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terça-feira, 26 de junho de 2018

A América do Sul diante das crises cambiais, por José Álvaro de Lima Cardoso.

– on 25/06/2018Categorias: América Latina, Brasil, Crise Financeira, Destaques, Economia, Geopolítica
Argentina tem muito menos reservas internacionais que o Brasil — por isso, o peso despenca. Mas ambos abandonam os projetos nacionais e são cada vez mais vulneráveis aos mercados financeiros
Por José Álvaro de Lima Cardoso
Em cerca de um mês, até 15 de junho, o Banco Central brasileiro colocou no mercado, através dos chamados swaps cambiais¹ , US$ quase 39 bilhões, visando conter a disparada da cotação da moeda norte-americana, algo equivalente a cerca de R$ 145 bilhões (cotação do dia 15/6). Desde 2002, quando os swaps começaram a ser usados para controle do mercado de câmbio, nunca tinham sido feitos tantos contratos, em intervalo tão curto de tempo. Ou seja, este é o maior volume de swaps cambiais já utilizados na história pelo Brasil. A instabilidade cambial brasileira vem na esteira da crise Argentina, que obrigou o vizinho a tomar emprestado US$ 50 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Argentina, Turquia e Brasil, até momento são os países que têm sido mais afetados pela atual crise cambial internacional.
Para tentar deter a sangria de capitais o governo argentino aumentou recentemente a taxa básica de juros para 40% ao ano, o que compromete diretamente o crescimento do PIB, e eleva ainda mais a taxa de desemprego. O déficit de balanço de pagamentos em conta corrente (que inclui comércio de bens, serviços, juros e outras rendas do capital) já beira os 5% do PIB. O pior é que a maior parte do financiamento desse déficit estava sendo feito através de endividamento externo: entre 2015 e 2017, a dívida externa da Argentina saltou de 28% para 36% do PIB. Até há pouco tempo, observe-se, a Argentina era a preferida dos mercados e o FMI fazia avaliações positivas recorrentes daquela economia.
Um primeiro problema é que a Argentina não dispõe de reservas suficientes para enfrentar o ataque especulativo. As reservas de US$ 50 bilhões (dado de dezembro), em relação ao tamanho da economia, menos de 9% do PIB, são consideradas abaixo do necessário. E essas são reservas brutas, as líquidas totalizam cerca de US$ 40 bilhões, já que o restante está comprometido com uma operação internacional de swap bilateral com a China.
Dada a proximidade da Argentina com o Brasil, e as semelhanças no tipo de políticas praticadas lá e aqui, o governo do Brasil se apressou em comunicar que não há o risco de crise cambial no país. De fato, a posição do Brasil é melhor do que a da economia argentina. A parcela da dívida que está indexada ao dólar não atinge 3%, sendo que o país é credor líquido em dólar. Ademais, o déficit em transações correntes é baixo. Nos últimos 12 meses, até abril, o saldo negativo é de cerca de US$ 8,9 bilhões, o que corresponde a um déficit de 0,43% do PIB, situação extremamente confortável. Além disso, as reservas internacionais no conceito liquidez totalizaram US$ 380 bilhões em abril. O estoque de swaps cambiais, por sua vez, segundo o Banco Central, é de apenas US$ 24 bilhões, pequena fração das reservas.
Mais ou menos entre 2000 e 2016, os países que reduziram sua vulnerabilidade externa na América do Sul, tinham assentado suas políticas socioeconômicas em três pilares básicos: 1º) Inclusão social e combate à pobreza; 2º) recuperação do papel do Estado em todos os aspectos; 3º) política externa com relativa independência. Tanto o Brasil, quanto Argentina, fizeram muito nessas três áreas. No caso da Argentina as políticas, em regra, foram ainda mais ousadas do que no Brasil (vide o caso da “expropriação” da YPF, que havia sido privatizada nos anos 1990, por Carlos Menem). Outros países da América do Sul praticaram também políticas bastante mais ousadas que as do Brasil. Tais políticas, como se sabe, sofreram desde o início, dura oposição do governo imperialista dos EUA e de seus braços políticos e econômicos (como o FMI).
Tanto o Brasil, quanto a Argentina, no período em que desenvolveram políticas baseadas nos mencionados pilares, não sofreram crises cambiais mais fortes. O Brasil inclusive, aproveitou o período de vacas gordas de valorização do preço das commodities para acumular reservas internacionais. Na crise de 2008, a estratégia do Brasil foi utilizar os bancos públicos para suprir o desaparecimento do crédito e seguir com as políticas de expansão do mercado consumidor interno. O restante da América do Sul, com suas especificidades, adotou a mesma linha geral. Em decorrência dessa política, o Brasil e os demais países não sofreram tanto os impactos da crise financeira mundial, pelo menos no seu primeiro momento. No caso do Brasil, a economia, se praticamente não cresceu em 2009, em função da política de “fuga para a frente” voltou a crescer no ano seguinte.
O ciclo de política econômica agora é o oposto, tanto na Argentina, quanto no Brasil. Os dois países têm adotado ações que levam ao enfraquecimento do Estado nacional, estão privatizando ou sucateando as empresas estatais, estão desmontando as políticas de segurança alimentar e aumentando a fome; realizam políticas que reduzem o mercado interno e provocam queda da renda dos trabalhadores. Em ambos os países vem aumentando a taxa de desemprego e as formas precárias de relações de trabalho e se interrompeu a política de aumento real de salários. Ademais, estão tentando privatizar o que for possível e destruindo o que sobrou da indústria, condenando a região a ser uma eterna fornecedora de matérias primas para o mundo desenvolvido.
São políticas que apontam na direção contrária à construção de projetos nacionais de desenvolvimento, como vinha ocorrendo antes, apesar das grandes limitações dos mesmos. Tais políticas tornam estes países da América do Sul, cada vez mais, meros fornecedores de matérias primas para os países centrais desenvolverem suas indústrias. Começando pelo petróleo (no caso do Brasil, principal motivação do golpe), mas também água e outros minerais fundamentais para a indústria. Nesse quadro de entrega da soberania e de destruição de direitos sociais, as economias do subcontinente se dirigem, de forma veloz, a uma fragilidade econômica crescente, que as torna reféns das crises cambiais. Não apenas em função das políticas de fragilização da soberania e de destruição de direitos, mas também pela crise política decorrente da incapacidade dos governos controlarem a crise. No caso do Brasil este último problema é agravado pela absoluta ilegitimidade do governo.
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¹ Swap é um termo inglês que significa troca de uma rentabilidade futura por outra com o acerto da diferença a pagar ou a receber no vencimento do contrato. É uma cobertura de risco cambial. Neste tipo de operação de câmbio ocorre simultaneamente a compra e a venda de moedas.

Desigualdade: o poder obscuro dos supermercados, por Inês Castilho.

