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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Decisão de Gebran sobre Tacla Duran é usada para pressionar TRF-4 a ser justo com Lula, por Cintia Alves.

Desembargador do TRF-4 entendeu, em caráter liminar, que Sergio Moro pode se recusar a ouvir um réu que não tem provas do que diz. Agora, defesa de Lula usa o mesmo argumento para desqualificar os detratores do petista na sentença do tríplex 
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Jornal GGN - A defesa de Lula usou uma decisão tomada pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) no caso Tacla Duran para pressionar os desembargadores a serem justos com o ex-presidente no julgamento do caso triplex.
O desembargador João Gebran Neto, relator da Lava Jato, negou à defesa de Lula um pedido para que Sergio Moro fosse obrigado a inserir Rodrigo Tacla Duran na lista de testemunhas de defesa do petista.
Tacla Duran, ex-advogado da Odebrecht, denunciou um suposto esquema de cobrança de propina envolvendo os acordos de delação premiada em Curitiba. Além disso, afirmou que os sistemas da Odebrecht  de onde a Lava Jato retira provas para ações penais foram manipulados durante a operação.
Por conta das acusações, Moro negou 3 pedidos da defesa de Lula para ouvir Tacla Duran, alegando que palavra de réu, sem provas de corroboração, não merecem "crédito". Gebran, em decisão liminar, negou o pedido da defesa de Lula. 
O caso deve ser apreciado em colegiado. A Procuradoria que atua no TRF-4 se manifestou, recentemente, contra ouvir Duran. Entre os motivos, citou que ele é réu na Lava Jato e deveria apresentar provas do que diz.
Na apelação final encaminhada aos 3 desembargadores que irão revisar a sentença de Moro, os advogados de Lula usam o mesmo argumento contra os delatores informais usados na sentença do triplex.
"(...) não há como conferir credibilidade às declarações de Léo Pinheiro e Agenor Franklin, seja por terem inventado uma versão a fim de confirmar a tese acusatória e obter benefícios, seja por terem apresentado elementos que não encontram ressonância na prova documental constante dos autos. Não é exatamente o que já se decidiu nessa Corte quanto aos pretendidos informes do advogado Rodrigo Tacla Duran? Ou aqui as coisas são diferentes?", dispararam.
Leo Pinheiro e Agenor Medeiros são ex-executivos da OAS que estavam negociando acordo de delação com os procuradores de Curitiba quando resolveram colaborar com a acusação no julgamento do triplex.
Léo Pinheiro disse a Moro que o apartamento foi um presente para Lula. O dinheiro usado na reforma saiu da OAS Empreendimentos (braço do grupo que não tem qualquer relação comercial com a Petrobras), mas Pinheiro afirmou que "descontou" os valores de um "caixa geral de propina" que mantinha com o PT.
Segundo Medeiros, nesse caixa virtual, a OAS teria depositado ao menos R$ 16 milhões ao PT.
Moro usou as delações informais sem provas correspondentes, afirmam os advogados de Lula.

'Lula é a joia da coroa do Plano Atlanta', por André Barrocal.


Wikimedia Commons

Processo do petista segue script de uma trama conservadora descrita nos EUA em 2012, diz uma testemunha ocular, um político da República Dominicana


20/01/2018 13:53


No fim de 2012, Manolo Pichardo, político da República Dominicana, participou de uma sinistra reunião na suíte de um hotel em Atlanta, nos Estados Unidos.Alguns ex-presidentes latino-americanos de inclinação de centro ou direita discutiram como varrer adversários progressistas do mapa. Afinal, dizia um dos presentes, Luis Alberto Lacalle, ex-mandatário uruguaio, “não podemos ganhar desses comunistas pela via eleitoral”.
A presença de Pichardo ali era estranha, só tinha ido a Atlanta graças ao convite de um ex-presidente amigo, Vinicio Cerezo, da Guatemala. Atual comandante da Conferência Permanente de Partidos Políticos da América Latina (Copppal), Pichardo pertence ao Partido da Libertação Dominicana, de esquerda.
O fundador do PLD, Juan Bosch, era amigo do cubano Fidel Castro e chegou ao poder nos anos 1960 por outra sigla que criou, o PRD. Sete meses depois, era deposto (advinha?) por um golpe militar patrocinado pelos EUA e (surpresa!) apoiado depois pelo Brasil.
Vencedor das últimas quatro eleições, o PLD levou o pequeno país de 10 milhões de pessoas ao topo do crescimento econômico nas Américas em 2017, segundo os insuspeitos Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial.
Será que haveria um “Plano Atlanta”, batismo dado por Pichardo ao que escutou naquela suíte de hotel em 2012, com o qual o PLD deveria se preocupar? E que “plano” é esse, afinal?
Desmoralizar líderes progressistas via mídia com acusações de corrupção, inclusive a familiares, e ataques ao comportamento privado deles. Depois, converter os escândalos em processos judiciais que acabem com a carreira da turma.
A estratégia parece bem sucedida, a julgar pelo destino de Fernando Lugo no Paraguai em 2012 e de Dilma Rousseff por aqui em 2016, além das encrencas de Cristina Kirchner na Argentina, de Rafael Correa no Equador e, claro, de Lula.
A derrocada do petista seria a “joia da coroa”, algo que está perto de acontecer dado o iminente julgamento dele em segunda instância. Em entrevista por e-mail a CartaCapital, Pichardo explica por que e fala mais sobre a trama conservadora.
CartaCapital: O processo contra o ex-presidente Lula é parte do “Plano Atlanta”?
Manolo Pichardo: Claro que sim. Toda a perseguição que desencadearam contra ele é parte da artimanha que procura desqualificá-lo para que não retorne à Presidência do Brasil e retome a aplicação de políticas públicas que favorecem a maioria. Isso em razão de que as oligarquias brasileiras e da região não concebem que as riquezas geradas sejam distribuídas com maiores níveis de justiça. É que não se dão conta de que em um processo de distribuição democrática da renda, o consumo aumenta e eles têm mais possibilidades de fazer negócios. E não se dão conta porque estão acostumados a acumular riqueza com base na exploração das grandes maiorias.
CC: Por que Lula seria a “joia da coroa” do “Plano”?
MP: O Brasil é a maior economia da América Latina e se tornou uma das maiores do mundo. É o maior país da região em tamanho e população. Isso, obviamente, deu-lhe o peso político que lhe permitiu influenciar o resto dos países latino-americanos, algo que, sem dúvida, aumentou durante a Presidência de Lula, uma vez que remover mais de 40 milhões de pessoas da pobreza e incorporar 16 milhões ao mercado de trabalho tornaram-no uma referência obrigatória. Isso faz dele, de acordo com os interesses dos setores conservadores, um exemplo indesejável.
CC: Que outros líderes progressistas latino-americanos sofrem os efeitos do “plano”?
MP: A última vítima é Jorge Glas (vice-presidente do Equador recém condenado por corrupção e afastado do cargo), produto de uma variante do “Plano” que parece ser aperfeiçoada e estilizada na medida em que as pessoas perceberam o que estava acontecendo e deram respostas para rejeitar o método inicial.
Dilma foi um exemplo bem sucedido da urdidura, o presidente Lugo também, não só por causa do golpe parlamentar que o tirou do poder, mas por causa da decisão do tribunal que o desqualificou de se inscrever para uma nova candidatura. Poderíamos dizer que, no caso do ex-vice-presidente (do Uruguai que renunciou em setembro) Raúl Sendic a mão do “plano” poderia ter estado ali, talvez com a intenção de desestabilizar o governo da Frente Ampla. Não tenho provas, mas tantos casos parecem corresponder a um padrão.
CC: Quais as forças políticas por trás do “plano”? Há econômicas também? Quais?
MP: As forças políticas que operam na rede de conspiração são as que tradicionalmente serviram de apoio a grupos conservadores ligados a forças estrangeiras que têm expressão em governos e multinacionais. São forças da nossa região que operaram como peões de interesses estranhos aos nossos, aos latino-americanos. Me atrevo a dizer que, entre os setores econômicos, existem indivíduos ou grupos sem uma consciência de classe que lhes permitiria se tornar classe dirigente e desenhar o futuros de seus países. Só que eles dependem de uma agenda com diretrizes externas.
CC: Acredita na participação dos Estados Unidos na manobra? Por quê?
MP: As oligarquias da América Latina não movem um dedo sem autorização ou direção dos EUA. Este país, desde que emergiu como potência, desbancou as forças europeias e transformou a região em seu quintal. Mas isso estava mudando à medida que partidos progressistas começaram a assumir governos e pararam a política de desapropriação que os conquistadores europeus inauguraram depois de 1493.
Não era aceitável para os americanos tal nível de independência política e econômica. E não era pois seus negócios obscenos iriam responder aos interesses dos governos da região e seus povos. A revisão de contratos de empresas de petróleo e mineração é um claro exemplo da reviravolta dada pelos governos de partidos progressistas aos negócios na região, então eles (EUA) tiveram que conspirar para retornar à desapropriação.
CC: O senhor apontou algumas variantes do “plano” em seu recente livro A esquerda democrática na América Latina. Quais são?
MP: Em algumas artes marciais, é ensinado a derrotar o inimigo com suas próprias forças. Acho que uma das variantes do “plano” foi baseada nessa técnica. Eles decidiram assumir o poder com a vitória eleitoral do progressismo, recorrendo ao recrutamento de militantes dessas forças. O recente processo eleitoral no Equador parece confirmar esta variante, que já havia sido expressa na eleição do secretário-geral da OEA, levado ao cargo pelos governos progressistas, pois tinha sido ministro (uruguaio) das Relações Exteriores de Pepe Mujica, e ao assumir declarou guerra às forças progressistas da região.
Temer, o presidente de fato brasileiro, chegou à vice-presidência em um binômio liderado por Dilma e pelo PT. Ele foi cooptado para liderar a conspiração que tirou a mandatária do poder. A divisão pode ser outra dessas variáveis. Penso que devemos prestar atenção ao caso da Argentina e à sua última eleição, que o peronismo perdeu.
CC: Como assim?
MP: Participaram dois candidatos do peronismo, Daniel Scioli, que venceu no primeiro turno com 36%, e Sergio Massa, que teve 21%, votos suficientes para o triunfo do peronismo. A divisão causou a derrota. Pergunto-me se esta foi apenas o produto das lutas internas do peronismo ou se uma mão estranha do “Plano Atlanta” teve a ver com isso. Não sei, mas sem parecer paranóico, não excluo nada. Talvez devamos esperar por documentos desclassificados da CIA em cerca de 50 anos para resolver esta questão. Agora, o que eu acho é que devemos prestar atenção a uma possível variante do “plano” com base na divisão de forças progressistas.
CC: O que as vítimas do “plano” poderiam ter feito em sua defesa ou como reação? Por que o “plano” parece vitorioso?
MP: Sinto que as forças progressistas estão desarticuladas, apesar dos esforços da Copppal e do Foro de São Paulo para definir políticas comuns que nos levem a enfrentar com sucesso os desafios e ameaças que vivemos e nos ameaçam. Muitas coisas poderiam ter sido feitas para enfrentar o “plano” a partir das particularidades de cada país.
CC: O que futuros governos progressistas devem fazer para não ser vítimas de novo desse tipo de ação?
MP: Primeiro, estar atentos, nunca desprevenidos. Em segundo lugar, não perder o contato com o povo, porque se você permanecer em contato no dia a dia, na hora da ameaça e na chamada ao apoio popular, eles responderão. Não há uma fórmula para enfrentar a urdidura, cada situação determina a resposta.
CC: O senhor tratou do “Plano Atlanta” em um artigo de jornal em março de 2016. Depois disso, houve alguma consequência do seu relato?
MP: Em princípio, nenhum até que os fatos chamassem a atenção para a história. Então comecei a sentir interesse no que aconteceu naquele dia em Atlanta. O lamentável é que, sabendo o que estava sendo tratado lá desde o momento em que aconteceu, nada foi feito.

