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terça-feira, 21 de junho de 2016

Guia Prático de destruição do capitalismo, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.




Vamos dar uma pequena contribuição à escalada de manifestações no Brasil no mundo com um pequeno “Guia Prático de Destruição do Capitalismo” mostrando que o verdadeiro inimigo não está nas vidraças de agências bancárias ou nas lanchonetes símbolos da globalização, sempre alvos de depredações. Está na financeirização e liquidez do capital, símbolos da força e, paradoxalmente, também da fraqueza de um sistema baseado apenas na credibilidade através da nossa participação a cada compra a prazo ou quando pagamos através da socialização dos prejuízos das explosões das bolhas financeiras. E a única forma de libertação existente é através daquilo que o filósofo francês Jean Baudrillard chamava de "aprofundamento irônico e proposital das condições negativas".

And when we kiss we speak as one
With a single breath this world is gone
(Everyone Everywhere, New Order)


Desde o crash da Bolsa de Nova York em 1929 quando quase tudo derreteu e foi para o ralo, o capitalismo aprendeu que a força do capital não estava na exploração local da força de trabalho, mas na industrialização e mercantilização como modelo de vida social para ser expandido de forma sistêmica e planetária. Isso foi conseguido por meio da publicidade, mídia e financeirização do capital. Isso não evitou as crises, que se tornaram cada vez mais periódicas (longos ciclos de prosperidade acompanhados por crises e explosões de bolhas especulativas).



Porém, essas “crises” transformaram-se em momentos de realização de lucros: bolhas
especulativas explodem como forma de chantagem, obrigando o Estado a socorrer o sistema injetando dinheiro para que papéis, títulos e ações voltem a ter lastro, mantendo a credibilidade sistêmica dos negócios. Em outras palavras: enquanto o lucro é privatizado a crise é socializada – todos os contribuintes pagarão a conta através dos impostos, o que criará um novo “ciclo virtuoso”.

Acompanhando as análises do funcionamento do capital feitas por Karl Marx no século XIX, muitos economistas acreditavam que o capitalismo estaria cavando sua própria sepultura e que o crash de 1929 seria a confirmação final das previsões marxistas. Mas o capital transformou-se em “capitalismo tardio”, sistêmico, midiatizado e de extrema liquidez. Transformou-se em uma entidade multiforme, sempre procurando novas oportunidades, principalmente após a queda do bloco comunista no final da década de 1980 e a radicalização das políticas neoliberais de privatizações que se seguiram onde as possibilidades de mercantilização e industrialização invadem novos territórios até então inexplorados: saúde, educação, água e quem sabe até o ar... tudo, qualquer coisa pode transforma-se em oportunidades de oferta de serviços e negócios.

Diagnóstico: Karl Marx

                Marx acreditava que o desenvolvimento capitalista acirraria as suas próprias contradições internas que conduziriam ao estágio econômico mais elevado: o comunismo. Sinteticamente podemos apresentar o seguinte diagnóstico feito por ele: O capital viveria uma contradição entre o crescimento das forças produtivas (o caráter social do trabalho) e a apropriação privada da riqueza através da expropriação do excedente (mais-valia e lucro). Essa contradição básica produziria uma série de outras como a tendência à taxa decrescente de lucro, crises periódicas de superprodução e anarquia do mercado.

O caráter social do trabalho levaria a uma tendência irresistível de liberação das forças produtivas (inovação tecnológica, automação etc.) que alteraria a composição orgânica do capital (crescimento do capital constante em relação ao variável) e como consequência a queda da taxa de lucro: é impossível extrair mais-valia do “trabalho morto” (máquinas) que começa a substituir o “trabalho vivo” (operários).

Essa contradição entre a produção social e a apropriação privada se manifestaria nas crises cíclicas e na crescente tomada de consciência do proletário da sua condição de alienação em relação às forças produtivas e a necessidade da sua socialização como única alternativa histórica à anarquia da produção e irracionalidade do sistema onde o “morto” se sobrepõem ao “vivo” e o valor de troca se torna mais importante do que o valor de uso e as necessidades reais humanas.

Segunda Opinião: Mandel e o Capitalismo Tardio


                A cada crise econômica como a atual que atinge a zona do Euro, revivem-se as profecias de Marx. O problema é que os marxistas confundem a crise financeira com a “crise do capitalismo” prevista por Marx.

O economista Ernest Mandel (1923-1995) mostrou que o capitalismo estava longe de dar o último suspiro. Na sua forma “tardia” criou uma industrialização generalizada e sem precedentes não só para a produção de mercadorias, mas em todos os setores da vida social: produção, lazer, cultura e trabalho (Veja MANDEL, Ernest “Capitalismo Tardio”, série “Os Economistas”, Abril, 1982). Essa industrialização generalizada (que leva a hipertrofia de setores terciários como finanças, comércio, publicidade, mídia, etc.) seria o resultado de uma crise do Capital se valorizar decorrentes das contradições descritas por Karl Marx.
Financeirização: o próprio dinheiro
transforma-se em mercadoria

Por isso o capital expande a lógica da industrialização para outros setores: circulação, consumo, serviços até chegar à financeirização onde o próprio dinheiro transforma-se em mercadoria – na verdade sempre foi, mas na financeirização chega-se ao paroxismo. Suas constantes crises são uma espécie de “destruição criadora”, ironicamente parafraseando o economista austríaco Schumpeter. Complexas e oportunistas engenharias financeiras são elaboradas para nos momentos de “crise” os detentores de papéis, títulos e ações repentinamente sem lastro (na verdade nunca tiveram) chantagearem a sociedade e o Estado por providências que mantenham a credibilidade no sistema.

