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terça-feira, 14 de maio de 2019

Sete ideias de brasilidade – Central de Prédios, por André Motta Araújo


Então vamos a algumas ideias para melhorar a economia, a inclusão social, a vida em comunidade, as relações políticas, o bom governo, o convívio entre gerações, em sete capítulos.
 
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Sete ideias de brasilidade – Central de Prédios

por André Motta Araújo

Após dezenas de artigos críticos à política econômica cabe o comentário, “mas você só sabe criticar?” Então vamos a algumas ideias para melhorar a economia, a inclusão social, a vida em comunidade, as relações políticas, o bom governo, o convívio entre gerações, em sete capítulos.
CENTRAL DE PRÉDIOS
A administração pública federal (o mesmo com os Estados e Municípios) não tem critérios lógicos de economia para construir, comprar ou alugar prédios.
Será por intenção de navegar na corrupção, será apenas por incompetência, muitas vezes vaidade do administrador, o dinheiro público é desperdiçado em más escolhas, algumas absurdas.
O governo deveria CENTRALIZAR a decisão de gastar dinheiro público com espaço imobiliário porque o que se desperdiça nesse tema é incalculável. Secretarias deveriam estar em regiões centrais e baratas, que tem muitos prédios vazios e nunca nas regiões nobres, como é o caso de seis Secretarias do Estado de São Paulo na região da Paulista, de metro quadrado caro.
Em Brasília há mais absurdos ainda. A Secretaria de Aviação Civil saiu do Centro Cultural do Banco do Brasil, que ao fim é do próprio Governo, para um prédio luxuoso no centro financeiro de Brasília, torre de vidro, moderníssimo, aluguel caro. Quem decidiu isso?
O Ministério do Esporte sai de um prédio bom na troca de Ministro (Aldo Rebelo para George Hilton) para um prédio muito maior, SEM NENHUMA NECESSIDADE. No prédio anterior havia espaço sobrando.
Mas as maiores aberrações estão nas “corporações”. O Ministério Público do Trabalho em São Paulo estava em prédio pequeno, modesto e sóbrio na região da Praça da República e vai para um monumental prédio novo tipo, de 25 andares, na Rua Afonso de Freitas, região da Av. Paulista. Será que o número de funcionários se multiplicou por 20 de repente? Qual o custo de aluguel desse prédio novo?
Na Alameda Itu, região super nobre, entre Alameda Campinas e Alameda Joaquim Eugenio de Lima outro monumental prédio novo, estilo sede do banco americano pela suntuosidade e presença, tipo 28 andares, quem alugou? A Turma de Julgamentos Fiscais do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
É um esbanjamento de dinheiro público injustificável. São Paulo tem centenas de prédios vazios de aluguel modesto, para quê esse luxo na acomodação de burocracias?
O INCRA em São Paulo está em um prédio só dele na Rua Brasilio Machado, em Higienópolis, cercado por edifícios de apartamentos de luxo. Não poderia estar na Mooca, no Brás, no Bom Retiro, na Penha? Qual clientela demanda o INCRA?
Os prédios de excelente localização e aluguel caro não são escolhidos para conforto dos cidadãos, são selecionados para conforto dos burocratas.
Tanto é verdade que os prédios dedicados a atender a pobreza, as unidades de saúde, são modestíssimos e mal localizados, lá não há burocratas para ter conforto, é só para atender o povão e os servidores não são burocratas, são modestos como os cidadãos que demandam o atendimento.
O CASO DA CIDADE ADMINISTRATIVA DE MINAS GERAIS
Tenho simpatia pela urbanidade de Aécio Neves, sempre educado e atencioso, mas não perdoo a ideia absurda da Cidade Administrativa de Minas Gerais, um elefante branco símbolo de esterilização de recursos públicos em coisa inútil, longe de Belo Horizonte e no meio do nada, para abrigar burocratas.
A lógica sempre seria a de recuperar o centro de Belo Horizonte, gastando 10% do que custou a Cidade Administrativa e na tendência mundial de recuperação dos centros históricos. A Cidade Administrativa é feia, distante, deprimente, disfuncional, despreza a História de Minas Gerais e dificulta e encarece a administração pela necessidade de deslocamento de 40 quilômetros de ida e volta, ao mesmo tempo empobrecendo Belo Horizonte. Mas que ideia louca foi essa?  É um símbolo do desperdício de dinheiro público em alta escala, o nada não fecunda nada.
Uma CENTRAL deveria dar a última palavra para qualquer aluguel de prédio pago com recursos públicos, com PARAMETROS de economicidade, funcionários por metro quadrado, várias opções antes de se decidir. Hoje, a conta de alugueres da União passa de 3 bilhões por ano, grande parte é desperdício, mesmo sem corrupção. É a volúpia do esbanjamento, é a vaidade do alto funcionário, o dinheiro público não tem dono, não é mesmo?
Em próximos artigos continuarei com sugestões para o Brasil usar recursos com maior racionalidade e civilidade.