Penso que se poderia haver articulado uma estratégia de desmonte do Plano. Havia tempo. Agora, sofremos fortes golpes para a institucionalidade democrática na região. É uma pena. Mas eu confio que nossos povos não permanecerão calmos diante do desmantelamento de suas conquistas e da possível perda da nossa soberania.

Criptomoedas ou cripto-ativos?, por André Roncaglia.


por André Roncaglia
A nova onda no mercado financeiro é o “investimento” nas moedas digitais, ou criptomoedas. Bitcoin, Ethreum e as centenas de Altcoins (moedas alternativas) tomaram de assalto o noticiário econômico e são “trending topic” nas redes sociais, nas mesas de bar e nas reuniões de amigos e familiares.
Neste post, explicaremos alguns traços financeiros básicos das moedas digitais e os fatores relevantes para que você, leitora ou leitor, não seja enfeitiçada(o) pelo efeito manada das criptomoedas.
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Moeda e Ativos Financeiros

A moeda é um instrumento bastante peculiar, pois serve tanto para efetuar transações de compra e venda à vista, como para preservar o valor financeiro detido por alguém entre os momentos do recebimento e o do gasto, além de nos oferecer o “idioma” para interpretar o valor dos bens e serviços oferecidos pela economia.
Assim, ao mesmo tempo em que a moeda é linguagem da economia, ela assume também a forma de sistema de pagamentos e de reserva de valor. Ela é simultaneamente abstrata e concreta, por que resulta da aceitação coletiva tanto tácita (não explicitada em contrato individual) quanto imposta pelo governo ou criada pelos bancos (via crédito), bem como recebe uma manifestação material, na forma de papel-moeda e moedas metálicas.
Por isso, ela é instrumento à circulação da renda e pode ser também o objetivo final das pessoas. A moeda é meio e também é fim! Após atendermos às nossas decisões de consumo, enfrentamos a decisão de aplicar nossa poupança em títulos financeiros ou investimentos reais – que geram rendimentos ao longo do tempo, i.e. uma taxa de juros (Tesouro Direto) ou de lucro (abrir uma empresa) .

 

Componentes do valor de um ativo

A teoria de carteiras de ativos lida com o que as famílias devem fazer com o seu dinheiro em situação de radical incerteza, isto é, de desconhecimento quanto aos eventos futuros da economia. Por isso, podemos usar uma abordagem bastante esquemática, desenvolvida por John Maynard Keynes, no capítulo 17 do seu famoso livro A Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda. O autor define os principais componentes do valor de qualquer ativo (denominado R) como sendo:
Retorno      =         (Retorno Periódico Líquido)
                                  + Variação do Preço do Ativo
                   + Prêmio de Liquidez
ou, em forma analítica:
R =         (Q – C)        +          A           +         L

O item Q pode ser entendido como o pagamento periódico que um ativo faz ao seu detentor (na forma de cupom, de lucros trimestrais, aluguel de um imóvel etc.). O armazenamento, carregamento ou custodia do ativo gera uma despesa (C) relativa, por exemplo, à taxa de administração de um fundo de investimento, aos emolumentos da Bolsa de Valores, ou aluguel de armazém ou vaga de estacionamento etc. Ou seja, todo custo envolvido em se manter um ativo.
Um automóvel, por exemplo, tem um retorno periódico líquido negativo (Q = 0 e C é relativamente alto). Além disso, salvos itens de colecionadores, o valor do automóvel sofre depreciação constante (A é negativo) e o prêmio de liquidez é nulo (L = 0) na melhor das hipóteses, pois a venda apressada em geral dá ao comprador um poder de barganha que faz o preço do automóvel cair muito. Por isso, é indiscutível que um automóvel é um investimento irracional do ponto de vista financeiro.