– on 25/06/2018Categorias: Brasil, Desigualdades, Destaques, Mundo, Políticas

Estudo da Oxfam revela: eles formam um oligopólio global que abocanha grande parte do valor da venda de alimentos e deixa aos agricultores salários de fome
Por Inês Castilho
Depois da campanha Por Trás das Marcas, de 2013, em que a Oxfam (uma confederação de 20 organizações que lutam contra a desigualdade em mais de 90 países) analisou a forma como operam as dez maiores empresas de alimentos e bebidas, ela agora analisa o elo seguinte da cadeia: os supermercados.
O objetivo é conscientizar consumidores e investidores sobre o que se esconde por trás dos alimentos que ingerimos cotidianamente, num sistema comercial que oferece produtos baratos e de qualidade aos países do Norte – União Europeia e Estados Unidos – e elites no Sul, com lucros enormes para as empresas que os vendem, enquanto os pequenos produtores e trabalhadores rurais, homens e mulheres que os produzem e beneficiam, passam fome nos países em desenvolvimento.
“A gente não está falando de um problema novo, mas ele está piorando, pela tendência de consolidação dos supermercados – que concentram poder e fragilizam a cadeia produtiva”, observa Gustavo Ferroni, assessor de políticas da Oxfam Brasil. “Os supermercados ficam com a maior fatia do preço pago pelos consumidores, enquanto os trabalhadores e pequenos agricultores recebem menos de 13% do total”.
A campanha da Oxfam tem como base uma nova pesquisa: Hora de Mudar – Desigualdade e sofrimento humano nas cadeias de fornecedores dos supermercados, conduzida pelo Bureau para a Avaliação de Impactos Sociais para Informação dos Cidadãos (Basic, na sigla em inglês). O estudo analisou a trajetória de 12 produtos comumente fornecidos às redes de supermercados do Norte global, a partir de países produtores nos continentes asiático, africano e latino-americano, em produção de pequena e grande escala. Em nenhum deles a renda média dos pequenos agricultores ou trabalhadores é suficiente para que tenham um padrão de vida decente.
Foram analisadas as cadeias produtivas do café (Colômbia), chá (Índia), cacau (Costa do Marfim), suco de laranja (Brasil), banana (Equador), uva (África do Sul), vagem (Quênia), tomate (Marrocos), abacate (Peru), arroz (Tailândia), camarão (Indonésia, Tailândia e Vietnã) e atum (Indonésia, Tailândia e Vietnã).
Do trabalho forçado em navios de pesca no Sudeste Asiático, aos salários miseráveis nas plantações de chá indianas e a fome enfrentada por trabalhadores das fazendas de uva na África do Sul, é flagrante o desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas nas cadeias de fornecimento alimentar. Para produtos como o chá indiano e o feijão verde do Quênia, a renda média dos pequenos agricultores ou trabalhadores foi inferior a 50% do valor necessário a um padrão de vida minimamente decente para eles e suas famílias.
As mulheres carregam o fardo maior: o estudo revela que o sistema alimentar moderno é construído principalmente sobre a exploração do seu trabalho. Estereótipos de gênero profundamente arraigados fazem com que seja maior o impacto entre as mulheres, tanto em pequenas propriedades de agricultura familiar como entre trabalhadoras. Elas não têm direito de possuir terras, têm menos filiação sindical, assumem a maioria dos trabalhos de cuidado não remunerado, recebem ainda menos que os homens, têm barrada sua participação em posições de poder – e ainda são vítimas de assédio e violência sexual.
NO BRASIL
A concentração do setor de supermercados é grande por aqui: juntos, Pão de Açucar e Walmart detêm 46% do mercado. O país é responsável por um dos casos mais gritantes de diferença entre o ganho dos supermercados e o dos trabalhadores. Um em cada quatro copos de laranja consumidos nos países do Norte global vêm do Brasil, e o preço do produto aumentou mais de 50% nos supermercados norte-americanos e europeus desde a década de 1990. No entanto, o valor pago a pequenos produtores e trabalhadores rurais no Brasil chega a apenas 4% do valor de venda final, enquanto os supermercador ficam com 35%. Cerca de 40% dos homens e mulheres que trabalham na colheita da laranja no Brasil vivem abaixo da linha da pobreza.
“Esse é o caso da laranja, mas vale para alimentos como melão, melancia, uva, aves e frango, carne bovina. Boa parte das cadeias de alimentos passa pelo Brasil, considerado uma potência agrícola, então a situação dos produtores e trabalhadores rurais está relacionada aos atores daqui, mas também do Norte”, diz Gustavo.
O valor pago pela colheita de laranja caiu 70% nos últimos 20 anos (1996-2016), reduzindo ainda mais a remuneração aos pequenos agricultores. A consequência disso é que os pequenos produtores abandonam o campo e vão para as periferias das cidades. Ou então permanecem no campo trabalhando para as grandes fazendas, que têm condições de atender às exigências dos supermercados em relação a preço e qualidade.
“Três empresas dominam o mercado da laranja brasileira por meio de práticas injustas, e elas receberam a maior multa já aplicada por cartel pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica)”, explica Gustavo. “Mas há supermercados que são cúmplices delas. As processadoras de suco têm papel importante, mas mesmo com todo esse poder o maior valor ainda fica com eles.”
CAMPANHA
A partir dos resultados do estudo, a Oxfam está lançando uma campanha com diversos tipos de ações, durante os próximos três anos.
“É uma campanha multifacetada, on line e off line, em que a gente mobiliza cidadãos preocupados no Norte e no Sul, e trabalha com organizações de produtores e consumidores ampliando sua voz nessa demanda. Entramos em contato direto com os supermercados, fazendo pressão, e sempre que preciso atuamos também junto ao governo pela regulação do setor”, explica Gustavo.
Ele afirma que as ações no Brasil começam já no segundo semestre – mas não pode antecipar quais são. Os parceiros da Oxfam Brasil nesse projeto são a Repórter Brasil, a Contag e o Dieese.
CAPITAL E TRABALHO
Não por coincidência, o aumento do poder dos supermercados corresponde ao poder cada vez menor de pequenos agricultores e trabalhadores. Uma razão é a liberalização do comércio adotada por governos de muitos países, com a desregulamentação dos mercados agrícolas e da mão de obra – o que resulta na fragilização do poder de negociação de pequenos agricultores e trabalhadores.
Pesquisa com quase 1500 empresas em cadeias de fornecimento globais mostrou que menos de um quarto delas tem a presença de sindicatos, que a negociação coletiva está em declínio, que reduziram-se orçamentos governamentais para serviços de extensão, pesquisa e desenvolvimento voltados a pequenos agricultores. Mesmo onde a legislação garante salários mínimos, eles estão quase sempre muito abaixo do que é reivindicado pelos sindicatos e insuficientes para o sustento de um trabalhador e sua família (o chamado “salário digno”).
A Oxfam acredita que é possível reverter esse cenário. “Sabemos que o caminho não é fácil de percorrer, mas este relatório mostra que todos nós – governos, empresas e cidadãos – podemos fazer muito mais no sentido de tornar essa visão uma realidade para quem produz os nossos alimentos”, afirma o relatório. Para isso, é preciso que:
> Os consumidores passem a considerar inaceitável a venda de alimentos produzidos com sofrimento humano.
> Os governos restabeleçam e garantam o cumprimento de proteção a pequenos agricultores e trabalhadores, e contenham o abuso de poder por parte de supermercados e seus fornecedores.
> Pequenos agricultores e trabalhadores sejam empoderados para negociar condições mais justas com seus compradores ou empregadores e, entre eles, a posição das mulheres se consolide na mesa de negociações, com seus direitos respeitados.
> Os supermercados e seus fornecedores alterem esse modelo de negócio para compartilhar mais poder e distribuir mais receitas às mulheres e aos homens que os abastecem.
PODER DOS SUPERMERCADOS
> Na União Europeia, apenas dez supermercados respondem por mais de metade de todas as vendas de alimentos no varejo.
> No Reino Unido, quatro supermercados controlam 67% do mercado de alimentos básicos
> Na Holanda, apenas cinco controlam aproximadamente 77% do mercado.
> A maior varejista de alimentos do mundo, a Walmart, cuja propriedade majoritária é da família mais rica dos Estados Unidos, gerou em 2016 receitas equivalentes à Renda Nacional Bruta da Noruega ou da Nigéria – mais dee 485 bilhões de dólares.
> Os oito maiores supermercados de capital aberto do mundo geraram quase 22 bilhões de dólares em lucros e cerca de 1 trilhão em vendas em 2016. Eles pagaram mais de 15 bilhões de dólares aos acionistas.
CARÊNCIA DOS TRABALHADORES
> Na Tailândia, mais de 90% dos trabalhadores entrevistados em unidades de beneficiamento de frutos do mar relataram ter ficado sem comida suficiente no mês anterior. Entre eles, 54% das trabalhadoras disseram que, em várias ocasiões durante aquele período, não houve comida de qualquer tipo em casa.
> Na África do Sul, mais de 90% das trabalhadoras entrevistadas em fazendas de uva disseram não ter tido alimento suficiente no mês anterior. Quase um terço disse que elas próprias ou um membro de suas famílias tinham ido dormir com fome pelo menos uma vez naquele período.
> Na África do Sul, mais de 90% das trabalhadoras entrevistadas em fazendas de uva disseram não ter tido alimento suficiente no mês anterior. Quase um terço disse que elas próprias ou um membro de suas famílias tinham ido dormir com fome pelo menos uma vez naquele período.
> Na Itália, 75% das mulheres entrevistadas em fazendas de frutas e legumes disseram que elas próprias ou algum membro de suas famílias reduziram o número de refeições no mês anterior porque sua família não conseguiu comprar comida suficiente.
> Em menos de 5 dias, o executivo mais bem pago de um supermercado do Reino Unido ganha o mesmo que uma mulher que colhe uvas em uma fazenda da África do Sul recebe durante toda a vida.
> Apenas 10% do dinheiro pago aos acionistas nos três maiores supermercados dos Estados Unidos – Walmart, Costco e Kroger – em 2016 seriam suficientes para pagar um salário digno a mais de 600.000 trabalhadores na indústria tailandesa de camarão.