A política econômica do nada, por André Motta Araújo


Não há maior perigo para a gestão da politica econômica do que o "economista de cartilha", que leva o País ao abismo para provar que a cartilha está certa. É o que temos hoje com Paulo Guedes, um mega exemplo do trem a caminho do precipício
 
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No ultima dia 11, o programa Painel da GloboNews apresentou um curioso debate entre um economista neoliberal absoluto, Marcos Mendes, ex-chefe da assessoria econômica do Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, e o prof. José Francisco de Lima Gonçalves, da USP, representante da escola “paulista” de pensamento econômico, em contraposição ao credo da Escola de Economia da PUC-Rio, catedral do neoliberalismo carioca e suas ramificações no Instituto Millenium, na Casa das Garças e no Instituto von Mises, todos no Rio, mantendo a tradição anti-desenvolvimentista que vem de Eugênio Gudin contra a linha progressista de Roberto Simonsen, que nos anos 40 representava a visão econômica pro desenvolvimento dos paulistas.
No debate, Mendes defendeu que não há política econômica alguma a fazer fora das reformas e da “melhoria do ambiente de negócios”, além de privatizações e concessões, no super desgastado receituário da Escola de Chicago, que tal qual o positivismo, só tem crentes no Brasil.
De outro lado, Lima Gonçalves disse que é preciso fazer politica econômica, no conceito amplo da palavra, com uma agenda de relançamento da economia.
Mendes retrucou que a causa da atual recessão é o governo Dilma, portanto não há nada a fazer, porque qualquer coisa que se faça seria a repetição do governo Dilma. A pobreza dessa crença é de tal ordem que ficou difícil sequer continuar a discussão.  O velho cajado do pensamento binário, ou é isso ou é aquilo, contra o qual não se discute, a obtusidade impera, a limitação intelectual fecha o debate, só há duas opções no mundo. Seria curioso saber o que Mendes pensa da China, que não faz reformas, privatizações ou concessões e cresce com planejamento de Estado.
CURTO PRAZO E LONGO PRAZO
Mendes vê esperanças de crescimento após as reformas e a “melhoria do ambiente de negócios”, mas isso vai demorar, ele mesmo confessou.
Quanto vai demorar, cinco, dez anos? Ora, disse Lima Gonçalves, minha preocupação é com 2019, com o próximo Natal, se não há curto prazo, não haverá longo prazo, o que é óbvio até para uma criança mas não para Mendes. Se atravessarmos dez anos mais de recessão para então chegar a bonança do crescimento, pelo caminho o Pais já acabou pelo desmanche dos sistemas de saúde, educação, pelo inevitável aumento exponencial do crime resultante da inexistência de empregos por décadas, desestruturação das famílias e das condições minimas de sobrevivência.
POLITICA ECONÔMICA NÃO É ‘MODELO, É PILOTAGEM DIA A DIA
O problema de economistas de “escola” é que usam um só remédio para múltiplas doenças. Esse tipo de pensamento de “escola” não serve para comandar a economia de um grande Pais, razão pela qual os Estados Unidos JAMAIAS tiveram sua economia dirigida por “escola” de pensamento econômico, o comando sempre foi ECLÉTICO, dia a dia, já apontei em artigo anterior a trajetória de dois Secretários do Tesouro recentes em épocas de prosperidade, Donald Regan e James Baker, nenhum dos dois economista, eram advogados e OPERADORES POLÍTICOS, como nossos grandes Ministros da Fazenda.
Não há maior perigo para a gestão da politica econômica de um grande País do que o “economista de cartilha”, que leva o País ao abismo PARA PROVAR QUE A CARTILHA ESTÁ CERTA. É o que temos hoje com Paulo Guedes, um mega exemplo do trem a caminho do precipício, mas sempre seguindo a cartilha.
AS RIDÍCULAS PREVISÕES DO BOLETIM FOCUS
