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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Brasil viveu um processo de amnésia nacional sobre a escravidão, por Lilia Schwarcz.



'O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de retardão', diz Schwarcz

  • 'O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de retardão', diz Schwarcz
Sancionada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, a lei que aboliu a escravidão após mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil "saiu muito curta, muito pequena, muito conservadora", descreve Lilia Moritz Schwarcz.
Em entrevista à BBC Brasil, a historiadora diz que as consequências dessa virada de página abrupta, sem políticas para incluir os ex-escravos à sociedade, são sofridas até hoje.
"O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural", considera Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros livros, de O Espetáculo das Raças, As Barbas do Imperador, Racismo no Brasil e Brasil: uma biografia.
Como parte dos eventos para marcar os 130 anos da abolição, Schwarcz lança nesta sexta-feira (11/05) o Dicionário da Escravidão e Liberdade - 50 textos críticos (Companhia das Letras), em coautoria com o historiador Flávio dos Santos Gomes. Schwarcz é também cocuradora da exposição Histórias Afro-Atlânticas, que será aberta no Masp e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, no fim de junho.
"Estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar", afirma.
Renato Parada/Divulgação
Lilia Moritz Schwarcz é professora do departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - Na sua visão, nesses 130 anos desde a abolição, no que o país avançou e no que está parado?
Lilia Schwarcz - Não há motivo algum para celebrar. O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de 'retardão'. Tardou demais. As estatísticas oscilam, mas indicam que o país teria recebido entre 38% a 44% da quantidade absoluta de africanos obrigados a deixar o continente. E teve escravos em todo o seu território, diferente dos EUA, por exemplo, que no Sul tinha um modelo semelhante ao nosso, mas no norte tinha outro modelo econômico.
Quando veio a Lei Áurea, em 1888, ela saiu muito curtinha, muito pequena, muito conservadora. "Não há mais escravos no Brasil, revogam-se as posições em contrário". Corria no plenário uma série de propostas, algumas ainda mais conservadoras, outras mais progressistas.
BBC Brasil - Como esses grupos mais conservadores reagiram à abolição?
Lilia Schwarcz - A queda imediata do Império (é resultado da reação desses grupos). A Lei Áurea foi a lei mais popular do Império e a última. Como não se previram indenizações, os grandes produtores de café, até então vinculados ao Império, se bandearam para as fileiras dos republicanos.
A abolição foi um processo de luta da sociedade brasileira. Não foi uma lei. Não foi um presente da princesa (Isabel), como romanticamente se diz. Muitos setores de classe média e de profissionais liberais aderiram à causa abolicionista, que vira suprapartidária na década de 1880. É importante destacar sobretudo a atuação dos escravizados, dos negros, dos libertos, que pressionaram muito o tempo todo, seja por insurreições, seja por rebeliões coletivas, rebeliões individuais, suicídios, envenenamentos.
O que o Estado fez foi retardar a Lei Áurea a um tal limite que ela acabou custando a própria vida do Império no Brasil. Um ano e meio após a abolição da escravidão, o Império acabou.
BBC Brasil - Qual foi o simbolismo da lei no momento em que foi assinada?
Lilia Schwarcz - A assinatura do documento foi um ritual caprichadíssimo. Para se ter uma ideia, foram criados tipos novos para a composição da Lei Áurea. O pai do (escritor) Lima Barreto, João Henriques, participou de um grupo de tipógrafos que estavam emocionados com a lei, e compuseram tipos novos para o documento, assinado pela princesa com uma caneta valiosíssima. Todo o ritual teve muito apelo popular. A famosa foto da época (de uma multidão reunida do lado de fora do Paço Imperial, no Centro do Rio, para a assinatura da lei), mostra que a população compareceu, e é possível reconhecer bandeiras de irmandades negras que foram comemorar a abolição.
O ritual tinha tudo para encantar, e encantou. Tanto que mais tarde vimos a população liberta conformar a Guarda Negra, que era contra a República e a favor do Império. Hoje, muita gente pode achar isso uma grande contradição. Não é. Na época, a compreensão era que o Império tinha garantido o final da escravidão, e ninguém sabia o que viria com a República. Havia muito medo de projetos de reescravização. Estava tudo muito instável, nebuloso.
Hoje, sabemos que o ritual era parte da estratégia de dom Pedro 2º, que não estava no país, para garantir o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel. A ideia era que a lei tornaria Isabel tão popular que impediria os projetos republicanos e garantiria a sucessão e manutenção do regime monárquico. O que não aconteceu. Mas o ritual foi realizado com grande pompa e circunstância, com o objetivo de fazer emocionar, e de fato emocionou.
BBC Brasil - Quais eram os principais vícios da lei?
Lilia Schwarcz - A lei simplesmente abolia. Dizia que a partir desta data não há mais escravos no Brasil. Ponto final.
A República, que viria um ano e meio depois, tentaria colocar uma pedra no tema da escravidão. Como se tivesse ficado morto no passado junto com o Império. Temos um hino da República, aquele que canta "liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". E há uma estrofe que diz: "Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país". Ou seja, um ano e meio depois, (os republicanos) afirmavam não acreditar mais (que tivesse havido escravidão). Era um processo de amnésia nacional.
BBC Brasil - Quais foram as consequências imediatas desta abolição sem salvaguardas?
Lilia Schwarcz - O (momento) pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão dessas populações (de ex-escravos). Eu me refiro a educação, saúde, habitação, todos os problemas estruturais.
Mas isso não quer dizer que a gente só deva culpar o passado. O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural.
BBC Brasil - As gerações pós-Holocausto viveram o choque com a barbaridade e os horrores da Alemanha nazista. Você acha que no Brasil pós-escravidão houve um senso de choque posterior, uma percepção de que o país perpetrou barbaridades?
Lilia Schwarcz - Aqui no Brasil, não. Você teve essa percepção em outros lugares. E existem alguns memoriais espalhados pelo mundo que falam do que foi a escravidão, como o memorial da abolição em Nantes, na França.
No Brasil, qual foi o suposto? Que a escravidão era a lei. Era legal. E durante muito tempo foi naturalizada. A ideia da naturalização é terrível. Sempre se mostrou uma escravidão muito benéfica. Basta vermos as imagens que passam a ideia de uma escravidão ordeira, tranquila. Como se isso fosse possível, em um sistema que pressupõe a posse de um homem por outro.
Só muito recentemente é que foi se colocando em pauta a dimensão da chacina, e o fato de a escravidão mercantil da era moderna ter produzido a maior diáspora vista no mundo depois de Roma.
Até o movimento negro contestar a data de 13 de maio, a data era uma data cívica. Era celebrada. Era despolitizada. Atualmente, estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar.
BBC Brasil - Ganha força um movimento de cobrança por essa dívida histórica?
Lilia Schwarcz - Eu penso que sim. O movimento internacional por cotas e políticas de ação afirmativa é uma tentativa de cobrar essa dívida histórica. Essa discussão começa no Brasil tarde, no fim dos anos 1970, e demora para pegar.
Os dados do censo vêm mostrando como o país é profundamente desigual. Quando comparamos marcadores sociais da diferença, como classe e raça, vemos que raça é sempre um agravante.
Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil. Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando. Eu acho que ações desse tipo (as cotas raciais) são importantes porque há momentos em que é preciso desigualar para depois igualar. Não se pode falar em uma meritocracia universal num país tão desigual como o Brasil.
BBC Brasil - A eleição da Marielle Franco no Rio foi um exemplo da força que movimentos em prol da igualdade racial e de gênero vêm ganhando. Como você compara a força desses movimentos hoje com o que acontecia na sua juventude?
Lilia Schwarcz - A minha geração viu o crescimento dos direitos civis, do direito à diferença na universalidade, e se orgulhou muito dessas novas conquistas. Acho que, no Brasil e no mundo, nós acreditamos que essas conquistas democráticas estavam de alguma maneira asseguradas.
O que estamos vendo agora é um momento claro de crise e recessão democrática, colocando em risco essas conquistas.
A morte da Marielle representa muito esse momento. Depois de 30 anos de conquistas democráticas, começamos a ver que direitos não são conquistados para sempre.
É absolutamente simbólico que sua morte tenha ocorrido bem no ano dos 130 anos da abolição. A Marielle usou das franjas do sistema. Ela se formou na Maré, entrou na PUC por política de cotas, fez valer o seu mérito, virou uma das vereadoras mais votadas no Rio por sua pauta de inclusão racial e de gênero. Sua morte ainda sem respostas é outro escândalo da nossa democracia.
BBC Brasil - No livro Brasil: Uma Biografia, você e a historiadora Heloisa Starling dizem que o país é uma obra ainda em aberto, e questionam se conseguiria consolidar a república e a democracia. Recentemente, a perspectiva ficou mais pessimista?
Lilia Schwarcz - Quando terminamos o livro, estávamos encantadas, Heloisa e eu, com as passeatas de 2013, com as manifestações, com a ideia de um Brasil mais plural, mais vigilante. Acho que todos ficamos. O que não notamos era que existiam dois grupos que desfilavam na avenida (nos protestos de 2013). Sabíamos, mas depois ficou mais claro. Um que queria esse Brasil diferente, mais plural, mais inclusivo, mais variado; e outro que também queria um Brasil diferente, mas que, de alguma maneira, estava colocando tudo na conta de Dilma Rousseff e de um partido. Um Brasil que queria não pluralidade, mas de fato eliminar o adversário.
Ideologias políticas à parte, acho que o impeachment da presidente Dilma abriu a tampa da democracia no Brasil e deu lugar para a política de ódios, de intolerância. A temperatura política acabou derretendo as nossas instituições. Quando escrevemos Brasil: Uma Biografia, Heloisa e eu dizíamos que a democracia estava forte porque as instituições estavam consolidadas, mas a república ia muito mal. Agora vemos que tanto a república como a democracia vão muito mal, com as instituições muito enfraquecidas e o descrédito da política e dos partidos. Vivemos um momento que pede muita vigilância.
BBC Brasil - Nessa atual conjuntura, como você vê o cenário para as eleições deste ano?
Lilia Schwarcz - Quem diz que sabe, mente. Não vejo nenhum sinal agora que permita comentar como vai ser a composição dos partidos, quem vai se apresentar de fato. Há muitos sinais para ficar em alerta. É preciso aguardar.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Por que acho que não haverá eleições, por Milly Lacombe.