Por motivos principalmente imaginários a sociedade acabará apoiando esta socialização dos prejuízos - afinal no capitalismo tardio a ideologia da ascensão social não passa mais na esfera do trabalho, da operosidade e da poupança, mas agora se situa no reino da especulação e das oportunidades de negócios “criativos” e de um empreendedorismo nos setores de finanças, serviços e mídia (o próprio cimento ideológico do capitalismo tardio).

Profilaxia: matando o paciente – Jean Baudrillard


                O pensador francês Jean Baudrillard foi certamente aquele que melhor compreendeu como o capitalismo deixou em segundo plano os signos da produção para privilegiar os simulacros e simulações da circulação (informacional e financeira) e consumo. Principalmente na sua obra As Estratégias Fatais onde mostra como o capitalismo torna-se sistêmico e, por isso, regido pela lógica fatal de todos os sistemas: entropia, reversibilidade irônica e hipertrofia.

                Se quizermos fazer um guia prático de destruição do capitalismo as estratégias necessariamente devem passar por esses conceitos. Em outras palavras, assim como o terrorismo compreendeu bem cedo que toda ação política deve se voltar para o campo da circulação e do consumo através de práticas de impacto midiático e de criação de pânico em redes de comunicação, da mesma forma as táticas de destruição do capitalismo devem abandonar o campo da produção seja política ou econômica – sindicatos, greves, partidos políticos etc.

                Portanto vamos extrapolar as “estratégias fatais” de Baudrillard e transformá-las em táticas de destruição e sabotagem. Nada de passeatas, depredações, carros e pneus incendiando em meio a balas de borracha e coquetéis molotov. Essas táticas nada mais são do que espetáculos midiáticos, assim como os atentados terroristas, facilmente incorporados às grades de programação das mídias como mais uma atração. Vontade de espetáculo e de ilusão.

                Como dizia Baudrillard, só existe uma forma de liberação existente: o “aprofundamento das condições negativas”, estratégia irônica de esgotar o sistema levando-o ao excesso. Vamos aplicar esse princípio no nosso Guia:

1 – Paroxismo do Consumo


Certa vez um amigo trotskista nos tempos de faculdade falou para mim: “se Marx dizia que o Capitalismo produzia suas próprias contradições que levarão ao seu fim, então devemos consumir cada vez mais para acelerar essas contradições.” Na época pensei “que pequeno burguês!”. Mas à luz do pensamento baudrillardiano passa a ter sentido como tática de levar o consumo ao paroxismo, isto é, ao aprofundamento e excesso.

Se de uma forma uníssona e combinada acelerarmos o consumo até o limite da irresponsabilidade financeira pessoal entrará em ação as tradicionais medidas de política monetárias de aumento dos juros para evitar o “aquecimento” da economia, sob a justificativa que o aumento do consumo gera pressão inflacionária. O problema é outro: na extrema financeirização e liquidez o dinheiro desaparece e torna-se fictício – números e dados em telas de terminais de redes financeiras. O aquecimento econômico pode colocar em xeque o domínio da financeirização com a demanda por mais dinheiro em circulação. É claro que isso é mitigado com cartões de crédito e débito e o incentivo por compras a prazo através da financeirização do próprio consumo.

Portanto, compremos à vista. Torremos nossas economias em compras e em dinheiro vivo! Por isso será necessária uma segunda tática, a seguir...

2 – Sacar ao invés de depredar


                Para quê quebrar vidraças de bancos e caixas eletrônicos em manifestações? Isso lembra mais os ludistas no século XIX depredando as máquinas de teares para atacar a revolução industrial capitalista. Ao invés de quebrar vamos diretamente à boca do caixa sacar nossos ativos, o resultado do suor dos nossos trabalhos depositados ou aplicados. Um movimento organizado e simultâneo de saques trará o pânico ao sistema financeiro, pois todos descobrirão que o rei está nu: o dinheiro não existe!

                Compreenderemos o porquê de os bancos estimularem a utilização das formas eletrônicas de dinheiro-crédito, desestimularem a utilização do dinheiro em espécie (“que coisa triste” dizia uma música de um filme publicitário do cartão Visa) e como a insegurança urbana (assaltos relâmpagos, sequestros, arrombamentos de caixas eletrônicos etc.) cai como uma luva nessa estratégia do desaparecimento do dinheiro em nome da liquidez total do sistema – a nova mais-valia do capitalismo. Dizem que o dinheiro eletrônico é a forma mais segura e a ida a um caixa eletrônico para fazer um saque pode se transformar em risco de vida.

                Diante de uma onda organizada e sistemática de saques, o sistema reagirá de forma violenta: para começar, será decretado feriado bancário. Depois a polícia de choque se postará diante das agências para evitar esse “terrorismo financeiro”.

3 – Destruindo o fetichismo da credibilidade da liquidez


                Se no passado o capital dependia da repressão e violência da ordem policial para manter operários na linha para poder expropriar a mais-valia nas linhas de produção, agora a estratégia é paradoxalmente muitos mais forte (porque psicologicamente invasiva) e, ao mesmo tempo frágil pois depende de uma única coisa simples: credibilidade. Para a financeirização do capital e do dinheiro funcionarem, é necessário que toda a sociedade não só deposite o fruto do seu trabalho nos bancos, mas também sua credibilidade no sistema: todas as contas serão pagas, todos os cheques serão compensados, todos os papéis e títulos serão convertidos em riquezas e ganhos em juros etc. E somente um fiador para tudo isso: o Estado.