Já cansei de escrever aqui a incompatibilidade com a inteligência apresentada por “economistas de mercado” que fazem previsões. Mandam as previsões para o famigerado boletim FOCUS do Banco Central – que raramente combinam com a realidade, mas ganham bons salários, 30, 40 50 mil?
Há seis meses previam crescimento do PIB entre 2,5% a 2,8% para 2019, agora já refazem para dizer que mal chegará a 1%.
Mas como poderia haver crescimento de 2,5 a 2,8% sem NENHUMA politica de crescimento, quer no governo Temer, quer no governo Bolsonaro, ambos com a mesma NÃO POLITICA, a politica de não fazer nada? Entre Meirelles e Guedes há apenas uma diferença de tempero: Meirelles é mais educado.
CORTAR, CORTAR, CORTAR até o cavalo do inglês morrer de fome, seguindo o método infalível (para o desastre) da Escola de Chicago.
Ah, dirão (e disse) os Mendes da vida, uma politica de estímulos pode fazer crescer 3% no primeiro ano mas não é sustentável.
É o dilema do moribundo: temos um remédio que não deixa o senhor morrer por um ano mas depois não garantimos.
Outra opção é um remédio que pode fazer o senhor durar dez anos mas não garantimos o primeiro ano, qual o senhor prefere?
QUALQUER CRESCIMENTO no primeiro ano é melhor para quem passa fome do que NENHUM CRESCIMENTO agora e um talvez daqui a dez anos.
REFORMAS, PRIVATIZAÇÕES E CONCESSÕES NÃO CRIAM EMPREGOS
Ao contrario, reformas, “privatizações e concessões MATAM empregos. Não significam capacidade produtiva nova, não melhoram o capital físico do País, o conceito de “corte de custos” gerou as represas implodidas da VALE, as privatizações viram negócio especulativo, de compra e venda de ativos. LIGHT RIO, ELETROPAULO, DUKE ENERGY, CPFL, OI, BRASIL TELECOM, USIMINAS, COSIPA viraram cartas de mega especulação, essas empresas privatizadas já foram compradas, vendidas e revendidas, nenhum emprego se criou. A Eletropaulo tinha 27.000 empregados na privatização, hoje tem 3.700.
Concessões de rodovias já construídas criam empregos de cobradores de pedágio, as reformas podem acrescentar mais eficiência em alguns sistemas mas não criam emprego em curto, médio ou longo prazo. NENHUM desses processos é detonador de crescimento e estão sendo vendidos como tal.
A REFORMA DA PREVIDÊNCIA É ENGODO SE NÃO CORTAR ABUSOS
Onde estão os cortes de abusos adquiridos (e ilegítimos) na Previdência? O fulano ganha pelo teto 33 mil reais, mas tem incorporado e transferido para a aposentadoria bônus de produtividade que se pagam na ativa mais 12 mil, mais outro penduricalhos mais 15 mil, o contracheque dá 60 mil, mas o desconto novo da reforma só incide sobre os 33 mil, não pega os adicionais, que também não aparecem no radar do abate-teto, com a nova incidência na reforma sobre os últimos 7 mil da aposentadoria “oficial” (33.000), o “sacrífico” não vai passar de mais 900 reais, em vez de 60.000 vai receber 59.100 e estão reclamando da reforma. SEM CORTE DOS ABUSOS a reforma é falsa no sentido de justiça social e perde uma de suas ancoras.
A ECONOMIA DERRETE
Há três meses os “de mercado” previam um BOVESPA de 100 mil pontos para maio, mas será que não têm capacidade de entendimento? Como a economia vai crescer com um projeto de Chicago? Paulo Guedes nunca enganou ninguém, é honestíssimo, suas convicções foram sempre expostas com clareza absoluta, NÃO HÁ POLITICA ECONÔMICA, é só mercado, está ai o Salim Mattar para explicar, é vender tudo que tiver comprador, que tal as praias e florestas?
A economia pode funcionar com 30 milhões de brasileiros com dinheiro, o resto que se dane, quem puder vai morar em Miami e vem aqui cada três meses para conferir a renda, é isso ai, todos foram avisados, ninguém do Ministério da Economia falou em crescimento não é mesmo?