PIB: assim se oculta o trabalho feminino, por Redação.

– on 24/06/2018Categorias: Alternativas, América Latina, Desigualdades, Destaques, Mundo
Por enxergar riqueza apenas onde há dinheiro, indicador econômico despreza boa parte das atividades humanas — e subestima em especial as mulheres. Em tempo: não é hora de remunerar a atividade doméstica?
Por Luke Messac | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Sebastião Salgado, Ashaninka (Acre), 2016
Lá se vão quase 80 anos desde que os economistas britânicos James Meade e Richard Stone criaram o método de cálculo da riqueza nacional que se tornaria o padrão global. Hoje, esse cálculo é chamado de Produto Interno Bruto (PIB).
Seu método pretendia oferecer um retrato amplo e atualizado de uma economia nacional inteira, estimando o valor monetário de toda a produção “econômica” ocorrida num dado país em determinado ano. Como a maioria das estatísticas econômicas da época, Meade e Stone preocuparam-se quase inteiramente em medir o valor de bens e serviços que foram comprados e vendidos de fato.
Mas logo surgiu um problema, graças à experiência e às observações de uma mulher de 23 anos chamada Phyllis Deane. Ela foi contratada por Meade e Stone, em 1941, para aplicar o método deles em algumas colônias britânicas. Nos territórios hoje pertencentes aos países Malawi e Zambia, Deane se deu conta de que era um erro excluir do PIB o trabalho doméstico não-remunerado.
Exponho, num relatório de pesquisa sobre a história do PIB que publiquei recentemente, como Deane acreditava que essa convenção excluía uma grande parte da atividade produtiva – especialmente na África rural. Ela argumentava que “não tinha lógica” excluir o valor econômico do ato coletar lenha para o fogo e preparar e cozinhar os alimentos. Alegava que esse tipo de trabalho havia sido historicamente excluído porque era em geral considerado como trabalho de mulher.
Para decidir quais atividades incluir em seus cálculos do PIB, Deane dispendeu meses conduzindo nas vilas pesquisas para medir, e incluir nas estimativas do PIB, atividades pesadas em particular, como a coleta de lenha. Ela concluiu que, se os governos quisessem formular políticas que aumentassem a renda nacional agregada e garantir a distribuição equitativa desse valor agregado, as contribuições de todos os produtores – incluindo as mulheres rurais – deveriam ser consideradas nos cálculos.
Nas sete décadas seguintes, os cálculos do PIB não incluiriam o trabalho não-remunerado (e principalmente feminino) em geral. Mas os esforços de Deane nos mostram que esse não era o único caminho para medir a produção econômica. À medida em que os cálculos do PIB começaram a receber cada vez mais críticas, devemos olhar para sua pesquisa como um caminho a seguir.
Invisibilidade do trabalho feminino
Richard Stone prestou pouca atenção às recomendações de Deane. Em 1953, ele supervisionou a publicação do primeiro Sistema de Contas Nacionais das Nações Unidas. Esse relatório oferecia padrões detalhados para o cálculo do PIB. O sistema ignorava o pedido de Deane para incluir o trabalho doméstico não-remunerado. E como os programas de assistência técnica da ONU procuravam assegurar que países de baixa e média renda seguissem os padrões do sistema, o método de Stone teve consequências globais. Atividades que eram centrais para a vida cotidiana nos países africanos de baixa renda – como buscar água, ralar milho e tecer tapetes – não foram incluídas nas contas nacionais.
Esta invisibilidade do trabalho feminino no cálculo da renda nacional acabou por provocar uma reação. Ao tentar fazer com o que o trabalho doméstico das mulheres fosse quantificado economicamente, ativistas acadêmicas tais como a filósofa de origem italiana Silvia Federici, que lecionou na Nigéria durante vários anos, argumentavam que a produção “econômica” masculina seria impossível sem o trabalho “não-econômico” feito pelas mulheres sem remuneração.
Por exemplo, sem uma esposa para cuidar das crianças e da casa, como poderia um trabalhador de fábrica ter tempo ou energia para cumprir seu papel de provedor, conforme manda o estereótipo?
Tempo, ao invés de dinheiro

