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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O alto preço de negar a luta de classes, Yanis Varoufaskis.

 

A atmosfera política da anglosfera está tomada pela indignação burguesa. Nos Estados Unidos, o chamado establishment liberal está convencido de ter sido roubado por uma insurgência de "deploráveis" armados por hackers de Vladimir Putin e pelo funcionamento interno sinistro do Facebook. Na Grã-Bretanha, igualmente, uma burguesia furiosa precisa se beliscar para acreditar que o apoio para trocar a União Europeia por um isolamento inglório continua inabalável apesar de um processo que poderia ser descrito como um Brexit de cão.

O intervalo da análise é surpreendente. A ascensão do paroquialismo militante dos dois lados do Atlântico está sendo investigada sob todos os ângulos imagináveis: psicanalítico, cultural, antropológico, estético e, claro, em termos de política identitária. O único ângulo ignorado é justamente aquele que contém a chave para entender o que acontece: a luta de classes travada contra os pobres incessantemente desde o fim da década de 1970.

Em 2016, o ano do Brexit e de Trump, tomemos dois dados devidamente negligenciados pelos mais perspicazes analistas do establishment. Nos EUA, de acordo com os dados do Fed, o Banco Central americano, mais de metade das famílias americanas não têm as condições mínimas para obter um empréstimo para comprar o carro mais barato no mercado (o sedan Nissan Versa, a 12.825 dólares). Enquanto isso, no Reino Unido, mais de 40% das famílias dependem de crédito ou de bancos de alimentos para se alimentar e cobrir as necessidades básicas.

William de Ockham, filósofo britânico do século XIV, argumentava que, quando confusos diante de explicações conflitantes, devemos optar por aquela com menos suposições e de maior simplicidade. Pois todos os habilidosos comentaristas do establishment nos EUA e na Grã-Bretanha parecem ter negligenciado esse princípio.

Relutando em perceber a intensificação da luta de classes, martelam suas intermináveis teorias de conspiração sobre a influência russa, enquanto disparam rajadas espontâneas de misoginia, queixas contra a maré de migrantes, o domínio das máquinas e assim por diante. Embora todos esses medos estejam estreitamente correlacionados com o paroquialismo militante que alimenta os fenômenos Trump e Brexit, eles apenas tangenciam sua causa mais profunda – a luta de classe contra os pobres – evidenciada pelos dados sobre a acessibilidade ao carro, nos EUA, e a dependência de crédito de grande parte da população britânica.

É verdade que alguns eleitores da classe média relativamente alta também apoiaram Trump e o Brexit. Mas muito desse apoio é decorrente do medo causado pela observação das classes logo abaixo, mergulhadas em desespero e raiva, ao mesmo tempo em que viam encolher as perspectivas de seus próprios filhos.

Há vinte anos, os mesmos comentaristas liberais cultivavam o sonho impossível de que a globalização do capitalismo financiado ofereceria prosperidade para quase todos. Num momento em que o capital estava cada vez mais concentrado, em escala global, e mais militante contra quem não possuíam ativos, eles declaravam a guerra de classes. À medida que a classe trabalhadora crescia em tamanho no mundo todo, apesar de seus empregos e perspectivas de emprego encolherem na anglosfera, essas elites se comportavam como se o conceito de classe fosse ultrapassado.

O colapso financeiro de 2008 e a recessão subsequente enterraram esse sonho. Ainda assim, os liberais ignoraram o fato inegável de que as perdas gigantescas sofridas pelo quase criminoso setor financeiro foram cinicamente transferidas para os ombros da mesma classe trabalhadora à qual não davam mais nenhuma importância.

Apesar de se verem como progressistas, a prontidão das elites em ignorar a ampliação das divisões de classe e substituí-las por políticas de identidade cegas para a questão (de classe) foi o maior presente para o populismo tóxico. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista (sob Tony Blair, Gordon Brown e Edward Miliband) foi tímido demais para sequer mencionar a intensificação da luta de classes pós-2008 contra a maioria, levando ao crescimento, em todo o coração trabalhista, do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), com seu paroquialismo Brexit.

A sociedade educada parecia não se importar com o fato de que se tornara mais fácil entrar em Harvard ou Cambridge sendo negro do que sendo pobre. Eles ignoraram deliberadamente que as políticas identitárias podem ser tão desagregadoras quanto o apartheid se utilizadas como ferramenta para invisibilizar o conflito de classes.

Trump não demonstrou escrúpulo algum para falar de classes claramente e incluir – ainda que enganosamente – quem não tinha como comprar um carro financiado, muito menos mandar seus filhos para Harvard. Os partidários do Brexit, igualmente, abraçaram os britânicos do andar de baixo, como tentavam mostrar imagens do líder do UKIP Nigel Farage bebendo em pubs com "sujeitos comuns". E quando grandes faixas da classe trabalhadora deram as costas para os filhos e filhas favoritas do establishment (os Clintons, os Bushes , os Blairs e os Camerons), preferindo endossar o paroquialismo militante, analistas e comentaristas culparam as ilusões da ralé sobre o capitalismo.

Mas não foram as ilusões sobre o capitalismo que levaram ao descontentamento que alimentou a vitória de Trump e do Brexit. Pelo contrário, é a desilusão com a política moderada como a que intensificou a guerra contra as classes populares.

Previsivelmente, a inclusão da classe trabalhadora por Trump e pelos partidários do Brexit os armaria de um poder eleitoral que, mais cedo ou mais tarde, se voltaria contra os interesses da classe trabalhadora e, claro, das minorias – o comportamento habitual do populismo no poder, desde a década de 1930 até hoje. Assim, Trump usou o apoio da classe trabalhadora para conduzir reformas fiscais escandalosas, cuja ambição evidente é ajudar a plutocracia, enquanto milhões de americanos enfrentam cortes na cobertura de saúde e, à medida que o déficit orçamentário federal incha, maiores impostos de longo prazo.

Da mesma forma, o governo conservador da Grã-Bretanha, que abraçou os objetivos populistas de Brexit, anunciou recentemente mais uma redução de bilhões de libras em programas sociais, educação e reduções fiscais para os trabalhadores pobres. Esses cortes equivalem exatamente às reduções nos impostos corporativos e sobre herança.

Os comentaristas do establishment, que tanto desdenham da pertinência das classes sociais, acabaram contribuindo para criar um ambiente político em que a política de classe é mais pertinente e tóxica – e menos discutida – do que nunca. Falando em nome de uma classe dominante composta por consultores financeiros, banqueiros, representantes corporativos, proprietários de mídia e executivos da indústria, eles agem como se seu objetivo fosse justamente entregar as classes trabalhadoras nas mãos sujas dos populistas e sua promessa vazia de fazer a América e a Grã-Bretanha "voltarem a ser grandes".

A única perspectiva de civilizar a sociedade e desintoxicar a política está em um movimento político que aproveite, em nome de um novo humanismo, a incômoda injustiça evidenciada pela luta de classes. A julgar pela forma impiedosa como trata o senador dos EUA, Bernie Sanders, e o líder trabalhista inglês Jeremy Corbyn, o establishment liberal parece temer esse movimento mais do que teme Trump e o Brexit.

Fim da neutralidade da rede rompe com a democratização dos direitos digitais e favorece disputas econômicas e políticas. Entrevista especial com Marcelo Barreira, por Patrícia Fachin.

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A decisão da agência norte-americana Federal Communications Commission (FCC), de pôr fim à neutralidade da rede, que evitava que interesses econômicos determinassem o tráfego de pacotes de dados pela internet, demonstra que “há uma disputa política e econômica na esfera pública conforme grupos de interesse”, diz Marcelo Barreira à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Segundo Barreira, a decisão “foi mais política e ideológica do que técnica”e a “visão política vencedora na FCC foi a narrativa em defesa de que as regras de 2015, e implementadas pelo ex-presidente Obama, seriam pesadas para o investimento em banda larga”. O professor explica ainda que de acordo com a legislação que garantia a neutralidade da rede, “a banda larga era vista como um serviço essencial e, portanto, de utilidade pública como água e energia elétrica; assim, independentemente do poder financeiro, todos os consumidores deveriam ser tratados igualmente”.

Com o fim da neutralidade, o serviço de internet passa a ser visto como “um serviço não-essencial de informação”, e “a regulação específica passa a deixar de ser do tipo Title II Order e passa a ser Title I Order. Com essa alteração, retoma-se a Lei de Telecomunicações, de 1996. Lei aprovada por um congresso de maioria conservadora e republicana e promulgada pelo ex-presidente Clinton. Tal Restoring Internet Freedom Order é uma regulação leve (light touch), mas de tão leve acaba se aproximando de uma autoregulação, mesmo que exija em tese maior transparência e mais competitividade”.

