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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Privacidade, mercadoria de luxo, por Rafael Evangelista.


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Como a coleta invasiva de dados pessoais, sob o Capitalismo de Vigilância, elimina direitos, impõe comportamentos e torna totalitário o poder das corporações. Só escapa o 1% que comanda a máquina
Por Rafael Evangelista
Causou pequeno furor na Internet, recentemente, a notícia de que o Nubank poderia interromper as suas atividades no Brasil. O Nubank é uma dessas fintech, empresas de finanças que utilizam de ferramentas de alta tecnologia, principalmente big data, para realizarem suas operações de crédito e que também oferecem uma “experiência tecnológica” a seus clientes, como fazerem tudo pelo celular. O motivo do fechamento seriam mudanças na regulação do mercado de cartão de crédito propostas pela equipe econômica do famigerado Michel Temer, em especial o encurtamento no prazo de pagamento a ser feito aos lojistas pela financiadora quando alguém compra usando o cartão. O Nubank, choraram seus executivos, não teria caixa para antecipar pagamentos e não poderia manter práticas que o diferenciam de seus concorrentes, como a isenção de cobrança de anuidades. Por isso também a grita dos clientes.
Mas o ponto aqui não são as agruras dos portadores de cartões Nubank, e sim o quanto elas podem falar sobre privacidade. O direito de escolher entre ser totalmente transparente ou manter certos assuntos longe do escrutínio alheio tende a ser cada vez mais um privilégio dos ricos.
No caso acima, mantêm a privacidade aqueles com orçamento livre o suficiente para pagar a anuidade do cartão, ou que gastam tanto no crédito que gozam de benefícios dos bancos tradicionais. O cliente Nubank, assim que pede seu cartão de crédito, oferece poucos dados (e-mail, nome, CPF), mas é convidado a integrar seu perfil do Linkedin ao cadastro. Essa integração aumentaria a velocidade de resposta do Nubank ao seu pedido. É a partir do CPF e dos dados coletados em redes sociais que a empresa vai checar se o cliente é quem realmente diz ser e qual sua capacidade de crédito, que está relacionada não somente ao seu cadastro fiscal, mas também à sua inserção na sociedade, ou seja, o quem faz, onde trabalha, quem são seus amigos etc. Trata-se de uma escolha emblemática: os que podem pagar a anuidade podem ser mais obscuros ao banco; os que precisam economizar umas dezenas de reais por mês oferecem sua transparência.
O exemplo é até certo ponto trivial, uso-o aqui não por ser contundente, mas por convocar ao debate de uma questão mais ampla. Trata-se de uma investigação que todo banco faz, no entanto é uma amostra emblemática de uma mudança mais complexa e que tem a ver com o capitalismo de vigilância, uma nova lógica de acumulação do capitalismo. “Essa nova forma de capitalismo informacional pretende prever e modificar o comportamento humano como meio para a produção de lucros e o controle do mercado”, escreve Shoshana Zuboff, em um denso artigo chamado “Big Other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization
O artigo é um petardo e é prévia para um livro que deve chegar às livrarias no início de 2017. O capitalismo de vigilância funda-se em tecnologias como o big data, a extração e análise de grandes quantidades de dados para análises de mercado. Mas há outros dois pontos importantes de que Zuboff trata que nos ajudam aqui a mostrar como a privacidade vai se tornando cada vez mais difícil para os mais pobres.
Um deles é a reflexão que Zuboff faz sobre o futuro dos contratos. No capitalismo de vigilância, passamos a ser monitorados por dispositivos informacionais o tempo todo. Eles garantem com muito mais efetividade se estamos ou não seguindo um determinado comportamento. A tendência seria, então, de emergência de novas formas contratuais, que ela chama de não-contratos, pois a forma tradicional desses compromissos legais seria baseada na incerteza e na confiança. Estas tendem a ganhar um papel secundário no futuro, dando lugar a um monitoramento maquínico.
Por exemplo, imaginemos um plano de saúde que, como condição para oferecer preços mais baixos, oferte ao cliente o uso ininterrupto de uma pulseira de monitoramento cardíaco. Antes, a empresa podia apenas recomendar ao cliente que se exercitasse três vezes por semanas por pelo menos 30 minutos ao dia para manter uma vida saudável pelo seu próprio bem. Com a pulseira, a sincronizar dados com os computadores da empresa diariamente, esta tem como estar certa de como o cliente se comportou, se fez exercícios ou não, verificando os batimentos cardíacos. Se o cliente não cumpriu o “recomendado” então os preços, automaticamente, sobem. O risco da empresa cai consideravelmente, pois dá preços mais altos aos sedentários, condição que ela verifica ao vigiar a que velocidade bate o coração do segurado.
Parece claro que aqueles que podem pagar, que têm mais dinheiro, podem se dar ao luxo de se eximir desse tipo de vigilância pela máquina. Isso é ainda mais verdade em situações profissionais. A revista TechRepublic publicou um interessante artigo ( sobre o Mechanical Turk, o site da Amazon dedicado a oferecer trabalho remoto, a ser feito em casa, por trabalhadores independentes, em troca de micro pagamentos. São tarefas muitas vezes auxiliares aos sistemas de inteligência artificial das grandes companhias do Vale do Silício. Incluem trabalhos simples como classificar fotos, classificação que será usada para “ensinar” sistemas de inteligência artificial; ou coisas traumatizantes, como assistir centenas de vídeos do ISIS, incluindo cenas de degolamentos, para definir se se trata de conteúdo impróprio ou não. Tudo isso por alguns centavos: na imensa maioria dos casos o rendimento do trabalhador fica abaixo do salário mínimo federal dos EUA, de 7,5 dólares a hora. O que a revista descreve é um cotidiano exaustivo, em que os trabalhadores passam o tempo todo conectados, pois o rendimento depende de ser estar disponível no momento em que a tarefa aparece. Essas são oferecidas preferencialmente àqueles designados como estando no “master’s level”, mas ninguém sabe como isso é definido. A vida privada, pessoal, fora do mundo do trabalho, desaparece, O trabalhador é transparente ao sistema, precisa estar disponível o tempo todo e abrir seus dados em extensos formulários de cadastramento. Mas o contratante é obscuro e, muitas vezes, anônimo. A Amazon coloca-se apenas como dona da plataforma que conecta trabalhadores e patrões.
Outro ponto importante no texto de Zuboff é a ideia que o capitalismo de vigilância não tem as populações somente como fonte da coleta de informações comportamentais, informações essas que vão orientar campanhas de marketing, publicidade e informar a produção de produtos. Aquele que é vigiado é também alvo de tentativas de orientação de comportamento. Tradicionalmente, a publicidade já opera dessa forma, busca fazer com que os indivíduos se comportem de uma determinada maneira que seja interessante aos lucros da empresa. Mas Zuboff está falando de algo em outro nível, que não opera pelo convencimento, pela escolha e decisão.
Trata-se de uma prática de controle da ação dos pontos em uma rede – as pessoas, no caso. Entende-se ação aqui como uma operação informacional: um like no Facebook, um clique que confirma a compra em um site, montar uma página na Internet em que alguém oferece seus serviços profissionais. “Na lógica do capitalismo de vigilância não há indivíduos, somente o organismo de escala mundial e todos os minúsculos elementos dentro dele”, escreve ela. O controle aí significa a limitação das escolhas ao mínimo ou a opções que não fazem muita diferença. A Netflix lhe oferece opções de filmes que parecem infinitas, a maioria dentro do mesmo padrão hollywoodiano e todas sendo comercializadas pelas mesmas distribuidoras do sistema. Você pode optar por não utilizar o dispositivo de rastreamento que a seguradora quer instalar em seu carro, só vai ter que pagar o dobro.
Na pirâmide social da atualidade – e que, em condições normais, tende a um afunilamento crescente – apenas o 1% que está no topo pode optar pelo privilégio da total obscuridade à rede. O grau de escolha sobre privacidade parece ir diminuindo quanto mais se aproxima da base. Inclusive o nível mais inferior dessa pirâmide, hoje desconectado, é objeto de desejo das grandes empresas de tecnologia, que lançam projetos de inclusão digital – como o Free Basics, do Facebook – de olho nos dados e operações informacionais que essa população pode produzir.
Nessa enorme parte do meio da pirâmide, para sobreviver, ou apenas para termos um pouco mais de conforto momentâneo, somos a todo tempo convidados a nos tornarmos mais transparentes. Mas essa transparência, ao mesmo tempo, aumenta nossa vulnerabilidade e o poder do outro. Os efeitos não são só individuais, a invasão de uma intimidade, como o sentido comum da expressão “perda da privacidade” pode nos convidar a pensar. Trata-se fundamentalmente de uma questão de poder.