Algumas economistas feministas tinham uma visão diferente. Em 1999, a economista nascida na Nova Zelândia Marilyn Waring elaborou suas preocupações a respeito da inclusão do trabalho não-remunerado nas contas nacionais. Ao invés de usar a atividade econômica para medir o valor do trabalho, Waring escolheu um novo indicador: o tempo.
Tempo, ela explicou, era “o único investimento que todos nós precisamos fazer”. Com base numa pesquisa conduzida na zona rural do Quênia, ela argumentou que as pesquisas com uso do tempo demonstrariam “qual sexo faz o trabalho invisível, servil, aborrecido, desvalorizado e não remunerado”.
Essas pesquisas mostrariam que intervenções pontuais, como o acesso a água limpa e fornos eficientes, poderiam aliviar a faina do trabalho doméstico e permitir que bilhões de mulheres ganhassem maior liberdade no emprego do tempo durante seus dias.
Em 2008, os autores do recém-atualizado Sistema de Contas Nacionais responderam às suas críticas feministas com um meio-termo. Concordaram em incluir a produção de todos os bens – fossem eles pagos ou não-pagos – nos cálculos do PIB, de modo que atividades como tecer tapetes ou fermentar a cerveja seriam consideradas.
Contudo, continuaram a excluir a maioria dos serviços domésticos não-remunerados, tais como cozinhar e limpar. E o sistema revisado ignorou os pedidos, tanto de Deane quanto de Waring, pela coleta de mais dados sobre a distribuição por gênero do uso do tempo. Isso fez com que novas críticas fossem dirigidas ao sistema.
Em décadas recentes, o trabalho de economistas feministas mostrou como os métodos de cálculo do PIB tornaram invisível a maior parte do trabalho das mulheres. Enquanto isso, pesquisas e estudos sobre o uso do tempo mostram o ônus que isso significou na vida das mulheres, particularmente no Sul Global. Um relatório recente revelou que centenas de milhões de mulheres em todo o mundo precisam andar mais de 30 minutos, na ida e na volta, em busca de água limpa para suas famílias.
Futuro do PIB

Um relatório de 2009, encomendado pelo então presidente francês Nicolas Sarkozy, afirmou que, porque o PIB é “tratado como uma medida de bem-estar”, ele “pode conduzir a indicadores errados sobre quão bem as pessoas estão, e induzir a decisões políticas erradas”.
Mais recentemente, o Banco Mundial ressaltou que o PIB mede apenas os fluxos de renda, mas não nos diz se a saúde, a educação e as riquezas naturais estão sendo preservadas ou saqueadas. A revista Economist pediu uma “nova métrica” de progresso econômico que incluísse “trabalho doméstico não-remunerado como cuidados com a família”.
Nenhum desses insights são novos. Mas eles sinalizam uma nova avaliação dos índices e políticas econômicas, que acadêmicas feministas há muito vêm defendendo. Por exemplo, a insistência de Silvia Federici de que o trabalho doméstico deveria ser pago foi concretizado, pelo menos em parte, nos programas de distribuição de renda na África.
Se de fato queremos tirar das sombras o trabalho das mulheres e reverter os papeis sexuais estereotipados que relegam a elas mais do que sua justa parcela de trabalho doméstico, precisamos primeiro tirar as vendas do sistema de cálculo do PIB.

Meninas entre grades, na América, por Célio Turino

– on 22/06/2018Categorias: América Latina, Arte e Literatura, Cultura, Desigualdades, Destaques, Infância, Mundo, Sociedade