A peculiaridade do ativo “moeda”

No caso da moeda, note que ela não gera rendimentos periódicos (Q = 0) e tem um custo de carregamento associado à inflação, isto é, pela equação acima, se a inflação for elevada (elevado), menor é o valor do ativo moeda (menor).
Ademais, a variação do valor da moeda (A) depende do mercado em que o investidor quer negociar a moeda. Se for dentro da economia doméstica, o valor de A é nulo, pois a moeda seria trocada por ela mesma.
Porém, se a opção for tentar ganhar com a troca por moedas estrangeiras ou alternativas, o valor de A pode ser relevante. Se, por exemplo, o Real se valorizar perante o Dólar, o valor de A da moeda Real é positivo quando medido em termos de dólares (a moeda pela qual se deseja eventualmente trocar os seus reais).
Finalmente, o traço mais distintivo da moeda perante os outros ativos financeiros é, certamente, o prêmio de liquidez (L), que é o mais alto dentre todos os ativos. A liquidez imediata é a definição própria de moeda. Se um automóvel se tornar o ativo mais líquido da economia, ele se torna a moeda da economia.
Assim, perante a incerteza que recai sobre todos os ativos financeiros da economia, a moeda oferece ao menos o poder de compra imediato (L mais elevado da economia). Por isso, ela é o refúgio dos temerosos quanto a um futuro catastrófico. Como diria Keynes, é a moeda que acalma a nossa ansiedade perante o desconhecido.
Dito isso, vem a pergunta: será que as criptomoedas conseguem oferecer estes “serviços” com maior segurança e comodidade?Para tanto, teriam de depor as moedas estatais fiduciárias de sua posição suprema de liquidez e a estabilidade de seu preço mediante os outros ativos da economia.
E é aqui que as coisas ficam bem complicadas para as criptomoedas.

Bitcoin e tudo mais…

O primeiro ponto a entender é: se o Bitcoin ou todas as outras criptomoedas são, de fato, um concorrente da moeda tradicional, qual será o prêmio de liquidez que elas oferecem? Ou seja, agora é fácil entrar e sair das moedas digitais, por que há uma euforia atraindo pessoas para este mercado. Mas até quando durará este comportamento?
O segundo ponto deriva do primeiro: a volatilidade (variação de A) das criptomoedas é muito elevada e a torna uma péssima candidata a substituir a moeda fiduciária atual. Eis o desempenho do Bitcoin em 2017:
Se você comprou um Bitcoin no início de 2017, quando ela custava menos de US$ 900, você poderia ter agora um lucro de mais de 1.200 por cento. Mas é bem provável que você não tenha feito isso. Talvez você tenha colocado só a ponta do pé na água deste mercado em novembro ou dezembro, quando o preço tomou as manchetes dos jornais: US$ 10.000 e, depois, US$ 15.000, e depois maior. Se você teve o azar de comprar na máxima de US$ 20.000 em 17 de dezembro, você perdeu mais de 40% do seu dinheiro a partir de 16 de janeiro, quando o preço bateu US$ 11.200. (reportagem aqui)
Como foi sugerido por Matt O’Brien, em artigo no Washington Post, para se tornar efetivamente uma moeda, o ativo:
… não só deve evitar perder muito valor, mas também deve evitar ganhar muito. Caso contrário, por que você gastaria? Você não o faria. Você seguraria o ativo por quanto tempo pudesse para no caso de, como o bitcoin, seu valor subir de US$ 900 em um ano para US$ 19.000 no próximo; evento este que, se o bitcoin substituísse o dólar, acabaria com a economia enquanto todos deixariam de comprar algo além do essencial e esperariam para se tornarem milionários em bitcoin.
Maior volatilidade tende a “expulsar” investidores conservadores do mercado. O problema é que para sair do mercado, alguém deve fazer o lado oposto da transação. Se o mercado não contar com participantes de comportamento arriscado, ninguém adquirirá a moeda digital daquele que quer sair, o que reduz a liquidez do ativo (L cai). Afinal, sempre pode-se esperar cair mais antes de comprar um ativo. E mais:
Você pode passar semanas aprendendo sobre as nuanças das várias criptografia. Mas o principal risco para Bitcoin é de fato bem mais pedestre. “O maior fator empurrando o preço pra cima é potencialmente o que o derrubará – uma reversão nos entusiasmo (animal spirits) dos investidores”, diz Adam Ludwin, diretor executivo da Chain Chain starring chain. “Há essencialmente uma crença de que o preço continuará a subir. Se as pessoas acreditam que continuará a descer, temos um processo auto-reforçador.
Como sugeriram dois analistas da Bloomberg: “o bitcoin é o único ativo que você sente estar simultaneamente numa bolha e num ‘crash’”.

 

Onde os fracos de estômago não têm vez!

Em mais longo prazo, podem se firmar ciclos de liquidez que alternem expansão (mais investidores, maior liquidez) e contração (mercado menor com aceitação coletiva mais restrita). Isso torna a operação de criptomoedas mais custosa em termos de conhecimento e de informação.
Podemos retomar Keynes e sua analogia do “concurso de beleza” para se compreender a dinâmica especulativa do mercado financeiro. Nesta relação, Keynes apontava que o papel do investidor é o de tentar adivinhar o que a média do mercado prevê que a média de mercado será e, com base nesta predição, fazer apostas que ganhem do mercado:
Cryptocurrency em geral é “uma das mais belas destilações do concurso de beleza keynesiano que já existiu”, diz Ludwin. Todos os investimentos têm algum desse elemento especulativo, mas, ao contrário, digamos, um estoque, a Bitcoin não é uma reivindicação sobre lucros futuros aos quais os investidores podem obter uma avaliação. Apostar em Bitcoin é acreditar simplesmente que outros vão querer isso (link aqui).

Panela Velha é que faz comida boa?

Com base nos muitos riscos que as criptomoedas oferecem, a “velha” e tradicional moeda estatal oferece a vantagem de baixa volatilidade (se a inflação for mantida baixa) e elevada liquidez nos territórios nacionais.
Contudo, em geral, os governos imprimem em suas constituições a “obrigatoriedade” de se utilizar a moeda emitida por eles, o que induz as pessoas a adotarem a moeda, basicamente para conseguir pagar os impostos do emissor da moeda. Esta é uma barreira quase intransponível à entrada de moedas concorrentes. Prova disso é que as moedas digitais vêm prosperando mais amplamente em países dominados por guerras civis ou em crise humanitária, como é o caso da Venezuela.
Por isso, ainda que se possa crer nas criptomoedas como uma alternativa revolucionária à moeda estatal, é esta última ainda que determina o comportamento das moedas novas. Os mais crentes nas criptomoedas defendem que sua valorização acelerada é fruto de seu sucesso como alternativa à mão forte do Estado na circulação da moeda.
Num cenário de estagnação no mundo desenvolvido, com taxas de juros negativas e escassez de oportunidades de rendimento, as bolhas de ativo ganham forte impulso.
O teste de fogo das moedas digitais virá num futuro não muito distante, e não será pela proibição burocrática, mas pelo jogo de mercado, quando a taxa de juros do FED começar a subir sistematicamente.
Saberemos então se são cripto- ou decrépito-moedas.

* Este texto é uma adaptação do texto original do autor publicado no blog da Consultoria Stokos Economic Research.

Brazil’s Democracy Pushed Into the Abyss, by Mark Weisbrot.



