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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Entre a manipulação da Bíblia e a posse da Vagina, por Eliane Brum.




O levante das mulheres contra a cultura do estupro no país governado pelo interino Michel Temer (PMDB) e pelo Congresso mais retrógrado desde a redemocratização forma o retrato mais preciso desse momento histórico tão particular do Brasil. A oposição atual não é entre um governo chamado de “golpista” e um governo que já foi apresentado como “popular”. Ou entre a presidente afastada pelo processo de impeachment e o vice que conspirou para afastá-la. O embate é entre o Brasil que emergiu das manifestações de junho de 2013 e o Brasil que se agarra aos privilégios de classe, de raça e de gênero. É esse o confronto político mais amplo que determina o curso dos dias.
Nem Temer, PMDB e partidos aliados representam todas as forças conservadoras de um lado, nem Dilma Rousseff, Lula e o PT são capazes de representar o outro campo. Como a Operação Lava Jato já mostrou, com todas as críticas que se pode – e se deve – fazer aos seus flagrantes abusos e aos personalismos inaceitáveis de alguns servidores públicos, PMDB e PT são, em alguns aspectos cruciais, mais semelhantes do que diferentes. Em alguns aspectos, obviamente não todos, mais sócios que se desentenderam do que opositores de fato políticos, no que a política tem de mais profunda, que é a sua potência transformadora. É fundamental compreender onde de fato está a oposição hoje, para além do Impeachment x Golpe.
Esta é a parte que Temer, o PMDB e as demais forças que apoiaram o impedimento de Dilma Rousseff parecem não ter compreendido. E também por isso as primeiras semanas do Governo provisório tiveram tantos recuos e pelo menos duas baixas de ministros. Apesar da sobra de esperteza dos protagonistas, eles parecem de fato ter acreditado que o país pudesse simplesmente retroceder e as velhas forças se rearranjarem mais uma vez – sem oposição. Assim como ter acreditado que a oposição, a partir de certo momento, era o PT. Acreditaram na falsa polarização, sem perceber que o país hoje é muito mais complexo.
“Homens brancos e velhos”. A reação ao ministério de Temer mostrou de imediato de onde viria a oposição. Gênero, raça e protagonismo jovem. A política para além dos partidos, a política que em 2013 expulsou os partidos das ruas.


Ao nomear a nova secretária das Mulheres, Temer mostrou que ou tem uma deficiência cognitiva ou obedece a mandamentos menos declarados
Duas fotografias, um abismo. Nas ruas do país, as mulheres escrevem na pele nua que seus corpos lhe pertencem ao protestar contra a cultura do estupro depois das violações coletivas de duas meninas, uma no Rio, outra no Piauí. O que Temer faz? Chama para ocupar a rebaixada secretaria de Políticas para Mulheres uma evangélica, Fátima Pelaes (PMDB), que já se declarou contra o aborto mesmo em casos de estupro. Ou o presidente interino tem uma deficiência cognitiva ou obedece a mandamentos menos declarados.
Ao extinguir justamente o ministério que contemplava as políticas de gênero, raça e direitos humanos, e ao extinguir o Ministério da Cultura, que fomenta a expressão dessas políticas, Temer já havia demonstrado que nem ele nem as forças que o apoiaram compreendem o país que tanto querem governar. Teve de correr atrás do prejuízo e de mulheres que concordassem em fazer parte do governo. Foi obrigado a recuar e a devolver o Ministério da Cultura à Esplanada.
Esses recuos são mais reveladores do que os ministros demitidos após o vazamento de gravações em que teriam conspirado contra a Lava Jato, porque apontam para as forças que demandam a ampliação da política. E que denunciam a crise de representação mais profunda. É por estas forças, estas políticas que não há como voltar ao Brasil do passado. O presente é outro, o presente é fluxo. É possível que os esquemas de corrupção se rearranjem de outra maneira, como ocorreu na Itália. Mas é bastante improvável que mulheres, negros e LGBTs parem de questionar os privilégios de gênero e de raça, assim como os crimes de gênero e de raça. Os povos da floresta são uma outra força, ainda obscurecida, que deverá ganhar mais e mais visibilidade com o avanço da crise climática.
Este Brasil que vai às ruas protestar contra a cultura do estupro, contra o genocídio da juventude negra, contra a corrosão das escolas públicas, onde estudam os mais pobres, representa a grande potência criativa deste momento. Muito se tem falado sobre a perda das conquistas da década passada, evidenciada por fatos como os mais de 11 milhões de desempregados atuais. É importante perceber, porém, que há ganhos que não retrocedem. A primeira geração de jovens negros que chegou à universidade não vai deixar de pressionar pela ampliação dos acessos. Assim como as mulheres que se empoderaram ao receber o Bolsa Família já se tornaram outras.
É fundamental identificar onde está o movimento. E onde está a paralisia. Ou mesmo o retrocesso. Descolados do Brasil que se move, nem o governo nem o Congresso têm resposta. Em parte, porque sequer entendem o que dizem as manifestantes que ocuparam as ruas.
Dilma Rousseff e o PT, empenhados na disputa do impeachment, tampouco têm possibilidade de representar essas forças. Há enorme potencial simbólico no fato de uma mulher assumir a presidência da República pela primeira vez. Mas é importante lembrar da escolha feita por Lula e pelos marqueteiros para turbinar esse simbolismo. Dilma foi apresentada como “mãe” dos pobres, “mãe” do povo, “mãe” do PAC. Nada mais arcaico hoje do que reduzir uma mulher à maternidade. E reduzir a maternidade às mulheres. Neste sentido, a oportunidade – preciosa – de ampliar a potência dos significados de uma mulher na presidência foi perdida, ao se optar por reforçar os velhos estereótipos, sempre redutores.


Dilma Rousseff pode até colar nos protestos contra a cultura do estupro, mas não representa o movimento
É fato que Dilma nunca se adaptou bem a esse modelito marqueteiro, mas também é fato que usou desse discurso sempre que lhe foi conveniente. Também vale lembrar que, como presidente, Dilma Rousseff recuou várias vezes na esfera dos direitos das mulheres e dos LGBTs para não perder o apoio primeiro dos eleitores religiosos, depois da bancada evangélica no Congresso. Na campanha eleitoral que a tornou presidente pela primeira vez, em 2010, sofreu um ataque criminoso cuja origem ainda precisa ser melhor apurada, com a difusão de que era “abortista” e “assassina de fetos”. José Serra, então candidato a presidente pelo PSDB e hoje ministro das Relações Exteriores do governo Temer, empenhou-se em aproveitar o ataque vindo das catacumbas ou de um lugar que merece ser melhor apurado, apregoando que tinha “Deus no coração”. Em seu programa eleitoral, mulheres grávidas desfilavam pela tela porque o candidato prometia cuidar dos bebês mesmo antes de nascerem.
A campanha eleitoral de 2010 marca o momento em que o debate foi rebaixado, com enormes consequências. Dilma elegeu-se a primeira mulher presidente, mas para isso escreveu uma carta pública declarando-se “pessoalmente contra o aborto”. Nela, comprometia-se a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema. Quem saiu a defendê-la pelos templos evangélicos foi, entre outros, Eduardo Cunha (PMDB). O deputado que lideraria o processo de impeachment da presidente garantiu a pastores que a então candidata merecia o voto evangélico porque era contra o aborto.
Não volto a lembrar deste fato por apego à redundância, mas porque sem compreender o que aconteceu com o país naquele momento não me parece possível compreender o cenário atual. Nem a profundidade da “primavera feminista” nas ruas. A campanha eleitoral de 2010 é um marco da ocupação do poder pelos evangélicos fundamentalistas, aliados a outras forças conservadoras, assim como de seu crescente poder de pressão. Naquele momento se estabeleceu que o corpo das mulheres seria a moeda de chantagem política dali em diante. Dilma rendeu-se primeiro em nome da vitória eleitoral, depois, da tal “governabilidade”. Conhecemos bem o resultado da “governabilidade” e a fidelidade dos aliados de ocasião.
Assim, as manifestações contra a cultura do estupro têm ainda mais ressonância do que pode parecer à primeira vista. Se as mulheres se apropriarem de seus corpos, será preciso encontrar outra moeda de barganha no Brasil atual. É de estupro que se fala, mas é ainda mais que está em jogo.


