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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

EU NÃO QUERO REDENÇÃO NEM POUSO, por Mália Morgado. (Poema).









Eu nao quero redenção nem pouso.

Teu corpo é um mapa sem destino

E com fim certo.

E, por isso,

Mantenho fechados os olhos

Para não perdê-los na estrada.


Este relevo agridoce é meu guia,

Pois a noite de minhas pálpebras é escura.

É possível amar o percurso, sem sabê-lo,

E ser andarilho, estrada e céu?


Nesta posse descabida do que não tenho,

Em avançar como águia em vôo cego,

Seguro firme o que me pertence

Sabendo, enfim, que já o perdi.


Mália Morgado

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Eleições 2016: um desastre e seus siginficados Por Antonio Martins.


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Seduzida pelo poder, esquerda afastou-se de seu eleitorado e entregou aos conservadores o voto anti-establishment. Foi massacrada. Será hora de reinventá-la?
Por Antonio Martins | Imagem: Oswaldo Guayasamín
[Terceira parte da série O Brasil sob o Golpe: seis hipóteses polêmicas. Leia também as hipóteses 1, 2 e 3]
As forças políticas que deram um golpe de Estado e empossaram um governo ilegítimo, há poucos meses, tiveram ontem uma vitória eleitoral expressiva, em todo o país. Ela pode ser vista por diversos ângulos.
No conjunto dos municípios, PMDB (1028) e PSDB (793) – os dois partidos essenciais para o golpe – elegeram o maior número de prefeitos. Embora já fosse assim em 2012, a novidade mais expressiva é o encolhimento das prefeituras petistas: são agora apenas 256, menos da metade de há quatro anos.
Já nas capitais e municípios com mais de 200 mil eleitores – um universo de 93 cidades, onde concentram-se 40% dos eleitores – sobressai algo ainda mais grave: o predomínio do PSDB; além, novamente, do declínio do PT. Os tucanos, que tinham 18 prefeituras há quatro anos, elegeram 14 candidatos no primeiro turno e levaram 19 postulantes ao segundo. Os petistas, que tinham 14 em 2012 (e chegaram a eleger 25, em 2008), ficarão entre um (eleito no primeiro turno) e oito.
O PT foi derrotado em redutos onde se concentraram, por décadas, suas bases sociais. Nos 39 municípios do ABC Paulista e Grande São Paulo, o partido só irá ao segundo turno em Santo André e Mauá. Em São Paulo, registrou seu pior resultado em vinte anos. Nas capitais do Nordeste, para onde migrou seu eleitorado a partir da chegada de Lula ao governo, participará de uma única disputa definitiva: em Recife. Enquanto isso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, conservador notório, despontava como um dos grandes vencedores do pleito. Alcançou o feito, contraditoriamente, ao eleger para a capital, já no primeiro turno, um suposto outsider: João Dória, milionário quase desconhecido, que surfou incólume na onda da rejeição à “velha política”.
Ao contrário do que algumas análises previam desde 2013, o espaço perdido pelo PT não foi ocupado por forças à esquerda. Nem os partidos estabelecidos (como o PSOL ou PCdoB) tiveram crescimento expressivo; nem surgiu, com relevância, alguma formação de novo tipo, um Podemos brasileiro. Algumas vitórias alcançadas são notáveis: Marcelo Freixo e Edmilson Rodrigues (PSOL) irão ao segundo turno no Rio de Janeiro e Belém. O mesmo farão Edvaldo Nogueira e Carmin Moura (PCdoB), em Aracaju e Contagem. Mas nem em número de votos, nem em capacidade de expressar tendência nacional, estes resultados equiparam-se ao que significou o avanço da esquerda nas prefeituras entre 1990 e 2008.
* * *
Estes resultados devastadores atiçam certos analistas. Ainda ontem, o cientista político Gaudêncio Torquato, um dos assessores mais próximos de Michel Temer, decretava “a morte” do PT “radical”, “polarizador”, “de confronto”. Ele concede: a esquerda pode sobreviver – desde que se normalize; conforme-se às desigualdades e recalques da sociedade brasileira; perca dentes e unhas; e, em especial, aceite a agenda de retrocessos prevista para os próximos meses.
Segundo este raciocínio – que, nos próximos dias, será repetido à exaustão – as eleições de ontem desmentem, para todos os efeitos, a ideia de que houve um golpe. A sociedade não elegeu os partidos acusados de golpistas? Aqueles que se sentiram golpeados e reivindicavam a democracia não foram agora punidos exemplarmente pelos eleitores? Os que assumiram o poder derrubando Dilma não conquistaram ontem legitimidade para as medidas “sensatas e indispensáveis”? Não é hora de aceitarmos o congelamento os investimentos públicos, o corte dos direitos previdenciários e a devastação a CLT?
Tal construção choca-se, porém, com outra realidade. Há anos, o Brasil é palco de uma sucessão de movimentos e deslocamentos sociais que expressa uma agenda oposta à que foi, supostamente, vitoriosa nas urnas. Isso inclui, entre inúmeros fenômenos, a emergência das Culturas da Periferia, a multiplicação dos Cursinhos Públicos, as Marchas da Maconha e das Vadias, as Jornadas de Junho de 2013, os rolezinhos que desafiaram a segregação dos shopping centers, a Primavera da Mulheres (e a aparição do Feminismo Negro), a reivindicação de uma nova escola pelos secundaristas. A reinvenção e a criatividade parecem intermináveis. O sentido, porém, é nítido: mais direitos; menos controle da sociedade pela lógica do branco, macho e rico. Ou seja, as ruas estão em conflito com o que dizem as urnas, segundo os que pretendem interpretar o 2 de Outubro…
* * *
Como decifrar este descompasso? Em oposição às análises convencionais, este texto propõe cinco argumentos:
1) A esquerda clássica não sucumbiu por se opor à “sensatez” neoliberal, mas por deixar-se aprisionar numa cilada histórica. Suas conquistas mudaram a paisagem social do Brasil; mas sua estratégia foi marcada por dois limites, examinados num texto anterior: a recusa a lutar por reformas estruturais e o captura pelo Estado – ou seja, a desmobilização dos mecanismos de pressão social sobre as instituições;
2) A presença da esquerda no governo central foi tolerada, enquanto capaz de acomodar tanto os ganho da oligarquia financeira e grandes empresas quanto grandes espaços de poder para os partidos tradicionais. Por volta da metade do primeiro governo Dilma, porém, este arranjo entrou em risco. A partir desse momento, as elites antes associadas ao governo exerceram resistência crescente e diversa: oposição à queda dos juros; “greve de investimentos”; rebelião da base de apoio ao Palácio do Planalto no Congresso; “pautas-bombas”. E, crucial: logo ficou claro que o governo era presa fácil, que cedia a chantagens, que fazia concessões cada vez mais escancaradas, exatamente devido a suas duas vulnerabilidades. Ele havia deixado intactas as estruturas (o oligopólio da mídia, por exemplo) que o emparedavam; e já não dispunha, fora do Estado, de nenhum fator de contrapressão. Da percepção desta fraqueza ao golpe, foram poucos passos.
3) A esquerda institucional reuniu, em diversos períodos, enorme popularidade. Porém, por não ter criado estruturas de contrapoder, este apoio foi sempre frágil, inorgânico, sujeito às manipulações midiáticas. A perseguição seletiva contra o PT, durante toda a Lava Jato, jamais pôde ser eficazmente enfrentada. E políticas muito relevantes, como as que colocaram pela primeira vez centenas de milhares de negros nas universidades, acabaram sendo individualizadas, vistas como resultado do mérito pessoal. Distanciado de sua base, sem impulso político para mobilizá-la, o PT acabou por perdê-la também eleitoralmente. É o que mostram os fracassos emblemáticos no ABC Paulista ou nas capitais do Nordeste.
4) Pior – e daqui a ideia de cilada histórica. Por estar até recentemente no poder; por acovardar-se diante das pressões e chantagens; por enxergar como única defesa um mergulho cada vez mais acrítico nas práticas políticas tradicionais, a esquerda tornou-se incapaz de disputar o movimento de protesto anti-establishment. Trata-se de um fenômeno pouco estudado, mas cada vez mais potente em toda parte. Está na origem de fenômenos opostos. De um lado, os Indignados espanhóis e a formação do Podemos; Occupy Wall Street e a candidatura de Bernie Sanders; Jeremy Corbyn, na Inglaterra. De outro, o Brexit, a ascensão de Marine Le Pen na França, o Brexit, a rejeição do acordo de paz entre o Estado colombiano e as Farc, ainda ontem, em plebiscito.
5) Nos velhos tempos, um PT rebelde orgulhava-se de ser “diferente de tudo o que taí”. Agora é visto, no mínimo, como parte da elite política; ou, frequentemente, como sua expressão maior... Ontem, o voto anti-establishment manifestou-se no Brasil com força inédita. Examiná-lo com rigor, tarefe indispensável, não cabe neste texto. Mas é possível adiantar algumas hipóteses. Ele assumiu a forma de um índice inédito de votos em “ninguém” (abstenções, brancos e nulos somados): eles suplantaram o primeiro colocado em dez capitais.
Mas este voto deslocou-se também para um tipo particular de candidato, do qual João Dória, o novo prefeito de S.Paulo, é a principal expressão. Parece ter sido cuidadosamente construído. Nunca havia disputado um pleito. Iniciou a disputa como azarão, com 5% das intenções de voto – o que o livrou do fogo cruzado dos adversários. Apresentou-se como “um gestor, não um político”. Difundiu a imagem de “homem bem sucedido”, “por seus próprios méritos”. É tão verdadeira como uma nota de três reais, mas impressionou o eleitorado, numa disputa rápida, morna e sem atrativos.
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“Olhar nos olhos de nossa tragédia é meio caminho andado para vencê-la”, escreveu o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha), pouco depois do golpe de 1964. A derrota de ontem, autêntico 7 x 1, não é a da resistência ao golpe, da oposição a sua agenda de horrores, da luta que permanecerá cada vez mais atual para vencer as relações de Casa Grande-Senzala. Mas é, de fato, a derrota de um projeto ao qual, de um modo ou de outro, todos estivemos ligados.
Vamos nos atrever a superá-lo? Por que parece tão difícil fazê-lo, no Brasil? Este é o assunto do próximo texto desta série.