A iniciativa, afirma, “funcionará como um elemento político-ideológico de pressão para que outros países adotem as mesmas regulamentações”. Na entrevista a seguir, Barreira também comenta quais serão as implicações da decisão da agência norte-americana para o usuário. “Com a quebra de neutralidade da rede haverá mudanças significativas. A principal é a mudança de eixo, da centralidade no usuário, em sintonia com a origem da internet, gira-se agora para a centralidade do mercado, por meio das grandes operadoras como a AT&T, a Verizon e a Comcast, aumentando sua margem de lucro. Além de romper com a democratização dos direitos digitais, o sinal mais eloquente dessa mudança será o encarecimento do acesso à internet pelo usuário-cidadão”, adverte.

Marcelo Barreira - Arquivo PessoalMarcelo Barreira é graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre na mesma área pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ e doutor também em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. É professor do Departamento de Filosofia e do PPGFil da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é o significado da decisão do governo dos EUA de por fim à neutralidade da rede?

Marcelo Barreira - Embora o conceito de “neutralidade da rede” (network neutrality) seja uma elaboração feita em 2003 por Tim Wu, da Universidade de Colúmbia (EUA), seu princípio advém desde a lei federal chamada Pacific Telegraph Act, de 1860. Diante do monopólio de telefonia pela American Bell - que incorporou a AT&T em 1885 como subsidiária -, essa lei determinava uma isonomia na transmissão de mensagens nas linhas telegráficas por cidadãos e empresas, apenas despachos governamentais teriam a prerrogativa de furar a fila. Em resumo: manter a isonomia perante a diversidade de mensagens sintetiza a definição do conceito de neutralidade.

Retomando a posição de Locke em sua “Carta sobre a Tolerância” de 1689, o princípio da neutralidade axiológica do magistrado civil se configurou numa eficaz garantia da diversidade religiosa num contexto europeu de conflitos neste campo. Até hoje, a laicidade do Estado democrático de Direito significa a tentativa de impedir o privilégio de um grupo em detrimento de outros, minoritários ou menos poderosos economicamente. Do mesmo modo, além de a filosofia expressar a cultura democrática liberal estadunidense, a neutralidade da rede contribui para evitar interesses econômicos no tráfego de pacotes de dados pela internet.

Em específico, o mercado, por meio de gigantes comerciais da indústria de tecnologia de telecomunicações, especialmente prestadores de serviço de internet (ISPs) e provedores de banda larga (IBPs), precisa ser domesticado para não inviabilizar pequenas empresas de tecnologia como as startups. A justiça pressupõe neutralidade diante de concepções morais e religiosas, mas pressupõe sobretudo o rompimento com a desigualdade socioeconômica.

IHU On-Line - Em que contexto político essa decisão foi tomada? O que acha que deve ter motivado a decisão?

Marcelo Barreira - O contexto político por traz dessa tomada de decisão foi a eleição de Trump, que nomeou Ajit Pai como chefe da Federal Communications Commission (FCC), a agência que regula o mercado de telecomunicações. Logo, embora a decisão tenha acontecido na FCC e não monocraticamente por Trump, o presidente dos EUA contribuiu, mesmo indiretamente, para que ela acontecesse. O voto de Pai, republicano sênior na FCC (participa dela desde 2012), foi o último e decisivo voto para que, no último dia 14 de dezembro e por 3 a 2, a Comissão decidisse em favor de uma nova compreensão do serviço de telecomunicações em banda larga. Muitos interesses acarretaram essa decisão. Decisão que foi mais política e ideológica do que técnica. A internet, além de seu óbvio aspecto técnico, também envolve questões jurídicas, políticas e socioeconômicas.

Assim, a visão política vencedora na FCC foi a narrativa em defesa de que as regras de 2015, e implementadas pelo ex-presidente Obama, seriam pesadas para o investimento em banda larga. Eis o principal argumento de Ajit Pai, ex-advogado da operadora Verizon, cujo pressuposto ideológico é o intrínseco dano do Estado para o “livre mercado”.

IHU On-Line - O que muda no funcionamento da internet a partir dessa medida?

A principal é a mudança de eixo, da centralidade no usuário, em sintonia com a origem da internet, gira-se agora para a centralidade do mercado, por meio das grandes operadoras como a AT&T, a Verizon e a Comcast

Marcelo Barreira - Com a quebra de neutralidade da rede haverá mudanças significativas. A principal é a mudança de eixo, da centralidade no usuário, em sintonia com a origem da internet, gira-se agora para a centralidade do mercado, por meio das grandes operadoras como a AT&T, a Verizon e a Comcast, aumentando sua margem de lucro. Além de romper com a democratização dos direitos digitais, o sinal mais eloquente dessa mudança será o encarecimento do acesso à internet pelo usuário-cidadão. Com o traffic shaping abandona-se seu oposto, o zero rating, isto é, a gratuidade no acesso a produtos on-line e no tráfego end-to-end de dados, que garante a transmissão de pacotes de dados entre origem e destino sem qualquer manipulação ou diferenciação.

O rompimento com o princípio end-to-end é o principal fator de ruptura com a neutralidade da rede, pois quanto mais fácil o acesso aos produtos na rede, melhor será para a popularidade e o retorno financeiro desses produtos. O traffic shaping não só diferenciará planos por velocidade de transferência (como hoje), mas também possibilitará “bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados”, nos termos em que nosso Marco Civil da Internet proíbe essas ações em seu § 3º, do art. 9º. Na medida em que produtores de conteúdo firmem contratos comerciais com as operadoras de telecomunicações, eles obterão preferência na disponibilidade de seus produtos na rede - como vídeos (YouTube), streaming (Netflix) e Voip (como Skype e WhatsApp). Um exemplo disso é o anúncio de “WhatsApp ilimitado” por operadoras de telefonia. Esses produtores de conteúdo exigirão, por conseguinte, uma cobrança pelo uso de seus serviços. Haverá, então, faixas de preços e categorias de usuários de acordo com quem pode ou não pagar.

IHU On-Line - Qual deve ser o impacto dessa decisão em termos mundiais?

Marcelo Barreira - A mudança na regulação funcionará como um elemento político-ideológico de pressão para que outros países adotem as mesmas regulamentações. Isso ocorre por dois motivos: no caso brasileiro, como vemos com a Lava Jato, nosso sistema de justiça tem sido crescentemente influenciado pela hermenêutica e jurisprudência estadunidense. Outro motivo é o fato de os EUA ser referência mundial em tecnologia de telecomunicações, tornando, por sua vez, paradigmática a sua legislação sobre o tema.

IHU On-Line - Em que consistiam as medidas estabelecidas em 2015 para proteger a equidade na internet?

Marcelo Barreira - Nas regras de 2015 a banda larga era vista como um serviço essencial e, portanto, de utilidade pública como água e energia elétrica; assim, independentemente do poder financeiro, todos os consumidores deveriam ser tratados igualmente. Ao alterar para um serviço não-essencial de informação, a regulação específica passa a deixar de ser do tipo Title II Order e passa a ser Title I Order. Com essa alteração, retoma-se a Lei de Telecomunicações, de 1996. Lei aprovada por um congresso de maioria conservadora e republicana e promulgada pelo ex-presidente Clinton. Tal Restoring Internet Freedom Order é uma regulação leve (light touch), mas de tão leve acaba se aproximando de uma autoregulação, mesmo que exija em tese maior transparência e mais competitividade.

Ademais, com tal decisão, a supervisão de serviços de banda larga passou a ser da esfera comercial; logo, suas demandas versam da ordem econômica, será outra autarquia, a Federal Trade Commision (FTC), a agência reguladora de comércio, que sanará demandas acerca dos direitos digitais, interpretadas agora como violação da livre concorrência. De qualquer modo, essa decisão será questionada nos tribunais. Procuradores-gerais de Nova Iorque e deputados do Partido Democrata pretendem restabelecer o Title II Order, de 2015. O Congresso pode ainda apresentar um Congressional Review Act (CRA), ou seja, um recurso para invalidar a decisão da FCC. Junto a essas estratégias, algumas entidades da sociedade civil organizada, como a American Civil Liberties Union e o movimento People Power, proporão a legislativos estaduais projetos de lei que assegurem regionalmente a neutralidade da rede.

IHU On-Line - Alguns pesquisadores têm dito que a neutralidade garantirá a competitividade na internet, mas que agora a competitividade está ameaçada. O senhor concorda?

Marcelo Barreira - A conjuntura aqui e nos EUA é de crise do sistema político e de desilusão com a democracia formal. Do mesmo modo que a decisão tomada pela FCC não foi apenas técnica, suas consequências também são políticas e talvez o maior peso neste sentido seja a falência doo princípio liberal e democrático à liberdade de informação e à diversidade de opiniões. Mesmo o processo que culminou na decisão da FCC expressou uma ausência de debate público ou seu arremedo – afinal, conforme Jeff Kao, engenheiro de software no site Hackernoon, grande parte dos e-mails favoráveis à quebra da neutralidade teriam como origem a Rússia e eram robôs de spam.

IHU On-Line - Qual deve ser o impacto dessa medida para o consumidor?