                Com as “crises” e “crash” periódicos os lucros são realizados e o Estado tem que injetar suas reservas (o dinheiro social) sob pressão política da banca (que afinal é credora da dívida do próprio Estado) para que seja salva a credibilidade no sistema.

                O crédito é a nova e mais perniciosa forma ideológica : a relação entre status e o poder de endividamento e que acaba justificando todo o sistema.

                O cinismo de campanhas como “consumo consciente” e “crédito com reponsabilidade” patrocinado pelo próprio sistema financeiro é uma tentativa de moralização de um problema como se a culpa fosse por um desvio de personalidade pessoal, e não de um sistema que estimula a relação entre juventude, status e elegância com o crédito e poder de endividamento. 


Como entender o impeachment com Baudrillard e Deleuze, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.



“Grau Zero da Política” e “Micropolítica”. Esses dois conceitos, respectivamente dos pensadores Jean Baudrillard e Gilles Deleuze, podem nos ajudar a compreender o significado simbólico do atual processo de impeachment contra a presidenta Dilma. Os catorze anos de sucessões de governos petistas teriam criado uma crise simbólica no sistema político: a reversibilidade entre Esquerda e Direita no momento em que governos supostamente de esquerda implementaram  políticas neodesenvolvimentistas que ajudaram a criar condições ótimas de reprodução do capitalismo - inclusão no consumo e precarização do trabalho. A Esquerda estaria tomado para si a agenda conservadora? Então, por que derrubar Dilma? Baudrillard diria que esse é a revelação do “grau zero” por trás dos simulacros da política; e Deleuze diria: “nunca houve governo de esquerda”.

Uma das minhas primeiras experiências como repórter. No distante ano de 1983, cumprindo uma pauta para o Jornal Laboratório da Faculdade de Jornalismo de Santos , fui cobrir uma sessão plenária da Câmara dos Vereadores da cidade. Não sei se dei sorte ou se as sessões eram sempre assim movimentadas: testemunhei vereadores do PMDB contra os do antigo PDS em discussões ferozes. Alguns deles quase indo às vias da agressão física, sendo segurados pelos demais. Atmosfera pesada e um final sem qualquer consenso.

No meu bloco de notas fiz um resumo da plenária, alguns depoimentos de vereadores e saí  do Paço Municipal da Praça Mauá, Centro de Santos. Atravessei a av. General Câmara em direção a um ponto de ônibus e passei em frente a uma padoca badalada na época. E com quem deparei? Com alguns dos vereadores de situação e oposição que há pouco mais de meia hora estavam quase se matando na plenária, agora todos juntos dando risadas conversando sobre temas com certeza bem mais amenos. Conversavam animados enquanto degustavam suas xícaras de café, em pé no balcão, em um aprazível final de tarde.

Essa lembrança sempre foi recorrente na cabeça desse humilde blogueiro: tudo foi uma simulação? Qual a natureza daquilo tudo que presenciei?  

Mais tarde na pós-graduação me deparei com um livro do filósofo francês Jean Baudrillard chamado Partidos Comunistas: o Paraíso Artificial da Política. Em síntese, nesse livro Baudrillard desenvolve seu ceticismo radical em relação à política em três teses principais: (1) os comunistas não mudarão nada se chegarem ao poder; (2) os comunistas não querem chegar ao poder; (3) a tese mais niilista: não há perigo em ganhar o poder porque o poder, de fato, não existe.


Baudrillard referia-se a um suposto “grau zero da política”: e se todo o sistema político tornou-se autônomo e fechado em si mesmo em relação à sociedade e a economia? Um sistema cujos signos tornaram-se intransitivos, onde sua distinções (Direita/Esquerda, Oposição/Situação) não são dadas como representação de algo externo, referencial, ao sistema (ideologias, História, Classes sociais etc.), mas como simples distinções binárias em um sistema fechado em si mesmo.

O grau zero: signos comutáveis


Direita e Esquerda seriam signos comutáveis, definidos não positivamente pelo seu conteúdo, mas negativamente por suas relações distintivas no sistema -  o grau zero da política.

Todas essas lembranças vem à tona na atual crise política brasileira com o impeachment da presidenta Dilma e a condenação, inclusive da imprensa internacional, de um golpe político em andamento no País.

O fantasma baudrillardiano do grau zero ressurge mais uma vez para assombrar a política a partir de três premissas:

(a) Se em 2003 alguém viesse do futuro e dissesse que, depois de mais de uma década de  sucessivos governos de esquerda, o Congresso seria dominado por homofóbicos, neofascistas, evangélicos e pequenos escroques de um baixo clero que anunciariam, com todo os pulmões ao vivo pela TV, seus votos pelo impedimento de uma presidenta, certamente acharíamos que isso era um roteiro de algum filme de humor politicamente incorreto;

(b) A forma como após sucessivos governos de esquerda um presidente foi derrubado do poder praticamente sem reação: enquanto a grande mídia detonava suas bombas semióticas diariamente para criar um clima de opinião de crise econômica e política, os governos petistas não só eram reticentes em relação a Lei dos Meios e o monopólio midiático – também alimentavam a grande mídia com grossas verbas publicitárias com sua orientação “técnica” e “republicana”.