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Vendo a performance de Guilherme Boulos no Roda Viva do dia 7 de maio uma ideia que me persegue há meses ganhou cores ainda mais fortes. A ideia é a de que não haverá eleições esse ano.
Nada além de minha especulação criativa sustenta o que escrevi acima, mas alguns pontos teimam em ficar reforçando a minha paranóia.
O primeiro deles é pensar que a direita, representada, financiada e alavancada pelo poder economico, não teria elaborado e cumprido o bem-sucedido golpe parlamentar para correr o risco de perder o poder logo depois.
O teatro da democracia, até aqui tricotado com o apoio da mídia e do judiciário, seria sustentado caso um dos candidatos da direita, estando Alckmin como o nome de consenso, aparecesse bem nas pesquisas de intenção de votos.
Mas Alckmin se mostra, outra vez, um nome sem nenhum apelo popular, e não há outro possível, nem mesmo Bolsonaro, que, a despeito de todo o despreparo político e humanitário, seria abraçado pela direita se fosse essa a única alternativa para se manter no poder.
As urnas, para a direita, não parecem ser boa opção. Isso, claro, há quase 20 anos.
E por que a direita já não mais alcança a população? Porque fica difícil convencer a população de que medidas como a perda de direitos trabalhistas é bastante boa para ela e que esse tipo de iniciativa está sendo tomada para o bem da Nação.
Como explicar ao caixa do supermercado que a jornada de 12 horas vai ser benéfica para ele? Como dizer ao trabalhador do campo que, para uma vida melhor, ele agora pode receber o salário em alimentos? Como contar que trabalhar mais e ganhar menos é uma ideia excelente?
E que os planos de saúde têm que ser maior do que o SUS? Como convencer de que privatizar os parques e cobrar entrada é, na real, muito bom para o trabalhador e sua família? Como dizer que o Brasil, afinal, não precisa de indústria de ponta e que mais vale vender tudo para a gringa?
Como desenhar que o congelamento de investimentos em educação por 20 anos é medida tomada em benefício dos mais pobres? Ou que o corte do fornecimento gratuito de leite para famílias de baixa renda é o que vai fazer com que aquelas pessoas, finalmente, desabrochem economicamente?
A cartilha de crenças da direita não tem mais adesão simplesmente porque ela é cruel, desumana e já não está minimamente conectada à realidade. O afastamento das coisas reais é tão brutal que passa a ser razoável dizer coisas como “os prédios estão sofrendo com as invasões”, ou “as ruas estão castigadas com os sem-teto”. É a mais completa inversão de valores, tudo em nome do lucro de poucos e da miséria de muitos.
Como, então, construir uma plataforma com essas bases e buscar apoio popular para ganhar no voto?
Em etapas.
Para tentar se manter no poder sob uma finíssima camada de democracia os mesmos interesses que deram o golpe tiveram que inviabilizar o candidato que seria capaz de unir as esquerdas e de ganhar a eleição com ampla maioria popular. Criaram uma história que não se sustenta, que precisou driblar a constituição e criar leis às pressas, e que contou com o apoio do judiciário. Acharam que tirando Lula de cena o caminho estaria livre e que ficariam protegidos para seguir com teatro da democracia e ganhar no voto. Mas as pesquisas indicam o oposto.
E aí entra a retórica de Guilherme Boulos e toda a esquerda de hoje.
A diferença de preparação, de elegância e de conhecimento entre Boulos e a turma da direira – Alckmin, Dória, Bolsonaro – é tão escandalosamente palpável que não existe chance de um debate entre eles ter algum resultado que não seja uma goleada para Boulos. Vou incluir aqui Ciro Gomes e Manuela D’ávila, outros dois que, a despeito das diferenças, estão conectados com as necessidades da população.
No Roda-Viva do dia 7 de maio Boulos destruiu, com a maior elegância do mundo, a bancada, quase toda formada por gente de direita e que estava ali babando para encurralá-lo. Mas não há como fazer isso porque tudo o que a direita tem como argumentos é uma cartilha defasada, que não se baseia mais na realidade, que está distante das necessidades, dos sonhos da população e que encontra porta-vozes como Alexandre Frota, Janaina Paschoal e Luana Piovani.
Durante o Roda Viva os jornalistas da bancada jogavam à mesa, com perguntas longas, suas crenças macro-econômicas, cheias de uma linguagem feita para que pouca gente entenda, e Boulos respondia com a micro-economia que todos nós somos capazes de entender. Fazia muito tempo que a diferença entre as ideologias de esquerda e de direita não ficava tão escancaradamente nítida em um programa de TV. O que se viu Boulos fazendo no Roda Viva foi, para dizer o mínimo, um horror devastador para a direita.
A desigualdade chegou a um ponto sem volta, que fez nascer na população miserável um brutal interesse pela política. Até os motoristas de taxi de São Paulo, antes tão psdbistas, hoje já não se veem mais representados pelo poder que está aí.
Achar que essa gente esquecida não manja nada de política é a base do neo-liberalismo, cujo discurso é o de eleger homens escolarizados, bem-vestidos, ricos e que, por todas essas qualidades, estão mais preparados para dizer o que a população precisa. Uma turma que acredita estar de fato à frente de tudo e de todos, e por ser tão superior é capaz de guiar e de orientar.
Para se manter no poder essa turma contava com uma recuperação economica que obviamente não veio, ainda que os meios de comunicação tentem desesperadamente falar em crescimento de 1% e em diminuição de 0,01% no valor da compra de imóveis.
O colapso social da Nação já não sustenta mais esses homens de sapatos caros, dentes super-brancos e cabelos bem aparados. O máximo da transgressão para os Dorias da vida são as calças muito justas e as camisas sociais de gola ao contrário.
Não há mais retórica que eleve a direita à condição de favorita. Nem mesmo o apoio da mídia. Acontece que o golpe custou caro, há compromissos estabelecidos com gente graúda além-mar, e eu acho que o poder não vai ser entregue assim de bandeja para um Ciro da vida. Não acho que a turma do golpe vá permitir isso.
Como melariam as eleições eu não tenho a menor ideia, mas o medo sempre foi uma eficaz arma de dominação e a história está repleta de circunstâncias nas quais a população, apavorada e encurralada, ergue as mãos para cima e grita ao poder público: protejam-me a qualquer custo. E vamos lembrar que se trata de uma galera tem a seu lado aquela outra turma cheia de tanques, de fuzis e de patentes.
Seja como for, a verdade que fica a cada dia mais evidente é que nunca teve a ver com combate a corrupção; sempre teve a ver com recuperar o poder, e agora tem a ver com se manter no poder. Não me parece de verdade que vai ser pelas urnas.
Espero muito estar enganada, mas a performance devastadora de Boulos no Roda Viva de ontem segue aqui me dizendo que eu talvez esteja certa.