Quando a mídia incita à violência de gênero, por Inês Castilho.


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Por que os jornais e TVs contribuem para chacinas como a de Campinas. De que modo Espanha, Argentina e outros países impedem a difusão gratuita do ódio
Por Rachel Moreno
O artigo de Carol Patrocínio, replicado pelo Ópera Mundi, faz uma excelente análise dos diversos trechos da carta de Sidnei Ramis de Araújo, que matou a mulher, o filho de 8 anos, dez convidados de uma festa de fim de ano – oito delas mulheres – e depois se suicidou, em Campinas.
Pela análise de Carol, e pelo conteúdo da carta deixada, o que parece difícil é justamente a percepção dos homens sobre a violência de gênero e os estereótipos de gênero. E isso nos remete a um terreno que convém repisar, para tentar avançar na mudança da cultura que naturaliza a violência de gênero e a submissão das mulheres – ainda que tenhamos prosperado tanto nos últimos anos, ocupando todos os espaços e tornando transversal a questão de gênero.
Para avançar na equidade e desnaturalizar a violência, é fundamental que discutamos o problema em nível de educação – tanto formal, quanto informal.
Sabemos que boa parte dos homens que são autores de violência vivenciaram-na quando crianças entre seus pais, e, sem ter onde discuti-la, passaram com o tempo a considerar natural, e depois a reproduzir, um comportamento vivido inicialmente de forma traumática. É por isso que, no que diz respeito à educação formal, batalhamos tanto por incluir, no Plano Nacional de Educação, assim como no Estadual e no Municipal, a discussão das “Questões de Gênero”.
Infelizmente, a bancada evangélica conservadora, seguida de demais segmentos conservadores – ou interessados no voto de fiéis das diversas igrejas, dada a proximidade das eleições municipais – terminaram por derrubar o que rebatizaram de “ideologia de gênero”, a pretexto de que “estimularia a pedofilia”!?!…
Mais, passaram a estimular os pais a denunciar professores e escolas que ousassem discutir qualquer questão de gênero – tendo inclusive conseguido que dois professores mais corajosos fossem demitidos.
Tentam agora aprovar o projeto “Escola sem Partido”, que proíbe debates sobre política (como se um professor de história pudesse ensinar qualquer período sem discutir a política que o envolve e justifica!), entendida em seu sentido mais amplo possível.
Embora o projeto tenha provocado manifestações de repúdio e crítica, ainda não estamos livres do risco de sua aprovação, antecipado pela redução das matérias obrigatórias no 2º. Grau: foram excluídas História, Geografia, Filosofia, Educação Física, Música ou qualquer outra que não seja português, matemática e inglês – ou ensino técnico.
Perdemos assim este espaço fundamental para discutir e desnaturalizar a violência de gênero, os estereótipos, a discriminação racial ou por orientação sexual, as diversas formas e pretextos para o bullying, etc. E perdem, esta e a próxima geração, a oportunidade de ter um espaço privilegiado para repensar os preconceitos. Não seria hora de calcular o enorme prejuízo social que a ausência de debate sobre as questões de gênero nas escolas provoca, e tentar reverter isso?
Mas há também outra poderosa educadora, esta informal, que deveria contribuir com o processo de desnaturalização da violência de gênero, mas faz exatamente o contrário: a velha mídia.
No caso de Campinas, a grande mídia agiu conforme sua tradição de ora banalizar, ora espetacularizar a violência de gênero. Ainda no fim de 2016, num dos programas de maior audiência dominical (Domingão do Faustão), o apresentador declarava que algumas mulheres sofriam violência doméstica porque “gostavam de apanhar”… E, embora a Rede Mulher e Mídia tenha entrado com processo exigindo retratação e direito de resposta, só recebemos em resposta o silêncio e a alegação de que a Globo não havia recebido a carta – que lhes foi entregue por uma portadora nossa, em nosso nome…
Pouco tempo antes, o programa Zorra Total fazia humor insinuando que a mulher vítima de assédio no transporte público deveria “aproveitar”… a “delícia” do assédio? A violência que isso representa?!.
No caso específico de Campinas, a grande mídia simplesmente reproduziu, acriticamente, a carta deixada pelo assassino. Divulgou-a, portanto.
No caso relativamente recente do estupro da jovem por 33 rapazes, no Rio de Janeiro, fartamente noticiado na grande mídia, a divulgação, como foi feita, resultou no aumento do índice de estupros do mês seguinte…
Há países que têm normas para a divulgação de casos de violência. Na Espanha, por exemplo, a mídia pode noticiar qualquer caso de violência de gênero, desde que preserve a identidade da vitima; preserve a identidade do autor da violência, até que se prove ser ele de fato o autor; divulgue a matéria incluindo uma entrevista com algum/a especialista que a analise e informe sobre a estrutura existente para defesa da vítima, de modo a lhe oferecer alternativas ao convívio continuado com o autor da violência; e acompanhe obrigatoriamente o caso até o fim, para demonstrar que a violência é passível de punição … e, de fato, punida.
Na Ley de los Medios da Argentina, há fiscalização e cláusulas que proíbem a divulgação de violência física, psicológica, patrimonial e simbólica. Entende-se por “violência simbólica” a reprodução de estereótipos e preconceitos…
No Brasil não há regra nenhuma, e a grande mídia faz o que bem quer… E ainda reage a qualquer normatização, taxando-a de “tentativa de censura”… Como se fossem eles os defensores da “liberdade de expressão” (lamentavelmente reduzida, no caso deles, à “liberdade de expressão comercial”, e no nosso, “à democratização do acesso à mídia, ao dever de mostrar a diversidade da população e a pluralidade de opiniões, etc.”).
Não temos sequer leis de punição ao estímulo do ódio de gênero, na grande mídia e nas redes sociais. Queremos a internet livre, mas falta, como há em praticamente todas as democracias, leis que punam o estímulo às diversas modalidades de ódio, incluindo o de gênero.
Temos que punir o feminicídio e todas as formas de violência de gênero. Mas temos também que desnaturalizar a violência na cultura, de modo que ela não mais pareça normal e corriqueira.
Para tanto, urge alcançar e amplificar esta visão em todas as estruturas e espaços de educação formal e informal, e de comunicação. É preciso e urgente que avancemos neste sentido e que contemos com o apoio e solidariedade de todos os segmentos sensíveis a estas questões.