Marcelo Barreira - A variação no preço das franquias de pacotes de dados, colocando como paradigma de preço a telefonia móvel, seja na velocidade seja no acesso aos conteúdos, fará o consumidor, de um lado e de outro, pagar mais caro. Embora a narrativa em defesa do traffic shaping é de que pagará mais quem usar mais pacotes de dados e pagará menos quem usar menos, temos um frustrante exemplo recente quanto à desilusão desse discurso, especialmente em nossas terras. As franquias de bagagens para voos, além de não baratearem os preços das passagens aéreas, aumentaram a margem de lucro das empresas aéreas.

Em nosso país, os monopólios e a ineficiente proteção ao consumidor fazem os custos dos serviços aumentarem sem uma contrapartida em sua qualidade. O mesmo acontece com a notória e ilegal venda casada de serviço de banda larga com telefone fixo pelas operadoras de telefonia. Uma maneira de contornar essa venda casada tem sido o compartilhamento de redes sem fio entre vizinhos, ou as chamadas telefônicas pela internet por aplicativos, possibilidades atuais que seriam provavelmente muito dificultadas, ou até impedidas, com a quebra da neutralidade da rede.

IHU On-Line - Por que há uma disputa entre aqueles que defendem e aqueles que são contrários à neutralidade da rede? Quais são os grupos que hoje defendem e aqueles que são contrários à neutralidade da rede?

Marcelo Barreira - Há uma disputa política e econômica na esfera pública conforme grupos de interesse. Grupos contrários à neutralidade da rede afirmam, de modo geral, que se deve tratar de modo diferente os diversos tipos de uso da rede, com preços diferenciados segundo a sua finalidade, por exemplo, de acordo com interesses de nível de segurança; se é para uso comercial ou governamental; etc. Neste grupo se encontram as grandes operadoras, tais como a AT&T, a Verizon e a Comcast. Os partidários dessa narrativa defendem que mesmo antes da mudança de posição pela FCC já não havia propriamente uma neutralidade da rede, mas uma broadband neutrality. Ao replicarem pacotes de dados entre si, servidores de hospedagem de arquivos já conseguem uma ampliação diferenciada na largura da banda, o que cria uma maior disponibilidade de transferência de dados e estabelece uma saudável variação de planos e preços de acordo com a maior capacidade de oferecer uma mais ampla disponibilidade de banda.

Outro argumento contrário à neutralidade da rede é que a maior oferta de tráfego de dados na rede tem acarretado um enorme lucro aos produtores de conteúdo. O YouTube exemplifica bem essa tese. Sua maciça oferta de conteúdo – em um mês produz o equivalente a um ano de conteúdo produzido por rádios e televisões – não se traduz em recursos financeiros para os provedores de banda larga, mesmo assim, esses provedores ficam obrigados a defenderem a rede de ameaças, como a prevenção contra vírus e seus ataques DoS (Denial of Service), o que onera as operadoras. Junto a isso, a decisão de 2015 do ex-presidente Obama gerou uma queda de arrecadação nos últimos 2 anos, conforme preconiza Ajit Pai.

Os grupos favoráveis à neutralidade da rede polarizam em cada um dos pontos acima. Um importante grupo que saiu em defesa da neutralidade é formado pelas produtoras de conteúdo para a internet e startups, como NetflixAppleGoogleTwitterTwitchSpotifyAirbnb e SnapMicrosoftAmazon e Facebook. Nesse caso, como teriam de estabelecer acordos com provedores de acesso para que usuários acessem seus produtos, tal situação, mais do que liberdade, geraria uma submissão dessas empresas de conteúdo aos interesses de negócio das operadoras. As operadoras de banda larga, além da receita de acesso à rede, querem um compartilhamento da receita dos serviços que nela acontecem.

Mais do que um espírito comercial e mercadológico, a liberdade não vem do mercado, mas por um processo de interconexões e compartilhamentos. O valor econômico da rede segue esse tipo de liberdade, marcada pela relevância social

Numa analogia, por mais absurda que pareça, seria como se um serviço de delivery tivesse de estabelecer um contrato com montadoras de automóveis por estas fornecerem uma tecnologia de ponta, seus automóveis, isso se assemelharia ao que pleiteiam as operadoras. Por terem montado uma rede de banda larga, elas querem cobrar pelo seu uso. Além do grupo acima de empresas de conteúdo, mais visível, há outros. Dentre estes, há ativistas de direitos digitais, pequenas empresas de tecnologia, além de acadêmicos que conceberam a rede, como Tim Berners-Lee e Vint Cerf, além de outros que produziram tecnologias para a rede, como Steve Wozniak, co-fundador da Apple. Em geral, eles entendem que, ao inverso da posição anterior, foi a crescente relevância social da internet no cotidiano do cidadão comum, sobretudo graças à neutralidade da rede, que acarretou o seu valor econômico na economia de mercado.

Um grupo de ativistas, a Free Press, criou a plataforma Save The internet, exatamente para mostrar o equívoco da visão de que são as grandes indústrias de tecnologia que protagonizam necessariamente a inovação na internet. Desde a sua fundação, a internet se desenvolveu e foi inovadora pela descentralização de sua infraestrutura de cabos e fibras óticas que permitiram e permitem a conexão de banda larga fixa. Essa descentralização se deu, porém, por uma centralidade no usuário-cidadão e não pela ênfase no mercado e sua cumplicidade com o negócio das grandes operadoras e empresas de telecomunicações. A liberdade de tráfego de dados permitiu, então, o mais importante: a conexão colaborativa entre usuários, como no modelo P2P, além do crescimento de pequenas empresas de conteúdo. Mais do que um espírito comercial e mercadológico, a liberdade não vem do mercado, mas por um processo de interconexões e compartilhamentos. Assim, repetimos: o valor econômico da rede segue esse tipo de liberdade, marcada pela relevância social.

A democratização do acesso é o melhor meio de se incentivar a busca pela qualidade e inovação na rede, fazendo o usuário escolher o que melhor lhe convier, numa saudável e equitativa concorrência entre produtos e conteúdo. Embora financiamentos sejam sempre bem-vindos, o argumento de que a inovação pressupõe necessariamente altos investimentos “esquece” as ferramentas, aplicativos e sites surgidos em garagens, como a HP, a Sony, a Microsoft, a Apple, o YouTube, a Amazon e o Google. Tal “esquecimento” compromete o lançamento de novos produtos como esses, pois dificultaria a entrada no mercado de novas e pequenas empresas; empresas que teriam pouca força na negociação com operadoras que privilegiariam empresas mais populares de conteúdo.

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As operadoras precisam diminuir sua interferência no tráfego de dados em banda larga, e não o contrário. A centralidade está no direito digital do usuário, consumidor e cidadão

Marcelo Barreira - As operadoras precisam diminuir sua interferência no tráfego de dados em banda larga, e não o contrário. A centralidade está no direito digital do usuário, consumidor e cidadão. No Brasil, o Marco Civil da Internet, promulgado em 2014, foi o primeiro passo, mas precisamos de muitos outros passos na busca de uma cidadania digital plena. O Estado democrático de Direito há de neutralizar efetivamente a ganância das operadoras e garantir uma liberdade bem diferente da oferecida pelo mercado. A manifestação de pensamento e de informação como expressões dos Direitos Humanos, tornam o serviço de banda larga essencial para a democracia e, por isso, o Estado precisa intensificar políticas públicas de disseminação gratuita de internet banda larga em espaços públicos, sobretudo ante o crescimento da Internet of Things.


Derrubar a neutralidade da rede foi o pior golpe do governo Trump contra a democracia até hoje, por John Nichols.

CHIP SOMODEVILLA AFP
A Comissão Federal de Comunicações dos EUA (Federal Communications Commission – FCC) votou em 14 de dezembro pela revogação da "Primeira Emenda da Internet", desferindo o golpe mais brutal do governo Trump contra a democracia americana até hoje.

Apesar do apoio da esmagadora maioria da população a uma Internet livre e aberta, a maioria da FCC alinhada a Trump obteve um placar de 3 a 2 pela revogação das regras de neutralidade da rede que exigiam que os provedores de serviços de Internet tratassem todas as informações on-line de forma igual. A maioria da comissão revogou, assim, a autoridade da FCC para proteger uma Internet livre e aberta. A presidente da Comissão, Ajit Pai, advogado da indústria das telecomunicações que defendeu a proposta de Donald Trump em debates sobre mídia e democracia, abriu caminho para os provedores criarem “superestradas da informação” para as elites políticas e corporativas enquanto relegam o conteúdo de ativistas e pequenos negócios a “estradas de terra” digitais.

Dirigindo-se ao povo americano no dia em que a FCC desprezou milhões de apelos pela neutralidade da rede, a comissária dissidente Mignon Clyburn afirmou: "O que me entristece é que a agência que deveria protegê-los está abandonando vocês".

Pai e seus pares se uniram para criar o que o ex-comissário da FCC Michael Copps chama de "paraíso do atravessador", onde "nosso diálogo cívico – as trocas de notícias e informações das quais depende uma sociedade realmente autônoma – será ainda mais corroído".