Niall Ferguson: baixa educação e ressentimento alimentam extremismo e guerra híbrida, por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Historiador escocês, professor de Harvard e nome que esteve na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”, Niall Ferguson afirmou: parcelas menos educadas da população tendem a aderir a discursos extremistas de direita como solução para crise. Em passagem em evento promovido pelo banco Itaú em São Paulo, Ferguson referiu-se como a baixa qualidade educacional cria a percepção de que “o mundo não funciona” e a fácil aceitação de que pessoas sozinhas com soluções extremistas resolveriam problemas como criminalidade e imigração. Apesar de ser um intelectual muito solicitado como palestrante em eventos corporativos, a fala de Ferguson revelou como a baixa qualidade educacional cria o ressentimento: a matéria-prima psíquica da qual se aproveitou a guerra híbrida brasileira. Mas agora, discursos extremistas de direita brasileiros estão prontos para oferecer novos bodes expiatórios para direcionar o ressentimento de jovens universitários que sentem que o “mundo não funciona”: a distância entre o diploma conquistado com esforço e a realidade profissional precarizada. Pauta sugerida pelo nosso leitor Paulo Manetta.  
  
Niall Ferguson não é apenas um historiador escocês, professor na Universidade de Harvard e palestrante bastante requisitado na Europa e Estados Unidos. E que passou esse mês aqui pelo Brasil no evento Macro Vision, promovido pelo banco Itaú em São Paulo. Ele também é um “think tank” (instituição ou personalidade especializada em influenciar a opinião pública e decisões políticas), que já esteve na lista das 100 pessoas mais influentes da revista americana Time.

Ferguson costuma vender o diagnóstico de que o mundo ocidental está em decadência: a democracia, o capitalismo, o respeito às leis e a sociedade civil estão em crise e que as políticas dos governos dos EUA e Europa só pioram a situação.

Como não poderia deixar de ser, por onde passa diz que a solução é aquilo que as atentas audiências formadas por CEOs e banqueiros já pensam: limitar o governo e desregulamentar o mercado. Em outras palavras, Niall Ferguson é aquele que atira primeiro a pedra na vidraça para depois tocar a campainha da casa para vender seguro – a estratégia da “vidraça quebrada”.

Mas às vezes devemos ficar atentos às falas desses intelectuais insiders que acenam soluções neoliberais para a banca. Muitas vezes apresentam dados cuja interpretação é “invertida”: apontam para tendências e fenômenos sociais muitas vezes verdadeiras, porém não como denúncia de uma realidade que precisa ser mudada. Mas como prospecção de matéria-prima para futuras ações de guerra híbrida.

Niall Ferguson

Baixa educação e populismo de direita


Em declaração ao jornal Valor Econômico, Ferguson apontou que as experiências recentes do Brexit e das eleições americanas de 2016 sugerem que a parcela menos educada da população tende ao populismo de direita como solução para as crises – clique aqui.

“O que vimos é que pessoas de mais baixa educação têm maior probabilidade de votar no populismo de direita. Isso se mostrou verdadeiro em eleições europeias recentes”. Para Ferguson, “pessoas com maior educação tendem ao centro, seja de esquerda ou direita, porque o mundo funciona para essa parcela da população, que por isso é favorável à manutenção do status quo”.

