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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Isolamento dos EUA, por Noam Chomsky.

Noam Chomsky reflete sobre Israel, Trump e a Nova Ordem Mundial, uma aliança entre estados autoritários que se parece estar a estruturar.


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A 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU passou a Resolução 2334 por unanimidade, com a abstenção doa EUA. A Resolução reafirmou "que a política e práticas de Israel em estabelecer colonatos na Palestina e outros territórios Árabes ocupados desde 1967 não tem legitimidade legal e constitui uma séria obstrução para para alcançar uma paz justa e compreensiva no médio oriente. Chama novamente Israel, como país ocupante, a cumprir escrupulosamente a Quarta Convenção de Genebra (1949), a rescindir as medidas anteriores e a desistir de tomar qualquer ação que pudesse resultar numa alteração de estatuto legal ou natureza geográfica e afetar materialmente a composição demográfica dos territórios árabes ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém, e, em particular, para não transferir parte da população civil para os territórios árabes ocupados."

Reafirmou. Uma palavra com alguma importância.

É importante reconhecer que a Resolução 2334 não tem nada de novo. A citação aqui referida é da Resolução 446, de 12 de março de 1979, reiterada na essência na 2334. A Resolução 446 passou com 12 votos contra zero e abstenção dos EUA, do Reino Unido e da Noruega. A diferença essencial hoje é que os EUA estão sozinhos contra o resto do mundo, e isso é um mundo de diferença. As violações das ordens do Conselho de Segurança da ONU por parte de Israel, e violações da lei internacional, são hoje bastante mais radicais do que em 1979 e estão a levantar maior repúdio em boa parte do mundo. Os conteúdos da Resolução 446-2334 devem por isso ser levados mais seriamente. Daí a reação intensa contra a 2334, tanto a cobertura como o comentário; e em Israel e nos EUA, histeria considerável. Estes são indicadores evidentes do isolamento dos EUA no palco mundial. Sob Obama. Com Trump, o isolamento dos EUA irá provavelmente aumentar ainda mais, e de facto, já o fez, ainda antes de assumir a presidência.

A iniciativa de Trump que mais contribuiu para aprofundar o isolamento dos EUA aconteceu a 8 de novembro, quando ele ganhou duas vitórias. A vitória menor fois nos EUA, onde ganhou o colégio eleitoral. A vitória maior foi no Marraquexe - Marrocos, onde cerca de 200 nações estavam reunidas para tentar introduzir algum conteúdo nos acordos de Paris de dezembro de 2015 sobre alterações climáticas, acordos que foram deixados como intenções e não compromissos firmes devido à recusa do Congresso dominado pelo Partido Republicano.

Enquanto os votos eleitorais eram contados a 8 de novembro, a conferência em Marraquexe afastou-se do seu programa substantivo para a questão de saber se era sequer relevante lidar com uma severa ameaça de catástrofe ambiental agora que o país mais poderoso na história se demitiu das suas responsabilidades. Isso, seguramente, foi a maior vitória de Trump a 8 de novembro, um momento realmente pivotal. O mundo coloca as suas esperanças na liderança da China agora que o Líder do Mundo Livre declarou que não só irá se irá retirar dos acordos como, com a eleição de Trump, irá acelerar dramaticamente a corrida para o desastre.

Um espetáculo alucinante, que aconteceu quase sem qualquer comentário.
O facto de que os EUA estão sozinhos em rejeitar o consenso internacional reafirmado pela Resolução 2334, perdendo o Reino Unido sob a liderança de Theresa May, é outro sinal de crescente isolamento dos EUA.

Exatamente porque razão Obama escolheu a abstenção em vez do veto é uma questão em aberto: não temos provas diretas. Mas temos algumas explicações plausíveis. Tinha havido algumas reações de surpresa (e ridículo) após o veto de Obama em fevereiro de 2011 à Resolução da ONU que definia a implementação de política oficial dos EUA, e ele pode ter sentido que seria demasiado repetir um momento semelhante se quer salvar alguma parte do seu legado entre setores da população com alguma preocupação por direito internacional e direitos humanos. É útil relembrar que entre os Democratas liberais, por oposição ao Congresso, e particularmente entre os jovens, opinião sobre Israel e Palestina tem evoluído nos últimos anos para a crítica às políticas de Israel, de tal forma que o núcleo de apoio a Israel nos EUA transferiu-se para a extrema-direita, incluindo a base eleitoral evangélica do Partido Republicano. Talvez estes tenham sido os fatores que alteraram a posição de Obama.

A abstenção de 2016 suscitou furour em Israel e no Congresso dos EUA também, incluindo Republicanos e Democratas, com propostas para retirar o financiamento à ONU em retaliação pelo "crime". O primeiro-ministro israelita Netanyahu denunciou Obama pelas suas ações "anti-Israel". O seu gabinete acusou Obama de "manobrar" nos bastidores esta "emboscada" no Conselho de Segurança, produzindo "provas" que dificilmente poderão ser consideradas sequer humorísticas. O oficial israelita de topo acrescentou que a abstenção "revelou a verdadeira face da administração Obama", e que "agora podemos compreender com o que estivemos a lidar nos últimos oito anos".

A realidade é um pouco diferente. De facto, Obama ultrapassou todos os recordes no apoio a Israel, tanto diplomaticamente como financeiramente. A realidade é descrita com precisão pelo especialista do Financial Times no médio oriente, David Gardner: "As relações pessoais entre Obama e Netanyahu podem ter sido venenosas, mas ele foi o mais pró-Israel de todos os Presidentes dos EUA: o mais pródigo com ajuda militar e consistentemente utilizando o veto dos EUA no Conselho de Segurança... A eleição de Donald Trump até agora trouxe pouco mais do que tuítes virulentos sobre alguns assuntos geopolíticos. Mas os augúrios são ominosos. Um governo irredentista em Israel e inclinado para a extrema-direita é agora apoiado por uma administração populista e islamofóbica em Washington."

Num comentário interessante e revelador, Netanyahu denunciou a "emboscada" do mundo como prova de "preconceito do velho mundo contra Israel", uma frase reminiscente dos comentários de Donald Rumsfeld sobre a distinção entre a "Velha Europa - Nova Europa", em 2003.

Devemos relembrar que os estados da Velha Europa era os maus, os principais estados europeus, que se derão à arrogância de respeitarem a esmagadora maioria da opinião das suas populações recusando juntar-se aos EUA no crime do século, a invasão do Iraque. Os estados da Nova Europa eram os bons, que ignoraram uma maioria de opinião ainda maior e obedeceram ao seu dono [os EUA]. O mais digno dos "bons" foi José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha, que ignorou oposição popular unânime contra a guerra e foi recompensado com a honra de participar no anúncio da invasão em conjunto com Blair e Bush.