Eleições (1): Os escombros do PT, Por Aldo Fornazieri.

– on 04/10/2016Categorias: Brasil, Destaques, Políticas
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Para Aldo Fornazieri, “Desafio das esquerdas é paradoxal: precisam construir sua unidade ao mesmo tempo em que promovem um ajuste de contas”
Por Aldo Fornazieri | Imagem: Francisco Goya: A romaria de Santo Isidro, 1819/23 (detalhe)
As eleições municipais reduziram o PT a pouco mais que escombros. Não faltaram advertências, principalmente a partir de 2013, de que o partido se encaminhava para um desastre. As críticas foram colhidas pelos petistas de duas formas: o menosprezo arrogante por parte de quem detinha poder e direção e acusações por boa parte da militância que, também arrogante, classificava as críticas como PIG, moralistas, esquerdistas etc.
O poder fez muito mal ao PT: a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância. Ninguém promove tal movimento sem que desabe sobre ele, mais dia menos dia, o merecido castigo do povo.
O PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado. Esta prática sempre engendrou dominação e não liberdade e cidadania. Enquanto esta crença permanecer vigente, o Brasil permanecerá eternamente deficiente em seu conteúdo nacional e popular e a sociedade carecerá de vínculos societários republicanos, orientados para o bem comum e para o interesse público. Aqueles que chegam ao poder sempre se tornarão representantes de grupos e interesses particularistas, a se apossar do erário público em detrimento dos interesses de caráter universalizante. Será sempre o velho patrimonialismo vestido com roupas novas.
O PT se deixou abater pelo erro mais comezinho que as esquerdas vêm cometendo desde o século 20: a corrupção. A corrupção vem sendo, ao longo das décadas, a espada nas mãos da direita e da mídia para fazer rolar as cabeças da esquerda. Os eleitores mostram-se intolerantes à corrupção das esquerdas, pois, querem ver nelas uma reserva moral da sociedade, um exemplo da administração correta da coisa pública, um cimento de ética na sociedade. Quando as esquerdas se corrompem, os eleitores se sentem traídos.
Pouco a pouco, o PT foi caminhando para aquela condição mais indesejável da política: ser odiado. Isto já era visível nas eleições de 2014. De lá para cá, a imagem do partido foi se deteriorando, seja porque as denúncias se revelaram medonhas, seja porque os ataques dos seus inimigos foram devastadores sem que houvesse uma linha de resistência e de contraofensiva. Ao mesmo tempo em que se destruía, o partido se deixava destruir. A cada ataque, a direção partidária reagia com notas burocráticas e protocolares, foi perdendo credibilidade e deixou de ostentar virtudes e força moral capazes de mobilizar a militância. Como já se disse, a direção do PT tornou-se um comitê de generais de gabinete sem exército e a militância se tornou um exército sem generais.
“Ser odiado” é a condição absoluta que precisa ser evitada em política, ensina Maquiavel. Como partido antimaquiaveliano que é, o PT, ao passar da praça para os palácios deixou de olhar a realidade com os olhos da praça, deixou de se situar na planície e passou a olhar o povo com o ângulo de mirada dos palácios. Mas não sabia jogar o jogo dos palácios e passou a acreditar em aliados que eram e são gananciosos, simuladores e ambiciosos. Emprestaram prestígio aos petistas enquanto estes lhes eram úteis e os traíram sem cerimônia na consumação do golpe. Golpe que o próprio PT ajudou a construir seja pela sucessão de erros políticos, de incompetências, e seja pela própria falta de apoio à presidente Dilma em momentos delicados em que o governo caminhava para a deriva.
Pela condução desastrosa que o PT vem tendo nos últimos anos, a direção partidária deveria renunciar nos primeiros dias desta semana. Uma comissão provisória deveria ser constituída com a tarefa de convocar e conduzir um Congresso partidário antes do final do ano. Se nenhum aceno for feito neste sentido, a tendência maior é a de que o PT caminhe para uma divisão irreversível. Não é admissível que os condutores do desastre continuem comandar um partido que foi esperança do povo brasileiro e se afogou nos seus próprios erros. Não há, em torno da atual direção, capacidades políticas, morais e intelectuais que sejam capazes de tirar o partido da crise.
Que fazer?
Esta velha pergunta, que precisa ser recolocada, suscita hoje muito mais dúvidas do que certezas às esquerdas. Antes de tudo, as esquerdas precisam se unir em torno do que sobrou dessa devastadora eleição: Freixo no Rio de Janeiro, João Paulo em Recife, Edmilson Rodrigues em Belém, Edvaldo Nogueira em Aracaju etc.
Com muitas divisões, com baixa propensão à unidade, com um ideário desconectado ao mundo contemporâneo, com organizações autoritárias e burocráticas, com uma retórica que não dialoga com a sociedade, com uma enorme crise em suas visões de mundo, as esquerdas vivem uma defensiva mundial, ao mesmo tempo em que cresce o rancor e o ódio neofascistas.
A crise das esquerdas se alinha com a própria crise civilizacional que tende a se agravar em várias dimensões: ambiental, social, econômica, humana. O mundo do futuro próximo, dizem os economistas e analistas mais atentos, será um mundo sem empregos, com populações que viverão cada vez mais. Em contrapartida, a concentração de renda e riqueza é crescente. As democracias são cada vez menos legítimas e cada vez mais incompetentes em fornecer respostas aos problemas das sociedades.
As esquerdas brasileiras pararam no tempo. Discutem os problemas com retóricas e paradigmas do século 20, quiçá, do século 19. Nos últimos anos houve um abandono das incipientes experiências de governança democrática que vinham sendo desenvolvidas. Nos municípios, nos estados e no governo federal, os governantes, secretários e ministros ditaram as suas “verdades” às sociedades. Ao mesmo tempo em que direitos deixaram de ser garantidos, não se investiu na inovação e na qualidade dos serviços e direitos. Os governos continuaram analógicos em sociedades digitais. Reformas cruciais, seja no plano macro ou no plano micro, sequer foram cogitadas.
A ideia de aglutinar as esquerdas numa frente, que garanta a unidade na pluralidade, ganha força em face das fragilidades e derrotas recentes. A construção dessa frente, se vier a se concretizar, contudo, necessita de um processo amplo de definição de conteúdos programáticos e de métodos de condução dos processos internos. A perspectiva é a de que essa frente aglutine partidos, movimentos políticos e sociais, indivíduos e grupos cívicos, num novo tipo de organização e de relação política, sem as práticas hegemonistas e de controle burocrático, tão comuns às esquerdas.
A derrota eleitoral, somada ao golpe e às perspectivas de retrocessos em direitos, foi avassaladora. Subestimá-la, persistir nos erros e não fazer autocrítica significa contribuir para a consolidação de um projeto conservador que vem se delineando. Neste momento, o desafio das esquerdas é paradoxal: precisa construir sua unidade ao mesmo tempo em que promove um ajuste de contas.

Entre o golpe e a palavra em suspenso Por Rosemberg Cariry.



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Nunca foi tão verdadeira a sentença do poeta Torquato Neto: “Leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar primeiro é o homem, mesmo que seja o boi”

Por Rosemberg Cariry | Imagem: Pablo Picasso, El Toro (1945)
Há momento em que o desânimo chega, e, diante de um mundo que se desfaz, a necrofilia triunfa como bandeira do grande mercado, e a ideologia da direita e do neoliberalismo triunfam ante a fraqueza e os erros dos homens de bem. De que valeram todas as lutas dos trabalhadores pelas significações do trabalho e da vida? De que valeram todas as lutas pela libertação da mulher? De que valeram todas as lutas contra as intolerâncias e os racismos? De que valeram os sangues derramados por todas as bandeiras da justiça, se o que hoje vemos é o triunfo do ódio, da ganância capitalista, da guerra, da violência e da morte? De que valeram os milhares de sacrificados se, por fim, triunfou a estupidez, a intolerância, o fundamentalismo, seja ele da Bolsa de Valores, do Grande Mercado, da Grande Imprensa, do Estado Islâmico ou das Igrejas Neopentecostais que pregam as novas cruzadas, as novas guerras religiosas, em nome de um Deus capitalista e insensível aos direitos humanos, à diversidade cultural e às liberdades básicas dos povos?
Em momentos assim, o desejo é calar, é reconhecer a derrota. Mas, se olhamos a história, não podemos calar. É preciso lembrar que o capitalismo nascente usava mulheres trabalhando nos teares 18 horas por dia, por um salário de fome. Crianças de apenas cinco anos eram usadas nas minas, para atingir os buracos mais estreitos, onde não chegavam nem mesmo os mineiros mais magros. O tempo médio de vida-uso dessas crianças? Dois a três anos. Contra o capitalismo, Jonathan Swift escreveu uma sátira devastadora na época, intitulada Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República. A obra propõe aos grandes capitalistas europeus que mais produtivo e eficiente seria a engorda dessas crianças e a industrialização das suas carnes macias para fazer salsichas. Afinal, não só importava o lucro? Na computação dos lucros, que importava mesmo a morte desses pequenos escravos? Se morriam milhares, esgotados pela exploração patronal, outros milhares os substituíam. Tudo em nome do lucro e do progresso. As empresas de comunicação, caso dos jornais, no início do século XX, exploravam crianças miseráveis até os últimos centavos, nas vendas avulsas, pelas ruas. Houve registros até de uma greve de crianças contra o trabalho escravo imposto pelos jornais (que se consideravam as “trombetas” da liberdade – para os burgueses, mas se esqueciam de dizer que escravizavam crianças).
As primeiras greves foram recebidas com balas, a Comuna de Paris foi recebida com balas, a ideia da liberdade foi recebida com bala. Tudo em nome do lucro e da ordem. A fome e a miséria das massas eram “condições naturais”, e quem se erguesse contra esse estado de coisas era assassinado. Por isso, cada pequena conquista social, cada pequena conquista do espírito, cada pequeno avanço na humanização do homem, custou centenas de milhares de mortos, milhares de milhões. A razão burguesa, baseada na legenda positivista da ordem e do progresso, marcharia sobre os povos e estabeleceria os colonialismos com suas devastações étnicas, culturais e ecológicas ilimitadas. Diziam os capitalistas que a humanidade caminhava em linha reta, subindo as escadas da evolução. No topo da pirâmide (da evolução), estavam, claro, os homens brancos, burgueses, capitalistas. Enquanto isso, no mundo, estabelecia-se o horror, de forma tão assombrosa que, apenas no século XX, as guerras capitalistas geraram mais de trezentos milhões de mortos. Se na grande exposição de Paris (em 1900) comemorava-se o apogeu da razão e da técnica – com os trens cortando os continentes e os navios a vapor cortando os mares, o telégrafo ligando os povos, e a psicanálise desvendando a alma do homem – os demônios que dormiam nos porões do inconsciente preparavam-se para reinar na nova era das devastações.
Não tardaria a eclodir a I Grande Guerra Mundial – um exemplo tenebroso da capacidade destrutiva do ser humano. Nenhum profeta do velho testamento foi capaz de imaginar um inferno de tamanho horror. Nas trincheiras, milhões de homens apodreciam na lama fétida, entre ratos e podridões. Entre gases, balas e o vazio das filosofias, o mundo esfacelou-se, e a razão burguesa mostrou a sua face necrófila. A Segunda Grande Guerra não passaria de um ato contínuo daquela primeira guerra, após breve intervalo. Os horrores de hoje alimentam-se dos horrores desse passado, mesmo que sejam bem mais sofisticadas as tecnologias e mais numerosas as mortes. Sem a mediação da ética, dominada pelo mercado, cada vez mais, a ciência mostra-se ao lado do lucro e da morte. O genocídio concentracionário nazifascista não é uma exceção na construção da modernidade, antes é um experimento biopolítico (conceito de Foucault) posto em prática pela modernidade. Os experimentos realizados nos campos-da-morte continuam a ser usados pela ciência, pela comunicação, pela política, pela psicologia de massas, pela economia neoliberal e globalizada, sob outros rótulos e outros pretextos políticos, econômicos e científicos. Inclusive no discurso cego da eficiência, da hierarquia e da ordem. O “socialismo real”, que tentou seguir o modelo de um capitalismo de estado, fracassou diante dos mesmos horrores.
Hoje, vemos o mundo estilhaçado. Como diziam os velhos Marx e Engels: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Essa percepção da tragédia que ameaça toda a humanidade em nada evita que o capitalismo em crise continue em busca de mercados para as suas armas, envenene os alimentos, a terra e as águas com seus agrotóxicos, empurrando milhões de seres humanos (mais de dois terços da humanidade) para a mais completa ruína e degradação. Todo esse desastre é bem louvado na grande imprensa (em nome do grande deus-mercado), recebe as benesses dos intelectuais a serviço da ideologia da dominação, é alimentado por políticos que beiram a insanidade. Os bancos e as bolsas de valores comemoram os lucros de uma economia que se desligou do homem e do destino da humanidade, a tudo aprisionando e degradando. Tudo o que disso discorda passa a ser visto como retrógrado, marginal, subversivo, perigoso. “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” (Brecht).
Olhando esse quadro de ruínas, que mais se completa com a destruição dos estados e das nações (inclusive a brasileira, com o desastre do governo Temer), pode vir o desânimo. No entanto, é nesse momento que devemos encontrar em nós mesmos a melhor força, a chama acesa da esperança, a utopia da construção de um mundo de maior justiça e solidariedade, e, junto com os que não se renderam, continuar a luta necessária. Se ser homem é um projeto em construção, o verdadeiro humanismo só virá com a afirmação da liberdade, da solidariedade, da espiritualidade, do triunfo da poesia sobre a brutalidade do capitalismo e do processo de globalização dos mercados. Um humanismo que compreenda que o planeta Terra foi feito para a vida de todas as espécies e que só o equilíbrio da natureza pode garantir o futuro. Sim, é preciso afirmar a vida, apesar dos conglomerados-multinacionais-de-comunicação (indústrias perversas de manipulação de consciências), banqueiros, empresários, corporações e biopolíticas neofascistas, postos em movimento, com suas pulsões de destruição e de morte.
Vejamos o que acontece com a nossa infância… Dezenas de milhares de crianças e jovens pobres – a maioria de ascendência afro-brasileira – são assassinadas por policiais, pelo tráfico e pelas organizações criminosas, nas periferias das grandes cidades, sem que nada seja feito. O que nos revela um verdadeiro genocídio! Em vez de mais presídios e redução da maioridade penal, deveríamos ter mais escolas, cultura, esportes, artes e condições de vida dignas. As favelas precisam se libertar do fardo das misérias herdadas das senzalas, nesse país que mantém ainda uma elite de espírito escravagista, que perpetua a tirania e os desrespeito aos mais elementares direitos humanos. A situação em todo o mundo não é menos grave, temos mais de vinte milhões de crianças em situação de refugiados e muitos outros milhões padecem de fome, de doenças, de violências e de misérias crônicas.
A situação também é terrível para os nossos índios que são assassinados, brutalizados, alcoolizados, contaminados, prostituídos, expulsos de suas terras pelo agronegócio, pelas madeireiras, pelas mineradoras, pelos bancos, pelas multinacionais. Toda essa economia de commodities, voltada para a exportação, tem por meta transformar o Brasil numa neocolônia, produtora da monocultura da soja, assim como nos séculos XVIII e XIX, fomos a colônia exportadora do açúcar ou do café. Triste destino. Só quem viajou por 150 quilômetros de plantações de soja, situadas no coração do cerrado devastado, pode compreender a tragédia que se anuncia.
A violência contra a mulher atinge índices insuportáveis até mesmo para a mais perversa das sociedades. Uma onda misógina toma conta do país. No entanto, aí estão os novos donos dos poderes, com apoio do Congresso Nacional, incentivando o preconceito contra a mulher, dando golpes contra a democracia, cortando as verbas dos programas sociais, acabando com as escolas públicas e os programas de cultura e de pesquisas, subsidiando o agronegócio e as mineradoras, militarizando a vida, criminalizando a pobreza, cercando as favelas, incentivando o trabalho escravo, matando os índios e dizimando a infância pobre. Se nos calarmos, voltaremos a trabalhar 18 horas por dia, com salários de misérias? Seremos condenados a nos aposentar com 70 anos ou mais, recebendo metade um salário mínimo, se sobrevivermos à dura exploração, às doenças, às químicas alimentares e aos agrotóxicos? Diante de tão grandes ameaças, estaremos condenados a não mais pensar?
Calar ou não calar é uma questão de vida e morte. Se não falamos estamos condenados, se falamos estaremos, da mesma forma, condenados pelas represálias que virão. O que fazer então? Como resposta, lembro um trecho de um poema de Torquato Neto: “Leve um homem e um boi ao matadouro o que berrar primeiro é o homem, mesmo que seja o boi”. Assim, haverá sempre um homem berrando, um discurso feito para os peixes ou um profeta pregando no deserto.