E completou: “As pessoas que não se beneficiam do status quo são atraídas por quem diz que pode mudar o sistema, que pode sozinha resolver o problema, seja de imigração ou criminalidade”.

Segundo Ferguson, sempre após as crises o populismo de direita tende a ter bom desempenho. E alerta os brasileiros: “imagino que o pesadelo de vocês seja, com a ausência de Lula, uma disputa entre Bolsonaro e o substituto de Lula”.


“O mundo não funciona”


Fica claro que o conceito de “baixa educação” não se refere a uma insuficiência de nível escolaridade formal, mas à precarização da qualidade. Por exemplo, conseguir um diploma de ensino superior em faculdades privadas de baixo nível ou em cursos EAD acessíveis ao nível de renda. Como o pesquisador escocês aborda no livro “The Great Degeneration: How Institutions Decay and Economies Die” – veja “US education and economy are on the skids, says britsh historian” In: Mercatornet, clique aqui.

Isso talvez explique o porquê de Bolsonaro ter melhor resultado entre os mais escolarizados (aqueles que completaram o ensino superior) segundo pesquisa Datafolha (clique aqui e aqui). Além da pesquisa apontar que 60% dos eleitores do parlamentar de direita serem jovens – entre 16 e 34 anos.

Nem tampouco essa “baixa educação” tem a ver exclusivamente com a desinformação que levariam jovens a serem seduzidos pelo canto da sereia dos discursos extremistas – repostas simples baseadas em soluções finais do tipo “subir a Rocinha dando tiros” como defendeu certa vez Jair Bolsonaro.

A chave de compreensão do diagnóstico de Niall Ferguson está na percepção dessas pessoas de que, para elas, “o mundo não funciona”, apesar da escolaridade superior conquistada a muito custo e motivada pela crença da justiça do sistema meritocrático.

A percepção de que “o mundo não funciona” deixa de ser uma questão eminentemente sociológica para entrarmos no campo explosivo psicossocial – campo embrionário do fascismo que sempre esteve vinculado com o ressentimento do indivíduo contra uma sociedade injusta que parece sempre burlar as regras do jogo.

Os anos de governos lulopetistas das políticas de inclusão de estudantes no ensino superior (crescimento de 65%,  e destes 75% em instituições privadas, setor que se tornou um parceiro do governo federal) criaram expectativas para a chamada “Classe C” de que estava entrando no jogo da meritocracia em condições de igualdade. Como reza a boa ideologia do mérito e do empreendedorismo.

Mas essa inclusão quantitativa não foi acompanhada pela qualificação das escolas de ensino superior. O que significa que a conquista do diploma universitário não significou necessariamente a conquista de empregos qualificados ou uma carreira bem remunerada com perspectivas de crescimento profissional.


Ressentimento e precarização


Pesquisadores como Giovanni Alves observaram que o modelo neodesenvolvimentista conduzido pelos governos do PT basearam a inclusão social através do mercado de consumo e da precarização do trabalho. Uma nova geração de trabalhadores cujas noções de cidadania e trabalho passaram muito mais pelas ambições por consumo do que pelos valores de classe social, direitos de trabalho e sindicalização – leia ALVEZ, Giovanni, “Neodesenvolvimentismo e precarização do trabalho no Brasil” – clique aqui.

E os diplomas conquistados em faculdades com educação também precarizada fechou essa conta que mais ampliou expectativas do que as satisfez. Jovens diplomados foram jogados em um mercado de trabalho que confundiu ícones de softwares, sistemas operacionais e aplicativos como um verdadeiro saber profissional. Quando na verdade não passavam de trabalho simplificado, rotinizado e fragmentado, pronto para ser controlado e monitorado por gestores.

E nesse gap entre o diploma e a realidade precarizada (carreira frustrante de baixa remuneração) está o mal estar psíquico do ressentimento – a humilhação e revolta de que “o mundo não funciona”, a percepção genérica de que “tudo que está aí” está errado.

Pronto! Temos a atmosfera psíquica perfeita que busca bodes expiatórios. Apenas aguardando uma tradução em uma bomba semiótica, em um slogan, em uma guerra híbrida.

Em postagens anteriores este Cinegnose vem apontando que a combinação explosiva de meritocracia com ressentimento motiva a atual guerra simbólica empreendida pelo complexo jurídico-policial-midiático cujo ápice foi a prisão de Lula e a sua tradução cinematográfica: o rebento de José Padilha, a série Netflix O Mecanismo – veja links abaixo.


Para o ressentido, o bode expiatório da corrupção é mais atraente do que as críticas dos  juros altos, das políticas econômicas antinacionalistas, do neoliberalismo ou do sucateamento proposital do patrimônio público para as privatizações serem aceitas como fato consumado – de novo, a “estratégia da vidraça quebrada”.

A vantagem é que a corrupção pode ser midiaticamente personalizada em políticos com rostos, partidos etc. – serem demonizados, caçados, presos em espetáculos de meganhagem policial ao vivo na TV, com armas e carros negros reluzentes. Alívio psíquico regressivo (sádico-masoquista) para o ressentimento.

Crítica ao juros alto ou perda da soberania nacional são abstratas demais para um ressentido.

Com a prisão de Lula (vendida a um preço simbólico muito baixo, sob a égide da “rendição”) como o epílogo ideológico da Lava Jato, restam os discursos extremistas de direita, como o de Jair Bolsonaro, herdarem o ressentimento de uma massa de jovens universitários. Frustrados porque o “mundo não funciona”.

De tudo isso, ficam duas questões que sempre atormentaram pesquisadores como esse humilde blogueiro: por que historicamente a frustração social sempre foi melhor traduzida politicamente como ressentimento pelos discursos extremistas de direita? Por que até aqui o ressentimento nunca foi revertido em frustração que motivasse uma crítica ao verdadeiro mecanismo, o sistema reprodutor da desigualdade?