"A concentração das telecomunicações e da mídia causou estragos ao jornalismo investigativo e transformou as campanhas políticas num reality show vulgar e os jornais televisivos em “infotenimento” irresponsável", adverte Copps, que agora trabalha com a organização Common Cause, dedicada às questões de mídia e democracia.

“Não acredito que a democracia possa sobreviver com essa fórmula. Some-se o fato de que nós pagaremos preços cada vez mais exorbitantes por este cenário futuro de restrição e entenderemos por que tantos milhões de americanos entraram em contato com a FCC e com o Congresso pedindo que as regras de neutralidade da rede fossem mantidas”.

Grande parte do debate sobre a revogação da neutralidade da rede tem como foco o prejuízo aos consumidores, e não há dúvida de que abrir o caminho para uma lucratividade sem precedentes por parte das empresas de telecomunicações entrega nosso futuro digital aos mesmos vigaristas que transformaram as plataformas de TV a cabo em extensas terras de excesso comercial. "Os provedores querem transformar a internet em cabo", diz o deputado Ro Khanna (Partido Democrata - Califórnia). "Querem que as pessoas paguem por cada programa ou conteúdo".

Mas o maior custo da eliminação da neutralidade da rede será para a experiência cidadã de diálogo, debate e tomada de decisão. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, diz:

“A internet facilita a organização e amplifica as vozes. Derrubar a neutralidade da rede dificultará a luta contra os interesses de quem está no poder”.

Essa avaliação foi confirmada pelos ativistas que se reuniram em frente à sede da FCC no dia da votação. "O movimento de antiviolência policial não existe sem a Internet aberta", disse o editor e crítico cultural Jamilah Lemieux. "Salvar a rede é uma questão de direitos civis que afeta os asiáticos-americanos de todo o país”, disse Deepa Iyer, membro sênior do Center for Social Inclusion. Symone Sanders, que foi secretária de imprensa da campanha presidencial de Bernie Sanders em 2014 e é hoje comentarista da CNN, disse: "Sem uma Internet aberta e gratuita não há resistência".

Descrevendo a neutralidade da rede como uma questão de justiça racial, social e econômica, o deputado Keith Ellison, (Partido Democrata – Minnesota), explicou que "uma Internet livre e aberta permite a organização e a resistência. E precisamos disso hoje mais do que nunca".

Ellison está certo. Aqueles que resistiram aos instintos mais autoritários e antidemocráticos do governo Trump – em questões desde a supressão de eleitores até a liberdade de imprensa, passando por direitos e liberdades civis – usaram a Internet livre e aberta para se organizar ao longo de 2017. É preciso que continuem a fazê-lo em 2018 – e depois.

Essa é a razão de toda a preocupação entre os ativistas da democracia. Se as agendas das elites puderem ser difundidas a toda velocidade enquanto as ideias, propostas políticas, os protestos e as candidaturas dos dissidentes caminham ao ritmo de cágado, as desigualdades existentes em nossos processos políticos e governamentais serão ampliadas e estendidas. "Não se enganem", afirmou o senador pelo Oregon Jeff Merkley: "A revogação da neutralidade da rede permite que as grandes empresas e os ricos e poderosos que a controlam sufoquem a Internet às suas custas".

O presidente Pai e seus aliados se recusaram a manter um debate aberto e honesto sobre a questão. "Ao contrário dos seus antecessores", observou a comissária Jessica Rosenworcel, "esta FCC não realizou uma única audiência pública sobre a neutralidade da rede". Em uma declaração em que criticava "o processo corrupto que nos trouxe até aqui", Rosenworcel afirmou: "Esta decisão põe a Comissão Federal de Comunicações do lado errado da história, do lado errado da lei e do lado errado do povo americano".

"Isso não é bom. Não é bom para os consumidores. Não é bom para as empresas. Não é bom para quem se conecta e cria online. Não é bom para a força democratizante que depende da abertura da rede. Além disso, não é bom para a liderança americana no cenário global do novo e complexo mundo digital”, disse Rosenworcel sobre o voto da FCC. “Não sou a única a me preocupar. Todo mundo, desde o criador da world wide webaté líderes religiosos e governadores, prefeitos das grandes e pequenas cidades, músicos, atores e atrizes, empresários, acadêmicos e ativistas expressaram seu descontentamento e raiva. Estão chocados com o fato de a agência poder cometer esse erro. Perguntam-se como a FCC pôde se mostrar tão surda. E eles estão preocupados, com razão, com o fato de alguns cidadãos não eleitos poderem tomar decisões tão importantes e de longo alcance sobre o futuro da Internet”.

Mas o voto da FCC será mesmo o fim da internet aberta?

Não. Os defensores da neutralidade da Net irão continuar a lutar no Congresso, nos tribunais e nas urnas para revogar esta decisão. Grupos associados à Voices for Internet Freedom Coalition (Coalizão Vozes pela Liberdade na Internet) – que reúne organizações como Center for Media Justice, Color Of Change, Free Press Action Fund, the National Hispanic Media Coalition, e 18 Million Rising – pretendem lutar pela neutralidade da rede com estratégias legislativas e legais.

E eles têm motivos para ser otimistas.

As vitórias legais do passado mostram que decisões equivocadas da FCC podem ser bloqueadas e revertidas. "Sejamos claros: Ajit Pai não terá a última palavra sobre a neutralidade da rede", diz Craig Aaron, presidente da organização Free Press. “A Free Press pretende processar a FCC com base em um processo corrompido, um raciocínio jurídico profundamente falho, na rejeição intencional de evidências que contradizem suas conclusões preconcebidas e no desrespeito absoluto das contribuições da população. Temos sólidos argumentos para apresentar nos tribunais”.

Os procuradores estaduais também vão acionar os tribunais. Os estados da Califórnia, Nova York e Washington já anunciaram que vão à Justiça – e o procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman, diz esperar que muitos outros estados se juntem à iniciativa.

Observadores legais dizem que até 18 estados podem ir à Justiça. Além das declarações dos procuradores-gerais da Califórnia, de Nova York e Washington, os procuradores-gerais de 15 outros estados haviam assinado uma carta solicitando à FCC o adiamento da votação sobre a neutralidade: Delaware, Havaí, Illinois, Iowa, Kentucky, Maine, Maryland, Massachusetts, Mississippi, Carolina do Norte, Oregon, Pensilvânia, Rhode Island, Vermont e Virgínia.

"Embora tenhamos divergências políticas, estamos juntos hoje como promotores para denunciar a fraude e como defensores do processo democrático", concluía a carta. "É essencial que a Comissão obtenha uma visão ampla e precisa de como as mudanças na neutralidade da rede afetarão a vida cotidiana dos americanos antes que se possa fazer alterações tão abrangentes".

Os dois comissários dissidentes da FCC, Clyburn e Rosenworcel, usaram suas falas antes do voto para encorajar a resistência.

"Não vou desistir - e você também não deveria", disse Rosenworcel. “Se o arco da história é longo, iremos reverter essa decisão em busca de um resultado mais justo. Nos tribunais. No Congresso. Aonde quer que precisemos ir para garantir a neutralidade da rede. Porque seja você conservador ou progressista, você se beneficia da internet aberta. Venha você de uma cidade pequena ou grande, você se beneficia da internet aberta. Se você tem empresa ou uma organização sem fins lucrativos, você se beneficia da internet aberta. Se tem uma startup ou um negócio já estabelecido, você se beneficia da internet aberta. Seja você um consumidor ou um criador, você se beneficia da internet aberta. Se acredita na democracia, você se beneficia da internet aberta”.

Em um dia decepcionante para os defensores da democracia, a comissária concluiu assegurando-lhes que a luta está longe do fim.

"Então, vamos persistir. Vamos lutar. Não vamos parar aqui agora", declarou Rosenworcel. "É importante demais. O futuro depende disso".



Tradução de Clarisse Meireles

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

NOVO EXÍLIO (FOTOGRAFIA), POR ALEXANDRE MEIRA.

"Quando as palavras fogem, as flores falam."
Bruce W. Currie.





"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."







"Temos de ir à procura das pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade."








"Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores."






"As esperanças são como as estrelas: brilham, mas não trazem luz; lindas, mas ninguém as alcança."






"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o."






"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."






"O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação."






"Tenho em mim todos os sonhos do mundo."






"Aprimorar a paciência requer alguém que nos faça mal e nos permita praticar a tolerância."






"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."

SYLVIA (Poema), por MÁLIA PORGADO.

Alma de anêmona:

A sensibilidade da mudança das marés,
Uma dança onde os braços
Transformam-se em bailarina,
Galhos raivosos em uma ventania,
Ou se erguem aos céus gritando porquês.
Alma de sereia:
Ouro e nácar como Marilyn em um biquíni branco,
American Sweetheart
Para quem tem olhos de não enxergar.
Alma de fera:
Um beijo em uma festa,
O veludo das línguas, a entrada tenra
Apenas a um arfar de dentes que tem fome de lábios.
Alma-Ariel,
Carne viva dentro de cascos duros.
Saltou no ar,
Onde nada havia:
Precisava sabê-lo.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O Declínio do Império Militar americano, por Alfred W. McCoy.