Esta demonstração transparente de total desprezo pela democracia passou virtualmente sem cobertura noticiosa, compreensivelmente. A tarefa na altura era glorificar Washington pela sua apaixonada dedicação pela democracia, como ilustrado pela "promoção da democracia" no Iraque, que subitamente se tornou na linha correcta após a "única questão relevante" (vai ou não Saddam entregar as armas de destruição maciça?) ter sido respondida no sentido inverso ao desejado.

Netanyahu está a adotar muito da mesma posição. O velho mundo que tem um preconceito contra Israel corresponde a todo o Conselho de Segurança da ONU; mais especificamente, corresponde a qualquer pessoa no mundo com o menor respeito por lei internacional e direitos humanos. Para sorte da extrema-direita israelita, isso exclui o Congresso dos EUA e - publicamente - o Presidente-eleito e os seus associados.

O governo israelita está, obviamente, consciente destes desenvolvimentos. Por isso, está ativamente a procurar transferir a sua base de apoio para estados autoritários como Singapura, China ou a Índia da direita nacionalista Hindu, que se torma agora um aliado natural com a sua deriva para o ultranacionalismo, políticas internas reacionárias, e ódio ao Islão.

As razões pelas quais Israel procura apoio são explicitadas por Mark Heller, principal analista associado em Tel Aviv no Instituto de Estudos de Segurança Nacional. "No longo prazo," explica, "haverá problemas em Israel nas suas relações com a Europa ocidental e os EUA", enquanto que em contraste, os países asiáticos importantes "não apresentam grande interesse na forma como Israel se relaciona com os Palestinianos, Áraves, ou quem quer que seja." De forma breve, a China, Índia, Singapura e outros aliados favoritos são menos influenciados pelos tipos de liberalismo e preocupações humanas que representam uma ameaça crescente para Israel.

As tendências dos países em desenvolvimento merecem alguma atenção. Como notado, os EUA estão a tornar-se cada vez mais isolados nos últimos anos, quando sondagens dirigidas pelos EUA - não noticiadas nos EUA mas seguramente conhecidas em Washington - revelaram que a opinião mundial olhava para os EUA como a maior ameaça mundial à paz, ninguém sequer se aproximava. Sob Obama, os EUA estão agora sozinhos na abstenção sobre os colonatos israelitas, contra a unanimidade do Conselho de Segurança da ONU.

Com Trump e os seus apoiantes de ambos os partidos no Congresso, os EUA ficarão ainda mais isolados no mundo no apoio aos crimes israelitas. Desde 8 de novembro, os EUA isolaram-se no assunto ainda mais importante de aquecimento global. Se Trump cumpre a sua promessa de quebrar o acordo com o Irão, é provável que os outros participantes persistam, deixando os EUA ainda mais isolados em relação à Europa.

Os EUA estão igualmente mais isolados do seu "quintal" da América do Sul do que no passado, e estarão mais isolados se Trump recuar nos passos de normalização das relações com Cuba lançado por Obama, passos tomados para evitar a provável exclusão de todas as organizações do hemisfério por causa do seu assalto continuado a Cuba, em total isolamento internacional.

O mesmo se passa na ásia, onde mesmo aliados próximos dos EUA (exceto o Japão), mesmo o reino Unido, se juntam ao Banco de Desenvolvimento Asiático de Infraestruturas, com sede na China, e à Parceria Económica Regional liderada pela China e, neste caso, incluindo o Japão. A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) (chinesa igualmente) incorpora os estados centro-asiáticos, a Sibéria com os seus recursos, a Índia, o Paquistão e, mais tarde ou mais cedo, o Irão e mesmo a Turquia. A OCS tem rejeitado os pedidos dos EUA para obter estatuto de observador e exigiu que os EUA removam todas as suas bases militares da região.

Imediatamente após a eleição de Trump, testemunhámos o espetáculo curioso da Chanceler Angela Merkel a tomar a liderança numa lição a Washington sobre valores liberais e direitos humanos. Entretanto, desde 8 de novembro, o mundo olha para a China para liderança em salvar o mundo da catástrofe mundial, enquanto os EUA, em esplêndido isolamento novamente, se prepara para minar estes esforços.

O isolamento do EUA não está completo, obviamente. Como foi deixado claro na reação de Trump à vitória eleitoral, os EUA apoiam entusiasticamente a extrema-direita na Europa, incluindo elementos neo-fascistas. O retorno da extrema-direita em partes da América do Sul oferece oportunidades de aliança também. E, claro, os EUA mantêm uma aliança sólida com as ditaduras do Golfo e com Israel, que também se separa dos setores mais liberais e democráticos na Europa e se aproxima de regimes autoritários que não estão preocupados com as violações de Israel sobre lei internacional ou ataques ferozes a elementares direitos humanos.

Os últimos desenvolvimentos sugerem a emergência de uma Nova Ordem Mundial, totalmente diferente dos retratos usuais dentro das doutrinas em vigor.

Artigo publicado em ZNet(link is external), tradução do Esquerda.net

Os cabeças de planilha jogam a toalha, mas preservam os frutos, por Luis Nassif.


Durante vinte anos apontei as loucuras da política monetária do Banco Central, consolidada a partir do plano Real. Os arquivos da Folha estão repletos de colunas minhas apontando as inconsistências teóricas e práticas.
Aliás, na pesquisa me dei conta de que, apesar dos artigos não terem sido banidos dos arquivos da Folha, Otávio Frias Filho cometeu a mesquinharia de retirar meu nome de todos os índices diários de matérias do jornal.
No livro “Os Cabeças de Planilha” procurei mostrar – com base na semelhança histórica do Encilhamento – como o conjunto de teorias levantadas pelos economistas visava, no fundo, consolidar um novo tipo de poder (o financeiro) e contribuir para o enriquecimento pessoal dos economistas, à custa de custos enormes impostos ao país.
Prossegui nessa cruzada em inúmeros artigos aqui no Blog.
Em todos os momentos, sobressaiu a figura de André Lara Rezende, o mais brilhante dos economistas do Real, responsável maior pela política de remonetização da moeda, apesar de fora do governo na época – já estava em sua distribuidora formando uma fortuna considerável.
Em maio de 1995 – em pleno Real – passei a alertar para a quebradeira que estava a caminho, devido às políticas monetária e cambial do Banco Central. Viajava muito em palestras, e em todos os cantos vinham pequenos e médios empresários assustados com a queda das vendas.
Nas reuniões do Conselho da Folha alertei que a crise era dura. Otávio Frias procurou se acalmar. Disse que tinha conversado com o Ministro da Fazenda Pedro Malan e que no máximo o crescimento do PIB seria reduzido em 1 ponto percentual.
Propus um desafio: colocar algum repórter para telefonar para várias prefeituras do interior, escolhidas aleatoriamente, e perguntar sobre a crise. À noite, no interior do estado do Rio, para uma palestra, recebo telefonema de Frias, assustado. O quadro levantado confirmava, de fato, o tamanho da vaga recessiva que vinha pela frente.
Nesse ínterim, André entra na discussão.
No dia 22 de maio de 1995, no artigo “Os gurus e a retórica da meia lógica”( https://goo.gl/kQrJGW) critiquei duramente uma entrevista dele concedida à Folha:
Em pouco tempo a manutenção dessa taxa de juros inviabilizará definitivamente o ajuste fiscal e rapidamente tornará o passivo público superior ao conjunto de estatais a serem privatizadas. E começará a se refletir rapidamente na arrecadação fiscal. É só conferir como será a arrecadação de maio e junho.
A médio prazo, essa política não só não resolve, como aprofunda e inviabiliza qualquer ajuste fiscal futuro.
No plano da balança comercial, a manutenção desses juros dizimará o que restou de exportações de manufaturados. (...) Até agora as exportações de manufaturados não desabaram completamente porque muitas empresas resolveram bancar o prejuízo por algum tempo, para não perderem mercado lá fora, enquanto aguardavam a reversão dessa loucura.
Com o acréscimo adicional de custos, provocado por essas taxas malucas, e perdendo a esperança de uma reviravolta a curto prazo no cenário, a queda das exportações de manufaturados passará a ser geométrica, com todo o componente de quebradeira e desemprego. Em outros tempos, tinha-se recessão interna, mas mantinha-se aberta a porta externa, minimizando seus efeitos. Agora, não. É veneno na veia, direto.
(...) Se se mantém a atual política monetária e a atual banda cambial, ganham-se alguns meses a mais de inflação baixa. E só. Em contrapartida, joga-se o país em recessão profunda, aborta-se o movimento de modernização registrado pela economia nos últimos anos, destrói-se a estrutura de exportações de manufaturados e inviabiliza-se qualquer tentativa futura de ajuste fiscal. Saque direto contra o futuro.
Como subproduto, dizima-se a estrutura produtiva, abrindo espaço para que esses bancos de negócios, montados em dinheiro externo, e com suas engenharias financeiras, entrem adquirindo companhias industriais grandes a preço de banana, financiando-se nas taxas pagas pelos títulos públicos. Pequenas e médias vão direto para a lata de lixo.
No dia seguinte, na Folha, sob o título “Festival” (https://goo.gl/JBIAHJ), André procurou desqualificar as críticas, por não estarem substanciadas nos estudos acadêmicos, mas em meras observações empíricas:
“O ``policy entrepreneur" dá aparência de respeitabilidade conceitual a demandas políticas de grupos de interesses. Sua argumentação segue uma linha mestra: procura desqualificar o que preconiza a boa teoria por serem raciocínios acadêmicos, que desconhecem a vida prática, a realidade. Jogam com um preconceito tão profundamente arraigado quanto ignorante -mas de eterno apelo para os homens práticos- de que o teórico é um sonhador desligado da realidade. ``Homens práticos, que se crêem livres de toda influência intelectual, são geralmente escravos de algum economista defunto". Sábio Lord Keynes”.
“Em economia, traçar a linha divisória entre as idéias sérias e a pseudociência é muito mais difícil do que nas ciências exatas. Existe um campo fértil para a formulação de doutrinas que são pura expressão de preconceitos populares, façam eles sentido ou não. A demanda por teses politicamente vendáveis é particularmente intensa em períodos de crise. Como viemos de uma década de sérias dificuldades, temos sido um prato cheio para a ação dos vendedores de idéias e planos.
Mas nos últimos dias, confesso, há muito não ouço e leio tal festival de bobagens conceituais vendidas como a realidade prática em oposição à inflexibilidade acadêmica”. 
Em 26 de maio de 1995, com o artigo “D. Sebastião e a reunião de Carajás” (https://goo.gl/mHaEC6) rebati:
“Hoje há uma multidão de neo-sebastianistas -basicamente lotados na imprensa- que acredita piamente que, dia desses, um economista yuppie descerá diretamente de Carajás, em seu Porsche de corrida, para preparar a revanche do Cruzado.
A grande maldição dos anos 80 não foi Sarney, nem a classe política. Foi a superficialidade dos pacotes econômicos e a mística que envolveu os pacoteiros.
(...)Quando se preparou a troca de moedas do real, todas as avaliações indicavam que se tinha o melhor conjunto de circunstâncias favoráveis na economia para um plano de estabilização. Confira:
1) Maior nível de reservas cambiais da história -possível apenas depois que o economista Ibrahim Eris reformulou a política cambial brasileira. 2) Uma economia aberta e superavitária -a partir da reestruturação do comércio exterior e de um programa de abertura planejada da economia. 3) Uma economia desregulamentada -depois do fim da reserva de mercados e de um sem-número de restrições à livre competição. 4) Empresas brasileiras reestruturadas e ingressando firmemente em projetos de modernização -processo iniciado com o Plano Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP) e com as câmaras setoriais. 5) Programas de investimento em quase todos os setores -assegurados pela manutenção das regras do jogo por quatro anos. 6) Relativo consenso sobre reformas fundamentais. 7) Equacionamento da dívida interna, ainda que às custas da violência do bloqueio dos cruzados.
Com toda essa enorme agenda, em 20 anos tudo o que nossos gurus lograram produzir foram estudos recorrentes sobre troca de moedas -a parte mais espetaculosa e superficial de um plano.

Com apenas 18 meses com a economia de volta às mãos dos pacoteiros, e apenas com sua capacidade de brincar de fliperama com as políticas monetária e cambial, tem-se: 1) O país em nova crise cambial. 2) A volta de alíquotas superprotetoras em muitos setores. 3) Crescimento exponencial da dívida interna, comprometendo o futuro ajuste fiscal. 4) Uma multidão de empreendedores arrependidos até a medula dos ossos por terem apostado no país e programado investimentos.
Mesmo assim, recebem olhares embevecidos de analistas rasos, que conclamam, com um frêmito nelsonrodriguiano: o plano é bom, porque faz doer.
Todo o ouro de Carajás não vai pagar o custo dessa aventura.