O fato é que diagnósticos como os de Niall Ferguson não são usados para a transformação social. Mas para a prospecção de novas oportunidades no atual quadro de guerra híbrida em escala planetária. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sobre industrialização, inclusão e desenvolvimento nacional, por Felipe Maruf Quintas.

do Brasil Debate 
por Felipe Maruf Quintas
Quando inúmeros talentos, mentes e braços são condenados a uma existência abaixo da condição animal por fatores estruturais de exclusão, toda a coletividade é prejudicada e nenhum desenvolvimento é possível
É preciso superar a dicotomia falaciosa de “industrialização x inclusão”, comum no debate público sobre o tema do desenvolvimento. Nenhuma inclusão duradoura é possível sem industrialização sistemática e a nacionalização dos centros de acumulação.
Desde os mercantilistas, sabe-se que a indústria é a atividade produtiva de maior complexidade e retorno produtivo. Mesmo para Adam Smith, pai do liberalismo, logo no primeiro capítulo de seu A Riqueza das Nações[1], o que distinguia as nações mais opulentas das menos era a superioridade das primeiras na indústria manufatureira, mais complexa que a agricultura.
Mais adiante, na mesma frase em que se refere à “mão invisível”, o autor afirma que essa só seria possível se a indústria nacional fosse preferida à estrangeira. Não é difícil entender o porquê disso. A industrialização levada a cabo por empresas nacionais, acarretando um processo produtivo mais complexo e diversificado que o de outras atividades (como a agricultura), produz bens de maior valor, cria e aumenta os recursos materiais existentes em um país, ampliando as bases internas de acumulação e de decisão sobre a produção.
Gera, assim, efeito cascata positivo, multiplicando serviços nos mais diversos setores e ampliando as vagas de emprego, as chances de vida e as oportunidades para um número cada vez maior de pessoas. Não há como chegar ao mesmo resultado, ainda mais em um país com mais de 200 milhões de habitantes, continuando no caminho atualmente seguido pelo Brasil, de especialização em atividades de baixíssima complexidade e de nenhum retorno social, como agronegócio, especulação e “empreendedorismo” barato, que na prática constitui a precarização do trabalho no setor informal.
Mas a industrialização, sendo condição necessária para a melhoria das condições sociais, não é suficiente, vide a experiência desenvolvimentista da ditadura militar brasileira. É preciso que a política industrial seja atrelada à política social, de modo que ambas se retroalimentem, ainda mais em um país tão desigual e com tantos pobres e miseráveis como o Brasil.
Porque sem o Estado investindo pesado em habitação, saúde, educação para todos e intervindo nas relações de trabalho para assegurar que os salários e as condições de trabalho sejam minimamente decentes (só ele pode fazer essas coisas, porque não dão lucro imediato, que é sempre o objetivo da empresa privada), não só as desigualdades aumentarão e os benefícios materiais serão reduzidos a um minúsculo grupo de proprietários e técnicos, estrangulando a demanda e obstruindo a criação de um mercado interno dinâmico capaz de conferir maior autonomia ao país e suas empresas frente aos ciclos econômicos internacionais.
A formação de capital, as oportunidades de investimentos e o aproveitamento dos recursos humanos e físicos do país também serão menores, dado que a marginalização de amplos segmentos populacionais constitui um gigantesco desperdício de futuros e de possibilidades de desenvolvimento material, social e cultural.
Quando inúmeros talentos, mentes e braços, capazes de dar uma contribuição significativa ao enriquecimento da vida em comum, são condenados a uma existência abaixo da condição animal por fatores estruturais de exclusão, toda a coletividade é prejudicada e nenhum desenvolvimento é possível.
Outras reformas do lado da oferta, como investimentos em infraestrutura e o barateamento e a ampliação do crédito produtivo, por sua vez, são cruciais para articular o desenvolvimento produtivo ao social, uma vez que estimulam a geração de empregos e contribuem para reduzir os custos das mercadorias e ampliar sua produção, mantendo a inflação em níveis reduzidos sem prejuízo do pleno-emprego e do aumento do poder de compra e do bem-estar da maioria da população.
Mais uma vez, e em consonância com a experiência histórica de todos os países hoje desenvolvidos, cabe ao Estado um papel privilegiado no fornecimento e na manutenção da infraestrutura (energia, transportes, comunicações, por exemplo) e do crédito, destinando-os à produção e ao bem-estar de todos. Essa primazia estatal deve ocorrer em função de essas atividades serem, em curto prazo, demasiado onerosas para o setor privado, além de estarem vinculadas à segurança nacional do país, dado o seu caráter estratégico. O próprio Adam Smith, para citá-lo mais uma vez, reconhece a importância de o Estado responsabilizar-se pela construção e manutenção de estradas, portos, pontes, canais e comunicações, além da educação pública, e de direcionar o crédito para atividades produtivas em vez de especulativas[2].
A noção de desenvolvimento aqui elaborada parte de um pressuposto incomum na ortodoxia econômica, o de que a verdadeira riqueza de um país consiste não no montante de riqueza financeira expresso nos índices quantitativos e abstratos de crescimento do Produto Interno Bruto e da renda per capita, mas no conjunto dos recursos humanos (população, cultura, conhecimentos), físicos (natureza, meios de produção, infraestrutura, bens e serviços) e territoriais de uma nação. Tais índices não dizem necessariamente respeito ao modo de organização da produção e do trabalho reais, e podem ser expandidos inclusive de maneiras antissociais como o rentismo ou o consumo conspícuo de minorias privilegiadas[3].
O que se tem em vista é o aspecto qualitativo do modo como a nação, em sua totalidade, consegue aperfeiçoar seus meios produtivos por meio da industrialização e, ao mesmo tempo, incrementar a qualidade de vida dos seus cidadãos, realizando os ideais morais da liberdade, da igualdade e da fraternidade no processo de desenvolvimento.
Desloca-se, assim, o objeto da economia, da maximização de utilidades financeiras e abstratas em atividades especulativas voltadas apenas para o enriquecimento de oligarquias improdutivas, para a criação de novos valores de uso, a melhoria das condições materiais de existência da população e o engrandecimento da nação.
Essa compreensão de economia só pode ser alcançada tendo em conta a centralidade do aspecto político da organização material de qualquer sociedade, ou seja, do modo como a coletividade nacional é organizada e seus recursos são distribuídos. Como afirmou o filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, em seu livro A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos, “o fator político constitui o mais precioso recurso da nação teoricamente dependente” (p. 295), pois é a partir desse recurso, em especial na dimensão nacional da soberania, que é possível conduzir o desenvolvimento tal como aqui defendido, como uma política de reorganização produtiva e social de modo a viabilizar a inclusão e a ampliação da capacidade criadora do ser humano dentro do território no qual tal soberania pode ser exercida, no nosso caso, no Brasil.
Não é, entretanto, simples alcançar tudo isso, ainda mais em nosso país. As relações de dependência historicamente constituídas entre as oligarquias brasileiras e os comandos monetários, financeiros e militares do Atlântico Norte, em especial dos EUA, emperram a marcha do desenvolvimento pela subordinação dos recursos nacionais aos interesses forâneos. A passagem, em nosso país, do capitalismo comercial para o industrial e desse para o financeiro (em curso atualmente), não significou a superação definitiva dos vínculos coloniais, mas sua atualização e incorporação em novas bases institucionais, sendo a população brasileira sempre duplamente explorada, para atender aos interesses das oligarquias nacionais e das estrangeiras.
A modernização que ocorre nesse percurso é reflexa e conservadora do atraso, expressando relações sociopolíticas arcaicas por meio de formas miméticas de consumo e comportamento por parte de grupos privilegiados, em geral mais identificados existencialmente com os centros metropolitanos mundiais do que com a sua própria pátria. O padrão de desenvolvimento recorrente na história do Brasil serviu não como realização das potencialidades coletivas nacionais em bases igualitárias e autônomas, mas para a manutenção do subdesenvolvimento e dos privilégios estamentais e de classe de grupos oligárquicos cujo controle das instituições domésticas refletia sua dependência para com os comandos capitalistas estrangeiros[4].
O Estado, que em todos os países centrais constitui-se como líder e coordenador do desenvolvimento, frequentemente opera no Brasil como fiador em última instância do subdesenvolvimento e da dependência, mobilizando seus recursos de coação para impedir, pela prisão e/ou pelo golpismo, todos os líderes defensores de um desenvolvimento autônomo e popular por meio de um modelo alternativo de Estado, voltado para o atendimento das demandas nacional-populares, como José Bonifácio, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Lula e Dilma.
Para que a industrialização inclusiva e soberana, ou seja, o desenvolvimento nacional, seja possível no Brasil, é preciso que haja uma grande mobilização popular contra o subdesenvolvimento e as relações de dependência que condenam o Brasil a uma posição periférica no mundo e boa parte dos brasileiros a uma vida de privações e de exploração implacáveis. Sem a conquista da soberania nacional e a remodelação do Estado para que sirva como instrumento-chave do engrandecimento do país como um todo e não do seu apequenamento e subordinação, como ocorre hoje, qualquer tentativa de fazer do Brasil um país mais próspero e justo será abortada e condenada.
Notas
[1] SMITH, Adam. An Inquiry Into the Causes of the Wealth of Nations. Chicago: William Benton, 1952. As partes comentadas estão nas páginas 4 e 194.
[2] Ibid., p. 153-4; p. 315-57.
[3] Para uma discussão bastante interessante a respeito, cf. PINTO, Álvaro Vieira. A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
[4] Para uma discussão a esse respeito, cf. FERNANDES, Florestan. Problemas de Conceituação das Classes sociais na América Latina. In: ZENTENO, Raúl Benítez (coord.). As Classes Sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
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Felipe Maruf Quintas é mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Pobres de direita, o novo mercado eleitoral, por André Araujo


