso eu gosto. Mas, na Suíça, a aula de história não era obrigatória, e sim opcional. Se quiser, você pode estudar História suíça, se não quiser, não estuda. Eu tinha muito interesse em conhecer a história da Suíça, pois vivia ali, , por isso estudei. São obrigatórias a história antiga, a moderna etc; mas a suíça, não.
Esse é o único diploma que eu tenho. Todos os outros são títulos Honoris Causa, que são apenas fruto de generosidades. Sou Doutor Honoris Causa de Tucumán, de Nova York, de universidades italianas, colombianas, mexicanas, também de Harvard, de Oxford, da Sorbonne, mas acredito que posso ser chamada do doutor, já que esses títulos de Honoris Causa são um favor que outorgam a algumas pessoas, e é claro que agradeço a eles, pois é uma honra, embora eu não saiba se realmente a mereço.


Esses títulos de Honoris Causa são um favor que outorgam a algumas pessoas, e é claro que agradeço a eles, pois é uma honra, embora eu não saiba se realmente a mereço

Pessoalmente, posso dizer apenas que sou formado no Collège de Calvino de Genebra.
Com que idade o senhor tomou consciência de sua vocação literária?
Eu não sei. Não me lembro de uma época em que não lesse ou escrevesse. Eu sempre estava lendo e escrevendo. Mas meu pai me disse para só ler aquilo que me interessasse, que não lesse um livro pelo sentimento de dever, porque era famoso. Que eu lesse apenas quando me interessasse, e que só escrevesse quando tivesse necessidade de fazê-lo. Que eu escrevesse muito, que descansasse muito e que não me apressasse para publicar, já que publicar não é parte necessária do destino de um escritor.
Como conseguiu publicar seu primeiro livro?
Meu primeiro livro foi publicado tardiamente. Eu tinha 24 anos. Chamava-se Fervor de Buenos Aires e foi publicado aqui, em Buenos Aires. Meu pai me deu 300 pesos, que me permitiram imprimir 300 exemplares. Não foi colocado à venda. Reparti entre meus amigos. Me agradava muito. Mas, na realidade, era o quarto livro que eu escrevi. Tinha escrito três antes que, curiosamente, destruí. Talvez devesse ter destruído esse também.
Como surgem suas obras? O senhor se senta para escrever sistematicamente ou o faz quando sente a necessidade?
Isso é muito complexo. Eu sinto que há algo que quer que eu escreva sobre ele, e eu tento dissuadi-lo. Mas se há um assunto que volte, um argumento de um conto ou um poema, então escrevo. Me parece um erro procurar assuntos. É preciso deixar que os assuntos procurem e encontrem alguém. Senão saem livros fabricados.
Creio que todo o mundo escreve assim, ainda que os jornalistas, não. Eles procuram assuntos. E, por exemplo, um escritor que admiro muito, Capdevila, escreveu um livro sobre as 14 províncias argentinas. É muito estranho que todas tenham lhe interessado e que tenham lhe interessado de maneira favorável. Isso é fabricar um livro. Eu, por exemplo, escrevi um poema em homenagem à água, mas não me ocorreu escrever para o fogo, a terra e o ar. Seria uma coisa mecânica. Escrevi um poema para a água porque me interessava. De modo que procurar assuntos é um erro. Há escritores que se propõem a escrever sobre a vida dos camponeses de tal lugar, e assim saem os livros.


Me parece um erro procurar assuntos. É preciso deixar que os assuntos procurem e encontrem alguém. Senão saem livros fabricados.