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Former President Luiz Inacio Lula da Silva of Brazil at an event this month in Rio de Janeiro.CreditMauro Pimentel/Agence France-Presse — Getty Images
WASHINGTON — The rule of law and the independence of the judiciary are fragile achievements in many countries — and susceptible to sharp reversals.
Brazil, the last country in the Western world to abolish slavery, is a fairly young democracy, having emerged from dictatorship just three decades ago. In the past two years, what could have been a historic advancement ― the Workers’ Party government granted autonomy to the judiciary to investigate and prosecute official corruption ― has turned into its opposite. As a result, Brazil’s democracy is now weaker than it has been since military rule ended.
This week, that democracy may be further eroded as a three-judge appellate court decides whether the most popular political figure in the country, former President Luiz Inácio Lula da Silva of the Workers’ Party, will be barred from competing in the 2018 presidential election, or even jailed.
There is not much pretense that the court will be impartial. The presiding judge of the appellate panel has already praised the trial judge’s decision to convict Mr. da Silva for corruption as “technically irreproachable,” and the judge’s chief of staff posted on her Facebook page a petition calling for Mr. da Silva’s imprisonment.
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The trial judge, Sérgio Moro, has demonstrated his own partisanship on numerous occasions. He had to apologize to the Supreme Court in 2016 for releasing wiretapped conversations between Mr. da Silva and President Dilma Rousseff, his lawyer, and his wife and children. Judge Moro arranged a spectacle for the press in which the police showed up at Mr. da Silva’s home and took him away for questioning — even though Mr. da Silva had said he would report voluntarily for questioning.
The evidence against Mr. da Silva is far below the standards that would be taken seriously in, for example, the United States’ judicial system.
He is accused of having accepted a bribe from a big construction company, called OAS, which was prosecuted in Brazil’s “Carwash” corruption scheme. That multibillion-dollar scandal involved companies paying large bribes to officials of the state-owned oil company, Petrobras, to obtain contracts at grossly inflated prices.
The bribe alleged to have been received by Mr. da Silva is an apartment owned by OAS. But there is no documentary evidence that either Mr. da Silva or his wife ever received title to, rented or even stayed in the apartment, nor that they tried to accept this gift.
The evidence against Mr. da Silva is based on the testimony of one convicted OAS executive, José Aldemário Pinheiro Filho, who had his prison sentence reduced in exchange for turning state’s evidence. According to reporting by the prominent Brazilian newspaper Folha de São Paulo, Mr. Pinheiro was blocked from plea bargaining when he originally told the same story as Mr. da Silva about the apartment. He also spent about six months in pretrial detention. (This evidence is discussed in the 238-page sentencing document.)
But this scanty evidence was enough for Judge Moro. In something that Americans might consider to be a kangaroo court proceeding, he sentenced Mr. da Silva to nine and a half years in prison.
The rule of law in Brazil had already been dealt a devastating blow in 2016 when Mr. da Silva’s successor, Ms. Rousseff, who was elected in 2010 and re-elected in 2014, was impeached and removed from office. Most of the world (and possibly most of Brazil) may believe that she was impeached for corruption. In fact, she was accused of an accounting maneuver that temporarily made the federal budget deficit look smaller than it otherwise would appear. It was something that other presidents and governors had done without consequences. And the government’s own federal prosecutor concluded that it was not a crime.
While there were officials involved in corruption from parties across the political spectrum, including the Workers’ Party, there were no charges of corruption against Ms. Rousseff in the impeachment proceedings.
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Mr. da Silva remains the front-runner in the October election because of his and the party’s success in reversing a long economic decline. From 1980 to 2003, the Brazilian economy barely grew at all, about 0.2 percent annually per capita. Mr. da Silva took office in 2003, and Ms. Rousseff in 2011. By 2014, poverty had been reduced by 55 percent and extreme poverty by 65 percent. The real minimum wage increased by 76 percent, real wages overall had risen 35 percent, unemployment hit record lows, and Brazil’s infamous inequality had finally fallen.
But in 2014, a deep recession began, and the Brazilian right was able to take advantage of the downturn to stage what many Brazilians consider a parliamentary coup.
If Mr. da Silva is barred from the presidential election, the result could have very little legitimacy, as in the Honduran election in November that was widely seen as stolen. A poll last year found that 42.7 percent of Brazilians believed that Mr. da Silva was being persecuted by the news media and the judiciary. A noncredible election could be politically destabilizing.
Perhaps most important, Brazil will have reconstituted itself as a much more limited form of electoral democracy, in which a politicized judiciary can exclude a popular political leader from running for office. That would be a calamity for Brazilians, the region and the world.
A version of this article appears in print on , on Page A10 of the National edition with the headline: Brazil’s democracy faces an abyss. Order Reprints | Today’s Paper | Subscribe

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Apelo de um (ex) espírita à Federação Espírita Brasileira, por Marcos Villas Boas.