Por André Araújo
Olavo Egydio de Sousa Aranha Setubal e Walter Moreira Salles foram dois dos maiores banqueiros do Brasil moderno. Setubal era nobre pelos três lados, berço, cultura e dinheiro, da família do Barão de Sousa Aranha, descendente da Viscondessa de Campinas, do Visconde de Indaiatuba, do Marques de Três Rios, do Marques de Valença, do Barão de Limeira, do Senador Vergeurio, importante politico do Império. Olavo Setubal era filho do escritor Paulo Setubal, prestigiado intelectual brasileiro.
Walter Moreira Salles foi casado com duas das mulheres colocadas entre as Dez Mais Elegantes das listas famosas dos colunistas sociais do Brasil e de Paris, a francesa Helene Tourtois e a mineira Elisinha Gonçalves, sua segunda esposa e mãe dos cineastas Walter e João Moreira Salles. Mulher politizada que visitou a China de Mao Tse Tung em plena Revolução Cultural, coisa que poucos ocidentais fariam àquele tempo. Elisinha tinha um lado cultural que seria considerado hoje “de esquerda” embora se vestisse com Hubert de Givenchy, o maior nome da alta costura dos anos 50 e 60.
Walter Moreira Salles era um homem do mundo, cultivado, discreto, o oposto do novo rico. Embaixador do Brasil em Washington, o cargo diplomático número um do Brasil, não era um intelectual mas gostava das artes e de cultura, tinha um espectro politico eclético, tanto que foi Ministro da Fazenda de Jango, visto como Presidente de esquerda, algo impensável para um direitista fanático como os de hoje. Moreira Salles pensava sempre no Brasil e não tinha maior problema com ideologias, transitava bem nos EUA com Democratas e Republicanos, típico da refinada politica mineira que opera em qualquer latitude sem perder a fleugma e o o “fair play”.
Deixou belo legado cultural, a sua famosa casa na Gávea é hoje um Instituto de arte e bom gosto, e raridade em um banqueiro desse porte, dois filhos cineastas e não banqueiros.
Esse introito é para dar um pano de fundo da politica de hoje. Se os Setubal e os Moreira Salles partissem para a defesa ideológica do capitalismo brasileiro nada seria mais natural, estariam defendendo sua tradição e seu capital de bilhões de dólares cuja maior parte está no Brasil.
É da natureza das coisas que os bilionários defendam seu capital, as famosas “duzentas famílias de França”, os Wendel, os Schneider, os Renault, aceitaram os alemães nazistas em 1940 para proteger seu capital histórico atacado pelo Front Populaire, o PT da época.
Tudo estaria na lógica social e histórica. O que não se entende porque gente que não tem capital em risco, a classe média remediada, apenas para ficar em um segmento, com notórias dificuldades para educar bem suas crianças, pagar seu plano de saúde, arrumar emprego razoável para o filho que sai da faculdade, é difícil entender porque tantos cidadãos que estão do lado errado do muro da riqueza preferem candidatos que são a infantaria do capitalismo agressivo, do capitalismo financeiro rentista.
Por toda a lógica esses eleitores deveriam estar do lado progressista do muro e não do lado da direita defensora do “status quo”, o que inclui o domínio dos bancos sobre a economia brasileira, a aliança da mídia conservadora com as corporações dos salários acima do teto, toda uma gama de interesses que NÃO estão do lado do povo e sim de privilégios consolidados dos que não querem abrir mão.
A direita não está ao lado dos 180 milhões de brasileiros que estão fora da boa vida. O campo da direita trata primordialmente da proteção dos interesses dos 30 milhões de brasileiros razoavelmente bem de vida e não está nem aí para os que sofrem nas favelas, nos cortiços, no desemprego dos chefes de família e dos jovens, na marginalidade, na carência de moradias com um mínimo de dignidade. A DIREITA CUIDA DE SI e não do povo, é assim historicamente.
Como então pessoas remediadas votam nos seus algozes, naqueles que tiram proveito do “status quo” econômico ou dos bons e garantidos empregos das corporações, isentos de qualquer risco de recessão, desastre econômico, quebra de empresas, desmanche da indústria, paralisação de obras públicas e todos os riscos a que os remediados estão sujeitos?
O POBRE que vota na Direita é um dos grandes mistérios da atual politica brasileira

PT: construindo uma nova derrota?, por Aldo Fornazieri.