Seu nome era Ruas, por Luciana Itikawa.


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O Índio foi espancado e morto na Baixada do Glicério – primeira periferia de São Paulo, território dos indesejados. Aguardem: em 2017, estaremos com ele em toda parte
Por Luciana Itikawa | Imagem: Carol Garcia
Seu nome era Ruas. Luis Carlos Ruas. Era um ambulante que trabalhava nas ruas de São Paulo há mais de 20 anos. Seu apelido era Índio. Foi morto cruelmente na noite do Natal de 2016 por dois homens. Ruas foi morto porque tentou impedir a agressão a um homossexual e uma travesti. Os criminosos identificados tiveram como motivação, como se não bastasse a hedionda homofobia, o aborrecimento com a mulher de um deles1. Nesta sexta, dia 30 de Dezembro de 2016, diversos movimentos sociais farão novamente um ato em homenagem ao ambulante, às 15h na estação de metrô D. Pedro II.
Topograficamente, o local do crime é um território que a cidade quis atravessar e não parar. A estação de metrô D. Pedro II está no miolo de uma planície alagadiça — a baixada do Glicério — historicamente negada pelos urbanistas e atravessada por diversas pontes, incluindo a do próprio metrô. A baixada do Glicério foi a primeira periferia após a expansão da mancha urbana do centro histórico que transbordava de gente, sobretudo populares, ainda no século XIX. Em 1886, o Código de Posturas proibiu cortiços, forçando a primeira segregação socioespacial em direção à zona leste. Ao chegar na entrada desta estação de metrô, mesmo na cota do chão, a sensação é como se estivéssemos descido no subsolo da cidade, tamanha a quantidade de concreto que atravessa esse espaço, cujo nome infeliz é Parque D. Pedro. Não é a toa que no entorno encontram-se várias populações negadas pela sociedade: pessoas em situação de rua, ambulantes, prostitutas, dependentes químicos, travestis, etc. O próprio poder público institucionalizou no local a assistência a essas pesssoas, anteriormente através de albergues; hoje, em tendas de abrigo e convivência. Já que a cidade não pode escondê-los, ao menos ficam submersos aos olhos da riqueza que a atravessa.
Entre as primeiras medidas alardeadas pelo futuro prefeito João Dória estão justamente a negação ou a expulsão de ambulantes e pessoas em situação de rua da cidade. Dória, que chegou a chamar a população em situação de rua de “indigentes” durante sua campanha, assim que foi eleito, disse que iria tirar todos camelôs das ruas de São Paulo e colocá-los em shoppings2. No dia 20 de dezembro deste ano, afirmou que removeria ambos das marginais3. Dória polemizou também ao definir o deslocamento da Virada Cultural, cujo local principal é o Centro, para a periferia em Interlagos: “vai ser com segurança, não incomodando a população”4.
A permanência de ambulantes nos espaços públicos de forma organizada e planejada pela cidade foi objeto de recente Ação Civil Pública em defesa dos ambulantes, movida por uma organização de direitos humanos e pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A Ação foi acatada favoravelmente em caráter liminar em 2012 e julgada definitivamente pela Justiça em 2016. A decisão defendeu o direito à permanência no espaço público desses trabalhadores, entedido como direito à Cidade5.
O que fez então dois homens atacarem brutalmente um homossexual, uma travesti e matar um ambulante nesse espaço que serve justamente para esconder essas pessoas da vista de todos, abaixo das pontes? Para aqueles que acreditam que essas populações precisam ser removidas para que a pobreza saia das vistas, a morte do ambulante Ruas era apenas uma ironia do destino. Ele teria o nome errado, o apelido errado, a profissão errada, estava no local errado e defendia pessoas erradas. A questão é que Ruas não estava nem um pouco errado: era um trabalhador, defendendo seres humanos. Seu destino, certamente, só tinha uma ironia: ele estava no ano errado: 2016. Este ano que falta pouco para terminar, legitimou as várias camadas de intolerância ao legitimar um golpe parlamentar. Se um golpe é institucionalizado, este pode legitimar todos os outros dispositivos de golpes cotidianos de gênero, de classe, de raça, etc.
Se o golpe parlamentar de 2016 vai ser conhecido como a liberação das comportas a todos fantasmas fascistas e aos demais golpes nos direitos – trabalhistas, previdenciários, etc., o que sobrará então em 2017? Se o resto dos direitos e as pequenas diferenças forem extintas, restará somente uma espécie: o “Homem Qualquer Golpista”.
O “Homem Qualquer Golpista” é a versão violenta, intolerante, homofóbica, misógina, racista e autoritária daquele cidadão comum que parece ter incubado em 2016 e já vai ganhar maioridade em 2017.
O “Homem Qualquer Golpista” é o oposto do “O Homem Sem Qualidades”, mesmo título do livro escrito por Robert Musil, na década de 1930 na Áustria. Este livro falava de um jovem homem comum, Ulrich, trabalhador que buscava um sentido para sua vida em crise. O homem “sem qualidades” neste romance não era aquele que almejava se igualar aos seus pares. Ao contrário, ele já não suportava mais as máscaras de classe, os padrões de sucesso profissional, etc. Queria ser um homem sem qualidades e mediano. Sua forma de transgressão não era a violência, a indiferença e a negação, como o nosso “Homem Qualquer Golpista”. A transgressão do “Homem sem Qualidades” era ser um “homem de possibilidades” porque abria para as diferenças e para a invenção de novas identidades. Exatamente tudo que 2016 quis negar e que 2017 parece pretender executar.
É certo que o “Homem Qualquer Golpista” não nasceu em 2016, mas a violência do golpe e a utilidade da crise econômica continuarão banalizando os micro-golpes, perpetuando as pequenas banalidades do mal, a retirada de direitos, a indiferença às desigualdades, a naturalização do preconceito e das hierarquias de gênero e raça.
A cidade ideal do “Homem Qualquer Golpista” é uma cidade limpa de diferenças, que não quer ser incomodado pela pobreza, ou raça, opção sexual ou escolha de gênero. Se 2016 criou, nutriu e libertou esse monstro, também teremos em 2017 um campo de possibilidades, de forças e novas identidades que disputarão espaço de igual para igual. Esse campo de disputas será nas ruas.
Ruas, Luiz Carlos Ruas: estaremos nas ruas: com você e por você.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Grécia de hoje, Brasil de amanhã, Léa Maria Aarão Reis.