Foto: Ismael Gobbo
Por Marcos Villas Boas
Apelo de um (ex-)espírita para que a Federação Espírita Brasileira mude
Por que deixei de seguir o movimento espírita para seguir Kardec e o espiritualismo?
Este blog foi iniciado em maio de 2017 com o nome “Ciência Espírita” e passou a se chamar “Ciência e Filosofia Espiritualista” alguns dias atrás. Aproveitando para explicar as razões aos leitores, gostaria de contar um pouco da trajetória espiritual que me fez deixar de seguir o movimento espírita para ficar com Allan Kardec e me abrir ao espiritualismo.
Há 2 anos comecei as leituras espíritas, como muitos fazem, pelo livro Nosso Lar, do espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier, e fiquei encantado por aquela e outras literaturas fantásticas devido aos detalhes que nos traziam acerca do plano astral e de como nós, encarnados, somos afetados pelos desencarnados.
Daí advieram várias consequências muito boas e outras muito ruins, as quais merecem uma análise cuidadosada Federação Espírita Brasileira (FEB) e do movimento espírita de um modo geral, pois, segundo constatei, se repetem frequentemente.
O espiritismo me fez descobrir textos magníficos produzidos pelo grande estudioso Kardec, que buscava compreender o mundo dos desencarnados e suas relações com os encarnados numa perspectiva eminentemente científico-filosófica, e não religiosa no sentido tradicional, como ele fez questão de deixar muito claro na Revista Espírita e no livro, pouco lido, “O espiritismo em sua expressão mais simples”.
Kardec estudava de tudo: os gregos antigos, as diferentes religiões da época, ia atrás de todo tipo de manifestação mediúnica etc. Se vivo hoje, é indubitável que ele estaria frequentando e buscando compreender todos os fenômenos espirituais, assim como colhendo conhecimento dos espíritos, em todas religiões e filosofias espiritualistas que surgiram depois, como a umbanda e a teosofia. Kardec não era conservador, não tinha amarras. Para ele, interessava buscar mais saber.
O espiritismo me deu conhecimentos interessantes sobre energia, vibração, a importância da oração e vários outros assuntos. Com isso, minha mediunidade foi ganhando mais corpo e, com o aumento da sensibilidade, vêm consequências agradáveis e desagradáveis, imperando as primeiras ou as segundas de acordo com o nível vibratório que cada um consegue manter.
Se a pessoa tem um bom autoconhecimento, se fez análise ou autoanálise, se estudou sua psique, ela tem boas chances de manter um alto padrão vibratório. Do contrário, não há religião que, por si só, deixe a pessoa no seu melhor e em paz consigo. Aliás, muitas vezes, o tom moralista e limitador das religiões causa exatamente o efeito oposto.
Um dos problemas é que o espiritismo de Kardec, apesar de trazer um conhecimento muito bom para entendermos a vida de forma mais ampla, ajudando a avançar em diversas questões ocultas fundamentais da vida humana, tem pelo menos 150 anos. Como o próprio codificador do espiritismo dizia, seria preciso que aquele conhecimento acompanhasse os avanços científico-filosóficos, o que, de um modo geral, não foi feito. A Psicologia, por exemplo,mal existia quando Kardec desencarnou em 1869. Freud tinha 13 anos e Jung nasceria 6 anos depois.
Inúmeros aspectos da obra de Kardec, apesar de fazerem sentido racionalmente, começaram a deixar de manter coerência ou se mostraram superficiais com o aumento de complexidade do conhecimento humano, o que era evidente que aconteceria.
A escala espírita, por exemplo, que estabelece graus de um modo bastante linear e superficial, colocando uns espíritos como superiores aos outros, é veementemente criticada por diversos desencarnados sábios, como se vê no diálogo abaixo:
Muito do que está hoje em livros psicografados e diálogos gravados com espíritos sábios atualiza de forma estrondosa o que estava em Kardec ou em Chico Xavier, não sendo isso nenhum demérito para eles. O conhecimento é assim e sempre será. Tudo está em movimento e progride, já dizia uma das leis herméticas quase 5.000 anos atrás. É curioso como não se fala, por exemplo, em hermetismo no meio espírita.
O espiritismo veio, sobretudo, como uma reinterpretação espiritualista do cristianismo, para redirecionar, no mundo ocidental (frise-se!), especialmente a Igreja Católica e a Igreja Protestante, que disputavam ferrenhamente o domínio religioso nos países do Ocidente.
O espiritismo era e continua sendo praticamente desconhecido em todo o lado oriental, e eles são muito mais avançados em termos de espiritualidade e interessados no tema há bem mais tempo do que os ocidentaisem geral.
Textos da filosofia espiritualista oriental datam de muito antes de Cristo, como aqueles referentes aos ensinamentos de Hermes Trimegisto,Lao-Tsé, Confúcio e Siddartha Gautama (Buda). O conhecimento sobre os chakras, por exemplo, existe lá, com riqueza de detalhes, há muito tempo. Os espíritas, contudo, de um modo geral, desconhecem essa literatura, assim como eu a desconhecia em grande parte até mais ou menos 1 ano.
Lê-se muito mais o Evangelho segundo o Espiritismo, por conta da prática do evangelho nos centros espíritas e nos lares, e lê-se alguns livros soltos de Chico Xavier. É a tradição religiosa imperando, até porque o evangelho é a reinterpretação dos sábios desencarnados acerca de trechos da Bíblia.
Participei também de diversos grupos de whatsapp e em Facebook com espíritas, nos quais pude perceber, em curto espaço de tempo e com clareza, como muitos são fechados, ao contrário do que pensam e propagam, e tão ou mais conservadores do que outros religiosos.
Quando falta o autoconhecimento e a consciência é pouco aberta, é natural que se acredite fazer algo que não se faz, sendo o discurso bem distinto da prática, que nega os princípios das própria doutrina tão ferrenhamente defendida.
Ao afirmar algumas vezes que seria importante para os espíritas estudarem a teosofia, nas obras brilhantes de Helena Blavatsky e Annie Besant, autorasestudiosas que se debruçaram profundamente sobre as religiões e sobre o espiritualismo universalista, foi-me dito por espíritas que não poderíamos fazer isso se não lêssemos toda a obra de Kardec com cuidado primeiro.
Dizer algo assim é como falar que não devemos estudar Jung, porque primeiro precisamos conhecer tudo de Freud com cuidado,indicando um fanatismo inconsciente e um pensamento que tende a ocasionar uma limitação de conhecimento assustadora.
Assim como Jung atualizou e corrigiu Freud, o conhecimento teosófico, umbandista e outros atualizam e corrigem Kardec em diversos pontos, e isso não faz Kardec nem o espiritismo menores de forma alguma, a não ser para os guiados puramente pelo ego, que acham sua religião melhor do que as demais e impassível de equívocos.
A imensa maioria dos espíritas acredita que o espiritismo é o “Consolador Prometido” que veio para unificar todas as religiões, e que não demora para isso acontecer. Já acreditei nisso e sinto-me arrependido hoje, mas não me culpo, pois a culpa é um sentimento denso e aprender faz parte do nosso processo. Todos aprenderemos, mas cada um caminha em seu tempo, de modo que o respeito por nós e pelos demais é essencial.
O mestre ascensionado Serapis Bey lembra bem, no final do vídeo abaixo, que o espiritismo é um conhecimento importante e que as obras de Kardec servirão como ricas fontes de estudo por um bom tempo, mas é só isso. Os livros espíritas são mais uma fonte, muito relevante, mas, ainda assim, uma dentre tantas outras:
Os próprios espíritos idolatrados por muitos espíritas tiveram diversas outras encarnações nas quais atuaram em outras religiões ou filosofias. Há certo consenso, e isso é dito por diferentes espíritos sábios, que São Francisco de Assis foi João, o Evangelista, importante codificador da Bíblia, e veio a ser depois o mestre da grande fraternidade brancaKuthumi, atual “governante do planeta”, que passou sábios ensinamentos em vídeo recentemente publicado no programa Diálogo com os Espíritos:
A FEB e o movimento espírita de um modo geral poderiam se abrir para os outros conhecimentos, em lugar de permanecerem limitados e repletos de ilusões. Ao pedir a uma amiga espírita recentemente para que me ajudasse a dar palestras em centros espíritas, ela disse que não poderia me ajudar, pois não concorda com minha postura “multifacetada” e acha que só se deveria falar de espiritismo em centros espíritas. A que ponto chegamos? Kardec concordaria com isso?
O pensamento espiritualista mais avançado se baseia no conhecimento, existente há muitos séculos, desde bem antes do espiritismo, sobre autoconhecimento, automelhoramento, despertar da consciência e transmutação de energias, emoções e sentimentos, conhecimento este utilizado por Jung para construir a sua psicanálise. Em tempos de transição planetária, é preciso falar de alquimia, Saint Germain, ego, self (Eu superior), ilusões de Maya, agregados de Buda e vários outros temas pouco lembrados pelos espíritas.