PT: construindo uma nova derrota?
por Aldo Fornazieri
O PT vem colhendo derrotas sucessivas desde o início de 2015. Erros de avaliação, imobilismo e falta de comando foram os principais móveis dessa desditosa caminhada. A rigor, os sinais de perda de combatividade e virtude já se verificavam nas eleições de 2014. Na reta final do embate entre Dilma e Aécio foi a mobilização de setores da sociedade civil, da intelectualidade e de petistas afastados e desgostosos que garantiu a vitória ante a ameaça do triunfo do tucano.
Nas andanças pelas sendas espinhosas das derrotas o mais duro revés foi ter sido o PT apeado do poder pelo golpe do impeachment. A segunda vicissitude duríssima, que se equivale à primeira, consiste em ver Lula preso, com forte tendência de ficar fora do pleito de 2018. No meio desses dois tormentos, o devastador resultado das eleições municipais de 2016, que reduziu praticamente pela metade o número de prefeituras comandadas pelo partido. Se o PT não havia respondido de forma satisfatória ao longo de todo o processo do golpe-impeachment, o mesmo aconteceu durante via crucis judicial de Lula. A direção pareceu acreditar mais nos juízes e nos embates advocatícios do que na mobilização social.  
Acomodado às sombras do poder nos anos de bonança, adoentado pelo burocratismo, comandado por direções fracas nas últimas gestões, o PT foi perdendo o vigor da luta e as virtudes do combate dos tempos de ascensão, ao mesmo tempo em que foi perdendo a capacidade de formulação e enfraquecendo sua competência para ler corretamente as conjunturas e de deduzir ações eficazes a partir dessas leituras.
O PT dos últimos tempos está longe de ser o PT dos comandos de Lula, de José Dirceu e de José Genoino. Naqueles tempos, o partido tinha unidade de comando, mesmo sendo uma agremiação de formação plural. Já em 2014 Lula fez várias admoestações sobre a necessidade de o PT mudar, se renovar, se revigorar. A rigor, com a atual direção, ocorre o mesmo que ocorria durante o movimento pela derrubada de Dilma: os dirigentes são generais sem exército e os militantes são um exército sem generais.
A partir de uma tática correta - a de manter a candidatura Lula - a direção do PT vem dando sinais, nas últimas semanas, de que está disposta a construir uma nova derrota. A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, vem se especializando em dar declarações politicamente inconvenientes. O seu maior feito nesta arte consistiu em emitir uma nota em defesa do mandato de Aécio Neves quando o STF o havia suspendido.
Agora, declarou que o nome de Ciro Gomes não passa no PT "nem com reza brava". Declaração desnecessária e inconveniente. Rendeu-lhe uma retribuição de Ciro dizendo que sente pena dela. Ademais, a declaração derruba pontes num momento em que é preciso agregar as forças progressistas para enfrentar a direita, o conservadorismo e o neofascismo. Mas parece que Gleisi e outros dirigentes do PT estão dispostos a empurrar forças para o lado do inimigo.
A partir da declaração de Gleisi as redes sociais foram tomadas por uma onda de sectarismo de setores petistas contra Ciro. Engraçado que estes setores se incomodam com Ciro e não se iraram com Michel Temer, repetido duas vezes como vice de Dilma. Agora, tomados pela síndrome da traição, adquirida com Temer e sua quadrilha, já antecipam uma suposta traição de Ciro. Não se pode negar a Ciro o direito de fazer o que Lula fez: tornar-se palatável às elites (Carta ao Povo Brasileiro) e encaminhar uma reforma da Previdência, entre outras coisas. Um eventual governo Ciro será conciliador como foram os governos petistas e como será um eventual novo governo do PT. Quem não concorda com este caminho precisa, por coerência, votar em Guilherme Boulos.
Gleisi e os setores sectários do PT deveriam aprender com Boulos e Manuela: mesmo criticados inúmeras vezes por petistas, colocaram-se na linha de frente na solidariedade a Lula e na defesa do direito de ele ser candidato. Boulos, inclusive, convenceu a maior parte do PSol, partido recorrentemente atacado por petistas, a defender Lula. A liderança política, além da coragem, precisa ter autocontrole, não deixar se dominar pelas emoções próprias descurados das consequências políticas que eles proporcionam. Dirigentes não podem jogar palavras ao vento sem pressupor que elas não geram consequências.
Parece que o PT não consegue se curar do vício da arrogância - mal adquirido quando o partido estava no poder. O PT quer a solidariedade de todos, mas se mostra pouco propenso a ser solidário com os outros; quer a compreensão de todos e se mostra pouco compreensivo com os erros e com os acertos dos outros. Sua arrogância o leva para o unilateralismo e para o isolamento. Pensa ser a encarnação de uma verdade superior e não aceita críticas. Vê-se portador de um destino manifesto e não consegue aceitar a ideia de que boa parte da crise que está aí se deve aos seus erros. Foge de sua responsabilidade.
Aqui é preciso registrar duas coisas: o PT tem um imenso capital político e social acumulado por mais de três décadas de lutas. Os dirigentes do partido e seus setores sectários não têm o direito de destruir esse capital, pois ele pertence ao povo. Da mesma forma em que foi erguido, pode ruir se não houver virtude e competência para comandá-lo. A virtude combativa e a boa fortuna podem estar se deslocando para outros pontos e encarnar-se em outros partidos e outros líderes. Sem as virtudes e a capacidade de comando de outrora, a direção do PT não consegue mais manter a fidelidade daqueles tempos. Em que pese toda a mobilização de vontades em torno de Lula, o fato é que a direção partidária suscita muitas desconfianças.
Da tática correta à estratégia da ilusão
Gleisi e outros dirigentes vêm declarando que Lula sairá da prisão para a presidência da República. De três uma: ou se acredita que o Judiciário libertará Lula, algo inverossímil até o momento; ou se acredita que o PT tem força de mobilização capaz de libertá-lo, coisa que não está sendo vista; ou se acredita que Lula é um novo Daniel, que será salvo na cova dos leões pelo Anjo do Senhor. Admitindo-se a hipótese de que Lula seja liberto nesta semana pelo STF, haverá pela frente a enorme encrenca da viabilização legal de sua candidatura.
Dizer que Lula sairá da cadeia para a presidência da República cria, na militância, a crença de uma vitória sagrada. Criaram-se crenças em torno do "não passarão", do "nenhum direito a menos" etc., e tudo  ruiu. A condução errada do partido vai gerando a despolitização de uma militância ressentida que vai assumindo a tese igualmente despolitizada do "Lula ou nada".
Assim, da tática correta da manutenção da candidatura Lula, dirigentes petistas parecem estar construindo a estratégia da ilusão. O que fazem com isso? Correm todos para o muro das lamentações e choram o infortúnio de Lula, fazem a exegese de seu sofrimento. Enquanto isso a política real continua correndo e o PT bloqueia a sua própria tática, se ausenta do debate eleitoral e programático e não oferece uma perspectiva de poder. A sua perspectiva está encarcerada em Curitiba, exilada no  silêncio e na dúvida.
É um direito de qualquer partido, que tenha condições para tal, querer exercer a hegemonia de um campo político determinado, dirigindo-o, agregando-o, ampliando-o e reforçando-o. Mas hegemonia implica concessões aos aliados, capacidade persuasiva de convencer esse campo pela justeza das propostas, da distribuição do poder e da capacidade e virtude de comando.
Hegemonia é diferente do hegemonismo. Este significa a tentativa de imposição pela força real ou pressuposta e/ou pela suposição de uma superioridade qualquer. Normalmente, o hegemonismo é exercido por forças políticas (e militares) que alcançaram o poder em seus patamares mais altos. Quando o hegemonismo se manifesta em um Império, Estado ou partido é um sinal de declínio e decadência. Tais forças não conseguem mais manter as lealdades pela evidência de sua força própria e pela justeza de suas propostas e de seu comando.
O mundo partidário brasileiro, ou o que resta dele, caminha para uma redefinição de campos e de linhas de força. À esquerda do PT, parte do que era hegemonizado por ele se desgarrou, como é o caso do PCdoB e, parte, busca constituir-se como uma força própria, que é o PSol. Outros parceiros do PT, o PSB e o PDT, também buscam caminhos próprios. Os principais aliados do PT em seus governos - o PMDB e partidos do centrão - foram para o golpe. Se Lula puder concorrer e vencer, o PT poderá ganhar tempo para se reconstituir, buscar um prumo, lembrando sempre que o poder torna arrogantes forças pouco  virtuosas, degradando-as. Se Lula não concorrer, o PT será submetido a poderosas forças centrífugas internas e externas e terá que enfrentar a sua própria verdade - algo que não fez até agora.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Itaú: controladores podem lucrar até R$ 9 bi em 2018.