reprodução
O filme do grego Christoforos Papakaliatis (2015), em cartaz há três semanas, mesmo mal lançado em apenas oito salas do país, ganhou um título infame em português: Mundos Opostos. É injusto, mas comercial. Embora seja um melodrama que narra três histórias amorosas pautadas pela pieguice, o pano de fundo de todas elas é didático para os brasileiros da era pós-PEC 55 que está se anunciando para nós.
A Grécia e a tragédia social e econômica que lá se abateu e perdura há cerca de dois anos depois do plano de austeridade com submissão forçada ao capital globalizado imposto pela União Europeia, FMI e Banco Central Europeu, terra arrasada onde a população amarga o pão amassado pelo(s) diabo(s), sem dinheiro no bolso para comprá-lo e comê-lo.
Eu sou você amanhã seria um título melhor para o filme grego.
Também roteirista e ator de Mundos Opostos, o diretor Papakaliatis desenha três situações nefastas que já foram gestadas e vicejam na intimidade das famílias e nas ruas do país: a discriminação, o preconceito e a agressividade aos imigrantes (aqui, também aos mais vulneráveis: mendigos, travestis, gays, indígenas e moradores de rua). A consequente perseguição dos grupos xenófobos e milícias neonazistas e de extrema direita aos refugiados – aqui, além deles, às esquerdas e aos estudantes que ocuparam milhares de escolas nos últimos meses. E as crueis ondas de demissões coletivas – a consagrada ’flexibilização’ ensinada nos manuais neoliberais - em empresas de todos os portes, gerando taxas recordes de desemprego (13% tendendo a subir), pobreza e, com certa frequência, tragédias previsíveis – suicídios, atentados de rua, vidas truncadas.
Este filme-mosaico se passa na Grécia atual e é construído com três histórias em que o tema superficial, de visibilidade imediata é sempre o mesmo: a relação de amor entre um estrangeiro e um grego.
A atração mútua de um refugiado sírio e uma universitária cujo pai tornou-se um ultra - xenófobo; a tesão de um executivo grego e de uma sueca por ele que vem administrar as demissões em massa da firma onde o homem trabalha para tornar mais atraentes as ações da sua empresa, em Estocolmo, compradora do negócio que o quer ‘’enxuto’’.
O amor que nasce entre uma dona de casa de meia idade, da classe média, triste e empobrecida que na condição de precarizada, não possui mais dinheiro suficiente para comprar os produtos habituais, no supermercado (tomates-cereja, por exemplo; a sua paixão), e um professor alemão aposentado que vai viver em Atenas e trabalhar como consultor na Biblioteca Nacional - um apaixonado pela Mitologia grega e por Eros.
A primeira história pretende mostrar, mesmo em condições difíceis e instáveis (a dos gregos), como o apoio e a solidariedade (aos imigrantes) prevalecem e deságuam no afeto entre os jovens - numa mesma medida simétrica do ódio e da desconfiança da população de mais idade, que sofre com o austericídio de estado e rejeitam com violência os que chegam procurando refúgio.
No segundo movimento, a relação entre a Grécia cujo símbolo é o executivo de Atenas (interpretado pelo próprio diretor) e os países europeus nórdicos personificados na CEO sueca,  protagonistas e porta vozes do capitalismo financeiro avançado que, com hipocrisia, quer ajudar a reerguer o país do sul do continente ao preço do sofrimento de todos e de imensos prejuízos sociais.
A última fábula fecha o filme com tratamento de hiper realidade felliniana. Trata da relação entre gregos e alemães. É uma metáfora da simpatia que em determinado momento, em 2014, alguns países demonstraram pela causa da Grécia que anunciava sua falência, em particular a Merkel.
O ator americano oscarizado J. K. Simmons faz o professor alemão vivendo na despreocupação da sua aposentadoria, o oposto dos idosos gregos aposentados cujas imagens inundam de vez em quando a mídia ocidental, catando no lixo das ruas de Atenas restos de comida.
Bem instalado na sua situação financeira, o intelectual se apaixona pela dona-de-casa que passa um dia, todas as semanas, sentada no banco da praça diante do supermercado onde não entra porque não tem recursos. É o seu único e triste momento de lazer. Já a Grécia é a paixão do alemão.
É inteligente que os primeiros encontros do casal de meia-idade se passem na rua, defronte do supermercado em que a grega  não tem acesso, e, pouco a pouco, à força do afeto, vão ocorrendo dentro da loja para onde o alemão leva a mulher. Ele, detendo o poder de compra e ela sonhando com as prateleiras tentadoras.
Apesar de comercial, como foi dito, Mundos Opostos  trata de um tema que nunca é exagerado abordar – apesar da sua pieguice -, neste instante, num país como o Brasil, no qual a mídia mente, distorce e sonega informações diariamente.
Nos últimas semanas, diversos cientistas políticos e observadores, como o ex - Ministro Roberto Amaral, vêm relembrando a penosa situação da Grécia pós austericídio e relacionando-a com as medidas criminosas da PEC 55, criação e obra do governo que assaltou o poder, em Brasília, este ano.
Detalhe: é conveniente lembrar que os gregos tinham o segundo maior orçamento militar entre os membros da OTAN em relação ao seu Produto Interno Bruto, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Diz o ex-ministro e cientista político Roberto Amaral sobre a burguesia industrial daqui: “ ( ...ela ) dá sinais de inquietação, pois já vê no final do túnel um Brasil próximo da tragédia grega, afundado na depressão, a outra face de nossa inépcia e da opção neoliberal pela inserção subordinada na globalização.”
Alguns analistas comparam o austericídio à brasileira com outras duras medidas no mundo - muitas das quais foram implementadas  pelos governos após a crise financeira em 2008. Descobriram que aqui ele será particularmente grave.

A professora de Economia Laura Carvalho, da Universidade de São Paulo, é uma que ressalta: quando alguns países implementam regras para limitar o crescimento da despesa ao longo do tempo, nenhum deles retira os gastos do crescimento do PIB inteiramente. “ Ou seja, os planos de austeridade não costumam congelar os gastos de hospitais, por exemplo, mesmo quando a economia começa a crescer novamente e gerar mais receita do governo,” ela lembra, e conclui:  “O campeão de futebol é agora campeão mundial na austeridade."

Um alto funcionário das Nações Unidas, há dias,  advertiu o Brasil sobre como a medida coloca o país em "uma categoria socialmente regressiva" e está em contradição com as suas obrigações de Direitos Humanos.

Na contramão da crítica cinematográfica tradicional conservadora, apesar da fragilidade e mesmo da obviedade do pequeno filme de Papakaliatis, é útil assisti-lo neste grave e penoso momento em que a PEC 55 se abate sobre o Brasil e tornando-o a Grécia de amanhã - ou até pior.

“Deus” foi a palavra mágica usada nos discursos de posse de milhares de prefeitos, por Juan Arias.


Marcelo Crivella toma posse como prefeito do Rio de Janeiro. Agência Brasil



Talvez seja a sensação de impotência, a falta de confiança na política ou a forte influência das Igrejas Evangélicas, a verdade é que o Brasil parece se refugiar cada vez mais em Deus, algo que não desagrada seus governantes e muitos até exploram isso.
No dia primeiro de janeiro, quando milhares de prefeitos assumiram seus cargos, uma das palavras que mais foram repetidas em seus discursos foi “Deus”. E também a mais aplaudida.
“Não tenho medo de assumir essa responsabilidade porque Deus está comigo”; “Vamos mudar esta cidade porque Deus decidiu”, foram frases que se repetiram em muitos dos discursos dos recém-eleitos.
No Rio de Janeiro, o novo prefeito, o bispo evangélico Marcello Crivella, citou Deus seis vezes em oito minutos de seu discurso. Disse a uma multidão entusiasmada: “Tenho certeza de que Deus estará comigo enquanto governar”. E algo incomum nesses casos, em um país laico por Constituição, o evangélico Crivella abriu o ato recitando o Pai Nosso, um aceno para os católicos.
Não só aqueles que tomaram posse apelaram a Deus, mas também aqueles que se despediram depois de ter perdido a eleição. Um caso emblemático foi o da prefeita da pequena cidade de Sapezal (MT), Ilma Grisoste, 55 anos, formada em Pedagogia e doutora em Psicopedagogia.
Em vez de entregar as chaves da cidade ao seu sucessor, emitiu um documento no qual afirmava: “Decreto a entrega das chaves desta cidade a Deus”. E acrescentou: “Desejo que esta cidade pertença a Deus e que toda a prefeitura esteja sob a proteção do Todo-Poderoso”. Mais ainda: “Cancelo em nome de Jesus todos os pactos feitos por qualquer outro Deus ou entidade religiosa”.
Então, não é de estranhar que 90% dos brasileiros pensem que ser rico ou pobre depende de Deus, de acordo com uma pesquisa recente da Datafolha, publicada no jornal Folha de S. Paulo.
Esta pesquisa indica que nove de cada dez brasileiros estão convencidos de que “seu sucesso financeiro se deve a Deus”. E o mais estranho é que a alegação foi feita não só pelos crentes, mas também por 70% das pessoas sem religião e 23% daqueles que se declaram ateus.
E não apenas os mais pobres e menos escolarizados atribuem a Deus seu sucesso ou fracasso econômico, mas também 77% das pessoas que concluíram a universidade e ganham até 8.800 reais.
Esse Deus acaba sendo um perigo porque anula os próprios esforços das pessoas para avançar na vida, enquanto elimina sua capacidade de protestar e se rebelar contra o poder injusto.
Esse Deus empurra os pobres à resignação porque seria ele, e não o esforço e capacitação pessoal, ou a luta por seus direitos, que decide seu presente e seu futuro.
Os políticos devem ser os mais felizes com essa convicção de 90% dos brasileiros. Para que se esforçar muito, realizar reformas sociais que melhorem a vida das pessoas, se no final é Deus que decide sobre as finanças delas?
Ou para que melhorar a educação e elevar o nível cultural do povo, se 77% das pessoas com título universitário também acham que tudo depende de Deus?
Em qualquer sociedade laica do mundo, especialmente aquelas que possuem melhores índices de qualidade de vida, a situação econômica dos indivíduos e das famílias não depende de Deus, mas do esforço pessoal de cada um, sua capacidade e preparação profissional, bem como dos sistemas econômicos e políticos em que vivem.
Como diz o ditado espanhol: “A Deus rogando, mas com martelo batendo”. Ou, como respondeu Jesus (tão traído e distorcido nos discursos dos políticos brasileiros) aos judeus: “Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
O resto é vontade de tirar sarro dos pobres e dar ao poder o álibi de que é Deus que vai cuidar deles.
A fé religiosa deveria ser, ao contrário, a primeira a exigir que o poder seja desmascarado sempre que pretende alienar as consciências com falsas promessas messiânicas ou perigosas bajulações aos pobres.
Um Deus curinga dos governantes para se esquivar de suas responsabilidades e adormecer os mais desamparados é um Deus perverso.

O monstro: sobre a chacina de Campinas, misoginia e notícias, por Daniela Lima.

Talvez o crime de Campinas seja justamente sobre a manutenção das relações de poder, do status quo, em um momento em que as disputas de narrativas sobre os casos de feminicídio trazem à tona crimes perversos que – é importante ressaltar – acontecem diariamente, embora nem sempre sejam tão noticiados.


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Adrian Ghenie. “Pie Fight Study 2”, 2008.

Por Daniela Lima.

Quando um caso de violência contra mulheres chega à grande imprensa, o debate é orientado quase sempre pela mesma pergunta: qual a motivação do crime? Mas o que é que motiva a formulação dessa pergunta? Deixando de lado o procedimento jurídico que levará em consideração as motivações do crime dentro de um protocolo de investigação policial, o senso-comum e os consumidores de notícias em geral desejam encontrar  uma explicação individual, específica e subjetiva. E a pergunta pela motivação do crime atende a essa necessidade. Muitos dizem: “era louco”, “era um monstro”, “não era humano”.
Quando se diz que alguém que assassina brutalmente uma mulher o fez simplesmente porque era “louco” se reforça o estigma do louco perigoso e, ao mesmo tempo, se isenta o assassino de responsabilidade. É uma forma de dizer: “ele não sabia o que estava fazendo”. Já a ideia de “monstro” pretende colocar os casos de violência contra as mulheres como exceção, coisa que aconteceria fora do mundo, realizada unicamente por monstros desumanos.
O assassino de Campinas não é um monstro: ele é assustadoramente humano, capaz de um mal naturalizado e banalizado que vitima mulheres todos os dias. O ponto aqui é trazer de volta esses casos para o mundo, entendendo não se tratarem de exceções. Fugir da perspectiva dominante que invariavelmente termina por justificar a violência culpando a vítima.
O que faz a chacina de Campinas ser um caso emblemático em relação aos esforços de procurar possíveis justificativas para o injustificável é que o assassino deixou uma carta. Existe então um sem número de possibilidades e de psicologismos que poderiam vir à tona para evitar que se diga: esse caso não é exceção. Criam-se paredes de contenção para evitar que se fale sobre misoginia.
O assassino antecipa a acusação de misoginia na carta, estabelecendo as regras dos jogos de verdade e falsas justificativas que o fariam escapar da acusação. É a carta que deve ser lida, escrutinada, interpretada – e não a sociedade e as suas relações de poder.
Sidnei Ramis de Araújo diz na carta que não odiava mulheres, ou seja, que não era misógino, que odiava tão somente as “vadias” – curiosamente todas as mulheres da família de sua ex-companheira eram vistas como “vadias”. Neste ponto, o assassino reforça a ideia do senso comum de que toda violência pode ser justificada por meio da desumanização. É sob a ideia perversa de que “vadias” não são humanas e que, portanto, podem sofrer toda forma de violência que a misoginia se esconde e se sustenta.
A carta se inicia com Ramis reivindicando para si a identidade de um “homem de bem”, assim como aconteceu com os assassinos de Luiz Carlos Ruas. Essa repetição nos leva a perguntar: o que define um “homem de bem”? Talvez o “homem de bem”, neste contexto, seja aquele que trabalhe para a manutenção das relações de dominação de uns (sempre os mesmos) sobre outros (também sempre os mesmos), ou seja, aquele que use a violência para a manutenção do status quo.
O assassino revela também um ódio ao que ele chama de “sistema feminista” – um delírio absoluto em um país cuja taxa de feminicídios é a quinta maior do mundo, mas são tempos vertiginosos em que o absurdo se estabelece e se enraíza como a verdade do senso comum.
Essa visão do feminismo parece retomar a famosa frase de Rebecca West: “eu mesma nunca consegui saber direito o que é feminismo. Só sei que me chamam de feminista quando expresso sentimentos diferentes de um capacho”. Fica expresso na carta um ódio às feministas, que, no fim das contas, são todas as mulheres que, como diz West, expressam sentimentos diferentes de um capacho. Pior: um ódio contra todas as mulheres, independentemente de como se expressem.
Há ainda a questão ética envolvida na publicação da carta do assassino, pois além da exploração do crime como espetáculo, o texto da carta traz em diversos momentos incitações de violência contra “vadias” – e, como dito acima, “vadias” são todas as mulheres. Ramis incita a violência misógina retomando o antigo discurso da “legítima defesa da honra”, que sustentou por décadas um discurso jurídico para inocentar “homens de bem” que cometiam femicídios. Destaco este trecho da carta:
“A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias.”
É preciso analisar aqui o que leva a imprensa a publicar o discurso de ódio contido nessa carta, sobretudo em um momento em que a mesma parece reproduz e reforça uma suposta divisão entre as mulheres “de boa índole”, “belas, recatadas e do lar” e as “vadias”. Os dois discursos se imbricam em uma perigosa e perversa abertura para justificar o feminicídio.
A partir daí é que precisamos prosseguir o debate sobre as múltiplas tecnologias do poder que naturalizam o feminicídio por meio de separações, tais quais “mulheres de bem” e “vadias”. Heleieth Saffioti nos diz: “não obstante a força de todas as tecnologias sociais, especialmente as de gênero, […] a violência ainda é necessária para manter o status quo”*. Talvez o crime de Campinas seja justamente sobre a manutenção das relações de poder, do status quo, em um momento em que as disputas de narrativas sobre os casos de feminicídio trazem à tona crimes perversos que – é importante ressaltar – acontecem diariamente, embora nem sempre sejam tão noticiados.
* SAFFIOTTI, Heileieth. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
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Daniela Lima é escritora e ativista. Autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) e Sem Corpo Próprio (2015 – em andamento). Teve contos traduzidos para a revista The Buenos Aires Review (2013) e foi finalista do prêmio literário Exercícios Urbanos (2008) na categoria contos. Colaborou para diversas revistas e sites, entre eles Blog do Instituto Moreira Salles, Carta Capital, Margem Esquerda, Territórios Transversais e Pesquisa Fapesp. É comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

“Criamos o discurso politicamente correto, mas nossa sociedade continua violenta”, por Wania Pasinato.


A manhã deste 2 de janeiro, o primeiro dia útil de 2017, começou em Campinas sob forte tristeza e transtorno, com o sepultamento das 12 vítimas da chacina provocada pelo técnico de laboratório Sidnei de Araújo na noite de Réveillon. Antes da virada do ano, três outros crimes violentos já tinham ganhado as manchetes dos jornais brasileiros, sensibilizando o país em datas consideradas  sagradas: o espancamento até a morte de um vendedor ambulante do metrô em São Paulo no dia do Natal, o estupro e assassinato de uma jovem num bar da zona leste paulistana dias antes, e o assassinato do embaixador grego pelo amante de sua esposa e um cúmplice no Rio de Janeiro, no dia 26.Além de chocar, os acontecimentos recentes desatam uma reflexão sobre o ambiente que fomenta a violência no país, imerso em uma recessão econômica e uma crise política ainda sem perspectivas concretas de solução. Mas a socióloga Wânia Pasinato rejeita a tese de que as crises são capazes de explicar sozinhas o aumento na violência – e defende que o problema tende a crescer. Para ela, que atuou no Núcleo de Violência da USP e em várias pesquisas sobre justiça criminal, violência policial e violações de direitos humanos, o atual cenário passa pela “perda de direitos no plano social”. E "requer muito mais do que expor a indignação nas redes sociais”, opina Pasinato.
Pergunta. Como podemos interpretar os crimes violentos que aconteceram nas últimas semanas no país? Há algum tipo de relação entre eles, analisando o contexto do país, ou são casos isolados?
Resposta. Há mais de um aspecto na pergunta. Primeiro, sim, são crimes isolados no sentido de que não ocorrem em conexão direta um com o outro. Mas não no sentido de que são únicos ou excepcionais. São crimes que expressam uma violência recorrente, que acontece com uma frequência muito maior do que podemos acompanhar e do que a imprensa é capaz de cobrir. A repercussão desses casos nos dá a sensação de que estão mais frequentes ou mais violentos. Mas o que temos é um retrato parcial dessa cruel realidade de violação de direitos humanos, porque é disso que estamos tratando.
O outro aspecto é uma possível interpretação para esses crimes. Há o caso do ambulante atacado no metrô de São Paulo, a chacina envolvendo o feminicídio em Campinas, o estupro seguido de morte da jovem no bairro paulistano da Mooca e mesmo, ainda que com características um pouco diferentes, o assassinato do embaixador grego no Rio de Janeiro, que aparentemente também envolve violência nas relações afetivas. Aí necessitaríamos aprofundar mais, mas existe uma clara indicação de que estamos diante de crimes de intolerância. E nesse sentido, é muito bom que esses casos causem comoção, que haja indignação, mas precisamos ir além disso. Precisamos passar para a ação que ajudará a conter essa violência e intolerância.
P. No fim dos anos 1980, começo dos 1990, vários sequestros, como o do empresário Abílio Diniz e do publicitário Washington Olivetto, aconteceram seguidos um do outro, e isso era em parte atribuído às recessões econômicas. Com a crise que vivemos atualmente, é possível analisar os crimes atuais sob essa ótica?

"Quando falamos de crimes de intolerância, não podemos pensar em fatores conjunturais como a crise econômica. A raiz é outra"

R. Acredito que vamos voltar a conviver com o crescimento da criminalidade urbana em razão da recessão econômica, mas também por conta de uma desorganização doestado democrático. Já estamos vivenciando situações que nos remetem aos anos 1980-90, como as rebeliões nos presídios, manifestações de força e disputas de poder entre o crime organizado, como a que aconteceu domingo em Manaus. Porém, quando falamos de crimes de intolerância, não podemos pensar em fatores conjunturais como a crise econômica. A raiz é outra. Para além da crise vivemos uma guinada conservadora no Brasil que não tolera o diferente, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade sexual. Um conservadorismo que tenta impedir que falemos em gênero, um conceito que nos permite compreender a desigualdade social entre homens e mulheres. É a Escola sem Partido que está aí.
P. Qual a importância da discussão de gênero para combater violência, a seu ver?
R. Se não podemos falar em gênero, como poderemos vencer essa desigualdade e a intolerância? No caso da violência contra mulheres existem linhas de análise que a relacionam às crises econômicas, ao desemprego, sobre como esses fatores afetam os homens e os tornam mais inseguros quanto ao papel de provedor e na experiência de uma “perda de poder” sobre a mulher. Contudo, veja o caso de Campinas. A carta deixada pelo assassino depois de matar, entre todos, a ex-esposa e o filho, mostra uma violência muito mais arraigada. Se pensarmos a violência contra as mulheres, a crise financeira pode aparecer como justificativa ou motivação, mas não pode ser admitida como causa. Entender as causas exige que passemos do plano individual para o social. Nesse sentido, podemos dizer que a crise atual no país contribui para a violência quando vemos um retrocesso nos direitos sociais que ocorre em contexto de maior tolerância do Estado em relação a esses crimes.
P. A PEC 55 é uma iniciativa do Governo que limita investimentos sociais. A que outras coisas você se refere quando fala de retrocesso e em tolerância?
R. Focando na violência contra as mulheres, concretamente, até maio de 2016 tínhamos um Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, com autonomia financeira e administrativa. Com a chegada do novo Governo, esse ministério foi em um primeiro momento dissolvido e, posteriormente, as secretarias que formavam esse superministério foram reativadas dentro da pasta da Justiça e Cidadania. Esse movimento resultou em perda de institucionalidade com a consequente perda de autonomia financeira e capacidade administrativa. Mas, principalmente, resultou em perda de força política, uma vez que as ações que eram coordenadas pelas respectivas secretarias foram paralisadas ou abandonadas. Hoje, no caso da Secretaria de Políticas para Mulheres, à exceção da Casa da Mulher Brasileira que se encontra instalada e em funcionamento em três capitais, não houve continuidade em nenhuma política de enfrentamento à violência contra as mulheres. Mesmo a Casa da Mulher Brasileira se encontra ameaçada por falta de investimentos. Nesse mesmo período a violência contra as mulheres não deixou de ocorrer.
Para além da violência que foi capturada pela imprensa, diariamente ocorrem casos de violência contra as mulheres. E quais são as propostas do atual governo para combater essa violência? Não há, pelo menos até onde sabemos. Há algo a ser inserido no Plano Nacional de Segurança, que está sendo elaborado, mas que fará referência, no máximo, à capacidade do Estado em responsabilizar criminalmente os autores de violência. Mas se estamos falando de violênciabaseada no gênero, uma violência cujo enfrentamento requer mudança da sociedade no reconhecimento da igualdade de direitos para as mulheres, então precisamos muito mais que políticas de segurança pública. Já aprendemos sobre isso e temos uma lei, a Lei Maria da Penha, que orienta a articulação de políticas públicas na educação, saúde, trabalho, desenvolvimento social como necessárias para dar uma resposta a esse cenário de violência.
P. Na carta que o assassino de Campinas deixou, ele se refere à lei Maria da Penha como “vadia da Penha”, fala em “sistema feminista” e se diz vítima na relação com a ex-esposa. Diz também que ela, mãe de seu filho, “inspirou outras vadias” e que agora “são os pais quem irão se inspirar”. No atual contexto, você acha o que ele diz pode incitar outras pessoas?
R. A carta deixada por ele é uma justificativa de seu ato. Como costuma ocorrer nos casos de violência contra as mulheres, há sempre uma tentativa de responsabilizar a mulher pela violência que ela sofre. Mas os trechos que foram publicados revelam o que está permeando o imaginário social, e que gera incômodo, é o fato das mulheres terem se tornado mais conscientes de seusdireitos. Alguém tem que ser responsável por isso, e nesse caso, para ele, é o “feminismo”. Por outro lado, ele vai juntando tudo o que está na mídia: corrupção, violência envolvendo a polícia, crítica aos defensores de direitos humanos... Há uma crítica e uma acusação a tudo que também – vale ressaltar – é fomentada pela própria imprensa. Enfim, pode se tratar do surto de uma pessoa, no entanto, é alguém que não estava vivendo fora dessa sociedade, que estava indignado com a situação do país e com sua história pessoal. Infelizmente, era uma pessoa armada e colocou fim na vida de outras 12 pessoas. Não sei se essa carta pode incitar outras pessoas. Mas sei que ela e o próprio crime devem ser motivadores para que pensemos o tipo de mensagem que temos dado, como sociedade, sobre a violência contra as mulheres.
P. O brasileiro tende a não se considerar machista, homofóbico ou violento. Ainda que muitas estatísticas e novos crimes comprovem que, definitivamente, não é assim. Por que essa percepção é tão difícil de mudar?
R. O que temos feito para que as coisas mudem? Temos leis, e tivemos boas políticas públicas que contribuem para essa mudança, mas a maioria delas nãochegou a ser efetivada seja em decorrência do pouco tempo, seja em decorrência da falta de vontade política dos governos. Por outro lado, nunca contabilizamos muito bem as nossas conquistas, para avaliá-las e fazer as correções necessárias. Nossa sociedade é desigual em sua raiz, e continuará a ser assim porque as mudanças sociais levam tempo para acontecer e se consolidar. Mudamos muito o nosso discurso. E essas mudanças de discurso são, na verdade, muitas vezes apenas politicamente corretas.
P. Como as pessoas podem partir para a ação, na sua opinião?
R. De diferentes maneiras. Estamos num momento de chegada de novos prefeitos e vereadores às prefeituras. Os municípios têm sua responsabilidade na defesa dessas políticas públicas sociais. É preciso cobrar deles que elas sejam aplicadas e que não haja mais perdas. Para além disso, temos que cobrar das demais esferas de poder a construção de mais políticas de enfrentamento à violência e combate à intolerância. Não é possível que haja apenas uma resposta midiática e ações pontuais que não sanam os problemas. Devemos rebater, por exemplo, a Escola Sem Partido e o avanço no Congresso de pautas conservadoras e exigir efetividade na aplicação das leis Maria da Penha, lei do Feminicídio, e das políticas de segurança e acesso à justiça no país.