(c) Os sucessivos governos de esquerda não implementaram nenhuma política “socialista”: nada mais fizeram do que ingressar o País em um regime capitalista com a regularização da reprodução da mão de obra com sua inclusão no mercado de consumo a partir de políticas neodesenvolvimentistas. Enquanto isso, o sistema financeiro aferia lucros recordes com os altos juros. E mais: o outro lado da inclusão no consumo foi a precarização do trabalho – o estágio avançado da exploração no capitalismo com a abolição dos direitos trabalhistas – leia ALVEZ, Giovanni. “Neodesenvolvimentismo e precarização no trabalho no Brasil” in Blog Boitempo.

As principais críticas ao governo Dilma vinham da própria esquerda, acusando-a  de dar as costas aos movimentos sociais enquanto aplicava uma agenda de medidas econômicas “conservadoras”.


Por que derrubar Dilma?


Se governos supostamente de esquerda deixaram a banca financeira satisfeita e ajudaram a modernizar as formas de exploração capitalista, por que a urgência da derrubada da atual presidenta?

Dando ainda mais força etérea ao fantasma de Baudrillard poderíamos afirmar: Dilma não foi derrubada por colocar em perigo a ótima reprodução do capitalismo mas, ao contrário, por paradoxalmente ajudar a implementar uma agenda neoliberal roubando essa pauta da “Direita”.

Levando às últimas consequências a tese do grau zero da política, os governos do PT colocaram o sistema da política em uma crise simbólica ao criarem uma perigosa reversibilidade: a partir do momento em que lentamente expropriaram a agenda conservadora da Direita,  colocaram em risco o código binário Esquerda/Direita que sustenta a reprodução do sistema linguístico da Política.

Para o ceticismo de Baudrillard, o sistema político não produz política, mas reproduz a Política. Através de estratégias de simulação procura esconder a intransitividade do signo político – de que as posições do espectro político nada mais são do que signos distintivos de um sistema que se autonomizou e fechou-se em si mesmo enquanto o sistema econômico se autogere.

Para a economia a única função do sistema político é tornar verossímil para a opinião pública as decisões dos agentes financeiros ou industriais por meio de uma narrativa política crível, porque construída pela binariedade do código.

Pois é justamente essa narrativa simbólica que o PT colocou em perigo.

Todo o sistema político necessita simular diferenças através de dois discursos: o escândalo da corrupção e a ameaça do terror através de um inimigo interno ou externo. “Mensalão”, “petrolão” e “bolivarianismo” foram as variações de uma narrativa que é sempre posta em ação quando o sistema político é ameaçado pela entropia: o perigo dos eleitores descobrirem que, na verdade, todos os signos são reversíveis e equivalentes.


A ameaça do non sense


Quando os governos petistas ameaçaram permanecer no poder continuando a implementar medidas ótimas de reprodução do capitalismo, a grande mídia disparou o alarme para esse ameaçador non sense que poderia implodir a narrativa política.

Essa implosão da narrativa política seria através da descoberta por parte dos eleitores desse niilismo político, a verdadeira ameaça a todos os sistemas: o vislumbre de que por trás da simulação das diferenças nada existe, a não ser o simulacro da Política.

Sem um discurso que torne verossímil a gestão econômica, a sociedade poderia ser dominada pela anarquia e desobediência civil. Por exemplo: quebra do sistema financeiro através do saque dos ativos feito pelos próprios correntistas ao descobrirem a inexistência do dinheiro através do crédito – sobre as formas irônicas de destruição do capitalismo clique aqui.

Deleuze: nunca houve governo de esquerda


  Podemos então afirmar que nunca existiu governo de esquerda? Quem pode dar essa resposta é outro filósofo francês, Gilles Deleuze. Como podemos acompanhar no vídeo abaixo de uma entrevista com Deleuze , para ele a esquerda ou direita são muito mais formas de percepção do que discursos políticos. Para ele nunca houve governos de esquerda mas governos que aplicaram algumas exigências da esquerda.


O que Deleuze chama de “esquerda” nada tem a ver com governos ou com a política. É uma forma de percepção (“Micropolítica”) de onde se parte do contorno, do horizonte ou do mundo para compreender fenômenos particulares – ao contrário do “endereço postal” da direita que parte do individualismo para avaliar o todo – a sociedade, o país, o continente.

Para  Deleuze, todas as críticas da esquerda em relação as injustiças sociais não partiriam de um julgamento moral ou político, mas em nome da própria percepção. Isso seria “ser de esquerda: “começar pela ponta e considerar que esses problemas devem ser resolvidos por agenciamentos mundiais”.

Além disso ser de esquerda é um “devir de minoria”, nada a ver com o “padrão vazio” da construção da maioria em um sistema político democrático. Uma sociedade com diversos “devires”, fenômenos de percepção  cujos olhares buscam o horizonte e o todo.

Muito diferente do sistema político que se autonomizou e fechou em si mesmo em um sistema distintivo de signos vazios e intransitivos. Por isso, a “percepção de esquerda” jamais teve lugar no sistema político e muito menos em um governo.

E como acompanhamos no caso atual do impeachment, a mídia cumpriu bem o seu papel de alarme do sistema político: irradiou a narrativa do escândalo da corrupção e do perigo do inimigo interno (o PT “bolivariano”) para proteger o código binário do sistema que o mantém fechado e sem horizontes.

Em outras palavras: Dilma cai não pelos seus defeitos, mas por suas “virtudes”: estava fazendo a coisa certa. Porém, com os sinais trocados.

As memórias daquela tarde de 1983 continuam assombrando esse humilde blogueiro.


O ateísmo de Jesus na vida política brasileira, por Eder Casagrande.





o ateísmo de jesus na vida política brasileira
Por Eder Casagrande, colunista de religião do Cafezinho
É próprio do discurso conservador recorrer a Deus com o intuito de validar suas ideias diante do eleitorado. Supostamente contra o poder celestial sobra pouco espaço pra contestação, e é aí que mora a artimanha. Essa tentativa de sugestionar ao eleitor a que se aceite propostas de ordem duvidosa sem nenhum questionamento, às vezes claramente insanas na perspectiva de quem olha de fora, muito se aproxima da técnica usada por pastores neopentecostais quando querem “ofertas” gordas, no dinheiro ou no cartão!
Os pastores e suas coletas. Os políticos e seus votos. Os pastores-políticos e seus dinheiros e poderes.
Lideranças evangélicas agem com carisma nas comunidades onde pastoreiam, o que viabiliza a construção de relacionamentos baseados no afeto e confiança e que são sedimentados através das ações sociais para com os mais pobres. Adicione a essa receita o conforto psicológico e emocional proporcionado pelo acolhimento e pela noção de pertencimento que uma organização (religiosa ou não) é capaz de promover. Também, é claro, o alívio espiritual para os gemidos da existência, renovado a cada culto. E pra coroar esse processo de construção psicossocial, há o reconhecimento da figura do pastor como uma referência ética ante os diferentes aspectos da vida.
Acontece que o tipo de subjetividade que esse arranjo constrói pode acomodar perfeitamente o discurso conservador. Não apenas pelos elementos citados, mas sobretudo pela disseminação do medo – respaldado pela ignorância – na mentalidade dos fiéis e seu uso frequente como moeda de troca, numa relação de poder que o induz a barganhar os favores de Deus abrindo mão de sua identidade e dinheiro. Quanto maior o medo, maior a submissão. Quanto mais submissão, maior aceitação a figuras que se colocam como paladinos da moral e dos bons costumes. Um dos motivos que explicam a simpatia por malafaias e bolsonaros. Não à toa se assemelharem na forma odiosa, taxativa, retrógrada e preconceituosa em seus discursos.
Por outro lado, basta adotar uma postura crítica em relação ao arranjo conservador pra ser taxado de “satanista devorador de criancinhas”, “petralha”, “comunista”, “bolivariano”, “esquerdista”, e ter seu pensamento deslegitimado imediatamente. Rótulo nem um pouco sofisticado, mas que se mostrou vivificado desde que a direita soltou a franga.
Vale dizer, que do ponto de vista da conscientização política visando transformação social, as ações sociais das organizações evangélicas têm muitas limitações, mas se mostram inteiramente capazes de disputar o coração e mente do eleitor-fiel diante da assistência oferecida pelo Estado ou aquela feita pela esquerda organizada. Resta à Dona Maria, com sua solidão e velhice, recorrer a quem está perto pra atender suas necessidades corriqueiras, seja a cesta básica do mês ou a companhia pra ir ao médico. O Estado e os movimentos sociais parecem não conhecê-la pelo nome, assim como não são conhecidos, mas o pastor sim.
Assim, a simbiose entre eleitor-fiel e seu líder espiritual aspirante a sumo sacerdote, e o acúmulo de capital proveniente do dízimo e da isenção fiscal das igrejas, além do financiamento empresarial de campanha, vigente até as eleições passadas, chocou o ovo da serpente. A numerosa bancada evangélica, escancaradamente conservadora, é autora de propostas como o Estatuto da Família (PL 6.583/2013) que define como família apenas “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”, em outras palavras, implica na proibição da união estável entre pessoas do mesmo sexo e os direitos adquiridos daí, como a adoção, por exemplo. São contra a legalização do aborto (mesmo nos casos de estupro comprovado), a favor da redução da maioridade penal e contra a regulação da mídia. E a lista segue...
As inclinações dos evangélicos na política brasileira estão bem claras. Ninguém desconfia de seu amor por dinheiro, controle e poder. Mas eles são cínicos. Em nome de “deus” e da “família tradicional brasileira”, 93% da bancada votaram a favor do impeachment. O circo da votação na Câmara foi acompanhado de referências bíblicas como “feliz é a nação cujo deus é o senhor”, “ao reino de Israel”, e a que mais sintetiza o momento, “que deus tenha misericórdia dessa nação”, dita por Eduardo Cunha. Todas acompanhadas de um efusivo SIM favorável ao impedimento.
Para esse deus-mercado, em que a Frente Parlamentar Evangélica ergue altares nas igrejas e no congresso, o Jesus dos Evangelhos – aquele que chicoteou mercadores no templo e que criticou duramente às elites políticas do Estado teocrático israelense – é completamente ateu!

Parece que os nossos juristas insistem em dar razão a Tocqueville, por Martonio Mont’Alverne.

         

tocqueville

“No ponto em que se movimentam príncipe e juristas, origina-se um despotismo que mal deixa o ar para o homem respirar; quem somente refletir sobre o príncipe — e não sobre os juristas — conhecerá apenas um lado da tirania. Para conhecer o todo é necessário ter os dois – príncipe e juristas – diante dos olhos”.
As palavras acima não são de nenhum revolucionário.
Foram proferidas na obra “As condições políticas e sociais na França antes e depois de 1789” por um liberal: Alexis de Tocqueville.
Guardam força na atualidade brasileira.
O que têm realizado os juristas brasileiros diante da situação jurídica e política de 2016?
De um lado, a Ordem dos Advogados do Brasil, por seu Conselho Federal e quase a unanimidade de seus Conselhos Estaduais repetem o que já se esperava, como em 1964: apoio ao movimento golpista que afastou a Presidenta Dilma Rousseff de seu cargo.
Neste mesmo lado, juristas sustentam que não se trata de um golpe, alegando ser o afastamento da Titular do Poder Executivo nacional uma previsão constitucional.
Neste mesmo espectro, um sem número de juristas encrustados na burocracia do Estado brasileiro encarrega-se de produzir “manifestação técnicas”, as quais nada mais são do que o retrato de suas convicções políticas pessoais, camufladas de pesarosas considerações sobre “pedaladas fiscais”, “criação de despesa” sem autorização legislativa.
Nesse rol, inclui-se ainda um verdadeiro séquito de autoridades investigativas, juízes de todas as instâncias e integrantes do Ministério Público.
Bradam o combate contra a corrupção, igualmente com base em seus convencimentos pessoais, mas agora na forma de um abstrato moralismo de ocasião.
O interessante é que lhes falta qualquer linguagem quando se trata de analisar desapaixonadamente seus privilégios funcionais e salariais nada republicanos, ou quando deveriam calar diante da tentação das câmeras sobre processos que julgarão.
É o que temos, infelizmente.
Os juristas todos bem que poderiam ter aprendido com a história, e ousado reescrever sua contribuição para o Estado Democrático de direito, para a igualdade de todos perante a lei e para tolerância.
Pelo visto, parece que insistem em dar razão à Tocqueville.
Martonio Mont’Alverne Barreto Lima é doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt, professor Titular da Universidade de Fortaleza e procurador do Município de Fortaleza.

Enquanto a corrupção assombra o Temer, caem as máscaras dos movimentos pró-impeachment, por Glenn Greenwald.

O impeachment da presidente do Brasil democraticamente eleita, Dilma Rousseff, foi inicialmente conduzido por grandes protestos de cidadãos que demandavam seu afastamento. Embora a mídia dominante do país glorificasse incessantemente (e incitasse) estes protestos de figurino verde-e-amarelo como um movimento orgânico de cidadania, surgiram, recentemente, evidências de que os líderes dos protestos foram secretamente pagos e financiados por partidos da oposição. Ainda assim, não há dúvidas de que milhões de brasileiros participaram nas marchas que reivindicavam a saída de Dilma, afirmando que eram motivados pela indignação com a presidente e com a corrupção de seu partido.
Mas desde o início, havia inúmeras razões para duvidar desta história e perceber que estes manifestantes, na verdade, não eram (em sua maioria) opositores da corrupção, mas simplesmente dedicados a retirar do poder o partido de centro-esquerda que ganhou quatro eleições consecutivas. Como reportado pelos meios de mídia internacionais, pesquisas mostraram que os manifestantes não eram representativos da sociedade brasileira mas, ao invés disso, eram desproporcionalmente brancos e ricos: em outras palavras, as mesmas pessoas que sempre odiaram e votaram contra o PT. Como dito pelo The Guardian, sobre o maior protesto no Rio: “a multidão era predominantemente branca, de classe média e predisposta a apoiar a oposição”. Certamente, muitos dos antigos apoiadores do PT se viraram contra Dilma – com boas razões – e o próprio PT tem estado, de fato, cheio de corrupção. Mas os protestos eram majoritariamente compostos pelos mesmos grupos que sempre se opuseram ao PT.
É esse o motivo pelo qual uma foto – de uma família rica e branca num protesto anti-Dilma seguida por sua babá de fim de semana negra, vestida com o uniforme branco que muitos ricos  no Brasil fazem seus empregados usarem – se tornou viral: porque ela captura o que foram estes protestos. E enquanto esses manifestantes corretamente denunciavam os escândalos de corrupção no interior do PT – e há muitos deles – ignoravam amplamente os políticos de direita que se afogavam em escândalos muitos piores que as acusações contra Dilma.

Claramente, essas marchas não eram contra a corrupção, mas contra a democracia: conduzidas por pessoas cujas visões políticas são minoritárias e cujos políticos preferidos perdem quando as eleições determinam quem comanda o Brasil. E, como pretendido, o novo governo tenta agora impor uma agenda de austeridade e privatização que jamais seria ratificado se a população tivesse sua voz ouvida (a própria Dilma impôs medidas de austeridade depois de sua reeleição em 2014, após ter concorrido contra eles).
Depois das enormes notícias de ontem sobre o Brasil, as evidências de que estes protestos foram uma farsa são agora irrefutáveis. Um executivo do petróleo e ex-senador do partido conservador de oposição, o PSDB, Sérgio Machado, declarou em seu acordo de delação premiada que Michel Temer – presidente interino do Brasil que conspirou para remover Dilma – exigiu R$1,5 milhões em propinas para a campanha do candidato de seu partido à prefeitura de São Paulo (Temer nega a informação). Isso vem se somar a vários outros escândalos de corrupção nos quais Temer está envolvido, bem como sua inelegibilidade se candidatar a qualquer cargo (incluindo o que por ora ocupa) por 8 anos, imposta pelo TRE por conta de violações da lei sobre os gastos de campanha.
E tudo isso independentemente de como dois dos novos ministros de Temer foram forçados a renunciar depois que gravações revelaram que eles estavam conspirando para barrar a investigação na qual eram alvos, incluindo o que era seu ministro anticorrupção e outro – Romero Jucá, um de seus aliados mais próximos em Brasília – que agora foi acusado por Machado de receber milhões em subornos. Em suma, a pessoa cujas elites brasileiras – em nome da “anticorrupção” – instalaram para substituir a presidente democraticamente eleita está sufocando entre diversos e esmagadores escândalos de corrupção.
Mas os efeitos da notícia bombástica de ontem foram muito além de Temer, envolvendo inúmeros outros políticos que estiveram liderando a luta pelo impeachment contra Dilma. Talvez o mais significante seja Aécio Neves, o candidato de centro-direita do PSDB derrotado por Dilma em 2014 e quem, como Senador, é um dos líderes entre os defensores do impeachment. Machado alegou que Aécio – que também já havia estado envolvido em escândalos de corrupção – recebeu e controlou R$ 1 milhão em doações ilegais de campanha. Descrever Aécio como figura central para a visão política dos manifestantes é subestimar sua importância. Por cerca de um ano, eles popularizaram a frase “Não é minha culpa: eu votei no Aécio”; chegaram a fazer camisetas e adesivos que orgulhosamente proclamavam isso:

Evidências de corrupção generalizada entre a classe política brasileira – não só no PT mas muito além dele – continuam a surgir, agora envolvendo aqueles que antidemocraticamente tomaram o poder em nome do combate a ela. Mas desde o impeachment de Dilma, o movimento de protestos desapareceu. Por alguma razão, o pessoal do “Vem Pra Rua” não está mais nas ruas exigindo o impeachment de Temer, ou a remoção de Aécio, ou a prisão de Jucá. Porque será? Para onde eles foram?
Podemos procurar, em vão, em seu website e sua página no Facebook por qualquer denúncia, ou ainda organização de protestos, voltados para a profunda e generalizada corrupção do governo “interino” ou qualquer dos inúmeros políticos que não sejam da esquerda. Eles ainda estão promovendo o que esperam que seja uma marcha massiva no dia 31 de julho, mas que é focada no impeachment de Dilma, e não no de Temer ou de qualquer líder da oposição cuja profunda corrupção já tenha sido provada. Sua suposta indignação com a corrupção parece começar – e terminar – com a Dilma e o PT.
Neste sentido, esse movimento é de fato representativo do próprio impeachment: usou a corrupção como pretexto para os fins antidemocráticos que logrou atingir. Para além de outras questões, qualquer processo que resulte no empoderamento de alguém como Michel Temer, Romero Jucá e Aécio Neves tem muitos objetivos: a luta contra a corrupção nunca foi um deles.
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No mês passado, o primeiro brasileiro ganhador do Prêmio Pulitzer, o fotojornalista Mauricio Lima, denunciou o impeachment como um “golpe” com a TV Globo em seu centro. Ontem à noite, como convidado no show de Chelsea Handler no Netflix, o ator popular Wagner Moura denunciou isso em termos similares, dizendo que a cobertura da mídia nacional foi “extremamente limitada” porque “pertence a cinco famílias”.
Atualização: Logo depois da publicação deste artigo, foi anunciado que o presidente interino Temer acaba de perder seu terceiro ministro para a corrupção menos de dois meses depois da tomada do poder: dessa vez, seu ministro do turismo Henrique Eduardo Alves, acusado na delação premiada de Machado de receber R$ 1,5 milhão em propinas de 2008 a 2014. Quando se toma o poder antidemocraticamente usando a “corrupção” como pretexto, em geral é uma má ideia encher sua equipe de criminosos (e ter o próprio novo presidente envolvido em múltiplos escândalos de corrupção).

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nietzsche e os sintomas da corrupção, por Edivaldo Dias Oliveira.



Aqui, 2 aforismos do alemão, extraído do livro "A gaia Ciência" de 1888, que esclarece de forma visionária dois fatos que nos são muito familiares, a saber; a corrupção e as manifestacções de junho de 2013., leiam...
Nietzsche e a corrupção
23 – Sintomas da Corrupção – Atente-se para os seguinte sintomas das circunstâncias sociais, necessárias de tempos a tempos, que se designam pelo termo de “corrupção”.
Assim que a “corrupção” aparece em qualquer parte, vê-se reinar uma variada superstição, na qual a crença geralmente adotada até então pelo povo empalidece e se torna impotente: pois que a superstição é um livre pensamento de segunda ordem (1); quem a ela se entrega, elege certas formas e formulas que lhe agradam  e concede-se o direito de escolher.
O supersticioso tem qualquer coisa de mais “pessoal” do que o homem religioso, e uma sociedade supersticiosa será aquela onde se encontram já muitos indivíduos e prazer ao que é individual. Deste ponto de vista a superstição coloca-se sempre como um progresso sobre a fé e torna manifesto que a inteligência se torna mais independente e reclama seus direitos.
Desta forma, os partidários da velha religião e religiosidade lastimam-se de corrupção  -  mas foram eles que até aqui determinaram o uso linguístico  e que criaram à corrupção uma má reputação, mesmo entre os espíritos mais livres. Portanto, temos que saber que a superstição é um sintoma de emancipação.
Acusa-se também de “relaxamento” uma sociedade onde a corrupção se instala: de fato, o prestígio da guerra e do entusiasmo guerreiro  sofrem uma baixa visível e aspira-se aos prazeres da existência com tanto ardor como aquele que antigamente se punha a procurar as honras militares ou atléticas. Mas os observadores costumam ignorar que esta antiga energia e paixão da nação , com a guerra e os torneios, que alcançavam tão pomposa evidencia, transformou-se em uma infinidade de paixões privadas e limitou-se a ser menos visível; 
Mas que digo? Sim, é até provável que, no estado de “corrupção”, a nação dispenda uma força, um violência de energia muito maiores do que nunca, e que o individuo gaste essa energia mais prodigamente do que o podia fazer anteriormente, quando ainda não era suficientemente rico!
Portanto, é precisamente nas épocas do “relaxamento” que a tragédia corre pelas ruas e pelas casas, que se vê nascer o grande amor e o grande ódio, e que a flama do conhecimento jorra em braseiro para o céu.
Em terceiro lugar, pretende-se dizer que compensando de algum modo a censura de superstição e de abandono que se pode fazer às épocas de corrupção, os costumes se tornam mais brandos nesses períodos, que a crueldade diminui notoriamente em comparação com as épocas precedentes, mais crédulas e mais fortes.
Mas não poderia aprovar este elogio, da mesma forma que como não aprovei a acusação precedente: o que concedo é que a crueldade se torna refinada, e que as suas antigas formas repugnam ao gosto novo;
Mas a arte de ferir, de torturar, através da palavra e do olhar, alcançam em tempos de corrupção, o seu supremo aperfeiçoamento; é só então que nascem a malignidade e o prazer de ser maldoso.
As pessoas das épocas corrompidas são espirituosas e caluniadoras; sabem que se podem matar dispensando a utilização do punhal e do golpe de mão; sabem também que se acredita em tudo o que é bem dito.
Em quarto lugar, quando os costumes se corrompem, é o momento em que surgem esses seres a que se dá o nome de tiranos: São os precursores e, por assim dizer, as precoces guardas avançadas do individuo. Mais um instante de paciência: esse fruto dos frutos  acabará por pender, maduro e dourado, da árvore de um povo; e é somente em função desses frutos que essa árvore existe!
Quando o declínio chegou ao apogeu, assim como a luta dos tiranos de todas as qualidades, vê-se sempre chegar o César, o tirano definitivo, que vibra o golpe de misericórdia à luta cansada dos concorrentes preponderantes fazendo trabalhar o cansaço em seu proveito.
Em sua época, o individuo, em geral, está no momento da sua maturidade perfeita, estando a “cultura” por consequência no zênite da sua fecundidade e elevação;... Mas não é graças a ele, não é por via do tirano, se bem que as pessoas de cultura elevada gostem de lisonjear o seu Cesar, fazendo-se passar por obra dele.
A verdade é que eles tem necessidade de quietude exterior porque trazem a sua inquietude e trabalho dentro de si. É o momento do auge da traição, da corruptibilidade: pois o amor do ego descoberto de fresco é então muito mais poderoso do que o amor à velha, gasta e decantada “pátria”;
E a necessidade de se defender contra os temerosos caprichos da fortuna abre também as mãos mais nobres, quando um homem rico e poderoso se mostra disposto a ali deitar ouro.
O futuro é tão incerto que as pessoas vivem para o momento: estado de alma que favorece o jogo dos tentadores de todas as espécies; pois que também não se deixa seduzir, e corromper, se não por “um momento” reservando-se um futuro e a virtude!
Sabe-se que o individuo, esse autentico homem “em e para si”, pensa mais nas coisas do momento do que o seu oposto, o homem do rebanho, porque não pensa contar mais consigo do que conta com o futuro; liga-se do mesmo modo aos tiranos, porque se julga capaz de ações e de investigações que não podem contar nem com a inteligência nem com o perdão da multidão...
Mas o tirano ou o César compreende o direito do individuo, mesmo nas suas aberrações, e tem interesse em dar a palavra e até mesmo permitir uma moral pessoal mais audaciosa. Porque pensa dele, e quer que o pensem, aquilo que Napoleão exprimiu um dia da forma clássica que lhe era particular. “Tenho direito de responder a todos os vossos queixumes com um eterno “sou o que sou”.Estou apartado de toda gente e não aceito as condições de ninguém. Deveis submeter-vos a todas as minhas fantasias e achar natural que me entregue a semelhantes distrações”. Foi o que disse a sua mulher, certa vez, quando ela teve razões para duvidar da sua fidelidade conjugal.
As épocas de corrupção são aquelas em que as maçãs caem das árvores: refiro-me aos indivíduos, aqueles que carregam em si as sementes do futuro, os promotores da colonização espiritual, os formadores de novos estados e sociedades. A palavra corrupção torna-se um termo injurioso quando relaciona-se com as épocas outonais de um povo.
38 – Os “explosivos” – Se pensarmos o quanto a força dos jovens tem necessidade de explodir, não nos espanta a pouca finura e falta de dicernimento que se utilizam para se decidir a favor desta ou daquela causa: o que os atrai é o espetáculo do ardor que rodeia uma causa, como se fosse a visão do rastilho incendiado, e não a causa em si própria . Assim os sedutores sutis esforçam-se por os obrigar a esperar a explosão e por distrair a atenção da justificativa da causa: não é com argumentos que se conquistam esses barris de pólvora!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

VENTRE, por ALEXANDRE MEIRA. (Poema)




Toma,


leva pra sempre um ventre



como agradecimento aos anjos,


pelos engrandecidos sonhos


jamais tidos.





Seremos alheios aos olhos


úmidos por gotas de fogo?


Mesmo à luz dos porões,


ante o covil dos medos?





Seremos gratos pelo que não temos.


Seremos poucas velas acesas.


Seremos poucas velas.





Pois um dia cairão nossos limites.





Não resistirão nossos pés calçados,


não saberão mais dos passos.


E carentes de chão


sentirão a terra como virgens:


Manhã de sol das novas crianças.





Agradeceremos então pelas mãos vazias,


nuas de nada, abertas e vivas.


Autênticas e intactas como flores retintas


pelos sangue dos olhos cegos em vida.