Donos do banco receberão em dois anos R$ 26,6 bilhões; Bolsa Família pagou R$ 29 bi em 2017

Após distribuir R$ 17,6 bilhões (70,6%) do lucro recorde de R$ 24,87 bilhões em 2017, às famílias dos controladores do ItaúUnibanco, levando em conta o lucro de R$ 6,42 bilhões do primeiro trimestre, os donos do banco poderão receber até R$ 9 bilhões este ano. O Conselho de Administração aprovou em 2017 a distribuição mínima de 35% do lucro aos controladores. Mantido o ritmo de lucro nos próximos três trimestres, o ganho do banco em 2018 atingiria R$ 25,7 bilhões, permitindo distribuição mínima de R$ 9 bilhões. Em 2017, o Bolsa Família gastou R$ 29 bilhões com 13 milhões de famílias.
O lucro distribuído do ano passado às famílias Moreira Salles (os irmãos Pedro, Walter, João e Fernando) foi de R$ 9,1 bilhões. Às famílias Setúbal (Roberto Setúbal e Maria Alice Neca Setúbal) e Villela (Milu Villela) coube, respectivamente, R$ 1,72 bilhão e R$ 3,25 bilhões a cada membro do clã. O ganho referente a 2017 foi excepcional, com aumento de 75,6% sobre 2016. 2018, o pagamento de Juros sobre Capital Próprio (JCP) isentos de tributação, o payout (dividendos de 69% + JCP), incluindo os 11,2% de recompra de ações, chegou a 80,2%.

Os donos do Itaú poderão receber até R$ 9 bilhões este ano
Mesmo na recessão que atingiu o país em 2105, os ganhos dos Itaú têm tido crescimento exponencial desde a fusão com o Unibanco, em 2009, que o transformou no maior banco privado do país, desbancando o Bradesco, e disputando com o Banco do Brasil a liderança do sistema em ativos e em administração de recursos (ainda com o BB, graças à Previ, o fundo de pensão de seus funcionários).
Nos últimos cinco anos, o montante de dividendos distribuídos pelo ItaúUnibanco alcançou R$ 46,6 bilhões, benefi ciando sobretudo os acionistas controladores. O Itaú superou a Ambev como maior distribuidor de dividendos no país. Os altos lucros e os juros sobre capital próprio (JCP), distribuídos sem tributação, são alvo de propostas da Receita Federal, mas os bancos e grandes empresas reagem fortemente à investida, mobilizando bancadas no Congresso.
A fusão entre Itaú e Unibanco foi alvo de autuação da Secretaria da Receita Federal em 2012, com cobrança de R$ 11,847 bilhões em Imposto de Renda e R$ 6,867 bilhões em Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL). Atualizada, a multa iria a R$ 26 bilhões. Mas o banco conseguiu vencer no julgamento do recurso no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em abril de 2017. Livre do encargo (ainda objeto de recurso da Fazenda Nacional) o Conselho de Administração decidiu pela farta distribuição de dividendos acumulados.
Mas chama a atenção entre os analistas do mercado financeiro a decisão do Conselho de Administração. Uma das interpretações é de que com a queda da demanda de empréstimos pelas grandes empresas (muitas delas atoladas em dívidas e com baixo faturamento desde que foram atingidas pelas investigações da Lava-Jato), os bancos não precisam elevar o capital para alavancar empréstimos. De fato, a trajetória do ItaúUnibanco mostra concentração nas operações do “Banco do Varejo”, que cresceu 5,7% contra o primeiro trimestre de 2017, e registrou aumento de 14,7% no lucro líquido no período (graças aos ganhos em cartões de crédito, empréstimos imobiliários e tarifas sobre cartões e contas correntes) e uma redução de R$ 36 milhões no lucro líquido do “Banco de Atacado” no primeiro trimestre, com a diminuição de 8,3% na carteira das grandes empresas. Acredita-se no mercado que o Itaú vá aproveitar a liberação do compulsório em 1º de julho (R$ 25,7 bilhões no sistema) para renegociar créditos em atraso. Os demais devem fazer o mesmo, sem gerar empréstimos novos.
Até onde dura o casamento?
Analistas mais atilados enxergam em movimentos recentes das holdings familiares do Itaú  (que tem na Itaúsa o principal veículo de investimento) e do Unibanco (que tem a Cambuhy   como maior investidora fora do sistema financeiro) uma tendência à redução de capital no sistema financeiro cuja concentração levou à hipertrofia do sistema, com excesso de endividamento cruzado entre as empresas e os bancos.

Fonte: Itaú Unibanco
 A compra, em conjunto da Alpargatas (vendida pelo grupo J&F, dos irmãos Batista) foi o primeiro movimento. Os dois parceiros também mostraram apetite em assumir posições na BR, cujo capital a Petrobras pretende pulverizar. Por enquanto, os bancos são o melhor negócio no Brasil, com spreads abusivos. Mas os ganhos são tão exagerados, em meio à recessão e ao desemprego, que podem ser alvos de propostas de tributação mais pesada sobre os JCP e na própria atividade. Neste sentido, a escalada da distribuição seria uma saída estratégica, principalmente da parte dos irmãos Moreira Salles.