Foucault, as Palavras e as Coisas Por Fran Alavina.



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É sintomático que Temer odeie o termo “golpe”. Nas “democracias” esvaziadas, não se tenta usurpar apenas o poder político, mas também o sentido dos termos. Por isso, a Resistência é também um ato linguístico
Por Fran Alavina
Parafraseando um texto clássico de Michel Foucault, As palavras e As Coisas [Le Mots et Les Choses] que agora em 2016 completa 50 anos de sua primeira edição, podemos afirmar que o poder se exerce sobre as palavras e as coisas. E nesses dias trágicos da vida nacional popular, tal se mostra cada vez mais claramente. O pensador francês nos faz ver ao longo de sua obra, arguta e perspicaz, que o poder não se exerce apenas sob a forma dos aparelhos repressores — ou seja, o poder não é apenas aquele que se impõe pela força física, pela coação do corpo. O poder também se faz no e por meio dos discursos. Mesmo aqueles que não são proferidos dos clássicos lugares do poder, são discursos de poder. Por isso, o caráter discursivo do Golpe não é menor que seu caráter político. São indissociáveis, pois não há política sem discurso, não há vida política sem a ação das palavras que significam e ressignificam as coisas. Sem a palavra, sobra ao poder apenas a coação física, mas esta forma, embora possa ser mais rápida e direta, é menos sutil, portanto mais fácil de ser denunciada. Espinosa, pensador seiscentista, ao denunciar os mecanismos de poder, nos lembra que: “o maior poder é aquele que reina sobre os ânimos (…)”1. Ora, mas como se estrutura esse poder que dispensando a força física, se exerce diretamente sobre os ânimos? Ele se estrutura pelos discursos, é sustentado pelas palavras, uma vez que há uma vinculação direta entre os nossos ânimos e os sentidos das palavras e das coisas.
Desde os gregos, e depois com a tradição retórica civil dos romanos, é fato que a palavra detém maior força nos regimes democráticos e republicanos. A possibilidade da palavra pública torna vivaz a vida democrática, pois os outros regimes políticos são regimes da letra morta (quando na oligarquia o direito da multidão transforma-se nos privilégios de alguns), ou da palavra de um só (nos regimes monárquicos). Ora, segundo aqueles autores da antiguidade clássica, primeiros justificadores da vida democrática, onde a Democracia fenece, degenera-se conjuntamente a potência da livre palavra. Desse modo, todo livre discurso público, toda fala coletiva é índice de vivacidade do regime democrático.
Assim, quando em uma Democracia, as palavras e seus sentidos — que são um bem comum, cotidiano e simbólico de todos, posto que pertencem ao povo, que age delimitando e estabelecendo novos sentidos — são forçadas a mudar pelo árbitro de um, ou de um grupo particular, sabemos que há algo fora da normalidade democrática. Usurpações de poder nunca se restringem apenas à esfera institucional mais imediata. Se o poder se faz pelo discurso, de modo que o próprio discurso é um elemento de poder, o discurso é o poder que se faz não apenas sobre os falantes, mas também se exerce sobre o próprio discurso, isto é, se exerce também sobre as palavras e os termos, que são a unidade mínima de todo discurso. O comando discursivo é a voz do poder; e o silêncio, o signo da obediência: consentida ou imposta.
É próprio dos regimes totalitários proibirem o uso de termos, promovendo um tipo de higienização da língua e dos discursos. Na Itália fascista de Mussolini, por exemplo, procurou-se varrer do território italiano todo falar e expressividade dialetal. A língua do povo era tida como indigna da suposta supremacia do novo regime. Supremacia que também deveria ser linguística e expressiva. No Brasil, este caráter fascista da imposição linguística e vocabular se exerce todos os dias pelo ódio de classe e pela busca de distinção social, quando aqueles que dominam a norma culta da língua usam este elemento como caráter distintivo e discriminatório. Tal vertente fascista se expressa mais ainda quando a língua do povo, gírias e construções discursivas forjadas no cotidiano nacional-popular são levadas para a mídia sob a forma do entretenimento. Sempre apresentada com a roupagem do exótico, escondendo por baixo da capa da curiosidade e do riso, o preconceito vocabular. Quem quiser ver uma boa amostra disso, acesse, por exemplo, os programas da Regina Casé, mais particularmente o “esquenta”. Neste, há a redução da língua do povo ao riso e ao escracho. O jeito espontâneo e criativo de falar do povo torna-se o divertimento dos telespectadores.
Ou ainda, por exemplo, quando os jovens da classe média paulistana tentam se apropriar das expressões da quebrada. Cada vez que pronunciam um mano, ou um suave em tom afirmativo, cometem um estupro vocabular. As palavras saem de suas bocas como que empurradas e constrangidas, pois são usurpadas do mundo de sentido no qual foram forjadas. São obrigados, os jovens da classe média, a usurpar termos, porque seu mundo linguístico é de uma penúria espantosa. A linguagem dos meios técnicos-midiáticos-informacionais lhes rouba a expressividade espontânea e a criatividade vocabular, uma vez que vivem atochados entre a imposição da norma culta e o poder da linguagem uniformizada das mídias. Dessa maneira, são forçados a ser delinquentes da língua. Não podendo usar a norma culta imitando sua melhor forma, por um lado; por outro, também não podendo criar novos termos, pois a uniformização midiática retira dos falantes a criatividade linguística, não lhes resta senão usurpar e copiar em uma imitação pobre e simplória. Fazem como fizeram seus pais ao saírem às ruas nos domingos protofascitas. Copiavam a melodiam da música de Vandré, Pra não dizer que não falei das flores, ou imitavam e usurpavam a palavra de ordem Lula, guerreiro do povo brasileiro, por uma frase de mesmo sujeito, mas de predicado diferente. Esta pobreza criativa da expressividade ganha sua forma mais loquaz no uso das camisas da CBF. Não poderia ser diferente, nada nos domingos protofascistas era espontâneo, pois não há espontaneidade no fascismo.
TEXTO-MEIO