A brilhante série psicológica de Joanna de Angelis recorre à ciência e à filosofia mais atuais, remetendo em diversos momentos a conhecimentos orientais, porém ela é pouco conhecida entre os espíritas e tida por uma leitura difícil. Claro que é. Não obtendo o conhecimento prévio necessário para entendê-la, parece incompreensível.
Os livros dessa série de Joanna, psicografados por Divaldo Franco, desenvolvem a Psicologia Transpessoal e são um marco em termos de autoconhecimento e despertar da consciência, dois temas muito mais comuns e profundos nas filosofias espiritualistas orientais do que no espiritismo, que tem uma ideia de reforma íntima ainda pouco aprofundada.
Como os religiosos tradicionais, muitos espíritas cansam de falar em amor, humildade, caridade, tolerância, paciência etc., mas não compreendem bem esses sentimentos e sua prática, nem os efetivam. Hoje percebo como compreendia superficialmente esses sentimentos e com uma visão moralista quando estava muito preso às obras espíritas.
Outro ponto é que, além de os espíritas em geral pregarem essas máximas de uma forma genérica e superficial, não há uma busca das casas por conhecerem detalhadamente cada espírito encarnado e desencarnado que ali frequenta, pois pessoas com diferentes características não podem ser tratadas de modo igual.
Os tratamentos espíritas não funcionam muitas vezes por conta disso. O atendimento fraterno nos centros invariavelmente manda a pessoa fazerdesobsessões, tomar passes, beber água fluidificada, fazer a reforma íntima, o evangelho do lar, ler Kardec e Chico Xavier.
Tudo isso é muito bom, mas quais as energias que regem aquela pessoa? Quais estarão imperando em cada momento? Como parece se expressar a sua essência, ou self, ou Eu Superior? Como seu ego se apresenta agora e quanto está distanciado do self? Tudo isso é, em regra, deixado de lado, em detrimento, muitas vezes, de pregações de cunho religioso mais tradicional: “meu irmão, reze para Deus, nosso pai, que o amor de Jesus Cristo tudo resolve”.
Mapa astral, numerologia, uso de oráculos, consultas com espíritos da luz; tudo isso, quando feito em locais sérios, em busca de autoconhecimento, automelhoramento e ajuda ao próximo, ao invés de busca por satisfazer curiosidades sobre o passado e o futuro, pode ajudar imensamente as pessoas a encontrarem seu melhor, os caminhos que tinham previsto seguir antes de encanarem, tornando-as, então, finalmente plenas, pondo fim às ansiedades, angústias, medos e depressões.
Quando estava muito focado no espiritismo e, sobretudo, quando não tinha aprofundado em Kardec, não percebia nada disso. Ficava envolto por noções religiosas, que remontam mais ao catolicismo tradicional do que ao espiritualismo.
Via pessoas palestrando em centros espíritas e falando mal da Umbanda e dos evangélicos, apesar de elas mesmas se dizerem abertas a tudo e amorosas. Achava tudo aquilo estranho, mas não tinha base de conhecimento teórico, nem experiencial para questionar.
Somente depois de frequentar outros locais, ainda que inicialmente repleto de moralismos incutidos pelo movimento espírita, é que pude começar a me desfazer de algumas ilusões e limitações que prendiam meu ego e me faziam viver muito pior do que poderia. A umbanda me ampliou imensamente a consciência!
Continuo me considerandoum kardecista, enquanto estudioso do espiritismo, sobretudo de Kardec, mas, na mesma linha do que disse o médium Roberto Barbosa em estudo realizado com ele e com o Dr. Fritz nele incorporado, não posso seguir o movimento espírita com suas restrições a todas as técnicas de cura que surgiram nas últimas décadas, mas que são rechaçadas por não estarem na obra de Kardec. Segue link para o vídeo mencionado:
Assim como espírita, considero-me teosofista, budista, umbandista,yogi e adepto de todas as demais linhas espiritualistas que possam me ajudar e ajudar o próximo, pois não preciso de algo que me limite.
Somos todos obras e partes de Deus. Os nossos limites são colocados por nós mesmos. Sobretudo quando pautados no amor incondicional, que é pura abertura e conexão com tudo e todos, não faz sentido se fechar numa doutrina. Daí vem o apelo à FEB e ao movimento espírita de um modo geral.
É preciso tomar cuidado com aventureiros, com místicos sem embasamento, com aqueles que têm fins meramente individualistas e deve-se, sim, ter uma institucionalização do movimento; mas, ele não pode se tornar tão engessado que prejudique os seus objetivos maiores: autoconhecimento, automelhoramento e ajuda ao próximo que lhe dê plenitude e autonomia, não o deixando dependente de religião, nem de centros, nem de ninguém.
Controles demais, regras demais, poder demais na mão de alguns poucos, fechamento excessivo, repetição dos palestrantes e dos temas, falta de transreligiosidade, busca por adeptos, tentativa de converter pessoas; tudo isso tem dificultado a própria difusão e efetividade prática do espiritismo nas consciências das pessoas. Quando o espiritismo se abrir conforme Kardec propôs, crescerá muito mais.
Evidentemente, diversos espíritas, como o próprio Roberto Barbosa acima citado, são exceções, ainda que minoria, e este texto não é uma crítica ou um julgamento dos demais, mas uma amorosa proposta de reflexão. Muitos desses que são minoriativeram que manter suas casas, por todo o Brasil, fora da FEB, pois esta não tolera em seus quadros centros com tratamentos reconhecidamente exitosos como reiki e banhos de ervas, por estarem“fora dos padrões doutrinários”.
Perguntem, dentro de centros espíritas, a quaisquer espíritos de maior sabedoria se o reiki, os banhos de ervas, os cristais, a cromoterapia e outras terapias espiritualistas não ajudam na cura. Dificilmente haverá um que será contrário ao seu emprego nos tratamentos dos necessitados dentro dos próprios centros.
Como já disse neste blog, no Grupo Espírita Francisco de Assis (GEFA), localizado em Groaíras/CE, onde tive a honra de servir por curto espaço de tempo, trabalham espíritos de freis e padres que ficaram renomados na história, pretos velhos, caboclos, exus, espíritas, extra terrestres etc. São usadas práticas espíritas, como o evangelho e a água fluidificada, mas também cirurgias espirituais, banhos de ervas, cromoterapia e técnicas especiais de desobsessão, havendo uma grande e rara efetividade no tratamento de casos muito complexos.
Uma casa como essa, com tanto a compartilhar em termos de cura, não pode fazer parte da FEB, o que a isola de todas as demais e dificulta a difusão das técnicas que podem até salvar vidas.
Outra estranheza é que há pouca comunicação com desencarnados nos centros espíritas em geral para efeitos de estudos científico-filosóficos, muito menos para estudos que avancem na doutrina espírita. As comunicações, em regra, se resumem às mesas de desobsessão e às mensagens psicografadas.
Toda a codificação espírita foi elaborada com base na oralidade, em estudos de perguntas e respostas junto com os desencarnados, porém hoje se entende isso muitas vezes como algo errado no movimento espírita.
O programa Diálogo com os Espíritos, produzido desde 2012 pelo dedicado Jefferson Viscardi, é um marco na história do espiritualismo. Ele conversa com diferentes espíritos sábios, por meio de dezenas de médiuns que, em geral, não se conhecem entre si e localizados em distintas partes do Brasil e de outros países. Nunca houve um trabalho tão próximo daquele feito por Kardec na humanidade. Não ficaria admirado se o espírito Kardec fosse mentor do trabalho.
Recentemente, após 700 diálogos já publicados, estão sendo postados estudos com alguns dos mestres ascensionados, como Hilárion, Ananda, SerapisBey, El Morya Khan e Kuthumi. Não faz sentido esses diálogos não serem detidamente estudados e debatidos pelo movimento espírita.
Por que tantos espíritos dedicariam tempo gravando para esse programa? A sabedoria das mensagens, de um modo geral, é inquestionável, de modo que, independentemente do nome do espírito, não dá para negar o nível de elevação dos que participam do programa. 
O espiritismo traz um conhecimento belíssimo e de grande valia para a humanidade. É preciso, numa atitude de amor e humildade, colocá-lo lado a lado com os demais, buscando uma maior inter-relação para efeito de aprendizado de todos, espíritas e não espíritas. Nesse sentido, a FEB é o órgão mais indicado para iniciar as mudanças que poderiam ser feitas.
Manter a segregação entre o espiritismo e as demais religiões e filosofias espiritualistas parece cometer erros muito semelhantes aos do passado religiosos da humanidade, mas pensando que se está fazendo muito diferente.
Torçamos todos para que possa haver uma maior integração entre os espiritualistas e para que, assim, a palavra dos espíritos sábios possa ser levada com mais rapidez a um maior número de pessoas, fazendo com que seus ensinamentos despertem mais consciências de modo a realizar a transmutação de vibrações de que o planeta carece neste processo de tra