Os corpos das mulheres são a moeda de chantagem do momento, por isso precisam ser mantidos como objetos
Se há este Brasil que se move ocupando as ruas, há um outro que também se move. É onde está, de certo modo, a “situação”. Também neste sentido, a reação aos estupros coletivos foi um sinalizador precioso. Como ninguém, ou pelo menos quase ninguém, pode defender um estupro, a disputa se deu em torno do ser ou não um estupro. Assim como das mulheres cujos corpos têm “valor”. Neste discurso, se os corpos têm “valor”, não poderiam ser violados. Mas, se os corpos não têm “valor”, não seria considerado um estupro mesmo quando violados. O valor é determinado principalmente pelo julgamento das escolhas morais e estéticas dessas mulheres, mas também pela sua raça e classe.
Ter valor diz respeito, em qualquer um dos casos, a um corpo convertido em objeto. Quando a palavra de uma mulher ao dizer que foi estuprada não é escutada, ou é colocada em dúvida, o que se reforça é que objetos não têm voz. É importante perceber também que os corpos das mulheres só podem virar moeda eleitoral ou moeda de chantagem política, como acontece mais explicitamente desde a campanha eleitoral de 2010, quando vistos e tratados como objetos.
A desobjetificação das mulheres é, portanto, ameaçadora à manutenção dos privilégios de quem ocupa o poder ou deseja ocupá-lo. Ou alguém acredita que deputados como Eduardo Cunha (PMDB) e o clero evangélico do Congresso estão de fato preocupados com a vida do feto quando tentam impedir as mulheres de fazer aborto legal? Ou quando determinam que família é homem com mulher?
É preciso ser mais do que ingênuo para acreditar na sinceridade dessa motivação moralista. Estão preocupados, sim, em manter o comando da Casa da Moeda. Assim, as mulheres que cantaram num show de Caetano Veloso – “eta, eta, eta, o Eduardo Cunha quer controlar a minha buceta” – têm toda razão. Cunha não só quer, como precisa.
A bancada evangélica do Congresso chegou rapidamente a conclusão que a melhor moeda, pelo menos no momento, é o corpo das mulheres. Que esse controle sobre o corpo das mulheres venha travestido de religião e justificado por uma interpretação fundamentalista da Bíblia é estratégia, não princípio. Quando nos referimos a essa estirpe de parlamentares como “conservadores”, confere-se a eles uma seriedade que não têm. Do mesmo modo, chamar de Bancada da Bíblia acaba sendo menos uma ironia – e mais um reconhecimento equivocado de que a Bíblia de fato teria importância. Na prática, a Bíblia é mais um instrumento de manipulação, o que deveria ofender os evangélicos que levam a sério os fundamentos de sua crença. Uma parte do clero evangélico no Congresso leva seus princípios religiosos tão a sério quanto levam o mandamento “não roubarás”.


A escolha de uma evangélica não demonstra uma distração política de Temer, apenas aponta onde ele acredita estar a força
O aborto é o grande tema em disputa por essa razão. Se uma mulher é tão dona do seu corpo que pode interromper uma gestação, seu corpo já não pode ser objeto de um outro. Já não pode ser moeda. É também por isso que a maternidade precisa ser tão valorizada como destino sagrado das mulheres – e nisso uma interpretação religiosa da Bíblia é feita sob medida. Assim, nem de longe a escolha de uma evangélica que já se posicionou contra o aborto em caso de estupro para comandar a secretaria das Mulheres pode ser considerada uma distração política de Temer. Que depois de ter calculado todas as variáveis ele tenha feito essa escolha, mesmo com as ruas ocupadas por ativistas, só aponta onde o presidente interino acredita estar a força.
Mas Temer, o homem que tão bem calculava, já não calcula como antes. A nomeação foi publicada no Diário Oficial de 3 de maio, mas o presidente ainda pode voltar atrás. A reação das feministas foi mais forte do que Temer e os seus acreditaram que seria. Para completar, a imprensa denunciou que Fátima Pelaes é investigada num esquema de corrupção. Se Temer voltar atrás mais uma vez, será mais um recuo de um governante que desde a nomeação do ministério demonstra não entender o país que governa, atarantado entre forças opostas.
A construção de redes de comunicação, como a Record, assim como a ocupação de redes já existentes, por certas igrejas evangélicas, é a outra ponta desta arquitetura que cada mais influencia a vida cotidiana do país. Quem grita “Globo golpista” precisa ampliar um pouco mais o seu olhar. Não dá para entender este Brasil que cada vez mais é “situação” sem compreender a brilhante estratégia de ocupação de poder por parte dos ditos evangélicos. É de poder que se trata, poder para muito além da religião. E, se observarmos a história recente, essa ocupação de poder é acelerada.
Acreditar que o atual Congresso não representa o Brasil é um equívoco. Antes fosse. Pode não representar as mulheres nas ruas, assim como outros movimentos e setores mais progressistas. Mas há um Brasil que sem dúvida representa. E esse Brasil também se move. E é forte. Quando a maioria dos parlamentares votou pela abertura do impeachment da presidente em nome de Deus e da Família, usavam a mesma linguagem que uma parte considerável da população brasileira.
Também neste sentido os protestos contra a cultura do estupro são bastante iluminadores. É significativo que as ruas de capitais brasileiras tenham sido tomadas por manifestantes reivindicando a posse do corpo. Mas é preciso prestar atenção também aos vídeos, com grande audiência na internet, e aos protestos na comunidade onde ocorreu o crime, em que homens levantaram cartazes: “Não houve estupro!” ou “Orgia não é estupro”.
Nos vídeos são apresentadas “provas” morais para defender a tese de que não foi estupro, como as roupas que a vítima vestia e sua liberdade sexual. Também apresentam como "prova" o fato de que um estupro não seria tolerado pelo tráfico, numa referência a quem ocupa o lugar de lei em parte das favelas. Há outro ponto comum importante em vários desses discursos disseminados na internet: a ideia de que defesa da menina estuprada é feita por “comunistas” – ou por “comunistas dos direitos humanos”. Aqui também há uma ligação entre corpo da mulher e política que não pode ser descartada apenas pela precariedade do discurso.
Uma organização criminosa teria decretado a morte não dos estupradores, mas da menina estuprada. Em entrevista à Ponte, site de jornalismo especializado em direitos humanos, justiça e segurança pública, a socióloga Camila Nunes Dias, que pesquisa o crime organizado no Brasil, contrapõe-se ao mito de que o estupro é condenado por criminosos: “(Estes grupos de crime organizado) são profundamente conservadores, machistas e homofóbicos, e isso muitas vezes se minimiza na análise da sua atuação nas prisões e comunidades”. E, em outro momento: “Por mais que se matem uns aos outros, policiais e bandidos têm visões de mundo muito parecidas”.


Para uma grande parcela dos homens brasileiros, o gênero é o único privilégio ao seu alcance
O estupro atravessa todas as classes sociais. Os casos de violência sexual contras mulheres na faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), assim como em diversas outras universidades cujos estudantes são majoritariamente de classe média e alta, são apenas um dos exemplos de que a cultura do estupro é disseminada no país. Mas sempre vale a pena compreender as particularidades pelas quais essa cultura se estabelece nas diferentes realidades. Em especial quando se situa a disputa política atual a partir do que me parece central: o questionamento dos privilégios.
Na trajetória de alguns movimentos do século 20, assim como de alguns partidos, todos os privilégios eram contestados, menos o de gênero. A história dos sindicatos no Brasil, marcada pelo machismo e pela homofobia, precisa ser enfrentada também a partir deste recorte, para que algumas relações possam ser esclarecidas. Há muitos depoimentos que ainda virão à tona. Esta, como tantas outras, é uma história muito mal contada.
É preciso lembrar ainda que, para uma grande parcela dos homens brasileiros, o único privilégio que detém é o de gênero. Como se sabe, não é fácil abrir mão dos privilégios, mais ainda se este for o único num país tão desigual. O discurso moralista sobre o corpo das mulheres encontra um terreno fértil nas camadas mais pobres da população. E este é um viés fundamental na compreensão da ascensão de algumas igrejas evangélicas. Se a manutenção do privilégio de gênero tiver uma justificativa edulcorada, referenciada pela Bíblia, nada mais atraente. Não só mantém o privilégio como ainda é um homem “de bem” por mantê-lo. Quem vai discutir com Deus, afinal?
São muitos pontos para ligar. Os Brasis se movem. As mulheres que foram às ruas nos últimos dias acertaram em muito mais do que parece.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Pequeno manual de guerrilha antimídia (2): pegadinhas e trolagens, por Wilson Roberto Vieira Ferreira






O jornalista Pedro Bial rugindo de quatro no chão, junto com outros “pacientes” numa sessão de terapia de um “famoso psicólogo” que depois revelou-se falso – um artista plástico norte-americano especialista em “pegadinhas” para desmoralizar a mídia; links ao vivo da TV Globo sendo invadidos por ativistas gritando “ Fora Temer!” ou “Globo golpista!”; falsas mobilizações convocadas na Internet para enganar jornalistas em Portugal. Estamos no campo das guerrilhas antimídia, guerra semiótica de contra-comunicação através de táticas como “ media prank” (“pegadinhas”) ou “cultural jamming” (“trolagens”). Depois que o atual sistema político-partidário for implodido pelo complexo jurídico-midiático (ministérios públicos+Judiciário+Globo) restará às esquerdas não apenas as ruas, mas a oportunidade de sistematizar guerrilhas semióticas contra o ponto fraco da nova hegemonia: a grande mídia.