O que fazer com Bolsonaro?, por Aldo Fornazieri


Bolsonaro e os bolosnaristas dissiparam em pouco tempo o bônus da vitória, a chamada lua de mel, e transforaram a esperança em desesperança e as expectativas positivas em desengano e descrença.
 
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Banksy

O que fazer com Bolsonaro?

por Aldo Fornazieri

“O que fazer com Bolsonaro” é uma questão que se coloca de forma crescente em diversos setores da sociedade. Em tese, seria uma questão prematura, já que o governo mal tem cinco meses de existência. E, de fato, seria se Bolsonaro e o setor ideológico que o apoia – aqui denominado bolsonaristas, que inclui também os olavistas – não tivessem dado mostras assustadoras da capacidade destrutiva de que estão munidos. Bolsonaro e seu grupo mostraram que não têm nenhum propósito de construir, de unir, de governar. Só pensam na ilusão de uma indefinida e imaginária revolução antissistema, contra o establishment.
Bolsonaro e os bolosnaristas dissiparam em pouco tempo o bônus da vitória, a chamada lua de mel, e transforaram a esperança em desesperança e as expectativas positivas em desengano e descrença. Todos os dias provam mal-estar e desconforto na sociedade. Investem contra a sociedade e contra a soberania. Investem contra as universidades, a pesquisa e a ciência e tecnologia. Secundados por Sérgio Moro, investem contra a segurança pública. Desmantelaram o programa “Mais Médicos”, deixando milhões de pessoas sem acesso a médicos. Martelam contra o programa “Minha Casa, Minha Vida”. Dirigem suas fúrias destrutivas contra a preservação ambiental, contra florestas, rios, parques, terras indígenas e, neste quesito, chegam a causar indignação no mundo. Na economia, a maior parte dos indicadores apresentam tendências negativas, agravando o desemprego e o drama social do país. Enfim, são poucas as áreas que não sofrem os efeitos danosos dessa destruição e desse desgoverno deliberado.
Bolsonaro vem se revelando um desagregador, provando rejeição e repulsa crescentes na sociedade. Ele desorganiza o próprio governo. Primeiro, queimou em praça pública Gustavo Bebianno. Depois, cuidou de transformar os superministros Paulo Guedes e Sérgio Moro em ministrinhos. Agora, desmoralizou os generais e demais militares de seu governo ao apoiar os ataques de Olavo de Carvalho e dos seus filhos contra os representantes militares. Bolsonaro conseguiu fazer com que palavrões de baixo calão proferidos pelo seu guru adquirissem estatuto filosófico e a mais alta distinção do Estado brasileiro com a medalha de Grão-mestre da Ordem de Rio Branco. Em nenhum outro momento da história generais foram tão humilhados e  o Estado tão conspurcado como agora.
Havia e ainda há uma crença de que os generais enquadrariam e limitariam os desatinos do presidente. Mas o que ficou claro foi que o capitão enquadrou os generais. No governo Bolsonaro não vale o lema “um por todos e todos por um”. Vale o salve-se quem puder, pois “cada um é dono de seu nariz”. A questão é: na medida em que Bolsonaro não protege os seus ministros, até quando estes lhes permanecerão fieis?
Na sua relação com o Congresso, Bolsonaro promove atritos crescentes com partidos e parlamentares que poderiam até vir a apoiá-lo. Estimula as hordas bolsonaristas a ataques em onda contra os parlamentares que seriam representantes da “velha política”, corruptos e propensos a uma corrupção continuada.
A essência do quadro que se tem é a seguinte: Bolsonaro não tem programa e plano de governo e não se dispõe a governar. A sua atividade predileta são as redes sociais e as solenidades, de preferência com militares e policiais, onde não possa ser hostilizado por manifestantes. O seu governo não tem políticas públicas para enfrentar os diversos problemas sociais e econômicos do país. O governo não tem maioria no Congresso e o PSL prima pelo amadorismo, pela confusão e pelo despreparo. Com pouca chance de aprovar reformas, ao menos como o governo as quer, com o agravamento da crise econômica e social e com a tendência de manifestações crescentes contra o governo, o Brasil vai sendo conduzido para um beco sem saídas. Este governo está fadado ao fracasso. Nenhum governo sem base política e popular tem condições de produzir algo razoável.
Cabe perguntar: Bolsonaro poderia ouvir a voz da razão e aconselhar-se com pessoas competentes para dar um rumo ao seu governo? Não há nenhum elemento que indique uma resposta positiva a esta questão. Por não ser sábio e nem prudente, Bolsonaro não se dispõe a buscar bons conselhos. Mesmo que estes existam, de nada servirão porque o presidente não é nem sábio e nem prudente, pois está empenhado em destruir sua própria autoridade, tornando-se cada vez mais desprezado e odiado – os dois maiores males que um líder pode angariar.
É justamente por isso que crescem as especulações acerca do que fazer com Bolsonaro. Alguns insinuam a sua substituição pelo vice Hamilton Mourão. Outros defendem a permanência dos militares no governo para impedir os excessos do presidente. A questão é que não há um elemento factível e evidente para um processo de impeachment. Ademais, os democratas e progressistas deveriam ficar com os dois pés atrás em relação ao impeachment. Contra a Dilma, foi golpe. E, olhando retrospectivamente, o próprio impeachment de Collor deve ser colocado sob suspeita de que tenha sido uma medida acertada e de que trouxe benefícios. É preciso que haja razões muito fortes e evidentes para que se faça um impeachment de um presidente eleito por voto popular. Os processos e as escolhas que são feitos nas democracias precisam se esgotar para que o povo possa aprender. É preciso também bloquear a tradição golpista no Brasil.
Mas, por outro lado, a sociedade não pode aceitar que um governo destrua o que ela conseguiu conquistar de positivo em termos de direitos, cidadania e avanços institucionais. Desta forma, os partidos democráticos e progressistas, os diversos movimentos sociais, os mais variados setores da sociedade atingidos pela fúria destruidora do bolsonarismo precisam se por em movimento, nas ruas, nas praças, para dizerem a Bolsonaro e ao governo que não aceitam este retrocesso brutal, que não aceitam esta destruição promovida por um grupo desprovido de senso civilizatório, de senso de razoabilidade.
O presidente e o governo precisam ser parados, contidos, pela mobilização popular. Se Bolsonaro não revir seu posicionamento e não quiser conduzir seu governo por um caminho de razoabilidade, de sensatez e de razão, será um direito do povo mobilizado exigir a renúncia do presidente. Mas esta não é uma consigna que possa ser jogada ao vendo num momento qualquer. Ela precisa ser construída pela mobilização e pela organização popular.
Se os generais, o Centrão ou quem quer que seja quiserem trocar Bolsonaro por Mourão, o problema é deles. Não é um problema das forças democráticas e populares. Se os militares quiserem ficar no governo para enquadrar Bolsonaro, trata-se de uma escolha deles. Este governo, aliás, embora não seja um governo militar é um governo de militares. Fizeram uma escolha. Nada contra. Mas precisam arcar com as consequências dessa escolha. Os progressistas e democratas precisam abandonar a política especulativa para ter um único foco: mobilizar e organizar grupos e movimento sociais para barrar retrocessos e defender direitos, justiça e cidadania.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

A defesa da democracia exige coragem, por Aldo Fornazieri


Com apoio declinante na sociedade e com a crescente rejeição internacional, o governo Bolsonaro tende a se embrenhar cada vez mais nas condutas que configuram governos de arbítrio e autoritários.
 