Qual de seus livros é o seu favorito e por que?
Bem, a maioria não me agrada. Me conformo com eles. Aproveitei as chamadas obras completas para omitir dois livros. Para mim, meu melhor livro é o que se chama El Libro de Arena. É de fácil leitura, um livro curto, não uso nenhuma palavra que solicite o uso do dicionário. É um livro de contos, e outro livro de contos de que gosto é El Informe de Brodie. El Libro de Arena é o único com o qual estou satisfeito. Talvez o tempo também julgue o mesmo e apague os demais, que são realmente rascunhos apagáveis.
Mas há muita gente que admira toda a sua obra...
Sim, mas não me encontro entre eles. Isso é um erro, e eu não sei se agradeço, porque não sei se podemos agradecer aos erros.
Como o senhor definiria a si mesmo?
Se eu tivesse que me definir diria um escritor, ainda que talvez fosse melhor dizer um leitor, já que creio que sou melhor leitor do que escritor.
Como é um dia na vida de Jorge Luis Borges?
Bom, de manhã, se tenho sorte, recebo a visita de jornalistas de Quilmes. Mas geralmente meus dias não são tão favoráveis, portanto faço uma sesta e escrevo algo.
O que é a amizade para o senhor?
Quando Eduardo Mallea publicou o livro História de Una Passión Argentina, eu pensei: deve ser sobre a amizade, já que a amizade é a paixão argentina, talvez a única. Eu tenho essa impressão de que a amizade é muito importante para nós, o que está bem, não?
Como definiria Buenos Aires?
Eu tenho um poema, no meu último livro, que se chama La Cifra. Vou citar o primeiro verso, que é uma definição: “Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires”. Ou seja, que mudou tanto que é outra. É que uma pessoa não chega aos 83 anos impunemente. Aos 83 anos, quase todos os meus amigos estão na Recoleta. A cidade mudou totalmente. Eu nasci no centro de Buenos Aires, na rua Tucumán, entre Esmeralda e Suipacha. Todo o quarteirão, salvo o armazém que ficava na esquina, era de casas baixas, com terraços, pátios e cisternas. Havia algumas casas altas construídas depois, na rua 25 de Maio ou na Reconquista.
O que o senhor diria aos jovens que começam a se interessar pelos problemas do país?
Eu não sei. Há tantos problemas. Na melhor das hipóteses este país consegue se salvar, apesar de eu não ver como. A situação é ruim. Não só aqui como no mundo inteiro. Talvez todos os momentos sejam terríveis e estejamos sentindo mais este porque está mais próximo. Não vejo salvação possível e talvez caminhemos para a terceira guerra, que pode ser a última. O que está acontecendo no Líbano, o que aconteceu aqui, o que está acontecendo no Iraque e no Irã. Esperemos que não, porque seria um suicídio da humanidade.


Não vejo salvação possível e talvez caminhemos para a terceira guerra, que pode ser a última

O senhor acredita que os jovens devem se interessar pela política?
Não sei. Eu nunca me interessei por política. Me interesso mais pela ética. Creio que se cada pessoa age de maneira ética, isso pode ter um efeito político muito grande.
Que forma de governo o senhor prefere?
Eu gostaria de ter um governo mínimo, mas lamentavelmente os governos – até os maus governos – ainda são necessários. Como a polícia, que evidentemente é necessária. Se fôssemos eticamente perfeitos, os governos não seriam necessários. Eles são um perigo, sem dúvida. Mas eu não posso opinar em matéria de política. Sou um anarquista conservador. Meu pai era anarquista. Uma vez fomos a Montevidéu e meu pai me disse para prestar atenção nas bandeiras, nos postos alfandegários, nos uniformes, nas igrejas, nas delegacias, porque tudo isso iria desaparecer. Nós, quando fomos à Europa em 1914, viajamos sem passaporte. Não existia passaporte. Você passava de um país a outro como de uma sala a outra. Em seguida veio a Primeira Guerra Mundial, a desconfiança, a espionagem, e agora tudo mudou, não se pode dar um passo sem se identificar. É muito triste. Espero que em Quilmes as coisas estejam melhores do que em Buenos Aires.
Como o senhor imagina o futuro da Argentina?
Quero pensar que já terei morrido, mas acredito que vamos ladeira abaixo. Eu já não tenho esperança. Vocês são jovens, talvez tenham esperanças. Eu já não tenho nenhuma.
Muitas declarações suas geram polêmica, e há quem acredite que o senhor procura justamente esse efeito...
Claro que não! Quem pensa isso não me conhece em nada.
Para terminar, o senhor gostaria de nos deixar algum conselho ou mensagem?
Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.