Como de costume, o historiador e comentarista da rádio Jovem Pan Marco Antonio Villa abriu a agenda que o prefeito de São Paulo Fernando Haddad disponibiliza na rede. E como de hábito, gritou escandalizado no programa de rádio: “está escrito o seguinte: a partir das 8h30, despachos internos. O resto está em branco! Branco! Não há nada!”, como fosse a evidência da “incapacidade de alguém pouco afeito ao trabalho”.

Só que Haddad preparou uma “pegadinha” no solerte historiador. Cansado das críticas diárias nos últimos três anos, o prefeito substituiu sua agenda pela do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), com quem o comentarista mantém relações, digamos, cordiais.

Após a desmoralização ao vivo do histérico comentarista da Jovem Pan, Haddad voltou a publicar a agenda correta com os compromissos do dia.

O que o prefeito de São Paulo fez foi aplicar uma simples peça de guerrilha semiótica – conjunto de táticas que ajudam a demonstrar, em tempo real, o modus operandi de uma grande mídia onde o papel dos repórteres, editores e colunistas nada mais é do que encaixar, a todo custo, os fatos em uma narrativa já pré-estabelecida nos aquários das redações.

O cachimbo entorta a boca


Ao longo desses dez últimos anos (principalmente com a implementação do que chamamos de “bombas semióticas” a partir de 2013 – clique aqui), a grande mídia sempre se mostrou bastante vulnerável a esses tipos de “pegadinhas”, muitas vezes de forma involuntária, como foi demonstrado nos episódios do “falso estudante do Enem” (clique aqui) e do “tem alemão no campus” (clique aqui).  

A necessidade diária de encaixar rapidamente qualquer acontecimento a uma narrativa pronta estressa jornalistas que sempre vivem no fio da navalha das próximas “barrigas”, atos falhos, deslizes, trocadilhos involuntários etc., principalmente no ambiente atual das mídias ao vivo, on line e em tempo real.






O costume do cachimbo é que entorta a boca. Jornalistas parecem estar sempre trabalhando no modo automático, criando uma espécie de traquejo onde veem em qualquer fato um índice, uma evidência de confirmação de uma hipótese pré-existente. O que os torna extremamente vulneráveis a qualquer ação organizada de guerrilha anti-mídia, como já foi demonstrado no histórico do ativismo anti-midiático que veremos adiante.

Essa foi uma evidente oportunidade perdida nesses últimos anos  onde as estratégias de comunicação do PT ou do Governo Federal deveriam implementar como contra-ataque a guerrilha semiótica. Assim como o fez Fernando Haddad em um exemplo isolado.

Implosão do sistema político-partidário


Após o afastamento da presidenta Dilma e a aposta alta do PGR (Janot pediu a prisão de Sarney, Jucá e Calheiros) ameaçando implodir o sistema político-partidário brasileiro, ficou claro para os analistas o projeto maior por trás da Operação Lava-Jato de Sérgio Moro: o fim da política e a hegemonia de uma ordem jurídico-midiática – ministérios públicos+Judiciário+Globo.

A velha ordem de coronéis provincianos é lenta e imprevisível demais para implementar as amargas medidas econômicas neoliberais. Além de que essas medidas são impopulares demais para resistirem a um debate político-eleitoral.

Uma nova ordem futura, sob os escombros do sistema político-partidário atual, contará com o necessário apoio da grande mídia para tornar verossímil o remédio das medidas impopulares tais como fim dos direitos trabalhistas, brutal reforma previdenciária, arrocho salarial, desmonte do SUS e programas sociais etc.

E, claro, assim como na Itália onde a implosão do sistema político-partidário com a Operação Mãos Limpas (referencia da atual Operação Lava-Jato) levou o barão midiático Berlusconi ao poder, no Brasil espécimes midiáticos como Dórias, Datenas ou Hucks poderão se tornar futuros líderes carismático-midiáticos. Como sempre, prometendo “renovação completa na política”.






Esse é o cenário futuro pós-implosão do sistema PT-PSDB-PMDB, um cenário onde medidas impopulares serão implementadas por instituições afastadas do escrutínio eleitoral com o apoio da grande mídia para torna-las um mal necessário para a opinião pública.

 Denúncias nas redes e em mídias alternativas e as ruas serão o que restará para as esquerdas. Mas é necessário atacar os pés de barro dessa ordem: a grande mídia e seus cães sabujos jornalistas. Por isso, mais uma vez, apresenta-se a oportunidade de aplicar um organizado contra-ataque de comunicação: a guerrilha semiótica.

O objetivo: desmoralizar e desconstruir ao vivo a narrativa da grande mídia.

Guerrilha antimídia


Podemos perceber aqui e ali sinais da consciência da necessidade dessa estratégia, por assim dizer, anárquica de se contrapor ao poder midiático. Além da iniciativa isolada da pegadinha do prefeito Haddad, observamos uma crescente intervenção em links ao vivo, especialmente da TV Globo: ativistas invadindo o enquadramento da câmera gritando frases como “Fora Temer” ou “A Globo apoiou a ditadura”. Alguns aparecem segurando cartazes como fossem papagaios de pirata dos incomodados repórteres.

Desde a publicação do livro Steal This Book (“Roube esse Livro”) de Abbie Hoffman em 1971 (um manual de técnicas de ações anti-mídia, governo e corporações), o ativismo contra a grande mídia acumulou uma série de estratégias e dispositivos que podem ser agrupados em duas categorias principais: media prank (“pegadinhas”) e culture jamming (“trolagens”).

(a) Media Prank


Media prank ou “pegadinha” é um tipo de evento midiático perpetrado por certos discursos encenados, pseudoeventos ou falsos comunicados a imprensa com o objetivo de enganar jornalistas para que estes produzam notícias errôneas ou falsas (“barrigas”). 

Em 1995 o telejornal Bom Dia Brasil da TV Globo apresentou uma notícia sobre um terapeuta internacionalmente reconhecido pela sua “Terapia do Leão” chamado Baba Wa Simba que estaria vivendo em Nova York. Apresentado pelo jornalista Pedro Bial, a matéria documentou uma demonstração da terapia para que homens e mulheres desenvolvessem “seu lado animal” e liberassem “instintos reprimidos”.






Viu-se diversos pacientes de quatro no chão urrando, grunhindo e disputando um pedaço de carne crua que Bamba Simba jogava. Pedro Bial participou dessa demonstração, de quatro no chão e urrando com os demais “pacientes”.

Depois, o choque. Tudo era uma simulação. Sequer Bial apurou minimamente quem era “Baba Simba”. O terapeuta, na verdade, era o artista plástico Joey Skaags, famoso nos Estados Unidos pelas media pranks que apronta para desmoralizar TV e jornais – clique  aqui e veja o vídeo no site de Joey Skaggs.

Outro exemplo foi a “pegadinha” do “abraço corporativo”. Em 2009 o jornalista Ricardo Kauffman criou o personagem Ary Itnem Whitaker, um executivo de relações humanas que estaria no Brasil representando uma confraria britânica que defendia a chamada “terapia do abraço” para humanizar as metrópoles e as organizações.

Concedeu entrevistas a rádios, TVs e jornais, mostrando como o jornalismo declaratório da mídia torna-se isca perfeita para essas “pegadinhas” por estar ávida para encontrar personagens perfeitos que se encaixem nos scripts pré-estabelecidos. Sequer os repórteres pensaram em checar a procedência da tal confraria - sobre isso clique aqui.

O que torna a grande mídia ainda mais vulnerável ao media prank é a necessidade dos eventos serem “noticiáveis”: facilidade logística, press kits, informações de pauta detalhadas que facilite o trabalho do repórter – quem entrevistar, email, telefones etc.

Uma ação de media prank organizada, sistemática e politicamente orientada desmoralizaria a grande mídia, principalmente em épocas de mídia espontânea e viralização por meio de redes sociais.




(b) Culture Jamming


Culture jamming ou “trolagem” (ou “comunicação de guerrilha”) é uma tática usada por muitos ativistas anti-consumismo para subverter a cultura midiática e suas instituições como a publicidade e relações públicas corporativas, o conformismo e tentam expor os métodos de dominação financeira e política.

O objetivo é criar ruído, interferência ou, como diz o conceito, atrapalhar o fluxo normal da informação da grande mídia para a opinião pública por meio da exploração de quatro sentimentos: choque, vergonha (principalmente alheia), medo e raiva. Para teóricos como Abbie Hoffman, seriam os principais catalisadores das mudanças sociais.

Há diversas técnicas como, por exemplo, a criação de memes onde logos corporativos são parodiados para expor suas verdadeiras intenções como os arcos do McDonald’s desenhados de forma sombria ou o logo da Esso com cifrões substituindo os “s”.

Porém, o mais politicamente interessante são as invasões de links ao vivo de TV. Pessoas segurando cartazes “Fora Temer” e jovens invadindo o campo das câmeras com palavras de ordem anti-Globo é um bom início. Ainda são práticas isoladas que deveriam ser sistematizadas para criar uma variação de práticas de intervenção.

Um bom exemplo foi a mostrada por ativistas antiglobalização em Lisboa. Para furar o bloqueio midiático, através de redes sociais fizeram uma simulação de uma manifestação supostamente a favor da política de austeridade imposto pela “Troika” (Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia) a Portugal.

Os jornalistas foram na onda e, depois, descobriram amargamente que se tratava de uma estratégia de atrair a atenção dos portugueses para o verdadeiro manifesto. Diante das câmeras em links ao vivo, os manifestantes gritavam diante dos surpresos jornalistas: “Que se lixe a Troika!”.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O filme Aquarius e o sucesso internacional, por Urariano Mota.


Por Urariano Mota
Quando este artigo se publicar, Aquarius terá recebido uma consagração mundial até hoje não alcançada por filme pernambucano. Na quarta-feira em que escrevo, não sei se ele terá o prêmio máximo em Cannes. Mas a esta altura já é conhecido o sucesso da crítica de cinema e política, a partir do protesto da equipe do Aquarius  contra o golpe no Brasil. Foi lindo ver a capa de jornais da Europa aos Estados Unidos com a cara dos nossos artistas. Antes, no tempo da Rádio Jornal dos anos 50 e 60, era Pernambuco que falava para o mundo. Agora, não, com Kleber Mendonça é o Brasil que fala para a sensibilidade e denúncia onde houver gente. Perdoem o tom ufanista, típico de recifense, mas não encontro outro.
No entanto, mesmo agora não posso esquecer as resistências que eu possuía em relação ao chamado “cinema pernambucano”. Em dois parágrafos tentarei explicar a razão.
Eu sempre quis e esperei que entre nós houvesse um cinema de Nelson Pereira dos Santos, de Vidas Secas e Memórias do Cárcere, por exemplo, ou  Cidade de Deus, ou daquela obra genial Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou de imagens  próximas a O Pagador de Promessas. ”Faz tempo”, sei que estão dizendo. Respondo que o passado fecundante não passa. O meu erro era de outra natureza. É que para mim o grande cinema tinha a ver com a literatura, com o desejo que o filme devia ter com a humanidade total da obra literária. Mas estamos falando de cinema, de imagens, “de outra linguagem”, poderia ser dito. Ainda assim resistia aquela ambição de querer para nós a profundidade do cinema argentino, por exemplo, cujos diretores mantêm boa vizinhança com os seus escritores.
Daí a minha implicância, peitica, com o cinema de Pernambuco. Para mim, em sua franca maioria ele era iletrado. Quero dizer, ele não sabia nada do mundo fundamental da literatura. Os seus roteiros eram precários, com personagens mal realizados (mas “estamos falando de cinema”). A sua realidade era lúmpen, a pretexto de mostrar o real popular.
O que dizer disso? Talvez o meu conceito de esperança e ambição não batesse com a realidade. E quando isso acontece, o conceito tem sinais de um preconceito, ou de uma inadequação à moda, movimento e movie. Uma rejeição ao movie árido de poesia nas telas. Então a política me acordou.  Quando vejo a direita no Brasil cair em campo contra o filme Aquarius numa repetição, pois a direita é um longo replay, do que fizeram contra Dom Helder Câmara para que ele não fosse premiado com o Nobel da Paz, quando leio a repetição dos golpes conservadores, acordo e vejo. O filme Aquarius está consagrado. Em uma coletiva de imprensa concorrida, repleta de jornalistas estrangeiros, o diretor Kleber Mendonça Filho nos mandou este recado:
"Essa divisão no Brasil está trazendo o pior dos dois lados, especialmente da direita, com atitudes fascistas. Há deputados que dizem no Congresso que uma mulher não deve trabalhar porque engravida. Aquarius é um filme de resistência e um pouco filme de sobrevivência, mas mais filme sobre a energia que é necessário para existir. Cansa, mas dá mais energia para continuar a lutar”. 
Talvez Aquarius não seja o filme que a minha equivocada ambição sonhou. Talvez todo o cinema de Pernambuco ainda não fale para o mundo, como se anunciava na voz do locutor da Rádio Jornal do Comércio: “Pernambuco falando para o mundo”. Mas Aquarius na voz do cinema fala. A sua repercussão nos jornais do planeta é prova, e nos presenteia com a melhor notícia da semana. Tanto que a gente estava precisando de uma boa-nova.  Este é um filme que não vimos e já gostamos.  

A implosão do sistema político e os três partidos, por Aldo Fornazieri.



A implosão do sistema político e os três partidos, por Aldo Fornazieri
O sistema político brasileiro implodiu. O governo legitimamente eleito em 2014 não conseguia governar e foi afastado por um golpe jurídico-parlamentar. O governo ilegítimo de Temer, fruto do golpe, não consegue governar. Se, eventualmente, o governo legítimo de Dilma fosse restabelecido pelo fracasso do impeachment, não conseguiria governar. A aparente saída para a crise consistiria em promover uma nova eleição presidencial. Ocorre que um governo que emergisse das urnas também ficaria prisioneiro de um Congresso corrupto, fisiológico e que perdeu a representatividade junto à sociedade. Embora seja um Congresso legal, é um Congresso imoral. Esse Congresso imoral não tem a grandeza para abrir mão dos mandatos dos atuais deputados para convocar eleições gerais, com o objetivo de relegitimar o sistema político-representativo. E mesmo que fossem realizadas eleições gerais é duvidoso que a crise se equacione, pois o que entrou em colapso é o sistema político-partidário, o sistema de representação, provocando aquilo que Gramsci chamaria de crise de hegemonia.
Nas crises de hegemonia, diz Gramsci, os grupos sociais se afastam dos partidos tradicionais, dos líderes tradicionais. Durante a vigência do governo Dilma, os líderes petistas eram hostilizados nas ruas, nos restaurantes e nos aeroportos. Os próprios líderes golpistas eram hostilizados na Avenida Paulista durante as manifestações em favor do impeachment e contra a corrupção. Agora, na vigência da interinidade de Temer, os líderes e políticos identificados com o governo são escorraçados e chamados de golpistas em aeroportos, nos restaurantes, nas praias e nas festas. Não conseguem falar para o público diretamente. Nas lutas contra o golpe são partidos e movimentos sociais críticos do governo petista que mais radicalizam a luta contra o governo ilegítimo.
Isto quer dizer que o PSDB, o PMDB e o PT que eram os partidos que estabeleciam a coordenação do sistema de hegemonia vigente perderam o consentimento dos diversos grupos sociais. Poder-se-ia contestar a ideia de que o PT compõe a elite dirigente. O PT, de fato, passou a integrar a elite política dirigente nos últimos 14 anos ao adquirir a confiança de vários grupos empresariais e ao articular uma série de interesses de grupos dominantes e subalternos, permitindo que houvesse um equilíbrio de forças e uma certa paz social. A crise é grave, pois nenhum outro partido conseguiu se legitimar ao ponto de firmar-se como alternativa ao atual sistema em colapso. Nessas circunstâncias, indica o próprio Gramsci, de crise orgânica do sistema vigente e de falta de alternativa confiável, a situação é perigosa, pois “abre-se o campo às soluções de força, à atividade de poderes ocultos, representados pelos homens providenciais ou carismáticos”.
Gramsci nota que nas crises de hegemonia os processos são diferentes em cada país, mas o conteúdo é o mesmo. As crises de hegemonia ocorrem porque os grupos políticos dirigentes faliram, seja porque faliu um determinado projeto, seja porque as demandas sociais não são mais atendidas ou seja porque há uma crise do Estado em seu conjunto. A rigor, na atual crise, estão presentes elementos dessas três causas ou determinações. PSDB, PMDB e PT são variações e vieses diferentes de um mesmo partido, de uma mesma visão geral do Estado, da sociedade e da economia, com inflexões nuançadas, uns mais para o mercado e o PT mais para o social e estatal. Este projeto de país faliu e o PT, que o elevou ao seu ponto mais alto por buscar um maior equilíbrio distributivo sofreu uma crise de solução de continuidade por não ter sido capaz de renovar-se e criar um outro projeto. Os escândalos de corrupção, envolvendo as cúpulas dos principais partidos, também constituíram um fator que contribuiu para erodir a confiança da sociedade nos partidos e nos políticos.
A falência do projeto representou também um represamento das demandas sociais, seja por serviços urbanos de qualidade (2013), seja por consumo e, agora, por serviços públicos e direitos e por emprego. A crise do Estado no seu conjunto se manifesta nas crises fiscais da União, dos Estados e dos municípios, entes que perderam a capacidade de garantir serviços satisfatórios e de investir. Esses vários aspectos da crise são causas e consequências da crise econômica. Nas crises de hegemonia massas que eram politicamente passivas se colocam em movimento, sem que os partidos principais as dirijam. Isto foi perceptível tanto nas manifestações contra o governo Dilma, quanto nas manifestações contra o golpe. Aliás, o PT está ausente nas manifestações das últimas semanas.
A luta entre os três partidos
A análise de Gramsci é didática, pois ela indica também que nos momentos de crise de hegemonia, o campo parlamentar e político se enfraquecem reforçando as posições relativas de poder da burocracia civil e militar e de instituições sociais como a igreja, entre outras instituições que se apresentam com independentes. Ora, no Brasil, no atual momento vemos o fortalecimento de setores da burocracia que constituem carreiras típicas de Estado, como a Polícia Federal, o Ministério Público e o judiciário. As Forças Armadas também ganham em confiabilidade, mas por circunstâncias históricas elas não desempenham protagonismo na presente crise. A crise tem um aspecto de rebelião do estamento burocrático contra a classe política. O estamento querer reformas do Estado e a reforma política, demandas que o sistema político não é capaz e se nega a oferecer.
Com a crise de hegemonia é como se o sistema partidário tradicional se dissolvesse e a luta política se reconfigurasse em torno de três partidos: o partido da ordem, organizado em torno do golpe e do  governo interino; o partido do estamento, que quer uma limpeza política e a reforma do Estado; e o partido do povo, que se desenvolve nas lutas sociais e nas lutas contra o golpe. O PT está com um pé no partido da ordem e com outro no partido do povo e setores do partido namoram com o parto do estamento.
Na medida em que o estamento rebelado não tem os mecanismos legais e os meios suficientes para resolver a crise, que tem uma natureza política, o seu protagonismo e a sua força dependem da radicalização da própria luta contra a classe política dirigente através da Lava Jato e de outros escândalos de corrupção. O partido do estamento vencerá esta luta se conseguir derrubar as cúpulas dos principais partidos e se conseguir inviabilizar o governo Temer, tal como contribuiu para derrubar o governo Dilma. Neste momento, o Supremo Tribunal Federal, que vem jogando de forma ambígua na crise, compondo-se ora com o estamento e ora com o golpismo, pretende exercer um papel moderador. Enquanto o partido do estamento, através do juiz Moro, proferiu mais de 100 condenações, o STF não proferiu nenhuma.
Em sendo tanto Dilma quanto Temer não soluções para a crise, qualquer um que prevalecerá se arrastará penosamente até 2018 com a possibilidade de graves incidentes de percurso. Se ocorrerem eleições, a tendência é que vença um candidato de fora do atual sistema partidário em crise, alguém que se apresente como uma liderança providencial, messiânica até, ou um líder carismático. Dilma, Lula e o PT não foram capazes de oferecer uma saída para a crise ao longo de 2015 e no início de 2016. Com a presidente afastada, continuam não indicando uma saída ante a possibilidade de retorno se o golpe fracassar, fator que fortalece a própria persistência do golpe.
Se o golpe vencer a batalha final no Senado, a única possibilidade do governo Temer se equilibrar no poder, salvo as imponderabilidades da Lava Jato, é através da repressão. Os movimentos sociais e a as esquerdas irão lhe interpor uma dura oposição. Governos fracos e sem legitimidade recorrem invariavelmente à repressão. Assim, Temer tentará recompor o partido da ordem através de três movimentos: usando a repressão contra os movimentos sociais e a oposição; recrutando quadros técnicos preparados para que construam um novo programa político; implementando medidas duras para recuperar a capacidade do Estado. Temer terá, também, três grandes forças desafiadoras: 1) a imponderabilidade da Lava Jato e a disposição e ambição do partido do estamento de promover uma limpeza política; 2) a divisão e as ambições no interior do próprio partido da ordem (centrão, PSDB etc.); 3) a resistência dos movimentos sociais e das esquerdas que lutarão para construir um novo partido do povo. A crise ainda não teve uma inflexão definitiva para um lado ou para outro. As forças do povo se ressentem de uma bandeira unificadora para enfrentar a crise. Mas ao mesmo tempo em que lutam, se reorganizam. A desorientação e a apatia do PT favorece a vitória do golpe. Mas ainda há chão para combater.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. 