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Globalização Financeira, a próxima crise, por André Araújo.

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A economia moderna que se estuda há 200 anos opera por ciclos de expansão e contração. O atual ciclo de globalização financeira leva o mundo a sérias distorções no campo social e politico e a fatura está chegando. O atual ciclo começou em 2009 e está para terminar por causa do excesso de liquidez que leva a investimentos arriscados na desesperada busca de “taxas de retorno” quase impossíveis de obter. Fundos americanos que procuram projetos de infraestrutura no Brasil pretendem taxas de 16 ou 17% ao ano em dólar, uma aberração, mas eles insistem. Os chineses se contentam taxas menores e por isso estão ganhando os melhores projetos de infraestrutura, especialmente em energia.
Estão sendo feitos muitos investimentos arriscados por fundos especulativos que prometem taxas elevadas para atrair investidores menos conservadores.
Isso levará a uma sucessão de insucessos que estão apontando no horizonte e ai a GLOBALIZAÇÃO mostrará sua cara. A globalização cria um sistema de vasos comunicantes que funciona para o bem e para o mal. Quando funciona bem tudo é festa. Quando há uma crise em um país o contágio também é rápido, propaga-se o efeito dominó que equaliza continentes e tipos de Pais. Uma crise na Argentina contamina o Brasil porque na visão do investidor global são países do mesmo tipo de economia. Com economias estanque não era assim, as crises não se comunicavam, hoje há uma visão regional de economias que reflete uma na outra.
 A implosão de uma bolha imobiliária em Hong Kong pode provocar pânico na Bolsa de Londres, um default de pais emergente ou de uma grande corporação multinacional pode estourar várias bolhas em Nova York e Toronto. A interconexão dos mercados não funciona só para o bem, a onda que vai volta no refluxo do pânico nos mercados. Lembremos que a quebra da Grécia se refletiu em todo o mercado financeiro europeu e há nuvens no horizonte. Os bancos italianos estão quase todos com balanços perigosos, o maior banco alemão tem sérios problemas que já estão sendo apontados há dois anos,  na China há várias bolhas no forno, o chinês tem paixão pela especulação de bolsa que trata como um cassino.
Uma sucessão de bolhas implodidas pode acabar com a chamada “ditadura dos bancos centrais”, fenômeno que começou após a crise de 2008 e que  provocou uma transferência de poder politico dos governos dos países ricos para os seus bancos centrais que comandam a politica econômica numa escala maior do que na década anterior. Essa “ditadura dos bancos centrais” está agora sob pressão das novas composições nos Parlamentos da Alemanha e da França e do Gabinete inglês, por causa das tensões sociais que politicas monetárias exageradamente duras têm afetado o crescimento dentro da zona do Euro e da necessidade de recomposição da economia britânica após o Brexit. Ao mesmo tempo, a nova administração do Federal Reserve, pela primeira vez a ser dirigido por um advogado e não economista, será fatalmente mais expansionista e geradora de inflação no dólar americano, tudo isso vai provocar uma reacomodação no mercado financeiro global, tudo somado a uma politica econômica mais agressiva da China que terá impacto mundial, além de um nova e inédita aliança geopolítica da China com a Rússia, pavimentada pelo “acordo do gás” sino-russo, uma transação de trilhões de dólares e que estará fora do controle financeiro anglo-americano e da zona do dólar.
A Administração Trump vai aumentar a dívida publica americana em razão da multiplicação dos déficits orçamentários no seu governo. O corte de imposto vai obrigar o Tesouro a emitir mais divida, quase dois trilhões de dólares acima dos 21 trilhões já emitidos, abrindo o risco de  inflação e aumento de juros nos EUA, o que se refletirá no mundo inteiro aumentando o risco de devedores alavancados, públicos e privados, de governos e corporações porque todos esses fatores irão inevitavelmente provocar uma alta de juros em escala global.
A globalização financeira excessiva vem aumentando o numero de fusões e aquisições de empresas e a consequente redução dos empregos e aumento da concentração de riqueza, fenômenos que farão multiplicar problemas sociais em muitos países, até nos ricos.
A eficiência micro, no nível das empresas, aumentando a produtividade, provoca sua contrapartida negativa na ineficiência macro, porque os desempregados resultantes dessas fusões passam a onerar os sistemas de amparo social e saúde dos Estados, que também perdem arrecadação, já que uma das razões das fusões é o planejamento tributário visando a reduzir o custo dos impostos para cada empresa fusionada, o que aumenta seus lucros em detrimento dos Estados.
A globalização financeira NÃO é um novidade tão recente. Ela existiu em dois ciclos precedentes. Antes da Grande Guerra de 1914 o mundo era completamente globalizado, ainda mais que hoje. Capitais se moviam sem nenhum tipo de controle, imigrantes choviam nos países emergentes sem necessidade de qualquer autorização previa, muitos subiam nos navios para “ir à América” sem saber em que pais chegariam, em certos momentos nem sequer passaporte era necessário, bastava pagar a passagem e entrar no navio.
Pelo mundo inteiro capitais britânicos criaram ferrovias, empresas de bondes, de energia elétrica, gás, portos, de tecidos, frigoríficos, não havia barreiras ou controles para entrada e saída de capitais, o mundo era livre para movimentação de mercadorias, capitais e pessoas.
Com a Grande Guerra esse ciclo foi interrompido e já a partir da década de 20 foram estabelecidos controles para capitais, mercadorias e pessoas.
Mas logo mais, a partir de meados da década de 20, a globalização voltou com toda força com investidores americanos comprando bônus de cidades alemãs, argentinas e brasileiras, sem controle dos governos centrais. A cidade de Jundiaí no Estado de São Paulo emitiu “obrigações” nos EUA diretamente, sem necessidade de autorização do governo central. Estados federativos e cidades brasileiras emitiram bônus na Inglaterra e nos EUA diretamente, houve nos EUA uma onda de fusões nunca vista antes, novos financistas globais surgiram como o “Rei do Fósforo” o sueco Ivar Kreuger, que requeria monopólio de fósforo em certos países e em troca fazia um grande empréstimo, era o grupo Fiat Lux Swedish Match. Nos EUA os irmãos Samuel e John Insull formaram um grupo de 300 companhias elétricas com andares de holdings até o infinito. Tudo isso gestou a crise da Bolsa de Outubro de 1929, excesso de financismo  lastreado em sacos de vento e papeis pintados que subiam todo dia.
Com a crise de 1929 acabou esse segundo ciclo de globalismo financeiro e surgiu pelo mundo a “economia autárquica” estatizante e controlada pelos governos centrais, com fechamento de importações e rígidos controles do fluxo de capitais. O Brasil praticou essa politica de 1930 a 1990, 60 anos, com a CACEX controlando a importação e a FIRCE controlando o movimento de capitais (CACEX e FIRCE são dos anos 60 mas havia antes órgãos com a mesma função e com outros nomes).
Os ciclos de globalização financeira não são, portanto, fenômenos inevitáveis, da natureza, produtos do determinismo histórico. A História não é evolutiva, era e é feita de avanços e recuos, marchas e contramarchas, está ai o Reino Unido saindo da União Europeia.
São “projetos” do mercado financeiro e que não tem nenhum controle sobre suas consequências, que só o fim do ciclo pelo “estouro” de suas plataformas muda a relação de forças entre seus participantes. O que era global pode recuar para o local e o globalismo dar lugar ao nacionalismo, já aconteceu em ciclos anteriores. A crise dos “subprimes” em 2008, foi uma prévia desses estouros de pirâmides financeiras. Hipotecas americanas eram empacotadas e transformadas em bônus, que foram vendidos a fundos asiáticos que não tinham noção do que estavam comprando. O banco patrocinador, Goldman Sachs passou irresponsavelmente a especular com esses títulos por ela lançados, apostando no default deles, sem se importar com o prejuízo dos aplicadores a quem ela vendeu os títulos, o mesmo tipo de aventureirismo praticado pouco antes da crise de 1919, o que prova que o mercado privado puro é na essência irresponsável e inconsequente, pouco ligando para as repercussões macro de suas ações.
Como não há um comando e um controle centralizado, o movimento de globalização vive no caos, cada um por si e contra todos e com isso cria todos os ingredientes para a próxima crise.
Fatores externos que podem romper a corrente da felicidade são acidentes geopolíticos, como um choque com a Coreia do Norte ou Irã, com consequente choque de petróleo, falência de alguma ou algumas grandes corporações, como foi a crise de 2008, movimentos cambiais inesperados de alguma grande economia, como a China, crise politica aguda nos EUA, como impedimento do Presidente, não é importante a dimensão do fato e sim sua percepção pelos agentes econômicos, os pânicos financeiros são detonados por gatilhos iniciais pequenos.
É uma insanidade o Brasil se jogar sem cautela nos braços do globalismo financeiro por uma politica econômica avassalada ao financismo, focada exclusivamente em provocar deflação e desemprego para agradar ao rentismo e um programa alucinado de privatizações cujos participantes serão investidores estrangeiros, como se isso fosse o total de uma politica econômica, sem nenhum sentido nacional. Os países grandes que não fazem parte do sistema OECD, Rússia, China e Índia, seguem politicas de projeto nacional e não de puro engate no sistema financeiro anglo-americano, como o Brasil, único entre os grandes, vem fazendo de forma leviana e frívola, com uma equipe econômica gestada no estrangeiro e com os olhos voltados exclusivamente para fora, sem olhar para dentro do País e de suas necessidades.
O Brasil tem tamanho para ter um projeto nacional e não ser mero Estado coadjuvante da Bolsa de Nova York, trata-se do futuro do Pais e não apenas da cotação da Bolsa.

O incógnito 2018, por Marcus Ianoni e Felipe Quintas.