171218-Declínio
Ao suplantar os EUA econômica e cientificamente, China precisará defender-se da máquina de guerra de Washington. Qual a estratégia de Pequim para esta defesa. E um possível cenário da III Guerra Mundial
Por Alfred W. McCoy, na edição inglesa do Le Monde Diplomatique | Tradução: Maurício Ayer

Esse texto foi adaptado e expandido a partir do novo livro de Alfred W. McCoy, In the Shadows of the American Century: The Rise and Decline of U.S. Global Power [Nas sombras do século americano: Ascensão e Declílio do Poder Global dos EUA, sem edição em português], Haymarket Books, Chicago, 2017
Nos últimos 50 anos, os governantes norte-americanos estiveram absolutamente confiantes de que poderiam sofrer contratempos militares em lugares como Cuba ou Vietnã sem ter seu sistema de hegemonia global, sustentado pela economia mais rica e o mais sofisticado aparato militar do mundo, afetado. O país era, afinal, a “nação indispensável” do planeta, como a secretária de Estado Madeleine Albright proclamou em 1998 (e outros presidentes e políticos reiteraram desde então). Os EUA gozaram da maior “disparidade de poder” com seus pretensos rivais do que qualquer império que já tenha existido, como anunciou o historiador de Yale, Paul Kennedy, em 2002. Certamente, poderia permanecer como “a única superpotência pelas próximas décadas”, nos assegurou a revista Foreign Affairs no ano passado. Ao longo da campanha de 2016, o candidato Donald Trump prometeu aos seus apoiadores que “nós vamos vencer com força militar… vamos vencer tanto que vocês vão até ficar cansados de vencer”. Em agosto, enquanto anunciava sua decisão de mandar mais tropas ao Afeganistão, Trump asseverou à nação: “A cada geração, enfrentamos o mal, e sempre o superamos”. Neste mundo em rápida mudança, apenas uma coisa era certa: quando era para valer, os Estados Unidos nunca podiam perder.
Não é mais assim.
A Casa Branca de Trump pode ainda estar desfrutando do brilho da supremacia global dos Estados Unidos, mas, do outro lado do condado de Potomac, o Pentágono formou uma visão mais realista de sua decadente superioridade militar. Em junho, o Departamento de Defesa expediu um grande relatório intitulado Avaliação de Riscos em um Mundo Pós-Primazia, opinando que a força militar dos EUA “já não goza de uma posição inatingível em relação a Estados competidores”, e “não é mais capaz de gerar automaticamente uma superioridade militar local sustentável em campo”. Esta avaliação sóbria levou os altos estrategistas do Pentágono à “chocante consciência de que ‘nós podemos perder’”. Cada vez mais, na visão dos planejadores do Pentágono, a “autoimagem de um líder global incomparável” oferece “frágeis fundamentos para uma estratégia de defesa com visão futura… em um contexto de pós-primazia”. Este relatório do Pentágono também alertou que, como a Rússia, a China está “engajada em um deliberado programa para demonstrar os limites da autoridade dos EUA”; veja-se a aposta de Pequim pela “primazia no Pacífico” e sua “campanha para expandir seu controle sobre o Mar da China do Sul”.
O desafio da China
De fato, tensões militares entre os dois países têm crescido no oeste do Pacífico desde o verão de 2010. Da mesma forma que Washington usou sua aliança de guerra com a Grã-Bretanha para se apropriar de muito do poder global daquele império decadente depois da II Guerra Mundial, Pequim começou a usar seus lucros com a exportação para os EUA para financiar o desafio militar ao seu domínio sobre as vias navegáveis da Ásia e do Pacífico.
Alguns números reveladores sugerem que a natureza da futura grande competição por poder entre Washington e Pequim poderá determinar o curso do século 21. Em abril de 2015, por exemplo, o Departamento de Agricultura relatou que a economia dos EUA pode crescer próximo de 50% pelos próximos 15 anos, enquanto a China pode expandir-se 300%, igualando ou superando os Estados Unidos por volta de 2030.
De maneira semelhante, na crucial corrida por patentes globais, a liderança norte-americana em inovação tecnológica está claramente em declínio. Em 2008, os Estados Unidos ainda detinham o segundo lugar atrás do Japão em solicitações de patentes, com 232 mil. A China estava, de todo modo, aproximando-se rapidamente com 195 mil, graças a um explosivo crescimento de 400% desde 2000. Em 2014, a China efetivamente tomou a dianteira nessa categoria crítica com 801 mil patentes, quase a metade do total mundial, comparado com apenas 285 mil para os estadunidenses.
Com a supercomputação agora ocupando um lugar crítico para tudo, desde a quebra de códigos até produtos ao consumidor, o Ministério da Defesa da China superou o Pentágono pela primeira vez em 2010, lançando o supercomputador mais rápido do mundo, o Tianhe-1A. Pequim produziu a máquina mais rápida e no ano passado finalmente venceu de uma maneira que não poderia ser mais crucial: com um supercomputador que tinha chips microprocessadores produzidos na China. A essa altura, o país já tem a maioria dos supercomputadores, com 167 em comparação com 165 dos Estados Unidos e apenas 29 do Japão.
A longo prazo, o sistema de educação estadunidense, essa fonte crítica de futuros cientistas e inovadores, ficará para trás de seus competidores. Em 2012, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico fez exames com meio milhões de adolescentes de 15 anos em todo o mundo. Os de Xangai ficaram em primeiro lugar em matemática e ciência, enquanto os de Massachusetts, “um estado dos EUA de forte desempenho”, ficaram em 20º em ciência e 27º em matemática. Em 2015, a posição estadunidense caiu para 25º em ciência e 39º em matemática.
Mas por que, você pode perguntar, alguém deveria se preocupar com um bando de moleques de 15 anos com mochilas, aparelho nos dentes e cheios de atitude? Porque em 2030 eles serão cientistas e engenheiros em meio de carreira, determinando quais computadores sobreviverão aos ciberataques, os satélites de quem vão escapar de ataques de mísseis, e a economia de quem tem o último lançamento a apresentar.
Estratégias das superpotências rivais
Com seus recursos crescendo, Pequim tem reivindicado um arco de ilhas e águas que vão da Coreia até a Indonésia, região por muito tempo dominada pela Marinha dos EUA. Em agosto de 2010, depois que Washington expressou o “interesse nacional” pelo Mar da China Meridional e conduziu exercícios navais ali para reforçar sua reivindicação, o Global Times de Pequim respondeu com irritação que “a luta livre entre EUA e China sobre o Mar da China Meridional elevou as apostas para se decidir quem será o verdadeiro futuro governante do planeta”.
Quatro anos depois, Pequim ampliou suas reivindicações territoriais sobre essas águas, construiu uma base para submarino nuclear na ilha de Hainan e acelerou a dragagem de sete atóis artificiais para bases militares nas Ilhas Spratly Islands. Quando o Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia decidiu, em 2016, que esses atóis não deram nenhum direito a reivindicação territorial das áreas circundantes, o Ministério de Relações Exteriores de Pequim rejeitou a decisão.
Para fazer face ao desafio da China em alto mar, o Pentágono começou a enviar uma série de porta-aviões em cruzeiros de “liberdade de navegação” para o Mar da China Meridional. Também começou a transferir seus equipamentos aéreos e marinhos de reposição para uma linha de bases do Japão até a Austrália, apostando em fortalecer sua posição estratégica ao longo do litoral asiático. Desde o fim da II Guerra Mundial, Washington tentou controlar a estratégica massa de terra eurasiana a partir de uma rede de bases militares da OTAN na Europa e uma cadeia de ilhas como bastiões no Pacífico. Entre as “extremidades axiais” deste vasto continente, Washington construiu, ao longo dos últimos 70 anos, sucessivas camadas de poder militar – bases aéreas e navais durante a Guerra Fria e, mais recentemente, uma linha de 60 bases de drones que se estende da Sicília até Guam.
Simultaneamente, entretanto, a China conduziu o que o Pentágono chamou em 2010 de “abrangente transformação de suas forças militares” voltada a preparar o Exército Popular de Libertação (EPL) “para uma projeção de poder em um território expandido”. Com “o mais ativo programa de mísseis balísticos e de cruzeiro de base terrestre” do mundo, Pequim pode colocar como alvo de “suas forças nucleares amplamente… a maior parte do mundo, inclusive a parte continental dos Estados Unidos”. Enquanto isso, mísseis acurados hoje fornecem ao EPL a capacidade de “atacar navios, inclusive porta-aviões, no oeste do Oceano Pacífico”. Em zonas militares emergentes, a China começou a enfrentar o domínio estadunidense sobre o ciberespaço e o espaço, com plano de dominar “o espectro da informação em todas as dimensões do espaço de batalha moderno”.
O exército da China desenvolveu um sofisticado poder de guerra cibernética por meio de sua Unidade 61398 e empresas aliadas que “cada vez mais focam… em empresas envolvidas na infraestrutura crítica dos Estados Unidos – sua rede de energia elétrica, gasodutos e abastecimento de água”. Depois de identificar essa unidade como responsável por uma série de roubos de propriedade intelectual, Washington assumiu uma medida inédita, em 2013, de entrar com ações criminais contra cinco altos oficiais cibernéticos chineses da ativa.
A China já realizou grandes avanços tecnológicos que poderiam se provar decisivos em qualquer guerra futura contra Washington. Em vez de competir em todos os flancos, Pequim, como muitos que adotaram tardiamente a tecnologia, escolheu estrategicamente áreas chave para perseguir, em particular os satélites orbitais, que são fulcrais para se defender efetivamente no espaço. Já em 2012, a China havia lançado 14 satélites em “três tipos de órbitas” com “mais satélites em alta órbita e… com mais poder anti blindagem do que qualquer outro sistema”. Quatro anos depois, Pequim anunciou que estava a caminho de “cobrir o globo inteiro com uma constelação de 35 satélites até 2020”, ficando atrás apenas dos Estados Unidos no que se refere a sistemas de satélite operacionais.
Brincando de pega-pega, a China recentemente alcançou avanços audaciosos em comunicação segura. Em agosto de 2016, três anos depois de o Pentágono abandonar sua própria tentativa de segurança por satélite em escala completa, Pequim lançou o primeiro satélite quântico do mundo, que transmite fótons, tido como “invulnerável a hackers”, em vez de contar com as ondas de rádio, mais facilmente violáveis. De acordo com um relatório científico, essa nova tecnologia irá “criar uma rede de comunicações supersegura, potencialmente ligando as pessoas em qualquer lugar”. A China estava planejando, conforme reportado, lançar 20 dos satélites caso a tecnologia comprove seu completo sucesso.
Para vigiar a China, Washington está construindo uma nova rede de defesa digital com avançado poder de armas cibernéticas e robótica aeroespacial. Entre 2010 e 2012, o Pentágono estendeu as operações de drones até a exosfera, criando uma arena para as guerras do futuro que não se parece com nada que tenha acontecido antes. Já em 2020, se tudo correr como planejado, o Pentágono irá cobrir-se com um escudo em três camadas de drones não-tripulados cobrindo da estratosfera até a exosfera, armados de mísseis ágeis, ligados por um sistema expandido de satélites e operado por meio de controles robóticos.
Pesando esse equilíbrio de forças, a RAND Corporation recentemente publicou um estudo, War with China [Guerra com a China], prevendo que até 2025 “a China provavelmente terá mais e melhores armas e maior  número de mísseis, como mísseis balísticos e de cruzeiro; defesas aéreas avançadas; caças de última geração; submarinos mais discretos; mais e melhores sensores; comunicações digitais, poder de processamento e C2 [segurança cibernética] necessários para operar uma integrada cadeia da morte”.
No caso de uma guerra total, sugeriu a RAND, os Estados Unidos devem sofrer pesadas perdas em seus porta-aviões, submarinos, mísseis e aviões das forças estratégicas chinesas, enquanto seus sistemas de computadores e de satélites seriam deteriorados graças ao “aprimorado poder chinês para a guerra cibernética e ASAT [antisatélite]”. Embora as forças estadunidenses pudessem contra-atacar, sua “crescente vulnerabilidade” tem como consequência que a vitória de Washington não estaria assegurada. Em um conflito como este, concluiu o think tank, pode muito bem não haver um “claro vencedor”.
Não se engane quanto ao peso dessas palavras. Pela primeira vez, um dois principais think tanks estratégicos, muito alinhado com as forças militares dos EUA e há muito tempo famoso pela influência de suas análises estratégicas, vislumbrou seriamente uma grande guerra com a China que os Estados Unidos poderiam não vencer.
Terceira Guerra Mundial: cenário 2030
A tecnologia da guerra espacial e cibernética é tão nova, ainda não testada, que mesmo os cenários mais estranhos atualmente imaginados pelos planejadores estratégicos podem logo ser superados por uma realidade ainda difícil de conceber. Em um exercício de guerra nuclear em 2015, o Air Force Wargaming Institute usou uma sofisticada modelagem computadorizada para imaginar “um cenário de 2030 em que a frota de B-52 da Força Aérea era… atualizada com… armas aprimoradas” para patrulhar os céus prontos para atacar. Simultaneamente, “mísseis balísticos intercontinentais novinhos” estão prontos para serem lançados. Então, em uma arrojada jogada tática, bombardeiros B-1 atualizados com “Estações de Batalha Integradas (IBS) completas” deslizam sobre as defesas inimigas para devastadores ataques nucleares.
Esse cenário era sem dúvida útil para os planejadores das Forças Armadas, mas diziam pouco sobre o verdadeiro futuro do poder global dos EUA. De modo similar, o estudo da RAND War with China apenas comparou os poderes militares, sem avaliar as estratégias específicas que cada lado poderia usar em seu benefício.
Eu posso não ter acesso à modelagem computadorizada do Wargaming Institute ou aos renomados recursos analíticos da RAND, mas eu posso pelo menos levar o trabalho deles um passo adiante imaginando um futuro conflito com um resultado desfavorável para os Estados Unidos. Como potência global ainda dominante, Washington deverá espalhar suas defesas por todos os domínios militares, tornando sua força, paradoxalmente, uma fonte de potencial fraqueza. Como desafiante, a China tem a vantagem assimétrica de identificar e explorar algumas falhas estratégicas na globalmente esmagadora superioridade militar de Washington.
Por anos, proeminentes intelectuais chineses da defesa, como Shen Dingli da Universidade de Fudan, rejeitaram a ideia de se contrapor aos EUA com  grande acúmulo de força naval e argumentaram em vez disso a favor de “ciberataques, armas espaciais, lasers, pulsos e outros feixes de energia direcionada”. Em vez de correr para lançar porta-aviões que “serão queimados” por lasers atirados do espaço, a China deveria, segundo Shen, desenvolver armas avançadas “para fazer outros sistemas de comando falharem”. Embora décadas distante de equiparar todo o poder das forças militares globais de Washington, a China poderia, combinando guerra cibernética, guerra espacial e supercomputadores, encontrar maneiras de debilitar as comunicações militares dos EUA e então cegar suas forças estratégicas. Com isso em mente, eis aqui um cenário possível para a III Guerra Mundial:
São 11:59 da noite, na quinta-feira de Ação de Graças em 2030. Por meses, as tensões cresceram entre as patrulhas chinesas e da Marinha estadunidense no Mar da China Meridional. As tentativas de Washington de usar a diplomacia para refrear a China mostraram-se um vergonhoso fracasso entre aliados de longa data – com a OTAN debilitada por anos de apoio hesitante dos EUA, o Reino Unido, agora uma potência de terceiro nível, o Japão com uma neutralidade funcional e outros líderes internacionais frios em relação às preocupações de Washington após sofrer por muito tempo com sua ciber-vigilância. Com a economia estadunidense diminuída, Washington joga sua última carta de uma mão cada vez mais fraca, deslocando seis de seus oito grupos de porta-aviões restantes para o Pacífico Ocidental.
Em vez de intimidar os líderes chineses, esses movimentos tornam-nos mais belicosos. Voando a partir de suas bases nas Ilhas Spratly, seus caças logo começam a zumbir sobre os navios da Marinha estadunidense no Mar da China Meridional, enquanto as fragatas chinesas provocam dois dos porta-aviões em patrulha, cruzando cada vez mais perto das suas miras.
Então explode a tragédia. Às 4 horas, numa madrugada enevoada de outubro, o porta-aviões gigante USS Gerald Ford picota a velha Fragata 536 Xuchang, afundando o navio chinês com todos os seus 165 tripulantes. Pequim exige desculpas e reparaçõesQuando Washington recusa, a fúria da China vem rápido.
Ao bater a meia-noite da Black Friday, quando os ciber-compradores invadem os portais da Best Buy em busca dos fortes descontos nos últimos eletrônicos produzidos em Bangladesh, a equipe da Marinha do Telescópio de Vigilância Espacial em Exmouth, na Austrália Ocidental, entra em choque. Suas telas panorâmicas do céu do sul repentinamente ficam pretas. A milhares de quilômetros dali, no centro de operações do CiberComando dos EUA, no Texas, técnicos das Forças Aéreas detectam códigos binários maliciosos que, embora inseridos anonimamente nos sistemas de armas estadunideneses em todo o mundo, mostram as digitais que identificam o Exército Popular de Libertação da China.
Naquela que os historiadores chamarão de “Batalha dos Binários”, computadores da CyberCom lançam seus contracódigos matadores. Enquanto alguns dos servidores provinciais da China perdem dados administrativos de rotina, o sistema de satélite quântico de Pequim, equipado com a supersegura transmissão por fótons, se mostra impermeável aos hackers. Enquanto isso, uma armada de supercomputadores maiores e mais rápidos subordinados à Unidade 61398 de armamento cibernético de Xangai explode de volta com logaritmos impenetráveis de inédita sutileza e sofisticação, infiltrando-se no sistema de satélites dos EUA por meio de seus antiquados sinais de micro-ondas.
O primeiro ataque aberto é tal que ninguém no Pentágono havia previsto. Voando a 20 mil metros acima do Mar da China Meridional, inúmeros drones MQ-25 Stingray baseados em porta-aviões dos EUA, infectados por malware chineses, de repente disparam todos os seus projéteis sob sua enorme envergadura em delta, enviando dezenas de mísseis letais para mergulhar inofensivamente no oceano, efetivamente desarmando esses armamentos formidáveis.
Determinada a combater fogo com fogo, a Casa Branca autoriza um ataque em retaliação. Confiante que seu sistema de satélites é impenetrável, os comandantes das Forças Aéreas na Califórnia transmitem códigos robóticos a uma flotilha de drones espaciais X-37B, orbitando a 400 quilômetros acima da Terra, para lançar seus mísseis Triplo-Exterminadores em muitos satélites de comunicação da China. A resposta é zero.
Quase em pânico, a Marinha ordena seus destróieres classe Zumwalt a atirar seus mísseis mortais RIM-174 em sete satélites chineses em órbitas geoestacionárias próximas. Os códigos de lançamento de repente se mostram inoperantes.
Enquanto os vírus de Pequim se espalham descontroladamente através da arquitetura de satélites dos EUA, os supercomputadores de segunda-classe do país não conseguem quebrar os códigos diabolicamente complexos dos malware chineses. Com velocidade assombrosa, os sinais de GPS, cruciais para a navegação dos navios e aviões estadunidenses em todo o mundo ficam comprometidos.
Através do Pacífico, oficiais de convés da Marinha se atropelam atrás de seus sextantes, lutando para relembrar as velhas aulas de navegação de Annapolis. Guiando-se pelo sol e pelas estrelas, esquadrões de porta-aviões abandonam suas estações próximas à costa da China e rumam a vapor para a segurança do Havaí.
Um furioso presidente estadunidense ordena um ataque de retaliação em um alvo chinês secundário, a Base Naval de Longpo na ilha de Hainan. Dentro de minutos, o comandante da Base Aérea Andersen em Guam lança uma bateria de supersecretos mísseis hipersônicos X-51 “Surfista” que se elevam a 25 mil metros e então viajam através do Pacífico a 6.400 quilômetros por hora — muito mais rápido do que qualquer míssil de guerra ou ar-contra-ar chinês. Dentro da Sala de Crise de Casa Branca o silêncio é sufocante enquanto todos fazem a contagem regressiva de 30 curtos minutos antes que as ogivas nucleares táticas choquem-se com os rígidos submarinos de Longpo, encerrando as operações navais chinesas no Mar da China Meridional. Em meio ao voo, os mísseis inopinadamente mergulham seus narizes no Pacífico.
Em um bunker enterrado profundamente sob a praça Tiananmen, o sucessor do presidente Xi Jinping, escolhido a dedo, Li Keqiang, ainda mais nacionalista que o seu mentor, está indignado que Washington tenha tentado um ataque nuclear tático ao território chinês. Quando o Conselho de Estado da China vacila ao pensamento de uma guerra aberta, o presidente cita o antigo estrategista Sun Tzu: “Os guerreiros vitoriosos vencem primeiro e depois vão à guerra, enquanto os guerreiros derrotados vão à guerra primeiro e depois buscam a vitória”. Entre o aplauso e o riso, o voto é unânime. É guerra!
Quase imediatamente, Pequim escala de ciberataques secretos para ações abertas. Dezenas de mísseis chineses SC-19 de última geração decolam para ataques em satélites de comunicação chave dos EUA, obtendo um alto índice de mortes cinéticas nessas desajeitadas unidades. Bruscamente, Washington perde comunicação segura com centenas de bases militares. As esquadras de guerra dos EUA em todo o mundo estão no solo. Dezenas de pilotos de F-35 que já estão no ar são cegados quando a tela de seus capacetes equipados com visores aviônicos fica escura, forçando-os a descer a 3 mil metros para ter uma visão clara da terra. Sem navegação eletrônica, eles precisam seguir as rodovias e os marcos terrestres de volta às suas bases como motoristas de ônibus nos céus.
Em meio ao voo de patrulhas regulares ao redor do continente eurasiano, duas dúzias de drones de vigilância RQ-180 repentinamente deixam de responder aos comandos transmitidos por satélite. Eles voam sem objetivo na direção do horizonte e se destroem quando acaba o combustível. Com surpreendente rapidez, os Estados Unidos perdem controle daquilo que sua Força Aérea durante muito tempo chamou de “alto solo definitivo”.
Com a inteligência inundando o Kremlin de informações sobre a debilidade do poder estadunidense, Moscou, ainda um aliado próximo dos chineses, envia uma dúzia de submarinos nucleares classe Severodvinsk através do Círculo Ártico para patrulhas provocativas permanentes entre Nova York e Newport News. Simultaneamente, meia-dúzia de fragatas de mísseis classe Grigorovich da frota russa do Mar Negro, acompanhadas de um número não revelado de submarinos de ataque, dirigem-se ao Mediterrâneo ocidental para fazer sombra à Sexta Frota dos EUA.
Dentro de horas, o aperto estratégico de Washington nas extremidades axiais da Eurásia — a pedra de toque de seu domínio global pelos últimos 85 anos — está quebrado. Em rápida sucessão, os tijolos da frágil arquitetura do poder global dos EUA começa a cair.
Cada arma gera sua própria nêmesis. Exatamente como os mosqueteiros suplantaram os cavaleiros montados, os tanques destruíram as trincheiras e os bombardeiros de mergulho afundaram os navios de guerra, o superior poder cibernético da China cegou os satélites de comunicação estadunidenses que eram os nervos de um aparato militar outrora formidável, dando a Pequim uma assombrosa vitória nessa guerra de robótica militar. Sem uma única vítima de combate em nenhum dos lados, a superpotência que havia dominado o planeta por quase um século é derrotada na III Guerra Mundial.