Deportadas dos EUA sem que os pais soubessem, três irmãs salvadorenhas encontram-se presas numa Casa do Migrante na Guatemala. Essa história de horror é apenas uma entre milhares
Por Celio Turino | Imagem: Philemona Williamson 
As imagens das crianças filhas de imigrantes nos EUA, arrancadas de seus pais e enjauladas pelo governo, estão chocando o mundo. Mas as histórias que relato em meu livro mais recente, Cultura a unir os povos – a arte do encontro, são de uma perversidade civilizatória ainda pior. Em minhas viagens pela América Latina, deparei com várias histórias de horror. De todas as que contei, a que vi na Guatemala foi das que mais me tocou. Ela trata da expulsão de crianças apátridas, sem que os pais sequer possam saber para onde foram levadas. Isso acontece há anos, desde antes do governo Trump, e com milhares de crianças.
“Beatriz Sandoval e Ronald Carrillo formam um casal e, juntos, dirigem a Escola Frida Kahlo para ninõs y niñas pintores, na Cidade da Guatemala; conheceram-se na faculdade de Belas Artes e, ao se formarem, ela foi trabalhar como professora em um colégio tradicional e ele como cenógrafo no Teatro Nacional. Com o tempo perceberam que não era isso que desejavam para suas vidas e deixaram os empregos, passando a trabalhar com a capacidade curativa da arte.
“Para além da Escola de Artes, ‘começaram a meter o nariz nas Casas dos Migrantes’. Estas Casas foram formadas para receber centro-americanos, de nacionalidades diversas, deportados dos EUA. Por acordo com os Estados Unidos, a Guatemala recebe deportados em guarda provisória, mesmo que não tenham nascido no país, em um mecanismo jurídico bastante questionável, que deixa as pessoas em um limbo de nacionalidade. Em uma destas casas o casal encontra três irmãs, uma com nove, outra com oito e a menor, com seis anos de idade, nascidas nos EUA, mas filhas de salvadorenhos não documentados, que seguem sem nacionalidade alguma. As irmãs foram capturadas quando estavam sozinhas, perambulando na rua, entre travessuras e brincadeiras de crianças, como tantos bilhões de crianças já o fizeram e o fazem. Por estarem desacompanhadas, e os pais estarem legalmente impedidos de resgatá-las, foram deportadas, e há meses vivem em uma destas Casas de Migrantes. Uma casa acanhada, sem quintal ou espaço de brincar, em que até as janelas são trancadas por grades e as meninas, impedidas de sair. Beatriz e Ronald conseguiram dar aulas de pintura no local. E, um dia, o tema escolhido foi: ‘Nuvens’.
Mas que nuvens? Como vê-las?
“No dia triste o meu coração mais triste que o dia…
No dia triste, todos os dias…
No dia tão triste…”
(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, poema Nuvens)
“Para visualizar as nuvens, as cabecinhas tinham que atravessar as grades da janela. Aquelas irmãs buscavam mirar os céus, encontrando, ao menos, a imagem de uma pequena nuvem e suas formas variadas, para depois recriá-las em papel. Um pequeno exercício, tão simples e tão custoso àquelas meninas prisioneiras em lugar algum, pelo crime de nascerem em país algum. Como momento de humanidade, empatia e afeto, o olhar para as nuvens, o pintar as nuvens. Como únicos amigos daquelas meninas, o casal de artistas e as nuvens de algodão.
“Há uma força que move o casal. Mesmo em condições tão difíceis e torturantes, em que sequer conseguem permissão para levarem crianças a brincar em um quintal, ou deitar na grama em busca de inspiração, Beatriz e Ronald vão inventando suas formas de arte, suas temáticas. Lançam gritos desesperados, mas sempre levando junto o sorriso. Inventam temas. Um dia aula de pintura sobre melancias, cores, milhos, árvores. Há vezes em que convidam amigos especialistas a falarem sobre determinado tema, o milho, o maiz ancestral, daí falam sobre transgênicos; também contam com a ajuda de amigos psicólogos. Os sonhos deles são muitos. Gostariam de receber as crianças em seu Ponto de Cultura, com uma sede maior, quem sabe podendo contar com autorização para levarem as crianças das Casas de Migrantes. Também planejam pintar cada uma das Casas de Migrantes, por dentro e por fora, enche-las de cor e de vida. Sonhos delicados e possíveis, mas ainda assim, bloqueados.
“Beatriz também tem um sonho que a persegue desde há muito: quer oferecer algo mais às crianças maltratadas e violadas e quer que a pintura as ajude a encontrar ordem em vidas com tantas instabilidades e desordens. Deseja realizar este sonho oferecendo um Mariposário, um Borboletário, às meninas. Uma ideia simples e por isso genial. Cada menina receberia uma borboleta-monarca e uma planta cujas folhas pudessem servir de alimento para que o ovo, depois larva, se transformasse em pupa. Nesta terapia viva, as meninas acompanhariam a lagarta transformando-se em casulo e depois borboleta, em ciclo de regeneração, vida e beleza, tal qual deve ser a vida de todos os seres, tal qual deve ser a vida daquelas meninas-borboletas. Enquanto sonha, as três irmãs esticam os pescoços e olham para o céu entre as grades, buscando visualizar nuvens para que possam pintá-las. Entre as grades, sozinhas, as meninas estão lá, presas e deportadas em uma Casa do Migrante, em algum lugar da América Central. E o mundo não diz nada.”

Boaventura: em busca de Outros Iluminismos, por Boaventura de Sousa Santos.