Tragédia e farsa em dois golpes de Estado, por Marcus Ianoni.




“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, diz a clássica frase. Em 1964, o golpe civil-militar, que depôs o governo João Goulart, veio à história na crueza da tragédia, recorrendo ilegalmente à força para se livrar da legitimidade fundada na democracia e, enquanto fosse possível, reconstruí-la pelo crescimento econômico concentrador de renda e promotor da desigualdade.
O golpe em curso, conduzido por uma ampla coalizão conservadora, desinteressado – ao menos até aqui, e oxalá também no porvir – de mobilizar os quartéis, abriu seu caminho de afastamento da presidente eleita pelo trato discricionário da Constituição e de outros dispositivos legais, instrumentalizando seletiva e politicamente o combate à corrupção, subvertendo direitos civis em nome de ações jurídico-investigativas, criando, com respaldo de massa, um inimigo público (o PT e suas lideranças) midiaticamente construído e, por fim, produzindo uma maioria parlamentar, primeiro na Câmara e, agora, no Senado, que politizou a lei do impeachment, forjando, arbitrariamente, um crime de responsabilidade, no mínimo, altamente controverso e que coloca em risco o reencontro da estabilidade política e social perdida ao longo da crise.
A economia, novamente, é a principal razão de fundo desse golpe latino-americano do século XXI, mas a ela se chega por procedimentos jurídicos e políticos hipócritas, disfarçados, por um lado, no combate à corrupção. A motivação assentada na aliança entre o interesse econômico do grande capital, nacional e estrangeiro, e o oportunismo político elitista, indiferente à fidelidade à democracia, também se desnuda no argumento golpista da superação da ingovernabilidade, situação que os próprios subversivos de terno e gravata se esforçaram para produzir, por exemplo, com pautas-bomba e vários tipos de veto ao governo objeto da ação orquestrada de deposição. Com moralismo hipócrita e militante e boicote à governabilidade foi sendo pavimentado o acesso da ampla coalizão golpista ao Palácio do Planalto e à Esplanada dos Ministérios. A subversão da direita segue seu curso como se se tratasse da condenação da presidente por efetivos crimes na política fiscal e de uma fatalidade necessária devido às circunstâncias da crise. Suas lideranças se dizem circunscritas à ordem institucional, quando se trata de um golpe de Estado de novo tipo, sofisticado, executado sob o manto da Constituição, respaldado nos representantes do povo e na mobilização popular, para se passar por democrático, mas ardiloso e fraudulento. A imprensa internacional está percebendo a farsa.
O golpe civil-militar resultou de uma conspiração, mas partiu para a ação de modo explícito, chamou a si próprio de “revolução”, colocou tanque nas ruas, rasgou a Constituição de 1946, decretou atos institucionais, conferiu poderes autoritários aos novos donos do poder, definiu os crimes contra a segurança nacional, cassou parlamentares, perseguiu, prendeu e torturou inimigos internos, destinando muitos deles ao rol dos mortos e desaparecidos, impôs o bipartidarismo, fechou o Congresso quando precisou etc. Tudo isso foi executado com a lamentável bênção das bases sociais do autoritarismo de então, como a CNBB (ora progressista), a OAB, o empresariado, incluindo a imprensa mercantil, e a classe média. Além disso, a aliança golpista civil-militar, costurada em contexto de Guerra Fria, teve o respaldo estratégico do governo Kennedy-Johnson.
O golpe das oligarquias latino-americanas do século XXI, caso do Brasil atual, implementa-se com várias ousadias: combate seletivo à corrupção, aliança partidarizada entre Judiciário e mídia, fabricação de uma opinião pública pró-impeachment, alavancagem de protestos de rua pelo poder econômico, através da disponibilização às suas lideranças de vários tipos de recursos, abusos jurídico-investigativos – como na implementação e uso da delação premiada e escuta telefônica – e volatilização da lei do impeachment, para considerar crime de responsabilidade práticas fiscais recorrentes no Brasil. Ademais, a subversão de direita conta com a omissão ou conivência da Suprema Corte, mas alguns de seus ministros, como Gilmar Mendes, não hesitam em expor seu golpismo.
Está um curso o golpe da regressão do desenvolvimento democrático, não necessariamente o retorno a um regime autoritário, mas a diminuição do teor de democracia nas instituições públicas e nas relações sociais, pois, além da seletividade partidarizada do Estado de Direito, mobilizam-se subculturas políticas de intolerância e ódio contra adversários ideológicos, preconceitos dirigidos a mulheres, negros, pobres e beneficiários de programas sociais. Criam-se fantasmas, também imaginados em 1964, como o comunismo, hoje chamado de bolivarianismo ou petismo. Tal como há vários tipos de regimes autoritários, há também várias democracias, passando pelas semidemocracias. Os sistemas políticos podem aumentar ou diminuir seus níveis de autoritarismo e democracia. Na ditadura brasileira, por exemplo, ocorreu o “golpe dentro do golpe”, que promoveu aumento do autoritarismo.
A qualidade das crenças e ações das elites políticas e o respaldo social ao golpe mostram como os valores políticos das lideranças e cidadãos são importantes para o desenvolvimento ou subdesenvolvimento da democracia, que não deveria ser concebida pelas ciências sociais como um mero regime, e sim como um tipo de sociedade, a sociedade democrática, erguida sobre uma cultura democrática.
Trata-se também do retrocesso nas políticas públicas social-desenvolvimentistas. A ponte para o futuro do PMDB conduz, na verdade, à retomada do passado neoliberal, dos tempos de Fernando Collor de Mello e, sobretudo, Fernando Henrique Cardoso, com recessão ou crescimento baixo, desemprego, juros elevadíssimos, imensa captura da política fiscal pelos credores da dívida pública, privatizações e aumento da dependência nacional em relação ao capital estrangeiro, ávido por aprofundar sua presença no mercado nacional e por botar as mãos nos recursos naturais do Brasil, a começar pelo pré-sal.
Por fim, o caráter de farsa do golpe atual – retrocesso democrático sofisticado, operado ao arrepio da ordem legal, pretenso berço esplêndido de União Nacional de um suposto gigante despertado, mas, na verdade, carente congênito de legitimidade – não exclui sua dimensão trágica. Ou não será tragédia o resultado da mobilização de um conjunto de farsas?  Combate à corrupção com corruptos e fichas sujas? Diminuição do clientelismo no sistema político com o partido que mais o encarna comandando a caneta do Estado? Democracia com mobilização de comportamentos políticos de tipo fascista nas ruas e em líderes institucionais, empenhados em criminalizar o maior partido de trabalhadores surgido no mundo desde o Segundo Pós-guerra? Justiça cega, mas que, na realidade, enxerga e tem partido? União Nacional, mas contra os direitos populares e a serviço da plutocracia brasileira e internacional?
Talvez pior do que o golpe nu e cru, o golpe atual – por ser malicioso e enganador, construído entre contradições que vão dos anseios dos privilegiados, avessos aos direitos de cidadania, pela tradicional hierarquização em classes sociais, responsável pela delimitação de papéis e lugares distintos e estáticos aos brasileiros, passando pela mobilização de eleitores vestidos de verde e amarelo nas ruas, desejando políticas sociais – seja mais munido, ao menos no curto prazo, do poder de iludir, ao passo que o militarismo impôs o medo das baionetas prontamente nos trabalhadores. Mas não é uma tragédia anunciada acreditar que políticas orientadas para o mercado possam ser o caminho capaz de elevar a renda média e o padrão de vida do conjunto da nação? Justo no Brasil o neoliberalismo vai vingar, um país emergente, profundamente desigual, com uma economia altamente oligopolizada, pouco competitiva, carente de um modelo de desenvolvimento nacional independente da poupança externa e de um Estado republicano que implemente políticas de bem-estar e direitos de cidadania? Basta olhar para o que a austeridade fiscal e monetária e os interesses mesquinhos, que norteiam a lógica dos agentes de mercado, estão propiciando em matéria de recessão, desemprego, afora o arrocho que está por vir, para se ter uma ideia do tempo obscuro e regressivo ao qual a reação conservadora contra a revolução democrática está conduzindo o país. Mas a resistência progressista está viva e não aceita a farsa do governo interino de Temer, como não aceitou a tragédia do golpe de 1964. Desde as eleições de 2014, os golpistas escolheram o caminho da polarização política.
* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador das relações entre Política e Economia e Visiting Researche Associate da Universidade de Oxford

EUA: a eleição como sintoma do declínio, por Immanuel Wallerstein.

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Comício de Donald Trump. Para Wallerstein, “era de dominação dos EUA sobre o sistema-mundo começou a se desfazer por volta de 1970 e vem sendo desmantelada desde então, de forma crescente”
Wallerstein analisa: crescimento de candidatos anti-establishment marca o fim de um período. Além de influência global, país perde coesão interna. E a “era de ouro” não voltará…
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho
Estamos acostumados a pensar em instabilidade de Estados localizados principalmente no Sul global. É sobre essas regiões que eruditos e políticos do Norte global falam de “Estados falidos” nos quais há “guerras civis”. A vida é muito insegura para os habitantes dessas regiões. Há deslocamentos massivos das populações e esforços para escapar dessas regiões para partes “mais seguras” do mundo. Nelas há, supostamente, mais empregos e padrões de vida mais altos.
Os Estados Unidos, em particular, têm sido vistos como o destino de migração de grande percentual da população mundial. Isso foi amplamente verdadeiro durante certo tempo. No período que se estendeu aproximadamente entre 1945 e 1970, os Estados Unidos eram o poder hegemônico do sistema-mundo. A vida era de fato melhor para seus habitantes, economica e socialmente.
E embora as fronteiras não estivessem exatamente abertas para os imigrantes, aqueles que conseguiam chegar de um modo ou de outro ficavam amplamente satisfeitos com o que consideravam sua boa sorte. E mais gente, nos países de origem dos imigrantes bem sucedidos, tentava seguir seus passos. Nesse período, havia muito pouca emigração dos Estados Unidos, a não ser em bases temporárias, para assumir empregos bem pagos em postos econômicos, políticos ou de mercenários militares.
Esta era de dominação dos EUA sobre o sistema-mundo começou a se desfazer por volta de 1970 e vem sendo desmantelada desde então, de forma crescente. Quais os sinais disso? Há muitos: alguns, dentro dos próprios Estados Unidos; outros, nas atitudes mutantes do resto do mundo em relação aos EUA.
Estamos agora vivendo uma campanha presidencial considerada por quase todo mundo como pouco usual e transformadora. Há um grande número de eleitores que foram mobilizados contra o “establishment”, muitos dos quais estão entrando no sistema eleitoral pela primeira vez. Nas primárias do Partido Republicano, Donald J. Trump buscou a indicação surfando precisamente a onda desse descontentamento — na verdade, insuflando-o. Ele parece ter tido sucesso, a despeito de todos os esforços dos que podem ser vistos como republicanos “tradicionais”.
No Partido Democrata, a história é semelhante mas não idêntica. Um senador antes obscuro, Bernie Sanders, foi capaz de pegar carona num descontentamento verbalizado numa retórica mais à esquerda e vem conduzindo uma campanha muito impressionante contra a candidatura de Hillary Clinton, antes supostamente inabalável. Embora não pareça que conseguirá a indicação, ele forçou Hillary (e o Partido Democrata) muito mais à esquerda do que parecia possível poucos meses atrás. E Sanders fez isso sem jamais ter concorrido a uma eleição antes como democrata.
Porém, pode-se pensar, tudo isso passará, assim que a eleição presidencial estiver decidida, e as visões políticas “normais” de centro prevaleçam novamente. Muitos preveem isso. Mas qual será, então, a reação daqueles que apoiaram muito ferozmente seus candidatos precisamente por que eles não defendendem políticas de centro “normais”? E se eles se desiludirem com seus líderes atuais?
Precisamos observar outras mudanças dos Estados Unidos. O New York Times publicou um longo artigo de primeira página, em 23 de maio, sobre violência armada, que o jornal denominou “interminável mas invisível”. O artigo não era sobre os ataques armados, muito bem documentados, que chamamos de massacres e consideramos chocantes. Investigava, ao contrário, tiroteios que a polícia tende a considerar “incidentes” e nunca vão parar nos jornais. Descreve um desses incidentes em detalhes, e o chama de “uma foto instantânea de uma fonte diferente de violência em massa – aquela que irrompe com regularidade anestésica, de tal forma que torna-se quase invisível, a não ser para as vítimas, negras em sua maioria, os sobreviventes e os agressores.” E os números estão crescendo.
À medida em que aumentam essas “intermináveis porém invisíveis” mortes por violência, a possibilidade de que elas se espalhem dos guetos negros para zonas não negras, nas quais muitos dos desiludidos estão localizados, não é muito exagerada. Afinal, os desiludidos estão certos sobre uma coisa. A vida nos Estados Unidos não é tão boa como foi. Trump usou como slogan “torne a América grande novamente”. O “novamente” refere-se à era de ouro. E Sanders também parece referir-se a uma era de ouro prévia, na qual os empregos não eram exportados para o Sul global. Até mesmo Hillary  parece agora olhar para alguma coisa perdida no passado.
E tudo isso não permite esquecer uma espécie de violência ainda mais feroz – aquela propagada por uma faixa ainda muito pequena de milícias anti-Estado, que se autodenominam Cidadãos pela Liberdade Constitucional (CCF, na sigla em inglês). Eles são aqueles que vêm desafiando o impedimento, pelo governo, de algumas áreas para criação de gado. Os integrantes do CCF dizem que o governo não tem direito e está agindo inconstitucionalmente.
O problema é que tanto o governo federal como os locais não estão certos do que fazer. Eles “negociam”, temendo que afirmar sua autoridade não seja um ato popular. Mas quando as negociações falham, o governo finalmente usa a força. Essa versão mais extrema de ação pode logo espalhar-se. Não é uma questão de mover-se para a direita, mas de mover-se em direção a protestos mais violentos, a uma guerra civil.
Há décadas, os Estados Unidos estão perdendo sua autoridade diante do resto do mundo. Eles não são mais hegemônicos. Aqueles que protestam, e seus candidatos, percebem isso, mas consideram que é um processo reversível. Não é verdade. Os Estados Unidos são agora considerados um parceiro global fraco e inseguro.
Essa não é a visão apenas dos Estados que se opõem fortemente, desde o passado, às políticas norte-americanas, tais como Rússia, China e Irã. Isso é agora verdade para aliados presumivelmente próximos, tais como Israel, Arábia Saudita, Grã Bretanha e Canadá. Numa escala mundial, o sentimento sobre a “confiabilidade” dos EUA na arena geopolítica mudou de próximo de 100%, na “era de ouro”, para alguma coisa muito, muitíssimo inferior. E a queda acentua-se a cada dia.
À medida em que se torna menos “seguro” viver nos Estados Unidos, há um aumento constante na emigração. Não que outras partes do mundo sejam seguras – são apenas mais seguras. Não que o padrão de vida em outros lugares seja tão alto, mas tornou-se agora mais alto em várias partes do Norte global.
Claro que nem todo mundo pode emigrar. Há problemas de custo e de acessibilidade a outros países. O primeiro grupo que pode engrossar a emigração são os mais privilegiados. Mas, quando isso for percebido, as raivas dos “desiludidos”, mais classe média, irão crescer. E crescendo, sua reação pode tornar-se mais violenta. Esse rumo mais violento irá retroalimentar-se, intensificando as raivas.
Nada poderá alterar as atitudes quanto à transformação dos Estados Unidos? Se os norte-americanos abandonassem a ideia de “tornar a América grande outra vez”, e começassem a tentar fazer do mundo um lugar melhor para, poderiam ser parte do movimento por “um outro mundo”. Mudar o mundo inteiro transformaria verdadeiramente os próprios Estados Unidos. Mas para isso seria preciso parar de desejar a volta à “era de ouro” — que, aliás, não era tão dourada para a maior parte do mundo.

A história por trás do Golpe, por Luiz Bernardo Pericás.

No começo da década de 1920, o escritor Leonid Leonov publicou O fim de um homem mesquinho [Konets melkogo cheloveka], narrativa com tintas dostoievskianas que contava a história do professor Fedor Andreich Likharev, um paleontólogo que passara a maior parte de sua existência ausente da vida política russa. Quando estourou a revolução, ele se encontrava ocupado com seus estudos sobre a Era Mesozoica e fazia o possível para não ser perturbado pelos eventos transcendentes de sua época: estava mais envolvido com o passado remoto, com cavernas e répteis saurisquianos, do que com o seu próprio tempo. De certa forma, ele mesmo era um dinossauro, que poderia ser extinto a qualquer momento: para todos os efeitos, um homem supérfluo. Até que não conseguiu mais ignorar o que estava a seu redor e acabou por se integrar ao movimento…
Entre as distintas abordagens ao texto, é possível perceber a ênfase no papel do intelectual na luta do cotidiano. Ou seja, a importância do engajamento da intelligentsia no mundo político e social e a crítica aos estudiosos de gabinete, distantes da realidade a sua volta. 
A novela leonoviana, assim, pode servir como defesa de uma postura engajada, de homens de letras com forte intervenção no debate público, como Caio Prado Júnior e vários colegas de sua geração. Afinal, o autor de A revolução brasileira estudava com profundidade o processo histórico nacional, a partir do método dialético, como forma de entender e intervir no presente. Não apenas se limitava a análises conjunturais, mas via o país no quadro maior da longa duração. Sua prioridade, portanto, foi sempre a luta pela transformação social. 
Caio discutirá o desenvolvimento desigual e combinado de um país que irá, desde seus primórdios, se inserir na lógica do mercado internacional e, depois, do imperialismo: neste sentido, os desígnios externos vinculados a elementos de poder político-econômico endógenos permitirão a subsistência de uma dinâmica que se reproduz historicamente (com recorrentes mudanças, rupturas e expansões), mas deixando inalterados, em boa medida, traços básicos das relações sociais (como a subordinação de setores subalternos, pouco preparados cultural e ideologicamente, e muitas vezes sem organicidade política ou condição efetiva de contrapor o modelo consolidado). Por isso, a necessidade de se atuar na fratura sócio-histórica e cultural brasileira, tentando integrar as classes menos privilegiadas (com menor nível material e educacional) ao painel ampliado da construção da “nação”. 
Caio Prado Júnior fará uma crítica contundente à concentração de terras nas mãos de latifundiários e à “livre iniciativa privada”, defendendo, ao mesmo tempo, o aprofundamento de reformas democratizantes e a rejeição a todo tipo de autoritarismo. É verdade que o mundo de CPJ era outro. Ao longo da vida, ele passou por episódios históricos importantes, como a revolução de 1930, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a ditadura militar e o processo de luta pela redemocratização no país. Suas ideias, portanto, devem ser vistas como produto de seu tempo. Ainda assim, podemos tentar avaliar, de maneira panorâmica, elementos do contexto político e econômico de hoje à luz do ideário caiopradiano, para tentarmos aferir uma possível atualidade de seu pensamento. 
Um primeiro aspecto é o da construção das ferramentas necessárias para os câmbios sociais, que ocorreriam dentro de um processo de mudanças permanente, ininterrupto e dinâmico, que poderia ser caracterizado, para todos os efeitos, como “gradualista”. Caio Prado Júnior, nesse sentido, propõe lineamentos, indicações gerais, apontando os principais problemas e a necessidade de lidar com eles. As questões se apresentam constantemente durante o processo; à medida que são resolvidas, novos questionamentos e problemas surgem, com os quais as forças populares também deverão lidar. É ao longo desse continuum que a “revolução” se processa. 
Podemos nos perguntar que instrumentos, construídos e liderados pelos próprios trabalhadores, seriam esses nos dias de hoje. É possível sugerir que movimentos com certa autonomia, representatividade social e organicidade, como o MST e o MTST (entre vários outros), talvez sejam aqueles que simbolizem, em boa medida, o que defendia Caio: entidades ao mesmo tempo com grandes contingentes de militantes sociais e também “escolas de quadros”, que realizam a dupla tarefa de pressionar por reformas laborais essenciais enquanto, paralelamente, buscam consolidar uma “consciência” política dentro da luta de classes de larga duração. 
Os governos do PT (especialmente nos dois mandatos de Lula), por certo, tiveram importantes êxitos no campo social e fizeram avançar uma pauta progressista no país (que, por sinal, se vê ameaçada por uma onda conservadora perigosa no Congresso e em setores das classes médias). Mas a agenda lulista nunca foi socialista (nunca se propôs, de fato, a isso). Já Caio era um “comunista”. Ele se recusava, como se sabe, a propor uma “revolução socialista total” (como afirmou certa vez); ainda assim, defendia o arcabouço teórico marxiano, que não via o socialismo apenas como um movimento pela abolição da desigualdade econômica, mas tendo como objetivo precípuo a emancipação do homem, a libertação dos grilhões econômicos (mais do que apenas a transformação de objetivos materiais como principal interesse da vida) e a criação de uma sociedade em que cada pessoa pudesse participar de forma ativa e responsável nas decisões do cotidiano. 
O lulismo encarou a política como um movimento de progresso e inclusão da classe trabalhadora, mas a ênfase foi colocada nos objetivos na ascensão econômica e no consumo. O resultado foi que esta vertente se tornou o veículo pelo qual as classes baixas puderam ganhar espaço social e conquistar um lugar (mesmo que ainda coadjuvante) dentro da estrutura capitalista (e nunca para superá-la). Iriam replicar os valores e os modismos das classes mais abastadas e começariam a exigir mais das autoridades em termos essencialmente materiais e individualistas. O sonho lulista vislumbrava a transformação de fatias inteiras da população em “classe média” com amplo acesso a bens duráveis e a serviços. Se na tradição marxista do século XX, homens como Lênin, Trotsky e o Che defendiam a construção do “homem novo”, o lulismo acabaria por criar o “consumidor novo”. E ainda de forma frágil. Aqui não se quer tirar o mérito da árdua e importante tarefa de redistribuição de renda e inclusão social de milhões de brasileiros, de forma alguma. Só se aponta para os objetivos imediatistas e limitados do projeto, sem dúvida, importante, mas que poderia (e deveria) ter ido bem mais longe. Há quem diga que o lulismo, na prática, não se propunha a realizar reformas estruturais profundas (que exigiriam rupturas e confrontos agudos com setores antagônicos), mas “ganhos nas margens”, lentamente, apostando num ciclo estendido no tempo. Seria também, na acepção do sociólogo Ruy Braga, um “modo de regulação” e de “contenção” de conflitos classistas, um “sócio menor” do bloco de poder capitalista no Brasil. Para ele, o “sindicalismo lulista” se transformou não apenas em ativo administrador do Estado burguês, mas em ator-chave na arbitragem do investimento capitalista do país: de um “esboço desenvolvimentista”, acabaria por transitar para o executor de políticas de austeridade fiscal… 
Se o fortalecimento de um mercado interno era premissa fundamental defendida por Caio, este deveria vir acompanhado de outros fatores (o resultado do período recente, em última instância, foi o esgotamento de um ciclo longo de expansão do consumo das famílias e do investimento induzido pelo crescimento deste mesmo mercado interno). A aliança dos governos petistas com segmentos conservadores, sua relação com os grandes bancos e empreiteiras, assim como a implementação de receituários econômicos elaborados por representantes da elite financeira provavelmente seriam vistos de forma crítica por Caio Prado Júnior, que assinalava que não se deve confiar na burguesia, que tem uma agenda própria. Na primeira oportunidade, ela se volta contra seus apoiadores circunstanciais e trai seus supostos aliados, sem qualquer peso na consciência… 
A análise das fundações de nossa sociedade era um eixo essencial na discussão caiopradiana. O autor de URSS, um novo mundo revelou as relações, os processos e as estruturas sociais, econômicas e políticas que operavam na composição e nas transformações de nossa sociedade, indicando o fator de instabilidade, de falta de continuidade no decurso histórico do país, ou seja, uma evolução por ciclos, com fases sucessivas de progresso, seguido de decadência, resultando num sistema e num processo econômico em que a produção e o crescimento se subordinavam a contingências extrínsecas. O desenvolvimento, portanto, significaria a superação do passado colonial e a eliminação do que ainda restava dele. Só assim, o Brasil poderia deixar sua posição periférica, complementar e dependente. Para isso, ele mostrará a dinâmica das forças sociais internas e das pressões econômicas e políticas internacionais, a partir de temas como o sentido da colonização, o quadro geral do escravismo, a crise do sistema colonial e as forças que constituirão a República Velha, até os dias em que escrevia. Premente, nesse sentido, seria a consolidação de uma “estrutura política” democrática e popular, a modificação das relações trabalhistas (especialmente no campo) e o rompimento com o imperialismo, o qual, segundo ele, se integrara à economia do Brasil ao longo de vários lustros, a partir de mecanismos como financiamento de produção, comércio e exportação de produtos distintos (especialmente o café); do fortalecimento de setores vinculados a bancos, agências creditícias ou elementos ligados à especulação financeira operando por aqui; e da atuação de interesses estrangeiros em áreas como indústrias, transportes, mineração e serviços públicos. O imperialismo, em última instância, constituiria um fator ao mesmo tempo que integraria e completaria o sistema colonial, apresentando-se, além do mais, como uma “deformidade” no processo de modernização.
O painel atual do país é de desnacionalização, financeirização da economia, juros altos, inflação acima da meta, falta de democratização dos meios de comunicação, estrutura tributária perversa, crescimento nas taxas de desemprego e criminalização dos movimentos sociais.
No campo, o agronegócio dá o tom, com extrativismo predatório e o cultivo de produtos para exportação com uso intensivo de pesticidas. A agricultura brasileira se vê enredada pela aliança entre o capital financeiro e as grandes corporações: o crédito e os insumos monopolizados nas mãos de bancos e empresas multinacionais. Não é de se estranhar, portanto, que as cinquenta maiores companhias atuantes na agricultura do país tiveram ganhos significativos em 2014 (em torno de 70% do PIB agrícola). A maior parcela deste faturamento foi de empresas de capital estrangeiro, enquanto muitas nacionais estão endividadas ou dependentes de empréstimos externos. Concomitantemente, o corte de recursos orçamentários para a reforma agrária (uma premissa básica defendida por Caio Prado Júnior) e o ritmo lento de assentamentos foram outras características deste momento (o Incra, que detinha um orçamento inicial de R$ 1,65 bilhão em 2015, teve de trabalhar no ano passado com algo em torno de R$ 874,37 milhões). Dados do Atlas da Terra no Brasil 2015, preparado pela USP/CNPq e coordenado por Ariovaldo Umbelino de Oliveira, mostram que há 66 mil imóveis com 175,9 milhões de hectares improdutivos no país. É bom recordar que os latifúndios pertencem a somente 1% dos donos de terra no Brasil, mas equivalem a 43% das áreas de cultivo agrícola ou criação de gado. As grilagens por empresas e proprietários particulares continuam a ocorrer. Indicadores sobre a ocupação agrária mostram que em 2010, 238 milhões de hectares eram considerados como “grande propriedade de terra” no Brasil, enquanto que em 2014, esse número cresceu para 244,7 milhões de hectares, um incremento de 2,5% em apenas quatro anos. Isso significa um aumento de seis milhões de hectares para as mãos de latifundiários. Para completar, a violência permaneceu em um ritmo preocupante: em 2015, foram 49 assassinatos de posseiros, sem-terra e assentados em conflitos agrários. Em outras palavras, penetração do capital estrangeiro no campo, aumento na concentração da propriedade fundiária, permanência do latifúndio, repressão do Estado ou das elites locais, e produção essencialmente voltada para o mercado externo. Tudo o que CPJ atacava… Ainda que o Brasil hoje seja um país eminentemente urbano (diferente do período em que Caio escrevia), a situação no meio rural continua difícil e com vários elementos similares às críticas caiopradianas elaboradas décadas atrás.
O papel de subordinação e complementariedade em relação à economia mundial é nítida. A reprimarização e desindustrialização marcam este período. O eixo central da economia continua ligado àqueles setores direcionados à exportação de produtos sem grande valor agregado. Em outras palavras, o país mantém sua posição como fornecedor de commodities minerais e agropecuárias para o mercado internacional, o que faz com que alguns cheguem a designar este quadro de especialização produtivo-comercial de “regressão colonial”.
O que se pode perceber claramente é que se há tentativas de ajustes ou intervenções conjunturais na economia, falta uma visão de longo prazo e um “projeto de nação”. Algo que Caio Prado Júnior sempre defendeu. Com o fim do superciclo das commodities (no qual se apostaram quase todas as fichas) e a menor competitividade do setor industrial, a situação do país parece sombria.
Finalmente em relação à questão política, o autor de O mundo do socialismo seria enérgico contra as tentativas de golpe da atualidade. Caio Prado Júnior e o PCB, nos anos de 1947 e 1948, passaram por um processo de perseguição “institucional”, que levou à cassação do partido e dos mandatos de seus parlamentares. Foi uma forma de intervenção branca, a partir de leis, dispositivos regimentais e aferições do Judiciário, para tirar de cena, com toda aparência de legalidade, aquela agremiação política. E conseguiram. O resultado, no caso do historiador, foi a perda de seu mandato de deputado estadual e em seguida, a prisão. Ele sabia muito bem como se orquestravam os conluios dos setores mais conservadores do país. E se empenhou energicamente em campanhas públicas contra a ofensiva da direita. Foi duramente punido por isso.
Nos dias atuais, Caio Prado Júnior por certo se levantaria contra as manobras e articulações para levar adiante um processo arbitrário das elites brasileiras para assumir o poder e implementar uma agenda ainda mais retrógrada, entreguista e privatizante, que será altamente prejudicial às massas (é só lembrar do programa “Uma ponte para o futuro”, do PMDB). Um golpe institucional contra uma presidente legitimamente eleita que, apesar de quaisquer equívocos na condução do país, não cometeu nenhum crime de responsabilidade. Um golpe encabeçado por figuras nefastas e levado a cabo por um Congresso repleto de deputados processados ou réus na Justiça, e que, longe de ser “popular”, representa os interesses do capital financeiro, de corporações, do agronegócio e de suas entidades patronais (como Fiesp, CNI, CNA e Febraban), assim como das Igrejas e da grande mídia.
A consolidação da democracia sempre foi uma premissa fundamental para o historiador paulista. O caminho a seguir, portanto, é pela esquerda. Assim, “a crise em marcha” (numa expressão usada pelo próprio CPJ), paradoxalmente, poderá ajudar os setores progressistas a aglutinarem forças, não só para exigir a manutenção das conquistas sociais dos anos recentes, mas para pressionarem pelo aprofundamento de uma pauta mais radical e libertária, em termos políticos, econômicos e culturais, uma pauta necessária para o maior desenvolvimento autônomo do país e a verdadeira transformação da classe trabalhadora brasileira em protagonista de sua história.
* Artigo escrito originalmente para a edição de maio do Le Monde Diplomatique Brasil