Três "Contos Maravilhosos" para novos mérito-empreendedores, por Wilson Roberto Ferreira Vieira.


Hoje a grande mídia esforça-se para demonstrar imparcialidade para não se desmoralizar de vez diante de telespectadores e leitores. Diante da crise econômica crônica e da tragédia social brasileira, a mídia é obrigada a abandonar o confortável campo semiótico da dissimulação (simplesmente mentir, omitir ou censurar) para aplicar a estratégia mais trabalhosa da simulação: tem que mostrar as mazelas brasileiras. Mas o desafio é transformá-las em “contos maravilhosos” no sentido dado pelo pesquisador de narratologia, Vladimir Propp – o estudo da estrutura narrativa recorrente em todos contos de fadas. Agora o jornalismo corporativo tenta transformar personagens anônimos da tragédia brasileira em protagonistas de contos de fadas pós-modernos. O “Cinegnose” analisa três contos maravilhosos midiáticos: o conto “a economia alquímica para as massas”, o conto do “presépio vivo de uma moradora de rua” e o conto “a virada maravilhosa de um homem em um economia que cresceu 0,1%”.

O advento da Internet e das redes sociais não trouxe apenas as chamada Fake News, como querem as agências de fact-cheking para livrar a cara da grande mídia. Também obrigou à mídia corporativa a mudar as estratégias de manipulação das notícias.

O campo semiótico da dissimulação sempre foi o campo privilegiado da manipulação midiática: esconder, omitir, mentir, censurar – afirmar que nada existe quando a realidade é encoberta. Se for obrigada a mostrar edita, angula, apresenta apenas as imagens e retira o áudio, retira da escalada de um telejornal,  espreme entre duas matérias frias, inverte as relações de causa e efeito do fato. Enfim, se for obrigada a relatar, mostra a realidade editada, montada e recortada.

Mas num cenário de mídias sociais onde os usuários passam mais tempo empunhando dispositivos móveis do que parados diante da TV ou sentados lendo um jornal, a tradicional dissimulação ganhou um limite: esconder passa a ser igual a tentar agarrar a água. Ela escorre entre os dedos. Os fatos podem vazar num tweet, numa postagem do Facebook e ganhar uma disseminação viral.

Por exemplo, em outros tempos, onde os meios de comunicação de massas eram as únicas fontes noticiosas, certamente episódios como o da galhofa racista do Jornalista William Waack seriam no mínimo deixados em segundo plano e ficariam restritos aos “causos” do folclore do jornalismo. Repercutiu fortemente nas redes sociais, obrigando a emissora a tomar a atitude imediata de afastá-lo.  

O cenário das tecnologias da informação pode ter mudado, porém os interesses da velha mídia, decorrentes da manutenção do seu monopólio, continuam os mesmos. Por isso, hoje o esforço da mídia em aparentar imparcialidade para não se desmoralizar de vez diante dos leitores ou espectadores é muito maior – buscam-se soluções criativas, híbridas, heterodoxas. Às vezes desesperadas.