A revisão acadêmica

Vinte anos de juros elevadíssimos promoveram o mais profundo processo de concentração econômica da história, que praticamente consumiu todos os excedentes orçamentários que poderiam ter sido investidos na infraestrutura, em educação, saúde, na economia real. A diferença entre o Brasil que é e a potência que poderia ter sido está nos trilhões desviados do orçamento para pagamento de juros.
E, agora, o principal formulador das políticas monetária e cambial do plano Real, André, escreve um artigo em tom acadêmico aceitando que todas as críticas contra essa loucura estavam corretas. Em “Juros e conservadorismo intelectual” (https://goo.gl/QJOdjT) dá a mão à palmatória, trata como mero conservadorismo acadêmico erros intencionais que praticamente destruíram o futuro do país. E traz as últimas novidades da teoria econômica:
·      Taxas de juros elevada não combate inflação, pelo contrário: além de não afetar a demanda, sinaliza para o mercado que o Banco Central está apostando em inflação mais elevada.
·      Taxas de juros elevadas pressionam as contas públicas, aumentam o déficit nominal, obrigando o governo a cortar mais ainda as despesas primárias e, desse modo, impactando o nível de atividade; do outro lado atraem dólares apreciando o câmbio e reduzindo preços de importados, à custa de desequilíbrios de monta nas contas externas. Assim, o controle da inflação se faria de forma torta, com enormes sequelas na economia.
·      Taxa de juros mais baixa não é inflacionária. Essa conclusão tardia do André – fundada nas últimas “descobertas” da fronteira do conhecimento econômico – derrubam essa baboseira de que Dilma Rousseff derrubou a taxa de juros sem ter condições e isso provocou mais inflação.

As constatações empíricas

No artigo “O padrão sangria na política Monetária” (https://goo.gl/JUQ9g5) de 3 de fevereiro de 2012, aqui no Blog, mostrava que era mínimo o efeito da política monetária sobre a demanda através do mercado de crédito.
“Por exemplo, um bem de R$ 1.000,00, por 36 meses a taxa de 3% ao mês (42,6% ao ano) resultará em uma prestação de R$ 45,80. Um aumento de 1 ponto na Selic (que provoca comoção nacional), se repassado para o financiamento, resultará em uma prestação de R$ 46,21. Um aumento de 3 pontos na Selic anual resultará em uma prestação de R$ 47,03. Pergunto: impactará a decisão de compra do consumidor? Evidente que não. Portanto, o efeito do canal de crédito é inexpressivo”.
Também era mínimo o efeito sobre o custo dos estoques das empresas. Tão pequeno que elas repassariam o custo para o produto final, a manteriam os estoques no mesmo nível:
Por outro lado, mostrava um efeito perverso sobre a oferta (o aumento de investimentos):
“Suponha um investimento de R$ 1 milhão, com uma taxa anual de retorno de 10% e um prazo de 10 anos para amortização. O fluxo de caixa terá que ser de R$ 162,7 mil por ano para amortizar o investimento em 10 anos (sem considerar o valor residual). Se a taxa aumenta 3 pontos, o prazo de retorno aumenta para 14 anos. É evidente que ocorre um corte em todos os investimentos que proporcionem um retorno inferior.
É uma lógica maluca. A política monetária atua sobre a demanda visando corrigir o descompasso com a oferta. Em vez de aumentar a oferta, a política monetária a reduz, através da inibição dos investimentos.
Só o país da jabuticaba para aceitar essa lógica”.
Finalmente, impactava tremendamente os investimentos públicos:
“Aumenta a Selic. Há uma pressão adicional sobre as contas públicas e sobre a relação dívida/PIB. Para contrabalançar, exige-se um aumento do superávit primário. Cortam-se investimentos públicos e, com isso, reduz-se a demanda agregada.
Depois, alega-se que o país não pode crescer (e tome juros altos para segurar o crescimento) porque não tem infraestrutura adequada”.
No dia seguinte, no artigo “A ficção da política monetária”(3/02/2012) (https://goo.gl/OvTxKc) analiso o impacto da Selic sobre os estoques das empresas. Mostrava mostrava que cada ponto da Selic (que tem um impacto de quase R$ 100 bilhões no orçamento público) impactaria em 0,1% o custo final do produto, variação ínfima.
No artigo “Para entender a planilha do BC” (29/02/2012) (https://goo.gl/bKDOmW) mostro a irracionalidade do mercado tentando calcular a taxa de juros de equilíbrio (aquela que manteria os preços equilibrados) e o conceito do PIB potencial (o crescimento possível, dadas as vulnerabilidades da economia)
“Quais seriam os mecanismos que estabeleceriam essa correlação entre Selic e PIB potencial ou Selic e metas inflacionárias?
Se existirem, são os mais tortos possíveis, um método que, na medicina, poderia ser comparado às velhas sangrias para reduzir a pressão do doente.
Assim:
1. O PIB está supostamente crescendo acima do PIB potencial. Isto é, a produção interna está acima da capacidade produtiva.
2. Aumenta-se a Selic.
3. O único efeito da Selic é reduzir os investimentos privados. Então, em vez de aumentar a oferta para equilibrar a oferta com a demanda, faz-se o contrário: um movimento para derrubar a demanda através da redução dos investimentos, que poderiam garantir a melhoria do PIB potencial. Desestimula-se o investimento produtivo para reduzir a demanda imediata - método mais anacrônico que a sangria.
Um segundo processo, mais daninho ainda, é o seguinte:
1. Aumenta-se a Selic. Com isso há um aumento da dívida pública, dos juros a serem pagos, exigindo maior superávit primário para contrabalançar.
2. Para aumentar o superávit, o governo corta despesas com saúde, educação, com investimento. Com isso, derrubam a atividade produtiva, desaquecendo a economia.
Se esses dois movimentos fossem explicados nos Estados Unidos ou na Alemanha, seriam motivo de risos”.
No Brasil, a tragédia não provoca risos. Agora, André joga fora as velhas ideias. Mas conserva os ricos frutos da árvore envenenada.

Sobre as evidências da tese do ressentimento da classe média, por Luís Felipe Miguel.