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A defesa da democracia exige coragem

por Aldo Fornazieri

É forçoso reconhecer que, até agora, o desgaste do governo Bolsonaro se deve muito mais aos seus desatinos do que a uma atuação consistente das oposições. Com efeito, Bolsonaro mostra-se absolutamente despreparado para o cargo que exerce e não passa dia que não promova algum mal-estar. Seu governo volta-se para a destruição dos débeis pilares de uma democracia incompleta e parcial. Os poucos avanços e consolidações que ocorreram em algumas áreas – a exemplo da educação, da saúde, da habitação, da agricultura familiar, dos direitos, do meio ambiente, entre outras – vêm sendo atacados e demolidos de forma impiedosa e cruel. Bolsonaro e alguns de seus ministros, a exemplo de Ricardo Salles, são vistos como pessoas deploráveis e indesejáveis em setores crescentes das sociedades e dos governos de outros países. A incultura, a insciência e o caráter néscio deste governo causam indignação, repulsa e vergonha.
Os conflitos internos ao próprio governo, a falta de programa de governo e de políticas públicas mostram que o Brasil está à deriva, caminha para o caos, para a inviabilidade econômica, política e moral. As inconsequências desta loucura ideológica, desta aventura de pessoas dotadas de mentes atormentadas, recaem sobre o povo pobre, provocando sofrimento, desemprego, desassistência e dor. As ofensas que o mentor ideológico do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, profere contra o vice-presidente e alguns ministros militares, com o uso de palavras de baixo calão, evidenciam o lodo político, intelectual e moral do qual os bolsonaristas alimentam suas ideias e suas ações.
Esta destruição do país, esta devastação da dignidade nacional, sofre uma pálida oposição dos partidos progressistas e de esquerda. Sem base no Congresso Nacional, com apoio declinante na sociedade e com a crescente rejeição internacional, o governo Bolsonaro tende a se embrenhar cada vez mais na aventura destrutiva e nas atitudes e condutas que configuram governos de arbítrio e autoritários.
As oposições não podem agir nessa conjuntura como se o país vivesse tempos de “normalidade”. Sintomas de que as oposições não entenderam a mudança radical que o Brasil sofreu com a vitória de Bolsonaro já surgiram na conduta dos partidos progressistas logo após as eleições: demoraram para se posicionar e, quanto o fizeram, apresentaram análises pífias e autocondescendentes acerca das derrotas sofridas. Outro sintoma da incompreensão do momento está no fato que o PT só convocou seu Congresso para novembro de 2019 – um ano após a ascensão da extrema-direita ao poder. O PSol, ao que se sabe, nem Congresso partidário convocou. Os congressos partidários são fundamentais nos momentos de drásticas mudanças conjunturais, chamando a militância e os movimentos sociais ao debate e à mobilização e para definir novos rumos programáticos, diretivos e estratégicos em face dessas mudanças. Esta demora toda mostra a indolência com que as oposições tratam o desastre no qual o Brasil está mergulhado.
Os partidos de esquerda não foram capazes de organizar uma frente democrática contra a destruição do Brasil e os desatinos do governo Bolsonaro. O PT permanece enredado na sua incapacidade de promover uma mobilização popular por “Lula Livre”, de estabelecer um amplo diálogo com a sociedade visando reduzir o antipetismo e de apresentar propostas programáticas que sinalizem que o partido se afirma como alternativa à destruição do país e à incompetência da direita. Com isso, abre as portas para o fortalecimento de alternativas ao centro e à direita, a exemplo de João Dória.
Se, por um lado, o PSol está certo em se afirmar como polo de oposição radical a Bolsonaro, com uma política de enfrentamento permanente, por outro, parece não conseguir sair de um certo isolamento, não estabelecendo um diálogo mais amplo com diferentes setores sociais. Pode crescer como partido de oposição parlamentar, mas enfrentará dificuldades em se viabilizar como alternativa de poder.
Quanto a Ciro Gomes, ele parece irredutível em caminhar pela senda da sua autoimolação política, no seu descontrole, na construção de sua inconfiabilidade pelos tormentos de sua inconstância. Assim, afasta o próprio PDT de uma política mais unitária com as demais oposições progressistas. Com esses impasses todos, o PSol tende a crescer no âmbito parlamentar, o PSB tende a se fortalecer na conquista de novas prefeituras, mas a oposição como um todo continuará apática em face da destruição promovida por Bolsonaro, à espera de que o Centrão ou Mourão resolvam o problema.
O PT e o PSol não podem fazer oposição apenas a partir da ética das convicções, pois isto inflama os devotos, não apresenta saídas para os dramas da população, não dialoga com a sociedade e não contribui para construir uma alternativa à extrema-direita e à direita. É preciso agir também com a ética da responsabilidade. Tome-se o caso da Reforma da Previdência. É certo que é preciso fazer um duro combate à proposta do governo. Mas, o modelo atual de Previdência é justo? Ele não agrega privilégios aos militares e aos juízes e membros do Ministério Público, principalmente a aqueles que recebem salários acima do teto constitucional, que não são poucos? Então, os partidos progressistas têm o dever de apresentar propostas que removam esses privilégios, caso contrário, serão coniventes com as injustiças que aumentam as desigualdades. Ser coniventes com injustiças que provocam desigualdades não é ser de esquerda.
O PT, em sua resolução sobre a Previdência afirma que “qualquer equilíbrio a ser buscado no Sistema de Seguridade e seus beneficiários deve enfrentar as isenções fiscais de R$ 300 bilhões anuais, a sonegação de R$ 500 bilhões/ano, a dívida dos patrões com o INSS que representa mais de R$ 300 bilhões e os privilégios representados pelas distorções existentes nas remunerações, nos altos salários e super pensões que persistem em algumas carreiras públicas”. Isto está correto. Mas o partido deveria explicar a razão de não ter feito esse ajuste de contas em seus governos. Deveria explicar a razão de ter regado os pesados cofres de empresários, que depois patrocinaram o golpe, com generosos subsídios. Além disso, o partido deveria apresentar propostas concretas para enfrentar esses problemas, promovendo uma disputa real de alternativas contra o governo Bolsonaro e outros setores de direita. Da forma como a questão da  reforma da Previdência está posta no Congresso, o Centrão ficará com os louros de barrar mudanças na aposentadoria rural e no BPC.
Dado o caráter excepcional da conjuntura brasileira, da destruição deliberada que o governo Bolsonaro vem promovendo de vários mecanismos do Estado, da economia e dos direitos sociais; dada a violência que Boslonaro, associado a Moro, Witzel e Dória vem promovendo, não é possível que as oposições progressistas continuem se comportando como se o país estivesse num período de pacata normalidade. A sociedade, sem direção e sem comando, clama pelo surgimento de líderes e partidos corajosos, que saibam conduzir o povo para uma saída desta crise.
A prudência recomenda que, nesta conjuntura, os líderes e os partidos não se acomodem na cautela. Pelo contrário: a prudência recomenda coragem e ousadia. As oposições e seus líderes não têm o direito de deixar que as pessoas se refugiem na impotência de suas angústias. Contra as desmedidas, a irracionalidade e os desatinos de um governo destrutivo, a prudência exige que as oposições ajam com ousada desmedida para barrar essa destruição e indicar um caminho de esperança para o povo  brasileiro.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Quarta-feira, tsunami!, por Pedro Gorki