Nesse momento a mídia corporativa começa aos poucos a debandar do campo semiótico da dissimulação grosseira para se aventurar nas estratégias de simulação – ao invés de esconder algo que existe, simular possuir algo que não tem. Ingressar nesse novo campo semiótico significa abandonar a omissão e o encobrimento puro e simples. Agora a notícia deve mostrar as mazelas de uma realidade brasileira. Se não for pela grande mídia, acabará sendo pelas redes sociais.

Agora, as soluções devem passar pela narratologia, misturando elementos de ficção e não ficção, ou seja, tentar encaixar a realidade na morfologia de um “conto maravilhoso” no sentido dado pelo estruturalista russo Vladimir Propp (1895-1970).

Claro que certamente os jornalistas não têm formação acadêmica tão generalista a ponto de conscientemente aplicarem estruturas narratológicas nas notícias.

Assim como os velhos contos de fadas foram inconscientemente adaptados para cumprir a função ideológica de legitimar a ordem familiar do patriarcado, da mesma maneira os “contos maravilhosos” (estrutura arquetípica dos contos de fadas) são na atualidade irrefletidamente resgatados para simular que fenômenos fantásticos animam tanto a política como a economia.

 Se Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e João e Maria receberam adequações para simular uma ordem supostamente natural da família, hoje a estrutura desses contos de fadas roteiriza as notícias da grande mídia para simular, por trás das crises e desgraças, uma ordem fantástica, mágica.

Principalmente com a proximidade das festas natalinas num cenário de crise crônica, desemprego e demissões em massa com a finalidade de precarizar o trabalho daqueles que pensem em um dia retornar para o emprego perdido.

Vamos analisar aqui três contos maravilhosos travestidos de matérias e quadros jornalísticos que mostram como a mídia corporativa é obrigada a se confrontar com a crise econômica, política e humana que ela própria ajudou a criar nos últimos anos de jornalismo de esgoto. Porém, simulando fantásticos contos de fada para tentar elevar a moral dos desempregados promovidos a "empreendedores".


(1) O conto maravilhoso da economia alquímica para as massas


Doutor em Economia e especialista e finanças, Samy Dana responde e-mails de telespectadores no quadro “Economia Popular” do telejornal SPTV Primeira Edição da Globo São Paulo. Definido pela grande mídia (em matérias de revistas como Exame ou em aparição no extinto Programa do Jô) como um “economista com abordagem criativa”, Dana quer que seus alunos de Administração da FGV usem o “instinto criativo” para serem “caras que mudem o mundo”.


E o leitor pode ter certeza: Dana desfila toda sua criatividade nos seus conselhos de “economia popular” para os telespectadores.


 Na edição de 22/11 o apresentador César Tralli abriu na tela do estúdio a pergunta de uma preocupada telespectadora: ela escreveu que seu marido era assalariado até o ano passado, foi demitido e agora é trabalha como autônomo. Porém, o final do ano está chegando e o 13o salário faz falta. E pergunta: "o quê meu marido pode fazer para isso não se repetir no ano que vem?".


Dany Sana fez o esperado elogio do planejamento, do foco, e, principalmente, da disciplina de reservar um pouco dos rendimentos de cada mês para lá no final do ano disponibilizar esse dinheiro como uma espécie de 13o salário.


Se vivêssemos nos anos 1970 da ditadura militar brasileira, e nos anos do chamado “milagre econômico”, uma pergunta como essa (reveladora da atual perplexidade dos brasileiros diante da radical perda dos direitos trabalhistas) jamais seria colocada no ar, principalmente numa emissora como a Globo. A carta seria jogada na lata de lixo da mesa do editor.


Hoje, a grande mídia é obrigada a se confrontar com as mazelas de um País que vê um abismo sem fundo. E a criatividade do intrépido Dany Sana (capaz de levar um piano para aulas de Administração para instigar o “instinto criativo” nos alunos) é convocada para criar um conto maravilhoso no qual poupança se transmuta em 13o salario. 


Ora, seria cruel demais ser franco com o telespectador e simplesmente admitir a realidade: ACABOU o 13o salário! Junto com sua carteira de trabalho... Vire-se e seja "criativo"... É melhor dourar a pílula com um conto maravilhoso.


Sana está sintonizado com uma espécie de economia alquímica dos novos tempos, na qual categorias econômicas se transmutam em outra numa Economia Política mágica que faria os Irmãos Grimm morrerem de inveja.


Assim como na religião do Empreendedorismo a fé move autônomos, microempreendedores, biscateiros etc. a acreditar que um dia a força de trabalho se transmutará em capital (o salário se transformará em lucro tornando o trabalhador em patrão de si mesmo), da mesma maneira Dany Sana manipula sua pedra filosofal que transmuta metal em ouro – a poupança (a renúncia forçada ao consumo, a única forma do trabalhador acumular riqueza) transforma-se maravilhosamente em 13o salário (antiga gratificação que o Capital pagava como prêmio ao trabalhador).


Categorias econômicas distintas (distintas porque representam as diferenças de classes em um sistema econômico – salário X capital; poupança x lucro) tornam-se magicamente conversíveis.


Divulgação/Polícia Militar de São Paulo


(2) O conto maravilhoso do presépio vivo de uma moradora de rua


“Uma mulher” (assim a grande mídia se referiu à moradora de rua) deu à luz na noite de sábado dia 10 na região do parque do Ibirapuera, em São Paulo. O parto foi realizado por três soldados e um cabo do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar. Foram ao local depois de serem abordados por frequentadores do parque depois que avistaram a moradora de rua em trabalho de parto.


Mais um flagrante da tragédia social brasileira: nos últimos anos o número de moradores de rua na cidade praticamente dobrou - sendo que no Rio de Janeiro o número de moradores de rua com curso superior cresceu 75% em um ano.


Apesar de usar a clássica operação semiótica de dissimulação (omitiu-se que era uma moradora de rua), rapidamente as matérias da grande mídia ao longo do final de semana converteram tudo em uma narrativa de conto maravilhoso. 


O parto foi descrito como ocorrido “ao lado” da árvore de Natal do Ibirapuera (símbolo do fim do ano em São Paulo) e os policiais militares praticamente convertidos em Reis Magos bíblicos. E a árvore de Natal acabou se transformando numa espécie de presépio vivo, com direito a selfies de transeuntes e dos próprios policiais.


Em fotos e matérias de telejornais, as indefectíveis imagens dos policiais posando ao lado da mãe, com um olhar entre cansado e confuso, junto ao seu bebê numa manta térmica.


Uma tragédia social transformada em otimista e inspirador conto maravilhoso de Natal. Certamente para levantar o moral de pessoas como aquelas sem 13o salário que Dany Sana tenta encorajar. Afinal, se empreendedorismo é uma questão de fé na bizarra economia alquímica, nada melhor do que um edificante conto de Natal.


Ou então um conto de final de ano para o telespectador se sentir feliz ao descobrir que tem gente pior do que ele...


E, como não poderia faltar, toda narrativa maravilhosa deve ter uma volta à realidade. No dia seguinte, ao visitarem “a mulher” no hospital, um dos soldados do Batalhão de Trânsito virou-se para ela e disse: “agora procure ajuda... procure sua família...”.


Foto: Mauro Pimentel/AFP


(3) O conto maravilhoso da virada na economia que cresceu 0,1%


Um desses moradores de rua com curso superior no Rio de Janeiro transformou-se em mais um protagonista de um Conto Maravilhoso: um ex-executivo de Recursos Humanos de várias empresas perdeu o emprego e dormia em frente ao Aeroporto Santos Dumont, deixando seus pertences em uma agência bancaria na qual tem conta.


O caso do morador de rua Vilmar Mendonça, 59, já era conhecido pela grande mídia com matérias na Folha e Portal de notícias Uol no meio do ano – clique aqui. Certamente, Vilmar virou uma “informação de pauta”, em modo stand by, à espera da futura pauta da “recuperação” da economia brasileira.


Pois esse momento chegou. Nesse final de ano em que a mídia corporativa tenta levantar o astral comemorando o colosso de crescimento de 0,1% (com muitas matérias mostrando imagens de ruas lotadas no comércio popular da região da rua 25 de Março, São Paulo), eis que o ex-executivo sem teto é convocado com o timing da “virada” – a reviravolta de Vilmar Mendonça que começou por meio de uma entrevista a uma agência de notícias francesa que viralizou nas redes sociais. Com a repercussão, pessoas ofereceram abrigo, dinheiro e “até pedidos de casamento” – clique aqui.


Com a notoriedade virou microempreendedor: tornou-se cooperado em uma consultoria de contabilidade.


Mais uma vez, a matéria lembra a Morfologia do Conto Maravilhoso do pesquisador Vladimir Propp: a separação brutal (crise, desemprego), morte simbólica (ex-executivo sem-teto) e renascimento simbólico (como um microempreendedor).


Sentindo-se vitorioso, diz que já poupou R$ 30 mil. Certamente fez a lição de casa do professor Samy Dana: já conseguiu o seu 13o salário. Agora espera ver a força de trabalho se converter em capital.


Talvez ele próprio seja o elo perdido: o  0,1% que a mídia corporativa tanto comemora...