Na Folha de hoje, Celso Rocha de Barros critica a ideia de que um dos combustíveis para a mobilização contra Dilma foi o ressentimento da classe média - ressentimento ao ver os pobres chegando aos lugares que eram exclusividade sua, como os aeroportos ou o ensino superior. Ele ilustra com o livro de Jessé Souza sobre o golpe do ano passado, embora assinalando que a "tese do ressentimento da classe média" frequenta várias análises de intelectuais e ativistas progressistas. Mas, na "falta de evidência empírica sistemática", a tese seria apenas "autocondescendência da parte da esquerda".
Parece que, para Barros, a única evidência empírica sistemática aceitável seria algum tipo de survey. Sem repisar aqui os limites dessa metodologia, cabe indicar que há, sim, evidência empírica suficiente para afirmar que aquilo que ele rotula como "ressentimento" - e eu prefiro chamar de inconformidade da classe média com a redução da distância que a separava dos mais pobres - teve papel relevante na mobilização a favor do golpe. Como ocorreu, aliás, em momentos anteriores de nossa história.
As grandes manifestações pela destituição da presidente tiveram, como um de seus eixos discursivos principais, a repulsa aos programas de inclusão social, na forma da defesa da "meritocracia", da denúncia dos "vagabundos" e do saudosismo manifestado em frases como "eu quero meu país de volta". Desde o início, foi algo central no discurso das lideranças das mobilizações, tanto entre os movimentos de proveta (MBL, Vem Pra Rua etc.) quanto entre os jornalistas da televisão - e também em alguns parlamentares, como Ronaldo Caiado. Quem foi às ruas se sentiu sensibilizado por esse discurso ou, no mínimo, não ficou incomodado com ele. Isso indica, com clareza, o desconforto com a possibilidade de maior igualdade social. Bem melhor, aliás, do que um survey que perguntasse aos manifestantes a favor do golpe se "você está ressentido/a com o progresso material dos pobres"...
A redução da distância social implica prejuízos simbólicos e materiais. Significa que começa a escassear a mão de obra que estava disponível a preço vil, beneficiando esta classe média nos serviços domésticos e pessoais (cabeleireira, jardineiro etc.). Significa que as vantagens comparativas que ela imaginava legar para seus filhos, em particular com o ensino superior, deixam de ser tão marcantes. Há mais, portanto, do que o mero aborrecimento com filas e aglomerações, à la Ortega y Gasset.
Não por acaso, a possibilidade de mobilização política deste desconforto ou ressentimento dependeu de um trabalho prévio de demolição da noção de solidariedade social que fundamentava o consenso - ao menos da boca pra fora - sobre a necessidade de construir um Brasil mais justo. Este foi o grande trabalho ideológico da direita nos últimos tempos.
Uma das apostas do PT foi que, se o preço a pagar fosse bem baixinho, as elites gostariam de ter um país um pouco mais civilizado. Mesmo que fosse só para não passar vergonha no exterior. Mas não é nada disso. A "modernidade" da elite brasileira deu um balão no iluminismo e se afirma como um híbrido de senhor de escravos e nouveau riche. Está à vontade em meio às chacinas, à fome, ao desespero. Seu sonho é ter um Romero Britto na parede e uma senzala no quintal. E a classe média olha para ela como se fosse seu farol.

O culto fascista da violência, por Luiz Ruffato.


Jair Bolsonaro. Agência Brasil






Em fevereiro de 1909, o poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti lançava o Manifesto Futurista, onde, entre outras sandices, pregava: “Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher”. Cinco anos depois, estourava a I Guerra Mundial e, após um interregno de apenas 21 anos, o mundo inteiro se envolveria na II Guerra Mundial, que deixaram, juntas, um saldo de 34 milhões de soldados, 65 milhões de civis mortos e 56 milhões de feridos. Marinetti ofereceu à política as bases estéticas e à arte as bases ideológicas do fascismo, que, nascido na Itália, se espraiaria pelos cinco continentes alcançando até os dias de hoje.
No Brasil contemporâneo, o pensamento fascista prolifera em terreno fértil. Os recentes massacres nas penitenciárias de Manaus (AM) e Boa Vista (RR) possibilitaram vir à tona comentários nas redes sociais que demonstram o fascínio do homem comum pela “violência arrebatadora” que inspirou Marinetti. O secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, declarou: “Eu sou meio coxinha sobre isso. Tinha que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”. Bruno Júlio, filho do ex-deputado federal e atual deputado estadual por Minas Gerais, Cabo Júlio (PMDB), perdeu o emprego pelo comentário absurdo. O pai, cabo da Polícia Militar, condenado em segunda instância por improbidade administrativa a 10 anos de inelegibilidade, é conhecido pelos rompantes, o mais recente por ter chamado a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) de “vaca” em sessão plenária.
Outro que fez questão de proferir sua opinião foi o deputado federal Major Olímpio (SD-SP), que no Facebook desafiou os presos do Complexo Penitenciário de Bangu, no Rio de Janeiro, a cometer massacres que superassem os do Amazonas e Roraima. O deputado, major da Polícia Militar, escreveu: “Placar dos presídios: Manaus 56 x 30 Roraima. Vamos lá, Bangu! Vocês podem fazer melhor!” Em qualquer país sério do mundo, Major Olímpio perderia seu mandato por quebra do decoro parlamentar e ainda seria processado por incitação ao ódio e à violência - mas não aqui neste canto acanhado do mundo.
O Major Olímpio segue a tradição do pensamento de ultradireita que vem prevalecendo no Congresso Nacional. Em 17 de abril do ano passado, ao declarar seu voto favorável à admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o deputado federal e ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador da época da ditadura militar. Apesar de a tortura ser considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como crime contra a humanidade, somente em junho, dois meses depois do episódio, e após pressão da sociedade, a Câmara dos Deputados resolveu abrir processo no Conselho de Ética contra Bolsonaro, e até hoje o caso se arrasta. Em maio de 1999, o deputado, em entrevista à televisão, já havia dito claramente ser favorável à tortura e à guerra civil como única solução para os problemas do Brasil.
Major Olímpio, dono de 179 mil votos, justificou seu ponto de vista no Facebook afirmando que seu papel de legislador é “manifestar o pensamento da sociedade”: “Antes eles se matem sozinhos do que matem a população”. A grande tragédia é que o Major Olímpio está certo. Ele, Bruno Júlio e Bolsonaro, o deputado mais votado do Rio de Janeiro com 464 mil votos, realmente representam o pensamento médio da população. Uma pesquisa, realizada em outubro de 2011 pelo Ibope para a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), mostrava que 46% dos brasileiros era favorável à pena de morte, 79% defendiam penas mais rigorosas para os criminosos e 86% pediam a diminuição da idade penal. Em outra pesquisa, no ano passado, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a Datafolha revela que 57% dos entrevistados concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”.
O Brasil vem se tornando dia a dia mais e mais um país fascista. Ao invés de lutarmos pela construção de prédios escolares decentes, reivindicamos presídios; no lugar de exigirmos um sistema educacional de qualidade, pedimos mais policiamento; ao invés de ruas seguras, aspiramos condomínios invioláveis. Mas, vale a pena lembrar, pelas palavras do poeta Affonso Romano de Sant’Anna: “Uma coisa é um país / outra um ajuntamento. // Uma coisa é um país / outra um regimento. // Uma coisa é um país / outra o confinamento”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Bresser-Pereira: "Não vejo nada sendo feito para o País superar a crise", por Carlos Drummond.