– on 18/06/2018Categorias: Alternativas, Destaques, Mundo, Pós-Capitalismo

Manto funerário do Alto Peru, cultura Paracas (700 a.C a 200 d.C). Em 2014, dezenas de peças como esta foram devolvidas ao país pela Suécia, que as conservou ilegalmente por mais de cem anos
Apoiando-se na Razão e na Ciência, as Luzes europeias enfrentaram a servidão — mas também sacrificaram todas as demais formas de conhecimento. Em contrapartida, é preciso afirmar, a partir das lutas, as Epistemologias do Sul
Por Boaventura de Sousa Santos
A conhecida revista de arte norte-americana Artforum solicitou-me um curto texto sobre o tema “O que é o Iluminismo?” Este é o título do famoso texto de Immanuel Kant publicado em 1784, glosado desde então por muito autores, inclusivamente por Michel Foucault. A editora da revista queria especificamente que eu abordasse o tema a partir da minha proposta das epistemologias do sul (Epistemologies of the South: Justice against Epistemicide. Nova Iorque, Routledge, 2014; The End of the Cognitive Empire: The Coming of Age of the Epistemologies of the South. Durham, Duke University Press, 2018.). Eis a minha resposta.
Em 1966, um dos mais inovadores intelectuais ocidentais do século XX, Pier Paolo Pasolini, escreveu que somos muitas vezes prisioneiros de palavras doentes. Referia-se a palavras que parecem plenas de sentido, mas que, de fato, estão desprovidas dele ou, talvez mais precisamente, palavras que possuem conotações vagas e misteriosas, mas nos deixam muito inquietos, dada a sua aparência de estabilidade e coerência. Pasolini refere três palavras doentes—cinema, homem e diálogo—, insistindo no fato de existirem muitas mais. Penso que uma delas é Iluminismo. Foucault mostrou já que somos prisioneiros desta palavra. Contudo, na sua obsessão com a ideia de poder, não reconheceu que os prisioneiros nunca estão totalmente aprisionados e que a resistência nunca é apenas determinada pelas condições impostas pelo opressor. Afinal, as conquistas revolucionárias dos protagonistas do Iluminismo europeu mostram-nos precisamente isso. Devemos então começar a partir do ponto em que Foucault nos deixou. Poderemos nós curar essa palavra doente? Duvido que possamos. Contudo, se houver uma cura, ela ocorrerá, sem dúvida, contra a vontade do doente.
Se perguntarmos a um budista o que é o Iluminismo, poderemos obter uma resposta como a de Matthieu Ricard, um monge que vive no Nepal. Para Ricard, Iluminismo implica:
Um estado de conhecimento ou sabedoria perfeitos, aliado a uma infinita compaixão. Neste caso, o conhecimento não significa somente a acumulação de dados ou uma descrição do mundo dos fenómenos até aos mais ínfimos pormenores. O Iluminismo é uma compreensão tanto do modo relativo da existência (a forma como as coisas se nos apresentam) como do modo último da existência (a verdadeira natureza dessas mesmas aparências). Tal inclui as nossas mentes, bem como o mundo exterior. Esse conhecimento é o antídoto básico para a ignorância e o sofrimento.
Até que ponto é que o Iluminismo de Ricard é diferente do de Kant, Locke ou Diderot? Ambas as concepções implicam uma ruptura com o mundo tal como ele nos é dado. Ambas exigem uma luta contínua pela verdade e pelo conhecimento, sendo que o seu objetivo último equivale a uma revolução — uma revolução interior, no caso do Iluminismo budista, e uma revolução social e cultural, no caso do Iluminismo europeu. Será que existem continuidades entre essas rupturas, tão distantes em termos das suas gêneses e dos seus resultados? Devemos considerar como dado adquirido que nos conhecemos a nós ao conhecermos o mundo, conforme nos promete o Iluminismo europeu, ou devemos antes partir do pressuposto de que conhecemos o mundo uma vez que nos conheçamos a nós, conforme a promessa do Iluminismo budista? Qual dos dois pressupõe a tarefa mais impossível?
Qual dos dois acarreta mais riscos para os que não acreditam nas suas promessas? E, finalmente, porque é que questionar o Iluminismo europeu é ainda hoje, mais de dois séculos depois da sua formulação, tão mais relevante e controverso do que questionar o Iluminismo budista? Será apenas porque a maioria de nós é ontológica, cultural e socialmente eurocêntrica, e não budocêntrica?
A força do Iluminismo europeu baseia-se em duas demandas incondicionais: a busca do conhecimento científico, entendido como a única forma verdadeira de conhecimento e como fonte única de racionalidade; e o empenho no sentido de vencer a “escuridão”, ou seja, de banir tudo quanto é não-científico ou irracional. A incondicionalidade dessas demandas tem como premissa a incondicionalidade das causas que as orientam. E causas incondicionais levam logicamente a consequências incondicionalmente positivas. Aqui reside a fatal debilidade dessa força tão extrema, o seu calcanhar de Aquiles. Tomar como base uma concepção única de conhecimento e de racionalidade social exige que se sacrifique tudo aquilo que não lhe é conforme. A natureza sacrificial desta confiança reside em que a tolerância e a fraternidade decorrentes da celebração da liberdade e da autonomia contêm em si a fatal incapacidade de distinguir coerção e servidão de modos alternativos de ser livre ou autônomo. Ambos são concebidos como inimigos da liberdade e da autonomia e, logicamente, tratados com desapiedada intolerância e violência. É esse o impulso atávico que subjaz à construção iluminista da humanidade “universal” e o impele a sacrificar alguns humanos, banindo-os da categoria do humano, como o antigo bode expiatório abandonado no deserto. Isso explica a razão pela qual os direitos humanos podem ser violados em nome dos direitos humanos, a democracia pode ser destruída em nome da democracia e a morte pode ser celebrada em nome da vida. Aquilo que torna o Iluminismo europeu tão fatalmente relevante e tão necessitado de constante reavaliação é o fato de, ao contrário de outros projetos iluministas (como o budista), o poder de impor as suas ideias aos outros não se reger, ele próprio, por essas ideias e sim pelo desígnio de prevalecer, se necessário através de uma imposição violenta, sobre aqueles que não acreditam em tais ideias iluminadas ou se veem fatalmente afetados pelas consequências da implementação delas na vida económica, social, cultural e política.
A natureza sacrificial do Iluminismo europeu manifesta-se na forma como raciocina sem razoabilidade, na forma como apresenta as opções que rejeita ou os caminhos que não escolhe como prova da inexistência de outras vias, na forma como justifica resultados catastróficos como danos colaterais inevitáveis. Estas operações traçam uma linha abissal entre, por um lado, a luz forte das boas causas e das formas iluminadas de organização social e, por outro, a escuridão profunda das alternativas silenciadas e das consequências destruidoras. Historicamente, o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado são as forças principais que têm sustentado a fronteira abissal entre seres totalmente humanos, que merecem a vida plena, e criaturas sub-humanas descartáveis.
Essa linha abissal é uma linha epistêmica. Por isso, a justiça social exige justiça cognitiva e a justiça cognitiva exige que se reconheça que a querela entre a ciência, por um lado, e a filosofia e a teologia, por outro, é um conflito que se enquadra confortavelmente no âmbito da epistemologia iluminista. Aquilo que precisamos de entender é o fato de estes modos de conhecimento se oporem coletivamente a formas de pensamento e sabedorias alheias ao paradigma ocidental. O colonial propriamente dito poderia definir-se em termos dessa terra incógnita epistemológica. Como observou Locke de forma bem reveladora, “No princípio o mundo todo era a América”. Longe de representar a superação universal do “estado de natureza” pela sociedade civil, o que o Iluminismo fez foi criar o estado de natureza, consignando-lhe amplas extensões de humanidade e vastos conjuntos de conhecimentos. A cartografia, enquanto disciplina, inscreveu uma demarcação precisa entre a metrópole civilizada e as distantes terras selvagens (americanas, africanas, oceânicas). Esse mundo “natural”, na lógica geo-temporal lockiana, tornou-se também uma história “natural”. A contemporaneidade e a simultaneidade dos mundos do Outro colonial tornaram-se uma espécie de passado dentro do presente.
Para se chegar ao tipo de pensamento pós-abissal capaz de transcender completamente a oposição binária metropolitano/colonial, é necessário travar uma batalha que excede parâmetros epistêmicos. Apenas se pode confrontar o poder hegemônico através das lutas daqueles grupos sociais que têm sido sistematicamente lesados e privados da possibilidade e do direito de representar o mundo como seu. Os seus conhecimentos, nascidos em lutas anticapitalistas, anticoloniais e antipatriarcais, constituem aquilo a que chamo epistemologias do sul. Tais lutas não se regem por princípios anti-iluministas (a opção conservadora, de direita), mas criam condições para que seja possível uma conversação entre diferentes projetos de Iluminismo, uma ecologia de ideais iluministas.
Os conhecimentos nascidos nas lutas apontam para a razoabilidade (troca de razões) e não para racionalidade unilateralmente imposta, e partem das consequências em vez de partirem das causas. A noção de causa enquanto objeto privilegiado de conhecimento—a ideia de que a nossa tarefa consiste em ir cada vez mais fundo até se chegar, por fim, às fundações epistemológicas ou ontológicas, a causa sui ou causa sem causa—é ela própria um artefato da modernidade ocidental. Para os oprimidos, uma epistemologia a partir das consequências torna legível a experiência e possível a justiça. Só assim podem as ruínas converter-se em sementes.

Colômbia, cavalo de Tróia na América Latina? por Raúl Zibechi.

– on 18/06/2018Categorias: América Latina, Destaques, Geopolítica, Mundo, Povos Tradicionais
Estranho ingresso do país na OTAN ajuda Washington a desestabilizar Venezuela e controlar movimentos populares. Eleição, ontem, de Ivan Duque, presidente conservador, pode agravar tendência
Por Raúl Zibechi | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Yaser
É o único país da América Latina que assume o papel de “sócio global” da Aliança Atlântica, o que o torna um aliado privilegiado dos países do Norte junto ao Afeganistão, Austrália, Iraque, Japão, República da Coreia, Mongólia, Nova Zelândia e Paquistão.
Embora não seja membro pleno da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), já que não pertence à região do Atlântico Norte, a Colômbia desempenhará importante papel na cooperação militar e nas tarefas que lhes atribuem os países mais poderosos do mundo.
Do ponto de vista geográfico, a Colômbia ocupa um lugar privilegiado, já que é o único país sul-americano com a costa voltada ao oceano Pacífico e ao Caribe. Tem fronteiras porosas com a Venezuela, além de ter limites com Equador e Brasil.
Eis porque a Colômbia desempenha papel central na estratégia dos EUA para a região. Nicholas Spykman (1893-1943), o teórico geopolítico com maior influência sobre a política exterior dos Estados Unidos no século XX, considerava que os países caribenhos, incluindo a Colômbia e a Venezuela, formavam uma zona de influência onde “a supremacia dos Estados Unidos não pode ser questionada”.
Esta é uma razão pela qual os países mais ricos do mundo decidiram que a Colômbia deve ingressar tanto na OTAN como na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e fazê-lo simultaneamente, concedendo um cheque em branco à elite desse país, na qual parecem confiar plenamente.
A segunda razão é de caráter militar. Segundo o ranking da revista Military Power Review, as Forças Armadas da Colômbia deram um salto na região sul-americana, passando do quinto ao segundo lugar, atrás somente do Brasil, “ajudadas pela importante assistência militar dos Estados Unidos para o combate ao narcotráfico, com ênfase na inteligência, modernização e profissionalização de suas Forças Armadas”.
Paralelamente, o orçamento militar da Colômbia é, com grande diferença, o maior da região, segundo o “Balanço Militar da América do Sul 2017”, publicado por Nueva Mayoria. Bogotá dedica 3,4% do PIB anual à defesa, frente a 1,3% do Brasil e 1% da Argentina em 2016. Se o gasto militar é medido em percentual do orçamento, a Colômbia dedica nada menos que 15%, diante de 7% do Equador e 6% da Venezuela.
A esse enorme gasto soma-se a ajuda em equipamentos prestada pelos Estados Unidos. Mas o que as coloca como as primeiras Forças Armadas do continente é sua capacidade de operação em terra. A longa guerra contra as guerrilhas, particularmente as FARC, lhes proporcionou ampla experiência e capacidade de combate em ação direta, algo que não ocorre com as Forças Armadas dos demais países da região, que não enfrentam sérios combates há pelo menos três décadas (na guerra das Malvinas, em 1982, a Argentina sofreu estrondosa derrota da Grã Bretanha).
A terceira questão que explica a opção do Norte pela Colômbia relaciona-se a sua longa experiência com o controle dos movimentos populares. O país tem sido um laboratório de neutralização de protestos sociais, limitados por uma hábil combinação de repressão, infiltração e cooptação. De fato, a Colômbia é o único país sul-americano onde a velha oligarquia da terra e da cruz segue dominando desde a independência, há 200 anos.
Ao que parece, o papel atribuído ao país é o de exportar o modelo de utilização do narcotráfico para enfrentar os movimentos populares com o menor custo político e de legitimidade para as Forças Armadas. O general Oscar Naranjo, atual vice-presidente, foi chefe de Polícia da Colômbia e assessor de segurança do presidente mexicano Enrique Peña Nieto desde 2012 até seu retorno a Bogotá, em 2014.
Naranjo é considerado o “melhor policial do mundo” por haver desarticulado os cartéis de Cáli e de Medellin, e por haver dirigido em 1993 a operação que acabou com a vida de Pablo Escobar. Aliás, foi acusado na Colômbia de manter relações diretas com chefes do narcotráfico, com quem costumava manter relações fluidas, de acordo com a página da jornalista Carmen Aristegui.
O jornalista e pesquisador Carlos Fazio o apresenta da seguinte maneira: “Graduado em montagens midiáticas e outros truques sujos, Naranjo, homem da Agência Antidrogas estadunidense (DEA) e produto de exportação de Washington para o subcontinente, tem uma ordem de prisão por assassinato expedida por um tribunal de Sucumbíos, Equador, e foi incriminado por suas ligações com o ex-capo do cartel Norte do Vale, Wilber Varela, no julgamento que corre no tribunal do distrito Leste de Virgínia, Estados Unidos”.
Por isso Fazio o define como “um dos arquitetos da atual narcodemocracia colombiana”, caracterizada por uma fachada eleitoral, que denominam democracia, combinada com a guerra suja contra os movimentos populares.
A “colombianização” do México tem como resultado o assassinato de mais de 200 mil pessoas e o desaparecimento de 40 mil na chamada guerra contra o narcotráfico, que é na realidade uma agressão sem precedentes contra os setores populares organizados, as mulheres pobres e os povos originários.
Em síntese, à Colômbia foi entregue a chave para o controle geopolítico da região (com ênfase especial na Venezuela) e o disciplinamento da dissidência social. Em algum momento os estrategistas do Pentágono compreenderam que não deve repetir-se a história recente, quando a ação popular derrubou uma dezena de governos aliados de Washington nas décadas de 1990 e 2000, abrindo fissuras pelas quais chegaram ao governo forças políticas contrárias aos Estados Unidos.

terça-feira, 19 de junho de 2018

A CABEÇA DO TOURO (CONTO, PARTE II), POR ALEXANDRE MEIRA


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O menino João parecia um adulto andando pela estrada barrenta em frente a sua casa de mãos dadas com o adulto ao seu lado. Não tinha idade alguma pra perceber alguns comentários envenenados que eram feitos a seu respeito. Aos cinco anos só sabia correr dos primos ou gargalhar de suas travessuras. Ou então, em momentos como esse, andar ostentando um orgulho infantil enquanto esticava o pescoço para cima pra tentar olhar nos olhos do gigante ao seu lado.
- Cuidado aí... olha pra frente!
E logo o menino se posicionava para prosseguir sem largar a mão imensa que o guiava. “Me ajuda, pai!” dizia o garoto tentando ampliar o tamanho dos passos incompatíveis com o de seu par.
Junto a ele, João se sentia inatingível.
Às proximidades de uma espécie de feira João  desvencilhou-se e começou a correr por entre as barracas. Observado por um olhar altivo e protetor, sentiu segurança para andar à vontade. Ninguém falava com ele. Quando seu jeito infantil lhe permitia trocar algumas palavras com quem quer que fosse, o retorno frio do receptor, em geral, o impingia a calar ou seguir em silêncio. Desde muito novo, João aprendeu a conviver com o silêncio.
Destacando-se, seguindo mais a frente, sentou-se a beira de uma espécie de armarinho. Era de entrada estreita mas se esgueirava até o fundo com muitos produtos baratos, e que para o menino não tinham utilidade alguma. Ao fundo da loja chamava a atenção no alto e bem ao centro uma cabeça de touro empalhada, daquelas que só existiam em açougues. O menino franziu a testa quando viu. Virou-se e observou o movimento da rua. Começou a brincar com algumas mercadorias expostas ao seu derredor. Lembrou-se do pai, mas com um olhar atento, viu que ele se posicionava há algumas dezenas de metros, em igual atenção.
Notou atrás de si que era observado por um homem de dentro do estabelecimento. Continuou sentado, e viu que um possível comprador entrou na loja. O menino pôs a brincar com a piaçava das vassouras expostas, enredando os dedos por entre suas pontas espetadas. Aquelas vassouras imensas que sua vó se empenhava arduamente para mantê-las longe dele.
Quando de susto ouviu:
- Não mexe nessa porra não, ô crioulo!
João olhou para trás. Era o homem que o observava.
Levantou-se e parou a frente do local, moveu os braços pequenos para trás do corpo. O homem continuou:
- Daqui a pouco some alguma merda daqui e eu vou saber que é você! Solta essa porra!
O garoto ficou estático. Não teve reação. O homem então passou por baixo do pequeno balcão e foi em direção a ele. No meio do caminho gritou a plenos pulmões: “Macaco!”. João tremeu. O homem pegou uma ripa de madeira que estava disponível e acelerou em direção ao garoto. O menino levantou os braços pra se proteger e fechou os olhos. Logo ouviu uma voz falando:
- Que isso, cara! Tá maluco! É aquele neto da Yolanda!
O garoto aproveitou que um cliente de dentro da loja impediu o avanço do homem e desatou a correr para a praça onde estava a feirinha. Procurava aquele adulto protetor. Mas havia muita gente, muitas pessoas atrapalhando. Espalhou-se desorganizadamente por entre as barracas à procura. Mas onde ele estava? Onde ele estava quando mais se precisava?
Um braço forte o segurou.
- Que aconteceu, João?
Alívio. O menino agarrou suas pernas.
- Você está correndo de quem? O que aconteceu? - puxou rapidamente o corpo do menino e colocou a sua frente.
A voz dura o obrigara a dizer. Mas só conseguia olhar para a frente do armarinho. Abaixou a cabeça evasivamente e ouviu:
- O que aquele cara falou com você. Eu vi que estavam gritando com você. Quem foi? - disse o homem elevando a voz.
O menino não falava. Sentiu a mão grande erguer o seu queixo e forçar o olhar direto nos olhos. Chegava a doer.
O menino não conseguiu segurar a voz quando viu aquele rosto mestiço com um bigode bem aparado contornando a boca, e olhos levemente amendoados, incisivos, interrogando-o de forma contundente:
- Foi o moço da casa, ali... - disse a criança com os olhos baixos apontando para o local.
- Por que ele gritou com você?- elevou mais ainda o tom de voz.
- Não sei... - engoliu seco, João.
O homem ergueu o corpo. Olhou para a porta do armarinho. Num golpe rápido estalou o pescoço. Alguns olhares ficaram mais atentos quando ele puxou as mangas da camisa e ajeitou o cinto. Puderam ver o trazia na cintura. João ainda ouviu de alguém:
- Calma, Bento!
O homem parou. Mirou o pequeno e perguntou uma última vez:
- Ele te xingou, João? Não minta pra mim!
O menino hesitou, mas balançou a cabeça positivamente, e antes que pudesse falar, ouviu de volta:
- Então eu ouvi bem! - disse com os olhos brilhando.

Bento. Era o nome dele.
Era ele quem cuidava de João.
O homem foi em direção ao estabelecimento. João por receio o seguiu. Corria para alcançar seus passos.
Algo estranho começou a apertar seu coração. O menino estava com medo.
Parou num susto, quando viu Bento chegar ao armarinho retirando a arma da cintura e colocando-a sobre o balcão. O homem que gritou com João estava lá, e parecia ter ficado mais branco.
- Pra que isso Bento?! Por que essa arma... assim?! - tentava o homem envergonhadamente contemporizar.
Alguns observadores que seguiram os dois e se posicionaram atrás de Bento na expectativa talvez de acalmá-lo, com certeza pensaram em recuar quando ouviram sua voz seca dizer:
- Ué. É porque eu vou usar...
Começou a girar o tambor do revolver, conferindo a munição.
O menino João abraçou suas pernas. Bento continuou:
- Mas fica tranqüilo, pra te deixar mais calminho, eu vou tirar as balas e só vou deixar uma.
Bento retirou seis projéteis, deixando apenas um. Girou o tambor na frente do homem, fechou, e apontou a arma para a cabeça do comerciante. “Eu só preciso de uma...” disse olhando para ele.
O menino apertou a perna de Bento com mais força.
O homem buscava se conciliar dizendo:
- Por favor, fique calmo. Isso não vai acontecer de novo. Eu não conhecia ele. Não sabia que era seu filho. Por favor me desculpe, Bento... - o homem tremia muito enquanto falava pausadamente.
Bento contestou, mirando a testa:
- Você chama todo mundo que não conhece de macaco?
O homem respirou fundo. Olhou para João como se pedisse ajuda, e disse:
- Bento, calma, o garoto está do seu lado. Ele está bem. Me desculpe! Eu errei, por favor. Você está assustando seu filho!!
Alguns homens tocaram o ombro de Bento pedindo pra ele se acalmar. Mas nada parecia mudar o seu cenho desafiador. Ele continuou com a arma em riste e disse:
- Você assustou meu filho! Eu estou apenas ensinando a ele como deve agir quando são covardes com ele... - disse Bento engatilhando a arma.
O estalar do gatilho soou como um sino fúnebre. Os pedidos de calma se ampliaram e alguns gritos surgiam da multidão que já se juntava atrás do menino e do pai.
Alguns já deixavam o local com medo de um tiroteio. O homem quase se ajoelhou diante da arma antes de dizer: “Por favor, não faça uma besteira, desculpa, eu te imploro, Bento... eu tenho duas filhas...”
Bento soube ser cruel:
- Tomara que elas toquem melhor essa espelunca do que o pai...
O homem fechou os olhos com as mãos incontrolavelmente trêmulas e começou a andar pra trás. Bento não piscava, apesar dos clamores de todos. E o menino João não acreditava no que estava para ver. Seu coraçãozinho disparou de vez.
Bento estava convicto do que iria fazer.
Num golpe rápido alguém puxou o menino e tampou seus olhos. João gritou.
Um tiro.
Uma correria generalizada se instalou no local e o menino foi largado as trombadas no meio do armarinho. Deitado gritou: “Pai!!!!”. Identificou do chão Bento apoiado sobre a bancada com o revolver em riste, cujo cano soprava uma fumaça sinuosa. Era inacreditável a expressão impiedosa de Bento. O menino levantou-se e abraçando as pernas de seu protetor viu no fundo da loja o homem com as mãos no rosto, soluçando copiosamente. Procurou algum vestígio de sangue, não encontrou.  Olhou para ambos com um misto de pavor e incredulidade.
Bem acima do homem pálido reluzia a cabeça empalhada do touro.
Entre os olhos do animal destacava-se um buraco feito pelo tiro certeiro.