“Com roupas negras, iremos às ruas. E cada estudante tem uma mãe, um pai, um vizinho que não concorda com a retirada de dinheiro da educação e que precisa de muito pouco para ser convencido protestar conosco”
Na segunda-feira, 6/5, eu estava junto às centenas de estudantes que protestavam do lado de fora do Colégio Militar do Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca. Dentro, o presidente Jair Bolsonaro, cujo governo anunciou, recentemente, o corte de 30% do dinheiro da educação. Enquanto Bolsonaro estava fechado, cercado por alto esquema de segurança, com medo da reação popular e de encarar os jovens que lá estavam, o protesto dos secundaristas ganhava o apoio da população, das pessoas que passavam a pé, nos carros, dos trabalhadores, de quem escutava as reivindicações e concordava com elas.
A reação popular contra os cortes na educação, liderada pelo movimento estudantil secundarista e universitário, pode resultar nas maiores manifestações do Brasil desde a posse presidencial em janeiro. Até Bolsonaro já sabe que essa foi a gota d’água que vai virar um tsunami. Bolsonaro não gosta muito de estudar e não é lá muito bom de história – a ponto de falar que a ditadura no Brasil não existiu ou que os ditadores assassinos de países como o Chile e o Paraguai foram pessoas importantes. Mas ao ignorar ou desconhecer que, neste mesmo continente, foi a juventude que enfrentou e derrubou os regimes mais autoritários, pode ter cometido um erro que as ruas não vão perdoar. Nós vamos para cima.
O movimento estudantil está protagonizando, nas diversas regiões do país, um levante unificado contra a tentativa de destruição do nosso ensino. Toda essa força vai desaguar, no dia 15 de maio, em uma jornada nacional nas ruas, nos institutos federais, nos colégios, construindo uma grande paralisação nacional da educação.
A mobilização dos atos foi rápida. Em poucos dias, o movimento se espalhou em assembleias, debates, protestos, ações diretas. Os jovens têm acompanhado com preocupação a transformação ideológica covarde de um Ministério da Educação que vira as costas para alunos e professores, voltando-se apenas para o fanatismo de extrema direita e para os lucros do setor educacional privado. A declaração do ministro Abraham Weintrub de que as universidades públicas devem ser punidas por promover “balbúrdia” foi a gota d’água.
Ao atacar o ensino superior, o governo mentiu, dizendo priorizar a educação básica. Mas o MEC cortou recursos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio. Um bloqueio de pelo menos R$2,4 bilhões de reais.
Enquanto publica decretos de posse de arma para enriquecer a indústria do tiro e tenta emplacar a reforma da Previdência e o fim das aposentadorias para agradar aos bancos e a previdência privada, Bolsonaro tira dos salário dos professores, da merenda, dos laboratórios, das bibliotecas, da reforma das quadras e das salas de aula das escolas públicas. E é por isso que a UBES e o movimento estudantil secundarista estão no centro desse debate e vão conduzir os milhões de estudantes da educação básica para resistir a esse governo. Vamos ensinar ao ministro da Educação que as escolas e universidades brasileiras devem ser prioridade, inclusive para garantir o crescimento econômico.
Mais de 100 institutos federais já deram o seu recado, aderindo à campanha #TiraAMãodoMeuIF. O movimento já conta com paralisações e protestos em todos os 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Com roupas pretas e palavras de ordem, os secundaristas denunciam que, devido aos cortes no orçamento das instituições, muitos alunos não poderão, sequer, concluir o ano letivo. Não bastasse promover a perseguição nas escolas, a censura de alunos e professores; a tentativa de obrigar todos os estudantes do Brasil a repetir o seu slogan partidário de campanha eleitoral no pátio das instituições, Bolsonaro agora quer estrangular a juventude da forma mais direta e cruel: tirando os poucos recursos do setor educacional e tentando matar de fome o sistema de ensino brasileiro.
O que o governo não sabe é que essa mesma juventude já resistiu a momentos tão ou mais duros que esse, ao longo dos últimos 70 anos. E tem uma força invencível quando está unida. Já derrubamos presidentes e ditadores quando conseguimos contagiar a sociedade e ela ficou do nosso lado. Cada estudante secundarista também tem uma mãe, um pai, um vizinho que não concorda com a retirada de dinheiro da educação e que precisa de muito pouco para ser convencido a ir às ruas conosco. E se isso acontecer, já seremos numericamente um movimento incontrolável e incontornável. Um governo que perde popularidade de forma inédita nos seus cinco primeiros meses, deveria ter mais sabedoria ao escolher seus inimigos. Mexer com a juventude brasileira é coisa séria. Não aos cortes. Vamos à luta!

Serão as mulheres as protagonistas da nova política?, por Inês Castilho.


Documentário da Netflix acompanha a trajetória de Alejandra Ocasio e outras três mulheres rebeldes, que estão sacudindo Washington. Com mobilização social e financiamento coletivo, elas enfrentam o machismo e propõem medidas radicais contra a desigualdade
Alexandria Ocasio-Cortez, a mulher mais jovem a ser eleita para o Congresso dos EUA
Say we want a revolution
We better get on right away
Well you get on your feet
And into the street 
[Dizemos querer uma revolução
Melhor andarmos depressa
Pois ponha -se de pé
E vá para a rua] 
Power to the people, de John Lennon

Em 2018, um número recorde de mulheres, pessoas não-brancas e outsiders concorreu ao Congresso norte-americano. Democratas há muito estabelecidos foram desafiados por novos democratas que disputavam pela primeira vez a nomeação nas eleições primárias.
O documentário Virando a mesa do poder (Knock Down the House), da realizadora Rachel Lears, acompanha a trajetória de Alexandria Ocasio-Cortez e de três outras mulheres das classes trabalhadoras – Amy Vilela, Cori Bush e Paula Jean Swearenging – em suas primeiras disputas contra poderosas máquinas políticas de velhos caciques democratas nas eleições primárias de diversos territórios norte-americanos.
Favorito no festival de Sundance 2019, o filme pode agora ser visto na Netflix. Uma hora e meia em que mantive o coração nas mãos e a crescente certeza de que alguma coisa muito importante está acontecendo. A linha condutora do documentário é a campanha de Alexandria, cuja vitória com 82% dos votos a transformou numa estrela em ascensão na política norte-americana e na mais jovem mulher a eleger-se para o Congresso. Progressista do partido Democrata, 29 anos, Alexandria – ou Sandy, como é chamada pela família – é filha de mãe faxineira, ativista e líder comunitária.
“Sou candidata e represento o Bronx, sou da terceira geração do Bronx. Sou latina, sou boricua [nascida na ilha caribenha de Porto Rico, que tem status político de estado norte-americano], descendente dos índios Taino e de escravos africanos. Tenho orgulho de ser americana!”, apresenta-se.
Concorreu com Joe Crowley, no cargo desde 1999, líder da bancada democrata na Câmara e quarto democrata mais poderoso do Congresso, que arrecada a cada campanha três milhões de dólares de empresas de Wall Street, imobiliárias e farmacêuticas. E que sequer morava nos bairros periféricos de Nova York onde vivem comunidades latinas e afrodescendentes, que dizia representar. Já a campanha de Alexandria foi feita exclusivamente com doações individuais. Sua candidatura vai muito além de democrata contra republicano ou esquerda contra direita, diz ela. “É sobre os de cima e os de baixo.”

Mulheres na política

Quando a tragédia atingiu sua família em meio à crise financeira, Alexandria Ocasio-Cortez, nascida no Bronx, Nova York, teve de trabalhar como garçonete em dois turnos diários para salvar a casa da família da execução hipotecária. Amy Vilela, de Nevada, sem saber o que fazer com sua raiva ao perder uma filha por falta de assistência médica, decidiu candidatar-se a deputada defendendo “Medicare para todos”; ela relata o conselho que recebeu de um estrategista do partido: “Não mostre suas emoções, isso faz as mulheres parecerem frágeis; seja mais malandra, diga aos eleitores que está nas mãos deles, que ‘sua coleira é deles’”. Cori Bush, enfermeira, resolveu candidatar-se depois que o assassinato de Mike Brown, um jovem negro desarmado do distrito de Ferguson, Missouri, levou protestos e tanques de guerra para seu bairro, onde vive uma das populações de afrodescendentes mais pobres do país e há o maior número de homicídios por habitante. Paula Jean Swearenging, filha e neta de mineiros, farta de ver as pessoas morrendo pelos efeitos ambientais da indústria do carvão do estado de West Virginia, “um dos mais pobres e adoecidos do país”, resolveu concorrer ao Senado. Essas são as mulheres retratadas no documentário.
O caminho se faz ao caminhar, demonstra em seu filme a fotógrafa e diretora Rachel Lears, que concebeu esse projeto no dia seguinte à vitória de Donald Trump à presidência.
Maquiando-se diante do espelho, Alexandria lembra que para candidatos homens ao Congresso há um protocolo de como devem se vestir. Já “para as mulheres, decidir como vão apresentar-se ao mundo envolve tantas decisões! Como preparar-se para alguma coisa que você não sabe o que é?”
As pessoas não veem o trabalho de garçonete como um trabalho verdadeiro, diz ela. Talvez por ser derivado dos cuidados tradicionalmente exercidos por mulheres, sem pagamento. “Mas minha experiência em servir as pessoas [hospitality, em inglês] me preparou muito bem para essa candidatura. Estou acostumada a ficar em pé durante 18 horas por dia, a sofrer uma tremenda pressão, a ser mal tratada pelas pessoas. Não é à toa que somos chamadas de classe trabalhadora: a gente não para de trabalhar!”.
Em campanha, Alexandria não perdeu o ritmo. “O que faço é conversar com os membros de nossa comunidade o tempo inteiro. Esse é o trabalho de organização para concorrer com uma campanha popular”, diz ela, percorrendo casa por casa para falar com as pessoas ou atendendo a reuniões com grupos.
Sua vitória, contudo, não se deveu somente ao trabalho individual. Antes, contou com um enraizado movimento de grupos de base do partido Democrata, que vinham recrutando candidatos outsiders para concorrer com políticos do establishment. Dois deles, o Justice Democrats e o Brand New Congress, formados por jovens, e cujo principal objetivo é acabar com a influência corruptora do dinheiro na política, receberam mais de 10 mil indicações. Os candidatos que apoiam recebem recursos adquiridos exclusivamente em crowdfundings. Alexandria Ocasio-Cortez foi indicada por seu irmão e teve a candidatura assumida pelo Brand New Congress.
“Nunca vimos isso na América, nessas proporções. Temos várias chapas e muitos candidatos concorrendo em 20018 que recusaram financiamento de empresas”, observa ela, que começou a campanha com 2 dólares e arrecadou mais de 200 mil.
“Queremos criar uma máquina de financiamento coletivo que possa fazer frente aos poderes institucionais atuais e realmente devolver o poder ao povo. E manter esse poder”, diz um dos componentes dos grupos.
“Homens representam 81% do Congresso, a maioria brancos e milionários, advogados, que só querem manter seu poder e reeleger-se, e não lutar contra as mudanças climáticas, a superpopulação carcerária, os problemas que nos afetam”, diz outro.
“Você não pode ter medo, porque eles virão pra cima de você. Não estou brincando, eles virão pra cima de você”, alerta um membro do grupo Whiteheads [Cabeças brancas], que também a apoiou.
“O tempo todo ele me dirá que eu não vou conseguir. Que sou pequena, muito jovem, inexperiente”, diz ela, ao preparar-se para um debate com seu oponente. Dirigindo-se ao namorado, fiel companheiro de campanha, ela afirma, num exercício de autoconvencimento: “Sou preparada o suficiente para fazer isso, madura o suficiente, corajosa o suficiente.”
Para cada 10 rejeições você receberá um sim, diz Alexandria para uma sobrinha, menina ainda, que a ajuda a fazer campanha na rua. “É assim que você vence”. Para uma das candidatas derrotadas, diz algo semelhante. “É preciso que 100 de nós sejamos candidatas para que uma vença”.

Abaixo do Equador

Ainda que timidamente, um fenômeno semelhante ocorre também no Brasil e na América Latina. Nas eleições de 2018, saltou de 51 para 77 o número de parlamentares mulheres, de 9,9% para 15% dos 513 representantes na Câmara. No Senado as mulheres mantiveram a mesma representação.
Eleita vereadora de Belo Horizonte em 2017, amiga e companheira de partido de Marielle Franco, a cientista política ligada ao movimento hip-hop Áurea Carolina foi eleita deputada federal (Psol-MG) já em 2018.
“Na América Latina, ter mulheres na política significa romper com uma lógica colonial que está na raiz da nossa formação,” diz ela, que inovou ao criar o Gabinetona, mandato coletivo e popular formado por quatro representantes, nas três instâncias de governo, subsidiado por uma rede de quase 100 voluntários de todo o território mineiro, que trabalham com as questões indígena, de economia e infraestrutura, direitos humanos, cultura, saneamento e meio ambiente, entre outros.
Ela é uma das parlamentares retratadas no projeto Emergência Política Mulheres, que vai investigar as inovações geradas por mulheres na política institucional no México, Colômbia, Brasil, Bolívia, Chile e Argentina.
O projeto trabalha com a ideia de que o poder muda quando mulheres ascendem ao seu papel político. Ao dar visibilidade às práticas das mulheres no poder, querem criar novas referências e contribuir com um novo imaginário político a partir de uma perspectiva feminina.
“Estamos bem animadas e já vamos para a estrada. Dia 20 agora começamos a pesquisa no México, depois vamos para a Colômbia e a partir de meados de junho faremos o campo no Brasil”, diz Jonaya de Castro, que ao lado de Beatriz Pedreira responde pelas entrevistas com mulheres que assumiram mandatos no executivo e legislativo, a partir de um mapa colaborativo de mais de 600 mulheres eleitas no continente. Elas entrevistarão também acadêmicas e especialistas em gênero e política para entender a história e contexto social em cada um dos países.
O resultado desse trabalho será mostrado em 2020, numa série exibida pela Globonews – uma das parceiras do Instuto Update, organizador do projeto. Não será um trabalho independente, como o de Rachel Lears. Mas, como no seu filme, trará um panorama da diversidade e mudanças lideradas por mulheres do campo progressista, num universo até agora dominado por homens – brancos, ricos e heterossexuais, nunca é demais repetir.