O governo Temer produz um desastre e terminará de forma melancólica, afirma o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira
Bresser-Pereira
Bresser-Pereira, crítico do neoliberalismo



Ex-ministro de FHC e ex-PSDB, Luiz Carlos Bresser-Pereira não passa um dia sem fustigar a política tucana. Não bastasse, criou com colegas da academia uma teoria econômica antineoliberal.
Na entrevista a seguir, faz autocrítica do apoio ao ajuste fiscal de 2015, diz ter sido o único da sua classe social a votar em Dilma Rousseff, critica as elites e explica por que decidiu criticar a Operação Lava Jato
CartaCapital: Como o senhor vê o Brasil sob o governo Temer?
Luiz Carlos Bresser-Pereira: Estamos sob um governo nascido de um golpe parlamentar. Não é democrático. Assumiu a Presidência a partir de um impeachment absolutamente sem legitimidade. Falou-se que Dilma Rousseff cometeu estelionato eleitoral, por mudar a política assumida na campanha. Não fez isso, pois não sabia da crise, nem ela nem ninguém.
O Boletim Focus de janeiro previa um crescimento do PIB em 0,5% e caímos 3,8% em 2015. Quem fez um estelionato brutal foi Michel Temer. Eleito duas vezes por uma chapa de centro-esquerda, adotou uma política rigorosamente de direita neoliberal. Mas é o presidente. Como disse Fernando Henrique, é isso que a gente tem aí.
E isso que a gente tem aí tem produzido um desastre. Não toma absolutamente nenhuma iniciativa para acabar com a recessão brutal iniciada em janeiro de 2015. Quem quebrou não foi o governo nem os bancos, mas as empresas, em consequência da taxa de câmbio apreciada entre 2007 e 2014. Começou com a própria Dilma, quando chamou Joaquim Levy para assumir a Fazenda e ele entrou em uma política violenta de ajuste fiscal. Confesso que errei aí porque, inicialmente, apoiei. 
CC: Por que apoiou?
LCBP: Estava interessado em preservar Dilma. Vi que a situação era muito ruim, mas não tinha a menor ideia do tamanho da crise e acho que nem Dilma nem Levy tinham ideia. Mas estava errado. Querer recuperar a confiança apenas com um ajuste quando há uma situação objetiva de empresas quebradas é tolice, tanto que só agravou o problema.
E o atual governo continua na mesma toada. O ajuste fiscal é essencialmente de investimentos, o mais fácil de cortar. A taxa de juros foi mantida em um nível altíssimo, não foi criado nenhum sistema especial de crédito para as empresas. 
CC: E a PEC 55?
LCBP: Um perfeito absurdo. Com isso, o governo não vai resolver o problema fiscal. Duvido que, no ano que vem, ainda tenha poder para tanto. Está em processo de forte deslegitimação nas elites que o apoiaram se dizendo contra a corrupção.
Na verdade, eram contra a esquerda do PT e o Lula. Isso está óbvio hoje, quando se vê o nível e o padrão do governo que substituiu aquele da Dilma. O padrão moral da gestão dela era muito mais alto.
CC: As elites começaram a retirar seu apoio ao governo?
LCBP: Aquela frase do Fernando Henrique que mencionei antes é bem típica. O Estado de S. Paulo, que cerra fileiras com quem está de acordo e ignora os erros, publicou muitos artigos claramente negativos ao governo. Acho que Temer termina o seu mandato, mas sem poder nenhum. 
CC: O Brasil sairá da recessão no próximo ano?  
LCBP: Pode ser que saia um pouquinho e muito lentamente. Não vejo nada sendo feito para o País superar a crise. 
CC: Como vê o combate à corrupção?
LCBP: A Operação Lava Jato, no início, foi um grande avanço, pois descobriu uma rede criminosa e pôs gente na cadeia. Depois continuou uma caça às bruxas, que são os políticos, em particular Lula, e isso me pareceu absolutamente antidemocrático, desnecessário e um prejuízo muito grande ao País. Não fazer logo os acordos de leniência e possibilitar que as empresas superem essa crise, isso é também inaceitável. Essas empresas são um patrimônio do País e têm sido muito maltratadas. 
CC: Como avalia a condução da economia no governo Lula?
LCBP: A estratégia correta de Lula foi fazer uma coalizão de classes desenvolvimentista com industriais, trabalhadores e burocracia pública. Isso fracassou, pois os juros e o câmbio não foram mexidos da forma certa. O PT, brinco, inventou o capitalismo sem lucro.
Não queria fazer revolução socialista, mas governar um país capitalista distribuindo um pouco de renda, algo muito correto. Mas fazer isso sem garantir lucro para as empresas industriais é uma tolice. 
Senado
A PEC 55,
CC: A política econômica brasileira está na contramão do mundo?
LCBP: A proposta salvadora que os economistas neoliberais inventaram e foi aceita pela sociedade por volta de 1980 morreu. No Brasil, caminhamos no sentido inverso, de aprofundar o neoliberalismo no qual entramos a partir de 1990, com Fernando Collor.
O único momento em que esse neoliberalismo foi desafiado foi quando Dilma, em 2011, baixou os juros. Mas fez isso sem ter os elementos necessários e logo teve de voltar. O desenvolvimentismo malfeito, como nesse caso, é muito ruim, mas o neoliberalismo é ruim por definição.
Os neoliberais não têm a menor condição de promover o desenvolvimento econômico do Brasil. Nunca fizeram isso. Criam crises financeiras sempre, por defenderem altos déficits em conta corrente, que eles dizem que é poupança externa, mas é mais consumo e endividamento, até que o País quebra. Isso aconteceu com FHC muito claramente, a crise de 1998 é desse tipo. 
CC: Qual o núcleo de sua proposta de novo desenvolvimentismo? 
LCBP: Nasceu do desenvolvimentismo clássico e concentra a atenção nos cinco preços macroeconômicos, ideia inexistente na macroeconomia keynesiana: as taxas de lucro, juros, câmbio, salários e inflação.
Concorda com o pensamento keynesiano na política fiscal e monetária, mas coloca no centro a ideia de que há uma correspondência entre taxa de câmbio e déficit ou superávit em conta corrente e desenvolve uma teoria nova para determinar a taxa de câmbio.
Em termos práticos, a necessidade de uma taxa de câmbio que torne competitivas as empresas industriais é um aspecto fundamental. O obstáculo principal é a doença holandesa, apreciação de longo prazo do câmbio causada pela possibilidade de exportação de commodities com uma taxa mais valorizada que aquela necessária à indústria.
Outras causas são as políticas de crescimento com poupança externa, ou seja, com déficit em conta corrente, de âncora cambial para combater a inflação e de altas taxas de juro para atrair capitais e combater a inflação. Isso é desastroso para um país em desenvolvimento. O novo desenvolvimentismo propõe a manutenção de uma taxa de câmbio competitiva, e para isso oferece um conjunto de políticas novas. 
Produção
Sem crédito, o setor privado não vai puxar o crescimento do País nos próximos anos (Foto: Juca Varella/Fotos Públicas)
CC: Qual a responsabilidade da mídia na radicalização da classe média e no ódio profundo ao PT?
LCBP: A mídia reflete em qualquer país a visão das elites, incluídos os capitalistas donos dos jornais, que são a mídia mais importante, vendidos para a classe média. Então eles têm de publicar aquilo que as classes média e rica querem ouvir.
Elas ficaram extremamente conservadoras no País porque fizeram uma clara opção de associação com as elites tradicionais de Washington e Nova York. Perderam completamente a ideia de nação. A verdade que a imprensa nos traz todos os dias é a verdade do Ocidente, de Washington e Nova York. Uma verdade profundamente imperialista. Isso dá um resultado, aqui no Brasil, muito ruim.
É absolutamente incompatível com crescimento econômico e diminuição da desigualdade. Leva a estratégia política da esquerda a dividir a direita e tornar uma parte dela progressista. Mas isso fracassou no governo Lula e eu não vejo quando haverá outra oportunidade para fazer isso. 
CC: O senhor foi o único egresso do PSDB a assinar o manifesto contra a perseguição judiciária e policial a Lula. 
LCBP: Assinei imediatamente porque fiquei absolutamente indignado quando fizeram a condução coercitiva de Lula, menos por isso e mais por causa do press release que os procuradores federais publicaram.
Disseram que Lula é o principal beneficiário do esquema de corrupção, que alcança entre 10 bilhões e 14 bilhões de reais, e tinha se beneficiado por meio de um apartamento que não comprou e um sítio que amigos lhe emprestaram.
É de um ridículo, de um absurdo completo. Lula segue morando no mesmo apartamento em São Bernardo, com o mesmo padrão de vida. Que negócio é esse? Lula não tem crime nenhum contra ele. O PT, infelizmente, tem, por se envolver institucionalmente com a corrupção. Isso foi uma tragédia para a esquerda. 
CC: O senhor foi ovacionado no Tuca, em evento de apoio a Dilma. Seria um reconhecimento da sua transição política? 
LCBP: Não sei. Saí do governo Fernando Henrique em julho de 1999. Só por volta de 2004 consegui entender a lógica do governo, ou seja, da teoria da dependência desenvolvida por FHC e Enzo Faletto, em 1969. Fiquei convencido de que devia deixar o PSDB, que se tornara um partido de direita em vez de centro-esquerda social-democrata, como era o projeto.
Não existia nele nenhuma ideia de nação e sem isso considero impossível haver desenvolvimento. Tomei a decisão de só me dedicar à vida acadêmica e de intelectual público, e sou muito feliz nessa condição, embora corra riscos.
Na eleição de Dilma, estava contra toda a minha classe social. Mas cumpro a minha obrigação republicana. O republicano é capaz de, em alguns momentos, ir contra seus interesses para defender o interesse público. Essa é a diferença em relação aos neoliberais. 

A esquerda brasileira está perdendo os novos pobres, por Juan Arias.


Sindicalistas protestam no RJ. Agência Brasil





O problema da esquerda brasileira é que acabou se aristocratizando, transformando-se no refúgio da classe média alta, dos artistas e intelectuais




Começa a haver um consenso sobre a crise da esquerda contemporânea e o seu abandono pelos mais marginalizados, entre eles os trabalhadores não qualificados, os desempregados, os jovens desencantados e os imigrantes. Eles são o mundo da nova pobreza.





O resultado é duplamente dramático, porque a massa dos novos deserdados começa a se refugiar na extrema direita, que roubou da esquerda o discurso anticapitalista. Está ocorrendo na democrática Europa, e existe o perigo de que ocorra também aqui no Brasil.
No espaço de alguns dias, vários intelectuais se manifestaram em concordância com tal análise. Neste mesmo jornal, Víctor Lapuente, doutor em Ciências Políticas da Universidade de Oxford, em seu artigo “O sexo da esquerda”, alertou sobre o risco de que a esquerda contemporânea “deixe de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto”.
E nesse conjunto da sociedade vivem, por exemplo, a grande massa dos trabalhadores desqualificados, os últimos na escala da pirâmide social e os milhões que procuram trabalho. Todos eles esquecidos pelos grandes sindicatos.
Allen Berger, catedrático de economia na Universidade da Carolina do Sul, bateu na mesma tecla numa recente entrevista ao jornal O Globo, em que afirma que a esquerda de hoje “perdeu o poder de diálogo com os trabalhadores mais pobres”. Ele alerta que “esse mundo se rebelou” e está sendo “absorvido pela extrema direita”.
No Brasil, em um artigo recente no Estadão, o sociólogo José de Souza Martins, que já lecionou na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, criticava o Partido dos Trabalhadores (PT) por ter traído sua função institucional: “Poderia ter sido o canal de expressão daquela parcela da população que a história condena ao silêncio”.
O problema da esquerda brasileira, começando pelo PT, que constituía sua espinha dorsal, é, de fato, que acabou se aristocratizando, transformando-se no refúgio da classe média alta, dos artistas e intelectuais.
Os sindicatos se burocratizaram e se comprometeram mais com as categorias ricas, como os banqueiros, do que com o exército dos milhões de trabalhadores marginalizados. Deixaram para trás valores como os do mérito e a economia, cuja bandeira hoje é empunhada pela direita.
A esquerda petista escorregou, além disso, para a política da corrupção e dos privilégios. Não foi só o partido que se aburguesou, mas também muitos de seus ativistas, que descobriram o gosto pela vida cômoda dos milionários. E eles representavam a ética.
A esquerda brasileira resgatou milhões de trabalhadores da miséria, mas sem qualificá-los profissionalmente. Formou assim uma massa de novos pobres que hoje, decepcionados e castigados pela crise econômica, voltam seus olhos para a direita e para as igrejas evangélicas conservadoras (exemplos: a periferia pobre de São Paulo, que preferiu votar para prefeito no milionário João Doria, relegando o candidato do PT; e os excluídos das favelas do Rio, que elegeram como prefeito Marcello Crivella, bispo conservador da Igreja Universal, preferindo-o a Marcelo Freixo, candidato do esquerdista PSOL, que era o preferido pelas classes mais altas).
Sabemos, ao mesmo tempo, que a classe de trabalhadores pobre é conservadora. Defende a família e a tradição, por cultura e por instinto de sobrevivência, e vê com bons olhos que a polícia mate os criminosos sem os penduricalhos dos processos judiciais, sob o lema de que “bandido bom é bandido morto”.
Essa massa não se assusta com o fato de ocorrerem no Brasil 60.000 homicídios por ano, um triste recorde mundial, nem que mais de meio milhão de pessoas apodreçam em prisões desumanas, a maioria pobres e negros.
Para essa massa de novos pobres, a polícia e o Exército são seus melhores guardiões. Analisem as redes sociais e vejam como o militar e ultradireitista Jair Bolsonaro, pré-candidato a presidente, que continua defendendo a tortura e a pena de morte, desperta a simpatia de boa parte do mundo dos trabalhadores mais pobres.
Por que a esquerda não foi capaz de convencer essa massa de pobres de que os valores da democracia e da modernidade constituem a maior garantia futura de prosperidade?
Como escreve o sociólogo brasileiro Souza Martins, porque a esquerda “incluiu sem democratizar”.
Não façam, por favor, uma pesquisa sobre a democracia nesse mundo da nova pobreza, pois sofreriam uma grande decepção.
A esquerda toda, e também a brasileira, precisa se reinventar para voltar a ser capaz (se é que ainda é possível) de reconquistar os que foram seu sangue e sua razão de ser: os trabalhadores mais pobres, os mais expostos às aventuras antidemocráticas. Cada época tem os seus. Hoje, o proletariado é outro.
Seria triste e perigoso ver uma transfusão de sangue da massa de trabalhadores marginalizados, ou de jovens desencantados sem futuro, para as veias da extrema direita.
O grande teste da democracia para os brasileiros já está logo aí, na eleição presidencial de 2018. Então veremos qual força política será capaz de conquistar os votos da massa dos novos pobres, hoje desiludidos com a esquerda.

Destaque da semana: o imprevisível, mas previsível Donald Trump, por Flavio Aguiar.

Há um tema a mais na 'agenda Trump'. Trata-se do que vai acontecer com sua relação com os eleitores empobrecidos que ajudaram sua eleição.


Flavio Aguiar Gage Skidmore
Donald Trump está em todas. Parece um daqueles guris de pelada que quer bater escanteio, cabecear na área, defender no gol e depois bater o tiro de meta.
Evidentemente está disputando espaço e beleza com Barack Obama, querendo fazer crer que o presidente eleito já é o presidente de facto.
Os temas em torno dele são vários, que ele considera com seu estilo belicoso, histriônico e fanfarrão.
O confronto com Obama tem uma razão muito clara, embora de bastidor. Trump precisa se afirmar junto à cúpula, ao establishment e aos parlamentares republicanos. Então nada melhor do que se apresentar dede já como o melhor anti-Obama. Está em jogo também o programa de saúde pública posto de pé pelo presidente sainte. Vamos ver o que sobre dele. Trump tem consciência de que este programa é odiado pelos republicanos e pelos ricos e abonados destes partido, mas ao mesmo tempo sabe que se destruí-lo completamente, estará pondo em risco uma de suas principais bases de sustentação, os trabalhadores empobrecidos que acham que ele (Trump) é capaz de reergue-los da fossa em que se sentem abandonados (fossa no sentido de fosso mas também no sentido de depressão coletiva).


No plano externo, Trump está às voltas com o tema “Rússia”. Putin é acusado pelos democratas e pelos dirigentes do aparato de inteligência dos EUA de ter ordenado o favorecimento de Trump através de hackers que atingiram os emails do PD, e de ter assim garantido a vitória do candidato republicano. A acusação até o momento apresentou “convicção” e a afirmação de que o aparato norte-americano tem “provas”, mas estas provas não vieram à luz até o momento, o que demonstra que os procuradores e juízes de Curitiba, antes discípulos do Norte, agora estão fazendo escola por lá. Inicialmente Trump negou a acusação, coisa que também faz Putin. Agora, mais malandramente, Trump na nega a possibilidade da ação de Putin, mas nega que ela tenha influenciado a eleição. Não deixa de ter razão: sua vitória foi garantida não por um Putin da vida, mas pela distorção anacrônica do sistema eleitoral norte-americano, que prevê a eleição do presidente por um colégio eleitoral que refrata o voto popular.


Trump teve dois milhões de votos a menos do que Hillary, e assim mesmo esta perdeu a eleição.


Mas o mais importante é o que acontecerá com as relações entre ambos os países depois que ele tomar posse, por exemplo, em relação à Síria. De momento Putin, com o acordo da Turquia, conseguiu por para escanteio a política equivocada de Washington, dando as cartas, tanto quanto isto é possível em meio ao mosaico de insanidades daquela guerra civil, nas (im)prováveis negociações que avançam a passos de tartaruga em meio a uma hecatombe com tentáculos de polvo gigante, daqueles de 20 mil léguas submarinas. Mas e depois? A ver.


Outro tema importante é o que acontecerá com as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia devido à reanimação, por esta, da Crimeia, que ela havia cedido à Ucrânia anteriormente, ainda na época de Khrushchev. (Até hoje ninguém foi capaz de explicar inteiramente por que o então primeiro-ministro soviético fez a concessão).


Já com a China a posição de Trump é mais belicosa e beligerante. Telefonou, antes mesmo da posse, para a presidenta de Taiwan. Isto fez a temperatura subir dezenas de graus em Pequim, ao ponto da ebulição. Fez outros movimentos turbulentos, como dizer que o Japão devia ter suas próprias armas nucleares (!!!), o que faz balançar o coreto chinês e o norte-coreano. Além do próprio japonês: afinal, e o único país que foi alvo de um ataque nuclear até hoje.


Mas a China não dorme de touca. Ameaça Trump no terreno em que ele está assumindo posições problemáticas: o México. Trump garante que este país vai pagar pelo muro que ele pretende, reitera, construir. Decidiu impedir que a Ford construa nova fábrica de automóveis ao sul do Rio Bravo (Grande, para os norte-americanos), em nome de proteger os empregos dos trabalhadores de seu país. E Pequim está prometendo preencher, com seus investimentos, este vácuo que está sendo aberto pela - ainda não política - retórica explosiva do candidato eleito que quer passar por já empossado.


Há um tema a mais na “agenda Trump”. Trata-se do que vai acontecer com sua relação com os eleitores empobrecidos que ajudaram sua eleição. Trump está nomeando para seu secretariado (que equivale ao nosso ministério brasileiro) o que a política norte-americana apresenta de pior, de financistas de Wall Street e proximidades e falcões guerreiros na Defesa e Segurança. Isto não vai representar, no longo prazo, boas notícias para aquele eleitorado. A ver como é que fica. Se Trump perder este apoio, ele vai precisar mais do apoio institucional do Partido Republicano, o que está longe de ser uma certeza.