Essas usurpações discursivas cotidianas agora se mostram sob outro prisma, aquele político, dos discursos do centro do poder. O novo velho que chega pela usurpação, isto é, pelo Golpe, demanda a criação de legitimidade, operando em um sentido contrário ao da normalidade. Pois em regimes democráticos se supõe que quem chega ao poder, chega em virtude da legitimidade popular. De modo que essa legitimidade precede o próprio exercício do poder, logo este último é a própria expressão da legitimidade. Nos casos anormais, como o que vivemos, o exercício do poder precede a legitimidade. Por isso, sendo ilegítimo, necessita criar rapidamente uma legitimidade forçada, falsa e artificial, porém que sirva de cortina para esconder a violência brutal de chegar ao poder pela usurpação. Para tanto, a criação da legitimidade, precedida por uma violência, também ocorre de modo violento. Trata-se de anular as narrativas divergentes, de proibir termos, de querer dobrar à força o sentido das palavras e das coisas. Criando, dessa maneira, uma uniformização narrativa, que é o roubo da livre palavra, o cerceamento da divergência no espaço da palavra pública. É evidente que o poder usurpador e ilegítimo não pode fazer isso sozinho, pois o sentido das palavras e das coisas não é monopólio de ninguém.
Ocorre, porém, que isto, o furto da livre palavra não é algo extraordinário, posto que nas democracias contemporâneas a livre palavra é ameaçada hodiernamente pelos impérios mediáticos. De fato, são verdadeiros impérios, pois são propriedades de famílias que agem despoticamente em favor de seus próprios interesses. De tal modo, que o espaço público da livre palavra não é outra coisa que a defesa de interesses privados e escusos. Tal nos remete, desde já, para um dos sintomas de crise das democracias representativas contemporâneas. Estas estão intrinsecamente unidas à formação da esfera pública da livre expressão por meio da imprensa. Mas quando aquilo que antes esteve ligado à própria constituição da vida democrática torna-se seu veneno, estamos em um curto circuito constitutivo.
Não apenas o exercício do poder político é delegado aos representantes que o exercem em nome dos eleitores, mas a própria possibilidade da livre palavra, do direito ao espaço público da fala se dá por meio da representação. De modo que a livre expressão também está nas garras, isto é, presa aos limites da representação. Com efeito, este exercício da livre palavra feita de modo representativo ocorre quando aquilo que se considera ser a opinião pública se identifica diretamente com o monopólio midiático, quando a opinião pública nada mais é que o acordo forjado entre o editorial do grande jornal e a notícia manipulada da capa, sob o signo de ser um fato; e, não uma informação. Desse modo, quando a opinião pública é tragada pelo monopólio faccioso da notícia, já está montado todo um arsenal de usurpação da livre palavra que precede a própria usurpação do poder. Antes da usurpação feita pelo golpe institucional, já havia a usurpação da palavra, isto é, o golpe cotidiano que é dado contra toda voz divergente.
Donde a livre palavra estar constantemente ameaçada, mesmo na Democracia, pois a regra é a manipulação sob a forma da informação. Contudo, há coisas que são de tal modo absurdamente usurpadoras que nem a mais ferrenha manipulação pode esconder, ou escamotear. É o caso do uso da palavra GOLPE! Ora, sobre ela não se trata simplesmente de uma disputa de narrativas diferentes. Mas, da legitimidade das narrativas, sustentada no sentido, e não no termo em si. É o sentido da palavra que impõe ao usurpador a vergonha de não querer carregar sobre si o termo. Não só isso, a recusa do termo golpe esconde um sentido mais amplo, porém pouco discutido. Trata-se dos golpes contíguos que se seguem do golpe maior. Como é o caso da reforma da providência, cujo sentido do termo reformar é revogar. É o caso da flexibilização da CLT, cujo sentido é o mesmo: revogar. Também no caso da reforma do ensino médio, cujo sentido do termo é enfraquecer e fragilizar a educação pública. Há outros inúmeros exemplos do mesmo tipo, de distorção entre o termo e o sentido, mais que se nutrem de um sentido maior: golpe. Golpe contra a previdência, contra as leis trabalhistas, golpe contra o ensino publico. O governo usurpador, ao usurpar o poder, também busca usurpar o sentido das palavras e das coisas.
O jogo político também se decidirá sobre o plano linguístico, pois é no campo discursivo, apontando o real sentido dos termos, que a denúncia dos golpes contíguos, que tentam se seguir do golpe maior, deverá ser feita. Toda denúncia no jogo do poder também é um ato discursivo: que dá a ver o que deve mostrar2. O ato de desnudar o sentido que os termos do governo usurpador escondem também é um oportunidade para reconstruirmos nosso léxico político, que agora se nutre do sentido maior da Resistência. É preciso forjar o novo sentido da resistência, um novo vocabulário político que nasça das ruas, que agora ocupamos, e que não seja cooptada pela linguagem da homologação e da uniformização midiática.
Podem até distorcer os sentidos das palavras e das coisas em consonância com a usurpação do poder; podem tentar nos impor o monopólio da fala pública e a uniformização da opinião, mas não nos calarão! Podem nos cercear, mas não silenciaremos. Carregamos os sentidos da Resistência em nosso próprio corpo, desde o dia em que ousamos ser mais do que aquilo a que nos destinavam. A voz silenciada não emudece o pensamento, embora lhe possa desferir golpes lancinantes. Cada palavra de ordem que gritarmos, cada termo que forjarmos na nossa hodierna não trégua ao golpismo difuso, será um ato de restituição da livre palavra da qual se nutre a vida verdadeiramente democrática. A Resistência também é um ato linguístico: é o ato da fala persistente, é o ato da voz ousada que sustenta o sentido: das palavras e das coisas. E dar sentido às palavras e às coisas é um dos atos de resistências mais primordiais, quando além de usurparem o poder, querem usurpar até mesmo a nossa voz. Para tanto, sirvam-nos de inspiração as palavras de nosso maior poeta popular, Patativa do Assaré, homem que via o sentido das palavras nas próprias coisas, e nos advertia: “é melhor escrever errado a coisa certa, do que escrever certo a coisa errada”.
–
1 Espinosa, Tratado Teológico-Político, p. 252.
2 Foucault, As palavras e as Coisas, p. 23.

A escola do século 21 e a intuição de Clarice, por Lais Fontenelle.

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Não existe aprendizagem sem afeto. Mas ao invés de preparar para o compartilharmento e a troca de experiências, nosso ensino enfatiza as tarefas, o mérito nos exames, a suposta ascensão profissional
Por Lais Fontenelle
Desde antes de nossos filhos nascerem, somos obrigados a decidir não só sobre pequenas coisas, mas também sobre importantes questões a respeito de suas vidas. Nunca me esqueço dos últimos meses de gestação, quando tínhamos de fazer a escolha certa sobre a maternidade mais humanizada e decidir se iríamos coletar células tronco do bebê na hora do nascimento, para o caso de algum infortúnio futuro. As escolhas estavam só começando.
A escolha da escola é uma das mais importantes. O que priorizar? Qual será então a real função da escola, no século 21? E o papel do professor? Ensinar conteúdos ou simplesmente mediar a aprendizagem?
Algumas dessas respostas podem ser encontradas no documentário Quando sinto que já sei, de Antonio Lovato e Raul Perez, que relata sete experiências alternativas em Educação no Brasil – trazendo temas como sala de aula sem paredes, escola sem divisão de faixas etárias e alunos decidindo de forma democrática o que vão aprender. Muito mais do que suscitar o debate sobre educação no país e o papel da escola na formação de crianças e jovens, o filme nos faz pensar sobre a vida e, principalmente, sobre a relação que nós, adultos, estabelecemos com o mundo, a aprendizagem e a infância nos dias de hoje.
Há uma década trabalho com sensibilização de educadores sobre o tema da criança e sua relação com o consumo, e sempre inicio minha fala com a definição de palavras como Escola (do latim schola), que signifca lazer; Educar (do latim educare), que significa conduzir para fora; Brincar (vinculum em latim), que significa laço ou união; e Infância (do latim infale), aquele que não tem voz.
Vale contar que, quando os educadores se deparam com a definição desses termos tão corriqueiros, emocionam-se ao se dar conta de que nas escolas de hoje as crianças muitas vezes têm voz, mas não têm escuta. Brincam, mas não formam vínculos. São educadas ou “robotizadas”, mas não conduzidas para o mundo. E as escolas quase nunca são espaços de lazer e alegria, mas sim de lições e tarefas a ser cumpridas com vistas a passar, com mérito, no Enem – para, quem sabe, ascender profissionalmente no futuro. Constatar isso já é, sem dúvida, o início da transformação dos educadores. Mas o que precisamos para ir além?
Acredito que educar é um ato político, o que nos leva ao entendimento de que a educação não deveria ser para a cidadania e sim da cidadania. A educação deveria ser percebida como uma relação de ensino-aprendizagem que se dá no vínculo do professor com o aluno (e dos pais com os filhos), e que o conduzirá num processo de autoconhecimento baseado em respeito, acolhimento e liberdade. O objetivo é que esse sujeito consiga, no seu tempo, aprender não somente conteúdos, mas principalmente a ser, a conviver, a cuidar e a respeitar.
Educar deveria ser estimular o surgimento da consciência crítica no aluno, fornecendo-lhe as ferramentas para que possa avaliar, ele próprio, os caminhos que se abrem para construir algo que valha a pena na vida. O papel do educador e da escola deveria ser, então, segundo a querida mestra Monique Augras, o de reencantamento do mundo – porque só assim será possível formarmos cidadãos mais conscientes.
Já é consenso que a escola do século 21 é aquela que prepara a vida, e isso requer uma formação integral de ser humano que passe pelas habilidades socioemocionais. Dentro de uma sociedade cada vez mais conectada e globalizada, é urgente formarmos cidadãos que saibam lidar com suas emoções. A famosa inteligência emocional é urgente e essencial para o desenvolvimento pessoal, profissional e acadêmico de nossos filhos. Porém, ainda se veem pais e escolas focados somente no rigor acadêmico.
Saber reconhecer e lidar com emoções, expressá-las de forma clara e respeitosa e trabalhar de maneira colaborativa e em equipe são competências essenciais para a vida em sociedade e para o sucesso nas profissões contemporâneas. Porém, essas ainda não são habilidades comumente valorizadas na escola. Portanto, devemos lembrar-nos que é na escola que o sujeito deve conhecer melhor sobre seu corpo e suas emoções, sobre os outros e suas diferenças e, principalmente, sobre como se relacionar no mundo de maneira mais respeitosa e sustentável. O valor de nossos filhos e alunos não deveria nunca ser medido, exclusivamente, pelas suas competências acadêmicas. Conteúdos afetivos são tão importantes quando os matemáticos, físicos ou linguísticos.
Vale destacar que já têm aparecido iniciativas bem bacanas. Na Dinamarca, por exemplo, há tempos já se ensina empatia nas escolas. Já no Brasil o projeto Escolas Transformadoras  (parceria da Ashoka com o Alana) tem feito um trabalho não só de identificar e mapear escolas que estão inovando ao redor do país, mas de conectar e apoiar iniciativas inspiradoras para fortalecer a visão de que todos podemos ser transformadores da realidade atual. Vale também conferir o programa Destino Educação: Escolas Inovadoras, parceria do Canal Futura com Inspirare, que tem trazido para a tela experiências transformadoras em Educação ao redor do mundo. E todas essas iniciativas concordam que devemos formar crianças e jovens mais empáticas e inclusivas, além de cada vez mais bem preparadas para lidar com as dificuldades da vida – porque elas virão mais rápido do que esperamos.
Essa semana mesmo minha filha de 4 anos me deixou sem respostas. Chegou da escola reclamando que um amigo mais velho a chamou novamente de bebê e que isso a deixou muito triste, porque ela estava crescendo e não era mais um bebê. Pediu ajuda, mas foi enfática ao dizer que não queria que eu fosse à escola conversar com o professor e muito menos com seu amigo. Então perguntei o que ela poderia fazer sozinha para resolver a situação e a resposta foi: “Colocar uma armadilha para meu amigo tropeçar, cair e ver como é ruim os outros rirem dele.” Respondi que essa, sem dúvida, não era a melhor solução, mas que tinha entendido que ela queria que seu amigo percebesse como ela se sentiu. Seguimos num diálogo, sem muitos avanços, até que, na hora de dormir, ao ler o belíssimo Caderno de Rimas do João, de Lázaro Ramos, ela viu o Kirikou do filme desenhado numa das páginas e rasgou um sorriso dizendo: “Descobri, mamãe! Vou falar para meu amigo assistir Kirikou e a Feiticeira e ver que ele é pequeno e valente, e quando eu cantar a música do filme ele vai entender que Kirikou é pequeno, mas é meu amigo e é bem valente!” E quem sabe o meu professor não passa o filme na escola e assim todo mundo entende junto…” A mensagem da tolerância. Minha pequena Clarice adormeceu tranquila e eu também, por achar que fiz escolhas certas nessa trajetória.
Fica então a reflexão de que, para garantirmos o bem-estar infantil e adolescente, é preciso fortalecer psicologicamente as crianças e prepará-las para encarar as dificuldades emocionais e interpessoais que acompanham, de maneira intrínseca, a vida cotidiana, e futuramente as frustrações e pressões profissionais.
Essa árdua tarefa começa em casa, claro, mas deve se desdobrar na escola. As crianças precisam cada vez mais trabalhar suas habilidades socioemocionais, desde pequenas, e isso deve acontecer também na escola. É nesse espaço que vão experimentar, pela primeira vez, regras de convivência comunitária: a compartilhar, a se inscrever no mundo, a trocar experiências e, principalmente, a ser mais empáticos e inclusivos.
Não existe aprendizagem sem relação e não existe relação sem afeto. A saída aos meus olhos é, sem dúvida, uma educação que respeita o aluno como um ser que sente, que se afeta, tem vontades, um tempo e uma expressão única. E que na relação com o professor mostra a cada pergunta, conflito e encantamento o quanto nós adultos, muitas vezes, nada sabemos.

Argentina, o Brasil de amanhã?, por Cauê Ameni e Hugo Albuquerque.

P Em agosto, popularidade de Macri chegou ao mais baixo ponto de sua breve presidência, lançando dúvidas até onde ele poderá e terá coragem de ir Em agosto, popularidade de Macri chegou ao mais baixo ponto de sua breve presidência, lançando dúvidas até onde ele poderá e terá coragem de ir Era para ter sido só mais uma sexta-feira de inverno em Mar del Plata. Tudo se resolveria com um discurso simples, recheado de lugares comuns e uma partida tranquila. Contudo, Maurício Macri, presidente da Argentina, não conseguiu discursar mais do que dez minutos. Ele não resistiu às – nada metafóricas – pedradas desferidas pela multidão aos gritos de “Macri, basura [lixo], vos sos la ditadura”. O líder argentino encerrou seu breve discurso e entrou rapidamente no carro oficial, cercado pelos manifestantes.

Qualquer semelhança com o sumiço do então “presidente” Michel Temer, que quebrou o protocolo ao pedir que seu nome não fosse anunciado na abertura das Olimpíadas e seu desaparecimento no encerramento, além das vaias ensurdecedoras na abertura das Paraolimpíadas, não são meras coincidências. Macri chegou ao poder prometendo reduzir a inflação, a pobreza e o desemprego, além de tentar acalmar os ânimos na polarização política. Entretanto, os primeiros efeitos são exatamente o contrário. Embora esteja no poder em virtude do voto, representa setores com agendas políticas parecidas às que aqui sustentam Temer. Como chegou ao poder um pouco antes, a Argentina já sente o peso, das medidas de austeridade mais claramente.

Enquanto os manifestantes brasileiros tiveram seus cartazes de protesto caçados dentro dos estádios e são recebidos com cassetetes nas ruas por se oporem ao processo de impeachment, os manifestantes argentinos reagem à repressão. Organizações em defesa de perseguidos e desaparecidos políticos na ditadura, conduzem atos enormes de resistência na esteira do rumoroso caso da tentativa de prisão de Hebe de Bonafini, líder das mães da praça de maio – em 4 de agosto último, resultando em um rotundo fracasso e consequente desmoralização das forças da repressão locais. Além disso, para colocar mais gasolina na fogueira, aliados de Macri estão relativizando a cifra de mortos da última ditadura e tribunais agora começam a liberar repressores da ditadura.
Hebe Bonafini



Várias perguntas se insurgem sobre a atual conjuntura: o que significa a presença de Macri no poder para a Argentina e para a América Latina? O que explicaria tamanha fúria contra um jovem presidente, eleito como novidade, com apenas nove meses de mandato? As suas políticas econômicas estão sendo mal compreendidas? Qual a real situação argentina? Seria a Argentina a imagem do Brasil e da América Latina de amanhã?

Macri: a “novidade” contra atípica estabilidade da Era Kirchner

Eleito em 2015, Macri conseguiu a “proeza” de se tornar o primeiro candidato neoliberal a presidir a Argentina depois da catástrofe social, econômica e política que explodiu naquele país em 2001, quando cinco presidentes passaram pela Casa Rosada, sede do poder argentino, em poucas semanas – consequência deflagrada diretamente pelas políticas neoliberais que afundaram o país naquela ocasião.

Dali em diante, e com a prosperidade socioeconômica iniciada nos doze anos de governos do casal Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015), parecia ser muito difícil que a direita neoliberal voltasse ao poder. Sobretudo por não ter havido nenhuma crise relevante, mesmo nos maus momentos do Kirchnerismo – levando em consideração que a grande crise argentina de 2001 contudo, não foi nem a única, nem a mais trágica dos últimos cem anos naquele país.

A era kirchnerista (2003-2015) foi um dos períodos de maior estabilidade – política, mas também econômica – da história argentina. Quase uma ilha pacifica em meio a um mar turbulento. Desde que o sufrágio universal foi instituído naquele país, pela Lei Sáenz Peña,em 1912, não demorou muito para que os problemas aparecessem: já em 1930 os argentinos se viram diante do primeiro dos cinco golpes militares – totalizando vinte e cinco anos de regimes militares de corte fascista.

Filho da elite argentina, ex-presidente do Boca Juniors, ex-prefeito de Buenos Aires, Macri pode ser tudo, menos um elemento novo na política de seu país ou da América Latina. Contudo ele conseguiu ser vendido com ares de novo, eleitoralmente, por uma razão episódica: sem nunca ter sido militar e não vir de nenhum dos dois principais partidos da Argentina moderna, seus marqueteiros conseguiram maquiar sua biografia.

Vitorioso em segundo turno contra o moderado Daniel Scioli – candidato peronista apoiado, de maneira não muito animada, por Cristina Kirchner – Macri teve um êxito eleitoral apertadíssimo (51,34% contra 48,66% do rival) o exato mesmo placar com o qual Dilma Rousseff bateu seu rival Aécio Neves em 2014 – e um pouco mais do que Maduro bateu Henrique Capriles em 2013 na Venezuela (na ocasião, 50,61% a 49,12%). Nos casos brasileiro e venezuelano, o ponteiro das urnas continuo inclinado para o campo popular, mas no caso argentino ele pendulou a favor das elites.

Depois de anos de constituição de direitos, como a legalização do casamento homoafetivo, o enfrentamento do legado militar, uma lei que *regulamentou* o setor midiático e a realização de eleições regulares, o discurso de Macri explorou o esgotamento do ciclo progressista e um suposto mau momento econômico.

Sem registrar a ocorrência de nenhum desastre político à moda Argentina, a tese do desgaste de Cristina em virtude da situação econômica poderia ser uma explicação plausível. Mas a pergunta defacto é: até que ponto Macri teria razão nisso, qual a real gravidade da situação econômica argentina em 2015?

A economia argentina sob kircherinismo desestabilizou o país? Plano Macri seria a solução?
O gráfico acima é um resumo do crescimento do PIB argentino desde 1961. Os altos e os baixos lembram a melancolia de um tango: da ribalta à sarjeta em uma mesma vida. Não foram poucas as vezes que a economia argentina foi do céu ao inferno em um curtíssimo espaço de tempo. Na era kirchnerista, contudo, o PIB jamais caiu, em que pesem os últimos anos de Cristina serem marcados por uma desaceleração do crescimento – movido, sobretudo, pela queda nos preços internacionais das commodities.

A mídia, que viu seu monopólio ameaçado com a Ley de Medios, e Macri, contudo, conseguiram convencer os argentinos da suposta gravidade da situação econômica do país e, não só, sutilmente deixar no ar que seriam necessários ajustes. Scioli, o candidato peronista, tampouco parecia ter desenvoltura para explicar a queda do ritmo de crescimento ou, quem sabe, defender o modelo socioeconômico que, por sinal, não era exatamente o seu – Scioli é uma cria do menemismo, vertente neoliberal do peronismo, referente ao ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).

Visto em conjunto o período kirchnerista sob a ótica econômica, registrou-se uma média de crescimento anual de 5,2% – tendo uma sequência em torno de 9% nos mandatos de Néstor; a taxa de desemprego despencou de 20% no fim de 2002 para 6% no final de 2015 – com queda de 87% na desigualdade salarial e uma valorização salarial, em termos reais, de mais de 70%.

A balança comercial se manteve superavitária, a exportação chegou a quadruplicar em 2011 – indo de 25 bilhões de dólares em 2002 para 84 bilhões dólares. Ano em que o PIB per capita atingiu 17.376 dólares, o maior na América Latina. Em 2015, o país teve seu primeiro défict na balança comercial depois de 15 anos, mas, mesmo assim, manteve o crescimento do PIB em 2,4%.
Do ponto de vista social, a pobreza recuou severamente: de 57,8% nos anos da crise para apenas 29% no último ano de Cristina Kirchner no poder. A desigualdade social seguiu um rumo de queda muito acentuado depois de ter atingido seu auge, não por caso, em virtude da crise de 2001 – na qual os mais pobres, evidentemente, sofreram mais do que os mais ricos.

Ponto polêmico, a inflação foi controlada, despencou de 40% em 2002 para metade, chegando a 8% no último ano do mandato de Nestor. Embora tenha se elevado posteriormente, tendo uma média de 13,3% nos governos da Cristina, criou-se uma celeuma entre o governo Kirchner e a oposição, que acusava o governo de maquiar dados – muito embora a legislação e a atuação governamental, inclusive nas articulações junto aos sindicatos, sempre garantissem reposições salariais.

Concretamente, a economia argentina passou a crescer menos nos últimos anos de Cristina. Macri tinha esse flanco e a inflação, ainda que com seus efeitos contidos pelas políticas de Cristina. A crise foi desenhada, vendida e, ao final do processo eleitoral, comprado pelo eleitorado argentino, ainda que por uma pequena vantagem. Agora, era hora da nova etapa, quando o discurso de Macri iria encontrar a realidade prática.

A “solução” macriana


As primeiras atitudes de Macri no governo foram surpreendentes para muitos argentinos: ao contrário de resolver pragmática e gradualmente os problemas, da “grande crise” que ele e seus marqueteiros criaram, ele construiu um cavalo de troia para mudar o modelo econômico; apostou todas as fichas em uma mudança completa do modelo econômico do país, dando um enorme cavalo de pau, independentemente do custo que isso tivesse.

Noves meses depois das promessas, Macri, que propagandeava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, vai ter de se contentar com a queda de 1%. Basicamente, algumas das mudanças radicais que ele promoveu foram a violenta e abrupta desvalorização do peso argentino (30% já em dezembro) e os cortes nos subsídios implantados durante o kircherismo. Em outras palavras, promoveu um verdadeiro tarifaço: 400% nas contas do gás; na tarifas de energia houve um aumento de 300%, chegando em alguns casos a 700%; o aumento na água oscilou de 216% e 375%; o combustível aumentou 35% acumulados desde dezembro; e o preço do transporte público teve um aumento de 100%. A sanha de cortar sem anestesia para “reduzir o estado” foi tanta, que o governo chegou ao ponto de cortar 160 remédios distribuídos para aposentados e pensionistas.
Manifestação contra as demissões de Macri

Ambas as medidas, com fulcro em aumentar os ganhos de concessionários e grandes detentores de dólares, fizeram, irônica e justamente, inflação disparar, alcançando a casa de 46%, a mais altadesde 1991 – ao fim do governo Cristina, a mesma taxa estava em 25% há oito meses.

Ironicamente, o governo Macri insiste em dizer que a inflação é menor do que a acusada pelos órgãos independentes, a mesma prática que ele condenava na antecessora. Por outro lado, o governo tem sido duro nas negociações salariais, não repondo as perdas com a inflação – o que torna o problema inflacionário muitíssimo maior.

Ainda, com a retração do consumo interno (o gasto médio de compra caiu 26,5%) e o baixo preço das commodities – sejam os derivados de gás e petróleo ou mesmo os produtos agrícolas –, além da incerteza sobre qual será o novo desenho da economia argentina, que está bem no meio de um cavalo de pau, fez com que o crescimento desacelerasse: nos três primeiros trimestres de 2016 a economia caiu em um ritmo cada vez mais acelerado,sugerindo um desempenho negativo no final do ano, o primeiro desde 2001. Segundo a consultora Scentia, alguns setores da economia foram fortemente golpeados pelo aprofundamento da recessão: a atividade na construção civil caiu 19,6% e a indústria recuou 6,5%. Segundo os sindicatos, até junho foram demitidos 200 mil assalariados. E para piorar, Macri vetou uma lei antidemissões.

Como consequência, com o avanço da inflação afetando os trabalhadores – duplamente, pelo avanço objetivo das tarifas de serviços públicos e como isso aumenta o preço de outras mercadorias por irradiação – e a desvalorização do peso favorecendo os mais ricos – que detinham reservas em dólares – verifica-se um desaquecimento geral que fez o desemprego saltar de 5,9% para 9,3% sob Macri!Ademais, estudos comprovam que neste curto período mais de um milhão de argentinos entraram na linha de pobreza – que agora chega a 34,5% da população.

A popularidade do novo governo também despencou. Ao tomar posse, em 10 de dezembro, Macri contava com 63%. Hoje, segundo a pesquisa da M&F de agosto, apenas 43,1% dos argentinos o aprovam, contra 42,6% que desaprovam e 43% que esperam uma situação econômica pior nos próximos meses.

A política neoliberal ortodoxa de Macri conseguiu destruir até hábitos arraigados entre os argentinos: os churrascos se tornaram vaga lembrança quando preço da carne dobrou. A combinação dos efeitos cruzados da restauração da economia neoliberal e a repressão – necessária para garantir a implementação dessa Doutrina de Choque, mas também dissuasória – não estão isoladas de um contexto internacional turbulento, o qual também está conectado com fenômenos paralelos na América Latina – mas o que representaria, do ponto de vista institucional, a volta da arte de governo neoliberal no cenário pós-inclusão social dos últimos anos?

Até lá, a economia deixa o governo sob pressão e com popularidade em queda. Pesquisa da M&F de agosto indica que 42,6% dos argentinos desaprovam a forma como Macri conduz o governo, contra 43,1% que aprovam. E 43% esperam uma situação econômica pior nos próximos meses, contra 34,7% que esperam melhora e 18,2% que não veem mudanças.

Restauração neoliberal na América Latina, com as bençãos de Washington

Macri, é verdade, veio num momento no qual as experiências de esquerda popular da América Latina estavam em fase de declínio – do radical Chavismo ao brando Lulismo, as quais nasceram da resposta ao neoliberalismo dos anos 1990. Nesse sentido, Macri é o marco de uma indisfarçável restauração construída sob um véu clean e moderado de mudança.

Não que os governos populares, em que pesem suas inúmeras e relevantes conquistas, não tenham igualmente falhado: fiaram seus planos e projetos nos altos preços das commodities – sobretudo, do petróleo – enquanto supuseram que grandes economias “nacionais” poderiam dar conta de superar ou mesmo enterrar definitivamente o neoliberalismo ou, de maneira ambiciosa, as contradições entre as classes.
A nada inocente visita de Obama à Argentina durante o processo de impeachment de Dilma no Brasil


A economia extrativista, pouco preocupada com a natureza e pouco centrada na criação e inovação, indispôs os governos populares com suas bases, mas também encontrou seu limiar econômico com a queda do preço do petróleo, em grande medida pela política americana no Oriente Médio: daí, surgiu um verdadeiro efeito dominó que, a priori, pôs as elites em desespero pela perspectiva de arcarem com algum custo dessa crise.

Como se sabe, a oportunidade é a mãe da invenção. As oligarquias tradicionais sul-americanas, nesse contexto, fabricaram e implementaram um plano arriscado: remover a todo custo os governos populares para, assim, empossar governos dispostos a implementar políticas de “ajuste” que se apliquem apenas sobre os trabalhadores e os mais pobres.

De maneira coordenada, se viu na Venezuela, no Brasil e na Argentina o surgimento de candidaturas dessa nova direita quase idênticas: Capriles, Aécio e Macri – embora só o último tenha vencido uma eleição para dar mostras do que poderiam ser os dois outros.

A novíssima direita sul-americana apresenta líderes que contrastam sua estética moderada com, ironicamente, um marxismo às avessas na prática: a defesa de políticas radicais assentadas em um sujeito político classista – não os trabalhadores, mas a oligarquia –, a ação antagônica e nenhuma disposição à conciliação.

Na Venezuela e no Brasil, o jogo eleitoral agressivo foi continuado, após a derrota da direita, com uma pressão para deslegitimar a qualquer custo os líderes democraticamente eleitos. No Brasil, esse movimento chegou ao golpe branco implementado contra Dilma Rousseff. Na Venezuela, a polarização nas ruas e a busca pela revogação do mandato de Maduro não difere em nada.

A aparente normalidade institucional da chegada ao poder de Macri é, portanto, episódica e não uma questão de princípio. Materialmente, a política de Macri é a de Capriles e a de Aécio – e agora a de Temer, vice de Dilma que chega ao poder após uma manobra parlamentar para aplicar, tragicamente, o programa chumbado nas urnas pelos eleitores brasileiros em 2014.

Ainda, o arranjo de direita na América do Sul marca a volta da velha aliança à geopolítica dos Estados Unidos – como sugere a nada inocente visita de Obama à Argentina, durante o processo deimpeachment de Dilma, para acordar a abertura de duas bases norte-americanas com Macri.

Essa recentíssima investida neoliberal, por sinal, reforça a histórica aliança entre as oligarquias latino-americanas e a ação militar burocrática dos Estados Unidos.

Os discursos assentados na correção técnica dos erros dos governos populares, desse modo, logo se desmontam ao se defrontarem com os dados, assim que os neoliberais voltam ao poder: no caso argentino, os indicadores pioraram com Macri, mas isso pouca importa, visto que o objetivo desde o começo sempre foi uma mudança do modelo socioeconômico.

Nesse sentido, uma escalada repressiva passa a fazer todo sentido – como no caso de Hebe de Bonafini, mas também na ameaça inquisitória contra Cristina Kirchner –, pois isso não é apenas uma forma de conter a contestação social, mas também de literalmente desviar o foco da opinião pública sobre os efeitos desastrosos dessarestauração.

Por ora, Macri passa a usar uma blindagem também nos seus carros oficiais – em virtude da celeuma de Mar del Plata, que deu início a este ensaio – a qual se somar a todas as demais blindagens simbólicas e midiáticas que lhe protegem – mesmo assim, sua popularidade chegou em agosto ao mais baixo ponto de sua breve presidência, lançando dúvidas até onde ele poderá e terá coragem de ir. A única certeza, além do derretimento dos indicadores sociais e econômicos argentinos, é que aquele país é a imagem do futuro próximo que assombra a América do Sul – o Brasil de Temer sobretudo.


*Cauê Seignemartin Ameni é sociólogo formado pela PUC-SP. Editor de Outras Palavras, subeditor no De Olho Nos Ruralistas e editor da editora Autonomia Literária.

Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da editora Autonomia Li