A condenação de Lula será confirmada e impedirá a sua candidatura? Quem serão os candidatos a presidente? Haverá eleições? Várias questões estão sem resposta. As decisões e desenlaces de 2018 serão cruciais para o destino do Brasil e dos brasileiros
do Brasil Debate
por Marcus Ianoni e Felipe Quintas
2017 caracterizou-se pela forte ofensiva neoliberal, que aprofundou a construção da ponte para o Estado mínimo, obra regressiva iniciada com o golpe contra a presidenta eleita, Dilma Rousseff. Mesmo pressionado pela crescente e enorme rejeição, o governo Temer, o mais reprovado desde a redemocratização, reuniu ampla maioria no Congresso em diversas ocasiões, seja para aprovar seu programa impopular ou para o chefe do Executivo livrar-se de processo pelo STF, nas duas rodadas de denúncias da Procuradoria Geral da República.
A reforma trabalhista alterou 100 itens da CLT, esvaziando-a substantivamente, e fortaleceu o poder dos empregadores nas relações contratuais trabalhistas, além de ter enfraquecido tanto a Justiça do Trabalho (a começar pela prevalência do negociado sobre o legislado), como os sindicatos, com o fim do imposto sindical. O governo pós-golpe contra a presidenta eleita logrou êxito em aprovar a Lei nº 13.483/2017, que aproximou as taxas de juros pagas pelo setor privado aos financiamentos do BNDES às oferecidas pelo mercado financeiro, diminuindo o papel desenvolvimentista desse histórico banco de fomento aos investimentos de longo prazo.
Realizaram-se os dois primeiros leilões de campos de exploração da mega reserva de pré-sal sob as regras de exploração aprovadas em 2016, pelas quais a Petrobras não mais precisa ter participação obrigatória nos novos blocos exploratórios vendidos. Conforme visava o governo, a novidade desses leilões foi a presença das multinacionais, como a Shell, ainda que o investimento estrangeiro não tenha vindo na dimensão esperada pelos estrategistas do Brasil dependente.
Temer também anunciou o processo de privatização de 57 empresas, entre elas a Eletrobras e a Casa da Moeda. Pesquisa recente do Datafolha mensurou que 70% dos brasileiros desaprovam as privatizações. Só entre os mais ricos, com vencimentos acima de dez salários mínimos, a maioria (55%) defende a venda das empresas estatais. Por outro lado, o adiamento para este ano da votação da reforma da previdência foi a principal, senão a única, derrota política do governo em 2017, mas passível de ser revertida em fevereiro, quando a polêmica matéria deverá ir a voto no plenário da Câmara dos Deputados. Essa derrota provisória também prejudica os interesses materiais e ideológicos dos grupos sociopolíticos coalizados nessa ofensiva liberal-conservadora, sobretudo os rentistas, financistas e a grande mídia.
Em 2017 também passou a vigorar a Emenda Constitucional 95, que estabeleceu, por um período de duas décadas, o teto de gastos públicos conforme a variação da inflação. Tal política contém as despesas primárias, mas não as financeiras, que favorecem os credores da dívida pública. Seus efeitos já se fizeram presente em 2017 em várias áreas, a começar pelas duas políticas sociais fundamentais estabelecidas no pacto social de 1988, desestruturado com a emenda do teto: a saúde e a educação.
Na saúde, por exemplo, os 13 milhões de desempregados pressionam por mais serviços e recursos do SUS, uma vez que os demitidos perdem o acesso aos planos privados patrocinados pelas empresas onde trabalham. Na educação, pode-se citar, por exemplo, o caso das universidades federais, sufocadas duplamente, pela redução dos recursos e pelo contingenciamento dos repasses. Assim se pronunciou o presidente da Andifes, Emmanuel Tourinho: “O orçamento de 2017 é aproximadamente 15% menor nos recursos de manutenção e de 50% na verba de investimentos das universidades em relação a 2014”. A recessão, seguida pelo atual crescimento em nível muito baixo, além da redução da presença social do Estado, enfim, todos esses fatores juntos têm impactado na regressão dos indicadores da desigualdade de renda, que estão piorando.
Em síntese, 2017 foi marcado, entre outros, pelo desemprego, pela retomada tímida do crescimento (Boletim Focus prevê 0,89% de variação do PIB), pelo aumento da desigualdade de renda e pelo esforço político visando a uma ampla reestruturação produtiva, trabalhista e previdenciária, para redesenhar o padrão de acumulação e de relações entre Estado, economia e sociedade. Ocorre uma ampla e profunda ruptura com os treze anos de governos petistas, que se esforçaram, ainda que com limites e erros, mas também com certos êxitos, para juntar, por um lado, o desenvolvimentismo do século 20, que erigiu o Estado como principal indutor e coordenador do desenvolvimento capitalista nacional, e, por outro lado, a perspectiva político-social de incluir, na repartição das riquezas geradas pelo sistema econômico, o grande contingente de brasileiros historicamente jogado na informalidade, na pobreza e na miséria.
A internalização extremada do padrão financeiro de acumulação, produzido nos países centrais e alastrado nas relações econômicas e políticas da globalização e do sistema internacional, radicaliza no Brasil a tendência verificada lá fora de desacoplamento entre capitalismo e democracia, deslocando o centro decisório do conjunto da população nacional para os grandes investidores globais, que submetem os governos e as sociedades aos ditames do capital financeiro.
A crise de representatividade e legitimidade do sistema político brasileiro, exponenciada em 2017, se expressa não apenas na continuidade de um governo ilegítimo do ponto de vista procedimental, por ter se originado em um golpe apenas aparentemente constitucional, mas também na facilidade com que os novos donos do poder aprovam no Congresso Nacional medidas fortemente impopulares, sem qualquer debate público consistente e muito menos por consulta direta ao povo. O Executivo e o Legislativo tornam-se, assim, espelhos políticos do grande capital, e não do conjunto dos cidadãos que, em tese, representam.
Paralelamente a isso, e em consonância com o que ocorre em outros países da América Latina, como a Argentina, há o lawfare do Judiciário, apoiado abertamente pela grande mídia oligopolizada, contra lideranças populares de esquerda, individuais e coletivas, sobretudo Lula e o PT. Em julho, o ex-presidente foi condenado pelo juiz Sergio Moro, sem provas claras. O objetivo é retirar da disputa política lideranças e partidos não só comprometidos com um projeto nacional de desenvolvimento e inclusão social, mas também com capacidade organizacional e relacional de colocá-lo em prática.
Almeja-se reduzir a competição eleitoral em favor do centro direita e da direita, que esposam o liberalismo conservador emerso no processo político da crise brasileira. A principal consequência dessa empreitada político-jurídica, que desrespeita o devido processo legal, é o enfraquecimento do caráter democrático das instituições políticas, tornando-as menos pluralistas e representativas e mais oligárquicas e excludentes. O regime passa por um processo de desdemocratização, embora haja oposição a ele.
Paradoxalmente, com as inúmeras denúncias de corrupção envolvendo diretamente o governo Temer e com o aprofundamento do neoliberalismo e do lawfare, os grupos e partidos que os apoiam se veem às voltas com a perda de popularidade e o risco de perder as eleições de 2018 para uma candidatura de esquerda, principalmente Lula, que assume a liderança absoluta em todas as pesquisas de intenção de voto. Nesse cenário, as forças de direita competem pela liderança da manutenção do projeto golpista no quadriênio a se abrir em 2019.
Por um lado, a candidatura de Bolsonaro, alinhando-se completamente ao neoliberalismo, procura oferecer aos rentistas e financistas a segurança de que seus interesses materiais estarão garantidos em um contexto de crescente autoritarismo e conservadorismo. Por outro, o golpismo aberto do general Mourão, ainda que sem tanto apoio visível, aponta no sentido de posicionar o Exército como ator autônomo na crise, não mais contido na retaguarda do golpe. Falta, entretanto, coesão interna na corporação para avançar nesse sentido e seu papel constitucional de defensor armado da soberania nacional é posto em xeque pela tolerância às privatizações e pela abertura da Amazônia a operações militares estadunidenses.
O balão de ensaio da candidatura de Luciano Huck, apoiada por forças neoliberais não vinculadas ao conservadorismo comportamental e saudada como de “centro”, em contraposição aos “extremismos” de Lula e Bolsonaro, foi abortado em menos tempo que o do seu antecessor, o prefeito de São Paulo João Doria Jr., devorado pela sua própria ambição. O pré-candidato do Podemos, Álvaro Dias, mantém-se discreto. O tucano Geraldo Alckmin conseguirá se manter distante dos escândalos de corrupção e entusiasmará o eleitorado? E o que será da opção Meirelles, que se apresentou com cara de presidenciável no programa de TV do PSD? Ademais, parece não estar descartada a possibilidade de implementação do semipresidencialismo já neste ano.
2017 terminou sem resolver a crise. Diversas questões continuam em aberto: o governo Temer é viável até o fim? As medidas impopulares, aprovadas sem terem sido submetidas ao crivo eleitoral de 2014, resistirão ao governo seguinte? Qual será o impacto da crise de legitimidade do governo Temer nas eleições de 2018? A condenação de Lula será confirmada e impedirá a sua candidatura? Quem serão os candidatos a presidente? Haverá eleições? Por ora, qualquer previsão pode ser um exercício pouco útil, devido à multiplicidade e à complexidade dos fatores envolvidos na disputa política e na economia. O país passa por uma encruzilhada histórica. As decisões e desenlaces de 2018 serão cruciais para o destino do Brasil e dos brasileiros.
Marcus Ianoni - É cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia
Felipe Quintas - É mestrando do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF)