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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O homem mediano assume o poder, Eliane Brum.

O que significa transformar o ordinário em “mito” e dar a ele o Governo do país?





Jair Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro. AP


Desde 1 de janeiro de 2019, o Brasil tem como presidente um personagem que jamais havia ocupado o poder pelo voto. Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros. É necessário aceitar o desafio de entender o que ele faz ali. E com que segmentos da sociedade brasileira se aliou para desenhar um Governo que une forças distintas que vão disputar a hegemonia. Embora existam várias propostas e símbolos do passado na eleição do novo presidente, a configuração encarnada por Bolsonaro é inédita. Neste sentido, ele é uma novidade. Mesmo que seja uma difícil de engolir para a maioria dos brasileiros que não votou nele, escolhendo o candidato oposto ou votando branco, nulo ou simplesmente não comparecendo às urnas. Bolsonaro encarna também o primeiro presidente de extrema direita da democracia brasileira. O “coiso” está no poder. O que significa?
Quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez, na eleição de 2002, depois de três derrotas consecutivas, foi um marco histórico. Quem testemunhou o comício da vitória na Avenida Paulista, tendo votado ou não em Lula, compreendeu que naquele momento se riscava o chão do Brasil. Não haveria volta. Pela primeira vez um operário, um líder sindical, um homem que fez com a família a peregrinação clássica do sertão seco do Nordeste para a industrializada São Paulo de concreto, alcançava o poder. Alguém com o “DNA do Brasil”, como diria sua biógrafa, a historiadora Denise Paraná.
O Lula que conquistou o poder pelo voto era excepcional. “Homem do povo”, sem dúvida, mas excepcional. Um líder brilhante, que comandou as greves do ABC Paulista no final da ditadura militar (1964-1985) e se tornou a figura central do novo Partido dos Trabalhadores criado para disputar a democracia que retornava depois de 21 anos de ditadura. Independentemente da opinião que cada um possa ter dele hoje, é preciso aceitar os fatos: quantos homens com a trajetória de Lula se tornaram Lula?
Lula era o melhor entre os seus, o melhor entre aqueles que os brancos do Sul discriminavam com a pecha de “cabeça chata”. Se sua origem e percurso levavam uma enorme novidade ao poder central de um dos países mais desiguais do mundo, a ideia de que aquele que é considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a política e o conceito de democracia. Não se escolhe um qualquer para comandar o país, mas aquele ou aquela em que se enxergam qualidades que o tornam capaz de realizar a esperança da maioria. Neste sentido, não havia novidade. Quando parte das elites se sentiu pressionada a dividir o poder (para manter o poder), e depois da Carta ao Povo Brasileiro assinada por Lula garantindo a continuidade da política econômica, era o excepcional que chegava ao Planalto pelo voto.


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O que a chegada de Lula ao poder fez pelo Brasil e como influenciou o imaginário e a mentalidade dos brasileiros é algo que merece todos os esforços de pesquisa e análise para que se alcance a justa dimensão. Mas grande parte já foi assimilada por quem viveu esses tempos. Os efeitos do que Lula representou apenas por chegar lá sequer são percebidos por muitos porque já foram incorporados. Já estão. Como disse uma vez o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014), em outro contexto: “Há coisas que não devemos perguntar o que farão por nós. Elas Já fizeram”.
Marina Silva, derrotada nas últimas três eleições consecutivas, em cada uma delas perdendo uma fatia maior de capital eleitoral, seria outra representante inédita de uma parcela da população que nunca ocupou a cadeira mais importante da República. Diferentemente de Lula, como já escrevi neste espaço, Marina encarna um outro amplo segmento de brasileiros, muito mais invisível, representado pelos povos da floresta. Carrega no corpo alquebrado por contaminações e também por doenças que já não deveriam existir no Brasil uma experiência de vida totalmente diversa de alguém como Lula e outros pobres urbanos. Mas este é o passado de Marina.

Cada brasileiro conhece vários Jair Bolsonaro – ou tem um na família
A mulher negra, que se alfabetizou aos 16 anos e trabalhou como empregada doméstica depois de deixar o seringal na floresta amazônica, empreendeu uma busca pelo conhecimento acadêmico e hoje fala mais como uma intelectual da universidade do que como uma intelectual da floresta. Também deixou a Igreja Católica ligada à Teologia da Libertação para se converter numa evangélica genuína, daquelas que vivem a religião no cotidiano em vez de instrumentalizá-la nas eleições, como tantos pastores neopentecostais. Se Marina tivesse conseguido chegar ao poder, ela representaria toda essa complexa trajetória, mas também encarnaria uma excepcionalidade entre os seus. Quantas mulheres com o percurso de Marina se tornaram Marina?
Jair Bolsonaro, filho de um dentista prático do interior paulista, oriundo de uma família que poderia ser definida como de classe média baixa, não é representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma visão de mundo. Não há nada de excepcional nele. Cada um de nós conheceu vários Jair Bolsonaro na vida. Ou tem um Jair Bolsonaro na família.

Na campanha, Bolsonaro não deveria parecer melhor que seus eleitores, mas igual
Durante as várias fases republicanas do Brasil, a candidatura e os candidatos foram acertos das elites que disputavam o poder – ou resultado de uma disputa entre elas. O mais popular presidente do Brasil do século 20, Getúlio Vargas (1882-1954), que em parte de sua trajetória política foi também um ditador, era um estancieiro, filho da elite gaúcha. Ainda que tenha havido alguns presidentes apenas medianos durante a República, eram por regra homens oriundos de algum tipo de elite e alicerçados por ela.
Lula foi exceção. E Bolsonaro é exceção. Mas representam opostos. Não apenas por um ser de centro esquerda e outro de extrema direita. Mas porque Bolsonaro rompe com a ideia da excepcionalidade. Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar, quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.
Essa disposição dos eleitores foi bastante explorada pela bem sucedida campanha eleitoral de Bolsonaro, que apostou na vida “comum”, falseando o cotidiano prosaico, o improviso e a gambiarra nas comunicações do candidato com seus eleitores pelas redes sociais. Bolsonaro não deveria parecer melhor, mas igual. Não deveria parecer excepcional, mas “comum”.
A mesma estratégia foi mantida depois de eleito, como a mesa bagunçada de café da manhã com que recebeu John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente americano Donald Trump. Neste sentido, Bolsonaro jamais pode ser considerado o “Trump brasileiro”. Trump, além pertencer a uma parcela muito particular das elites americanas, tem uma trajetória de destaque. Bolsonaro não. Como militar, ele só se notabilizou por quebrar as regras ao dar uma entrevista para a revista Veja reclamando do valor dos soldos. Como parlamentar por quase três décadas, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei. Era mais conhecido como personagem burlesco e criador de caso.
Quando Tiririca foi eleito, por exemplo, sua grande votação foi interpretada como a prova de que era necessária uma reforma política urgente. Mas Tiririca foi um grande palhaço. Num mundo difícil para a profissão desde a decadência dos circos, Tiririca conseguiu encontrar um caminho na TV, fazer seu nome e ganhar a vida. Não é pouco.

“Eu não sou ninguém aqui”, afirmou em 2011
Bolsonaro não. O grande achado foi se eleger deputado e conseguir continuar se elegendo deputado. Em seguida, colocar todos os filhos no caminho dessa profissão altamente rentável e com muitos privilégios. A “família” Bolsonaro tornou-se um clã de políticos profissionais que, nesta eleição, conseguiu um número assombroso de votos. Mas não pela excepcionalidade de seus projetos e ideias.
O novo presidente do Brasil passou quase três décadas como um político daquilo que no Congresso brasileiro se chama “baixo clero”, grupo que faz volume mas não detém influência nem arquiteta as grandes decisões. A alcunha é uma alusão injusta ao clero religioso que faz o trabalho de formiguinha, o mais difícil e persistente, seguidamente perigoso, no mundo das igrejas. O próprio Bolsonaro já comentou que não tinha prestígio. Quando disputou a presidência da Câmara, em 2017, só obteve quatro votos dos mais de 500 possíveis. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou em um discurso no plenário, em 2011.
Os deputados do “baixo clero” do Congresso descobriram a sua força nos últimos anos e também como podem se locupletar unindo-se e fazendo número a favor dos interesses que lhes beneficiam. Ou simplesmente chantageando com o seu voto. Bolsonaro é dessa estirpe. Se ocupava um lugar no Congresso, era o de bufão. Até um ano atrás poucos acreditavam que poderia se eleger presidente. Parecia impossível que alguém que dizia as barbaridades que ele dizia poderia ser escolhido para o cargo máximo do país.

A massa que foi assistir à posse gritava: “WhatsApp! Facebook!”
O que se deixou de perceber é que quase todos tinham um tio ou um primo exatamente como Bolsonaro. Logo essa evidência ficou clara nos almoços de domingo ou nas datas festivas da família. Mas ainda assim parecia apenas uma continuação do que as redes sociais já tinham antecipado, ao revelar o que realmente pensavam pessoas que até então pareciam razoáveis. Deixou-se de enxergar, talvez por negação, o quanto esse contingente de pessoas era numeroso. Os preconceitos e os ressentimentos recalcados em nome da convivência eram agora liberados e fortalecidos pelo comportamento de grupo das bolhas da internet. As redes sociais permitiram “desrecalcar” os recalcados, fenômeno que tanto beneficiou Bolsonaro.
Os gritos das pessoas que ocuparam o gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foram a parte mais reveladora da posse de Bolsonaro, em 1o de Janeiro. Eufórica, a massa berrava: “WhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!”. Quem quiser compreender esse momento histórico terá que passar anos dedicado a analisar a profundidade contida no fato de eleitores berrarem o nome de um aplicativo e de uma rede social da internet, ambos de Mark Zuckerberg, na posse de um presidente que as elegeu como um canal direto com a população e deu a isso o nome de democracia.
Bolsonaro representa, sim – e muito – um tipo de brasileiro que se sentia acuado há bastante tempo. E particularmente nos últimos anos. E que estava dentro de cada família, quando não era a família inteira. Todas as famílias gostam de se pensar como diferentes – ou, pelo menos, melhores (ou piores, conforme o ponto de vista) que as outras. A experiência de um confronto político determinado pelos afetos – ódio, amor etc – nestas eleições deixou marcas profundas.

Bolsonaro representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos perdeu privilégios
Não engendrasse tantas possibilidades destruidoras para o país, o fenômeno Bolsonaro seria bastante fascinante quando olhado como objeto de estudo. Sugiro algumas hipóteses para compreender como o mediano entre os medianos se tornou presidente do Brasil. As pesquisas de intenção de voto mostraram que Bolsonaro era o preferido especialmente entre os homens e especialmente entre os brancos e especialmente entre os que ganhavam mais. Isso não significa que não tenha tido uma votação significativa entre as mulheres, os negros e os que ganham menos. Se não tivesse, Bolsonaro não conseguiria se eleger. Mesmo no Nordeste, a única região do Brasil em que perdeu para Fernando Haddad (PT), no segundo turno das eleições, Bolsonaro recebeu uma votação significativa.
O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar onde precisa.
Vária irrupções perturbaram esse sentimento de caminhar em território conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma ênfase inédita que não seria mais possível fazer gracinhas nas ruas nem assediá-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A violência sexual foi exposta e reprimida. A violência doméstica, quase tão comum quanto o feijão com arroz (“um tapinha não dói”) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma “mulher era mal comida” se tornou comentário inaceitável de um neandertal.
Na mesma direção, os LGBTI se fizeram mais visíveis na exigência dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras públicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. E a posição de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.
Tanto que, como reação, surgiram proposições como criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” ou o “Dia do Homem” e até o “Dia do Branco”. Não faz sentido criar datas para quem tem todos os privilégios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privilégios em particular parece balançar o mundo de quem sempre teve a coleção completa de vantagens como direito inalienável.

Em discurso, Bolsonaro prometeu “libertar” o Brasil do “politicamente correto”
O que a maioria dos homens entendia como direito – falar o que bem entendesse, especialmente para uma mulher – já não era possível. “Não dá para falar mais nada” se tornou uma frase clássica na boca destes homens. As já tradicionais piadas de “viado”, um tema clássico de fortalecimento da identidade de macho, tornaram-se inaceitáveis. O “politicamente correto”, que Bolsonaro e seus seguidores tanto atacaram nesta eleição, foi interpretado como agressão direta a privilégios que eram considerados direitos.
Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a única prova de “superioridade” enquanto enfrenta o massacre diário de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a população aglomerada na Praça dos Três Poderes, nesta terça-feira, o presidente recém-empossado colocou o combate ao “politicamente correto” como uma das prioridades do seu governo. Não a assombrosa desigualdade social, que até mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de “libertar” a nação do jugo do “politicamente correto”.
Logo no início do discurso, Bolsonaro afirmou: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
É esse brasileiro “acorrentado” que votou para retomar seus privilégios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira política e também na campanha eleitoral. Para muitos, o privilégio de voltar a ter assunto na mesa de bar – ou o de não ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almoço de domingo.
Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privilégios de raça, tão enraizados quanto os privilégios de classe e de gênero no Brasil, possivelmente mais.
Os negros passaram a não aceitar passivamente ser maioria nas piores estatísticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. É desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persistência por Bolsonaro e seus seguidores: a de que “o PT inventou os conflitos raciais”. É claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mortífero na sociedade brasileira, não haveria conflito. Mas esse tempo acabou e até mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades públicas, começaram a ser ocupados pelos negros.
Para as famílias, especialmente as brancas, outra mudança atingiu profundamente um privilégio arraigado que está na formação do Brasil, e que foi pouco alterado pela abolição da escravidão negra. No início da segunda década do século, a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas” deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham há décadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).

O ódio dos bolsonaristas se expressa não pela ação, mas pela reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque
Isso fez com que muitas famílias de classe média temessem não poder mais manter a sua escrava contemporânea fazendo todo o serviço dentro de casa e/ou cuidando dos filhos dos patrões por um tempo ilimitado de horas. Essa medida afetou profundamente as mulheres brancas de classe média, ainda hoje em grande parte responsáveis pela administração doméstica, apesar dos avanços feministas. As reclamações ocupavam todos os espaços. Os direitos das empregadas domésticas eram compreendidos como privilégios, quando na verdade era o privilégio dos brancas de ter uma mulher negra explorada e mal paga fazendo o serviço doméstico que estava em jogo.
Os direitos de gênero, classe e raça estão conectados. O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo. O ódio dos bolsonaristas se expressa não na ação, mas na reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Também por isso sentem ser legítimo lançar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam – e ainda acreditam – estar apenas se defendendo, o que na sua visão de mundo justificaria qualquer violência. Também por isso o outro é inimigo – e não opositor.

Quando Bolsonaro assume o poder, este homem sente que também ele volta a governar um mundo que já não compreendia
Mas qual é o ataque que acreditam estar sofrendo? A suspensão de privilégios que consideravam direitos, acirrada pelo desamparo que uma crise econômica e a ameaça de desemprego provocam. Era gente – principalmente homens, heterossexuais e brancos – que nos últimos anos via o chão desaparecer debaixo dos seus pés. Excluídos das elites intelectuais, pressionados a ser “politicamente corretos” porque outros saberiam mais do que eles, ridicularizados na sua macheza fora de época, assombrados por mulheres até mesmo dentro de casa, reagem. Como se sentem fracos, reagem com força desproporcional.
Esses brasileiros não querem um homem melhor do que eles na presidência. O que querem é um homem igual a eles no governo. Numa época em que até as metáforas se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve – literalmente – aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.
São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço. São brasileiros que pertencem a diferentes religiões, mas a votação mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evangélicos. As igrejas evangélicas neopentecostais têm multiplicado o número de fiéis e aumentado sua representação no Congresso nos últimos anos, encarnando uma das mais importantes mudanças culturais – e políticas – do Brasil.
Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.

Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais
Como se sentiam burros diante da intelectualidade acadêmica que sempre lhes torceu o nariz pontudo, os bolsonaristas adotaram seus próprios intelectuais. E também foram adotados por eles, como fez Olavo de Carvalho, que graças a isso se tornou um autor best-seller e passou a exercer seu autoproclamado “anarquismo” de forma bastante interessante.
Bolsonaro torna-se então aquele que “não tem medo de dizer o que pensa” ou “aquele que diz a verdade”. Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que começam a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que não aceitam mais um lugar subalterno podem então voltar a mentir sobre privilégios serem direitos – e afirmar que esta é “a verdade”. Bolsonaro prega “transformação”, mas só se elegeu porque sua proposta de “mudança” trabalha com a ilusão do retorno. Essa “nova direita” compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.
Na tentativa de volta ao passado que já não pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privilégios perdidos foram tachados de “ideologia”. Aqueles que ideologizam tudo, até mesmo a orientação sexual e a religião alheias, culpam a ideologia por tudo. Se não gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em “ideologia marxista”. Transformam “politicamente correto” num palavrão. Qualquer limite torna-se uma afronta à liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de “comunistas” ou “esquerdistas”, como se ambas as palavras significassem uma espécie de pecado capital.

Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor
Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta.
É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira “mito”. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem.
Mas é este brasileiro que chega ao poder com Bolsonaro? Em parte sim. Mas em parte não. Este é o enredo que assistiremos a partir de agora. Tornar-se adulto não é apenas uma condição biológica. É, no sentido mais amplo, reconhecer seus limites e responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Bolsonaro, claramente, é uma criança voluntariosa e mal educada que precisa da aprovação dos maiores.
Ao vislumbrarem que Bolsonaro poderia ganhar a eleição, diferentes grupos das elites se aproximaram e respaldaram sua candidatura. Cada um com seu projeto próprio. Há Paulo Guedes, o ultraliberal ambicioso e intoxicado pela própria importância que quer marcar a história, comandando o superministério da Economia. Há Sergio Moro, o juiz que mostrou que pode violar a lei caso ela perturbe seu projeto pessoal, porque acredita que seu projeto pessoal é público e acredita saber o que é melhor para a nação, como acreditam todos os que se creem superiores ou mesmo super-heróis.

Como o garoto Bolsonaro vai lidar com as disputas no mundo dos adultos?
Há os representantes do “agronegócio”, ramo que no Brasil se confunde com crimes como grilagem (roubo) de terras públicas e conflitos agrários causadores de dezenas de assassinatos a cada ano. Fiadores do governo de Michel Temer (MDB) e também da candidatura de Bolsonaro, os ruralistas não apenas estão no governo, mas “são” o governo.
Esse grupo vai abrir a Amazônia para a exploração – soja, gado e mineração, além de grandes obras. Isso significa, entre outras medidas, mudar ou “regulamentar” a Constituição para abrir as terras públicas de usufruto exclusivo dos indígenas ou as terras coletivas dos quilombolas para lucros de grupos privados. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro, logo após ser empossado na presidência, foi transferir a demarcação das terras indígenas e das terras dos quilombolas para o Ministério da Agricultura. Já no primeiro dia Bolsonaro entregou o futuro da floresta e do cerrado àqueles que os destroem.
No escalão mais subalterno, há um ministro do Meio Ambiente condenado por violar o meio ambiente, um ruralista escolhido pelos ruralistas. Há uma ministra da cota evangélica que vai cuidar de temas tão amplos como direitos humanos, mulheres e indígenas, a partir de uma leitura literal da Bíblia. Há um ministro de Cidadania que será responsável também pela área da cultura, mas já afirmou não entender nada da área.
Há ainda os ministros da cota afetiva de Bolsonaro, como o chanceler Ernesto Araújo, que assumiu para si a tarefa de construir a base intelectual da ideologia de Bolsonaro. Em artigo publicado numa revista americana, o diplomata que parece desprezar a diplomacia lançou uma espécie de nacionalismo religioso: “Deus através da nação”. E há o ministro da Educação que acredita que o golpe que levou o Brasil a 21 anos de ditadura deve ser comemorado. O apagamento da história, sacrificando os fatos em nome da ideologia, é uma das missões do governo Bolsonaro.
E há, finalmente, aquele que é talvez o grupo mais significativo, composto por sete militares ocupando postos chaves no governo. Nem sempre esses grupos concordam sobre o que é melhor para o Brasil. É provável que em alguns pontos possam discordar radicalmente. Como então o garoto Bolsonaro vai lidar com a disputa de gente grande?
Como o menino mimado vai se haver com a realidade, agora que a campanha acabou? Como vai ser quando a corrosão dos dias ameaçar a paixão das massas? E, no lado oposto, como os adultos da sala vão lidar com a criança cheia de vontades quando ela não puder ser manipulada – ou estiver sendo manipulada pelo grupo adversário – e ameaçar seu projeto de poder? Como se dará essa negociação? Quais são os riscos de ruptura?
Como todo medíocre, Jair Bolsonaro arrota ignorância como se fosse sabedoria. Mas, também como todo medíocre, no fundo, bem no fundo, ele suspeita que é medíocre. E busca desesperadamente a aprovação dos adultos.
No momento, Bolsonaro está encantado por ter um intelectual ligado à Escola de Chicago dizendo a ele o quanto é especial. Um herói da Operação Lava Jato lhe tecendo elogios. E, principalmente, generais batendo continência ao capitão. Mas a realidade é implacável com as ilusões.
Para acirrar a possibilidade de conflitos, há ainda a família de Bolsonaro, com seu trio de principezinhos, desta vez mimados pelo pai, que ainda chama marmanjos sem limites de “garotos”. Extasiados com o poder, eles já mostraram o quanto gostam do palco e quanta confusão podem aprontar. Como pai típico deste momento histórico, Bolsonaro protege seus meninos. Neste caso, da própria mediocridade. Os Bolsonaros Júnior parecem ter certeza de que são excepcionais e que a realidade vai se dobrar à sua vontade. Se não se dobra, sempre podem chamar “um cabo e um soldado” para fazer o serviço.
A experiência de Brasil que agora se inicia é fascinante. Mas só se vivêssemos em Marte e se a maior floresta tropical do planeta não estivesse ameaçada. Em algum momento, Jair Bolsonaro se olhará no espelho e verá apenas Fabrício Queiroz, o PM e ex-assessor do filho que não consegue explicar de onde vem o dinheiro que depositou na conta da primeira-dama. Em algum momento, Jair Bolsonaro poderá se olhar no espelho e verá apenas a imagem mais exata de si mesmo. Assombrado pela verdade que não poderá chamar de “fake news”, ele correrá para as ruas para ouvir os Queiroz gritarem: “Mito! Mito! Mito!”. Mas o grito pode ter sido engolido pela realidade dos dias. Saberemos então, em toda a sua magnitude, o que significa Bolsonaro no poder.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A

Como Bolsonaro convenceu os brasileiros a combater moinhos de vento, por Carla Guimarães.

Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seus delírios em realidade



Seguidores do presidente Jair Bolsonaro caminham na frente de um boneco gigante com sua figura em Brasília. EFE

Seguidores do presidente Jair Bolsonaro caminham na frente de um boneco gigante com sua figura em Brasília.Em um país tropical, cujo nome não quero lembrar, vivia um militar aposentado que defendia a ditadura e que acreditava que o grande erro daquele regime foi não ter matado mais vermelhos. Esse militar, em seus momentos de ócio, se dedicava a fazer campanhas políticas e até chegou a ser deputado. Em quase três décadas no Congresso, aprovou apenas duas leis de sua autoria. Sua grande contribuição, em suas próprias palavras, foi impedir que certos projetos fossem aprovados. Por causa desses projetos, passava noites em claro. “As minorias têm que se curvar às maiorias”, disse em certa ocasião. A luta contra a expansão dos direitos de mulheres, homossexuais, negros e indígenas o consumia por completo. E assim, dormindo pouco e lutando muito, seu cérebro secou de tal maneira que perdeu o juízo. De fato, terminada sua sanidade, um estranho pensamento se instalou em sua mente: tornar-se presidente e sair pelo país com suas armas defendendo os direitos dos homens brancos e ricos. Para alcançar seu nobre objetivo, estava disposto a enfrentar o maior dos perigos, a esquerda radical.

Como foi paraquedista, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com incríveis malfeitos
Como foi paraquedista em seu tempo no Exército, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com os incríveis malfeitos cometidos por seu recalcitrante inimigo. Onde quer que fosse, advertia sobre o perigo da esquerda, que pretendia instaurar uma ditadura gay no país. Se os seus adversários chegassem ao poder, legalizariam a pedofilia, os bicos das mamadeiras teriam a forma de pênis e, nas escolas, as crianças heterossexuais se tornariam homossexuais por causa de um material didático apelidado de kit gay pelo militar.
Outra de suas grandes preocupações era evitar o avanço do feminismo, uma ideologia que levaria o país inexoravelmente ao apocalipse. O feminismo era capaz de transformar mulheres em monstros peludos cheios de ódio contra o gênero masculino. O objetivo desses monstros era instaurar uma ditadura feminista que, junto com a ditadura gay, perseguiria sem descanso os pobres homens heterossexuais.


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Os ativistas que defendem os direitos humanos e a natureza também representavam um risco. Eram um claro obstáculo ao desenvolvimento da nação. “Hoje em dia é muito difícil ser patrão”, defendeu o ex-paraquedista não faz muito tempo. Para ele, os donos das grandes empresas e os latifundiários eram as verdadeiras vítimas esquecidas pelas ONGs. Oprimidos pelos direitos de seus trabalhadores ou pelas leis de preservação da natureza, os patrões são uma espécie indefesa que deve ser protegida. No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente e “direitos humanos” era pouco mais que um palavrão.
Além de denunciar as terríveis injustiças que seriam perpetradas pela esquerda radical, o militar aposentado oferecia a solução para o grave problema da insegurança no país tropical. “Bandido bom é bandido morto”, gritavam seus acólitos. Seu plano inovador para melhorar a segurança era armar a população. Combater a violência com mais violência. Como ninguém tinha pensado nisso antes?

No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente
As armas foram, sem dúvida, o grande símbolo de sua cruzada pelo país. Em suas mãos, qualquer objeto se tornou uma alusão a elas. Na falta de um objeto, seus próprios dedos imitavam pistolas e revólveres. O ex-militar fez o gesto de disparar em inúmeras ocasiões, tanto que ninguém se lembrava mais de que tinha 10 dedos. Aqueles que o viram garantiam que ele só tinha dois dedos em cada mão: o indicador e o polegar, ambos manchados de pólvora.
Apesar de se apresentar como um herói à maneira de Chuck Norris, o ex-paraquedista não pôde esconder sua maior fraqueza: o medo do debate. Toda vez que enfrentou um adversário, perdeu seguidores. Os adversários o crivavam com argumentos, disparavam-lhe ideias e o acabavam com dados. Ele estava, pela primeira vez, desarmado e indefeso, perdido no meio de um tiroteio dialético. Portanto, como bom militar, optou por outra estratégia. Quando falava, preferia fazê-lo sozinho, em um discurso; ou de maneira acordada, com um interlocutor amigável. Adorava frases de efeito, geralmente vazias de conteúdo. O discurso de ódio se tornou seu melhor aliado e tirou milhares de intolerantes do armário. Para seus fãs, o desprezo pelas minorias era sinceridade, os ataques à liberdade de expressão eram puro senso comum e a defesa da repressão policial era pragmatismo. Para justificar o discurso de ódio, o carrasco se faz passar por vítima, o perseguidor diz que está sendo perseguido e o covarde se disfarça de herói.
Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seu delírio em realidade e no primeiro dia do novo ano tomou posse como presidente do país tropical. Para os narradores que descrevem suas façanhas é quase impossível explicar como o ex-paraquedista conseguiu convencer uma grande parte da população de que os moinhos de vento eram, na verdade, gigantes.

‘A direita ganhou as classes populares. Eles souberam fazer esse trabalho, e a gente se fudeu.’ Uma conversa com Gabriela Moura sobre identitarismo nas eleições

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O resultado da eleição presidencial ainda estava sendo digerido pela esquerda quando Ciro Gomes, derrotado no primeiro turno, ofereceu uma explicação simples para o sucesso da extrema-direita: o foco dos setores progressistas nas pautas identitárias. “A moral popular é diferente da moral dos setores ilustrados da sociedade”, argumentou em entrevista à GloboNews em 11 de novembro. “Você explorar essa tolerância generosa que nosso povo tem com políticas públicas para afirmar um identitarismo de minorias que são mais próximas do pensamento progressista é falta de respeito.”
A afirmação foi controversa. Há anos os movimentos identitários, que se organizam coletivamente em torno de identidades individuais – como a mulher, no caso do feminismo, ou o negro, no do movimento negro –, vêm reforçando que o desequilíbrio de direitos e de poder entre homens e mulheres, brancos e negros, héteros cis e LGBTs deve ser encarado como um problema tão importante quanto os causados pelas diferenças de base econômica. Não seria coincidência, afinal, a pobreza no Brasil ser majoritariamente negra, as mulheres em idade reprodutiva terem maiores dificuldades para encontrar emprego e conseguir cargos mais elevados, ou as mulheres trans dificilmente conseguirem trabalho fora do mundo da prostituição.

Mas o que é identitarismo?

Segundo o sociólogo Stuart Hall, as feministas dos anos 60 e 70, que tinham como mote “o pessoal é político”, deram início à políticas identitárias ao negar que os membros de uma mesma classe social teriam os mesmos direitos. O identitarismo vem da ideia de que há uma identidade para cada movimento. O feminismo para lutar pelas demandas das mulheres; a política sexual pelas dos LGBTs, a luta racial pelas dos negros. E esses movimentos se cruzam: uma mulher negra, por exemplo, pode se sentir representada pelo feminismo e pelas lutas raciais.

De alguns anos para cá, parte da esquerda passou a reconhecer que a desigualdade econômica precisa ser combatida junto a essas outras formas de desigualdade, que se entrecruzam. Mas a centralidade que vem ganhando as pautas dos movimentos identitários ainda é incômoda. “Tentar enfiar as narrativas identitárias pela goela abaixo do pobre só vai continuar dando errado”, opinou via Twitter a cantora lolly Amâncio, ao comentar a entrevista de Ciro Gomes. Vocalista da banda de rock Banda Gente, baseada na Baixada Fluminense, região da área metropolitana do Rio historicamente abandonada pelo poder público, ela declarou com firmeza: “Aceitem os fatos, deu merda e isso ajudou a eleger um Fascista.”
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Fotos: Reprodução/Twitter
O foco nas pautas identitárias foi responsável pela derrota da esquerda? Ou seria o identitarismo o bode expiatório escolhido pelos progressistas que nunca o engoliram diante da onda reacionária que lhe deu um caldo nessas eleições?
Conversamos sobre o assunto com a relações públicas e escritora Gabriela Moura, parte do coletivo feminista Não me Kahlo. Para ela, é um erro acreditar que as pautas identitárias devam ocupar um lugar secundário na agenda de esquerda. O problema não estaria na atenção reservada ao tema, mas sim na incapacidade dos movimentos de comunicarem direito suas pautas a quem está fora da bolha. “Você tem que adequar seus discursos e se fazer entender”, defende Moura.
A ativista critica ainda o crescimento de uma representatividade vazia – a eleição de mulheres com bandeiras antifeministas, por exemplo –, fruto dessa dificuldade de comunicação da esquerda, e a falta de cruzamento entre os movimentos identitários com a questão de classe. “Para mim não existe nenhuma defesa identitária válida que não passe pela questão de classe”, resume. “Assim como eu não acredito em uma luta de classes descolada das questões identitárias.”
“Toda vez que a gente tem uma onda minimamente progressista que seja, a gente tem um efeito rebote muito intenso”, argumenta a escritora feminista Gabriela Moura.
Foto: Arquivo Pessoal
Intercept – Em 2019, vamos ter 77 mulheres na Câmara, 26 a mais do que em 2014. Serão três negras a mais além de nossa primeira deputada federal indígena. Até agora, 23 já declararam parte ser da base aliada de Bolsonaro e 32 não declararam de que lado vão estar, ainda que entre essas mulheres tenhamos figuras reconhecidamente conservadoras, como Clarissa Garotinho. Isso tem como ser considerado uma vitória? 
Gabriela Moura – Vitória é uma palavra meio forte. Quando a gente pega esse número isolado, de 26 mulheres a mais do que na antiga bancada, parece, sim, uma evolução da representatividade política das mulheres. Ao colocarmos um zoom na situação, vemos que não é bem assim. Quando a gente tem mulheres que são declaradamente pró-Bolsonaro, obviamente isso muda muito pouco a situação das mulheres no tocante a políticas do gênero, do ser mulher. Então é uma pegadinha. Uma cilada que pode ser usada como um grande cala boca, porque aí as pessoas que vão falar assim: “Não, não pode reclamar, porque tem, sim, mulher na jogada, então vocês estão representadas.” Mas a representatividade não se dá meramente por termos mulheres no Congresso, mas pela posição política que elas defendem e pelas ideias que vão colocar lá dentro.
Foi a extrema-direita que elegeu a deputada estadual mais votada na história do Brasil, Janaína Paschoal, e que no Rio elegeu como deputado federal mais votado neste ano Hélio Bolsonaro, um homem negro. Gritamos por representatividade, mas a direita ultraconservadora já pode gritar: “ok, mas fomos nós que conseguimos mais votos pros grupos que vocês querem defender.” A centralidade dada às pautas identitárias pela esquerda é um problema? 
Isso põe um bom pé no peito na esquerda, que era necessário. Quando os caras da direita chegam para a gente e falam: ‘A gente elegeu muito mais mulheres do que vocês’, eles têm um ponto, de fato.

A direita ganhou nas redes sociais

Ao longo de meses em 2018, as pautas da esquerda, em especial as ligadas aos movimentos identitários, foram ridicularizadas pelos militantes da direita. E a lógica das bolhas criadas pelas redes sociais só ajuda a manter as críticas dos conservadores longe dos olhos e ouvidos dos progressistas. Sem enxergar o que estava acontecendo, a esquerda permitiu que a direita se apropriasse de suas pautas nas eleições e as ressignificasse. Ao longo dessa matéria, veja os memes que a direita usou para ganhar esse jogo.
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Foto: Reprodução/Facebook
A questão do identitarismo fica confusa quando a gente não intersecciona os assuntos. Eu não queria usar o termo “interseccional” para as pessoas não confundirem, não acharem que eu estou falando de feminismo em si. Estou falando do cruzamento das problemáticas sociais. Se tem a Janaína Paschoal, que é uma mulher declaradamente de direita – e ela na verdade passeia por diversos vieses, porque ela se coloca, sim, como uma representante das mulheres em diversos momentos, até pela condição que ela já exercia antes de entrar na política, de ser professora da USP, de ter um bom cargo, ser muito respeitada na instituição – então é um fato. A direita tem razão quando coloca que elegeu mais representantes de minorias do que a esquerda.
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Fotos: Reprodução/Facebook
Mas o que a esquerda vai fazer então já que a gente se coloca numa situação de oposição? Como a gente vai fazer esse debate e entender as questões identitárias não como um problema, mas como algo que não pode ser apresentado sem um aprofundamento? Ou seja, não é sobre eleger mulheres e ponto final. É sobre quais mulheres serão eleitas, porque se você tem uma Janaína Paschoal e um Guilherme Boulos, que é um homem, branco, de classe alta etc., como você faz a defesa de que prefere um homem do que uma mulher?

Foto: Reprodução/Facebook
A direita só alçou a condição que eles conseguiram alçar, porque eles estavam sim junto do povo.
Não vamos ter as respostas na ponta da língua. É preciso pegar essa provocação e fazer uma autocrítica para entender como a política pode ser feita em todos os períodos, não só no período eleitoral. Bem ou mal, a direita só alçou a condição que eles conseguiram alçar, porque eles estavam sim junto do povo, levando o discurso que o povo gosta, que são respostas muito mais práticas, muito mais rápidas, a curto-médio prazo. Enquanto a esquerda – e eu obviamente me coloco nisso, numa autocrítica, também –, fica nessa masturbação mental de levar o pensamento para esferas que às vezes nem a gente consegue alcançar. E obviamente assim não vamos conseguir afetar as massas positivamente.
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Foto: Reprodução/Facebook
Em resumo, a resposta é trabalho de base?

Basicamente.
Como a gente volta para esse trabalho de base, que historicamente já foi muito forte na esquerda e agora está muito nas mãos das igrejas e da direita?
Eu não sei te explicar como nos afastamos, porque é todo um processo. A esquerda é fragmentada, não no sentido de “a esquerda não se une”. Existem diversas linhas de pensamento na esquerda. A intelectualização da esquerda é muito boa, eu acho necessária e acredito sim que as ciências devem ser usadas a nosso favor. Só que essas mesmas ciências têm que ser popularizadas. É aquilo que as pessoas falam: você joga um debate na USP, que é longe para caramba, não é fácil de chegar, às 15h. Quem você espera receber? Enquanto isso, a direita está usando o Whatsapp, está conversando com o tiozinho da esquina, está conversando com o cara que foi assaltado e está puto, porque foi assaltado, sabe?
É você adequar o seu discurso. Quando eu me formei em comunicação, isso foi uma coisa que me tocou e que eu tento policiar muito, que é a adequação do discurso. A gente tem uma mania arrogante de dizer: “Eu sou responsável pelo que eu falo, não pelo que você entende”. Não é isso, é o contrário. Se eu estou te passando uma mensagem, eu sou sim responsável pelo que você entende se eu quero que você me compreenda. E aí, mais para frente, se quisermos levar isso para outras esferas, podemos levar. Mas não vou conseguir isso se não fizer o trabalho de base levando o bê-a-bá. A esquerda ficou tão estigmatizada que qualquer mínimo ato humano que seja é tido como comunismo. E o comunismo é visto praticamente como um crime, não como um viés político que pode ser estudado, pode sim ser contestado. Mas [é visto] como crime. Então se você é minimamente simpático [a ideias comunistas], você é tido como um criminoso. As pessoas não sabem, elas não gostam, elas não querem saber. Então a direita ganhou muito bem essa parcela da população, eles souberam fazer esse trabalho e a gente se fudeu.
Apesar de os conservadores oficialmente rechaçarem a ideia de identitarismo, nos EUA, crescem com força os grupos de supremacistas brancos que se disfarçam como grupos identitários. Aqui no Brasil, o Bolsonaro foi criticado pela ausência de mulheres em sua equipe de transição e escreveu no Twitter que não se importa com a cor ou o sexo de ninguém, desde que seja competente, mas em seguida colocou quatro mulheres na equipe. Todas militares e alinhadas o suficiente com o discurso dele para aceitarem o convite. Caímos numa armadilha discursiva.

Reprodução/Facebook
Exato. A população tem que entender o que é ser identitário. A questão dos supremacistas brancos… a história é cíclica. Voltamos a um ponto perigoso. Acredito que, em breve, a gente possa ter que enfrentar os mesmos tipos de manifestações que acontecem nos Estados Unidos. Talvez de uma forma um pouco mais sutil, porque esse tipo de manifestação nos Estados Unidos não é criminalizada, é tida como uma forma de direito à expressão. Temos que entender primeiro o que é ser identitário e quais são as identidades que vamos trabalhar e como. Para mim, particularmente, não existe nenhuma defesa identitária válida que não passe pela questão de classe. Essa é uma opinião pessoal minha. Assim como eu não acredito em uma luta de classes descolada das questões identitárias – de raça, de gênero, de sexualidade.
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Antifeministas declaradas, aliadas de Bolsonaro se apropriam de termos e discussões do movimento para negar a necessidade do feminismo.Foto 1: Reprodução/Facebook | Foto 2: Reprodução/Twitter
Quando o Bolsonaro chega e fala: “Tem essa ministra aqui que é mulher”, mas o apelido dela é Musa do Veneno, alguma coisa está muito errada e isso devia ligar o pisca-alerta. É sim uma armadilha discursiva, porque quando a gente reivindica: “Eu quero mulher, quero negro, quero LGBT”, não especifica as pautas que são defendidas.

Foto: Reprodução/Facebook
Eu quero um negro, mas não que me dê veneno. Eu quero mulher que defenda o direito ao aborto, os direitos reprodutivos. Também estamos falhando nessa comunicação sobre o que nós estamos reivindicando, o que é necessário para a nossa população agora.
Uma crítica recorrente ao identitarismo é a fragmentação da esquerda em microgrupos e uma consequente individualização das pautas progressistas. Para os críticos isso acaba transformando grande parte da população em inimiga, de certa forma. Como culpar todos os brancos pela escravidão. Você compartilha dessa visão?
Eu concordo muito com a primeira parte, não concordo com esse final. Acho que podemos sim prosperar com essas pautas, desde que haja essas premissas que você falou no começo. Se a gente simplesmente joga as pautas identitárias isoladas, de fato elas não vão fazer sentido e a gente vai formar pequenas microbolhas: a população negra, a população LGBT, a população X, Y, Z. Temos que encontrar nosso denominador comum, o tronco que nos une em relação a isso. Qual o histórico dessas lutas? Se você pega a história do feminismo, do movimento negro, do movimento LGBT, cada um tem uma gênese. A gente tem que resgatar essa gênese e recontextualizar com o que estamos vivendo agora.

Foto: Reprodução/Twitter
Você deu um exemplo mais consensual, vou ser um pouco mais polêmica. Você pega um adolescente negro que não tem consciência de classe, consciência histórica. Mas o cara está construindo uma autoestima em cima de uma lógica de consumo. Ele quer ser lacrador, ele quer ser muito foda, imitar a Beyoncé, a Djamila [Ribeiro]. Isso é totalmente individual e pode fazer muito bem para ele enquanto indivíduo. O macro vai continuar intacto, porque a estrutura não vai ser mudada em nível nenhum. Ele vai continuar sendo discriminado na rua, na faculdade, no trabalho, se ele conseguir trabalho. Eu concordo sim que as lutas identitárias têm que ser vistas com muita delicadeza, muito cuidado. Só que eu não descartaria elas, não colocaria em segundo lugar, como muitas pessoas colocam. Para mim é um erro.
Vamos a um exemplo. Depois da entrevista do Bolsonaro no Roda Viva, em que ele engoliu os jornalistas, nós perguntamos à pessoa que faz faxina aqui na redação: “A senhora está preocupada se os arquivos da ditadura vão ser abertos ou não?” Ela disse que não. “A senhora está preocupada com o quê?” Ela falou que com emprego, saúde, educação. A pergunta poderia ter sido sobre representatividade feminina ou negra e a resposta, suponho, teria sido parecida. Como mostrar que as pautas identitárias e essas preocupações andam juntas?
Se eu tivesse essa resposta eu ganharia de pronto um Nobel. Na época da eleição eu ouvi um jornalista que falou exatamente isso: “Cara, a população não está nem aí para machismo e homofobia. Não é que machismo e homofobia não sejam um problema extremo, é sim. Só que a população está muito mais preocupada com os problemas imediatos.” O cara tem fome, o cara precisa de emprego, ele tem que pagar conta. É isso que ele quer. Ele vai virar a atenção dele para quem promete para ele isso, para quem promete que ele vai conseguir voltar para a casa à noite vivo, sem ser assaltado. Para quem promete que a carteira de trabalho dele vai ser assinada. É isso.

Foto: Reprodução/Facebook
Aí todo o resto fica muito em último lugar, porque as pessoas simplesmente não têm tempo para pensar sobre isso. Essa é uma lógica capitalista cruel. Ela te coloca sempre ocupada, com problemas muito básicos, que não deviam nem existir, que são passar fome e ter onde morar, para você não ter tempo para pensar em outras coisas que formam as relações humanas. Então para você quebrar esse ciclo cruel, você tem primeiro que questionar todo o sistema econômico que está cristalizado há séculos e que está sendo colocado como normal.

A nova onda do backlash

A cada onda do movimento feminista se segue imediatamente uma onda extremamente conservadora, que procura demonizar o feminismo e afastar dele as mulheres. Essa onda reacionária foi batizada em 1991 pela jornalista Susan Faludi de “backlash”. No livro de mesmo nome, ela analisa os efeitos do contra-ataque nos anos 80 à terceira onda do feminismo. Se a década de 2010 é tida como o início da quarta onda feminista, a reação ultraconservadora ao progresso das minorias não é nenhuma surpresa.
Muitas pessoas têm dito que o identitarismo elegeu o Bolsonaro. Isso me parece um exemplo de backlash. Minha impressão é que de forma parecida com o que acontece com o feminismo, o identitarismo está sendo demonizado como o responsável pelas mazelas dos grupos identitários.
Total.
Como a gente sai desse ciclo quando a história nos mostra que estamos repetindo isso há, no mínimo, um século e meio?

A gente volta para a questão do trabalho de base. Se a população tivesse um conhecimento mínimo do que é feminismo, eles não iam acreditar em corrente de WhatsApp que mostra mulher defecando em frente à igreja católica falando que isso é feminismo.

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Toda vez que a gente tem uma onda minimamente progressista que seja, a gente tem esse efeito rebote muito intenso. Porque, óbvio, a camada que detém o poder entende bem isso, eles vão se armar dos ardis mais sujos que puderem. Toda ala da esquerda, sejam feministas, comunistas, anarquistas, ecologistas, o que seja, são vilões. São pessoas que trabalham temas que as fazem ser vistas como destrutivas para a sociedade.

Foto: Reprodução/Facebook
A gente precisa mostrar para a população o que são essas pautas. O que significa ser feminista, o que significa a luta indígena, a luta negra, a luta LGBT. Porque não se sabe, isso ainda é uma coisa muito presa a poucas pessoas que têm acesso a essas informações, como eu e você. A gente sabe que nós duas podemos ter uma conversa tranquila, mas se for falar [nesses termos] com a senhora que faz faxina aí que você falou, não vai rolar. E também o contrário, eles não conseguem se fazer entender. Então a gente fica sempre nadando no mega raso.
O historiador Asad Haider escreveu um livro sobre identitarismo nos EUA e afirmou que a política identitária passou de uma prática política revolucionária para uma ‘ideologia liberal individualista’. Acho que entra um pouco no que você estava falando sobre o adolescente negro que quer imitar a Beyoncé, por exemplo. Você acha que isso aconteceu no Brasil também?
Esse movimento é natural. A gente entraria talvez até numa questão psicológica disso que é da construção da autoestima dos grupos marginalizados. Ninguém gosta de ser marginalizado. Não é legal e você luta o tempo todo para ser parte de um grupo maior. Esse grupo dominante, que são esses grupos liberais, que prezam o prazer individual e o imediatismo, ditam o que é ser legal, o que é ser aceito. É normal que essa pessoa que está nessa situação de construção de autoestima queira seguir muito mais esse caminho do que outro que não tem incentivo nenhum. Não é porque essa pessoa é fraca, é porque ela só tem isso como referência.
E para sair desse processo voltamos a tudo que já foi dito.

Exatamente [risos].

Mulher de direita é mais higiênica

Um dia depois de as mulheres tomarem as ruas com o grito #EleNão, Eduardo Bolsonaro afirmou que as mulheres de direita são mais “bonitas” e “higiênicas” do que as de esquerda. Talvez sem saber, o deputado federal recorreu a uma tática centenária. As sufragistas do início do século XX, mulheres que garantiram a deputadas antifeministas do PSL o direito de votarem e serem votadas, já eram caracterizadas como feias e porcas pelos Bolsonaros da época.
Como fazer para reverter esse aparente esvaziamento das pautas identitárias e fazer com que elas retornem à sua origem?

Isso vai ser difícil, porque quando você questiona isso, você está mexendo justamente com o brio, o ego das pessoas. E chega nesse momento de falar: “Cara, não é assim, você está errado.” Não com essas palavras, mas você tem que mostrar que esse caminho está errado e que outro tem que ser tomado. Você acaba arranjando mais um problema que precisa ser contornado, que é a construção do eu de todo mundo que forma esse coletivo. Mas acaba que para a gente poder reverter esse quadro – óbvio, isso não vai acontecer em um ano, cinco anos, dez anos – isso perpassa esse caminho doloroso, tanto da descoberta quanto de você ficar o tempo todo fora da zona de conforto. Então você está o tempo todo em uma situação que é incômoda, que é ruim, que é desagradável, mas que é necessária para que haja essa reversão.
Você se refere a falar que é preciso tomar outro caminho para as pessoas que estão envolvidas nas lutas identitárias ou para as pessoas em geral?

Todo mundo. Você não vai falar da mesma forma, porque nem todo mundo vai entender. Você tem que adequar o seu discurso e se fazer entender.

Bolsonaro, Distopia com Bordão: é a Nova Era! Ricardo Coimbra


As ideias do bolsonarismo já foram testadas e só trouxeram desigualdade ao Brasil, por Alexandre Andrada.

Ato a favor da candidatura de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, em outubro de 2018, na avenida Paulista, em São Paulo.
Jair Bolsonaro toma posse nesta terça-feira amparado por um movimento que, apesar de recente no país, é constituído de elementos muito conhecidos de nossa história republicana. O bolsonarismo, o fenômeno que transformou um congressista radical do mais baixo clero em presidente, está assentado sobre três pilares: o autoritarismo militar positivista, o cristianismo conservador e o liberalismo autoritário.
O mais óbvio desses elementos é o autoritarismo militar positivista. Apesar de estar afastado do Exército há quase 30 anos, Bolsonaro ainda cultiva a imagem de soldado. É um patriota, um homem simples, incorruptível e disciplinado. Apartado da classe política tradicional e corrupta, ele é o único que pode resolver os problemas do país, reeditando o velho mito do Dom Sebastião de coturno.
Nossa república nasceu de um golpe militar contra a monarquia, liderado por republicanos civis (com predominância do Partido Republicano Paulista) e por militares entusiastas do positivismo. O próprio lema de nossa bandeira, em substituição ao brasão imperial, foi retirado das escrituras de Augusto Comte: “Ordem e Progresso”.
O historiador e filósofo uruguaio Arturo Ardao (1963) afirma que “no Brasil, o positivismo de Comte, como filosofia política, derivou-se da Sociedade Positivista do Rio, fundada em 1876 por Benjamin Constant”. Constant foi um dos mais importantes e influentes militares do Brasil daquele período. Ardao argumenta ainda que “apesar de ser Republicano”, Comte “era contrário ao liberalismo democrático”. Preferia o filósofo francês uma terceira via entre a aristocracia e a democracia, “baseada no que ele chamava de ‘ditadura republicana’”. Na visão positivista, para controlar e fazer avançar uma sociedade, é preciso um governo forte, apartado dos baixos interesses da política tradicional, capaz de modernizar a sociedade de cima para baixo.
Os governos de Deodoro (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) encarnavam essa visão militar. Porém, os republicanos civis conseguiram tomar as rédeas do governo a partir de 1894, com Prudente de Morais.
Apesar do insucesso relativo no campo nacional, o positivismo sentou raízes profundas no Rio Grande do Sul, possivelmente por conta da histórica concentração de tropas naquela região de fronteiras secas do país. A constituição daquele estado, “escrita” por Júlio de Castilhos, refletia essa visão mais positivista da política. Borges de Medeiros, por exemplo, governou o estado quase que ininterruptamente entre 1898 e 1928. Um verdadeiro caudilho.
Talvez não seja por acaso que Vargas, Costa e Silva, Médici e Geisel – quatro de nossos seis ditadores desde 1930 – tenham nascido naquele estado.
A ideia positivista de “democratura” estava por detrás dos movimentos de 1930 e 1964. Ambos esses autoritarismos estavam baseados na ideia de um governo forte, centralizado e capaz de modernizar o Brasil de cima para baixo. A cereja do bolo era que eles se diziam representantes da luta contra a corrupção, o populismo e o comunismo.
O anticomunismo paranoico é outro pilar do bolsonarismo, manifestado em sua plenitude no “olavaodecarvalhismo”, já analisado por mim e outros autores no Intercept.
Aqueles que clamavam por “intervenção militar” durante os protestos contra Dilma. Esses que acreditam que só o Exército pode acabar com a baderna (política e social) e a roubalheira em nosso país são representantes tardios dessa tradição do século 19.

Teologia da danação

O segundo pilar do bolsonarismo é o cristianismo reacionário, fortemente influenciado pelo Velho Testamento. Quem já leu a Bíblia percebe que há uma grande descontinuidade entre os dois livros.
A mensagem do Cristo, presente no Novo Testamento, muito facilmente se presta a uma leitura “progressista”, como a da Teologia da Libertação.
Do Evangelho de São Lucas, há essa famosíssima passagem em que “uma pessoa importante perguntou a Jesus: ‘Bom Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Jesus lhe diz que é preciso obedecer aos mandamentos, mas complementa:
“Falta ainda uma coisa para você fazer: venda tudo o que você possui, distribua aos pobres e terá um tesouro no céu”.
Com a evidente tristeza no rosto do homem, Jesus completou:
“Como é difícil para os ricos entrar no Reino do Céu! De fato, é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”.
Em vez de “Deus é amor”, tem-se aí a teologia do “Deus é vingança”.
Como compatibilizar essa mensagem clara e cristalina, com os pastores mi e bilionários que apoiaram entusiasticamente Bolsonaro? A mensagem fundamental de Jesus é de amor: “ame ao próximo como a ti mesmo”. Mas o que menos sai da boca desses fariseus é amor. Eles só vomitam ódio, rancor, desprezo, violência.
Jesus perdoou “certa mulher conhecida na cidade como pecadora”, Jesus impediu o apedrejamento da mulher adúltera, Jesus disse “não julguem, e vocês não serão julgados”, Jesus pregou que se deve sempre oferecer a outra face. Jesus disse “Eu não vim para chamar os justos, e sim os pecadores para o arrependimento”.
Na cruz, clímax da narrativa cristã, um bandido ao lado de Jesus lhe disse: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino”, ao que Jesus respondeu: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso”.
Como casar essa mensagem de amor, de empatia, de compreensão, de caridade, com a baba odiosa que escorre da boca desses pastores picaretas?
O fato é que eles esquecem Jesus e se apegam a passagens selecionadas e mais raivosas do Velho Testamento, em vez de “Deus é amor”, tem-se aí e teologia do “Deus é vingança”, que massacra os infiéis e salva apenas os escolhidos. Como no Livro de Samuel, em que Javé (um dos nomes de Deus) diz:
“Agora, vá, ataque, e condene ao extermínio tudo o que pertence a Amalec. Não tenha piedade: mate homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos”.
Eis o embasamento da Teologia da Danação.

A justificativa econômica

O terceiro pilar do bolsonarismo é o liberalismo de Chicago à moda chilena. Assim como o cristianismo – capaz de ser a base das atitudes de Madre Teresa, mas também do reverendo assassino Jim Jones –, a ideologia liberal pode ser usada para justificar objetivos diametralmente antagônicos.
De uma ideologia revolucionária, que defende o Estado Democrático de Direito e as liberdades econômicas (inclusive da circulação de capitais, mercadorias e trabalhadores), o liberalismo de raízes mais profundas no Brasil é aquele reacionário, que clama por um governo autoritário para ser posto em marcha. Chicago boys que mandavam “às favas quaisquer escrúpulos” – como disse Jarbas Passarinho durante uma reunião do AI-5 em 1968 –, felizes com a possibilidade de pegar um país autoritário e utilizá-lo como uma folha em branco, uma tábula rasa de seus projetos.
Chicago boys mandavam “às favas quaisquer escrúpulos”, felizes com a possibilidade de pegar um país autoritário e utilizá-lo como uma folha em branco.
Como afirma o especialista em história moderna da América Latina Patricio Silva (1991), no caso do Chile, os “Chicago boys desempenharam um papel-chave na institucionalização da ditadura. Agindo como intelectuais orgânicos, eles elaboraram respostas sofisticadas para a latente contradição existente entre liberalismo e o autoritarismo político”. O discurso era que o país só havia vivido até então uma falsa democracia, na qual apenas grupos organizados tinham seus interesses atendidos, em detrimento da maioria da população.
“Eles enfatizavam a necessidade de um governo forte que fosse capaz de impor um sistema de regras gerais e imparciais sobre toda a sociedade, sem permitir a pressão de grupos de interesse”. Seria através desse grupo de abnegados que se conseguiria modernizar o país. Um grupo de interesse detestado por esses economistas são os sindicatos. Qualquer interferência legislativa ou de ordem sindical sobre os contratos de trabalho é vista como perniciosa. Não por acaso, a tal carteira de trabalho verde e amarela é uma das bandeiras do plano de governo de Bolsonaro.
No caso do Brasil, durante a ditadura, com o desmonte dos sindicatos e com a imposição de uma regra oficial que comprimiu o salário mínimo, o que houve desde o início foi uma forte tendência à concentração de renda, como demonstra Pedro de Souza (2016) em sua premiada e já clássica tese. Pedro é economista do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, o Ipea, e foi orientado no seu doutoramento em Sociologia na Universidade de Brasília por Marcelo Medeiros, que é o principal pesquisador sobre desigualdade de renda no Brasil.
Para esses liberais, porém, desigualdade não é problema. Eles acreditam que dando maior liberdade aos ricos, maior serão os benefícios sociais para todos no longo prazo. Ou, numa versão famosa no Brasil dos anos 1970, distribuir renda significa tirar recursos dos ricos, o que reduz o nível de investimentos e de crescimento econômico do país.
Em resumo, são esses os pilares filosóficos do bolsonarismo. Note-se que todos eles são defensores, apologistas ou plenamente compatíveis com o autoritarismo. Com o agravante de que talvez pela primeira vez em nossa história, um presidente assumirá o poder já contando com uma base assustadora de entusiastas fanáticos.
Quem chama político de “mito”, pode facilmente se confundir e acabar o chamando de “duce”.